Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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O cálculo da intolerância

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O HOMEM q calculava

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


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100 ANOS DEPOIS: VISÕES DA GUERRA

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Plano de Schlieffen

Nada de velho no front. As novidades introduzidas pela Grande Guerra, a mãe de todas as demais guerras do século XX, influenciaram, para bem ou para mal, o pensamento estratégico-militar nos últimos cem anos. A velha guerra, inevitável e apocalíptica, foi vítima da agonia imperialista que abocanhou as grandes potências no último quartel do século XVIII e contaminou todo o mundo. A paz centenária foi cortada pelo barulho estridente das metralhadoras, e a belle époque sucumbiu ao quadro vermelho enegrecido da destruição.

Uma triste poesia aviva a memória dos esquecidos. Wilfred Owen, militar e poeta inglês, narrou em seu histórico poema “É doce e honroso” o desespero da morte provocado pelas bombas de gás e finalizou criticando a irracionalidade do conflito: “Meu amigo, você não iria, com tão grande entusiasmo e idealismo, contar/Para as crianças desejosas de alguma glória desesperada/A velha mentira: é doce e honroso morrer pela pátria.”. Sete dias antes do armistício, Owen morreu pela pátria, sem doçura ou honra.

Traço comum também está na obra de Erich Remarque, que sobreviveu às trincheiras e cuja frase que inicia este post parafraseia seu livro. A ruína da guerra centenária é retratada, por exemplo, nas menções aos efeitos do gás nos combatentes, que os fazia “vomitar seus pulmões queimados”. Mais impressionante, e reflexo da ruína, é o sentimento de desilusão: “Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra.”

O ar melancólico carregado por esses e outros sopros poéticos está indissoluvelmente ligado à capacidade de produzir o horror, até então sem precedente histórico. Para muitos, a Primeira Guerra Mundial inaugurou o período mais extremo da guerra moderna, desde a queda de Constantinopla (1453): a totalização da guerra. O aprimoramento das técnicas militares ampliou largamente o potencial de destruição.  A distinção entre alvos civis e militares se fez cada vez menos presente no planejamento estratégico-militar. Retornou-se à barbárie que se supunha superada: todas as atividades da vida de um Estado passaram a ser objeto de ações adversárias. O extermínio de populações, se necessário, tornou-se aceitável enquanto condição para se alcançar uma vitória absoluta sobre o inimigo.

A Grande Guerra é a antítese do progresso, material e filosófico, da Revolução Industrial. As estradas de ferro e a telegrafia sem fio, que tanto aproximaram povos e nações, colocaram-nos em campos opostos. Do motor a explosão e o motor elétrico, vieram os aviões, os carros de combates – estes dois não foram plenamente aproveitados neste conflito – e os submarinos, acompanhados de uma artilharia pesada (agora móvel) e com maior calibre, de metralhadoras mais leves e automáticas, dos gases de combate e do lança chamas. A guerra submarina, a propósito, talvez seja a principal expressão do desenvolvimento científico e tecnológico a serviço da belicosidade e, ao mesmo tempo, do avanço do front em direção aos não combatentes. Os submarinos, não apenas cortavam os suprimentos logísticos dos beligerantes, senão também condenavam à fome os cidadãos.

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Por suas características, a Primeira Guerra Mundial é enquadrada como uma guerra de segunda geração (iniciada em 1860 e encerrada com esse conflito). Nela, prevaleceram a supremacia do fogo sobre o movimento e a disciplina sobre a iniciativa. O combate era simultaneamente estático e de atrito, em que o atacante “empurrava a linha” e o defensor “segurava a linha”. A divisão do confronto centenário em duas fases retrata bem essa geração da guerra: a primeira fase, de movimento, de agosto a dezembro de 1914, com a tentativa frustrada da Alemanha implementar o Plano Schlieffen, e a segunda, de posição, após a fracassada ofensiva franco-britânica em Artois, 1915, até a vitória aliada na Batalha de Amiens, em agosto de 1918.

