100 anos depois: visões da guerra

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Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

O legado empírico e teórico para as Relações Internacionais

A Grande Guerra, mais conhecida como Primeira Guerra Mundial (IGM), começou o período bélico do século XX, ou seja, iniciou a sequência do que viriam a ser longos anos e décadas de conflito direto ou indireto entre potências de determinadas conjunturas. Obviamente, tratam-se da Segunda Guerra Mundial (IIGM) ocorrida entre 1939 e 1945 e da Guerra Fria, a qual terminou por volta de 1990, quando, em 1989, caiu o famoso Muro de Berlim e, em 1991, finalmente ruiu o Império Soviético. Se, por esse lado, houve mais destruição territorial e desmoronamento de Estados-nações, por outro as Relações Internacionais, com letras maiúsculas, vieram a conhecer seu período de existência, propriamente dito. Momentos nos quais essa área tomou corpo como ciência e trouxe consigo os grandes debates internacionalistas. Pode-se dizer, de outro modo, que da IGM o movimento empírico trágico dos conflitos sustentou o curso expressivo teórico dessa arena mundial.

Por conseguinte, o legado empírico da IGM foi ter conformado o futuro das relações econômicas e geopolíticas entre as principais potências. O pontapé da IGM foi o assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, fazendo com que a Áustria-Hungria declarasse guerra à Sérvia. Formaram-se, de lados totalmente opostos, a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo) e a Tríplice Aliança (Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália).

Até aqui, nada de novo na “Guerra das Trincheiras”. Entretanto, somente em 1917 os Estados Unidos entraram no conflito ao lado da Entente. Isso, inclusive, vai ser um traço característico do país: adentrar os conflitos em momentos posteriores ao seu início e sempre ter como palco territórios para além mar. Como se sabe, a Aliança foi a grande derrotada da IGM, quando, em 1918, fora assinado o Armistício de Compiègne e, em 1919, tomou forma o muito conhecido Tratado de Versalhes. Na teoria, o acordo simbolizou a “estabilidade e paz futura” nas relações intereuropeias. Todavia, na prática, proveu a culpa por todas as mazelas da guerra à Alemanha, a qual saiu derrotada e fracassada das mesas de negociação.

Adolf Hitler

Adolf Hitler

Já no final da IGM e logo após a mesma, essa postulação de vitoriosos e derrotados trouxe consigo a propagação de duas ideologias que marcaram fortemente a IIGM e a Guerra Fria, quais sejam o Nazifascismo e o Socialismo tendo como lideranças a própria Alemanha (acompanhada da Itália) e a Rússia, respectivamente. Tem-se, aqui, logo no começo do século XX, a faísca das relações interestatais procedentes. O Nazismo tornou-se ponto de apoio alemão, fez surgir lideranças como Adolf Hitler que invadiu a Polônia em setembro de 1939 e começou a IIGM. Por sua vez, o Socialismo Russo ganhou devotos e serviu de base para a criação da União Soviética, que mais tarde viria a ser um dos lados da balança no conflito frio.

A marca da Guerra Fria: o bipolarismo entre Estados Unidos e União Soviética

A marca da Guerra Fria: a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética

A Alemanha também perdeu a Segunda Grande Guerra, a Europa ficou devastada e estatísticas somam aproximadamente 60 milhões de mortos nos seis anos de pleito. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu logo após, em 1948, como outra tentativa de se estabilizar a paz internacional. Mas, de caráter central, da IIGM tornaram-se potências os Estados Unidos e a União Soviética, os quais duelaram, mesmo que indiretamente, na conhecida Guerra Fria. Episódios como a Crise dos Mísseis de 1962 mostram a importância do conflito que terminou por volta de 1990, quando a União caiu e os Estados Unidos saíram vencedores. De lá pra cá, o mundo viu-se unipolar, multipolar e uni-multipolar. Em pleno século XXI, cogita-se uma possível queda estadunidense frente a uma elevação constante da China comandando iniciativas a exemplo dos BRICS. O debate é recente e ficará para o futuro próximo decidi-lo. A única certeza é a de que a atual conjuntura é fortemente impactada pela IGM.

De modo paralelo, mas convergente, o legado teórico da IGM foi ter provido a criação, propriamente dita, das Relações Internacionais enquanto área de conhecimento, campo de estudos e/ou ciência. Foi em 1919, mais precisamente na Universidade de Gales, no Reino Unido, que se criou a cadeira Woodrow Wilson de Relações Internacionais, tornando-se a primeira instituição mundial a adotar formalmente a disciplina acadêmica. Essa data, inclusive, abrange o período inicial do livro de Edward Carr intitulado “Vinte anos de crise – 1919-1939”, conhecida obra retratante da geração do Primeiro Debate Teórico das Relações Internacionais: Realismo versus Idealismo/Liberalismo.

