Conhecimento trocado?

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Pareceria fábula afirmar que houve uma época em que o trabalho, a produção e a vida humana era algo estritamente regional? Que um homem nascia e morria na mesma cidade, sem ao menos conhecer as terras vizinhas. Que se casava com a filha do amigo do pai e que todas as vezes que os sinos da igreja tocavam anunciando uma morte, se sabia que haveria sido de uma pessoa conhecida, mais próxima do que o necessário nos dias de hoje para chamar alguém de amigo.

Hoje é clichê retratar o mundo como dinâmico, interligado. Começando pela estrutura internacional das grandes empresas, surgiram muitas realidades que levam a cada dia uma circulação e interação maior de pessoas distantes em países longínquos. Mas não só o mundo do trabalho que se transformou. As universidades de excelência e as instituições de ensino, espaços para as futuras mentes importantes ao empresariado, não ficaram para trás ao se inserirem na formação de parcerias internacionais e da troca, que vão desde a multi-cooperação em pesquisas científicas a intercâmbio de alunos e profissionais.  

Foi na circulação acadêmica de pessoas que muitos países enxergaram políticas para potencializar seus profissionais, e começaram a estabelecer estratégias que buscassem novos talentos nas periferias. Logo, exemplos como os EUA ou a Inglaterra contavam com uma população toda de pesquisadores e executivos encontrados em outros países como Índia, China e até mesmo o Brasil.

A política de intercâmbio de mentes logo não seria exclusividades das potencias. A periferia também buscou tomar parte nisso.O Brasil, mais recentemente, em uma tentativa forte de se inserir de uma vez na cooperação entre as universidades, decidiu criar o “Ciência sem Fronteiras”, programa que distribui bolsas de estudos no exterior para alunos brasileiros. O slogan do programa é o de “dar oportunidade aos jovens, de uma bagagem que englobe experiência e formação internacional, para que possam contribuir com os desafios do país e o desenvolvimento da ciência”.    

Individualmente, o projeto é uma grande oportunidade a milhares de estudantes de aumentarem a qualidade e a riqueza de suas graduações. Mas enquanto política de trocas de estudantes entre Brasil e outros países, quão eficaz aos nossos interesses o programa se demonstra?

A essência do programa é o de que nossos alunos saíam, aprendam com empresas e universidades do exterior, e voltem aptos a reforçar o nosso mercado com profissionais “de peso”. Em uma outra ponta, os próprios países participantes dos acordos de interação também mandariam seus estudantes, para que pudessem trocar conhecimento e experiência com os alunos e professores dentro das nossas universidades.

Evidente que, como toda medida política, durante a sua colocação em prática o “Ciência sem Fronteiras” pode apresentar resultados positivos, bem próximos ao esperado durante sua formulação e outras boas surpresas, como também desvios desagradáveis. Conhecendo os objetivos do programa e reconhecendo que em muito ele pode satisfazer o prometido, vamos às dificuldades que estão sendo observadas durante seu processo.

O programa contempla o mérito, é quase uma exclusividade de bons alunos das nossas melhores universidades. Assim, muitos grupos de pesquisa tem demonstrado o descontentamento com a perda de alunos que aqui se encontravam na metade de bons projetos científicos, e saem prejudicando todo um trabalho. Seria paradoxal um programa que se intitula um “reforço para a ciência nacional” retirar do Brasil boas pesquisas e pesquisadores, enfraquecendo o que se produz aqui. A falta de qualidade do próprio ambiente acadêmico faz com que a grande maioria de estudantes prefira abandonar suas atividades no país em troca da oportunidade de intercâmbio.

Outro aspecto é a questão de formação de profissionais para o mercado de trabalho. Muitos alunos saídos do Brasil criam vínculos em outros países com empresas e instituições. A falta de competitividade brasileira abre espaço para a perda de muitos desses jovens no futuro. Em contrapartida, a falta de boas instituições brasileiras de nível, até mesmo baseado nos rankings internacionais de universidades, transforma o Brasil em país menos atraente aos estudantes de fora. Os países mais beneficiados com os nossos alunos são os que menos enviam os seus. Por fim, com toda essa desigualdade, é difícil acreditar que dentro da cooperação não exista uma concorrência e uma vantagem desses países em adquirirem novas mentes entre nossos jovens, enquanto nossos avanços com esse programa são ainda duvidosos. 

O “Ciência sem Fronteiras” parece um remédio com contra indicações, que visa curar em partes o histórico de falta de qualidade educacional, de inserção da ciência nacional na realidade internacional e da falta de competitividade do nosso país. Exclusivamente para o individuo, é uma oportunidade brilhante para muitos das nossas melhores mentes. Como política pública e reforçadora da ciência brasileira, funcionaria sem outras medidas?


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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