A educação em 2012

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As políticas públicas de um país são base para comparar seus resultados em determinado período histórico. Porém, olhar para indicadores nacionais somente não basta. Assim, cresce o interesse por estudos conduzidos por organizações internacionais que ofereçam um parâmetro para entender o posicionamento do país em relação aos demais. Para a educação não é diferente. A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) conduz estudosquantitativos para todos os níveis educacionais. Os indicadores obtidos e as conclusões apresentadas ajudam a construir e revisar as políticas adotadas, pautadas essencialmente no desempenho passado.

No último estudo Um olhar sobre a educação, a porcentagem de jovens que concluiu o ensino terciário é moderadamente superior à geração de nossos pais. Destaca-se, neste sentido, o avanço de países como: Coréia do Sul, Japão, França e Irlanda. Os países da OCDE, na faixa etária de 25-34 anos, aproximaram-se dos 40% de conclusão dos estudos superiores. A geração de 55-64 anos tem um índice pouco superior a 20%. Os países do G-20, considerando a mesma comparação, avançaram menos. Com relação aos estudos secundários, ultrapassamos a marca de 80% da população com diploma nos 25 países da OCDE com melhores resultados.

Em direção oposta, surgem alguns países. Tanto os Estados Unidos quanto Israel, por exemplo, não avançaram, apesar de continuarem com resultados melhores que a média. O Brasil novamente aparece como destaque negativo, ultrapassando a barreira dos 10% para a conclusão do ensino superior, 3 vezes menor que o resultado médio dos países do G-20. Pior que o Brasil, entre os emergentes, somente a China. É curioso notar que os países em crise, especialmente Espanha e Irlanda, mais que dobraram seus resultados para os estudos terciários. Um país que enfrenta 51,5% de jovens desempregados, como a Espanha, aliado a queda da evasão escolar, tende a ver o problema se intensificar. 

Há aí um paradoxo. Não seria a educação o principal indicador do capital humano de um país? De certa forma, os resultados educacionais indicam as habilidades e o potencial existentes em uma determinada população, não? O PISA, assim como o “Um olhar sobre a educação”, fornece importantes ferramentas para entender a eficácia das políticas adotadas e para definir prioridades. Como explicar então países que têm bons índices educacionais e economias em crise? Apesar da dúvida, ainda existe uma certeza: melhor investir em educação do que deixar de fazê-lo. Mantidas as tendências atuais, a população brasileira com diploma universitário seguirá crescendo em nível inferior aos países da OCDE, nosso índice próximo de 50% para a educação secundária tampouco constrói um cenário favorável no curto prazo.

A educação, em tal contexto, pode ainda criar outro problema. Jovens buscam a educação superior como forma de atender a demanda do mercado por profissionais com melhor capacitação e formação, ao passo em que os formados de alguns países enfrentam dificuldades para se colocar no mercado. No Brasil é diferente, a carência de profissionais acaba formando um quadro favorável para os que concluem o ensino superior. Mais do que isto, faltam profissionais. Desta forma, quem vai sustentar o crescimento dos emergentes? Justamente os que sustentaram o crescimento global na última crise são aqueles que precisam incrementar a capacitação de seus jovens. Falta de um lado do globo enquanto sobra de outro. Resta saber se o “novo mundo” vai sustentarseu crescimento por intermédio do “velho mundo”, ou se resolverá desigualdades e desequilíbrios internos para crescer de forma sustentada.  


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 10]

[Encerra-se, hoje, a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Desde já, a equipe da Página Internacional gostaria de agradecer imensamente sua contribuição, que aumentou bastante o leque de temas trabalhados no blog. Este décimo post analisa algumas consequências de “políticas desajustadas pelo mundo”. Aproveitem a leitura!] 

Jogos Vorazes: verdade ou desafio? 

Nem todo conluio é vão, em natureza e fins. Verdade ou desafio? 

Na ficção, sempre que há a incomoda presença das irmãs repressão e opressão, levantes se tornam peças no tabuleiro de jogos tão vorazes. É assim em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), em Fahrenheit 451 (Ray Brandbuy, 1953), Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (George Orwell, 1948), Battle Royale (Koushun Takami, 1999) e, no mais recente, The Hunger Games (Suzanne Collins, 2008). Ora, se a arte imita a vida e vice-versa, não seria exagerado afirmar que estamos a viver num momento em que iniciativas políticas “desajustadas” ainda teimam em dar as caras e que, para tanto, surgem respostas inusitadas. Embora nem sempre assim sejam compreendidas algumas lembram curiosas e intrigantes conspirações – termo que compreendo mais como uma “vontade coletiva em prol do avesso” e menos (muito menos) no sentido daquelas teorias desconfiadas – em que canetas BIC são rastreadores da NASA, Paul McCartney não é o Beatle original e Elvis não morreu… [1]

Descrevo, a seguir, três delas. 

