Afronta aos bons costumes internacionais

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A Coreia do Norte atacou de novo. Não, não houve nenhum ataque a um território concreto. Já basta a Guerra da Coreia que jamais teve um fim oficial decretado. O que houve foi outro claro atentado à moral e aos bons costumes das relações internacionais. Uma provocação à ordem estabelecida, à liderança dos Estados Unidos e, consequentemente, ao regime de não-proliferação nuclear. 

Ontem o país anunciou que fará outro teste nuclear em breve e defendeu que continuará com o lançamento de foguetes e mísseis de longo alcance. A declaração publicada pela agência estatal KCNA não veio do nada. Coincidência ou não, ocorreu dois dias após a resolução do Conselho de Segurança sobre novas sanções econômicas contra o país, no último dia 22. A resolução foi referente ao bafafá de 12 de dezembro do ano passado, quando a Coreia do Norte fez um teste de lançamento de foguete apontado pela Coreia do Sul e pelos Estados Unidos como um míssil balístico disfarçado, e não um meio de colocar satélites em órbita. 

E tão cedo quanto as declarações foram proferidas, seus efeitos já foram sentidos. Os Estados Unidos reagiram. Medo e disposição foram as palavras mais ouvidas. Medo das ogivas nucleares e de testes de mísseis balísticos bem sucedidos; pois, como já anunciou Kim-Jong-un, o Tio Sam seria o alvo principal. Disposição em agir com todas as medidas cabíveis. Nem mesmo uma invasão foi descartada. 

Isso nos faz pensar. Refletir que no mundo atual é muito difícil bater de frente com uma superpotência militar como os Estados Unidos, apoiada no sistema ONU. Por mais injusto que o regime de não-proliferação nuclear seja (pois o TNP garante que os países que já tem a bomba não precisem se livrar dela, enquanto que os que jamais tiveram não podem tê-la) aqueles que não aderiram a ele sofrem pressões constantes da ONU. Para conseguir afrontar essa superpotência, nem que seja com uns latidos um pouco mais altos, parece que se precisa de alguns pré-requisitos. Ter uma capacidade militar capaz de assustar o Tio Sam e sua trupe, ou seja, uma bomba nuclear e/ou armas químico-biológicas. Ser um regime fechado e isolado politicamente o suficiente para não se deixar influenciar demais por sanções do Conselho de Segurança e de órgãos regionais. 

A Coreia do Norte possui ambas as características. Acima de tudo, o governo norte-coreano fez questão de concentrar todas as forças em ameaçar diretamente os Estados Unidos. Uma situação intrigante, que remonta um pouco o caso do programa nuclear do Irã. Sanções econômicas no geral surtem pouco efeito. O isolamento político do país permite certa blindagem contra elas. A menos que toquem no calcanhar de Aquiles do país, no caso, o fornecimento de alimentos. 

Mas qual o objetivo internacional principal dessa política externa caótica? É difícil dizer. Minha aposta ainda é a do início do texto. Afrontar a falsa moral e os bons costumes internacionais, a ordem injusta estabelecida. Para tanto, o país buscaria afetar a balança de poder militar da Ásia e no mundo, tornando-se outro no seleto grupo de países com ampla capacidade nuclear e de mísseis balísticos. Agora se o país está perto ou não e se é apenas um cachorro que late demais e não morde é outro ponto complicado. Na dúvida, os EUA se preparam.


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Bombas nucleares, mísseis, drones e afins

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Foto de um drone, aeronave de combate não tripulada,

retirada do ensaio “O efeito dos drones em regimes e conflitos internacionais”

de autoria de Rafael Dantas e disponível aqui.

Fonte: Cenário Estratégico

Passados quase doze anos dos atentados terroristas do 11 de Setembro, uma designação proferida pelo então presidente George W. Bush no ano seguinte, em 2002, em seus habituais discursos ainda tem um peso muito grande nos dias de hoje. Trata-se do bem conhecido “eixo do mal”, composto por Irã, Coreia do Norte e Iraque, os quais, para os norte-americanos, ameaçam as tão almejadas paz e estabilidade internacionais. 

