Conversando com a Teoria

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Estamos chegando a um momento importante de nossa coluna. Nos últimos tempos, estivemos trabalhando com as vertentes mais debatidas nos anos 80 e 90, o chamado debate neo-neo, e com a adição do neomarxismo, completamos as principais vertentes do mainstream das Relações Internacionais nas últimas décadas. O estudo de caso de hoje é bastante importante nesse sentido, já que é um assunto que já foi tratado sob o enfoque das outras teorias. 

Relembrando, para os neoliberais, a crise atual do continente europeu seria mais um reflexo do seu processo de interdependência, enquanto para os neo-realistas reflete padrões de poder regional, com a prevalência de cálculos políticos sobre os econômicos e interesses internos sobre os institucionais. E o neomarxismo? 

A vertente que cai como uma luva para essa análise é o sistema-mundo. Vejam como se configura o quadro da crise europeia: tudo começa com a importação de uma crise externa (a dos bancos dos EUA), passando pelo desequilíbrio fiscal dos PIIGS, a esquizofrenia dos bancos nacionais e a perspectiva tenebrosa de um fim melancólico para o bloco mais exitoso da história. Todos esses elementos possuem uma explicação sob a ótica da polarização econômica, política e social proposta por esses autores que trabalhamos nas últimas semanas. A dinâmica entre Europa e Estados Unidos, que estremeceu as bases, mostra como mesmo entre as regiões centrais do sistema internacional podem existir atritos e pressões (ou “infecções”…) quando entra em jogo a economia. Isso era de se esperar, mas quando vemos a situação interna da Europa que a coisa fica feia: vemos ao vivo a formação (ou melhor, degradação…) de áreas de Estados semi-periféricos, como a Grécia (que no momento está inserida numa área central, mas apresenta características de periferia).

Aliás, o exemplo grego seria emblemático da perversidade desse sistema: má administração interna à parte, o sistema que havia na Europa dava a impressão de permitir uma melhora ou evolução do Estado grego em termos de poder e economia, mas quando a coisa apertou, esse “vôo da galinha” foi abortado e os vizinhos pouco podem (ou querem) fazer para que essa degradação em semi-periferia ocorra. Com isso, está havendo a geração de bolsões de desigualdade na Europa; não que não existissem, mas agora ainda mais acentuados (basta ver como Alemanha e França estão conseguindo prosperar), que transferem poder e recursos para o centro. Mais ainda, a tendência é que permaneça esse padrão de distribuição irregular. Isso redunda depois em problemas como crises de imigração e acirramento de ânimos, que põem em cheque a própria integração europeia. 

Essa é uma análise breve e que certamente não explora a riqueza de possibilidades ou a profundidade exigida para a questão, mas que mostra como o pensamento neo-marxista, em especial a teoria do sistema-mundo, tem sua valia para um caso contemporâneo. Até a próxima!


Categorias: Conversando com a Teoria, Economia, Europa


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