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Para manter a tradição das segundas-feiras, hoje falamos, novamente, de eleições. Na semana passada, o tema foi o pleito venezuelano, com um interessante post do leitor. Nesta, o Paraguai foi a bola da vez.  

Em certa medida, as eleições seguidas nesses dois países vieram a calhar para nossas análises, palpites e fofocas políticas sobre América do Sul. Afinal, antes do “golpe de cavalheiros” que, em menos de 24 horas, e com um mínimo direito de autodefesa, tirou Fernando Lugo do governo, a grande tensão mercosulina era entre os dois países. De um lado, o congresso paraguaio, último parlamento do Mercosul que restava para aprovar a proposta de entrada da Venezuela ao bloco, opunha-se veementemente. De outro, o falecido Hugo Chávez, com seu tom de discurso político sempre polêmico, também não plantava boas sementes e expectativas para os buscavam colher apenas estabilidade e tranquilidade. 

Ora, mas será que o pleito paraguaio, no contexto da morte de Chávez e da eleição de Maduro, poderia alterar esse cenário? 

Comecemos do começo. Do plano interno e das eleições. A vitória do empresário Horacio Cartes é bem representativa para o Paraguai. Primeiro, significa o retorno do Partido Colorado, que governou o país por seis décadas. Segundo, porque fecha o ciclo do capítulo de Fernando Lugo da história recente da presidência paraguaia, como aquele que deixou um legado social interessante, mas não o que a população esperava; e o que sofreu o “golpe de cavalheiros” de seu vice, Federico Franco e do congresso paraguaio. Cartes obteve um total de 45,8%, seguido do candidato, Efraín Alegre, do Partido Liberal, com um total de 36,9% dos votos, de Mario Ferreira, da Aliança Nacional, e de Aníbel Carrilo, da Frente Guaçu (partido de Lugo), com, respectivamente, 5,96% e 3,43%. Vale notar que, os “cavalheiros” do Partido Liberal e do congresso conseguiram boicotar a exposição midiática do candidato de Lugo que não foi convidado para os debates presidenciais. 

Assim, nesse cenário pós-golpe que Cartes reergueu a hegemonia do Partido Colorado. Uma espécie de mudança para uma velha continuidade…Tenta agora desvincular sua figura do governo do ditador Alfredo Stroessner (1958-1988) e das irregularidades que praticou durante o período. O perfil empresarial de Cartes também agrada os brasiguaios, em geral, donos de terras e agricultores que conseguiram ir para o Paraguai durante a ditadura no país. Esse pode ser um fator que ajude na estabilidade com esse grupo, algo Lugo não conseguiu no massacre tido como justificativa para seu impeachment. 

No plano externo, parece que há um potencial de mudança. Primeiro porque o Brasil já tomou a dianteira (que logo vai lhe render críticas de setores da imprensa paraguaia, como já ocorreu em editoriais do jornal ABC Color) e condicionou o retorno do Paraguai ao Mercosul à aceitação da Venezuela como membro pleno. Não se sabe se é juridicamente possível uma postura dessa, pois parece que o Brasil está querendo dizer que é o chefe do clubinho do mercosulino, mas o discurso diplomático é esse. 

Por outro lado, já com a legitimidade  do Uruguai e da Argentina, provinda dos observadores da Unasul, Parlasul e OEA, Cartes aproveitou para dar indicativos de que se diferenciará de Franco na atuação externa. A morte de Chávez e a eleição de Maduro podem ajudar o novo presidente paraguaio na pressão do congresso; pois, diferentemente do Brasil, no Paraguai, o Executivo tem muito menos força do que o Legislativo. Então, convencer e negociar com o parlamento em temas polêmicos é algo essencial pra quem quer governar. Ainda, como já mostrei em outro post, a adesão da Venezuela um parceiro comercial, um novo país com mais oportunidades, e não com um governo específico, algo que poderia, de certa forma, ser benéfico para o Paraguai. 

Bom, qualquer resposta que buscássemos dar agora seria provisória ou mero exercício de reflexão. Por isso, aproveito para convidar a todos a refletir sobre essas mudanças de governo na região, pois, apesar de termos possibilidades de mudanças, as continuidades ainda falam alto. E, assim, enquanto o Paraguai, mais uma vez, volta-se para o Colorado, o Mercosul aguarda, esperando que nada dê errado…


Categorias: Américas, Política e Política Externa


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