Chamado às armas

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O Japão anda passando por maus bocados. A crise política que assola o país já é notória, com diversas trocas de primeiros-ministros nos últimos anos e um governo relativamente desacreditado. A economia, mesmo indo razoavelmente bem, acaba tendo problemas – sofre para manter o iene não muito valorizado a fim de não onerar o consumo interno, e ainda por cima teve de aturar ver sua grande rival, a China, tomar o seu posto de segunda maior economia do mundo. E o país volta a pegar em armas. Isso por que no dia 18 lançaram uma nova política de defesa com endereço certo – a China, mas tampouco deixa de ser um recado para a animada Coreia do Norte. Basicamente, é um plano que visa à modernização das forças, mas pode significar muito mais.

Essa nova política interfere no pacifismo nipônico? Bem, sabemos que a constituição japonesa do pós-Segunda Guerra limita pesadamente os investimentos militares no país, bem como o desenvolvimento de armamentos e afins. Por isso as forças armadas do Japão são relativamente atípicas (as Self-Defense Forces, SDF, as conhecidas “buchas de canhão” nos filmes de Godzilla), de caráter basicamente defensivo. A maioria dos armamentos e doutrina que possuem são de matriz norte-americana (aliás, boa parte da defesa do país recai sobre uma base norte-americana cravada em território japonês). O que isso trouxe para o Japão? Até hoje, coisas boas, diga-se de passagem – no fim das contas esse potencial defensivo nunca foi preciso, fora da ficção científica, e mais dinheiro ficou disponível para ser investido em coisas mundanas como educação de ponta e saúde pública.

Contudo, atualmente, as coisas andam complicadas no extremo oriente. As Coreias em pé de guerra (coisa que o Japão teme), China crescendo mais e mais (e que já se mostrou incomodada com essa nova política japonesa), e o pior de tudo, os EUA tendo sua posição de hegemonia (e, por conseguinte, de guarda-chuva defensivo para o Japão) no mínimo contestada. Por isso essa nova política de defesa mostra um interessante dilema. Para a própria garantia de sua segurança, o Japão precisa lidar pragmaticamente com a situação e encarar as possíveis ameaças sem tanto auxílio dos EUA (aliás, há um clamor popular para que a base norte-americana seja removida de lá). Um sinal desses “novos tempos” é visto quando se planeja fortalecer as defesas no sul (mais próximas da China), em detrimento das guarnições ao norte (resquícios do temor russo da Guerra Fria). Outro aspecto envolve a compra e desenvolvimento de armamentos modernos (dificultados nos termos atuais).

Tudo isso toca em uma ferida muito profunda da sociedade japonesa, a questão do militarismo. Não que o país vá se tornar expansionista novamente; mas esse não foi um impacto recente na história do Japão – ainda que o furor imperialista que culminou nas bombas atômicas tenha surgido na onda dos nacionalismos do século XIX, a sociedade japonesa era bastante militarizada desde o período feudal, e romper totalmente com isso após 1945 abriu um vácuo cultural. Brinquei com os filmes de Godzilla há pouco, mas é interessante reparar que em suas obras de ficção os japoneses sempre evoquem a supremacia militar para si – acabam desenvolvendo uma super-arma e muitas vezes salvam o mundo. Ou ao menos suas ilhas. Por outro lado, o trauma dos resultados do militarismo geraram essa vocação imposta, pacifista e exitosa, que agora vai entrar em choque com essa aparente necessidade de voltar às armas (e que parece ser um aspecto atávico do Japão).

A discussão foi breve, mas demonstra que essa nova posição do Japão quanto a defesa tem usas razões e ainda vai dar muito o que falar. Veja mais uma análise interessante aqui.


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