Há pouco tivemos o caso Pussy Riot, banda punk feminista que ao sustentar uma narrativa anti-Putin teve parte de suas integrantes presa. Houve comoção internacional por conta da severidade com a qual o caso teria sido tratado, mas também por tornar evidentes equívocos e destemperos do atual governo russo. [2] Composta por anônimas, as artistas mascaradas teceriam críticas à gestão do Kremlin por meio de letras e apresentações clandestinas, como aquela que tentou colorir a Catedral de Cristo Salvador. Esta última resultaria na prisão e na recente condenação das dissidentes por vandalismo. Simbolicamente, a “oração punk”, cuja duração seria de menos do que um minuto, bastou para que a ousadia das jovens pusesse abaixo as máscaras de um Estado conservador, no qual os limites entre religião e política são confusos e, portanto, questionáveis. 

Por falar em movimento anônimo e mascarado… Quantos já ouviram falar na ideia Anonymous

Desde 2003-2004, esta se trata de uma emblemática representante do chamado “hacktivismo”. Dizem as más línguas que, em realidade, seria uma forma contemporânea de terrorismo. Os caras, entretanto, se autodefinem como uma “ideia de mudança” [3] voltada a lutar contra as injustiças do mundo. Para o bem ou para o mal, a Anonymous disseminou a ideologia hacker ao mesmo tempo em que passou a colecionar intervenções memoráveis ao longo de seu histórico (Avenge Assange e Occupy Wall Street estão no pacote). Apesar de ser característico aos integrantes se utilizarem da face estilizada de Guy Fawkes, a mesma de V for Vendetta (V de Vingança, 2006), como elemento identificador do ciberativismo, a figura acabou se tornando ícone “pop”. Ressalto, contudo, que a busca incessante por liberdade – e, então, justiça – mesmo que em meio ao caos que provocam, parece ser o ponto nodal da missão desta legião de anônimos

Por fim, embora saibamos que virais são suficientemente polêmicos a ponto de gerar desconfianças (vide KONY 2012), a terceira e última “maquinação” assim veio a nós: Israel Loves Iran, famigerada fonte de compartilhamentos nas redes sociais, soa como o mais novo “boicote” civil ao que pretendem os entes do sistema. Por meio de uma campanha virtual, o casal anônimo Ronny Edry e Michal Tamir se dispôs a propagar o amor e a tolerância como antídotos à eminência de conflito – a saber, Israel se sente ameaçado pelo programa nuclear iraniano e blá blá blá. O objetivo seria suprimir o discurso belicoso das partes e ceder espaço às mensagens de conscientização, fazendo com que o amor se apresente como elemento transformador. Aparentemente bem sucedida, a proposta do casal israelense teve a adesão não apenas do Irã, mas também de outros países pelo mundo. 

Que representam as iniciativas? O avesso, como enunciado ao inicio. Antes de serem conotadas como subversão – de natureza e em intensidades distintas –, sugiro que sejam compreendidas para além. Compreendidas como a reação voraz do humano. Simples, apenas, tão somente assim.

*

Ao propor este espaço objetivei olhar ao mundão, nossa morada e objeto de estudo, de forma transcendente. Reconheço que nem todos os temas abordados (eram) são passíveis de incorporação às Relações Internacionais enquanto disciplina. Diria, em realidade, que estariam para além. Para além da caixa de fósforos na qual foram transformadas as Relações Internacionais. Creio, contudo, na esperança. A mesma esperança que resta ao fundo da caixa de pandora. Aquela em que a aspereza do mundo não supera a delicadeza da vida. Verdade ou desafio? 

[1] Mais aqui e aqui.
[2] Entenda mais do contexto Russo por abordagens anteriores do Página Internacional aqui, aqui, aqui.
[3] Mais sobre o Anonymous aqui.


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Sem limites?

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Uma terra sem lei, ao menos aparentemente. Por outro lado, o conhecimento está do seu lado, independente de onde você estiver. Talvez aí surja a principal questão a ser respondida sobre a utilização do ambiente digital. Afinal, as iniciativas públicas e privadas deveriam almejar o fortalecimento deste como mecanismo para auxiliar na construção de soluções, ao contrário da criação de entraves. Em eventos recentes, nos Estados Unidos, a complexidade de lidar com a nova realidade criada pelas crescentes inovações tecnológicas ficou evidente. As soluçõesnormativas não acompanharam este ritmo, tampouco parecem que conseguirão no futuro próximo.

Mas, como a tecnologia pode mudar o mundo? Primeiro, por meio da disseminação do conhecimento em alta velocidade. Passamos de um mundo em que o conhecimento ficava concentrado em alguns centros, para outro no qual houve uma descentralização de tudo que é criado. Assim, o conhecimento pode estar presente em qualquer lugar, para qualquer pessoa que tenha acesso à banda larga (ou mesmo a internet em seus aparelhos portáteis). A inserção de pessoas no mundo digital abre fronteiras. Mais ainda, uma vez que a criação de emprego e riqueza estará cada vez mais centrada na forma como utilizamos estas inovações e não, como muitos poderiam imaginar, na criação destas inovações. Assim pensa o reitor da Harvard Business School, Nitin Nohria.

