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Post do Leitor – Rodrigo Vilarinho Rossi

[Pessoal, segue logo abaixo um post feito pelo aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Rodrigo Vilarinho Rossi. Está muito bom! Obrigado, Rodrigo, e está convidado a aparecer sempre por aqui.]

O desastrado e a exibicionistaAgora nos deparamos com a seguinte notícia: “Governo dos EUA divulga, acidentalmente, relatório nuclear secreto.”

Depois do grande empenho da Coréia do Norte de mostrar para todo o mundo a sua capacidade bélica e nuclear, os EUA divulgam “acidentalmente” um relatório intitulado como “altamente confidencial”, de 266 páginas com informações de vários programas nucleares americanos, “incluindo mapas e informações relativas à localização de combustíveis para armas nucleares”, e mais, a revelação foi feita pelo jornal The New York Times, que é considerado um dos mais influentes e legítimos jornais do mundo.

Mas que coincidência!

Deterrence, palavra utilizada nas Relações Internacionais, ou dissuasão (traduzida para a língua portuguesa) é o que a divulgação dos projetos nucleares dos EUA deseja alcançar, a meu ver. Ou seja, os EUA, com essa atitude (creio eu, não acidental), estão demonstrando ao mundo e, principalmente, à Coréia do Norte a sua grande capacidade de retaliação a qualquer atitude hostil que venha a abalar, direta ou indiretamente, a sua segurança. Tudo isso para que a Coréia do Norte repense seu posicionamento e suas atitudes, que estão causando fervor no cenário internacional.

Farei uma previsão do futuro:

Com a minúscula possibilidade de um conflito direto, o “desastrado” EUA será o futuro “exibicionista”, zelador da paz e da tranqüilidade do sistema internacional, e a “exibicionista” Coréia do Norte será a futura “desastrada”, não conseguindo, através de suas exibições nucleares, impor seus interesses.

Só nos resta esperar o próximo capítulo desta novela.


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Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Pois é, pessoal, tirei férias mesmo do blog essa semana e minha postagem vai ficar só no podcast de amanhã mesmo. Acaba de chegar mais um post da Adriana Suzart de Pádua. Já fica aqui o convite para a Adriana tornar-se colaboradora oficial do blog. E, quem quiser mandar textos, comentários, imagens pra semana, email para [email protected]. Vamos ao post!]

Já pensou se a moda pega?


O presidente boliviano Evo Morales está fazendo jejum há dois dias. E não é penitência ou sacrifício em virtude da Semana Santa. A greve de fome do mandatário tem motivações menos místicas. Morales protesta contra a negativa do Congresso Nacional em aprovar uma a Lei Eleitoral prevista pela atual Constituição boliviana, aprovada em janeiro pelo voto popular. Sem a aprovação dessa nova Lei Eleitoral, as eleições gerais de 6 de dezembro correm sério risco de serem comprometidas. Os senadores opositores se negaram a votar e abandonaram a sessão depois de 30 horas de discussão. Tudo isso porque a norma em votação dá brechas para uma possível reeleição de Morales no fim do ano…

Eu não sei quanto a vocês, mas acho que a decisão do nosso vizinho boliviano um tanto quanto apolítica, podendo se espalhar pela região, como tem acontecido com algumas medidas tomadas pelos governos sul-americanos. E por um motivo muito simples: a boa política se faz com argumentos e não com chantagens emocionais e medidas desesperadas. Alguns podem argumentar que medidas dissuasórias ou embargos, por exemplo, são um tipo de chantagem. Concordo. Mas não podemos esquecer que elas são medidas extremas tomadas num sistema internacional anárquico, ou seja, sem um governo supranacional.

Definitivamente não é esse o contexto na Bolívia. Lá, Morales é chefe do Executivo e a ele cabe dialogar com os poderes Legislativo e Judiciário para fazer valer a vontade do povo. Um presidente que não consegue negociar com a oposição terá muita dificuldade em governar.

Saindo do âmbito interno boliviano e lançando um olhar para a região, é notório que estamos em um momento político inédito. Muitos analistas dizem que estamos atingindo uma maturidade democrática própria e certamente muito peculiar. Características como o discurso populista adotado por alguns presidentes, a elaboração de novas Constituições que rompem com o passado político pouco democrático e a tentativa de aprovação de dispositivos que permitam a reeleição ilimitada têm sido apontados como traços comuns a alguns países sul-americanos.

