Conversando com a Teoria

Por

Hoje faremos uma postagem especial, retomando a nossa coluna que busca aliar conhecimento teórico de Relações Internacionais à aplicação prática. Num dos últimos textos da coluna, o Cairo comentou sobre o conceito de “governança”, e como isso causa impacto nas relações internacionais contemporâneas. A ideia hoje será relacionarmos essa coisa meio vaga com um exemplo bem atual e chamativo, que é a questão da Síria. 

Relembrando, governança é um termo relativamente recente no estudo de RIs, e definido na obra clássica de James Rosenau (que aliás, faleceu há exatamente dois anos) como um sistema de relacionamento aceito mutuamente entre agentes no sistema internacional, por meio do qual estes aplicam regras específicas e apresentam comportamento com objetivos comuns em certos temas, indo além da esfera estatal e com relativa eficiência quando o tema não é muito caro ás práticas estatais tradicionais. Governança une o aspecto formal ao intersubjetivo: aqueles que participam de sistemas de governança, dos Estados aos indivíduos, o fazem de acordo com a situação do momento, é algo que depende das circunstâncias da ordem mundial e das rotinas adotadas para abordar determinada questão. 

Difícil? Um pouco, mas dá pra entender bem quando pensamos num caso prático. A possível intervenção na Síria é um caso exemplar. A questão principal aqui é a existência de um sistema para defender os direitos humanos. Não se deve confundir governança com um regime (esse conjunto de práticas como tratados, convenções, etc., com um objetivo específico), apesar de serem temas que se interlaçam. E já existe um regime de práticas que rege a proteção desses direitos. No caso, a Síria, ao atacar civis com armas químicas (seja qual tenha sido o lado a fazê-lo) afrontou a ordem mundial, que abomina esse tipo de conduta. A comunidade das nações, tecnicamente, deveria dar uma resposta a isso. 

Aqui entra o problema da governança. O ideal seria a atuação da ONU (com base no capítulo 7 da Carta da ONU), e existem precedentes. Há alguns anos já circula na ONU o conceito de “responsabilidade de proteger” (R2P), que serviria justamente para legitimar a ação de intervenção militar em casos como genocídio e crimes de guerra. Não é uma lei definida, mas um conceito aceito pela maioria dos membros da organização e que em tese afeta suas ações e escolhas – do modo como foi adotado, por exemplo, na Líbia, e no estabelecimento da Brigada de Intervenção no Congo. Ou seja, a R2P nada mais seria que um fenômeno de governança aplicado às missões de paz da ONU. 

O problema é que no caso da Síria vemos os limites desse processo – quando um ou mais membros não aceitam as “regras” desse jogo (como Rússia e China), seja qual for a razão, deixa de haver ordem e ação coletiva. O caso sírio não mostra apenas a atualidade do tema, mas suas fragilidades. E com isso, a motivação de “resposta” ao crime acaba pesando para os agentes que arcam com a liderança do sistema. Claro que existem outros fatores e motivações em jogo, mas ao assumir o papel de interventor na Síria, os EUA simplesmente cumprem a missão que o sistema delegaria à comunidade como um todo em outras situações, mas que não é possível pela falta de aceitação de algumas condições – lembrem-se, a eficácia da governança depende justamente de sua aceitação mútua. Se não houver isso, não há legitimidade ou eficiência. 

Essa foi uma análise bem rápida, que deixou alguns elementos como a ordem e a participação de outros agentes (como os grupos rebeldes, grupos étnicos e afins) em um segundo plano, mas mostra bem como as dinâmicas das RIs atuais são complexas e demandam esse tipo de resposta. Processos de governança são parte integrante da contemporaneidade, e ajudam a explicar diversos fenômenos bem como apresentar soluções para problemas em que não basta apenas a ação do Estado.


Categorias: Conflitos, Conversando com a Teoria, Post Especial


50 anos – I have a dream

Por

Nesta semana, completa-se o marco de 50 anos do discurso de Martin Luther King para cerca de 200 mil pessoas no Memorial Lincoln, em Washington. O discurso foi um dos marcos da luta contra as leis de segregação (Jim Crow Laws) que vigoraram até meados da década de 1960 nos Estados Unidos. Junto com outras figuras simbólicas, como Rosa Parks e James Meredith, ajudou a desafiar a segregação e projetar uma sociedade mais justa no país.

King foi laureado com o prêmio Nobel da Paz em 1965, antes de ser assassinado em 1968. Curiosamente, no dia anterior a sua morte fez outro discurso marcante, o “I´ve been to the mountaintop” (Estive no topo da montanha, em tradução livre). Sua obra ensejou um legado reverenciado e celebrado mundo afora. Em 1983, o presidente Reagan estabeleceu um feriado nacional em sua homenagem.


Categorias: Post Especial


Post Especial – Bertha Becker (1930-2013)

Por

Esta semana, quando preparava meu post, encontrei por acaso a notícia do falecimento desta grande geógrafa brasileira. Um dos jornais mais importantes de São Paulo reservou 5 linhas, em edição online, para apresentar a notícia. Estas 5 linhas passam longe de fazer justiça ao legado deixado por Bertha Becker.  

A Amazônia foi seu foco de interesse desde a década de 1970. Tratava-se de estudar uma região, que na época já despertava grandes expectativas e preocupações. Lembro que durante meu trabalho de conclusão de curso sobre a Amazônia, deparei-me com um autor que dizia que esta fronteira (mesmo que em território brasileiro) era a versão brasileira de “Destino Manifesto”

Entre as notas de homenagem a esta “cientista da Amazônia”, como ficou conhecida, muitas falam de suas qualidades que iam muito além dos trabalhos acadêmicos, o simples entender este tesouro nacional. Becker desempenhava o papel político, sem trabalhar diretamente para o governo, de forma a debater políticas públicas e combinar o conhecimento científico com sua aplicação à realidade.  

