Post do Leitor

Post do leitor – Danillo Alarcon

[Pessoal, dando continuidade às reflexões acerca dos 10 anos dos atentados do 11 de setembro, iniciadas aqui, temos um muito oportuno post do leitor, de nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB. Boa parte das reflexões acerca das consequências dos atentados nesses últimos 10 anos se referem às relações dos EUA com o mundo, e nesse texto vamos ver o tema sob a ótica do “outro lado” – os que “pagaram o pato” após os atentados com a ação militar dos EUA. Vale a pena conferir! E fica o convite a todos que se interessarem a participar dessa discussão para mandar textos para o e-mail da Página Internacional – [email protected]]

Dez anos de uma “não-era”

O dia 11 de setembro de 2001 estará para sempre marcado como uma data para reflexão. A irracionalidade dos ataques terroristas ainda nos surpreende e o “terror” continua seu ciclo e perpetua sua função todas as vezes que as fatídicas imagens dos aviões atingindo as torres do World Trade Center são repassadas pela mídia.

De 2001 para 2011 muita coisa mudou. Consideremos que alguns séculos atrás um período da mesma extensão não traria consigo a percepção de tamanhas alterações. Contudo, é necessário cautela nesta análise. Olhemos algumas dos principais desdobramentos desde os atentados.

Não custa recordar que os ataques perpetrados pela rede terrorista Al-Qaeda levaram os Estados Unidos a uma guerra no Afeganistão e deram suporte para a criação de um discurso que auxiliaria na invasão do Iraque, para a derrubada do governo de Saddam Hussein. A priori, as duas intervenções militares tiveram objetivos não vinculados a regime político (no primeiro caso, a derrocada do Talibã, e no segundo, o temor das armas de destruição em massa), mas imbuído nos discursos e na ação que se passou nestes países após a ocupação, ficou-se claro que a exportação da democracia, pela via militar, estava em pauta – e esse foi um desserviço genuinamente americano à democracia propriamente dita.

A prática americana indica que o interesse nacional nem sempre é compatível com a ética e o cumprimento da palavra. Pois bem, o oxímoro a que se renega a “democracia” quando vinculada a outro termo com carga tão poderosa quanto “guerra” pode ter consequências deletérias: dessa vez, contudo, foram os EUA que se viram marginalizados, pois as fábulas contadas para justificar as duas guerras foram desconstruídas pelos fatos no campo de batalha e nas instâncias burocráticas.

Claro, nem tudo é negativo. Se analisarmos as situações no Afeganistão e no Iraque, percebemos certo avanço na construção de um sistema democrático (ao menos no que tange às instituições) nestes países. O Afeganistão ocupado em 2001 passou por um difícil processo de formação de um governo. Conseguiu organizar alguns pleitos que mesmo conturbados um grau razoável de participação populacional. Além do mais, mulheres foram eleitas, um fato que chama muita atenção quando se recorda o histórico de misoginia do Talibã. O Iraque, ocupado em 2003, teve eleições parlamentares em 2005 e 2010. Atualmente, com a retirada das tropas de combate americanas do Iraque e o apelo da sociedade americana (não tanto por parte das autoridades de Cabul) para a saída do Afeganistão, é pertinente que nos perguntemos quais são as chances desses regimes efetivamente se enraizarem!

Dez anos depois grande parte dos países muçulmanos sacolejou com a “Primavera Árabe”. Ben Ali (Tunísia), Mubarak (Egito) e Ghadafi (Líbia) são os grandes que já despencaram. E na base de todos esses movimentos estavam fatores como o desemprego, a deterioração das condições de vida e o descontentamento com governos que gradualmente tiraram suas credenciais de provedores de bens básicos, mas que não haviam concedido o devido contrapeso da representação. Nos casos de Afeganistão e Iraque, os mesmos fatores acima ressaltados se somam à crescente violência nas duas sociedades para minar os governos instalados após as devidas invasões.

No campo econômico, as guerras do Afeganistão e do Iraque minaram recursos da economia americana, que em 2008 se viu em uma situação complexa, com uma crise severa e que volta agora a se complicar novamente. Os EUA mantém ainda o seu potencial militar, sua capacidade de renovação tecnológica e de certa maneira suas reservas de “soft” e “hard” power (e estão cientes de que tem que usá-los com cada vez mais cautela). Entretanto, como ressalta Zakaria, o “resto” ascendeu. A China, o Brasil, a África do Sul, a Rússia e a Índia hoje figuram como global players, não somente por suas posições geográficas, mas pelos caminhos que trilharam ao longo desses últimos anos.