Nada contra a eleição ilimitada desde que feita livre de fraudes. Afinal se o sistema é democrático deduz-se que deve valer a vontade do povo. Se o povo quer continuidade, que assim seja. Não é essa moda que me preocupa, mas o fato de depois de tanto tempo tentando acertar, uma atitude como essa desqualifique todo o progresso que alcançamos.

O protesto do mandatário boliviano já conseguiu cerca 1000 adeptos entre a população. Vamos torcer para que não contagie os seus pares vizinhos.


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Post do leitor – Luís Felipe Kitamura

[Mais um bom post de um de nossos leitores. Desta vez quem escreve é o Luís Felipe Kitamura, aluno do 4° ano de Relações Internacionais da UNESP-Franca. Boa leitura! Se quiser escrever aqui, e-mail para [email protected]]

Uma nova política externa americana?

Desde sua chegada a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama enfrenta diversos desafios e as mais variadas demandas. Esta semana vai ser especialmente importante para os rumos da sua administração, muitos assuntos sensíveis estarão em pauta. Primeiro, Obama irá a Londres para participar da reunião do G-20, para discutir suas políticas anti-crise frente à União Européia (que gostaria de construir uma arquitetura internacional anti-crise), a China (que defende a criação de uma moeda internacional de reserva) e os países emergentes (que procuram se projetar em termos de representação política). Ainda durante essa semana, se reunirá com o presidente chinês Hu Jintao – uma semana depois do Pentágono ter divulgado um relatório com referências a crescente militarização do gigante chinês, além de se encontrar com o presidente russo Dmitri Medvedev, com o qual os Estados Unidos desejam dar um “reset” em termos das suas relações bilaterais. Por último defenderá seu plano de ação para o Afeganistão na reunião da OTAN, desejando contar com o apoio dos seus países membros.

A grande mudança que se espera da política exterior de Obama é sua gradual desvinculação das políticas de segurança nacional, a qual imperava sob a administração Bush. Até o presente momento, no âmbito do discurso ao menos, parece que tem caminhado na direção correta, desde a resposta de Obama (em entrevista ao programa 60 minutes da rede americana CBS) ao ex-vice presidente Cheney (que na semana passada afirmou que o país poderia estar mais vulnerável a ameaças externas sob políticas na nova administração), passando pela mensagem ao Irã, pelo o desejo de reestabelecer o diálogo com países como Síria, pelo reconhecimento da necessidade de buscar alternativas as mudanças climáticas e pela a busca de uma maior cooperação com o México no combate ao narcotráfico.

Preocupa, no entanto, o mais novo plano para o Afeganistão. Parece mais do mesmo. O problema de fato, como Giovanni coloca em seu post, não é a falta de militares, mas sim o fracasso em si das políticas americanas para o Oriente Médio. A cada dia surgem novos desafios, frente à instabilidade no Paquistão e a imprevisibilidade do Irã.

Na revista Foreign Affairs deste bimestre, Bennett Ramberg defende a “retirada com honra” do Iraque (engolir o orgulho e partir, já que as instabilidades internas e disfunção política superam as tentativas externas de estabelecer a ordem, por isso partir o quanto antes seria a melhor forma de garantir os interesses dos Estados Unidos), utilizando os exemplos históricos como Vietnã e Camboja (1960´s), Líbano (1980´s) e Somália (1990´s). Trago essa referência para lembrar que historicamente os Estados Unidos sempre partem, mas o problema permanece ou se agrava. Ramberg ainda traz o caso da União Soviética, que durante a década de 1980 incorreu em prejuízos econômicos e políticos na tentativa de derrotar os afegãos.

