Cegueira não tem fim

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Em todos os lugares, de tempos em tempos um tema qualquer polariza a discussão sobre os caminhos adotados pela política nacional. Grupos se concentram em lados opostos, à esquerda e à direita, liberais e social-democratas, conservadores ou progressistas. Apresentam caminhos diferente para a solução de problemas em comum. Desses embates surgem propostas e posições que irão definir o futuro das decisões políticas importantes. Na saúde, nos transportes, na educação, nos direitos das minorias etc.

Mas a polarização tem um efeito colateral. Dela, surgem grupos que mais parecem caricaturas. Logo, começam a colocar ideias por vezes esdrúxulas, em outros momentos perigosas. E assim formulam as mais absurdas respostas para a realidade e os problemas sociais. Qual a política de emprego? “Expulsar os imigrantes, metralhar os patrões.” Qual a solução para a violência? “Execuções em praça pública, condenações sem julgamentos”.  

Nos dias atuais, ao menos no processo decisório, as caricaturas quase nunca aparecem. Não aparecem por que já perderam o embate da discussão, não foram levadas suficientemente a sério pela maioria. E cada dia são menos levadas. As caricaturas sempre ficam em segundo plano, longe do centro debate. Exceto no Brasil. Aqui, há uma recente tendência que a caricatura apareça mais que o bom senso em grande parte das vezes. E com uma recorrência que deveria nos assustar.

Como eu poderia provar essa afirmação? Com o assunto do momento: a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, por meio de um programa federal de “cooperação internacional”, em que se abrem vagas para estrangeiros trabalharem no Sistema Único de Saúde. Uma decisão que tem gerado bastante polêmica. Vamos compreendê-la melhor.

Tudo começou quando Alexandre Padilha, então ministro da saúde sem grande destaque, foi alçado pelo ex-presidente Lula como uma dos nomes futuros de seu partido. Padilha supostamente sairia do ministério rumo à disputa para algum cargo executivo, de preferência o governo do Estado de São Paulo. Mas ele precisava de uma propaganda positiva. Mas como fazer a propaganda de um homem que gerencia a mais criticada área pela população? Aqui no Brasil é possível. Basta criar uma “marca”.

As marcas servem para cobrir gestões medíocres ou instáveis. A partir delas é que criou-se a ideia de um ministro que é “pai do Real” ou de uma suposta “mãe do PAC”. Se personaliza tudo. Quem se interessa por política interna sabe que aqui a propaganda política não morre órfã. Padilha, que não era pai de nada, resolveu ser pai do Programa Mais Médicos.

Foi um ano de negociações, sempre com muitos empecilhos e criticas, em que o ministro buscou transformar seu filho em realidade. Até que ocorreram as manifestações de junho. Na ânsia de dar resposta satisfatória ao povo, a presidente decidiu tomar um série de medidas de melhoria em várias áreas, inclusive na saúde.

Anunciou então 50 bilhões de reais em investimentos, mais de 12 mil novas vagas de graduação em medicina nas universidades públicas federais e a vinda de milhares de médicos estrangeiros. Notem, a medida da vinda de médicos estrangeiros foi anunciada como a principal delas. Óbvio, 12 mil vagas nas universidades e 50 bilhões em investimentos valem menos politicamente do que ser pai de algum projeto.  

A partir daí houve a polarização, tão comum nas democracias. Parte dos médicos acusavam a medida de populista. Outros defendiam investimentos além de novas contratações, ou a melhoria das condições de trabalho nas cidades pobres, para que surgissem vagas mais atraentes. Outros argumentavam que o aumento de formandos por si só solucionaria o problema da falta de médicos, não precisando de medidas emergenciais. O assunto seguia interessante. A vinda dos médicos estrangeiros era mais um bom debate no efervescente momento dos protestos. Aos poucos os médicos foram perdendo espaço. Pesquisas mostravam que o apoio ao plano do governo saíra de 7% de desvantagem para os contrários à medida, para 8% de vantagem.

Pouco a pouco, os contrários a vinda dos médicos foram mudando de argumentação. Foram criando uma polêmica atrás de outra. Primeiro, contestaram a competência dos postulantes às vagas. Depois do sistema Revalida. Até que surgiu o anuncio da vinda em massa de médicos cubanos.