A segunda fase é, sem dúvidas, a mais agonizante. As trincheiras transformaram-se em sua marca inesquecível. Naqueles estreitos buracos de podridão, conviviam, harmoniosa e heroicamente, o ódio, o companheirismo e a esperança. Os combatentes bem sabiam que bastava um único comando para que esses sentimentos aflorassem. Eis o grito: “para cima!”. Todos saíam e se lançavam contra o inimigo entrincheirado, sem se importar com os canhões, metralhadoras e granadas, até o assalto final, quando a baioneta, a faca e a pá se convertiam nas melhores armas – para os sobreviventes, é claro, desse curto percurso fúnebre.

A tentativa alemã de vencer a defesa de Verdun, travada entre fevereiro e julho de 1916, é bastante representativa da segunda fase da guerra. Trata-se de uma batalha de 2 milhões de soldados, com um milhão de baixas. Imponência maior é demonstrada pela quantidade de granadas lançadas nesse período: 22 milhões de alemãs contra 21 milhões de francesas (quase 290 mil granadas por dia!). Ressalta-se que não é por acaso que a melancolia ditou o tom da literatura pós-guerra. Nem é o acaso que levou Einstein a perguntar a Freud, na carta que lhe enviou, se seria possível controlar a evolução da mente humana, de modo a torna-la à prova das psicoses do ódio e da destruição.

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A Primeira Guerra Mundial põe fim a uma geração. Só que, como todo acontecimento humano, a guerra traz suas conexões entre o passado e o futuro. A gênese da blitzkrieg remonta as tropas de assalto alemãs (sturmtrüppen) utilizadas intensamente na primavera de 1918. O Plano Schlieffen recupera a mesma estratégia que o general cartaginês Aníbal empregou para aniquilar os exércitos romanos na Segunda Guerra Púnica e prenuncia o que seria o maior objetivo estratégico-militar norte-americano no século XX: ser capaz de lutar duas guerras ao mesmo tempo em qualquer parte do globo. E a extensão do front para a população civil pode ser notada hoje, grosso modo, nos bombardeios israelenses a única usina elétrica na Faixa de Gaza.

Nem é doce nem é honroso morrer pela pátria, principalmente quando novas invenções elevam o medo e a dor da morte a um patamar jamais visto. Por isso a guerra nunca morreu na memória histórica da humanidade e tampouco deixou de influenciar o século XX de diversos modos. Ainda há muito a ser contado e lembrado.


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Derrota iminente

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Ah, a Copa do Mundo. Começou ontem, e enquanto o leitor se depara com a enxurrada de notícias e análises que vão infernizar nossa vida por cerca de um mês, sugiro que confira com alguma atenção a seção de notícias internacionais de seu jornal. Isso por que existe um problema gravíssimo no cenário internacional que está passando completamente batido e pode ter muitas consequências inesperadas.

E não é um problema novo – a crise do Iraque, que está esquecida mas já completa mais de dez  anos (na verdade, se fossemos puxar o fundamento histórico, o Brasil nem era tetracampeão quando as coisas começaram a degringolar, mas enfim…). Nos últimos dias, a violência no Iraque aumentou consideravelmente (como se já não fosse alta) devido à ação de insurgentes sunitas que tomaram diversas cidades, espalhando violência contra a população xiita em seu caminho, e tomando o rumo da capital Bagdá em um ritmo alarmante – ao ponto de o presidente Obama cogitar medidas extraordinárias para ajudar a evitar a queda do governo iraquiano. Irônico, não?

A revolta sunita tem muito a ver com a marginalização em relação ao governo xiita. Nos últimos anos, o primeiro-ministro al-Maliki removeu oficiais sunitas e curdos das forças de segurança e contou com o apoio de milícias sunitas para atuar nas suas áreas; quando os levantes foram debelados, entre 2008 e 2009, esses sunitas foram simplesmente esquecidos e muitos tomam parte da revolta atual. Porém, a maior fonte de problema vem de fora. Esses insurgentes são liderados pela organização que começa a ganhar nome no cenário internacional como ISIS (em inglês, “Estado Islâmico da Síria e Iraque”), uma sucursal da Al-Qaeda que representava seus interesses no Iraque mas brigou com a matriz, usa de uma truculência desmedida e é um dos principais membros da oposição na Síria. Lembram do Boko Haram? Isso mesmo, o grupo nigeriano que sequestra meninas para revender e chacina estudantes. Basta dizer que é um “afilhado” da organização. Sequer podemos descrever como um grupo terrorista, e sim como uma facção política ultraviolenta que avança a passos largos pelo Oriente Médio (e norte da África).