Lembro de ouvir que ler Bertha Becker era importante para compreender os rumos da Amazônia, mais ainda para escrever um trabalho tendo como temática a região. Isto iria desde livros mais antigos, como “Geopolítica da Amazônia” (1982), até seu mais recente “A urbe amazônica” (2013). Ainda em 2013, participou da concepção do “I Simpósio – Relações entre Ciência e Políticas Públicas para o Desenvolvimento da Amazônia”.


Entre os pontos destacados de seu trabalho, chamou-me atenção em especial seu foco no qualitativo, ao invés do quantitativo. Afastou-se, portanto, de um movimento que acompanhou sua vida na Geografia: a expansão de estudos por modelos e fórmulas lógicas expressas por índices estatísticos, que considerava o homem como uma das variáveis existentes, o que para a autora significava destituí-los de expressão social ou histórica.  

As energias de Becker, sobretudo voltadas à Amazônia, centraram-se nos atributos humanos, culturais e econômicos. De fato, existem elementos que não se contam por hectares.   

Notas: 1, 2, 3, 4


Categorias: Post Especial


Fora da ordem

Por

 

Os protestos não param. Nem as reflexões. Para os governos, eles acarretam uma democracia insípida, inodora e incolor; para os analistas, inspirações e contradições que animam suas aventuras intelectuais. Resta claro que o mundo está em transformação. O que não se sabe é para qual direção. Bem resumiria esse momento a enigmática canção de Caetano Veloso: “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

Mas como (re)ordenar o mundo? Em comum, esta onda global de protestos apresenta um indício: demonstrar o que não se quer e nem se tolera. Ninguém diz o que quer e, se o faz, deixa no ar. Basta ver o Egito, onde ocorreu o maior protesto já registrado na história – entre 14 e 22 milhões de pessoas foram às ruas –, com novo propósito de destituir seu governante, eleito há pouco mais de um ano e após mais de trinta anos sem eleições livres. Resultado: um ciclo de instabilidade político-institucional, com desdobramentos na economia, saúde, educação, etc. Fica o alerta. Para todo o globo. 

Nas últimas décadas, analistas das relações internacionais têm enfatizado dois elementos estruturais que podem desencadear mudanças profundas: uma nova revolução científico-tecnológica e a emersão de uma sociedade mundial. Conhecendo melhor a própria realidade e comparando-a com a realidade alheia, os indivíduos sentem-se estimulados a demandar melhores condições de vida e a se libertar de males que lhes afligem. Ao mesmo tempo, eles se solidarizam com seus semelhantes, questionando não apenas o próprio governo, senão também outros governos. 

Não por acaso, esta eclosão global de protestos coincide com um período de rápida disseminação das tecnologias da informação e comunicação. Nem é coincidência que eles sejam mais robustos nos países em desenvolvimento. De acordo com dados da União Internacional das Telecomunicações, o número de usuários de internet passou de pouco mais de 1 bilhão, em 2005, para uma estimativa de 2,749 bilhões, em 2013. Um aumento motivado, sobretudo, pelo espetacular crescimento desses usuários nos países em desenvolvimento, no mesmo período: de 408 milhões para estimados 1,791 bilhões. É ainda mais surpreendente a elevação global do número de celulares entre 2005 e 2013: de 2,2 bilhões para uma estimativa de 6,835 bilhões, saindo de uma média de quase 40 celulares por cem habitantes para pouco mais de 96. Nos países em desenvolvimento, no mesmo período, o número passou de 1,213 bilhões para estimados 5,235 bilhões (de quase 30 celulares por cem habitantes para quase 90).

As pessoas estão interconectadas. As fronteiras do conhecimento alargaram-se. Com isso, pode estar desenvolvendo-se, em nível inédito, uma espécie de solidariedade mecânica entre os povos. O recado está dado: o empoderamento dos indivíduos se materializa nas ruas e expressa a vontade de participar da resolução dos problemas, nacionais ou globais. E os governos não devem tapar os ouvidos. 

Com uma rápida pesquisa na internet, qualquer um pode se sensibilizar. E se revoltar. Pelas estimativas do Banco Mundial, em 2010, havia mais de 1,2 bilhões de pessoas em extrema pobreza, vivendo com menos de US$ 1,25 por dia, o que corresponde à 20,6% da população mundial. Em termos relativos, a República Democrática do Congo tem o maior percentual de habitantes pobres (87,7%), enquanto, em termos absolutos, quem lidera é a Índia, com 406 milhões (mais de duas vezes o número total de habitantes do Brasil). Elevando-se para US$ 2 por dia, a Nigéria, por exemplo, que é terceira maior economia da África, teria 78,5% de sua população vivendo nessa situação. E, ainda pior, é a porcentagem da população mundial que vive com menos de US$ 10: mais de 80% (na Etiópia, esse índice chega a 99,9%). Em outras palavras, isso significa que mais de 80% da população mundial vive com menos de um salário mínimo brasileiro por mês. 

A concentração de renda é inegável. Tomando-se como exemplo o somatório das fortunas das dez pessoas mais ricas do mundo em 2012 – valor que corresponde a US$ 451,5 bilhões –, se elas fossem um país, seriam a 28ª economia mundial, atrás de Taiwan e à frente da Áustria. Apenas Carlos Slim Helú, magnata mexicano das telecomunicações e líder do ranking, tem uma fortuna (US$ 73 bilhões) que é mais de dez vezes superior ao PIB do Níger, último colocado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2012.

A desnutrição também chama a atenção. Entre 2010 e 2012, 868 milhões de pessoas estavam desnutridas, o que corresponde a 12% da população mundial. A Eritreia lidera essa lista em termos percentuais (65%), enquanto a Índia, mais uma vez, o faz em termos absolutos (217 milhões de indianos estão desnutridos). Esses dados são impressionantes e, entre tantos indicativos, deixam as pessoas estarrecidas e inquietas. Cresce, assim, a percepção de uma cidadania global: antes de ser cidadão do seu país, cada pessoa é parte da humanidade e deve agir em razão dessa condição. 

