Um ano sem aniversário

Por

UKRAINE-RUSSIA-CRISIS-MILITARY

A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


Categorias: Conflitos, Defesa, Europa, Política e Política Externa, Segurança


Terrorismo, um rabisco sem graça

Por

charb

O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


Categorias: Conflitos, Cultura, Direitos Humanos, Europa, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Os lêmingues

Por

ng3831158

Não hão nada que possa ser dito sobre os lamentáveis atentados na França que já não tenha sido comentado nesses últimos dias. Hoje, a caçada humana teve fim, com os irmãos suspeitos pela chacina do Charlie Hebdo sendo mortos em uma fábrica e apesar de notícias inconclusivas, os reféns de um mercado judaico em Paris teriam sido libertados, também com a morte do sequestrador, em ações simultâneas.

É necessário muita cautela com relação a notícias dadas em tempo real. De barrigadas a imprensa da era da internet está cheia. Mas o que se sabe é que os envolvidos em ambos os casos possuíam ligação, e existe uma tendência preocupante nisso tudo. Me valho de um exemplo tolo, mas que é bastante ilustrativo dessa dinâmica. Sou um cara grande, então quando vou a algum evento onde se pague ingresso para comer, como feiras e jantares comunitários, faço o máximo para aproveitar, o que às vezes significa repetir o prato. É interessante reparar que, após a primeira rodada, geralmente as pessoas se sentem pouco à vontade para entrar na fila novamente. Eis que fiz uma aposta com meu pai certa vez – “vou entrar na fila, e vamos ver o que acontece”. Dito e feito: logo após surgir na fila com o prato em mãos, outras pessoas começam a seguir até que se forme uma nova fila para os repetecos. Não sou nenhum especialista, mas sei que existem vários estudos sobre psicologia de multidões que reforçam esse tipo de dinâmica: na ausência de liderança, basta alguém fazer o papel de vanguarda para que outros sigam.

Para o bem ou para o mal, o ser humano é social, e tende a repetir comportamentos. E infelizmente é o que vimos nesta semana – sem novidade alguma: desde os tiros em Columbine, cresceram assustadoramente os ataques armados a escolas e afins nos EUA. Para um fenômeno como o terrorismo, que atualmente pode surgir de maneira “espontânea” com agentes independentes (lembrem dos atentados em Boston, na Austrália, e por aí vai), vemos como basta um único atentado para inspirar outros a segui-los. Infelizmente, podemos esperar que mais eventos dessa natureza possam acontecer em outras partes da Europa nos próximos dias ou meses. Como os lemmings (ou lêmingue, um simpático animal com fama injusta de ser suicida), do jogo eletrônico, em que as criaturas seguem instruções para seguir objetivos mesmo que isso cause sua morte, os terroristas do futuro estão à espera desses pequenos estímulos, impulsos, para que executem sua tarefa abominável.


Categorias: Europa, Segurança


Oriente esquentando

Por

coreia

Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Paz, Segurança


Levando na conversa

Por

130928065924-pkg-roth-iran-pres-rouhani-landmark-week-00005004-story-top

Com toda a crise do ISIS e a formação da coalizão dos EUA e amigos no Oriente Médio, um assunto que tem passado ao largo do noticiário internacional é a crise do programa nucelar iraniano. Para quem não lembra, é a grande crise geopolítica da região, mais ainda que a questão palestino-israelense, e envolve o delicado balanço de poder da região. Até a eclosão das revoltas da Primavera Árabe, era o grande tema da política norte-americana na região, e não deixa de ser – mas enfrenta complicações justamente por causa dos efeitos das revoltas, e a aproximação da data-limite para sair um acordo.

Como está a situação atual? O Iraque (antigo inimigo do Irã) tem agora um governo pró-Teerã, e enfrenta problemas com o ISIS juntamente dos curdos e com apoio dos EUA. A Síria está dividida em três, com o governo Assad (amigo do Irã), o ISIS (inimigo de todo mundo) e as forças de oposição espalhadas (que deveriam ter apoio ocidental mas estão à míngua). O Irã tem uma aproximação tímida com os EUA após a eleição de Hassan Rohani, mas ainda é tecnicamente um inimigo pelo apoio a Assad, oposição a Israel, entre outros.