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

A arguição de ambos os lados vai ter como ponto de fundamento justamente o que fora dito anteriormente, ou seja, a ótica da guerra e a busca plena e final de uma ordem de paz. Teóricos como Hans Morgenthau e Raymond Aron foram fortemente influenciados pela IGM, IIGM e Guerra Fria, fatos que comprovaram e deram sustentação às suas obras literárias. Se, de um lado, realistas se baseavam nas relações entre Estados e na anarquia internacional, de outros os liberais postulavam que um mundo melhor e mais pacífico deveria ser buscado.

Dessa primeira contenda proveio o Segundo Debate Teórico das Relações Internacionais com oposição entre Tradicionalismo versus Behaviorismo por volta da década de 1950. Aqui tomou forma uma querela metodológica no se pensar “Como fazer as Relações Internacionais?”. A explicação da realidade se opunha à compreensão da mesma e o novo “pensar científico” proveu as bases para o que veio a seguir. Em 1970/80, o Terceiro Debate Teórico das Relações Internacionais, o Neorealismo versus Neoliberalismo (Neo-Neo) surgiu contrapondo nomes como Kenneth Waltz e Robert Keohane. Obviamente, novas nuances surgiram aqui, mas a velha ótica do conflito e a busca por cooperação permaneceram da herança do primeiro debate pós-IGM.

Similarmente ao legado empírico da IGM para o atual século XXI, o teórico também se encontra em constante mutação e volubilidade. Já se postula a geração de um Quarto Debate Teórico das Relações Internacionais entre Positivismo versus Pós-Positivismo. É daqui que provêm teorias como Construtivismo, Teoria Crítica, Feminismo, Pós-Modernismo, etc. Se, como dito lá atrás, a China e os BRICS colocam reticências na conjuntura geopolítica mundial, pode-se afirmar o mesmo dessas novas concepções conceituais e teóricas, posto que elas também questionam os discursos dominantes anglo-saxões das Relações Internacionais.

Permanecem a dúvida e a incerteza para com as atuais conjunturas das relações internacionais, com letra minúscula, e das Relações Internacionais, com letra maiúscula. De todo modo, temos a confiança de que a IGM carrega consigo um imenso legado empírico e teórico para essas áreas. O jargão parece senso comum. Todavia, seria infundável afirmar que a Grande Guerra não deteve aspecto central nas relações internacionais. Todo esse jogo econômico e geopolítico do século XXI fundamenta-se lá atrás, entre 1914 e 1918, justamente no nascedouro da “ciência internacional”.


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100 anos depois: visões da guerra

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Venceslau_Brás_declara_guerra_1917

O Brasil na política dos gigantes

Em 1914, o Brasil era outro. Era uma república nova, de fronteiras recém-delineadas, e muito dependente da produção e exportação de café. Um país dos grandes Barões de Café, e de seus estados produtores, que se enriqueciam a cada nova orientação de política fiscal e econômica em benefício do produto. Estado também dos grandes latifundiários que concentravam o poder político e econômico em outras regiões mais ao interior do país. No período, o Brasil era centro da produção mundial cafeeira, dominando quase um quinto do total. A despeito de tentativas de novos exportadores, como a Colômbia, a competição com o café brasileiro era ainda impensável.

À frente da Presidência, estava o político mineiro Wenceslau Brás. O presidente ainda buscava a unidade nacional, sonho de militares, diplomatas e intelectuais brasileiros. A despeito da estabilização das fronteiras no início do século, o país ainda defrontava-se com disputas internas, como a guerra do contestado entre Santa Catarina e Paraná.

Na diplomacia, como em outras áreas de governo, mantinha-se o principal traço do final da monarquia: a indistinção entre a carreira pública e o espaço privado. Não havia, portanto, a tão aclamada burocracia do atual Itamaraty. Nossos diplomatas eram representantes de famílias com tradicional envolvimento na política ou na vida militar. O ministro à época, Lauro Müller, carregava essas características. O sucessor do Barão do Rio Branco, descendente dos primeiros imigrantes alemães no país, era ex-militar e havia sido governador provisório de Santa Catarina, quando foi convidado à carreira diplomática.

Em seu conjunto, a diplomacia brasileira ainda vivia sob o impacto do falecimento de Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco. Sua atuação brilhante, estabilizando as fronteiras do Brasil e corretamente, aproximando-se da potência ascendente – ao optar pela substituição do eixo Brasil-Europa pelo Brasil-Estados Unidos – inspirou a orientação dos anos ulteriores. Porém, seu estilo centralizador no Itamaraty deixou poucos espaços para a formação de uma burocracia coesa. Assim, os ministros tentavam ainda suprir o vazio sua ausência.