As implicações desse avanço são enormes. Acima de tudo, pioram a crise do Estado iraquiano, que não parece ter fim (lembre que desde a invasão norte-americana o país ainda não saiu de estado de guerra) e embaralhou a geopolítica regional. Iraque, Irã e Arábia Saudita se contrabalanceavam; com a queda do Iraque, existe uma polarização nefasta entre a monarquia sunita do golfo e a república islâmica xiita, que favorece o radicalismo em ambos os lados. Curiosamente, o Irã parece ser o fiel da balança, já que é aliado dos governos atuais do Iraque e da Síria, sendo um inimigo potencial do ISIS. Os EUA apoiam a organização indiretamente na Síria (entre outros grupos radicais islâmicos, o que muita gente vem alertando desde 2012), mas em vista de seus interesses regionais, pode acabar tendo que buscar a aliança improvável com o Irã. E nesse meio todo temos Israel, programa nuclear iraniano, Rússia…

Se instabilidade no Iraque não fosse um problema suficiente para agravar a guerra civil na Síria, já que os países são vizinhos, se o ISIS conseguir se estabelecer de modo sólido naquele, terá uma base de operações para sua atuação na Síria e vai complicar ainda mais a até agora pior guerra civil do século.  Literalmente, é uma situação em que todo mundo tem a perder – nem mesmo a organização Al Qaeda é aliada do ISIS. Resta saber se o resultado será uma nova atuação independente dos EUA, a busca de alianças improváveis (mas históricas se vierem a ocorrer) ou o simples desmoronamento final de um Estado já em ruínas.


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Criando seus demônios

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boko haram

Após o ultraje internacional direcionado ao rapto de centenas de meninas na Nigéria, finalmente o Conselho de Segurança da ONU tomou uma decisão (após a Nigéria relutar por semanas, afinal não pega bem ter que ficar pedindo ajuda internacional…) e baixou sanções contra o grupo Boko Haram, incluindo nebulosos “congelamento de bens e embargo de armas”. Na prática, não parece que o resultado vá ser tão relevante, mas no campo das ideias significa muito – incluindo o grupo na lista de organizações terroristas como Al Qaeda e outros, praticamente dá a chancela da ONU de reconhecer aquilo como um grupo radical e verdadeira ameaça à segurança internacional. Ora, não é justamente o que eles querem?

Existe um famoso e controverso documentário da BBC britânica chamado “The Power of Nightmares”, que em três episódios esmiúça a relação existencial entre os grupos terroristas islâmicos e o movimento neoconservador nos EUA. Um dos dados mais chocantes que se constata nos vídeos é que a famosa Al Qaeda simplesmente não existia até idos de 1998 – havia um grupo de descontentes ligados ao finado Osama bin-Laden, mas sem expressividade ou agenda concreta. Porém, devido a uma série de fatores (e um julgamento fajuto) a mídia e o governo norte-americanos lançaram o termo “Al Qaeda” para designar o grupo, dando-lhe assim um nome e propósito (de fato, bin-Laden nem nome tinha para sua turma e só assumiu de fato o antiamericanismo quando os próprios EUA engoliram essas ideias). O resultado disso tudo é que hoje um grupo de meia dúzia de tresloucados, que se tivessem sido deixados de lado possivelmente nem teriam sobrevivido aos conflitos internos com outros ativistas islâmicos, foram reconhecidos como ameaça pela maior potência do mundo e criaram uma aura de interesse ao seu redor, inspirando muita gente a seguir seus passos. E com isso o grupo é uma ameaça verdadeira nos dias de hoje, como podem constatar os habitantes de Nova Iorque, Londres e Madri.