Outras duas tendências que aparecem no horizonte são: a crescente mobilidade e o surgimento da computação em nuvens (cloud computing, em inglês). Neste contexto, intensificam-se os usos de soluções móveis tanto para o trabalho, quanto para o consumo. Isto se traduz no crescente uso de smartphones e tablets. Já a cloud computing” traz uma mudança de status quo. Esta pressupõe uma migração de servidores, softwares, banco de dados e aplicativos para um ambiente remoto, no qual as empresas e indivíduos não terão mais que cuidar de questões relacionadas à administração e manutenção desta parafernália tecnológica. Os críticos desta migração trazem questionamentos relacionados ao custo, à confiabilidade e à segurança da nova opção.

Desta forma, fica evidente o ganho em complexidade do ambiente digital. Se ainda não possuímos mecanismos para punir crimes cibernéticos, muito menos contamos com formas de lidar com os novos desafios. Este cenário, contudo, começa a mudar no Brasil. O passo inicial foram as discussões junto a sociedade civil, culminando no Marco Civil da Internet. O projeto de lei segue em discussão na Câmara dos Deputados e partirá em sequência para o Senado Federal. De forma resumida, seria um documento inicial que formaria a base para o aprofundamento de leis e projetos para reger o mundo digital. O principal objetivo é explicitar as formas de regulamentar o setor e exercer a tutela de seus usos. Entre os temas abordados estão: direitos individuais e coletivos, privacidade, direito de acesso, liberdade de expressão, direito de acesso, responsabilidade de atores e diretrizes governamentais.

Antes, a Constituição Federal, o Código Civil, o Código de Defesa do Consumidor, a lei do Habeas Data e a Declaração Universal dos Direitos Humanos serviam como base para controlar este ambiente. Não havia a previsão específica de situações baseadas no ambiente cibernético. Enquanto crescem, fruto das inovações tecnológicas e dos desejos de consumo, o comércio online e o uso de aparelhos portáteis para interagir neste ambiente; outra faceta desta discussão entra em pauta por meio do controle exercido por agências governamentais e as políticas para incentivar o acesso e a colaboração para criar prosperidade econômica no Brasil.

Para o Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês), o Brasil está na posição 56º no Relatório Global de Tecnologia da Informação. No país já somos cerca de 82 milhões de usuários de internet. No entanto, há a necessidade urgente de preparar nosso sistema educacional para ensinar os jovens a lidar com a internet, fomentando uma cultura de colaboração para a criação de soluções, sejam elas inovadoras em si ou mesmo aqueles que se utilizam de inovações já existentes. Caso contrário, ficaremos para trás neste mundo antes “sem limites”.  

Imagem: fonte


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 9]

[Chegamos ao penúltimo texto da série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este nono post analisa a questão do tráfico de seres humanos e aborda como este tema pode ser vinculado à mídia televisiva. Aproveitem a leitura!]

Papo de novela 

Não é objetivo deste texto se aprofundar nas discussões sobre cultura e comunicação de massas e a trama de interesses que daí se origina, mas refletir sobre a importância da disseminação de temáticas relevantes pelo globo, atingindo um elevado número de indivíduos. Atentemo-nos, então, às telenovelas brasileiras, enquanto representações sociais, serem capazes de fazer circular informação não apenas no âmbito local, mas também em mais de cem países. 

Sabemos que os folhetins estão expostos ao que alguns chamam de “preconceito acadêmico” – tendo sido alvo de críticas das correntes teóricas dos anos 1970 e 1980, vistas meramente como produtos de entretenimento da indústria cultural. Honestamente, todos nós fazemos julgamentos diários a respeito – e desconfio que, em muitos casos, as pessoas o fazem mais por se tratar do popular, do mainstream, do que por outras razões. No entanto, quaisquer críticas não invalidariam sua habilidade (salvo engano, de meio século) na mediação entre o mundo vivido e o mundo representado. 

Mencionei na última postagem que as “cenas do próximo capítulo” envolveriam o tráfico internacional de seres humanos e que a motivação a dar vida à postagem seria justamente uma trama ficcional. Aos desavisados, é suficiente saber que a Rede Globo promete em Salve Jorge – sucessora de Avenida Brasil – o trato do tema.* Além de outros aspectos, a nova novela global trará depoimentos de vítimas, apresentados ao longo da produção. 

Longe de acreditar que pela menção ao assunto a complexa rede de crimes será dissolvida/atingida. Noto que talvez isso possa indicar, entretanto, que os estímulos presentes em novelas não estejam mais voltados apenas aos temas rotineiros, nos quais se acreditava serem os únicos passíveis de gerar identificação no público. Parece haver lugar, hoje, às representações de uma multiplicidade de universos, fazendo com que outros retratos e apelos sejam também levados a distintos territórios e audiências. 

