Ciclo "humanitari-ático"

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“Efeito CNN” é o nome dado a um fenômeno tipicamente moderno nas Relações Internacionais: com o avanço das telecomunicações nos últimos anos, considera-se que a exposição de um acontecimento na mídia tem o poder de provocar respostas massivas dos diversos atores – especialmente os Estados – a eventos globais. Esta exposição midiática faz com que (direta ou indiretamente), os atores se sintam pressionados a “mostrar serviço”, especialmente em relação a questões humanitárias.

No dia de hoje, George Clooney foi o principal responsável por trazer à tona a (complexa) questão sudanesa, ao ser preso após um protesto com demais ativistas em frente à embaixada do Sudão em Washington. Com os dizeres “Sudão: Pare com as armas de fome em massa”, os manifestantes chamaram a atenção para a atual crise humanitária envolvendo o Sudão do Sul.

O Sudão do Sul, país criado em julho do ano passado (tema já abordado no blog aqui e aqui), enfrenta uma situação delicada em termos de refugiados devido aos conflitos entre o Exército Sudanês e o Movimento para a Libertação do Povo do Sudão do Norte na região que faz fronteira com o Sudão – especialmente nos estados de Kordofão do Sul e Nilo Azul. O número de refugiados no Sudão do Sul chega a 100 mil e as condições mínimas para o oferecimento de auxílio humanitário não são evidentes…

Segundo a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), os desafios logísticos para chegar aos refugiados são imensos, principalmente agora com a proximidade da estação de chuvas na região. Garantir o acesso aos serviços básicos (água, alimentos, etc.) é a prioridade.

Diante deste contexto de crise generalizada na região, o esforço hollywoodiano de George Clooney visa atrair a atenção da mídia, o que não basta por si só, mas que constitui uma etapa importante em termos de mobilização de recursos e esforços diplomáticos para atividades humanitárias. O “Efeito CNN”, apesar de por vezes contestado no sentido de estar atrelado aos próprios interesses da indústria de comunicação em geral, costuma se provar “eficiente” em termos práticos.

A lógica é, basicamente, a seguinte: quando eu vejo, eu me comovo. Quando eu me comovo, eu me mobilizo pessoalmente e faço pressão para que os demais se mobilizem. Se há mobilização da opinião pública, há a tendência de articulação política e de financiamento para o desenvolvimento de projetos. Se há articulação para fins de resolução de conflitos e se os projetos são financiados e colocados em prática, há a esperança de mudança ou, pelo menos, de alívio temporário de uma situação de crise.

Desta forma se cria uma espécie de relação que liga – cada vez mais – as atividades humanitárias à influência midiática, em um complexo ciclo “humanitari-ático” em meio ao qual o caso do Sudão/Sudão do Sul se mostra apenas como mais um exemplo dentre os muitos vivenciados no contexto internacional recente…


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Mídia


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