Se o plano é derrotar o terrorismo com a força militar – tal qual Bush, o plano deve trazer mais um fracasso. Contudo, se conseguir maior engajamento de China, Índia e um maior diálogo com o Irã para resolver o problema da instabilidade da região, assim como o uso do serviço de inteligência ao invés da força militar, talvez exista uma real saída que não seja apenas a “retirada com honra”, mas a real estabilização da região. O problema é muito intricado e a solução deve ser multilateral, por isso é fundamental, nessa semana, Obama convencer os países membros da OTAN a apoiá-lo em seu plano “Afe-Paqui”. Acredito que é com isso que Obama conta. E Isso pode significar uma mudança do paradigma de política exterior americana para o Oriente Médio, como a atual prioridade, em concordância com os demais passos ensaiados por sua equipe em outras questões, o que seria, de fato, um grande progresso. Para encerrar, deixo aqui a declaração recente de Obama a respeito:

“The world cannot afford the price that will come due if Afghanistan slides back into chaos or al-Qaeda operates unchecked. We have a shared responsibility to act, not because we seek to project power for its own sake, but because our own peace and security depends upon it. And what’s at stake at this time is not just our own security; it’s the very idea that free nations can come together on behalf of our common security.” (Fonte: www.democracynow.org – The war and peace report – 30 de março)


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Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Pessoal, como eu havia previsto, nosso podcast levantou opiniões divergentes. A Adriana Suzart de Pádua, que já escreveu outros três posts aqui no blog, enviou o texto que segue abaixo. Antes, no entanto, gostaria de fazer algumas colocações. O objetivo deste blog não é apenas informar nossos leitores sobre o que está acontecendo no mundo. Pra isso basta colocarmos os links dos bons jornais que temos no país. Nós queremos ir além da informação pela informação, afinal, uma notícia sem a devida compreensão não passa de amontoado de palavras. E o que define essa compreensão necessária é o senso crítico. Senso Crítico não significa falar mal, criticar por criticar. É o resultado de debates e discussões, e é isso que queremos aqui. Não somos os donos da verdade, por isso mesmo abrimos espaços para que todos se posicionem e coloquem suas opiniões, mesmo que divergentes daquelas de quem escreveu um post. Por isso, fique tranquilo para comentar e divergir quando quiser. Segue o post!]

Metáforas Presidenciais e outras Gafes

Não é de hoje que o discurso de nosso presidente provoca controvérsia. Mas não se pode esquecer que foi com esse discurso “simplório” que ele se fez ouvir em fóruns importantes como o de Davos no início de seu primeiro mandato, quando arrancou aplausos e apoio dos países do primeiro mundo ao lançar a proposta de um “projeto fome zero internacional”. Feito que muitos presidentes mais letrados e anteriores a ele não conseguiram.

Gosto de me reportar a esses fatos porque, como já é uma característica assumida nossa, brasileiro tem memória curta, e muitas vezes nos valemos dela apenas para criticar por criticar, o que, aliás, também é um hábito bem brasileiro.

Nos últimos dias o presidente Lula tem sofrido várias críticas por sua frase dita a respeito dos responsáveis pela crise econômica mundial. Foi acusado de racista, de falta de polidez política e até diplomática. Mas, sua sinceridade pouco protocolar não é demagógica, pelo contrário. Tanto que o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o socialista francês Dominique Strauss-Khan, comentou que, de fato, a crise “surgiu no coração do sistema”, ou seja, nos países desenvolvidos.

Metáfora infeliz, talvez. Gafe diplomática, com certeza. No entanto, não se pode negar a lucidez da afirmação. Ou alguém discorda que a crise imobiliária norte-americana foi o estopim desse cenário recessivo que atinge a todos?

Sim, de fato, a crise chegou também ao Brasil, aliás, como era de se esperar, uma vez que estamos inseridos num sistema internacional interdependente. E, me valendo do mesmo artifício do presidente, na tentativa de ser didática, comparo os efeitos da crise no Brasil com um tsunami, isto é, uma propagação de ondas que provoca maiores estragos em regiões próximas ao seu epicentro (países desenvolvidos) e que vai perdendo força ao se afastar de seu centro de difusão. Não estou dizendo com isso que países subdesenvolvidos não serão afetados pela crise, não é isso. Acredito, inclusive, que quanto maior for a dependência destes em relação aos países centrais do sistema, maior serão os efeitos negativos. E é justamente esse o diferencial brasileiro. O país tem procurado diversificar seus contatos comerciais, seja através de negociações entre blocos regionais ou por meio de alinhamentos políticos. E isso é significativo, demonstra autonomia, passo importante em direção à liderança regional e a um posicionamento de destaque mundial.