Iniciado o conflito na Europa, o Brasil optou pela neutralidade. Os intelectuais e homens públicos da época dividiam-se quanto à entrada do Brasil na guerra. De um lado os germanófilos, como Monteiro Lobato e Lima Barreto, defendiam a Tríplice Aliança. De outro, a maioria dos intelectuais, altamente influenciados pela cultura francesa da belle époque, preferiam a Entente.

Com a guerra, as exportações de café para nossos principais mercados decresceram significativamente. A utilização dos submarinos como arma, interrompeu as vias marítimas e dificultou o processo. Além da dificuldade logística, a Grã-Bretanha também inseriu o produto na lista de contrabando de guerra, complicando ainda mais a já difícil exportação cafeeira.

torpedeado navio brasileiro

O torpedeamento do navio mercante brasileiro Paraná, em 1917, pelos alemães foi um dos fatores mais imediatos que motivaram a entrada do Brasil na guerra. A imprensa e a opinião brasileira alvoroçou-se, pressionando o governo para entrar no conflito. Os a favor da Tríplice Entente, que já eram maioria, receberam o empuxo faltante para verem concretizada seu interesse. Em junho, o Brasil encerrou sua neutralidade e, após o torpedeamento do quarto navio mercante, declarou guerra à Tríplice Aliança. Assim começou uma história do único país sul-americano na Primeira Guerra Mundial, que teria consequências e influências futuras em sua história econômica e diplomática.

A participação brasileira foi bastante peculiar. A princípio, havia enviado uma missão médica direto à França e uma divisão naval, que iria primeiro a Dacar, a capital colonial francesa – futuro Senegal –, para depois juntar-se à Marinha da Grã-Bretanha. Porém, a divisão naval foi acometido pelo vírus da gripe espanhola, que provocou o falecimento de grande parte da tripulação. O resultado foi a entrada tardia da Marinha do país no conflito, um dia antes da assinatura do armistício, em 1918.

A história do país no conflito foi curta e com alguns prejuízos econômicos. Mas, se por por um lado, a participação brasileira no guerra não fora tão expressiva, por outro, o país foi capaz de retirar um número significativo dividendos positivos de sua atuação, tanto no plano econômico quanto diplomático. A economia da guerra dificultou o escoamento do café brasileiro para a Europa. Como forma de solucionar a dificuldade, o Brasil aproximou-se comercialmente dos Estados Unidos, passando a depender da demanda norte-americana. Essa nova relação comercial também culminou em muitos investimentos estadunidenses no país, tornando o Brasil não só um importante parceiro político, mas também comercial.

Um impactos mais interessantes da Primeira Guerra esteve no ponto de vista diplomático. No período, o mundo veria o germinar de uma nova característica do sistema internacional, a presença de instituições multilaterais, e o Brasil, com sua diplomacia oportunista, começaria a construir um consenso entre elites nacionais da importância que se desejava para o país nesse novo sistema. Dada sua participação no conflito, os bons relacionamentos diplomático-econômicos com os governos estadunidenses e a habilidade política do embaixador brasileiro Domício da Gama nos Estados Unidos, o governo brasileiro obteve três delegados nas Conferências de Paz de Versalhes, Epitácio Pessoa, Pandiá Calógeras e Raul Fernandes. As grandes potências participavam com cinco e as potências menores com dois ou um.

O fim da conferência foi o início do projeto do presidente norte-americano Woodrow Wilson de uma grande organização para regular as relações entre os países, a Liga das Nações. De forma semelhante ao sistema ONU, a Liga era composta por um Conselho Executivo, de membros permanentes e rotativos. Devido ao prestígio, o Brasil era recorrentemente reeleito como membro-rotativo, e desde 1921, desejava um posto permanente.

Aos poucos, construiu-se o consenso entre alguns setores das elites nacionais de que o Brasil, por seu prestígio político-diplomático, deveria estar no centro das grandes decisões internacionais e, portanto, seria o representante autodeclarado da América – considerando que os Estados Unidos não ratificaram o Tratado de Versalhes. Ideias que repercutiram em um dos mais peculiares episódios de nossa diplomacia, a retirada do país da Liga das Nações, quando da inclusão alemã como membro-permanente. Mesmo após esse período, o entendimento das elites do lugar do Brasil a ser ocupado no mundo permaneceu, e viria a ser retomado, décadas depois, ao tratarem da reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Ao observarmos o conjunto da história do Brasil na Primeira Guerra Mundial, vemos a narrativa de um país em transição, de regime e na formação de suas ideias político-econômicas. Se o conflito teve alguma contribuição significativa para o Brasil, o campo da política externa salta aos olhos como um dos principais. Poder-se-ia argumentar que o Brasil havia realizado uma leitura errada de seu papel no mundo por razões de legitimidade interna, e, por isso, teria passado por um constrangimento internacional. Porém, ilusão ou não, não se pode negar que a diplomacia brasileira ainda persegue um status diferenciado no mundo e Primeira Grande Guerra teve papel importante na construção desse imaginário. Tratou-se, portanto, da história de um Brasil que, por diversas razões, arriscou-se na política dos gigantes.