O mundo está desordenado. Os problemas particulares são, em verdade, problemas globais, inter-relacionados, que exigem respostas também globais, das sociedades e dos governos. Se, no século XX, diria o polêmico Nelson Rodrigues, a ascensão espantosa e fulminante do idiota foi o grande acontecimento, no século XXI, a idiotia deverá regredir. Surgem pessoas cada vez mais informadas, não necessariamente instruídas, com vontade de se tornarem agentes de mudança e guardiães de seu destino e de todos. Quanto mais rápido circularem as informações, quanto maior a persistência de problemas crônicos, maior será o impulso dos indivíduos para fazer alguma coisa. Mais longos e intensos serão os protestos. E maior será a necessidade de (re)ordenar o mundo.

*Post especial do colaborador Giovanni Okado


Categorias: Economia, Polêmica, Política e Política Externa, Post Especial


2003-2013: Uma nova política externa

Por

Conforme discutido em post anterior, sobre a democratização da política externa, começa amanhã a Conferência Nacional “2003-2013: Uma nova política externa”, na UFABC em São Bernardo do Campo/SP. Dado que as inscrições para o evento já se esgotaram, a Página Internacional gostaria de enfatizar a possibilidade de assistir às palestras on-line, por meio do link disponibilizado na barra lateral do blog.

A programação completa do evento segue abaixo. Fica o convite para que todos possam acompanhar este importante evento e prestigiar o debate, aproveitando a participação de tantos nomes que participam ativamente na construção da política externa brasileira. 

15 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA

19h00 – Sessão de abertura 

– Prof. Dr. Hélio Waldmann, reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC); 

– Luiz Marinho, presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC;

– Iole Ilíada Lopes, vice-presidenta da Fundação Perseu Abramo (FPA), representando o Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR – RI). 

 20h00 – Conferência: Próximos anos: cenários e desafios da Política Externa Brasileira 

– Embaixador Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores; 

– Coordenação: Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo. 

16 DE JULHO, TERÇA-FEIRA

09h30 Painel 1: 2003-2013 – O Brasil frente aos grandes desafios globais 

– Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (2009/2010) e secretário Geral do Itamaraty (2003/2009) no governo do presidente Lula;

–  João Pedro Stedile, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra/MST;

– Paulo Fagundes Vizentini, coordenador do Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais (Nerint) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS;

– Coordenação: Matilde Ribeiro, secretária adjunta da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura Municipal de São Paulo.

14h00 Painel 2: 2003-2013 – Avanços, impasses e desafios da integração

– Maria Regina Soares de Lima, professora de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP/UERJ);

– Marco Aurélio Garcia, assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidenta da República;

– Valter Pomar, secretário executivo do Foro de São Paulo e membro do Diretório Nacional do PT;

– Coordenação: Renato Martins, professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila).

18h00 Painel 3: 2003-2013 – A Política Externa Brasileira e a crise internacional

– Adhemar S. Mineiro, economista e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE);

– Luiz Eduardo Melin de Carvalho e Silva, diretor da Área Internacional e de Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES);

–  Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp);

– Coordenação: Virgínia Barros, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE).

20h30 Conferência: 2003 – início de uma Política Externa “altiva e ativa”

– Embaixador Celso Amorim, ministro da Defesa, ex-ministro das Relações Exteriores;

– Coordenação: Vitor Emanuel Marchetti Ferraz Junior, professor, coordenador do Bacharelado de Políticas Públicas/UFABC.

17 DE JULHO, QUARTA-FEIRA

09h30-12h30 – Mesas simultâneas

Mesa 1: Política Externa Brasileira e Defesa 

– Antonio Jorge Ramalho da Rocha, diretor do Instituto Pandiá Calógeras do Ministério da Defesa;

– André Martin, professor livre docente de Geografia Política da Universidade de São Paulo/USP; 

– Roberto Amaral, primeiro vice-presidente e coordenador de Relações Internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB);

– Coordenação: Cristina Soreanu Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Mesa 2: Cooperação internacional para o desenvolvimento

 – Vicente Carlos y Plá Trevas, secretário adjunto de Relações Internacionais e Federativas da Prefeitura de São Paulo/SP;

– Letícia Pinheiro, professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ);

– Iara Leite, pesquisadora associada do Articulação SUL; 

– Coordenação: Milton Rondó Filho, coordenador-geral de Ações Internacionais de Combate à Fome do Ministério das Relações Exteriores.

Mesa 3: A Política Externa Brasileira e as novas coalizões internacionais 

– Graciela Rodriguez, coordenadora do Instituto EQUIT – Gênero, Economia e Cidadania Global, integrante da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (REBRIP);

– Embaixador Guilherme de Aguiar Patriota, assessor especial da Assessoria Especial da Presidenta da República;

– Monica Hirst, professora titular de Relações Internacionais da Universidad Nacional de Quilmes, Argentina;

– Coordenação: Kjeld Jakobsen, consultor em Cooperação e Relações Internacionais.

Mesa 4: A Política Externa Brasileira e o Meio Ambiente 

– Francisco Gaetani, secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente; 

– Iara Pietricovsky, atriz, antropóloga, membro do Colegiado do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC);

– João Paulo Candia Veiga, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP);

– Coordenação: Robson Fórmica, membro da coordenação do Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens/MAB.

Mesa 5: A Política Externa Brasileira vista pelos Países Vizinhos 

– Aldo Ferrer, professor emérito da Universidade de Buenos Aires, ex-ministro da Economia, Argentina;

– Damián Osta, gerente geral do jornal La Diaria, Uruguai;

– Gustavo Codas, economista, ex-diretor geral paraguaio da Itaipu Binacional, Paraguai;

– Coordenação: Gonzalo Berrón, diretor de projetos da Fundação Friedrich Ebert (FES).

14h00-17h00: Mesas simultâneas 

Mesa 6: A Política Externa Brasileira, comércio internacional, investimentos e assimetrias 

– Giorgio Romano, professor, coordenador do Curso de Relações Internacionais da UFABC;

– Marcos Antonio Macedo Cintra, técnico em planejamento e pesquisa do IPEA;

– Nivaldo Santana, vice-presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB);

– Coordenação: Michelle Ratton, professora da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FVG).