Além do mais, o maniqueísmo com que os EUA trataram o mundo durante o governo Bush não rendeu bons frutos: diminuiu o potencial de diálogo com países como o Irã e a Coréia do Norte, que acabou construindo sua bomba nuclear.

Em uma perspectiva ampla, que só o tempo nos dá condições de olhar, faltou a percepção de que o 11 de setembro tinha raízes históricas. Por muito tempo, em especial durante a Guerra Fria, tratou-se o mundo como um jogo de xadrez. Hoje, isso não é mais possível, muito menos desejável. E falta, nas proximidades do aniversário de dez anos dos atentados de 11 de setembro de 2001 a percepção de que o mundo não começou nem foi reinventado naquela data. Talvez houvesse esse desejo por parte de alguns, para justificar o redesenho da ordem internacional, dividida entre um eixo do Bem versus um eixo do mal.

É fato que alguns processos se aceleraram como a contestação da ordem hegemônica americana e a ascensão do resto. Parece claro, todavia, que os EUA de Obama perceberam que realmente não dá mais para seguirem caminhando como “Golias” em uma terra cheia de “Davis”.


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Post do leitor – Marcelo dos Santos Durante

[Pessoal, recebemos um interessante post do leitor Marcelo dos Santos Durante, graduando em Relações Internacionais pela UNESP, campus Franca. Nesta oportunidade, ele debate a crise do FMI e suas implicações, vale a pena conferir. Lembramos a todos os leitores que, se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected]. Boa leitura!]

Em Tempos de Crise

O Fundo Monetário Internacional (FMI) passou, recentemente, por uma crise interna. Seu Diretor-Geral, o francês Dominique Strauss-Kahn, foi acusado de assediar sexualmente uma funcionária de um hotel de Nova Iorque. Por causa dessa denúncia, Strauss-Kahn foi detido. Renunciou, dias depois, de seu cargo no comando do FMI. Devido à dúvida sobre a credibilidade da vítima, supostamente uma imigrante ilegal envolvida com tráfico de drogas, os promotores dos EUA decidiram retirar as acusações contra o ex-diretor da instituição.

Para a sucessão no comando do FMI foi escolhida Christine Lagarde, a então ministra das Finanças de Nicolas Sarkozy. Mesmo sendo a primeira mulher a assumir o mais alto cargo da instituição financeira (o que é um avanço importante), Lagarde é europeia e sua candidatura teve amplo apoio da União Europeia e dos EUA. Essa pode ser uma evidência de que a reforma pleiteada pelos países de crescente importância global (notadamente os BRICs) e prometida pelas lideranças do FMI demorará a concretizar-se.

Em meio a essa turbulência institucional, o FMI ainda precisa administrar uma crise econômica sem precedentes na zona do euro. Cabe à instituição conseguir, dos governos que pedem auxílio, as garantias efetivas de que eles adotarão as medidas “recomendadas” para sanar as contas públicas e saldar o(s) empréstimo(s). A questão é que, para o FMI, só existe uma única forma de política econômica eficaz: liberalizar, privatizar e desregulamentar. E os efeitos colaterais desse tripé são conhecidos: recessão, desemprego, diminuição nos investimentos sociais e aumento do fosso que separa ricos e pobres.

Ao desconsiderar a influência das particularidades sociais e institucionais na conjuntura econômica e condicionar os empréstimos à garantia de adoção dessas medidas tidas como “eficazes”, o FMI faz com que suas recomendações adquiram um caráter de imposição. O exemplo do chamado Plano Brady é interessante. O Plano foi lançado no final dos anos 1980 com o objetivo de solucionar a crise da divida latino-americana. Consistia na troca dos contratos da dívida dos países que tinham decretado a moratória por títulos que seriam honrados pelo governo dos EUA. Tal mecanismo também foi recomendado para países como a Bulgária, Nigéria e Polônia.

Atualmente os analistas do FMI propõem uma versão atualizada do Plano Brady para socorrer os países europeus imersos na crise. O pacote de medidas foi executado sem considerar o complexo quadro político-econômico latino-americano; tampouco avaliou a vicissitude da convulsão que as economias em transição no leste europeu passavam no início dos anos 1990. E será reeditado para conter os ventos da crise que ameaçam soprar sobre toda a União Europeia. Nenhum país esteve ou estará pronto para os efeitos colaterais do ajuste econômico. Mas quem não adotar as políticas e os mecanismos recomendados não verá a cor do dinheiro.