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100 anos depois: Visões da Guerra

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Réconciliation

[Franz Marc, Réconciliation, 1912]

Sobre reconciliação e transformação

Uma guerra pode ser analisada sob diferentes perspectivas. Os principais aspectos políticos, econômicos e estratégicos tendo sido apresentados em textos anteriores da série “100 anos depois: Visões da Guerra” (confiram aqui), a reflexão de hoje se concentra nos aspectos de reconciliação e transformação do conflito.

Em uma linha temporal, pode-se avaliar que qualquer conflito passa por diferentes momentos: prevenção (antes), gestão de danos (durante), e resolução e transformação (depois). Isto significa que, quando os mecanismos pacíficos de negociação e diálogo se esgotam, têm início confrontações diretas que levam ao sofrimento de todos, mas especialmente da parte que se mostra mais frágil durante os confrontos. Fatores que impactaram diretamente no pós-Primeira Guerra foram: a duração do conflito, sua quantidade de vítimas, o poder de destruição vislumbrado e as perdas provocadas por um confronto sem precedentes.

Um legado importante para esse processo, protagonizado por parte do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), foi a evolução no tratamento dos prisioneiros durante a guerra. Antes, no decorrer de um conflito, dificilmente poderia ser esclarecido se os soldados dados como desaparecidos tinham efetivamente morrido durante os combates ou se encontravam em poder do inimigo. Destaca-se a importância da “Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra” no árduo processo de reestabelecimento de laços familiares entre aqueles milhares de prisioneiros que, protegidos pelo direito internacional humanitário, não mais podem constituir alvo ou “moeda de troca” durante o conflito, e suas famílias. Os esforços neste sentido culminaram na Convenção relativa aos Prisioneiros de Guerra de 1929 (arcabouço utilizado durante a Segunda Grande Guerra) que baseou a própria III Convenção de Genebra de 1949. Garantir, reciprocamente, a dignidade de tratamento dos combatentes em poder do inimigo por si só constitui um argumento importante para criar as bases futuras de reconciliação pós-conflito.

A resolução do conflito, no momento em que as partes chegam a um acordo de cessar-fogo, constitui momento essencial para o fim das hostilidades, porém representa apenas o primeiro passo de um longo caminho de transformação que deve ser percorrido pelos beligerantes para uma paz duradoura.

Conceitos como memória, perdão, verdade e justiça se enquadram no dito momento de transformação, talvez o mais complexo e demorado a ser alcançado. Entender a paz não somente como ausência de guerra (a chamada “paz negativa”), mas principalmente como construção de um ideal comum de convivência destaca-se como elemento crucial no processo de reconciliação.

Com a Conferência de Paz de Paris, em 1919, foi ainda constituída a Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), organismo internacional multilateral destinado à meta de manutenção da paz que se desenhou no pós-Guerra, porém diante de um contexto geopolítico de grandes diferenças e desconfianças, pautado pela visão dos “vitoriosos” que logo veria uma nova ascensão de regimes totalitários. O “esboço” da estrutura da atual Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou ideais importantes, apesar de suas dificuldades de concretização na prática, e lançou as bases para o debate sobre responsabilidades coletivas em prol da reconciliação e da paz.

Uma Europa pacificada não seria, contudo, realidade duradoura após o final da Primeira Grande Guerra, que só foi “primeira” porque não foi única, tendo sido seguida, poucos anos depois, por mais um confronto de dimensões mundiais.

Charge Plantu

[Tradução: 1) Membro de milícia vingando a morte de seu cunhado em 1917; 2) Soldado vingando o estupro de sua prima em 1944; 3) Bebê pensando em vingar seu pai em 2023.]

A construção de uma memória coletiva em que a vingança não figura como atitude prioritária leva gerações, tal como a charge acima ilustra. Se a guerra oficialmente se encerrou em 1918, certamente na prática levaria décadas para desaparecer do imaginário popular – tempo não respeitado pela subsequente consecução da Segunda Grande Guerra.

Relembrar o ocorrido, com o grande objetivo de não reproduzir atos nefastos como aqueles perpetrados há 100 anos, constitui parte do processo de transformação ainda vivido pelo continente europeu e pelo mundo inteiro. A imagem abaixo retrata o projeto comum de paz, união e democracia por meio de um abraço carregado de simbolismo e impensável há exatamente um século.

