Cenas improváveis

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À primeira vista, pode parecer uma das brincadeiras do show “Os Barbixas – Improvável”, em que os participantes improvisam a partir de situações inusitadas. Poderiam os Estados Unidos fazer o mesmo? O participante exemplar do jogo democrático, criador de modelos e teorias, porão fim ao historicamente consolidado sistema bipartidário? Igualmente, é importante a pergunta: a América Latina consolidará as suas instituições democráticas plenamente? Há poucos dias, nosso colaborador internacional Luís Felipe noticiou os desdobramentos equatorianos, mais um de uma longa marcha pela estabilidade política no continente.

Hoje, no The New York Times, duas análises chamaram a atenção. Uma, do renomado economista Paul Krugman (aqui), enfatizou o apoio de milionários norte-americanos para os movimentos de ultradireita no país – do Partido Republicano aos ativistas do Tea Party -, sendo que, por exemplo, a Fox News agora também unge os candidatos republicanos. Para os apreciadores de Michael Moore e o seu Fahrenheit 11 de Setembro, certamente se lembrarão da importância da emissora na eleição de Bush filho. A outra, do destacado jornalista Milton Friedman (aqui), argumenta a favor da criação de um terceiro partido, que encerre o defasado duopólio e lide corretamente com os problemas do país. O interessante, no argumento do autor, é a relação entre a pior crise econômica da história dos Estados Unidos e a sua repercussão na arena política. Que animal fará companhia ao burro e ao elefante?

Neste ano, de acordo com os dados da ONU, o crescimento econômico previsto para a América Latina é de 3,9% – maior que a média mundial (3,0%) – e a pobreza extrema foi reduzida em 85%, quando comparado aos índices de 1990 (aqui). Paradoxalmente, tais indicadores não acompanharam a plena consolidação da democracia na região. Não bastasse Honduras, no ano passado, Equador e Venezuela enfrentam situações delicadas (já tratadas neste blog). A Colômbia aparentemente faz progressos no combate as Farcs e tende a recrudescer a política de segurança, conforme o anúncio do presidente Santo (aqui). Porém, ainda impera um déficit institucional latino-americano, passível de derrubar governos ou de perpetuá-los no poder.

O jogo está lançado. As situações já foram retiradas da caixa e é hora de improvisar. O investimento na ultradireita ou um terceiro partido poderia trazer soluções para os Estados Unidos? E na América Latina, quais os caminhos para a vigência definitiva da democracia? Criatividade e imaginação, convertidas em atuação, são qualidades imputáveis para jogar Cenas Improváveis.


Categorias: Américas, Economia, Política e Política Externa


4 comments
Mário Machado
Mário Machado

Antes de tudo eu adoro um bom debate desde que respeitoso é claro. E isso que encontro aqui. Bom eu creio que ficará mais claro quais efeitos terá o Movimento Tea Party quando pudermos analisar a performance dos eleitos ligados a esse movimento social. Quando eu falei de independentes cometi um erro crasso (que mereceria um: ai que burro da zero pra ele) que foi me esquecer do famoso prefeito de Nova Iorque, o magnata das comunicações Michael Bloomberg. Por sinal ontem eu vi uma entrevista dele no Letterman em que ele falava com muita serenidade sobre o Tea Party.O partido republicano sempre teve rachas entre o que analistas chamam de country club e grassroots. Mas, a maior vitória republicana depois da eleição de Obama foi justamente do Scott Brown no liberal estado de Massachussetts.Mas, creio que as coisas devem ficar mais claras quando as brumas da eleição passarem. Claro que há muita raiva na base do movimento com a economia indo como vai é compreensível e com movimentações radicais e polêmicas dos democratas como o escândalo da "Louisiana Purchase" e a gestão da Pelosi alimentam também essa movimentação dos setores conservadores.Abs,

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Oi, Mário. Não se preocupe em criticar, pode fazê-lo quando bem entender. No meio acadêmico, há muita vaidade quanto às críticas, por isso que, muitas vezes, o conhecimento científico avança tão lentamente no Brasil. Bom, mas voltemos ao seu comentário.No post, particularmente, eu procurei ser provocativo, trazendo dois artigos que me chamaram a atenção, que me permitiu um paralelo com a América Latina. Em relação ao Tea Party, concordo com o Álvaro, sem contar que esse movimento, até onde eu sei, tem adotado posições contrárias a administração Obama. E, de fato, você lembrou muito bem sobre o patrocínio da esquerda, algo que me passou despercebido.A respeito de um eventual terceiro partido, acho que seria viável para os EUA, mas, ao mesmo tempo, irrealizável, ainda mais em se tratando de uma sociedade aristocrática - opinião forte de minha parte. Para não me estender muito, fico por aqui. Seguimos debatendo, de qualquer maneira.Abraços

Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Mario, pode não haver coesão, mas que esse Tea Party serviu para alguma coisa, e foi para criar um racha nos republicanos e fortalecer o outro lado... daí a surgir um terceiro partido, parece realidade distante. Mesmo por que já há outros partidos nos EUA, mas são por demais nanicos.

Mário Machado
Mário Machado

Com a devida vênia, eu considero um pouco de exagero colocar o Tea party como extrema ou ultra-direita (mas, uma classificação bem estruturada pode é claro mudar meu ponto de vista). Tenho criado uma certa birra com o Krugman analista político mas, isso não vem ao caso. Tenho acompanhado com atenção o Tea Party Patriots desde que começou a ganhar corpo e não vejo em seus participantes e líderes coesão suficiente para agrupá-los. E temos que lembrar que a esquerda (pelo menos no mapa de lá) também é patrocinada pelos milionários como o George Soros que banca o Moveon.org grupo de pressão democrata (que dá trabalho para Obama, diga-se de passagem) que ficou famoso ao pagar um anuncio de página inteira no The New York Times chamando o general David Petreaus de traidor com um óbvio trocadilho com o seu sobrenome. A comparação com o Brasil é inevitável nossos milionários são muito sovinas!!! Onde está a fundação Ford do Brasil.. e os Rockfellers do Brasil.Não faço críticas ao texto apenas exprimo alguns pontos para fomentar o debate.Sei lá penso que o Burro e o Elefante ficarão ainda muito tempo como donos do zoológico. O peso das duas máquinas e as eleições distritais dificultam muito um novo ator relevante.Vcs que são mais conhecedores que eu. Há outro idependente importante além do Senador Liberman? Resgatando o Tea Party acho que o movimento não durará muito e o legado mais importante para os republicanos, democratas (e para o mundo por que não?) é a agenda da responsabilidade fiscal. Abs,Perdão pelo longo comentário cheio de circunlóquios.