Mesa 7: A Política Externa Brasileira e os Entes Federativos 

– Mónica Salomón, professora de Relações Internacionais do departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); 

– Paula Ravanelli, assessora especial da subchefia de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República; 

– Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique/Brasil;

– Coordenação: Oswana Maria F. Fameli, secretária de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Trabalho da Prefeitura de Santo André/SP.

Mesa 8: Política Externa Brasileira, Soberania e Direitos Humanos

– Camila Asano, representante da Conectas no Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa;

– Maria do Rosário, ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República; 

– Rossana Rocha Reis, professora do Departamento de Ciência Política e Instituto de Relações Internacionais/USP; 

– Coordenação: Carlos Ruiz, professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Mesa 9: A Política Externa Brasileira e as relações com a África

– Embaixador Paulo Cordeiro, subsecretário-geral Político III do Ministério das Relações Exteriores;

– Eli Alves Penha, professor de geografia política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ);

– Gilberto Leal, membro da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen); 

– Coordenação: Vera Rodrigues, antropóloga, professora adjunta no Instituto de Humanidades e Letras da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

 Mesa 10: A Política Externa Brasileira e a relação com a Sociedade Civil

– Deisy Ventura, professora de Direito Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP);

– Fátima Mello, diretora da FASE-Solidariedade e Educação e coordenadora da REBRIP;

– Murilo Komniski, chefe da Assessoria Internacional da Secretaria Geral da Presidência da República;

– Coordenação: Rubens Diniz, diretor executivo do Instituto de Estudos Contemporâneos e Cooperação Internacional/IECint.

Mesa 11: A Política Externa Brasileira e o Oriente Médio

– Carlos Oliveira, chefe da divisão do Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores; 

– Emir Mourad, secretário geral da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL); 

– Salem Nasser, professor de Direito Internacional da Escola de Direito de São Paulo (FGV);

– Coordenação: Paulo Farah, diretor da Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul-Países Árabes (Bibliaspa).

Mesas de Diálogo 18h00 – 20h00: 

Mesa 1: A Política Externa Brasileira: um diálogo com partidos do Foro de São Paulo

– Renato Rabelo, presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB);

– Rui Falcão, presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) representante do PSB representante do PDT;

– Coordenação: Gilberto Maringoni, professor adjunto de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Mesa 2: As redes sindicais e a política externa brasileira

 

– João Cayres, secretário Geral e de Relações Internacionais da Confederação Nacional dos Metalúrgicos/CNM;

– Fábio Lins, secretário de Relações Internacionais, Confederação Nacional dos Químicos /CNQ;

– Manoel Messias Melo, secretário de Relações Internacionais do Ministério do Trabalho;

– Coordenação: Jefferson José da Conceição, secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo da Prefeitura de São Bernardo do Campo/SP .

18 DE JULHO, QUINTA-FEIRA

09h00 Mesa de Diálogo 3: O futuro da Política Externa Brasileira: desafios e perspectivas 

– Artur Henrique, presidente do Instituto de Cooperação da CUT e diretor da Fundação Perseu Abramo;

– Jackson Schneider, vice-presidente executivo da Embraer S. A.;

– Senador Inácio Arruda, membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Senado Federal;

– Deputado Nelson Pellegrino, presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados;

– Sebastião Velasco, professor titular de Ciência Política e de Relações Internacionais (UNICAMP);

– Vera Masagão Ribeiro, diretora executiva da Associação Brasileira de ONGs/ABONG;

– Coordenação: Luiz Dulci, diretor do Instituto Lula.

15h00 Palestra Brasil no mundo: mudanças e transformações 

– Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do Instituto Lula, ex-Presidente da República Federativa do Brasil;

– Coordenação: Klaus Capelle, Pró-Reitor de Pesquisa da UFABC.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa, Post Especial


Democratizando a política externa

Por

Quando falamos de democracia participativa, estamos lidando com um tema que envolve o próprio conceito de cidadania. A participação dos indivíduos na formulação e discussão de políticas públicas é de suma importância: politiza pela vivência, expõe os potenciais e limites da gestão, empodera o cidadão, faz a política mais próxima dos conflitos diários da população. As recentes manifestações que vivenciamos no país certamente demonstraram o potencial de uma sociedade civil que pode se mobilizar, mas que ainda deveria se interessar muito mais pelo processo (diário) de construção política, como fazem historicamente vários movimentos sociais.

E vale ressaltar que política externa é, exatamente, uma das vertentes de políticas públicas do país, mas que acaba sendo muito menos discutida no âmbito público nacional do que poderia ou deveria. Isto por um lado é reflexo do “lugar” que o agente principal das relações internacionais ocupa, ou seja, o governo federal, mas não exclui seu reconhecimento enquanto política pública ou a importância que tem na vida das pessoas. Aliás, a democratização da política externa é um assunto que envolve todos os cidadãos e o diálogo com a sociedade para a formulação de prioridades e a tomada de decisões neste âmbito internacional precisa ser aprofundado no Brasil envolvendo lideranças políticas, acadêmicas, dirigentes governamentais, representantes de organizações sociais e estudantes.

Entender como a política externa afeta o nosso cotidiano, bem como avaliar o papel do nosso país neste cenário global de profundas mudanças exige debate e reflexão. Visualizar, ainda, as novas responsabilidades brasileiras em fóruns e organizações multilaterais (OMC, FAO, OEA, BRICS, IBAS, G20, etc.) diante do que se entende por pilares de nossa política externa realça um momento que o Brasil talvez nunca tenha vivido de inserção internacional, marcado pela ampliação dos parceiros internacionais e a atenção às relações Sul-Sul.

Neste contexto, será realizada na próxima semana uma importante Conferência Nacional intitulada “2003-2013: Uma nova política externa”, em São Bernardo do Campo/SP. Com a participação de muitos policy-makers, acadêmicos, políticos e representantes da sociedade civil, o evento pretende trazer à tona a questão da democratização da política externa neste contexto de protagonismo internacional brasileiro.