A única semelhança entre os países que aderiam às recomendações do FMI e os países europeus em crise atualmente é o déficit público. A dinâmica do sistema financeiro internacional mudou. Novos atores surgiram e pleiteiam cada vez mais espaço no cenário internacional. Novos contextos exigem novas ideias. Mas as instituições criadas para manter o equilíbrio no sistema internacional insistem em tomar suas decisões baseadas no mundo de décadas atrás.

Pois bem, os tempos de crise sempre nos convidam à reflexão. Talvez seja a hora de mudar.


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Post do Leitor – Christiane Matos

[Olá, pessoal! Recebemos um interessantíssimo Post do Leitor esta semana. Desta vez, quem nos escreve é a jornalista e publicitária Christiane Matos, formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). O assunto em tela é o Facebook e as suas implicações para as comunicações e relações sociais Em especial, a leitora comenta boa parte do tão premiado filme “A rede social”. Não deixem de conferir!]

A face da nova era

Talvez já não surpreenda o fato de que se o facebook fosse um país ele seria o terceiro mais populoso do planeta, perdendo apenas para a China e para a Índia e desbancando os Estados Unidos, onde metade da população possui uma conta no site. Estima-se que uma em cada dez pessoas no mundo inteiro esteja cadastrada na rede social, disponível em 75 idiomas diferentes, mas ‘indisponível’ entre os chineses, pois, assim como o youtube e o twitter, o facebook consta entre os sites bloqueados pelo Governo Chinês.

A genialidade do facebook não é reflexo apenas da grande habilidade do seu fundador e diretor executivo, Mark Zuckerberg, em programar códigos de computador, mas também do seu senso de coletividade e da sua postura natural como líder. Arrogância e prepotência são características inerentes apenas ao Mark construído no cinema, no filme A Rede Social, lançado no final do ano passado. Com todo respeito aos produtores da obra, que recebeu o Globo de Ouro de melhor filme de drama no último domingo e está entre os favoritos para indicação ao Oscar, o roteiro não parece levar em consideração a verdadeira personalidade ou as reais motivações do seu principal personagem.

“O filme é legal, a história é interessante, foi bom relembrar coisas que me aconteceram nos últimos anos, mas estou certo de que a minha vida não é tão dramática assim”. De forma bem humorada, essa foi a resposta de Zuckerberg quando questionado sobre o filme durante entrevista no Oprah Winfrey Show.

Mark mora com a sua namorada, Priscilla Chan, numa casa modesta que fica a poucas quadras da sede do facebook em Palo Alto, Califónia. Ele faz questão de ir caminhando até o trabalho todas as manhãs, não dispõe de um escritório próprio em sua empresa, não usa anotações ou quadros para falar durante as reuniões e trabalha, em média, 16 horas por dia. O seu compromisso e a sua dedicação fazem de Mark um exemplo marcante de liderança.


Em entrevista para a revista Time, no artigo que Mark é apresentado como a personalidade do ano de 2010, o criador do facebook diz normalmente não gostar de falar muito sobre si mesmo e revela que o sucesso do seu projeto está no fato de o site ter como prioridade o estabelecimento de uma rede de conexão entre pessoas e não entre computadores. Aliás, o que pouca gente sabe é que antes de abandonar os estudos na Universidade de Harvard (como também fizeram Bill Gates e Steve Jobs), Mark cursava não apenas ciências da computação, mas também psicologia.

No artigo, Mark é descrito por seus colegas de trabalho como alguém bem quisto e que gosta de estar cercado por pessoas, e não como o geek obcecado pela aquisição de status apresentado no cinema. É inegável o fato de que manter uma conversa com ele não parece ser mesmo algo muito simples de se fazer, pois Mark fala rápido e pode facilmente perder o foco no assunto e se dedicar a outra coisa que julgue ser mais interessante. Sim, isso poderia torná-lo alguém frio e soberbo, mas, na verdade, indica apenas o quanto ele preza pela boa utilização do seu tempo, nada além disso.

“Quando as ordens são razoáveis, justas, sensatas, claras e consequentes, existe uma satisfação recíproca entre o líder e o grupo”. As palavras de Sun Tzu, em A Arte da Guerra, encontram sentido nas paredes da sede da empresa fundada por Zuckerberg, onde é comum a presença de frases de motivação como: Move fast, Take the risk, It’s ok to try big things ou Fail harder. Reafirmando a sua postura de líder, Mark entende a importância do uso de uma comunicação eficaz e do bom relacionamento entre os seus colaboradores para que todos possam alcançar os melhores resultados.

