Consequências transitórias?

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No Oriente Médio, enquanto a Síria lidera o ranking da contagem de corpos, o Iêmen está batendo um recorde nada invejável no dia de hoje, com um dos piores atentados desde que começaram os protestos no ano passado pelo região. Um homem-bomba explodiu em um ensaio para uma parada militar e até o momento já se confirmam mais de 60 mortes de uma só tacada, podendo aumentar esse número. 

O Iêmen é um caso bem interessante da região, por que foi um dos países em que houve repressão mais violenta, mas ao mesmo tempo a transição foi bastante pacífica. Foi o jeitinho que o ex-governante, Abdullha Saleh, deu para manter gente de confiança no poder, saindo por meio de um acordo mediado pelo Conselho de Cooperação do Golfo e deixando seu apadrinhado, Mansour Hadi. Ele assumiu em fevereiro e tenta se desvincular do governo anterior a todo custo (o que era de se esperar), mas persiste o rancor da população – as tropas que participariam do desfile eram da turma de simpatizantes de Saleh, o que já indica suspeitas do motivo. 

Porém, uma das jogadas de Hadi é se aproximar do Ocidente, e é aqui que entra o segundo fator dessa conta. O Iêmen é um país que tem muita atenção dos EUA. Isso por que o país foi por muito tempo um porto seguro para a Al Quaeda no Oriente Médio, onde aliciavam os locais e traziam gente de fora pra ser treinada, e de onde saíram muitos terroristas para a Europa e os EUA. Até que os EUA começaram a brincar de aeromodelismo e mandar drones para atacar bases da Al Quaeda (o que rendeu um burburinho ano passado). A presença da Al Quaeda era tolerada por Saleh, mas agora Hadi está mais inclinado a ficar do lado dos EUA, e esse atentado teria sido uma retaliação do grupo contra ataques do exército contra militantes islâmicos.  

Como se vê, a realidade por trás dos ataques não é tão simples quanto parece. Uma soma curiosa de fatores resultou nos ataques, indo além da chamada “primavera árabe”, mas não sendo explicado apenas pela presença dos EUA. Também mostra como o período após as tão desejadas transições pode não ser tão pacífico quanto o esperado, indicando como esse tipo de conjuntura pode afetar os demais países da região que estejam enfrentando instabilidade.


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