Abraço

Os presidentes da França e da Alemanha, Francois Hollande e Joachim Gauck, respectivamente, estiveram na última semana em Hartmannswillerkopf, na Alsácia, em um monumento que marca os cem anos da declaração de guerra da Alemanha à França, local onde estão as cinzas de aproximadamente 12 mil soldados desconhecidos, cujas vidas se perderam durante os anos de conflito.

Nas palavras do general norte-americano William T. Sherman, “somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno”. Se as consequências da guerra são dolorosas, tal como as da Primeira Guerra o foram, construir coletivamente os meios para superá-las se faz mais do que necessário. Deve-se potencializar, portanto, uma reconciliação não apenas baseada em imposições, mas principalmente na transformação de mentalidades de modo a que não mais se enxergue a guerra como uma opção e tampouco o outro como inimigo.


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100 ANOS DEPOIS: VISÕES DA GUERRA

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Plano de Schlieffen

Nada de velho no front. As novidades introduzidas pela Grande Guerra, a mãe de todas as demais guerras do século XX, influenciaram, para bem ou para mal, o pensamento estratégico-militar nos últimos cem anos. A velha guerra, inevitável e apocalíptica, foi vítima da agonia imperialista que abocanhou as grandes potências no último quartel do século XVIII e contaminou todo o mundo. A paz centenária foi cortada pelo barulho estridente das metralhadoras, e a belle époque sucumbiu ao quadro vermelho enegrecido da destruição.

Uma triste poesia aviva a memória dos esquecidos. Wilfred Owen, militar e poeta inglês, narrou em seu histórico poema “É doce e honroso” o desespero da morte provocado pelas bombas de gás e finalizou criticando a irracionalidade do conflito: “Meu amigo, você não iria, com tão grande entusiasmo e idealismo, contar/Para as crianças desejosas de alguma glória desesperada/A velha mentira: é doce e honroso morrer pela pátria.”. Sete dias antes do armistício, Owen morreu pela pátria, sem doçura ou honra.

Traço comum também está na obra de Erich Remarque, que sobreviveu às trincheiras e cuja frase que inicia este post parafraseia seu livro. A ruína da guerra centenária é retratada, por exemplo, nas menções aos efeitos do gás nos combatentes, que os fazia “vomitar seus pulmões queimados”. Mais impressionante, e reflexo da ruína, é o sentimento de desilusão: “Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra.”

O ar melancólico carregado por esses e outros sopros poéticos está indissoluvelmente ligado à capacidade de produzir o horror, até então sem precedente histórico. Para muitos, a Primeira Guerra Mundial inaugurou o período mais extremo da guerra moderna, desde a queda de Constantinopla (1453): a totalização da guerra. O aprimoramento das técnicas militares ampliou largamente o potencial de destruição.  A distinção entre alvos civis e militares se fez cada vez menos presente no planejamento estratégico-militar. Retornou-se à barbárie que se supunha superada: todas as atividades da vida de um Estado passaram a ser objeto de ações adversárias. O extermínio de populações, se necessário, tornou-se aceitável enquanto condição para se alcançar uma vitória absoluta sobre o inimigo.

A Grande Guerra é a antítese do progresso, material e filosófico, da Revolução Industrial. As estradas de ferro e a telegrafia sem fio, que tanto aproximaram povos e nações, colocaram-nos em campos opostos. Do motor a explosão e o motor elétrico, vieram os aviões, os carros de combates – estes dois não foram plenamente aproveitados neste conflito – e os submarinos, acompanhados de uma artilharia pesada (agora móvel) e com maior calibre, de metralhadoras mais leves e automáticas, dos gases de combate e do lança chamas. A guerra submarina, a propósito, talvez seja a principal expressão do desenvolvimento científico e tecnológico a serviço da belicosidade e, ao mesmo tempo, do avanço do front em direção aos não combatentes. Os submarinos, não apenas cortavam os suprimentos logísticos dos beligerantes, senão também condenavam à fome os cidadãos.

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Por suas características, a Primeira Guerra Mundial é enquadrada como uma guerra de segunda geração (iniciada em 1860 e encerrada com esse conflito). Nela, prevaleceram a supremacia do fogo sobre o movimento e a disciplina sobre a iniciativa. O combate era simultaneamente estático e de atrito, em que o atacante “empurrava a linha” e o defensor “segurava a linha”. A divisão do confronto centenário em duas fases retrata bem essa geração da guerra: a primeira fase, de movimento, de agosto a dezembro de 1914, com a tentativa frustrada da Alemanha implementar o Plano Schlieffen, e a segunda, de posição, após a fracassada ofensiva franco-britânica em Artois, 1915, até a vitória aliada na Batalha de Amiens, em agosto de 1918.