Paralelo a eles, ainda temos Cuba, Líbia e Síria, mas meu enfoque será nos dois primeiros países citados anteriormente. Irã: suspeito de enriquecimento de uranio para fins militares, alvo de inúmeras sanções econômicas, isolado politicamente no Oriente Médio, único a fazer frente ao poderio dos EUA na região. Coreia do Norte: um dos regimes políticos mais fechados do mundo, vizinho barulhento da Coreia do Sul, incógnita permanente e, do mesmo modo, receptor de sanções. 

Inicio pelas armas nucleares. Os iranianos já têm tecnologia suficiente para enriquecer urânio e plutônio (eu acho, não sou especialista) na escala de 20%. Para se fazer uma bomba, é necessário mais do que isso, mas nada muito além. Lembremo-nos da Declaração de Teerã e do acordo Brasil-Irã-Turquia sobre esta questão. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) vem tentando averiguar este desenvolvimento, mas sem muito sucesso. “We are prepared for everything”, afirmou o Ministro de Relações Exteriores iraniano, Ali Salehi. Já do lado da Coreia do Norte, tem-se mais incerteza ainda. Sabe-se que o país realiza testes frequentes em águas adjacentes e conseguiu lançar foguetes via satélite com sucesso nos últimos meses. 

O Irã é o único país do Oriente Médio capaz de balancear poder com os EUA. Tem um histórico de confrontação com as monarquias do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e assim por diante) e a maior frota aérea da região com cerca de 400 aviões de combate. Evidentemente, possui um Programa de Mísseis Balísticos. Já na Ásia, os norte-coreanos estão fomentando a criação de mísseis móveis, os KN-08. Ninguém sabe ao certo a sua aplicabilidade, só que os testes sempre são considerados um sucesso. Sucesso para que? Para alcançar alvos fora do continente. 

E os drones? Eles são notadamente conhecidos como aeronaves de combate não tripuladas e foram utilizadas pela primeira vez na década de 1980 em pleno conflito Irã-Iraque. Quem possui este tipo de tecnologia são, em sua maioria, países ocidentais ou que estão sob o crivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). No final do ano passado, os EUA propuseram a venda dos RQ-4, drones espiões, à própria Coreia do Sul, gerando ceticismo sobre a estabilidade regional com o vizinho do norte. Na gíria do dia-a-dia, o “papo reto” é observar mesmo o que o “eixo do mal” faz ou deixa de fazer.

Conclusões? Irã, Coreia do Norte, EUA ou quem mais for, estão armados até os dentes. E pensar que a Guerra Fria é passado…só resta ver que o debate está mais quente do que nunca.


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Os males de Mali

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A próxima moda do noticiário de intervenções armadas vai ser o Mali. O que surpreende um pouco já que a coisa estava feia por lá desde o ano passado (e pouco se comentou por essas bandas). Como havia comentado em outro post, o Mali se tornou uma espécie de mini-Afeganistão, com grupos islâmicos radicais ligados à Al Quaeda tomando a porção norte do país e com tudo levando a crer que formariam um novo santuário terrorista. Pra evitar maiores problemas, a ONU deu um aval tácito a uma intervenção e só faltava alguém para sujar as mãos. Quem se voluntariou foi a França, que justificou a ação com base em “estar em guerra com o terrorismo” (já não vimos isso antes?) e o fato de o Mali ser uma ex-colônia, o que incorreria nesse “dever” histórico de ajuda. Claro que tem outros interesses por trás, e a França não se faria de rogada pra fazer propaganda bacana dos Rafale. 

O fato é que os ataques começaram na semana passada pra valer, com bombardeio a campos de treinamento e coisas do tipo. A expectativa é que a intervenção acabe em coisa de semanas, mas a julgar pelo histórico desse tipo de expediente é bom pegar uma cadeira pra ver o que vai rolar. Países como Reino Unido e EUA estão ajudando (novidade), o CS da ONU vai discutir o assunto nessa semana para dar respaldo e até mesmo tropas africanas (lideradas pela Nigéria) se preparam para entrar no Mali e conter a insurreição. 

É mais uma questão de manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mesmo que haja problemas de legalidade na ação francesa (e toda aquela questão de soberania), quem vai impedir? A impressão que fica é de que a ação é “boa” pra todo mundo (que não seja a Al Quaeda), então tanto faz, nessa terra de ninguém da política internacional que é a África subsaariana (apesar de ficar na região do Saara…enfim, é aquele caos que todos conhecemos). Ironicamente, o único resultado concreto, até agora, foi a troca de uma possibilidade de ameaça pela certeza dela, já que os grupos que tomaram a região anunciaram que a França está atacando o Islã, e vão revidar. Sacrebleu!