É bacana refletir sobre os conteúdos e a sua disponibilização, afinal, apesar de estarem aquém do ideal em muitos sentidos, as narrativas agregam informação aos espectadores. Trata-se, enfim, de conhecimento sendo compartilhado. Mais bacana ainda é saber que mais pessoas entenderão, por exemplo, que o tráfico é uma das, senão a, atividades criminosas mais lucrativas do mundo e que, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a modalidade voltada especificamente aos seres humanos movimentaria bilhões de dólares a cada ano. Que, ao extrapolar fronteiras, envolveria um preocupante número de agentes e de países, tornando-se ainda mais complexo quando adicionais como a corrupção e o advento da Internet, como rede de aliciamento, entram em questão. Que os insanos objetivos deste, são fins de adoção, uso de mão de obra escrava, exploração sexual e comercialização de órgãos. Que crianças e mulheres são os principais alvos. E que, sei lá, um vizinho pode estar envolvido nisso – estamos todos vulneráveis a prática sendo, portanto, fundamental zelar pelo seu combate. 

Ademais, pode ser um trunfo favorável ao enfretamento. O receituário básico de medidas corresponderia à prevenção, proteção e criminalização – alicerçadas na cooperação internacional para o caso da transnacionalidade do crime. Da maneira como nos são apresentadas parecem um pouco distante, não? Outras fontes (que não a Organização das Nações Unidas) especificam estratégias mais simples e pontuais, dentre as quais destaco a necessidade em dar visibilidade ao tema. Uma vez abordado por um veículo de comunicação popular, pode vir a transformar sujeitos ativos da ficção em sujeitos ativos da realidade. 

De tamanha popularidade, também para além das fronteiras nacionais, devemos admitir que as propostas de ficção seriada são parte de uma experiência cultural contemporânea. Se pensarmos na necessidade de exposição do tráfico internacional de pessoas, tais propostas poderiam, então, ter um papel transformador. Se a linguagem e a mensagem (são) serão as mais adequadas? Difícil determinar, mas imagino que para questões como estas não haja muito tempo para firulas e preciosismos de academia. Bem ou mal, “o que se quer comunicar” chegaria a um mundaréu de gente. E, por fim, objetos e saberes (estão) estarão por aí, escancarados diariamente em lares de algum canto do mundo.

*: A história protagonizada por Carmem Lúcia (Adriana Esteves) e Nina (Débora Falabella) bem que tentou uma breve abordagem, mas teve que abortar a missão para não esgotar o assunto antes do tempo. 

PS: Mais informações podem ser acessadas diretamente nos sites do UNODC e do “Tráfico de Pessoas”.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 8]

[E continuamos com a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este oitavo post aborda a presença brasileira no Haiti para muito além de sua pacificação interna. Aproveitem a leitura!]

Tambores da Paz 


A poesia não se perde, ela apenas se converte pelas mãos no tambor que desabafam histórias ritmadas como único socorro promissor [1] 

Embora tenha me dedicado a investigar algo mais sobre tráfico de pessoas, em parte inspirada pelo caso do menino haitiano que há de receber cidadania brasileira e pela próxima novela global “Salve Jorge” (pois é!), deixarei o tema para as cenas do próximo capítulo. Sim, porque foi pesquisando sobre o Haiti que descobri uma participação brasileira nos bastidores de outra questão: as crianças soldado. 

Neste ano, o tema circulou com alguma intensidade. Quem não se lembra do polêmico viral “Kony 2012”? De Charles Taylor, o primeiro chefe de Estado (Libéria) a ser condenado por um tribunal internacional? E do senhor da guerra congolês Thomas Lubanga Dyilo, sentenciado a 14 anos de prisão pelo Tribunal Penal Internacional? [2] 

Apesar de Kony, Taylor e Dyilo (e outros mais) protagonizarem a barbárie pela África, e de a maioria dos infantes se encontrar nesse território, os demais continentes têm faceado algo semelhante (mais aqui). Estima-se, então, que um número relevante de crianças sejam vítimas, mas também rés das guerras e dos conflitos armados no mundo. O crime? Sonhos e infâncias roubados. A pena? Quando não a morte, os abusos que sofrem – os quais prefiro eufemizar como experiências assustadoras e repulsivas – e que resultam em danos emocionais e físicos gravíssimos. [3] 

Vale lembrar que o Haiti carrega consigo um histórico político, econômico e social instável. Desde a sua independência em 1804, os golpes, as revoltas, a sucessão de governos provisórios, a corrupção, a violência, o quadro de pobreza e uma trajetória grave de violação aos direitos humanos chamam a atenção da comunidade internacional. Aquele que já sucumbia a este cenário se viu devastado por uma tragédia natural em 2010: um terremoto. Ou seja, o país caribenho passou a trilhar caminhos ainda mais delicados.