Muito se pode esperar de alguém que, aos 19 anos de idade, foi capaz de criar algo cuja missão consiste em “dar às pessoas o poder de compartilhar interesses comuns e de tornar o mundo mais amplo e conectado”. E por conectar mais de meio bilhão de pessoas ao redor do planeta, Mark Elliot Zuckerberg conquistou não apenas o título de personalidade do ano, mas também o reconhecimento pelo papel que exerce numa sociedade que ele tem ajudado a construir.


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Post do Leitor – Fred Maciel

[Olá, pessoal. Recebemos uma importante contribuição para a Página Internacional. Desta vez, quem colaborou foi Fred Maciel, graduado e mestrando em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de Franca – e também membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Seu post trata do emprego das Forças Armadas na América Central, uma região onde impera a iminência da ruptura constitucional. Vale a pena conferir!]

Uma influência conflituosa: as Forças Armadas na América Central

O atual conflito entre Nicarágua e Costa Rica pela região limítrofe do Rio San Juan, coloca em questão o papel e o desenvolvimento das Forças Armadas na região centro-americana, em relação especialmente ao Exército. A disputa gira em torno de uma denúncia costa-riquenha quanto a uma região chamada Isla Calero, na qual a Nicarágua supostamente teria ocupado indevidamente e causado danos ambientais. O governo nicaragüense declara que a região pertence a seu território e que mantém tropas somente para defender e evitar problemas fronteiriços.

Historicamente um país estável e ausente em conflitos regionais, a Costa Rica é considerada uma ilha de paz em meio à conturbada América Central. Na transição 1948-1949, uma nova Constituição aboliu o Exército. Por outro lado, a Nicarágua possui um passado bélico e pautado na atuação das Forças Armadas. Desde tempos de dominação externa, passando por ingerências estadunidenses e um longo e duro período ditatorial, a Nicarágua tem sua história marcada pelo protagonismo militar, em suas distintas formas e papéis, reforçada pela luta armada culminada na Revolução Sandinista de 1979.

Nesse sentido, pode-se analisar a atuação do Exército, e das Forças Armadas em geral, no âmbito centro-americano. Os conflitos inter-estatais, tão presentes no século XX, estão dando lugar a uma realidade que visa primordialmente as práticas multilaterais; ainda que os novos contextos gerem processos simultâneos de integração e fragmentação. Dessa maneira, o antigo esquema Estado-Partido-Exército, tão presente nos regimes pós-ditaduras, colocou em questão a instituição militar como representativa da sociedade e da nação em seu conjunto.

A tentativa de consolidação do Exército nessa região deu-se frente a um conjunto de atores fragmentados que ainda se debatiam em torno de uma reordenação dos sistemas políticos vigentes, ou seja, permeada por ajustes a interesses corporativos. Assim, é inegável que o estabelecimento de uma institucionalidade sólida para as Forças Armadas gerou, e ainda gera, conflitos nas esferas de interesse e de poder.

Porém, até que ponto a articulação entre poder político e poder armado, ou entre governo e Forças Armadas, pode facilitar ou conduzir situações de cooperação entre os países do istmo? O atual exemplo da disputa entre Nicarágua e Costa Rica reforça a idéia de que a participação de atores militares ou policiais apenas tornou o conflito mais agudo e com efeitos inesperados. Resta-nos refletir sobre o nível de participação e inserção das Forças Armadas nos governos centro-americanos. Necessidade ou mero reflexo de épocas anteriores? Parece que somente as futuras ações deixarão mais claras questões a esse respeito.


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Post do Leitor – Danillo Alarcon

Pessoal, recebemos outro Post do Leitor. Mais uma vez, temos a grata satisfação de publicar um post do Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB. A homossexualidade é um tema polêmico e que, atualmente, não passam despercebidos nas relações internacionais – vejam, por exemplo, a legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo na Argentina. Vamos lá, pessoal! Vamos conferir este importantíssimo post!]

Os homossexuais e Uganda: “does it get better?”


As relações internacionais são um fenômeno interessante: às vezes, para espanto de alguns, temas que podem parecer exclusivamente da órbita interna de um Estado e de seu corpo legislador, ganham força e destaque para além de suas fronteiras. Grupos organizados em outros países – como ONGs e fundações doadoras e promotoras de direitos, e outros governos nacionais se imiscuem constantemente nos assuntos de outros Estados, criando uma rede de debates e opiniões sobre diversos temas.