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Queima de fogos

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O ano novo já passou mas tem gente soltando rojão até hoje. E do jeito que as coisas estão, vamos ter uns fogos de artifício bem assustadores no Oriente Médio. Foi noticiado que os EUA e aliados da OTAN começaram a mandar mísseis para instalar na Turquia, sua aliada, em resposta a possíveis agressões da Síria (que continua na mesma matança de sempre). 

A história não é nova. Muita gente não sabe, mas quando a União Soviética mandou os mísseis nucleares para Cuba em 1962 (e deu no que deu), não foi uma “agressão” gratuita, mas sim uma resposta à instalação de mísseis norte-americanos em vários países, incluindo a Turquia. Não é nenhuma novidade. Mais do que proteger um coleguinha da OTAN, a mensagem parece clara para os países da região: após a catástrofe na Líbia, a palavra de ordem é “sosseguem o facho”, e os EUA parecem não querer que as coisas saiam do controle como no norte da África. Como dissemos em outras postagens, o perigo de a crise síria se espalhar é muito grande e seria danoso para muita gente, especialmente os EUA, que se veriam na urgência de acudir aliados como Turquia e Israel. 

O principal destinatário desse recado, mais do que Assad, parece ser Ahmadinejad. O Irã está prestes a entrar em negociações com seis potências (EUA, Rússia, França, Grã-Bretanha, Alemanha e China) acerca de seu programa nuclear, ao mesmo tempo em que realizou testes de lançamento de mísseis avançados nos últimos dias. É aquela velha conversa de morder a assoprar, e o governo de Washington parece estar farto. Isso pra não entrar na questão do apoio velado do Irã aos palestinos de Gaza, que uma hora vai trazer Israel pro bolo e não demora nada para os fogos começarem a estourar. Para os EUA é muito mais interessante (tentar) mostrar quem manda do que ter apagar um rastro de pólvora em um barril que já explodiu. 

Os EUA podem ter perdido influência e até mesmo o posto de ter o seu presidente como o homem mais poderoso do mundo (honraria que a Foreign Policy deu ao presidente russo Vladmir Putin, na falta de um ocupante para o primeiro lugar), mas com essa atitude preventiva mostram que não largam o osso tão cedo naquela região. Ainda valem as duas faces da política externa de Aron, com as figuras do diplomata e do soldado, e os EUA mostram que ainda tem muito gás em qualquer uma delas.


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Tensões no Golfo

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É sempre interessante pensar sobre o Oriente Médio. Ultimamente muito se comenta sobre a Primavera Árabe e os supostos contornos democráticos que este processo impõe na região. Seja no norte da África, na Crescente Fértil ou no Golfo Pérsico, aos países árabes se juntam Israel e Irã, os quais, mesmo não sendo árabes propriamente ditos, também trazem sempre novos horizontes para a geopolítica local.

Por um lado, o conflito israelo-palestino é sabido por todos. E, de outro, a oposição iraniana aos Estados Unidos, bem como seus anseios nucleares na figura do então presidente Mahmoud Ahmadinejad, ilustram as principais capas de jornais e revistas nas seções internacionais. Todavia, existe uma questão de longa data não tão conhecida e divulgada pelas mídias: a balança de poder existente entre este mesmo Irã e a Arábia Saudita nos entornos do Golfo.

Além da Liga Árabe, existe outro bloco de países denominado Conselho de Cooperação do Golfo, sendo composto por Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos (EAU), Kuwait, Omã e Qatar. Como o próprio nome nos diz, tais países situam-se justamente na região do Golfo, a qual é de grande interesse dos iranianos. No último mês de Novembro o país fez manobras navais com o intuito de reforçar sua presença sobre três pequenas ilhas que disputa com os emirados.

Mais recentemente, o Irã foi acusado de interferir em assuntos internos dos países do Conselho, causando uma nova onda de comunicados entre autoridades, mais uma vez dizendo que nada passou de um mal-entendido. O que se sabe é que as manobras continuarão. Navios, submarinos e sistemas de mísseis de defesa serão testados num futuro bem próximo.