Longe de dizer que o Boko Haram deva ser ignorado, mas se o exemplo da Al Quaeda ensina alguma coisa é que dar esse “status” a grupos criminosos e terroristas geralmente apenas aumenta seu apelo. Vamos lembrar que definições de terrorismo são variadas, mas um traço comum é o fato de buscar o terror psicológico na população civil, sempre sob ameaça do desconhecido. O grupo nigeriano já tinha na conta milhares de mortes em atentados (que deveriam ser tão chocantes quanto o sequestro das meninas, mas não despertam tanto interesse na mídia…), e estando sob os holofotes da mídia internacional, não vai buscar outra coisa que não seja mais “publicidade” para suas atividades. Basta ver o duplo atentado do dia 21, em que mais de 140 pessoas pereceram. Muito provavelmente, a tendência é que os ataques do grupo aumentem para explorar a imagem criada pelas próprias vítimas. O caminho das sanções é importante para estrangular a captação de recursos dos grupos, mas não é o bastante. E pensando na fragilidade do governo nigeriano com relação a essa crise, infelizmente devemos esperar mais ataques e vítimas nas próximas semanas…


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Os confrontos esquecidos

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Central-African

Os distúrbios recentes na Ucrânia retiraram, por algum tempo, o foco do noticiário internacional da crise Síria. Agora que a situação parece “sob controle” (apesar de a anexação da Crimeia à Rússia trazer um abacaxi para o Direito Internacional e ser o prelúdio de uma complicada guerra econômica de sanções na Europa), podemos voltar a nos preocupar com as centenas de milhares de mortes na conta do senhor Basshar al-Assad e desafetos. Porém, aproveitaremos a postagem de hoje para mostrar que, se a situação Síria é ruim, temos muitos outros conflitos ainda piores rolando nesse exato momento.

A Somália, por exemplo, que apareceu mais por causa dos casos de pirataria em alto-mar que pela miséria que assola a nação há mais de 20 anos, está em guerra civil por quase todo esse tempo – o que não é nenhuma surpresa. A bola da vez é o conflito com extremistas islâmicos jihadistas, que trouxeram a novidade do atentado suicida a uma região já caracterizada pela brutalidade dos conflitos sectários africanos, com expedientes tradicionais como o estupro e a mutilação. Mais de 20 anos de guerra e corrupção arruinaram o país, considerado por muitos como um exemplo de Estado falido. Para piorar, ainda soma à sua contagem de corpos aqueles que não perecem no conflito, mas na travessia do Mediterrâneo, fugindo da situação desesperadora em que se encontram.

Um pouco ao sul, na República Centro-Africana, a violência aumenta. O conflito de natureza religiosa produz horrores como pessoas sendo atiradas em rios para serem devoradas por crocodilos ou crianças decapitadas. Mais uma vez, grupos islâmicos estão envolvidos, ao derrubarem o presidente no ano passado – porém, não são os “protagonistas”, já que sua violência serviu como justificativa a muçulmanos comuns pelo resto da população, o que tornou uma outrora pacífica convivência religiosa no mais sangrento conflito entre cristãos e muçulmanos no mundo de hoje. A França envia um contingente para auxiliar as forças de paz da União Africana, mas seu interesse é pontual (basicamente, espezinhar o interesse chinês na região) e apesar do discurso humanitário da União Europeia nenhum outro país europeu tenciona enviar tropas para conter a violência. O resultado é literalmente o risco de uma nova Ruanda, com um genocídio anunciado, mortes na casa de milhares e mais de um milhão (cerca de um quarto da população) de refugiados.

Agora, os campeões nesse “score” macabro são dois conflitos velhos conhecidos, do Afeganistão e do Iraque. Apesar de estarem mais em voga por causa da reação ao 11/09, essas guerras podem ter suas origens puxadas lá para a década de 80, já que ambos os países nunca experimentaram alguma estabilidade desde a invasão soviética ou a guerra com o Irã, respectivamente. O fracasso dos EUA em alcançar seus objetivos, com a retirada do Iraque e gradual abandono do Afeganistão, tornaram essas guerras “esquecidas” pela mídia, com a menção esporádica de algum atentado, mas que continuam a ocorrer diariamente. Mesmo desconsiderando o período histórico mais longo, estamos falando de conflitos onde o número de mortos pode chegar à casa dos milhões – e que, definitivamente, não estão encerrados: não passa uma semana sem o anúncio de algum atentado em Bagdá ou Cabul com dezenas de mortes. Existe até um site que faz a contagem dos mortos no Iraque desde a intervenção norte-americana.