Organizada pelo Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI), a Conferência é um importante passo para construir processos participativos relacionados com a política externa. As inscrições para o evento já se esgotaram, mas este será transmitido on-line, do dia 15 ao dia 18 de julho no site da conferência (link disponibilizado na barra lateral do blog). Convidamos todos e todas a acompanharem! A programação completa pode ser acessada aqui e espera-se que este assunto seja discutido não apenas pelos participantes durante os quatro dias de conferência, mas por todos os cidadãos em cada momento de construção política que vivenciamos. 

(Texto escrito com a colaboração de Aline Andrade Rocha.)


Categorias: Brasil, Política e Política Externa, Post Especial


Vinte centavos no país das maravilhas

Por

Vinte centavos nunca custaram tão caro. E não foi preciso ser Alice para cair na toca de um coelho e ver o impossível se tornar possível. Bastou sair às ruas ou acompanhar o noticiário. Disseram uns que “o gigante acordou”, outros entoaram o hino nacional com entusiasmo inabalável. A maioria protestou pela primeira vez. De repente, o Brasil tornou-se o país das maravilhas em um mundo já maravilhado. 

Aquela recorrente característica do povo brasileiro, a apatia, é colocada à prova. Povo apático, não necessariamente pacífico (o relatório anual do australiano Instituto para a Economia e a Paz intitulado Global Peace Index listou o Brasil em 81º lugar entre 162 países). Uma apatia que encontra traços na própria história da formação política, econômica, social e cultural do país, analisada por ícones da intelligentsia brasileira. 

A cordialidade, diria Sérgio Buarque de Holanda, é uma herança lusitana, cuja delicadeza no trato serve a propósitos pessoais. Perpetuam-se, com isso, as relações de compadrio, a troca de favores, o estado patrimonialista, a subordinação do interesse público aos interesses particulares, entre outras distorções. Não por menos, Raymundo Faoro tanto destacou as cíclicas tensões entre a construção de um estado patrimonialista, por parte das elites, e sua possibilidade latente de dissolução, por meio das massas e de uma ação democrática. Seguiria a república inacabada. 

Será que concluímos a república? Após mais de quinhentos anos de “descobrimento” e quase duzentos anos de independência, será que o brasileiro encontrou uma forma de organização político-institucional e socioeconômica da qual faça parte e nela se sinta plenamente representado? Se não, o que fazer? 

Mesmo na antiga sabedoria política hobbesiana, em que os indivíduos renunciariam à sua liberdade incondicional em benefício de uma segurança despótica, abria-se espaço para derrubada do soberano. Uma vez descumprido o pacto social que o instituía, cabia aos súditos destituí-lo e realizar um novo pacto. Para os arautos do socialismo, comunismos, marxismos, entre outros “ismos” ditos de esquerda, a revolução seria o caminho; o modo de fazê-la, discutível. Mas sopraram os ventos liberais, forjados pelas revoluções (também) burguesas, e os ideais da modernidade iluminista percorreram o mundo. O principal deles: era preciso domesticar o leviatã, seja ele quem ou o que for. Aí também entrou a sociedade e suas manifestações. 

Não é diferente hoje. E não dá para compreender o Brasil sem olhar para o mundo. Poucos imaginavam que presenciariam uma onda global de protestos nesta década, afetando, indiscriminadamente, países ricos e pobres, democráticos e autoritários. O mais recente deles na Turquia. 

A crise financeira internacional levou multidões às ruas para protestar contra o agravamento das condições socioeconômicas. Desemprego, pobreza, fome, medo e descrença pareciam anunciar o fim do estado de bem-estar social europeu. O “Ocupe Wall Street”, cujo mote “99% x 1%”, lançou um grito contra a desigualdade na distribuição de renda e de riqueza na terra de oportunidades, na superpotência mundial. Os estudantes chilenos marcharam em prol do ensino universitário. E, é claro, a Primavera Árabe, quando a autoimolação de um vendedor de frutas tunisiano inflamou levantes populares no Oriente Médio e no norte da África. Em edição especial sobre o assunto, a revista Foreign Policy trazia em suas primeiras páginas uma piada egípcia: “Qual é o dia perfeito para Hosni Mubarak? Um dia quando não acontece nada.”. 

Muita coisa aconteceu. Não só no Egito. A personalidade do ano eleita pela revista Time, em 2011, foi “o manifestante”, cuja capa apresentou uma pessoa com a face coberta, deixando apenas os olhos à mostra. Sem dúvidas, esta “Era da Informação” proporcionou um empoderamento dos indivíduos, alterando as relações de poder entre eles e os governos e ampliando os meios para se conduzir a ação política. Dos suntuosos edifícios para o espaço público, da representatividade indireta para o tête-à-tête, uma nova ágora está se desenhando. 

Mas também muitos sonhos feneceram. Em meio à crise financeira, governos eleitos pelo povo foram substituídos por tecnocratas, que passaram a adotar medidas impopulares à procura de uma saída. As vozes libertárias e reformistas de muitos árabes foram sucumbidas pelo conservadorismo das classes dirigentes, já no poder antes mesmo da eclosão dos protestos. Observou-se que sair às ruas não foi sinônimo imediato de mudar um país. Mudou, sim, a mentalidade das pessoas. 

Se for possível uma rápida conclusão, toda manifestação não pode abrir mão da política. Não aquela partidária, mas sim a organizacional, diretiva e finalística, no sentido de definir objetivos e estratégias para alcançá-los. Renegar à política é perder a chance de escrever a história, e não somente nela se inscrever. As imagens ficam, o filme passa.

Isto ainda não está ocorrendo no Brasil. De início, já se sabia que os R$ 0,20 era apenas o estopim para algo mais amplo. Há um sentimento de indignação coletiva contra vários assuntos: transportes, Copa do Mundo, corrupção, mídia, saúde, educação e por aí vai. É a insatisfação contra algo ou alguém que une as pessoas. É também o que lhes dá esperança. Alguns dirão, com razão, que a democracia é povo nas ruas, unido não só pelas concordâncias, mas especialmente pelas discordâncias. A festa do pluralismo em uma sociedade multicultural, o fim da inércia… A combinação perfeita!