É uma questão majoritariamente geopolítica e estratégica por dois fatores bastante simples de serem entendidos. Primeiro, o Golfo é um mar interior que serve como rota marítima e saída principal para o Mar Arábico. Segundo, concentra algumas das principais zonas de exploração de petróleo a nível mundial. Assim, nada mais justificável para se confirmar esta rivalidade que perdura há anos. 

Com exceção do gigante saudita, todos os outros países do Conselho são pequenos. Por conseguinte, Arábia Saudita acaba por ser um rival do Irã em nível de igualdade. Isso se reflete nas relações entre a Liga Árabe e o Conselho em si. Não podemos esquecer que existem diferenças culturais, religiosas e socioeconômicas milenares. Todavia, sendo um tanto quanto realista, a disputa pelo poder permanecerá e os iranianos sentem-se com todos os direitos de fazê-la.


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A ocasião faz a violência

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[Texto do colaborador Giovanni Okado]

A velha sabedoria machadiana já pregava que a ocasião não faz o ladrão. Ela faz o furto; o ladrão nasce feito. Não obstante o exagero do determinismo histórico, esse provérbio é aplicável à violência e suas causas no Brasil: a ocasião faz a violência; as causas nascem feitas. 

Se, em suas relações exteriores, o Brasil é um país pacífico,internamente, o cenário é violento. E muito! Entre 2004 e 2007, nos 62 conflitos armados existentes, morreram 208.349 pessoas; nesse mesmo período, no país, livre de disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, entre outros enfrentamentos, morreram 192.804 pessoas vítimas de homicídio. Não é por acaso que 62,4% da população brasileira tem muito medo de assassinato e 23,2% dela tem um pouco de medo.

Em se tratando da violência homicida, os dados impressionam e demonstram mudanças nem sempre perceptíveis. O senso comum é colocado à prova. De 2003 a 2010, o crescimento das taxas de homicídio foi negativo (- 1,4% aa). Mesmo que elas tenham se estagnado, o índice é elevado e preocupante: são 26,2 homicídios em 100 mil habitantes, acima dos 10, valor que já é considerado uma epidemia. E, pior, essa violência homicida exibe novos padrões. 

Hoje, os homicídios não se concentram nos principais estados e nas grandes cidades. Há uma década, Alagoas, Pará e Bahia ocupavam, respectivamente, o 11º, 21º e 23º lugar no ranking nacional das taxas de homicídio e passaram a ocupar, agora, o 1º, 3º e 7º lugar. São Paulo e Rio de Janeiro, no mesmo período, tiveram uma redução acentuada, respectivamente, de 63,2% e 42,9%, deixando a 4ª e 2ª posição para ocupar a 25ª e 17ª. Nesses dez anos, também, o interior, e não as capitais e regiões metropolitanas (RM), impulsionou o crescimento dos homicídios: o Brasil, como um todo, passou de 45.360 para 49.932 homicídios; as capitais e as RM, de 32.339 para 28.797; e o interior, de 13.021 para 21.135.

Os dados demonstram a ocorrência de dois processos simultâneos: a disseminação e a interiorização da violência. Nas décadas anteriores, os homicídios acompanharam o dinamismo econômico dos principais estados e metrópoles. Ao final do século XX, com a reestruturação da produção industrial brasileira, deslocando-se para outros estados e para o interior, houve a migração dos polos dinâmicos da violência. E, infelizmente, essas áreas apresentavam estruturas precárias ou incipientes de segurança, sem experiência histórica, que impediram o combate eficiente do problema. 

Que lições ficam? Primeiro, é preciso ponderar sobre a violência. A chamada “onda de violência” que atualmente se alastrou pelo país é, sim, drástica. Mas não deve ser superdimensionada, para evitar ações equivocadas e negligenciar o tratamento adequado da segurança pública como um todo, e não localizado. Segundo, as autoridades competentes na matéria devem permanecer sempre atentas à evolução da realidade político-econômica do país. Terceiro, é melhor prevenir do que remediar. Ao invés de se investir na construção de novos presídios, é preciso aumentar o investimento em policiamento e informação/inteligência policiais. De 2006 para 2011, essas rubricas diminuíram: os gastos com policiamento passaram de 17,13% para 8,16% das despesas realizadas com segurança pública, enquanto aqueles relativos à informação/inteligência foram de 1,95% para 0.66%. Outros problemas estruturais também poderiam ser debatidos, como as brechas na legislação e a coordenação entre as esferas federal, estadual e municipal. 