Como o acordo do programa nucelar afeta isso? A negociação, envolvendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha, busca frear o programa nucelar iraniano oferecendo a contrapartida de retirar algumas das sanções aplicadas ao país por conta do mesmo. Seria a chance perfeita de barganhar um auxílio contra o ISIS – como diz a máxima realista, o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo. O problema é que existe muita desconfiança, especialmente nos EUA (onde até tem quem deseje que a coisa azede). O lobby israelense é forte e qualquer aproximação de Teerã seria malvista. Talvez a coisa funcione indiretamente – por meio, por exemplo, da Turquia, que está cada vez mais ativa na questão do ISIS e poderia fazer essa “intermediação” entre os lados. Trazendo o Irã, indiretamente a Síria estaria envolvida nessa coordenação. Um front unido contra o ISIS é irreal, mas a coordenação é possível, e um dos indicativos (ou, mais ainda, fundamentos) para isso seria a confiança resultante de um eventual sucesso nas negociações do programa nuclear.

De fato, o que temos é uma discussão cercada de mistério e, apesar das possibilidades, com um indicador de fracasso rondando as negociações. Caso isso aconteça, além da possibilidade de mais sanções serem aplicadas, perder-se-ia uma chance de ouro de formar uma aliança eficaz para os envolvidos enfrentarem uma das maiores complicações geopolíticas da história recente.

 


Categorias: Conflitos, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa, Segurança


Indignação à mexicana

Por

606x340_284884

Existe muita indignação com o grupo Estado Islâmico pelo modo ultrajante pelo qual elimina seus opositores e prisioneiros, degolando pessoas em pleno século XXI. Mas o ultraje deveria ser muito maior quando se pensa que muito mais pessoas sofrem esse destino, ou pior, bem ali no quintal do Tio Sam, por obra dos carteis de narcotraficantes mexicanos.

Desde 2010 temos notícias escabrosas de covas coletivas cheias de pessoas decapitadas, sejam imigrantes ilegais ou pessoas com dívidas do tráfico. Mas parece que foi preciso um novo grau de crueldade para que a indignação internacional finalmente fizesse com que o mundo volte os olhos para a situação do México. Há algumas semanas, estudantes de uma escola rural participavam de um ato em prol de melhorias na educação no estado de Guerrero, e logo veio a repressão policial. Nada de novo, infelizmente, mas o desfecho foi trágico – levados em camburões, 43 estudantes estão desaparecidos até hoje, apesar de dezenas de cemitérios clandestinos e corpos carbonizados terem sido encontrados. A suspeita é de que o governo esteja envolvido com um cartel criminoso e tenha enviado os estudantes para os traficantes realizarem seu trabalho sujo.

A situação do México já era considerada calamitosa há muito tempo do ponto de vista humano – mais de 10 mil mortos na “guerra” contra o narcotráfico desde a década passada. Porém, o aumento da violência escancara uma realidade comum até mesmo ao Brasil – a participação de agentes da lei no crime, mas de maneira muito mais profunda. Denúncias de militares eliminando civis são exemplares não apenas de despreparo das forças de segurança, mas de um governo em que a corrupção e o crime se imiscuem com o Estado.

O que mudou para que esse caso causasse tanta comoção? Talvez o fato de serem apenas estudantes, jovens lutando por seus direitos. Ou o fato de que, estando desaparecidos, ainda haja uma esperança, por menor que seja, da possibilidade de resgate. O fato é que a conivência de setores do Estado para com essa violência está gerando uma onda de protestos pelo mundo, inclusive no Brasil, além de reprimendas oficiais da OEA e da ONU. E claro, apesar da reação do governo federal, inflamou os protestos no próprio México, se espalhando da região para o país todo.

Fora o aspecto humanitário, acima de tudo, este ocorrido deixa uma importante informação sobre os protestos – desde a tal Primavera Árabe de 2011, quase todos os protestos que ocorrem ao redor do mundo estão tendo, em certo grau, uma repressão violenta. Do Bahrein à Ucrânia, de Hong Kong ao México, o desejo de mudança parece não ser compreendido pelos governantes, sob o risco de inadvertidamente fortalecerem o próprio movimento que visam a debelar. Esperamos que seja o caso do que está acontecendo no México.