Diante disso, para muito além da MINUSTAH [4], o Brasil estreitou laços com o país de outra maneira: o Viva Rio, famoso por seu protagonismo em favelas cariocas desde a década de 1990, transcendeu fronteiras e levou sua bem-sucedida tecnologia social ao país. Dada a experiência adquirida ao longo dos anos, a organização não demorou muito a reconhecer que as zonas de conflito do Haiti, somadas à dura realidade que se figurou, induziriam crianças e adolescentes às situações de vulnerabilidade. À bem da verdade, os caras parecem ter se sentido em casa: a atuação seria voltada àquelas comunidades em que os pequenos estariam a serviço do crime – o que vai da simples transmissão de informação (o equivalente aos nossos vapores do tráfico) até o manuseio de entorpecentes e armas, a prostituição, e outras coisas mais. Aquela velha história: contextos distintos, demandas semelhantes. Sendo a “paz” parte integrante de seu DNA, foram à ação. 

De 2004 aos dias atuais, a iniciativa mantém quatro unidades em território haitiano por meio das quais desenvolve projetos em áreas centrais, tais como saúde, educação, meio ambiente e segurança comunitária (mais aqui). Para esta última, considerada como um de seus projetos mais desafiadores, há ações específicas que compreendem a reintegração das crianças soldado. O programa inclui atendimento médico, oficinas profissionalizantes, atividades psicossociais, aulas extracurriculares, suporte financeiro, atividades geradoras de renda e, principalmente, um convite a fazer arte. É, arte! Mais uma vez, trata-se da cultura como meio para um fim maior: a promoção da paz. A violência da história se retira e cede lugar às práticas culturais.

Como? Descobriram, por exemplo, que os tambores que marcam o rará (som local típico) eram parte essencial dos grupos sociais. E também que, por meio deles, seria possível unir rivais – o que em princípio contava com o apoio de apenas 14 líderes locais, hoje integra mais de 100. Nasceram daí 5 acordos de paz, os Tanbou Lapè (Tambores da Paz). As vibrações e os ecos produzidos pelos conflitos são sufocados por formas de expressão e de resgate da identidade e da auto-estima dos pequenos. E espera-se que o único emprego da violência passe a ser para que os tambores rufem em nome da paz. 

[1] Brixton, Bronx ou Baixada. Disponível aqui.

[2] Abordado no Página Internacional aqui e aqui

[3] O artigo 38 da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, somado ao Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas, estabelece a proibição dos governos e dos grupos armados em recrutarem crianças e adolescentes menores de 18 anos em conflitos armados. Apesar de mais de 100 países ratificarem o acordo, as crianças soldado ainda existem. 

[4] Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti. Dos objetivos da missão, ressaltam-se a estabilização nacional, a pacificação e o desarmamento de grupos insurgentes, a promoção da democracia por meio de eleições livres e públicas e o desenvolvimento institucional e econômico do país. 

[5] Materiais Viva Rio Haiti aqui e aqui.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 7]

[Damos prosseguimento à série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este sétimo post relaciona a incipiente juventude global, as novas mídias sociais e a “economia criativa”. Aproveitem a leitura!] 

Sobre nós: economia criativa 


Foram criadas, há muito, categorias geracionais em que “estereótipos” nomeariam a essência de cada época. Em realidade, teriam sido desenvolvidas para mapear tendências de comportamento e consumo (mais aqui). Cá nos importa saber que precedida pela “juventude libertária” (1940-1950) e pela “juventude competitiva” (1960-1970), a “juventude global” é o rosto da nova economia

Talvez porque, hoje, 2.3 bilhões de jovens estejam no topo da pirâmide de consumidores e potenciais influenciadores de consumo, fazendo dessa a geração com maior poder de compra da história. Mais que números, são também considerados catalisadores de grandes mudanças e representantes de novas linguagens e comportamentos. Devoradores de outros tipos de capital (sobretudo o cognitivo), a maneira como se relacionam passa a testar os limites e a promover o alargamento da visão econômica tradicional. Estamos a falar dos porta-vozes de um movimento mais expressivo, colaborativo e consciente, dos insaciáveis e provocadores embaixadores da economia criativa

Diferente das demais gerações, estes jovens têm agora uma importante aliada em sua jornada: a Internet – que não significaria apenas a vida em rede, mas também a aquisição de um alto volume de conteúdo, bens, serviços e de pessoas em constante e pulsante circulação. É a partir dela que as perspectivas de tempo e espaço se alteram, fazendo com que local e global nunca estivessem tão próximos e que individual e coletivo caminhassem tão juntos. Tudo isso (e muito, muito mais!), requer habilidades distintas de gerenciamento, resultando em novos cenários para que possam performar de forma autônoma, livre, colaborativa. E, se possível, com doses diárias e cavalares de amor, prazer e diversão. Vale lembrar que “[…] estamos falando da geração de jovens mais plural da história”. [1] (mais aqui

Daí é que nascem as redes sociais (em amplo sentido), os empreendedorismos da vida, o open source, o crowdsourcing, o e-commerce, o creative commons… e a economia criativa. Direta e intimamente ligada aos “Y”, “We”, “Millenials”… sua força motriz vem dos cérebros (e dos corações) daqueles que põem ao chão o velho sistema de trabalho aos moldes fabris, e optam por se utilizar de matérias primas aparentemente corriqueiras, mas inesgotáveis, como as ideias, os sentimentos, a imaginação e o sonho o são. 