Alguns analistas como Arnaldo Jabor, atribuem esse menor efeito sentido no país aos nossos sistemas financeiro e econômico rudimentares. Contudo, não se pode esquecer que as políticas que regem esses sistemas rudimentares foram responsáveis pela independência brasileira de uma importante instituição internacional financeira, o FMI. Coisa que muitos tentaram por vários anos e só esse governo conseguiu. Importante lembrar também que o governo Lula, depois do governo Itamar Franco, foi o único a se preocupar com o fomento das reservas nacionais. Não tenho dúvidas de que esses fatores têm ajudado a minimizar os efeitos da crise no país.

O peso da crise sobre os países emergentes é potencializado pela falta de responsabilidade dos países desenvolvidos, que como no caso das medidas a serem adotadas para minimizar o aquecimento global, além de querem se eximir da conta que deveriam pagar por anos de poluição desenfreada, querem que os emergentes assumam o compromisso de não poluírem em detrimento do seu desenvolvimento. Quando o presidente fala do sofrimento dos países emergentes, penso eu, que é a isso que se refere. Os países centrais, quando se trata de repartir o ônus, querem sempre parceiros, mas na hora do bônus…


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Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Olá, pessoal, mais um excelente post da Adriana Suzart de Pádua, que é graduanda em Relações Internacionais na UNESP – Franca, membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e redatora do “Observatório de Política Externa Brasileira”. Quem quiser, mande um post no e-mail [email protected] que nós publicaremos. Bianca Fadel, você bem que poderia nos mandar um post, não é? Boa leitura, pessoal!]


Criado por iniciativa do Brasil, o Conselho Sul-Americano de Defesa (CSD) foi efetivado em dezembro de 2008, depois de muitas conversas bilaterais entre Brasil e Colômbia, devido a resistência deste país em aceitar a formação de uma instituição de tal calibre na região sem a participação dos Estados Unidos.

Mas sabem quem começou com essa conversa de criar um órgão de defesa para a região? Pasmem! Hugo Chávez.

Pouco depois de tomar posse, em uma reunião com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2000, Chávez já apresentava uma proposta de formação de um organismo de defesa aos moldes da OTAN e que se chamaria OTAS (Organização do Tratado do Atlântico Sul). Tal proposta, além da unificação das Forças Armadas dos países da região, previa também a elaboração de uma doutrina militar regional pautada em valores bolivarianos e com o objetivo de proteger a região da ingerência das potências imperialistas.

A proposta chavista não encontrou apoio dos vizinhos na época. Mas, como sabemos, nosso amigo Chávez não desiste facilmente e desde então, sempre que pode, ele traz o assunto à tona.

Após o ataque colombiano à fronteira do Equador, com o objetivo de eliminar um acampamento das Farc, em março de 2008, sob o pretexto de ataque preventivo (como reza a doutrina de segurança norte-americana) e sem comunicação prévia ao governo Correa, ficou clara, para muitos países sul-americanos, a necessidade de elaborar um plano de defesa próprio para a região. Era a oportunidade esperada.

O Brasil, para não perder o bonde da História para a Venezuela, mais que depressa mandou o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, em um tour regional para apresentar a ideia de formação de um CSD e conseguir adeptos. Na época, o Conselho idealizado pelo Brasil, nas palavras do ministro Jobim, estaria vinculado à UNASUL e seria apenas consultivo, não se cogitando a hipótese de fusão das Forças Armadas da região. Limitaria-se a constituir-se em uma voz única em assuntos de defesa e segurança para a região em fóruns multilaterais, isento de tendências ideológicas ou de confrontação contra nenhum Estado em particular. Fomentaria ainda o desenvolvimento da indústria bélica regional.

Porém, alguma coisa mudou. Dois jornais de circulação nacional publicaram essa semana que o CSD poderá tomar a forma de uma aliança militar defensiva regional, com a aprovação de um plano de ação ocorrida no dia 11 deste mês, que prevê a adoção de uma doutrina política comum, o inventário da atual capacidade militar de todos os países da região e o monitoramento dos gastos do setor de defesa. Também deverá ser criado um mecanismo de consulta imediata para situações de emergência, com avaliação de ameaças e ação de resposta, além a criação do Centro Sul-Americano de Estudos Estratégicos de Defesa (CSEED), em Buenos Aires. Um grupo de trabalho coordenado pela Venezuela vai elaborar o registro das academias e centros de estudo em defesa e de seus programas e criar uma rede sul-americana de capacitação e formação.