Claro que, em termos de vidas humanas, qualquer guerra é negativa, sejam 100 ou 1 milhão de mortos. Porém, os casos apresentados (e são apenas alguns) mostram que, como sempre, o interesse da “opinião pública” internacional sobre os conflitos mostra um pouco do interesse dos grandes centros de poder da mundo – na Síria, onde há interesses de grandes potências em choque, se despendem recursos estratégicos e diplomáticos. Mas, como vemos, não parece ser o caso em um Estado falido, com interesse marginal de uma potência decadente, ou de fracassos da superpotência meio que jogados ara baixo do tapete.


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O novo espetáculo aéreo

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“FX”, em inglês, é uma sigla muitas vezes utilizada para designar “efeitos especiais” (“effects”). Até onde eu saiba, o F-X2 não tem nenhum significado em específico com relação à sigla, mas causou uma boa repercussão, assim como um verdadeiro espetáculo, há algumas semanas, quando o programa de revitalização da aviação de caça do Brasil foi finalmente concluído, com a opção pela compra dos aviões suecos. 

A história por trás dessa aquisição vai longe (são mais de dez anos), e creio que todos os leitores conheçam minimamente, ou tenham visto em algum momento na mídia, sobre como foi o processo de aquisição F-X2. Com a oferta de aviões norte-americanos, suecos e franceses, tivemos todo tipo de reviravolta. Em 2009, a opção favorita em diversos sentidos, a francesa, teria sido escolhida em definitivo apenas para que a informação fosse completamente retificada semanas depois. Desde então, e com a saída de Lula e Sarkozy de cena, a opção norte-americana, mais sólida, parecia a vencedora. Mas, no fim das contas, foi a zebra que levou o troféu, com a vitória do Gripen sueco. 

A análise das opções era bem simples, e boa parte das reportagens sobre o assunto se fia nisso. Escolher os caças franceses seria interessante pelo histórico de operação (usamos aviões da França desde os anos 70) e familiaridade com as partes. O avião americano seria o melhor em termos de uso comprovado e confiabilidade. E o sueco seria o que mais se adéqua às necessidades de desenvolvimento da indústria de defesa. Aqui está o diferencial da escolha. Muitas análises colocam um peso determinante na questão da espionagem norte-americana: há quem diga até que a escolha já tinha sido feita (estamos em ano de Copa e tudo mais), e que a compra dos Boeings foi cancelada após o estardalhaço das denúncias de Edward Snowden. 

Mas tenho lá minhas dúvidas se isso foi realmente um determinante. É óbvio que foi um fator de peso extremamente relevante, mas pode ter sido ao mesmo tempo uma “desculpa conveniente”, por assim dizer. Primeiro, a oferta sueca era a mais barata, e isso pesa demais em contexto de crescimento econômico limitado. Ademais,todas as ofertas propunham a instalação de linhas de montagem no país, mas apenas a oferta do caça sueco contemplava um item indispensável para o planejamento da defesa nacional, que é o desenvolvimento de tecnologia. Mais que a famigerada (e nebulosa) transferência de tecnologia de que Paris tanto falava, montar o caça sueco vai trazer (e desenvolver) know-how nacional, e isso é um dos pontos principais dos documentos de defesa nacional, principalmente a Estratégia Nacional de Defesa. Após as desavenças com Washington, não havia clima para manter um negócio dessa magnitude, e pode ter sido o “empurrão” necessário para uma opção que já era aventada mas não tinha o interesse político para ser concretizada. E isso já mudou, é claro – durante sua visita em Davos, nessa semana, a presidente Dilma teve tempo para, entre conversas com presidentes e primeiros-ministros, uma reunião com um dos chefões da SAAB. 