A ocasião, de fato, faz a violência. Há mudanças em seus padrões, mas suas causas são as mesmas. Uma hora ou outra, o descaso cobraria seu preço. E ele é alto! Por trás das estatísticas, estão pais sem filhos, filhos sem pais, maridos sem mulheres, mulheres sem maridos, jovens, adultos ou idosos… Não existe número que meça a dor que fica, muito menos os sonhos que partem. 

*Obs: os dados apresentados foram extraídos de três documentos – Mapa da Violência 2012. Novos Padrões da Violência Homicida no Brasil; Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2012; SIPS – Segurança Pública.


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Nuvens sombrias em Gaza

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Não teria como ser outro assunto – a sombra da guerra se espalha no Oriente Médio, com a Síria em convulsões e Israel atirando para todos os lados, literalmente. A nova onda de ataques com foguetes a território israelense valeu uma resposta absolutamente desproporcional que assombra o mundo desde a última semana. Em última instância, Israel não estaria “errado” ao retaliar ataques contra seu território e tentar desarmar os arsenais do Hamas. Mas quando se compara o grau de destruição causado por cada ataque, é cada vez mais difícil justificar qualquer tipo de apoio. 

Por hoje, vamos focar nas relações regionais – mesmo por que poderíamos ficar o dia todo aqui discutindo sobre a viabilidade do Estado palestino (a solução que acabaria com esse rebu) e como os radicalismos de ambos os lados jogam terra sobre isso. A diferença dessa nova onda de violência com relação à ultima, de 2008, é o fato de que Israel está cada vez mais isolado. 

Culpa da Primavera Árabe, em partes. O Egito, antiga liderança (e que ajudava Israel) agora está muito mais para o lado dos palestinos e do Hamas (primo distante da Irmandade Muçulmana que agora manda por lá). Temos o Qatar e a Arábia Saudita tentando aumentar sua influência mas sob suspeita aos olhos dos árabes (que temem qualquer elite que venha do Golfo). E por último, e mais importante, temos a Turquia. O país azedou as relações com Israel desde o ataque à flotilha de ajuda humanitária e cada vez mais tenta se consolidar como a potência regional em uma parte do mundo que carece de liderança nesse momento. O potencial econômico e militar para isso a Turquia tem, mas faltam elementos culturais, e mesmo os atritos como a fronteira com a Síria. Aliás, esse é um dos principais fatores que pesam na possibilidade de um conflito regional… 

Mais do que as discussões sobre guerras assimétricas ou a natureza de um Estado contra entes não-estatais, fica a perplexidade por conta do excesso de força. Isso por que não faz sentido que Israel comece um conflito desse tipo agora – e parece ainda mais despropositado clamar que reduzirão a outra parte “à idade média”. Se um conflito no Irã parece pouco vantajoso por causa das dificuldades logísticas, quanto mais contra todo mundo ao redor e com a opinião pública mundial ficando contrária a essa violência. Ascensão de ultra-conservadores ao poder? Saber que terão apoio dos EUA e fazer o que der na telha? Conspirações? O mundo fica de olho no que vai resultar das possíveis negociações no Egito, e na possibilidade de um cessar-fogo que evite um massacre ainda maior – e tomara que deem certo, já que a chance de invasão caso as negociações fracassem é iminente.


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Nada de novo na Síria

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Nunca falta o que se falar da Síria. Muito provavelmente por que essa é uma guerra que não vai terminar tão cedo – há pouco tempo, por exemplo, nem conseguiram manter um frágil cessar-fogo por conta de um feriado islâmico. E boa parte disso por culpa da desorganização dos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad, que sem unidade fragmentam a luta e se enfraquecem. Nessa semana, aliás, a oposição está se reunindo em Doha pra ver se consegue dar um jeito nisso. Muito improvável, diga-se de passagem, e o futuro do conflito parece cada vez mais prolongado. 