Será impressão minha ou o CSD está ficando com a cara de seu primeiro idealizador?

O irônico disso tudo é que, embora haja divergências entre os países componentes do Conselho quanto ao lugar ocupado pelos Estados Unidos nessa história toda, resultando em conversas acaloradas durante a I reunião desse organismo, Chávez tem conseguido fazer valer seu projeto sem chamar a atenção sobre si mesmo. E o Brasil, na tentativa de se firmar definitivamente como líder regional, tem dado condições e aberto caminhos para a concretização de projetos nacionais alheios.

A oportunidade faz o ladrão, mas ri melhor quem ri por último.

*A charge que ilustra o post está disponível em: http://chargesdobenett.zip.net/images/Ch-Unasul.jpg


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Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Olá, pessoal. Mais uma vez temos um post dos nossos leitores! Desta vez quem escreve é a Adriana Suzart de Pádua, graduanda em Relações Internacionais na UNESP-Franca e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional – GEDES. Redatora do “Observatório de Política Externa Brasileira”. Quer escrever aqui também? Envie e-mail para [email protected]]

Interesses nacionais

Embora esse não seja um espaço acadêmico, optei por recorrer a alguns conceitos teóricos para cumprir um dos objetivos desse blog, que é também, além de promover um espaço para discussão, informar os leigos nas áreas de Política e de Relações Internacionais, para que estes entendam como esses assuntos afetam sua vida.

O conceito que gostaria de tratar aqui é o de Interesses Nacionais. Para tanto, se os autores anteriores me permitirem, usarei alguns tópicos já abordados neste espaço para demonstrar o tema proposto.

Interesses nacionais, ou objetivos nacionais, são aqueles que devem ser atingidos por um país, tanto em âmbito interno quanto externo, visando garantir o bem comum e a segurança da comunidade que o compõe. Isso quer dizer que o Estado, por meio de seu corpo político, eleito democraticamente ou não, deve assegurar que os indivíduos tenham condições de exercer todas suas atividades vitais, isentos de perigos, riscos ou prejuízos de qualquer natureza.

Em tese, os interesses nacionais deveriam ser determinados pela sociedade que integra o Estado-Nação. No entanto, na prática, o que se percebe é que apenas alguns grupos de interesses, por meio de sua influência econômica, política ou cultural determinam os rumos das políticas e metas adotadas pelo Estado.

Dias atrás, um jornal de circulação nacional trouxe uma notícia relatando o otimismo do Itamaraty com a retomada discreta da rodada de negociações para a reforma, com possível ampliação de assentos permanentes e temporários, do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar do desejo antigo do Brasil de compor este Conselho, é a partir de 1993 que essa intenção assume o status de prioridade e passa a ser perseguida como um interesse nacional. Mas por que o status de prioridade em 1993 e não antes? E em que um assento permanente no Conselho de segurança da ONU atenderia os interesses nacionais?

A nova ordem mundial, instalada a partir dos anos 90, abriu a possibilidade de países emergentes, como o Brasil, se manifestarem com maior liberdade no cenário internacional, sob a bandeira da democracia empunhada pela potência do norte. É neste contexto que a reivindicação de ampliação do Conselho de Segurança não só brasileira, mas também de outros países desenvolvidos, ganha corpo.

O interesse do Brasil de fazer parte do Conselho reside na possibilidade de fazer-se ouvir no fórum internacional mais importante na atualidade. Pertencer à elite internacional, sem dúvida, é reflexo de influência e poder, mesmo que sejam apenas potenciais e não reais, como no nosso caso. Digo potenciais porque a percepção de influência e poder passam, antes de tudo, por um entendimento subjetivo do outro.

Não se pode negar que, influência e poder exercidos no âmbito e por meio de uma organização internacional, como a ONU, apesar de eventualmente ignorada como foi pelos Estados Unidos (EUA), confira grande legitimidade às ações tomadas. E é isso que o Brasil busca. Reconhecimento internacional em fórum legítimo.