A segunda fase é, sem dúvidas, a mais agonizante. As trincheiras transformaram-se em sua marca inesquecível. Naqueles estreitos buracos de podridão, conviviam, harmoniosa e heroicamente, o ódio, o companheirismo e a esperança. Os combatentes bem sabiam que bastava um único comando para que esses sentimentos aflorassem. Eis o grito: “para cima!”. Todos saíam e se lançavam contra o inimigo entrincheirado, sem se importar com os canhões, metralhadoras e granadas, até o assalto final, quando a baioneta, a faca e a pá se convertiam nas melhores armas – para os sobreviventes, é claro, desse curto percurso fúnebre.

A tentativa alemã de vencer a defesa de Verdun, travada entre fevereiro e julho de 1916, é bastante representativa da segunda fase da guerra. Trata-se de uma batalha de 2 milhões de soldados, com um milhão de baixas. Imponência maior é demonstrada pela quantidade de granadas lançadas nesse período: 22 milhões de alemãs contra 21 milhões de francesas (quase 290 mil granadas por dia!). Ressalta-se que não é por acaso que a melancolia ditou o tom da literatura pós-guerra. Nem é o acaso que levou Einstein a perguntar a Freud, na carta que lhe enviou, se seria possível controlar a evolução da mente humana, de modo a torna-la à prova das psicoses do ódio e da destruição.

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A Primeira Guerra Mundial põe fim a uma geração. Só que, como todo acontecimento humano, a guerra traz suas conexões entre o passado e o futuro. A gênese da blitzkrieg remonta as tropas de assalto alemãs (sturmtrüppen) utilizadas intensamente na primavera de 1918. O Plano Schlieffen recupera a mesma estratégia que o general cartaginês Aníbal empregou para aniquilar os exércitos romanos na Segunda Guerra Púnica e prenuncia o que seria o maior objetivo estratégico-militar norte-americano no século XX: ser capaz de lutar duas guerras ao mesmo tempo em qualquer parte do globo. E a extensão do front para a população civil pode ser notada hoje, grosso modo, nos bombardeios israelenses a única usina elétrica na Faixa de Gaza.

Nem é doce nem é honroso morrer pela pátria, principalmente quando novas invenções elevam o medo e a dor da morte a um patamar jamais visto. Por isso a guerra nunca morreu na memória histórica da humanidade e tampouco deixou de influenciar o século XX de diversos modos. Ainda há muito a ser contado e lembrado.


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100 anos depois: visões da Guerra

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“O dinheiro é a raiz de todos os males”. O famoso adágio, na verdade uma corruptela de citação bíblica, não poderia ser mais verdadeiro quando consideramos um dos maiores terrores que afligiu a raça humana, havendo quem considere que a Primeira Guerra Mundial tenha sido um conflito bem mais violento (apesar de menos mortes) que a Segunda. Nesse caso, o impacto na Economia andou de mãos dadas com a Política, e este será o tema de nossa imersão pelo tema de hoje.

Para entender a guerra de 1914, devemos retroceder um século antes – na época das campanhas napoleônicas, raiz da criação do principal fator político do conflito, o chamado Concerto Europeu. Com a saída de cena do imperador francês derrotado, as potências europeias instituíram um sistema (chamado até por alguns de uma governança primitiva) em que reuniões diplomáticas manteriam a estabilidade entre as potências e evitariam novas guerras ou que um novo Napoleão surgisse. O problema é que, como nos aponta Henry Kissinger, não contavam com um ardiloso general prussiano, Otto von Bismarck, que não apenas conseguiu dar vida ao pior pesadelo da França desde os tempos de Richilieu, ao unificar os germânicos, mas habilmente manteve o sistema estável fazendo e desfazendo alianças enquanto criava um gigante industrial.

O surgimento da Alemanha, incrustada no meio da Europa, causou não apenas um tremor político, mas também econômico. Até meados do século XIX, a Grã-Bretanha, grande potência mundial, o império onde o Sol nunca se punha, se encontrava na liderança econômica e financeira com sua marinha mercante, o maior mercado consumidor e seus banqueiros. No começo do século XX, isso mudou – rivais industrializados como EUA, Alemanha e Japão despontavam. Porém, todos compartilhavam a maior característica da economia internacional no momento – a adoção do padrão-ouro clássico, que garantia o equilíbrio de preços mediante o lastreamento de moedas em ouro com câmbio fixo, não apenas fortalecia a Libra, como permitiu ao mundo conhecer um período extremamente integrado de produção e comércio internacionalizados.

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Porém, o século XX trouxe nuvens sombrias. A balança europeia, sagazmente equilibrada por Bismarck, não teve o mesmo tratamento por parte de sucessores menos doutos como Napoleão III ou o Kaiser Guilherme II, e o resultado foi a guerra Franco-Prussiana, o conflito entre as potências continentais que resultou no sistema de alianças que seria a gênese da I Guerra Mundial. Além da rivalidade geopolítica, a instabilidade crescente era reflexo também de conflitos econômicos, seja a luta por mercados, seja a entrada tardia da Alemanha no clube dos Impérios. O efeito cascata das alianças, que deveria neutralizar as animosidades pela iminência de conflito, não resistiu ao avanço tecnológico e industrial dos beligerantes representado em uma genuína corrida armamentista assentada em linhas férreas, nem ao jogo de provocações entre as potências que estourou naquele julho de 1914.