Nem tudo é perfeito. Tecnicamente os caças que existem são protótipos, e só virão pra valer prá lá de 2018. Enquanto isso, a Suécia vai mandar caças emprestados para “quebrar o galho”, especialmente nesse período de Copa e Olimpíadas. E o próprio aparelho tem seus críticos – sendo o mais leve dos concorrentes, teria pouca autonomia de voo (carrega menos combustível), além de menos carga útil. Mas no estado de urgência em que a aviação de caça da FAB se encontra, já havia passado (e muito) da hora de se fazer a escolha. A grande questão para o futuro é saber se a compra dos Gripen vai ter o efeito esperado, fazendo com que haja desenvolvimento industrial sensível para que possamos evitar que tenham o mesmo destino dos Mirage e F-5, revitalizados e empregados muito além de sua vida útil por falta de reposição.


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Um caminho para o futuro

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Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


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O jogo das sombras na República Democrática do Congo

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Fonte: DefesaNet


“Geni viu os corpos das duas filhas serem arrastados pela correnteza de outubro, mês das chuvas. Forjou com o caçula um esconderijo sobre folhas de bananeira e ali ficaram até cessarem os gritos. Voltou à vila e encontrou a cabeça do marido, como as de outros homens da aldeia, secando ao sol em estacas – a marca do grupo liderado por um homem chamado Sheka.”  


Esta é uma das várias histórias tristes sobre a República Democrática do Congo (RDC). O relato foi descrito na excelente reportagem do Estadão, da jornalista Adriana Carranca, que cobriu o ataque de um grupo rebelde ao vilarejo Lwibo, na Província de Kivu do Norte. Entre tantas tragédias, uma boa notícia: o “Movimento de 23 de março” (M23), principal grupo rebelde congolês, anunciou sua rendição no último dia 5. Um fato significativo no longo percurso em direção à paz e estabilidade do país e da região, onde perdura um delicado jogo das sombras. 


A principal razão desse jogo é a riqueza inestimável da RDC. Se há uma linguagem universal para as interações sociais, ela se fundamenta em três palavras inter-relacionadas: poder, espaço e dinheiro. Uma matéria publicada na revista Tecnologia & Defesa destacou as riquezas do Congo: 30% das reservas mundiais de diamante, quinto maior produtor mundial de estanho e segundo, de cobre, é responsável pela metade da produção global de cobalto e detém 80% das reservas conhecidas de coltan (uma mistura composta de dois minerais: tantalita e columbita, material de alta resistência, muito utilizado na fabricação de eletrônicos).  


Tão logo se percebe que o conflito na RDC não é por liberdade ou democracia, trata-se de uma disputa por recursos naturais e domínio das áreas onde eles se encontram – sobretudo, no leste do país. Ressalta a matéria citada que os grupos rebeldes, particularmente o M23, são apenas a “ponta do iceberg”; submerso, está a oculta e acirrada luta das grandes potências pelo controle desses recursos. 


Neste sentido, a renúncia à luta armada por parte do M23 é parte – muito importante – do processo de pacificação e estabilização da RDC. Isto significa que, até o momento, a estratégia mais proativa e incisiva da comunidade internacional está surtindo efeito. A aprovação de uma brigada de intervenção no âmbito da MONUSCO, a missão de paz das Nações Unidas no país, e a nomeação do general Santos Cruz para comandar as tropas por lá podem promover, inclusive, um ponto de inflexão na história congolesa.  


Antes mesmo de partir para a missão, tive a oportunidade de conversar diversas vezes com o general e ficou nítido todo seu entusiasmo em assumir esta grande responsabilidade. À época, dizia ele sobre os grupos rebeldes: “estes caras só entendem duas coisas: a força e o dinheiro”. A melhor maneira de agir, em sua opinião, era pressionar esses grupos de modo que não tivessem outra opção, senão um acordo político e a inserção dos ex-combatentes em um programa de desarmamento, desmobilização e reintegração. E essa ação deveria ser permeada por contexto político favorável, negociando com atores externos envolvidos com o conflito, como Uganda e Ruanda.  