Segundo o inglês John Howkins, a economia criativa integraria às atividades e aos processos que envolvam criação, produção e distribuição de produtos e serviços, cujos recursos têm por base capital cognitivo. [2] Estaria, assim, despertando cada vez mais o interesse dos setores público e privado, uma vez que viabilizaria negócios e atividades menos predatórias que as vigentes, valorizaria questões sociais e culturais, além de sua alta capacidade em estimular crescimento econômico – mais equilibrado e, portanto, sustentável. 

Na época do “seguir”, do “compartilhar” e do “curtir” perspectivas hackeiam a “economia-arroz-com-feijão”. Uma vez que as dimensões materiais e simbólicas se integram, teríamos algo inédito no mundo. O consumo globalizado sob diretrizes mais criativas se transformaria num promotor de conexões sociais. Mais que isso, teríamos caminhos mais éticos e humanos. 

[1] We all Want to be Young. Disponível aqui

[2] Economia Criativa. Disponível aqui.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 6]

[Depois da semana em que a Página Internacional comemorou sua milésima postagem, voltamos com a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este sexto post traz uma visão diferente e poética a respeito do cotidiano de algumas “cidades-globais”. Aproveitem a leitura!]

Canção da liberdade na cidade 



Uma voz que atravessa a cidade […] 

Voz que vem do trapiche dos Capitães de Areia

[…] Voz poderosa como nenhuma outra. 

Porque é uma voz que chama para lutar por todos, 

pelo destino de todos, sem exceção. 

Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. 

Voz que traz com ela uma festa, 

que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera.

A primavera da luta. […] 

Voz que traz o bem maior do mundo, 

bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. [1] 

No ano em que se comemora o centenário de Jorge, o amado, debruço-me brevemente sobre o lugar dos Pirulitos, dos Sem Pernas, dos Gatos, dos Professores, das Doras, dos Balas. Ou, segundo o autor, daqueles que, em verdade, são os donos da cidade, os que a conhecem totalmente, os que a amam, os seus poetas. Salve Jorge! 

Uma vez que as desigualdades continuam tão pontiagudas quanto no passado, coexistimos, então, com uma “periferia global” que faz das cidades palco de abismos sociais. Já nos anos 30, ao escrever Capitães de Areia, Amado anunciou, com algum (des)encantamento, um futuro em que rua e vida se fazem confundir. Seja no trapiche baiano ou na “quebrada” dos grandes centros urbanos, o lugar dos “capitães” é também o mundo. 

Cidade do México, Cidade do Cabo, Karachi, Nairóbi, Dakar, Medelín, Rio de Janeiro e noutras tantas mais… A partir das últimas décadas, houve a proliferação de propostas autonominadas antídotos às mazelas sociais, das e nas cidades partidas. Afirmando-se também emancipadoras – e portadas, em alguns casos, de um invólucro discursivo mais importante que suas ações – acompanharam o movimento global pela justiça social. Brotaram, então, os projetos de inclusão. Inclusão dos “meninos”, cuja infância marginal foi dedicada a espalhar doçuras e travessuras pela urbe. 

Exauridos pela ciranda social que os impunha a margem da sociedade, os capitães se empoderaram e se empenharam na busca por alternativas de enfrentamento mais maduras, legitimas e, principalmente, criativas. É por isso e muito mais que vislumbramos, hoje, significados de cidade menos cinzentos. Mais que unidade geográfica elementar, se torna “as pessoas nos seus conflitos, medos, alegrias e paixões” [2], a “paisagem de nossas confusões” [3], um grande carrossel que, uma vez armado, mesmo que com cores desbotadas, iluminaria a todos os corações. 

Muito porque o canto e a voz da “periferia” ressoam, hoje, como os clarins de Amado, não para predizer a guerra, mas a liberdade. Que diria o camarada, o organizador de greves, o dirigente de partidos ilegais, o perigoso inimigo da ordem, Pedro Bala, nos dias atuais? Que os capitães estão em pé e que o destino do planeta mudou. 

[1] AMADO, Jorge. Capitães de Areia. Rio de Janeiro: Record. 72ª. ed., 1991. p.228. 

[2] BARBOSA, Jorge Luiz. Cidade e território: desafios da reinvenção política do espaço público. Disponível aqui.

[3] Thomas Flanagan cit. Lynch, K (1997, p. 134) apud VIANNA, Andréia de Resende Barreto. Cidade e arte: uma rua de mão dupla. 2002. 62f. Dissertação (Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2002. p. 37.


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1.000° Post! Três anos e meio de mudanças

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Confesso que foi difícil para eu escrever este post. Afinal, desde que deixei de trabalhar na área de Relações Internacionais, não escrevo mais com tanta frequência quanto nos idos de 2009 e 2010, logo no início do blog. Além de ser uma grande responsabilidade e orgulho ter escrito o 1° e o 1.000° post deste que se tornou tão importante blog na área de RI, ganhou diversos prêmio e até virou livro.