Mas, e as ações bilaterais ou mesmo unilaterais não atendem os interesses nacionais? Sem dúvida que atendem. Entretanto é preciso pensar no custo/beneficio que trazem. Era interesse nacional dos EUA garantir o suprimento de petróleo do Iraque. Para isso, promoveu a destituição de um governante déspota e de uma guerra, que deveria ter sido rápida e com pouquíssimas baixas, mas que já dura mais do que o desejado e com mais mortes do que as previstas. A consecução desse interesse nacional desagrada mais a cada dia que passa a população estadunidense, que não vê a hora de ter seus soldados em casa, pouco se importando com a obtenção do óleo negro.

Outro exemplo envolvendo novamente os EUA. A invasão do Afeganistão também visou atender o interesse nacional norte-americano de capturar o agressor da pátria, responsável pelo inesquecível atentado às Torres Gêmeas. Bin Laden nunca foi capturado e os resultados dessa ação foram gastos norte-americanos, morte de alguns colaboradores do terrorista e destruição de uma população já sofrida devido a própria condição de Estado afegão. Tenho minhas dúvidas se qualquer país do mundo, em sã consciência se arriscaria a colocar a mão nesse vespeiro sozinho. Certas situações atualmente só são passíveis de resolução sob o respaldo de uma organização internacional, e mesmo assim a duras penas.

Para que as ações bilaterais atendam aos interesses nacionais é preciso que haja antes de tudo consentimento e cooperação. Os EUA “presumiram (?)”, que garantindo seu suprimento de petróleo, estariam libertando uma população oprimida. Mas será que perguntaram para a população iraquiana (não digo a elite) se ela queria se livrar de Saddam Hussein? Da mesma forma, quando pensamos em ajudar Estados falidos como o Afeganistão, visando nossos interesses, temos que primeiro pesar se as consequências dessa ajuda será útil para os dois lados, e principalmente, se será aceita pela outra parte.

A política externa de um país é o seu cartão de visitas. É por ela que um Estado é medido e rotulado. O objetivo brasileiro é exercer influência sem fazer uso da força ou violar a autodeterminação dos outros Estados. Para isso fóruns multilaterais como a ONU são altamente favoráveis.


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Post do leitor – Erlon Faria Rachi

[Pessoal, este post (enviado no dia 23/02/2009) é de autoria do Erlon Faria Rachi, um dos primeiros a acompanhar nosso blog e que será o primeiro dos nossos leitores a fazer um post aqui! Se você também quiser fazer um post, envie para [email protected] Boa leitura a todos. Valeu, Erlon!]

Busco oferecer algumas idéias sobre a Ásia, dentro de um contexto ‘maior’ de política externa do Brasil. O Afeganistão atual oferece uma oportunidade interessante para nossa ação global.

Abstraindo a questão da segurança física, podemos contribuir em vários aspectos para uma melhor sociedade no Afeganistão, principalmente no que se refere à construção de alternativas econômicas naquele país.

O Afeganistão é uma catástrofe ambiental, econômica e social.

Desde o período da retirada soviética, a extração vegetal foi incentivada como sendo uma alternativa econômica, como resultado, hoje existe apenas 2% da cobertura florestal existente por volta da década de 70.

A agricultura afegã é extremamente dependente de irrigação, que carreia as águas das geleiras montanhosas para os campos secos dos vales. Estima-se que 95% da rede de irrigação existente antes da invasão soviética tenha sido destruída.

Há carência de eletricidade de forma generalizada, tanto devido à destruição de linhas de transmissão de energia, como pela destruição de barragens.

A mortalidade infantil é assustadora, com crianças vítimas de doenças simples. Tal problema existe aqui também, mas se os afegãos atingirem índices como aqueles verificados no Piauí, já seria um avanço absurdo.

A caprinocultura é importantíssima no Afeganistão, mas a produtividade é baixa, a renda dos criadores é mínima.

O país é fragmentado em diferentes etnias, grupos políticos, religiosos, grupos armados liderados por ‘senhores da guerra’ locais.

Nenhum desses grupos se sente integrado ao país.