Há quase três semanas, em rápida visita ao Brasil, acabei me encontrando novamente com o general e pude ouvir as novidades de lá. Confidenciou o chefe militar brasileiro que foram travadas batalhas longas e sangrentas entre as tropas da ONU e os grupos rebeldes, além das atrocidades cometidas contra civis pelos revoltosos – cenas inimagináveis, diria ele. Ao mesmo tempo, deixava transparecer sua expectativa acerca de possíveis desdobramentos positivos na RDC.  


Um clima de otimismo,ainda que moderado, já toma conta da comunidade internacional. É preciso, no entanto, lidar com este jogo das sombras, à medida que se aprofunda a disputa pelos recursos naturais. As grandes potências – ou boa parte da alta classe delas –, que deveriam colocar a proteção dos civis em primeiro lugar, definem essa tarefa sob a ótica econômica, não humanitária. Se isso persistir, nunca haverá a superação do longo – embora segmentado – conflito na RDC.

Por e-mail, o general contou suas primeiras impressões de lá: “O Congo, em particular, é uma história fantástica e triste, de colonialismo e massacres inimagináveis. Talvez a dimensão dos números fez perder o sentido da dimensão humana dos absurdos.” Passou da hora de recuperar a humanidade.  


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Homens ao mar, e à própria sorte

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Hoje está repercutindo o naufrágio de um navio de refugiados do Quênia e da Eritreia, em que cerca de 90 pessoas morreram. Não se sabe a causa, mas a história é familiar – embarcações geralmente malcuidadas e superlotadas que trazem refugiados buscando melhores condições de vida, como as folclóricas lanchas cubanas rumo a Miami, mas muito comuns especialmente partindo do norte da África e cruzando o Mediterrâneo em direção a França, Itália e Grécia. Nesse caso, a ação da guarda costeira italiana em salvar os náufragos foi louvável, já que nem sempre isso acontece. 

A recusa sumária a refugiados é considerada infração do direito internacional. A Grécia, por exemplo, já teve problemas envolvendo denúncias recentes de estar desviando barcos de refugiados da Síria. Porém, a grande dificuldade nesses casos acaba sendo a precariedade da embarcação e a quantidade de pessoas que buscam uma nova condição de vida. 

O problema fica mais grave quando o refugiado parte para uma aventura ainda mais arriscada, como clandestino. Várias histórias de horror envolvem a morte de pessoas nessa situação, como a do navio MC Ruby, que até virou filme, em que refugiados ganeses foram mortos em 1992 pela tripulação ucraniana para que não pagassem a multa de trazer clandestinos para um porto europeu. Mas não precisa ser necessariamente um privilégio de países africanos – em 1996 o caso do Maersk Dubai trouxe algo semelhante, mas eram refugiados romenos que foram atirados em alto-mar pelo comando taiwanês do navio (e que resultou na revolta e denúncia da tripulação filipina, que acabou protegendo e salvando outro clandestino da morte). 

Essas histórias mostram o pior que o ser humano pode fazer. Basta lembrar que a maior tragédia náutica da história foi o afundamento de um navio alemão na 2ª Guerra Mundial, o Wilhelm Gustloff, com mais de 10 mil refugiados alemães a bordo e torpedeado impiedosamente por um submarino soviético. Isso passa pela crueldade para com os refugiados, desde o interesse econômico (de evitar uma multa e impedir a entrada de novas pessoas em uma economia em crise) e pela própria origem da migração: quando pessoas querem fugir para países com a economia mal das pernas como a Itália, a Grécia, ou mesmo países em situação de conflito como o Iraque (para onde muitos sírios estão indo), significa que a coisa está feia. 

O trágico é imaginar a contraposição entre as condições cada vez mais rígidas de controle de entrada e as dificuldades progressivamente maiores que esses imigrantes buscam devido à piora da situação de vida em seus países de origem. Não basta sobreviver a essa verdadeira epopeia de viajar em condições terríveis, uma verdadeira epopeia – essa é apenas a primeira etapa de um processo longo de aceitação, reconstrução, ou no pior dos casos de deportação, para recomeçar tudo do zero. O drama dos refugiados é uma questão de segurança internacional, sob diversos aspectos, e a tendência é que esse tipo de tragédia se repita, infelizmente.


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