 


Categorias: Américas, Direitos Humanos, Mídia, Política e Política Externa, Segurança


Sobre nossas cabeças

Por

size_810_16_9_nave-x37b

Nesta semana, causou um certo rebuliço na comunidade cientifica a notícia do retorno de uma missão espacial secreta dos EUA. A espaçonave retornável X-37B, um veículo de teste orbital não tripulado, esteve voando (na verdade, caindo – uma órbita planetária é basicamente uma queda sem fim em direção à curvatura do planeta) em torno da Terra, pasmem, desde 2012. Após 22 meses, seu retorno levanta uma série de questões sobre a sua misteriosa finalidade.

Há satélites que passam muito mais tempo, é claro. Mas eles são feitos para ficarem na sua órbita até o fim de sua vida útil (ou trombarem com qualquer coisa) e virarem lixo espacial. Um veículo que vai para o espaço, fica mais de um ano em órbita e volta há de ter alguma particularidade. Seria apenas uma missão de teste da viabilidade do novo veículo, mas por que não ser feito pela agência civil, a NASA? Aí que começa a especulação, que vai de espionagem a possibilidades mais estarrecedoras, como uma plataforma de armas de alcance inigualável.

Devemos lembrar que existe uma convenção internacional para o uso do espaço. De 1967, o Tratado do Espaço Exterior surgiu no auge da corrida espacial entre EUA e URSS, e serviu principalmente para definir de quem era a culpa quando uma nave ou satélite artificial caísse na Terra, e seu ponto mais famoso, o de proibir o emprego de armas nucleares e de testes dos mesmos além da nossa atmosfera. Mas não diz nada sobre armas convencionais – tanto que nos anos 80 os EUA tiveram seu sonho de projeto Guerra nas Estrelas, com lasers interceptadores de mísseis e tudo mais.

A implicação de um projeto dessa natureza é enorme em termos de estratégia – SE for de aplicação puramente militar, claro. A utilidade dos satélites espiões já é reconhecida, mas uma plataforma móvel, capaz de com ajustes de rota se posicionar sobre quase qualquer lugar do globo, fora do alcance de qualquer sistema de defesa… seria uma nova etapa na capacidade de dissuasão. Na verdade, um salto sem precedentes desde a implementação da tecnologia nuclear. Mesmo pensando em termos mais realistas, como um veículo sub-orbital, capaz de realizar suas missões viajando além da atmosfera, já seria algo preocupante para quem não dispusesse dessa tecnologia.

Porém, há pelo menos duas considerações importantes. A primeira é que, independentemente do uso, provavelmente apenas os EUA vão dispor desse luxo por um longo tempo. Programas espaciais são caros, e por mais dinheiro e mentes que o país tenha dedicados a isso (veja China ou Índia) demora muito para alcançar um grau de excelência nessa área. Ou seja, mesmo que seja uma inovação assombrosa, se apenas os EUA vão dispor disso, literalmente nada vai mudar em termos geoestratégicos. Simples assim. A segunda, um pouco mais sensata, seria de que não se trata de um projeto puramente militar. Muitas das inovações da vida comum, do forno micro-ondas à meia de lycra vieram de novidades militares. A exploração espacial moderna parece rumar para o caminho das empresas privadas, mas a pesquisa estatal não deixa de ser uma opção. Devemos lembrar que boa parte dos astronautas são militares, então não é nada inédito que possa estar havendo uma cooperação entre as agências.

Não sei se no futuro haverá guerras espetaculares com bombardeios orbitais fazendo chover destruição, mas a navegação espacial é uma realidade e, acima de tudo, uma necessidade para o ser humano. Qualquer avanço nessa área deve ser comemorado, e a capacidade de colocar um veículo em órbita e recuperá-lo inteiro mais de um ano depois é algo mais que notável.