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A consequência econômica mais profunda e duradoura do conflito, certamente, foi o choque do padrão-ouro e o fim do comércio liberal. Autores como Jeffry Frieden consideram que aquele tenha sido um momento com integração de mercados ainda maior que o atual, pois apesar da tecnologia ainda incipiente haveria menos barreiras ao comércio. A consequência mais famosa, a Crise de 1929, seria um dos frutos dessa instabilidade financeira. Destruídos pela guerra, os países europeus abandonaram o padrão e se afundaram em dívidas com financiamento de títulos norte-americanos. De fato, a entrada dos EUA se deu muito mais pelo risco de calote em caso de derrota de seus devedores do que pelo clamor da opinião pública de lá. A crise de superprodução subsequente, o crack de 29 e o aumento da intervenção estatal nas economias têm seus efeitos até hoje. Se o atual sistema foi moldado em Bretton-Woods, após a Segunda Guerra, a herança de barreiras comerciais e intervencionismo que dificulta o serviço da OMC ate hoje começa com a derrocada dos Europeus em 1918.

Politicamente, a destruição na Europa também significou o fim dos Impérios. A grande onda de independências que sucedeu com o final da Segunda Guerra Mundial não surgiu de uma hora para a outra – a fragilização do poder metropolitano, participação de soldados coloniais e de protetorados na guerra europeia e o despertar ideológico nacionalista teve seus impactos do Oriente Médio à Indochina. Quem perdeu com isso, definitivamente, foi a Inglaterra, alijada de sua posição de centro econômico e político do mundo. Tal posto viria a ser assumido por uma potência relutante, os EUA, que já apresentavam a maior economia do mundo mas fechados ao comércio. Sua progressiva participação em assuntos internacionais e integração aos mercados estrangeiros teria suas consequências nas décadas seguintes.

Enquanto isso, na Europa, o tratado de Versalhes causava enorme pressão econômica e política nos derrotados.  A crise fomentava o conflito entre os socialistas, em excitação após o sucesso da revolução na Rússia, e partidos de extrema direita que tiveram os resultados lamentáveis vistos 20 anos depois.

Por fim, mas não menos importante, a breve participação do Brasil não conflito não deixou de afetar nossa economia de maneira profunda: as oscilações no preço de nossa maior exportação, o café, por causa do conflito, fizeram com que o país adotasse diversas medidas com a finalidade de garantir o preço do grão e proteger o produtor nacional. Apesar de todos os esforços, a situação se mostrou insustentável após a crise de 1929, e com a ascensão de Getúlio Vargas, o País passa lentamente a tomar o rumo da industrialização, ainda que pontual, consumada durante a guerra mundial seguinte. Sem o choque na produção cafeeira decorrente do conflito, a gênese do processo de evolução da matriz econômica brasileira e uma das causas da ascensão de Vargas, a industrialização poderia ter sido muito mais tardia.

Portanto, vemos que a consequência mais profunda do conflito foi o legado do conflito entre medidas liberalizantes e protecionistas. Até hoje os governos enfrentam dificuldades para adentrar mercados enquanto levantam barreiras para proteger seus setores sensíveis, barreiras estas que surgiram em sua versão moderna como um reflexo necessário do esforço de reconstrução pós-guerra. A época dourada do livre comércio encerrada em 1914 não teria semelhante até que caísse a Cortina de Ferro, e ainda assim com um grau menor de integração. Porém, a economia também encontrou efeitos mais pontuais (e positivos) como resultado do desenvolvimento de novas tecnologias. Basta lembrar de coisas hoje rotineiras, como os aviões com fuselagem de metal (desenvolvidos durante a guerra), fertilizantes (cuja necessária fixação de nitrogênio foi descoberta pelo mesmo homem que inventou armas químicas usadas pela Alemanha) e até mesmo a cirurgia plástica (surgida em sua acepção moderna com o pioneiro Harold Gillies tratando de soldados feridos ou desfigurados), que movimentam a economia e trouxeram inúmeros benefícios para a sociedade, tiveram sua origem naquele nefasto quinquênio.


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Série Especial: 100 anos depois: Visões da Guerra

Por

“Filas de rostos pálidos murmurando, máscaras de medo,

Eles deixam as trincheiras, subindo pela borda,

Enquanto o tempo bate vazio e apressado nos pulsos,

E a esperança, de olhos furtivos e punhos cerrados,

Naufraga na lama. Ó Jesus, fazei com que isso acabe!”

