Construindo Istambul

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E no final de semana Istambul ferveu. Milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo do primeiro-ministro Erdogan, cada dia mais impopular dentro da Turquia. Até aí, nenhuma novidade dentro do que se viu no Oriente Médio nos últimos dois anos, ou no mundo. A onda de protestos tem crescido ultimamente. O que chocou foi a velocidade da insatisfação, a rapidez de uma revolta tão ampla e inesperada.  

Os protestos desencadeados em Istambul começaram maciços, brecando a indústria e gerando um apagão de um dia na imprensa da capital. Mais do que isso, tiveram uma motivação peculiar, até aqui inédita. O projeto urbanístico do primeiro-ministro Erdogan, contrário a história arquitetônica e política da cidade, foi o grande acendedor do pavio. Mas o que leva à insatisfação popular a sociedades atuais, como o caso turco? 

Crises econômicas, tensões entre governos, opressões de ditaduras ou conflitos religiosos. São muitas as prováveis causas que levam milhares de pessoas a se unirem em torno de uma luta que se estende as ruas. Durante grande parte do século XX amplas teorias sociológicas tem afirmado que as tensões sociais devem, pelo menos por hora, diminuir. Isso por que há nos modelos governamentais mecanismos diferentes da época em que se excluía grupos e se combatia suas insatisfações à força. 

Quem protesta evidentemente protesta contra algo. Está inserido em um grupo insatisfeito. O que se defende  é que os modelos de política atuais buscam inserir, ou pelo menos dar a impressão de inserção a toda a população. Assim, cada dia é dada menor margem a legitimidade e a força de revoltas. Vez por outra, como em momentos de crise econômica, grupos muito prejudicados pela situação social quebram com o estabelecido, se revoltando com a instabilidade do sistema. Na maioria do tempo são apenas a minoria dos mais cultos, ou mais revoltosos, que se arriscam a protestar. A inserção ocorreria quase que exclusivamente pelo direito de todos a comprarem, a estarem dentro do mercado e do consumo.

Mas onde Istambul entra em tudo isso? Normalmente todo esse sistema de pacificação social está vinculado a economia ou a inserção financeira das pessoas. Entretanto, ao que tudo indica, o Oriente Médio e o mundo islâmico como um todo tem uma forte barreira contra o domínio de mercado, ou uma sociedade ocidentalizada. A revolta na capital turca foi principalmente ocasionada pela tentativa de construção de prédios comerciais em áreas tradicionais da cidade, com identidades arquitetônicas e políticas. Para o povo, a destruição de pontos históricos foi inaceitável. 

Istambul é mais um episódio de forças tradicionais, com forte apelo popular, que são contrárias a uma “sociedade atual”. Não por acaso esperamos sempre uma população em ebulição, fortes conflitos entre forças governamentais e a população nesses países. A falta de democracia, as fortes diferenças internas entre os grupos que lutam pelo poder e, por fim, a impossibilidade do uso dos mecanismos de inserção, impedem que haja uma sociedade mais pacífica. Istambul sofreu com o último caso, diferente de outras revoltas vistas nessa mesma região.    

Os protestos na praça Taksim podem liberar uma boa discussão. Representam um momento de forte descontentamento com a política do povo turco, podendo ser um episódio inicial do fim da paciência com o seu governo. E mais importante, podem fazer parte de mais uma crise cíclica que ocorre em sociedades modernas, quase sempre pacíficas. Mais uma fase em que se quebra uma construção de uma sociedade de inserção, causada pela falta de paciência da população com o ataque aos seus direitos de compra, como ocorre na crise econômica europeia, ou aos seus domínios, como ocorre na destruição de pontos tradicionais para a construção de prédios comerciais, como em Istambul. Mais uma vez a paz, por um momento, se apagou.


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