Como entender?

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É praticamente uma obrigação falar sobre a crise entre Israel e palestinos, mais uma entre muitas, que estourou na última semana. Segundo relatos, em quatro dias mais de 100 palestinos morreram em ataques militares à Faixa de Gaza. Porém, se é fácil encontrar culpados, creio ser bem difícil pensar na questão como um todo de modo racional.

“Como assim Álvaro? Israel está massacrando inocentes”. Sim, isso é inegável. A roupagem de “alvos colaterais” que é dada aos civis nesse caso, em que segundo os agressores vale tudo para acabar com a ameaça existencial (o Hamas), vai encontrar semelhanças históricas com eventos que vão do ataque norte-americano ao Afeganistão à Segunda Guerra Mundial. Mas existe muita paixão nas análises. Podemos chamar Israel de estado terrorista? Por um lado, se pensarmos no dano a alvos civis e no efeito psicológico, sim. Por outro, as vitimas são (até segunda ordem) “efeito colateral”, e por mais abominável que seja, não é terrorismo em si.Nesse caso, chamar de Estado terrorista é, pelo menos em termos práticos, um exagero contraproducente por que apenas inflama a discussão sem chegar a qualquer tipo de consenso.

E eis que chegamos ao pomo da discórdia – quem é o culpado? Afinal, para resolver um problema, a lógica ensina que devemos saber sua raiz, certo? Vejam só como se desenrolou a crise atual: jovens israelenses são sequestrados e encontrados mortos, possivelmente pela ação de militantes palestinos. Em retaliação óbvia um palestino é queimado vivo – e o próprio governo de Israel abomina o crime e prende os culpados. Mas isso não basta – protestos em Gaza levam Israel a agir “preventivamente” e começa o bombardeio, prontamente seguido pela usual retaliação em forma de foguetes vindos de todos os lados da fronteira, de Gaza ao Líbano.

A ação de indivíduos leva a consequências que batem na porta do Estado, que reage da maneira totalmente assimétrica em retaliação. Repare que, a rigor, os culpados não são os governos israelense ou o Hamas em si: uma fatalidade obscura acaba tendo consequências que desencadeiam uma reação sistêmica pior ainda que não tem outra explicação que não seja a completa falta de compreensão e perspectiva de negociação pelas partes, um barril de pólvora que tem o pavio aceso, explode e é preenchido de novo regularmente.

Não se trata de defender os ataques de Israel – isso é inaceitável. Mas é necessário compreender sua situação. Fechar os olhos ao “outro lado” é a principal causa desse conflito horrível. O Hamas simplesmente não ajuda em sua imagem quando pesa um histórico de atentados a populações civis (que, por mais nobre que seja a causa, nunca serão uma forma humanamente aceitável ou civilizada de reivindicação) e a aquisição de modelos mais modernos de mísseis contrabandeados, que supostamente poderiam alcançar centenas de quilômetros de distância. É comum ridicularizar o alcance destrutivo dessas ogivas artesanais, mas para um Estado que leve a segurança de sua população a sério, já é legitimação suficiente.

Israel não é santo, o Hamas tampouco. A solução pregada pela ala mais radical dos dois lados é inviável – Israel não vai deixar de existir, e os palestinos não podem ficar sem seu Estado.  Leituras desse conflito que enxerguem apenas o lado israelense, como uma vítima de terrorismo, e o dos palestinos como injustiçados, unilateralmente, vão ser de uma polarização nociva. Cada lado tem sua parcela de culpa, e não necessariamente iguais – Israel tende a pegar pesado com os assentamentos, possivelmente a questão central disso tudo e por isso na “liderança” das causas, e o efeito de ofensivas como a dessa semana em anos anteriores foi praticamente nulo em termos militares, mas não legitima ações violentas. Ignorar a necessidade de compreender o lado oposto, fruto da radicalização irracional do conflito, é possivelmente a principal causa de sua longevidade.


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