(Siegfried Sassoon citado por Eric Hobsbawm em “Era dos Extremos”)

Soldado alemão ferido em maio de 1915

Soldado alemão ferido em maio de 1915

Introdução

Quando começou o século XX? Para muitos, a resposta parece óbvia. Mas, para as relações internacionais, pode-se dizer que esse marco temporal remete-se ao ano de 1914. Afinal, o que tal data tem de tão importante para autores famosos das mais variadas linhas de pensamento como Eric Hobsbawm em seu livro “Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991)” ou Jeffry Frieden em “Capitalismo Global – História econômica e política do século XX” pontuarem 1914 como o início do último século ou fase do “Tudo o que é sólido desmancha no ar…”*? A resposta, num primeiro momento, é bem simples: 1914 remonta ao início do primeiro grande conflito de proporções globais, a Primeira Guerra Mundial.

No dia 28 de julho de 1914, há exatos cem anos, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia em virtude de instabilidades políticas cujo estopim foi o conhecido assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando em junho do mesmo ano. A partir de então, as grandes potências da época organizaram-se em duas alianças: a Tríplice Entente composta por Reino Unido, França e Império Russo e a Tríplice Aliança formada pelo Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália.

Também conhecida como “Guerra das Trincheiras”, a Primeira Guerra Mundial perdurou até 11 de novembro de 1918, quando fora assinado o Armistício de Compiègne entre a Alemanha e a Tríplice Entente, esta já não mais contanto com a participação russa, mas possuindo o adendo dos estadunidenses, os quais entraram no conflito em 1917. Durante mais de quatro anos o mundo conheceu o que viria a ser “A Era da Guerra Total”**, posteriormente também denominado de “Século das Revoluções”***.

Salão do Palácio de Versalhes palco que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919

Salão do Palácio de Versalhes: palco que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919

Seu marco temporal final, conforme mencionado acima, perdurou até 1918. Todavia, mesmo passados cem anos, vemos nas relações internacionais contemporâneas uma ordem que se remete e resulta daquele grande conflito. A assinatura do armistício trouxe um ponto e vírgula, mas não um ponto final aos conflitos entre as grandes potências. Exemplo maior dessa constatação veio logo em seguida com as conhecidas Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria.

Mesmo conhecendo o que havia de pior à época, a Primeira Guerra Mundial trouxe inúmeras mudanças ao cenário internacional nos seus mais variados âmbitos, os quais incidiram na política, economia, defesa, estratégia, sociologia, dentre outros assuntos vitais para as relações internacionais. Deste modo, procurando compreender o conflito, bem como entender o que a guerra trouxe de novo ao século XXI, a Página Internacional inicia hoje uma série especial intitulada “100 anos depois: Visões da Guerra”.

Ao longo das próximas semanas, traremos alguns textos com o intuito de trabalhar com os aspectos da Primeira Guerra Mundial citados no parágrafo acima. Dentre os mesmos, procuraremos lançar observações aos seguintes questionamentos:

1) Quais foram os impactos econômicos e políticos do conflito na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos?

2) Quais foram as nuances estratégica-militares e como elas influenciaram o pensamento estratégico no decorrer do século XX?

3) Qual foi o papel do Brasil no conflito? Como se portava o ambiente nacional naquele período e em que se sustentava nossa Política Externa?

4) Quais foram os reflexos da guerra na memória da Europa? No pós-guerra, que faceta os países tomaram após as reconciliações?

5) Qual o legado do conflito para a Segunda Guerra e a Guerra Fria, bem como para o surgimento das Relações Internacionais enquanto campo de estudos/conhecimento?

6) Quais foram os impactos sociais e culturais da guerra? Qual era o ponto de vista das populações que vivenciaram esse momento histórico?

Assim, a Página Internacional não poderia deixar em branco o centenário de um evento histórico que mudou o decurso político e proveu os meios de sustentação para o surgimento das Relações Internacionais, propriamente ditas. Nosso objetivo será incitar o debate e observar como aproximadamente quatro anos (1914-1918) tiveram no século XX e ainda possuem, em pleno século XXI, influência direta nos ordenamentos internacionais. Os anos que despedaçaram a Europa foram os mesmos que criaram um novo meio de se fazer e viver a política internacional.

Boa leitura!

* O excerto faz jus ao título do sexto capítulo do livro de Frieden, no qual o autor inicia sua análise ao que denomina “Tudo se desmorona, 1914-1939”.

** O excerto faz jus ao título do primeiro capítulo do livro de Hobsbawm, no qual o autor inicia sua análise ao que denomina “A Era da Catástrofe”.

*** O excerto faz jus a uma frase do documentário “Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá” do cineasta Silvio Tendler.


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