"Comer, comer…

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É o melhor para poder crescer.” Toda mãe deve ter dito isso para seu filho. O mundo também disse isso para seus países, só não esperava que uns comessem tanto a ponto de não deixar nada ou quase nada para os outros. Agora, a indigestão ataca os que comeram demais e a carência, aqueles que pouco comeram. Desnecessário dizer que quem não come, não cresce, e que quem come mal, cresce mal.

Alimentação. Um tema sensível, delicado e escondido atrás das envelhecidas cortinas do poder que adornam as relações internacionais. Soa até exagerado, mas os alimentos podem imprimir novas dinâmicas em um mundo acostumado a ver o que as armas, o dinheiro e o prestígio permitem enxergar. Lester Brown é quem dá o recado, em um artigo muito interessante, intitulado “A nova geopolítica dos alimentos”. Para Brown, os alimentos se tornaram o “condutor oculto da política mundial”, deixarão um rastro de crises e viveremos em tempos de escassez.

Não é difícil perceber o que está causando isso: a população está aumentando. Mais pessoas precisam comer, o que não significa que essa necessidade será atendida. Sem dúvidas, Malthus gostaria de se pronunciar no século XXI. O aumento populacional fatalmente provoca uma pressão sobre a produção. Os preços sobem e não querem mais descer: a Organização das Nações Unidas para Agriculta e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) acredita que eles se manterão elevados em 2012 e uma ONG britânica calcula que dobrarão até 2030. (Acompanhem os preços e a demanda.) Resultado: as pessoas empobrecem e passam fome. A estimativa é que, em 2010, havia 925 milhões de pessoas subnutridas, o que equivale a praticamente um sexto da população mundial – quase todas (88%) na Ásia e na África Subsaariana. (Vejam os relatórios da FAO de 2008 e 2010 sobre a insegurança alimentar.)

Além disso, a questão dos alimentos perpassa uma série de outras questões: escassez de água, biocombustíveis, revoltas e terras estrangeiras. As práticas excessivas de irrigação estão levando ao esgotamento dos lençóis freáticos. No caso dos biocombustíveis, o investimento em grãos acaba acompanhando o preço do petróleo, pois este conduz à procura por fontes alternativas, sobretudo, o álcool produzido pelo milho ou pela cana-de-açúcar. Alguns também associam as causas da ‘primavera árabe’ com a inflação, principalmente no Egito e na Síria, onde ela atingiu dois dígitos. Por fim, uma prática pode estar se tornando cada vez mais comum: o arrendamento de terras no estrangeiro, de maneira a cultivar produtos para suprir as necessidades dos países que as arrendam. Arábia Saudita, China e Coreia do Sul lideram esta modalidade; o destino é a África.

Os alimentos podem estar afetando as relações internacionais e pouca atenção é dada a isso. Não é exagerado dizer que os conflitos futuros, inter ou intra-estatais, podem ser travados por terras ou por comida. A China não vai resolver o seu problema populacional matando seus chinesinhos de fome e o Congo tem de lidar com 69% de sua população subnutrida (Confiram este mapa de subnutrição). Os egoísmos nacionais podem voltar com tudo, uma vez que os países podem preferir alimentar seus cidadãos à custa da subnutrição em outros países. Os egoísmos individuais devem se acirrar na medida em que se prefira investir no luxo de poucos – o combustível para o carro – em detrimento à vida de muitos. Isso são apenas alguns pontos de uma intensa discussão que poderia se estender para meio ambiente, direitos humanos, etc.

Conclui-se, finalmente, que a lógica é simples, come-se para viver, e não apenas por comer. Não é à toa que a gula é considerada um dos sete pecados capitais. Não é à toa que devemos verificar importantes mudanças no curso das relações internacionais em um curto espaço de tempo.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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