Na prática, a teoria é outra. Quem protesta contra tudo, ao mesmo tempo, protesta, especificamente, contra nada, assim como manifestações que representam todos os grupos acabam por não representar, particularmente, nenhum deles. O resultado é o estabelecimento de uma agenda negativa, não no sentido pejorativo, mas sempre em resposta ao que está ruim e, mesmo apresentando o que se pretende, não propõe como alcançá-lo. 

Até agora, tem-se uma sociedade mobilizada, não necessariamente organizada, e que apresenta uma mensagem clara aos governantes e a ela: a rua, mais do que nunca, é a reação natural aos descasos e distúrbios do sistema político brasileiro. O segredo é passar de uma agenda negativa para outra propositiva e converter essa mensagem em satisfação das demandas. Certamente, isso contribuiria para restringir os “vândalos” e “baderneiros”, que não representam, de fato, os movimentos. 

As manifestações atuais, enfim, fazem parte do acabamento da república. Põem em xeque a cordialidade de um povo que tenta amar o próximo, mas esquece o distante. Recuperam a brasilidade e fazem o cidadão sentir as rédeas do destino de seu país em suas mãos. Nada de errado nisso. Porém, por enquanto, o que se ouve é aquele brado retumbante, outrora contido, contra todo e qualquer problema. A diversidade, embora seja uma virtude unificadora, é também a vicissitude dos protestos, algo que tende a apequenar o “gigante acordado”. Sem organização, agenda e lideranças, os manifestantes deverão ser suplantados por outra inércia, ainda pior: a indecisão. 

A melhor ilustração para momento está na própria obra Lewis Carroll, que, mais do que um livro infantil, é um tratado de lógica. Quando Alice se depara com uma encruzilhada, ela pergunta para o gato qual caminho deveria seguir, ao que ele responde com outra questão: “para onde quer ir?”. Sem titubear, ela lhe diz que pouco se preocupa para onde vai. Sabiamente, argumenta o gato: “nesse caso, qualquer caminho serve”. Nós ainda somos todos Alice. E prosseguem as manifestações.

*Texto do colaborador Giovanni Okado.


Categorias: Brasil, Polêmica, Política e Política Externa, Post Especial


Post Especial: A hora e a vez do general Santos Cruz

Por

[Nas últimas semanas, o noticiário relatou com entusiasmo a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a chefia da OMC. Outra importante nomeação de um brasileiro passa pela mídia com menos alarde, mas podemos dizer que seja tão significativa quanto. Nessa postagem muito especial, o colaborador Giovanni Okado conta um pouco de sua experiência pessoal com o General Santos Cruz, designado pelas Nações Unidas para comandar a inédita brigada de intervenção da força militar da ONU no Congo. Aproveitem essa esclarecedora e surpreendente leitura, sobre homem tão singular a quem foi confiada uma missão tão importante.]



“I’m ready!”. Com essas palavras, o general Santos Cruz colocou-se à disposição, logo na primeira sondagem, no início do mês de abril, para comandar as tropas da MONUSCO. 

Nesse dia, estávamos almoçando juntos. De repente, o telefone tocou. Era o tenente-general Babacar Gaye, do Senegal, Assessor Militar do Escritório de Assuntos Militares do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e Force Commander da MONUSCO entre fevereiro de 2005 e julho de 2010. A proposta estava lançada. Restavam os acertos políticos na ONU, e entre ela e os governos africanos e brasileiro.

Dia 24 de abril de 2013, chegou a carta da organização para o governo brasileiro, oficializando a proposta. No documento, foram ressaltados atributos do chefe militar: “muito dinâmico, capaz e bem respeitado, com vasta experiência, incluindo sua atuação exitosa como Force Commander da MINUSTAH de janeiro de 2007 a abril de 2009.”. Pouco menos de um mês depois, dia 17 de maio, veio o anúncio do Secretário-Geral das Nações Unidas, nomeando-o como novo comandante da força militar da MONUSCO. 

Este é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros. É, também, um exemplo de vida para cada um de nós. Se é verdade a célebre frase machadiana – e ela certamente o é – de que os melhores amores nascem de um minuto, então, temos muito a aprender com ele. O amor dele à pátria, à profissão, ao próximo e, sobretudo, à paz demonstra que o instante desafiador é o mais belo. E o mais duradouro. 

A fala desse combatente é ríspida, o rosto, severo. Mas o tratamento é sempre humilde, simples, educado e equilibrado, jamais superior ou inferior. É uma mistura de quem diz “tem que ser violento na ação, depois que ela acabou, termina a violência” e ao mesmo tempo fala “desde que eu me conheço por gente, sou um cara apaixonado”. Por trás da incansável farda, o guerreiro cavalheiresco, uma pessoa com quem a convivência rende boas histórias, e estas se tornam um tesouro raro. 

Tenho a sorte de ter convivido com essa personalidade ímpar. Minha admiração por ele é imensa. Ainda na graduação, durante minhas primeiras pesquisas e estudos sobre temas de segurança e defesa, deparei com o seu nome. Era o “cara” que pacificou o Haiti. Era a pessoa que estava presente nas notícias e nos relatórios que eu lia, quem eu me perguntava se um dia teria a oportunidade de conhecer. 

Conheci. Para minha surpresa, no mestrado, encontrei com ele sentado na sala de aula, na condição de aluno. Durante um semestre, fizemos uma disciplina juntos. Pudemos debater, conversar, ele e eu e com a classe toda. Eu, assim como a maioria dos alunos, mais teórico; ele, mais prático. Às vezes, o general era criticado por apresentar ideias que decorriam de sua vivência, a exemplo de frases como “para muita gente, na África, democracia é ter uma luz acesa em casa”, mas não deixava de revelar, ainda que sem o dito conhecimento que se exige no meio acadêmico, a sensatez que escapa à teoria.