Categorias: Estados Unidos, Polêmica, Segurança


Quem é vivo aparece…

Por

L11160A8A1DF4499A97F9B27BAA61A358

…e no caso da Coreia do Norte é uma boa notícia. A fim de desmentir boatos que circulam há semanas sobe seu estado de saúde, o líder do país, Kim Jong-un fez uma aparição pública esta semana para mostrar que está firme e forte na condução da nação. A questão é que o herdeiro da dinastia Kim estava sumido há quase 40 dias e não compareceu a eventos políticos importantes, o que causou todo tipo de especulação (especialmente dos sul-coreanos) sobre todo tipo de sinistro que pudesse ter acometido o grande líder, de um golpe militar a problemas de saúde graves, e até mesmo a morte. Na verdade, essa possibilidade ainda não está descartada – há que diga que seja um sósia roliço…

Naquele mundo à parte da realidade que existe no país asiático, o que se sabe é que Kim apareceu de bengala e parece ter a saúde fragilizada. Em essência, a confirmação de sua permanência é uma boa notícia, pois o marechal de 31 anos já demonstrou reiteradas vezes ser um líder bem mais ponderado que seus antecessores (o que o colocaria em choque com os mais conservadores e radicais do partidão). Kim Jong-un, de educação ocidental, pode ser o fiel da balança quando pensamos na relação da Coreia com sua vizinha do sul e as potências ocidentais.

Apesar dos disparos e eventuais escaramuças, atitudes recentes como a liberação da entrada de familiares separados desde a época da guerra da Coreia, e reuniões militares de alta patente reforçam a noção de que nunca antes os países estiveram tão perto de chegar a um consenso sobre seu conflito congelado. Apesar da bravataria e testes de mísseis, a possível retomada do “six-party talks”, a negociação com os EUA, Rússia e outros países sobre o programa nucelar norte-coreano é um sinal extremamente louvável de que se pode vislumbrar uma solução pacífica para a questão.

Ainda persistem temores, especialmente do Japão, além de rusgas pontuais como o problema da libertação de três americanos presos por espionagem, mas não era possível pensar nesse tipo de aproximação clara quando Kim Jong-Il estava no poder. Cercada em mistério pela censura oficial, o que dá para saber sobre a Coreia do Norte é que Kim Jong-um tem um impacto positivo nas relações internacionais do país, e a sua permanência deve ser, de certo modo, comemorada.


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Política e Política Externa, Segurança


Um ideal para lutar?

Por

1out2014

Uma das notícias mais inusitadas da semana foi a revelação de que um ativista preso em São Paulo durante os protestos da época da Copa do Mundo está hoje lutando ao lado dos rebeldes separatistas ucranianos. Assim como a notícia do ex-soldado norte-americano que se juntou aos curdos na luta contra o ISIS, são comuns as notícias de pessoas que largam tudo para se juntar a alguma causa – e explicam muito das dificuldades encontradas pelos Estados nos conflitos atuais.

Até o final da Idade Média e começo da Moderna, a regra era que Estados contratassem mercenários. Não no sentido negativo que o termo tem hoje, mas como pessoas que escolhiam um ofício bem específico, o de lutar para quem os contratasse. E era um serviço muito bem feito, como atestam os famosos mercenários suíços que pintam em quase todas as guerras do período. Com isso a população civil nem precisava se preocupar com os combates (a não ser que chegasse ao seu quintal…). Isso muda com a consolidação do Estado Moderno, que entre suas características inclui a formação de exércitos regulares, sob controle do rei (afinal, não parecia ser a melhor das ideias que estrangeiros ficassem a cargo da proteção do país) e a conscrição de soldados a partir da população civil. Acima de um dever profissional, o cidadão deveria ir ao combate por razões mais vagas, como o sentimento de dever ou o nacionalismo – ou apenas por pura obrigação para não ir preso. Isso vale para os conflitos que assolam o mundo até hoje, e como o cidadão comum geralmente não tem muito interesse em morrer pelo país (apesar das muitas exceções), é necessário que haja uma atuação pesada em termos de propaganda e alistamento (como nos EUA) para que essa atividade se mantenha. Os benefícios ofertados para o soldado de hoje tem de ser muito mais que um salário (como bolsas estudantis e plano de saúde) para que se arrisquem desse modo.