Na verdade, o que podemos pensar para o futuro? Acabou de se confirmar o que todo mundo já sabia: a Rússia vende armas para a Síria por conta de acordos da época da URSS. A justificativa é a de ajudar a proteger a Síria de ameaças externas – leia-se, EUA e amigos – e não de tomar parte de um dos lados. E por que a Síria estaria se sentindo ameaçada de intervenção? Justamente por usar essas armas contra os opositores. O ciclo se fecha e vai depender bastante do resultado das eleições nos EUA. Tem ainda o problema do conflito se espalhar, uma possibilidade cada vez mais real. A situação mais crítica é na Turquia, que já anda às turras com a Síria por conta dos refugiados e escaramuças na fronteira, e ainda mais com os problemas de atentados internos por conta do PKK (um grupo terrorista curdo), falta pouco para a coisa estourar. O Líbano seria a segunda pior opção, mas as rachaduras internas e o apoio da França parecem que vão esfriar essa possibilidade. 

Mas talvez o mais preocupante seja a notícia de que a fronteira de Israel estaria sendo visitada por tanques sírios. Pra quem não se lembra, Israel ficou com um território ao sul da Síria após a Guerra dos Seis Dias de 1967, e nesse fim de semana tanques sírios apareceram nessa zona desmilitarizada. Nada grave, mas traz duas perspectivas preocupantes. A primeira, de que “dê a louca” em alguma das facções de oposição (nunca se sabe o que se passa na cabeça de grupos tão variados), ou que Assad jogue por terra as negociações por causa da guerra civil e até resolva disputar novamente a posse da região. Trazer Israel pro samba significa a segunda preocupação, pois o país ainda está em guerra com a Síria, tecnicamente, e a negociação da posse das colinas é uma das barganhas de Israel para afastar a Síria de Irã e grupos hostis como o Hezbollah. Esse pessoal todo envolvido no conflito transforma um barril de pólvora numa bomba de napalm. E a depender do resultado das eleições dos EUA (ou não), isso traz o Tio Sam pra parada. E junto  acabarão vindo China e Rússia do outro lado. Imaginem só. 

O fato é que a oposição só vai negociar quando Assad sair, e isso não vai ocorrer tão cedo. Os lados vão continuar conversando por meio das balas, e o killscore desse jogo macabro batendo novos recordes, na casa de 36 mil mortos até o momento. Isso só na Síria – imaginem se a coisa se espalhar.


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Quem sair fecha a porta

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Quando falamos de política externa dos EUA na última década, todos estão cansados de dizer que eles tinham duas pedras de tropeço, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Enquanto Obama já conseguiu se livrar da primeira (mal e mal e deixando um abacaxi que mais parece um porco-espinho pra trás), ainda restam promessas e uma trilha de cadáveres na segunda. Mas não devemos esquecer que essa é uma empreitada em que os EUA não estão sozinhos – o Reino Unido e diversos países europeus estão envolvidos nesse consórcio da OTAN,e essa semana está havendo uma importante novidade pro desfecho desse conflito. 

Ou, pelo menos, pra fim da participação britânica nessa guerra. Segundo o secretário de Defesa, o país deve retirar boa parte dos soldados até 2013 e possivelmente a retirada total até 2014. Mais do que impopularidade, parece ser uma questão de custos: assim como na maioria dos países que não são os EUA, quando o dinheiro falta a primeira coisa que o governo faz é apertar o cinto e cortar gastos de defesa. E o Reino Unido está num ambiente nada favorável a manter aventuras na Ásia Central custeadas pelo contribuinte. 

Mas pesa sim o fator “popular”. Na última semana fuzileiros britânicos foram acusados de matar um inocente em combate. Não chegou a ser como o caso do americano que massacrou dezenas de civis, mas mostra como as tropas já chegaram àquele ponto em que existe uma pressão psicológica sobre os indivíduos, e uma notícia dessas não pega nada bem na maliciosa imprensa inglesa. Não está ajudando nada um escândalo envolvendo tráfico de influência por parte de ex-oficiais, que estariam favorecendo empresas em concessões para as forças armadas violando a legislação inglesa. Isso estourou deixando o governo com mais uma dor de cabeça financeira e midiática. 