Àquela época, mal esperava eu que o destino nos colocaria novamente próximos. Desta vez, no trabalho: ele, coordenando a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu, como assessor técnico. Essa relação durou pouco, é bem verdade, foram apenas dois meses. Mas, recordando Vinícius de Moraes, foi eterna em sua duração. Uma experiência notável, que me permitiu evoluir, seja no aspecto profissional, seja no aspecto humano. 

Nenhuma manhã começava sem uma reunião em sua sala. As cadeiras se aglutinavam em torno de sua mesa. Entre muito papo, muito debate sobre o noticiário e muitos relatos de uma longa carreira militar, as tarefas eram distribuídas. Ao longo do dia, ele entrava em nossa sala, perguntava sobre o que estávamos fazendo e logo estávamos novamente papeando. Se havia, a subordinação do empregado ao chefe era pouco percebida; prevalecia a colaboração e o respeito aos seus “subordinados”, a quem ele se referia como “muito bons e inteligentes”.

Quanto aos relatos, entre tantos que não chegam à mídia, marcou-me uma história triste, mas de superação. Em uma escola caindo aos pedaços no Haiti, havia uma menina com as pernas presas aos escombros, que precisaria ser amputada não fosse a valentia de uma médica do Exército Brasileiro, apoiada pelo general Santos Cruz. Bem embaixo do edifício, em um local de acesso remoto e onde o menor barulho poderia derrubar toda a estrutura que sobrou da escola, entraram o chefe militar e a equipe de resgate para socorrer essa menina. Hoje, ela anda normalmente. 

Nunca vi o general se vangloriando de seus feitos, vários deles heroicos. Só o via se vangloriando de seus cavalos, de como eles tinham saltado bem, a cada dia que chegava à SAE/PR, depois de tê-los treinado. O entusiasmo era nítido em sua voz. Assim como presenciei esse entusiasmo quando estávamos no Rio de Janeiro, em missão, e passamos pelo Pão-de-Açúcar. Repetidas vezes, ouvi ele dizer “isso aqui é maravilhoso!”. Próximo a aterrisagem na capital federal, novamente escutei sua voz entusiástica: “Giovanni, ó Brasília, ‘vem’ ver!”. Naquele momento, compreendi que, independente de sua posição e de suas realizações, não há vanglória maior nem melhor do que ser apaixonado pela vida.

Em pequenas atitudes, o general facilmente conquista a simpatia de qualquer um. O homem que esteve presente no jantar de comemoração do meu aniversário é o mesmo que era tratado como um “rei” pelas tropas jordanianas da MINUSTAH. Exatamente o mesmo sujeito, sem pompa ou soberba. Aquele que, no último dia 23, reuniu amigos e familiares em seu jantar de despedida e deixava transparecer alegria e empolgação, consciente de que sua missão no Congo, embora hercúlea, não é irrealizável. 

Trabalhar com o general foi, para mim, uma honra que não poderia imaginar nem conseguiria descrever. Mais do que trabalhar, conviver. Nesta semana, ele embarcou para Nova Iorque e, exatamente no dia de seu aniversário, 2 de junho, partirá para o Congo. Fico agora, assim como milhões de brasileiros, africanos e pessoas de todo o mundo, na torcida pelo seu sucesso. Que essa nova esperança, de sangue verde e amarelo e de bem com a vida, floresça naquele solo tão manchado por guerras, frustrações, violência e desamor. 

Boa sorte, general Santos Cruz! Força, muita força!


Categorias: Brasil, Defesa, Organizações Internacionais, Paz, Post Especial, Segurança


Post Especial: homenagem a Kenneth Waltz (1924-2013)

Por

Fonte: berkeley.edu


Não há nada mais comum para uma área científica contemporânea do que ter marcos, referências e métodos um tanto quanto atuais, digamos assim. E isso é bom porque vivenciamos algumas das principais referências das Relações Internacionais ainda em vida. Lemos livros que, embora novos, já se tornaram clássicos, e é bom saber que seus autores podem responder um email a qualquer momento. Já conheci gente, seja graduando ou pós-doutor, que recebeu resposta direta de Joseph Nye e Robert Keohane, por exemplo. 

Temos a ideia de “endeusar” autores referenciais. Comprar um livro, ler, gostar e, se tiver a oportunidade, pegar até um autógrafo. Pode parecer estranho, mas, quando estava no meu primeiro ano da faculdade e participei do Encontro Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (ENERI) e do Encuentro de Estudiantes y Graduados en Relaciones Internacionales del Cono Sur (CONOSUR) em 2008, na cidade de Ribeirão Preto (SP), nunca vi tanta gente entusiasmada em ver figuras como Stephen Krasner e o já citado Keohane. É uma satisfação ter contato com gente que realmente faz as Relações Internacionais no sentido mais puro e pleno da palavra. 

Infelizmente, a partir de hoje, não teremos mais a sensação descrita acima com um dos maiores, senão o maior, teórico de Relações Internacionais, seja ele o neo-realista Kenneth Waltz (foto). Referenciado como “Waltz” para os scholars ou simplesmente “Ken” para os amigos e professores mais próximos, conforme pode ser visto no texto de Stephen M. Walt, tornou-se um dos mais célebres teóricos do período da Guerra Fria e, com toda certeza, no pós-Guerra. 

Ficou notadamente conhecido por duas obras centrais: “Man, the state, and War” de 1959 e “Theory of International Politics” de 1979. Além de ser um acadêmico brilhante, serviu no exército norte-americano durante a Guerra da Coreia (1950-1953) e foi totalmente contrário à invasão do Iraque em 2003. Talvez o primeiro episódio tenha provocado no autor um forte caráter realista, vedando qualquer aspecto pacifista em suas concepções políticas internacionais. 