A lealdade desses grupos é restrita às comunidades locais, nenhuma delas se sentindo plenamente amparada pelo governo central (muito pelo contrário, o vêem como uma ameaça). Esta fragmentação possibilitou a vitória de guerrilha durante a ocupação soviética, mas inviabilizou o estado afegão como um todo.

O Brasil tem MUITO a contribuir para isso.

Primeiramente, como ator político isento no conflito.

Não temos absolutamente nada a ver com a bagunça que trouxe o Afeganistão até aqui. Poderíamos construir ‘pontes’ entre os diferentes grupos locais, entre as forças da OTAN, e outros países com visões conflitantes sobre o Afeganistão.

China, Paquistão e Índia se ‘enfrentam’ em ‘proxi-wars’ naquela região, bem como na Caxemira. Podemos trazê-los à mesa também, pois possuímos excelentes relações com os três.

Nosso modelo de democracia (pasmem) seria o ideal para a região: fragmentado, exigindo amplas coalizões e consenso para governar, com um sistema judiciário relativamente independente. Nosso modelo dá garantias para as minorias políticas e religiosas. É integrador, mantém os poderes das oligarquias regionais, permite mobilidade social.

NOTA: Para aqueles que acham o PMDB corrupto, e eu me incluo entre esses, vocês não tem uma idéia do que é o governo Karzai… os PMDBistas são até ‘pudicos’ comparados com a sem-cerimônia com a coisa pública lá)

Possuímos empresas e tecnologia para auxiliar a recuperação da agricultura afegã: As tecnologias da EMBRAPA para o semi-árido nordestino (únicas no mundo) seriam um bálsamo, tanto para a caprinocultura como para o reflorestamento.

Temos grandes grupos de construtoras, empreiteiras e empresas de engenharia que poderiam aproveitar-se de contratos de reconstrução de estradas, pontes, aquedutos, sistemas de irrigação, transmissão de energia elétrica.

Adquirimos uma interessante experiência internacional em ‘nation building’ no Timor Leste e no Haiti. Creio que poucos países no planeta têm um histórico tão positivo nesta área. Estes dois países, entretanto, estavam ‘abaixo do radar’ americano e, portanto são experiências com fundos limitados e poucas oportunidades de ganho econômico para nossas empresas.

Pela ‘desimportância relativa’ destes dois países no cenário mundial, nosso status internacional não foi aumentado na medida dos sucessos que estes dois países obtiveram, porém aprendemos ‘in loco’ lições importantíssimas.

No Afeganistão o ‘budget’ americano é imenso. Na proposta orçamentária do Obama para o ano fiscal de 2009 que se inicia em outubro, a verba do pentágono será desviada para o departamento de Estado, que coordenará esforços como os que eu descrevi acima.

Os americanos estão desesperados por apoio político para EXECUTAR esta agenda, especialmente porque é difícil encontrar parceiros confiáveis para isso (os europeus estão lá sob a bandeira da OTAN e poderiam ser vistos como ‘inimigos’ por insurgentes).

Para os americanos, o momento atual é de reflexão sobre o que fazer.

O enviado especial Holbrook está ouvindo as partes sobre como reestruturar a ação americana: de ações de guerra para ações de contra-insurgência e desenvolvimento econômico. Ele está ouvindo Paquistão, India, Russia, Turquia, Irã, Indonésia.

Deveríamos sentar-nos para conversar com ele.

Não acredito que possamos implementar esta estratégia de ‘parte neutra’ sozinhos. Penso que devamos envolver a Indonésia nisto também. Mas creio que precisamos LIDERAR este esforço CIVIL e POLITICO com objetivos claros de benefício ECONOMICO para nosso país e nossas empresas.

Este é o século da Ásia. Se quisermos ser um dos pólos de poder mundial nas próximas décadas, temos que nos posicionar (e participar) de ações naquele continente.

Jamais ganharemos projeção internacional lidando somente com Equador, Paraguai, Bolívia, Venezuela ou mesmo Argentina, nem mesmo construindo uma grande união sul-americana.

Sem desmerecer estes países, mas hoje eles já são ‘de-facto’ eclipsados pelo Brasil. Ao nos projetarmos na grande cena internacional reforçaremos MAIS AINDA esta condição de nossos vizinhos.


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