O problema é que pega mal a palavra Cuba aqui no Brasil. Inclusive, essa é uma palavra que parece mal-assombrada no país. Toda vez que entra em cena temos a percepção do ressurgimento de muitos esqueletos há muito enterrados. Esqueletos ideológicos. Não demorou muito para pessoas começarem a criar um suposto plano de infiltração de terroristas de jaleco, disfarçados para impor uma certa revolução vermelha.

Em qualquer país tais suposições não freariam o plano,  nem ganhariam repercussão. Mas aqui as caricaturas, por vezes, pesam mais que o bom senso. Os jornais passaram a noticiar a vinda de médicos como um embate ideológico sobre o apoio ou não à ditadura cubana. Houve quem ousasse tecer um plano para o governo brasileiro “financiar” a ditadura cubana, sabe-se lá por qual motivo.

E daí surgiram anomalias cada vez maiores. Um diretor regional de medicina dizendo que chamaria a policia aos estrangeiros e, pasmem, não socorreria erros médicos dos mesmos. Em uma ordem, o médico rasga o juramento que fez ainda na universidade, e diante da posição que ocupa, não mede esforços em fazer política com vidas.

Mas o assalto dos absurdos continuou. “Médicos cubanos são mercadorias, estão despreparados”, “a medicina cubana esta superada”. Até que surgiu a noticia de que seriam “quase escravos”, trabalhariam por 30% do salário. O restante seria entregue ao governo cubano. Enfim uma discussão valida. Afinal, seria correto essa forma de remuneração? 


Voltamos a boa discussão por um momento. Até que os médicos cubanos chegaram, afirmando amores ao Brasil. Dizendo que trabalhariam até de graça, que concordavam com a forma de pagamento. Seria o fim da polêmica de que os cubanos seriam escravos prestes a fugir do domínio do regime. Como combater o apoio dos próprios cubanos a suas contratações?

O resultado é o da foto acima. Uma dúzia de médicos recepcionando estrangeiros da forma mais vergonhosa possível. Criando uma espécie de corredor polonês, vaiando, ofendendo, pedindo a saída deles do país. Se houvesse um retrato do preconceito em exposição em uma galeria de arte, seria o acima. O que levaram tais médicos a se comportarem dessa forma? Diria eu, que o resultado do triunfo da mediocridade sobre o bom senso.

A caricatura vence o bom senso no Brasil por muitas vezes. Quando li que os médicos cearenses ofendiam os cubanos os chamando de “escravos”, já sabia do que se tratava: uma velha ação muito comum no Brasil. Imaginem que a mulher apanha do marido. Dias depois ela volta a viver com ele e apanha novamente. A partir de então se criminaliza a vitima, e o marido está livre para futuras surras. Algo do tipo “Os cubanos são escravos. Mas apoiam o modelo do seu governo? Então merecem a senzala.” A senzala, o corredor polonês, a xenofobia de perto. O brasileiro leva muito a sério o raciocínio binário.

Após o fato ocorrido, uma jornalista ainda colocou em uma rede social uma comparação entre a aparência de médicas cubanas e das empregadas domésticas. Em uma só frase foi racista, preconceituosa e um bocado ignorante. No fim ainda se esquece que os cubanos vieram exatamente para atender gente humilde, que ela mesmo humilha. Em sua “defesa” aos mais pobres, ainda afirma: “coitado desse povo, ser tratado por essa gente!” Coitado mesmo, que depende da decisão e ação de uma suposta elite, que tão facilmente cai no limbo do pensamento medíocre. A caricatura perfeita do preconceito, da xenofobia, do corporativismo e da intolerância. 

Esse debate surpreende pelo baixo nível até a quem já está acostumado as discussões sobre política em nosso país. E isso é de impressionar! O limbo intelectual tomou conta do centro do debate. Já não é a primeira vez que isso ocorre, seria otimismo demais dizer que será a última. E para quem se interessa pela melhoria do país, resta se contentar com opiniões desse tipo pipocando por todos os lados. Poderíamos até mudar a letra daquela velha música, para mostrar o que as vezes sentimos nesses momentos: “Cegueira não tem fim. Paciência, sim!”


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