Waltz reuniu todos os aspectos centrais em um autor para delimitar e sustentar um dos pilares do que hoje é conhecido com o terceiro debate teórico das Relações Internacionais. Foi o núcleo realista baseado na figura do Estado enquanto principal ator internacional que vivia em um ambiente internacional anárquico que deu as bases para o Neo-realismo ou Realismo Estrutural, o qual carregará para sempre a figura do autor. 

Era Professor Emérito na Universidade de Berkeley e Pesquisador Sênior da Universidade de Columbia, tendo concluído seu doutorado nesta última faculdade ainda em 1957. Soube trazer com primazia o debate da Ciência Política para as Relações Internacionais e mostrou-se polêmico com a defesa de que a proliferação de armamentos nucleares ao redor do mundo aumentaria a probabilidade de se alcançar uma paz mundial.

Como neo-realista, tinha um alto teor de abstração em seus pensamentos e conceitualizações, mas nada que retirasse o mérito de sua corrente intelectual. Seguiu mestres e deixou mais seguidores. Sua benéfica “troca de farpas” com o neoliberal Robert Keohane deixará saudades. Se existem liberalismos, é porque existiu Kenneth Waltz. Ficarão as lembranças de um ícone, de alguém que soube vivenciar a prática e transpô-la à teoria. Com certeza faltará este autógrafo em muitas bibliotecas.

PS: O email de Robert Jervis sobre o falecimento de Waltz pode ser lido aqui.


Categorias: Post Especial


Inseguranças do presente e operações de paz

Por


[Em meio às notícias que agitam o noticiário das missões de paz no dia de hoje, uma contribuição singular do membro Giovanni Okado, sobre esse tema que ainda vai render muita discussão nas próximas semanas. Confiram!]

O mundo está mais inseguro, é inegável. A violência do século XXI, conforme constatação do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2011, intitulado “Conflito, segurança e desenvolvimento” e elaborado pelo Banco Mundial, não se encaixa nos moldes do século XX – muito menos dos anteriores. As guerras interestatais e civis diminuíram nos últimos 25 anos, embora, paradoxalmente, a insegurança tenha aumentado: um bilhão e meio de pessoas vivem em áreas afetadas por fragilidade, conflitos ou violência criminal organizada, em larga escala. Os dados do Uppsala Conflict Data Program reforçam essa situação: entre 2001 e 2010, houve 69 conflitos armados, 221 conflitos não estatais e 127 atores impondo uma violência unilateral. 

Muitos países ou áreas subnacionais, como demonstrado no relatório mencionado, enfrentam ciclos repetidos de violência, governança insuficiente e instabilidade. A estimativa é que 90% das guerras civis da última década ocorreram em países que já haviam sofrido uma guerra civil nos últimos 30 anos. O custo médio desse tipo de guerra equivale a mais de 30 anos do crescimento do PIB de um país em desenvolvimento de tamanho médio. 

Os laços entre segurança e desenvolvimento são cada vez mais inextrincáveis. Hoje, são os indivíduos, e não as nações, que fenecem com o conflito e a violência. Ainda citando dados do relatório, a probabilidade de populações nos Estados frágeis ou afetados por conflitos estarem subnutridas é mais de duas vezes maior do que as pessoas em outros países em desenvolvimento. Igualmente, as probabilidades das primeiras de enviarem seus filhos à escola, de verem seus filhos morrerem antes dos 5 anos e de carecerem de água potável são, respectivamente, três, duas e duas vezes menor do que das últimas. 

Não há dúvidas de que o ambiente para a promoção da paz e segurança internacionais está mais complexo. Uma das maneiras, já adotada há 65 anos, que a comunidade internacional acordou para lidar com isso foi o estabelecimento de operações de paz. No total, já se estabeleceram 67 operações e, atualmente, há 15 em andamento. 

Toda operação de paz deve seguir três (controversos) princípios: consentimento das partes, imparcialidade e uso da força apenas para a autodefesa ou cumprimento do mandato. Se, de início, concebia-se essas operações apenas para manter a paz e segurança, agora, elas também se destinam a facilitar o processo político, proteção de civis, assistência ao desarmamento, desmobilização e reintegração dos combatentes, apoio às eleições, proteção e promoção dos direitos humanos e auxílio ao reestabelecimento da governança.  

À primeira vista, as operações de paz se apresentam como um dos remédios para curar a insegurança contemporânea. Mas alguns, com razão, podem argumentar: essas operações não violam a soberania de países onde elas ocorrem? A resposta que vem à mente, de pronto, é: esses países, ainda que soberanos de direito, seriam soberanos de fato? 

Esse é um dos dilemas que a comunidade internacional terá que confrontar quando debater a continuidade das operações de paz. Até o momento, elas têm demonstrado, sobretudo, relativa eficiência para ajudar governos em dificuldade e prover serviços a populações em situação de risco. Concomitantemente, a solidariedade internacional aumentou: dificilmente alguém permanece impassível diante de violações sistemáticas dos direitos humanos. E, é claro, aumentaram os interesses. A reconstrução dos países, sob a retórica humanitária, gera prestígio e lucro. 

Em um mundo cujo traço marcante é a insegurança, as operações de paz devem permanecer como um importante instrumento para promoção da segurança e, complementarmente, do desenvolvimento. Entretanto, além de sofrer questionamentos quanto à sua implantação, elas enfrentarão a concorrência de outras ações (mais intervencionistas), como contempladas nas estratégias dos Estados Unidos e da OTAN ou como observado na atuação da França no Mali. 

Um ponto emblemático nas operações de paz foi a adoção da Resolução 2098, em 28 de março deste ano. Ela aprovou a criação de uma “brigada de intervenção” no âmbito da missão de paz no Congo, a MONUSCO, país que, em grande medida, enquadra-se nas problemáticas levantadas pelo relatório do Banco Mundial. Isso pode dar início a uma nova fase. Uma fase que levará em conta o antigo provérbio latino “se queres a paz, prepara-te para a guerra”, quando for o caso, combinado com ampla assistência humanitária. E que fase. Resta saber se ela será a regra ou a exceção.


Categorias: Defesa, Paz, Post Especial, Segurança