O fato é que muita coisa além da minha vida e do meu trabalho mudaram. Mas o que mais mudou, certamente, foi esse mundo em que vivemos. E, guiados pela máxima que nos orientou por este tempo todo, aventuramo-nos na tentativa de tornar os acontecimentos do mundo mais compreensíveis pelas pessoas que nos acompanham e que, muitas vezes, optaram por não investir 4 anos de suas vidas num curso de Relações Internacionais. Afinal, “o mais incompreensível do mundo é que ele seja compreensível”.

Quando criamos o blog, o mundo vivia uma fase de esperanças. Presidentes de esquerda eleitos, a Europa sendo considerada modelo de integração por muita gente, a máquina chinesa mostrando sua força, protestos mundo afora contra os extremismos e guerras e, o mais inesperado e importante, um presidente negro sendo eleito na maior economia do mundo.

Podia ser melhor? O que mais esperar desse mundo em que o Orkut era a principal rede social e o Facebook era coisa de gente chique e nojenta?

No Brasil, a ‘esperança vencia o medo’ com o início da nossa projeção internacional. O G-20 era um simbólico fórum, pois os rumos do mundo eram decididos mesmo nas reuniões do G-8. Nosso país, convidado para a última reunião importante desse grupo, rebelava-se e dizia “não vamos comer a sobremesa dos ricos”. Quanto tempo… Até que veio a crise para mudar tudo.

E nesse meio tempo, Giovanni Okado, Luis Felipe Kitamura, Bianca Fadel, Cairo Junqueira, Raphael Camargo Lima, Ivan Boscariol, Álvaro Panazzolo, Andrea Citron, Rafael Teixeira Braz, Carla Dias, Adriana Suzart, Anna Furukawa e eu, Alcir Candido, vivemos esses acontecimentos. Alguns, inclusive, de perto, como quando o Luis Felipe Kitamura, que estava no Equador, viu e cobriu aqui para o blog o conflito que quase depôs o presidente Rafael Correa.

Hoje, Obama é considerado por muitos com o uma decepção. A Europa ruindo com seus ideais de integração. Até partidos neo nazistas e de extrema direita sendo eleitos por lá. Até no Brasil alguns sonhos começam a ser questionados pelo mau desempenho da economia. Alguns presidentes de esquerda da América Latina sofrendo um novo tipo de golpe branco constitucional, como no Paraguai.

A esperança ainda existe, como na primavera árabe. Quem imaginaria que um Facebook e um Twitter seriam tão importantes para a derrubada de ditadores?

E ninguém se arrisca a dizer como serão os próximos 3 anos e meio. Como será o post de número 2.000?

Quem viver lerá aqui na Página Internacional!


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Para…o que? [Post 3]

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A Página Internacional finaliza a pequena série de postagens que aborda um tema recente nas Relações Internacionais: a Paradiplomacia. Neste terceiro e último texto, destacamos a relação existente entre os atores subnacionais e outras configurações de poder, dando ênfase aos blocos econômicos e às redes de cidades. 

As regiões e as cidades nas relações internacionais 



Nos dois textos iniciais sobre paradiplomacia (encontrados aqui e aqui), vimos como os atores subnacionais ganharam reconhecimento na esfera internacional no final do último século. Também mencionamos diversos exemplos deles, os quais perpassam praticamente todos os continentes, destacando-se as iniciativas dos países da América do Norte e da Europa, sem esquecermos o caso brasileiro, o qual já vem sendo desenvolvido e estudado de maneira intensa. 

Este terceiro texto é o último desta pequena série. Objetiva-se, aqui, analisar a inserção internacional das regiões e das cidades, inseridos na ótica de atores subnacionais, e as novas características que advém delas, ou seja, os blocos regionais e as redes de cidades. O MERCOSUL e a Rede Mercocidades ou a União Europeia e o Comitê das Regiões são exemplos avançados da importância dos dois temas tratados no presente escrito. Tanto a rede quanto o comitê são organizações que levam em conta a paradiplomacia e que nasceram no contexto de integração regional. 

Mas o que é região e o que é rede (de cidades)? O termo “região” pode ser definido como um bloco regional ou regiões – políticas, étnicas, administrativas, econômicas – dentro de um mesmo país ou atravessando países. Por sua vez, “rede” refere-se a uma série de nós interconectados, sugerindo uma teia de vínculos, relações e ações entre indivíduos e organizações. 

Das regiões provêm os processos de integração e formação de blocos regionais. A ligação entre dois ou mais Estados e a posterior formulação de regras, normas e ordenamentos em comum caracteriza ou tenta caracterizar os já mencionados MERCOSUL e União Europeia, bem como inúmeros outros exemplos: UNASUL, NAFTA, CARICOM (Comunidade do Caribe), ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), etc. E, das redes, propriamente ditas, derivam as redes de cidades, as quais correspondem a organizações entre municipalidades para articularem projetos em comum e minimizarem riscos de barganha, possuindo imenso alcance geográfico, ausência de um comando central, agilidade e aproximação entre os membros. Podemos citar inúmeros casos de redes de cidades das mais variadas proporções e tamanhos: Mercocidades, Metrópolis, C40, Prefeitos pela Paz, Cities for Mobility (CfM), etc. 