Mais do que os gastos financeiros e em vidas humanas, fica a sensação de perplexidade com relação ao desfecho desse conflito. Se os EUA e amigos deixarem o Afeganistão, do modo como está, não apenas não vão ter removido completamente o Taleban (ideia original disso tudo) como deixarão um ambiente regional altamente instável. A coisa transbordou e agora se fortaleceu o Taleban no vizinho Paquistão, e a situação, se não parece pior do que era em 2001, não parece melhor. Pra se ter uma ideia, uma menina de 14 anos, defensora dos direitos das mulheres, virou alvo oficial do Taleban (com nota e tudo mais) e sofreu um atentado. Baleada, em estado grave, está finalmente sendo transferida, ironicamente, para a Grã-Bretanha. A saída dos principais atores ocidentais desse conflito não vai ser o fim dos combates ou da instabilidade. O veredito final sobre essa guerra vai ser mais fácil de emitir no futuro, mas é aparente o fracasso.


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A guerra sem glória

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O tema da moralidade, justiça e de ética para as guerras tem caminhado lado a lado com esses eventos na história. Não é de hoje que se discute isso e parece que a questão quase nunca vai perder sua polêmica e originalidade. Para muitos, como o famoso autor Michael Walzer, o limiar entre o argumento moral e o de interesse é muito tênue. Daí toda a dificuldade de se discutir questões subjetivas como ética e intenções nesses conflitos. 

A guerra do Afeganistão, por exemplo, foi muito discutida em seu aspecto moral. Aproveitou da fragilidade da população no contexto da tragédia do 11/09 para empreender uma missão estratégica em um país de importância geopolítica no Oriente Médio, contra um inimigo sem face, difícil de ser detectado e derrotado. Atualmente esse mesmo discurso parece desaparecer nos anos finais da guerra. Não há glória ao povo estadunidense, os soldados questionam a resiliência do Taliban e da Al Qaeda (clique aqui para um artigo sobre isso) e nem mesmo a população parece acreditar mais na causa. Aquela obrigação moral parecia se sustentar apenas em um contexto específico. 

Após 11 anos, o discurso desmorona e das palavras faz-se o silêncio. A disseminação do ódio contra os Estados Unidos nos países muçulmanos coloca-se como algo que reforça a perda de popularidade da guerra. Parece que, cada vez mais, aumenta o número de pessoas, tanto entre a população civil, quanto entre os militares que não entende mais essa guerra como necessária. A OTAN já havia refeito sua estratégia para suspender sua atuação no país e, agora, Obama retirou os 33 mil contingentes adicionais que enviou em 2010. Imaginava-se que, como foi na morte de Bin Laden, essa redução de soldados na região iria poder ser transformada em capital político para o “Obaminha paz e amor”. Bom, não foi dessa vez. Nem o presidente, nem o general responsável pelas tropas no país e nem mesmo o presidente afegão, Hamid Karzai, fizeram o anúncio. O comunicado emitido pelo secretário de Defesa, Leon Panetta, enquanto viaja à Nova Zelândia. Não que ele não seja uma autoridade importante, mas substituiu-se a possibilidade de se obter um capital político interessante, por um anúncio burocrático em low profile. 

Isso demonstra duas coisas. A primeira, como já dissemos, que o argumento moral dessa guerra já está dissolvido e o que resta é uma espécie de novo Vietnã. Com a diferença de que não há tantas mortes de americanos e nem vitória do outro lado; apenas sua não-derrota, que, para os grupos terroristas, já significa um duro golpe político ao Tio Sam. A segunda é que, não sem razão, o governo Obama e a OTAN estão morrendo de medo das reações dos países com grandes concentrações de muçulmanos. E essa onda de violência também escancara o estado frágil que essa guerra se encontra hoje, pois os ganhos de manter as tropas por lá, com a intensificação dos protestos antiamericanos no Afeganistão (e mundo afora) e de atentados contra militares na região, não parece exceder os custos. 

O argumento que sustenta essa guerra já se foi. O que resta é a luta de soldados que não compreendem a tamanha resiliência do inimigo e de governantes que não parecem querer comentar muito sobre o que tem se passado por lá. Em uma guerra sem glória, aceitar a derrota seria aceitar a limitação da política externa americana na região, algo que, certamente Obama não gostaria de fazer. Assim a guerra arrasta-se.



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