Então o que acontece com as pessoas que largam tudo para se juntar a uma causa, muitas vezes suicida, em outra parte do mundo? É irônico constatar que, enquanto noções vagas e até mesmo construídas como o nacionalismo era usadas como justificativa para a conscrição, boa parte desses viajantes o faz justamente por razões de identidade e comunidade. Talvez a primeira grande manifestação disso seja lá nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola, mas pense hoje nos americanos e ingleses que se unem à luta na Síria ou ao ISIS – fora o laço da religião não existe nada que os obrigue a isso. Mas o mundo contemporâneo possibilita a formação de redes de informação que facilitam a troca de informações e ideias, aproximando pessoas com experiências semelhantes em círculos de convivência atrativos e à revelia da noção de identidade nacional. E como pessoas sem nada a perder, dispostas voluntariamente a combater por sua causa, lutam de maneira acirrada, por vezes indo além do que se espera da disciplina militar regular e recorrendo à guerrilha e ao terrorismo.

Tal é o desafio das guerras do século XXI. Na ausência de conflitos entre democracias, os mercenários de ontem não encontram reflexo nos combatentes de hoje. O que se opõe via de regra são exércitos regulares embasados em um modelo tradicional (mas custoso para que se mantenha funcionando), contra indivíduos dispostos às últimas consequências para defender um ideal – ou mesmo a luta destes entre si.


Categorias: Conflitos, Cultura, Defesa, Segurança


Democracia, pero no mucho

Por

456254000.0

O mundo se volta para China esperando a reação de Beijing aos protestos em Hong Kong.  Iniciados nesse fim de semana, à moda dos protestos de ocupação europeus e nos EUA, pequenas multidões se aglomeravam em espaços públicos pedindo por democracia. Apesar de nem chegar perto da truculência de 1989 (mesmo por que o governo da região é autônomo), a polícia honconguesa fez o que qualquer polícia do mundo faria e chegou atirando gás nos manifestantes. A reação, como qualquer massa de manifestantes no mundo faria, foi de se aglomerar ainda mais em protesto à violência policial. O resultado é que hoje temos 80 mil pessoas nas ruas e uma incógnita.

A razão de tudo isso são as eleições do governante da ilha. Desde que deixou o domínio inglês, Hong Kong funciona num modelo de “um país, dois sistemas”, com uma autoridade semiautônoma na ilha e funcionando no capitalismo de mercado. Um dos pequenos benefícios disso era a capacidade de escolher os próprios governantes. Nisso a China não mexe – mas neste ano, porém, resolveram que é o governo central quem vai escolher os candidatos, possivelmente limitando aos amigos de Beijing. Ou seja, o povo de Hong Kong vai escolher seus líderes – mas entre os escolhidos pela China. E isso enfureceu a massa.

Agora o governo insular fica em uma encruzilhada. Tem de reprimir os protestos pois ainda é assunto de sua responsabilidade, e trazer Beijing para este cenário seria preocupante, sem contar que desagradar o governo central seria ainda pior. Por outro lado, angariar a insatisfação da população sem atender às demandas pode resultar em ainda mais protestos e a coisa sair do controle. Sem contar que Hong Kong tem uma transparência muito maior que outras partes da China para a mídia internacional, então os resultados podem ser catastróficos. A própria China já se move no sentido de tentar abafar o caso, seja para evitar intrusão estrangeira, seja para que o exemplo não espalhe ideias estranhas para outras regiões menos satisfeitas do país, mas qualquer repressão mais pesada pode ter o efeito inverso e espalhar ainda mais insatisfação como quase todas as revoltas do mundo nos últimos 3 anos demonstraram.

Desdobramentos internacionais à parte, talvez a grande lição disso tudo… seja para o Brasil. A uma semana das eleições nacionais, onde insatisfação com os rumos da política se tornam piada, fúria retórica vazia ou indiferença, a revolta do povo honconguês diz muito sobre espírito cívico, sem apelar às bobagens do nacionalismo ou da violência.


Categorias: Ásia e Oceania, Política e Política Externa, Segurança