Conversando com a Teoria

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Post do Leitor

[Dando continuidade a nossa análise, hoje teremos um post especial e riquíssimo, de autoria de nosso colega Bruno Hendler, mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e bolsista CAPES, no qual ele abordará a teoria do sistema-mundo e seus autores. Aproveitem!] 

Sistema-mundo e as relações internacionais 

Sistema-mundo moderno de 1500-1775 (BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII: O tempo do mundo. São Paulo, Martins Fontes, 1996. p. 18-19)

A perspectiva teórica dos sistemas-mundo surge com a publicação do livro “The World-System Analysis” de Immanuel Wallerstein, como uma crítica à centralidade do Estado nas ciências sociais. Sua origem está ligada ao surgimento da economia política internacional nos anos 70 e aos questionamentos da época sobre os rumos do sistema internacional frente à crise hegemônica dos EUA durante a Guerra do Vietnã e o fim do padrão ouro-dólar. Assim, autores da teoria da estabilidade hegemônica como Gilpin e Kindleberger, da interdependência complexa como Nye e Keohane e o próprio sistema-mundo de Wallerstein apontavam respostas diferentes para perguntas parecidas. Vamos ficar com o último e ver mais a fundo as bases do sistema-mundo para entender suas respostas. 

Em primeiro lugar, o método de análise dos sistemas-mundo evita o uso de conceitos abstratos para depois buscar exemplos históricos que os comprovem ou refutem. Wallerstein utiliza o método da “comparação incorporada”, ou seja, seus conceitos são construídos à medida que avança na análise da história. Para ele, o sistema social que existe hoje surgiu no fim da Idade Média na Europa Ocidental e se expandiu pelo mundo todo como a soma de um sistema de unidades políticas competitivas e uma divisão internacional do trabalho que supera as fronteiras políticas e funciona sob a lógica do capitalismo. 

Teríamos dois tabuleiros no sistema-mundo moderno, que se afetam mutuamente: a esfera do capitalismo, onde os agentes empresariais buscam lucro e riqueza com aplicações econômicas; e a esfera do sistema interestatal, onde os Estados aplicam recursos de violência em busca de poder. É importante ressaltar que nas duas esferas há uma hierarquia que define o papel dos agentes e faz o sistema oscilar entre a ordem e a anarquia. 

No tabuleiro do capitalismo, também chamado de economia-mundo capitalista, existe uma polarização de riqueza, não apenas entre classes, mas principalmente entre regiões do sistema. Wallerstein se aproxima dos teóricos da dependência ao verificar uma hierarquia na divisão internacional do trabalho entre regiões ou Estados centrais (que se ocupam de tarefas que exigem maior qualificação, aplicação de tecnologia de ponta, agregação de valor a mercadorias e maior acumulação de riqueza) e regiões ou Estados periféricos (que apresentam baixa rentabilidade marginal e transferem para as regiões centrais grande parte do seu excedente de riqueza). Porém, Wallerstein vai mais longe e ainda identifica regiões ou Estados semi-periféricos, onde há uma proporção equilibrada entre atividades que acumulam e transferem valor. 

O tabuleiro do sistema interestatal também tem suas assimetrias, que dependem não apenas dos recursos de poder entre os Estados, mas da função que ocupam na economia-mundo capitalista. Assim, Giovanni Arrighi, outro expoente, percebe ciclos entre governança e caos de acordo com potências hegemônicas. A governança decorre da capacidade da hegemonia em garantir a ordem no tabuleiro político (por meio da hierarquia de poder) e a rigidez no tabuleiro capitalista para manter-se no centro; e o caos sistêmico substitui a governança no momento em que surgem Estados capazes de enfrentar militarmente o poder hegemônico e/ou concorrer e ultrapassá-lo na vanguarda do capitalismo. Em outras palavras, a ascensão e queda de potências. Assim ocorreu com o declínio da hegemonia holandesa frente à ascensão da Inglaterra e da França; e o declínio da hegemonia inglesa frente à ascensão da Alemanha e dos Estados Unidos.

Com isso, a grande interrogação que fica é sobre os rumos do sistema-mundo diante das sucessivas crises nas últimas décadas. Wallerstein sugere o “fim do mundo como o conhecemos”, uma verdadeira ruptura com o padrão histórico do sistema-mundo moderno; já Arrighi sugere uma fissão das capacidades sistêmicas: um novo ciclo econômico estaria surgindo na Ásia, puxado pela China, enquanto que a hierarquia no tabuleiro de poder continuaria a favor dos Estados Unidos por um bom tempo. Façam suas apostas!


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