Para finalizar, é importante mencionar que tais configurações são apenas dois dos principais modelos de inserção internacional de atores subnacionais. Logo no início desta série de três postagens foi destacado o fato da paradiplomacia ser um tema plural e, genericamente, multidisciplinar. Buscou-se, acima, ver como este processo encontra-se vinculados com outros, destarte, as regiões e as redes. Na literatura especializada sobre integração regional, há a defesa de que os fenômenos integracionistas estimulariam uma maior participação dos governos subnacionais, à medida que impulsionariam um aumento das interações transnacionais entre os países envolvidos. Isto é um novo tema nas relações internacionais e esta vinculação é sempre muito benéfica para o debate. 

Que o desenvolvimento da para…o que? Paradiplomacia! Esperamos que o desenvolvimento da paradiplomacia tanto nos estudos acadêmicos quanto no próprio “fazer da política” continue seu caminho ascendente nas relações internacionais. O futuro promete!


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 5]

[E damos continuidade à série de postagens “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este quinto post analisa a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, ou seja, debate o que será colocado em questão na Rio+20 (que começa HOJE!) e vai mais além…!] 

Prato do dia: economia (verde) 



Estamos na Rio +20, a conferência internacional que, em grosso modo, buscará pela articulação entre crescimento econômico, inclusão social e meio ambiente – embora haja quem diga que “o buraco é mais embaixo”. Apesar de ser essencialmente voltada ao meio ambiente, terá a economia como um dos (senão o) pratos principais. Sim, por que para saborear a causa ambiental, deve-se por à prova o “indigesto” sistema econômico vigente. 

O “cardápio econômico” tem lá suas variedades: economia de escala, de guerra, de mercado, doméstica, popular, social, livre, política, rural, criativa…! Nos últimos anos, uma opção deste menu – talvez, hoje, a mais cara delas – passou a saltar aos olhos dos representantes políticos, dos organismos multilaterais e da sociedade civil: a economia verde* – da qual sabemos apenas que seu ingrediente basilar seria o entendimento da economia como um subsistema do ambiente natural. ** 

Para além de Rio +20, o peso do tema se dá pela compreensão comum das trocas financeiras não mais como condimento único à sobrevivência das economias do mundo. É, então, que se torna insustentável nos nortearmos somente pelo que é expresso por indicadores econômicos, uma vez que desconsideram elementos fundamentais às novas – já não tão novas assim – demandas. Interessa-nos saber que cada vez mais são adotadas vias alternativas para complementar e/ou superar aos existentes – é o caso do Better Life Index, do Gross National Happiness, do Happy Planet Index (mais exemplos aqui). Mais recentemente, do PIB verde e das contas econômico-ambientais. (entenda mais aqui e aqui

Os pioneiros a esse respeito são Costa Rica, Colômbia, Filipinas, Botsuana e Madagascar. Mas não é só coisa dos pequeninos. A Índia tem buscado estimar economicamente sua biodiversidade e, na China, a métrica sustentável possui cinco componentes – qualidade econômica, qualidade social, qualidade ambiental, qualidade de vida e qualidade de gestão – que estariam de acordo com as metas assumidas na COP15. É claro que isso não faz do gigante vermelho, verde. Os exemplos nos mostram, contudo, que quaisquer economias podem (e devem) buscar diálogo junto à sustentabilidade. ***

Que esperar da Rio +20, então? 

Quanto à economia verde, há ainda um descompasso conceitual entre as partes, assombrando ao evento, que nos torna vulneráveis a apropriação indevida das “expressões verdes” – o que seria nada mais que “o lado verde da força”, a encobrir a falência da economia e dando sobrevida a mesma –, comprometendo quaisquer ações a serem definidas desde a gênese. 

Vinte anos passados da Eco92, as expectativas seriam ainda por ponderações mais concretas, voltadas ao “como fazer”. Tendo-se em vista o Zero Draft, possivelmente isso não acontecerá. Nos próximos dias os nobres delegados estarão empenhados em pensar sobre o futuro que queremos – ironicamente, em apenas três dias de evento – e a questão ambiental lhes parece ser tão “enfadonha”, que talvez caiba a nós repensar os limites do atual sistema econômico mundial (o tão “perverso” capitalismo) em consonância aos limites do planeta. E então poderemos agir sobre o futuro que teremos

*: Nem mesmo a Organização das Nações Unidas apresenta considerações consistentes e aceitas consensualmente pela comunidade internacional. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), a economia verde é aquela voltada a melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e a escassez ecológica. 

**: HERRERO, Thaís. De que economia estamos falando?. Página 22: informação para o novo século. FGV. abr 2012. p. 28 

***: Inspirado no gigante, o Brasil caminha neste sentido através da lei 2900/11, ainda em trâmite.


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