Acontece que às vezes grupos que mereceriam mais destaque no cenário internacional, devido às condições adversas nas quais vivem em vários lugares do mundo, e certos Estados, podem aparecer unidos em várias páginas de notícias durante uma semana. Este é o caso de Uganda, e a publicação que se deu em um de seus jornais, na terceira semana de outubro de 2010, de uma lista dos 100 ‘gays e lésbicas’ com maior destaque no país. Não se trata do reconhecimento do possível trabalho destas pessoas, mas de uma clara política de ódio, não criada, mas certamente incitada pelo senhor David Bahati, parlamentar que propôs no começo do ano uma lei que previa pena de morte para os homossexuais do país, além de obrigar parentes e vizinhos de pessoas com uma orientação sexual diferente da heterossexual a delatarem os que tivessem comportamentos díspares.

A África é na verdade um dos continentes que menos avançou no que tange aos direitos dos homossexuais, tendo em vista que mais de 30 países possuem leis que proíbem o relacionamento de pessoas do mesmo sexo. Além do mais, países como Nigéria, Sudão, Somália e Mauritânia inclusive tem leis que preveem pena de morte para homossexuais. Apesar do projeto de lei em Uganda não ter passado, devido a fortes pressões internacionais, inclusive por parte do presidente norte-americano Barack Obama, a onda de violência contra a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros) em Uganda é crescente.

Uganda é um país de maioria cristã, e isso pode levar muitos a pensarem que a Igreja – católicos e protestantes – estaria por trás de projetos como este. Não há dúvidas de que há grupos que apóiam o senhor Bahati, mas um exemplo de dignidade é o do Bispo Christopher Senyonjo, da Igreja Anglicana de Uganda, que se tornou um ícone para gays, lésbicas e transexuais no país. Este senhor lutou contra o projeto de lei de Bahati e por suas visões humanitárias está afastado do ministério desde 2002. Criticando a ideia de que a homossexualidade é uma doença e que pode ser curada, o pastor Senyonjo acredita no respeito a todos os seres humanos. O exemplo de paz e respeito em um mar de ódio, uma boa parte da população ugandense apoia o projeto de lei de Bahati, levanta a questão dos limites do governo nacional e da necessidade de intervenção e pressão da comunidade internacional em determinados casos.

A divulgação de uma lista com ‘gays e lésbicas’ de um país incita não somente o ódio, mas desmoraliza o poder estatal, pois se incita a fazer a “‘justiça’ com as próprias mãos”. Por outro lado, este Estado, ao permitir uma lei que fira parte de sua população, descumpre em parte seu papel. Eis ai a grande encruzilhada do Estado, e também dos grupos que defendem os direitos humanos e são rechaçados com dizeres como “o que é bom para o Ocidente não é bom para o meu país”, a “imoralidade não pode dominar a nossa sociedade”, ou “pela honra da família”. Subsiste, assim, de um lado o mito do Estado, impenetrável, contudo mais poroso do que nunca, e do outro, a necessidade da proteção das minorias, quaisquer que sejam.

Quando este dilema será resolvido? Quando os homossexuais deixarão de ser vistos como seres indignos de respeito? Boaventura de Sousa Santos já nos demonstrou que há um caminho, quando conclama que “Temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. As pessoas querem ser iguais, mas querem respeitadas suas diferenças. Ou seja, querem participar, mas querem também que suas diferenças sejam reconhecidas e respeitadas”. Obama, objetivamente, disse há alguns dias que “it gets better”. Bom, façamos algo para que assim seja.


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Post do Leitor – Danillo Alarcon

[Pessoal, nesta semana, recebemos um post há muito aguardado. Nosso amigo Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, faz uma análise sobre a repercussão do 11/09 para as relações internacionais, do terrorismo às invasões ao Afeganistão e Iraque e ao esconde-esconde de Bin Laden. Confiram abaixo! Lembramos a todos os leitores que, se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected]. Não deixem de postar!]

Um lugar confortável para um terrorista


Neste final de década é importante pensar em alguns eventos que mudaram o curso das relações internacionais entre 2001 e 2010, ou que tiveram relevância suficiente para reunir os principais players do sistema internacional em sua discussão. O 11 de setembro de 2001 poderia ser apontado por muitos como o exemplo simbólico de uma data que marcou profundamente as consciências humanas e reuniu número considerável de Estados na luta contra o terror, e em uma missão em um país longínquo, que quiçá aqueles que nasceram no final da década de 1980, só ouviram falar mesmo em 2001: o Afeganistão.

Houve consenso internacional quanto à necessidade de algum tipo de ação no país, e os Estados Unidos, com respaldo de seus principais aliados, Reino Unido e Canadá, se lançaram logo a bombardeios e tudo apontava, já no final de 2001, para a derrota do Talibã. O ano de 2002 trouxe novos desafios para o Afeganistão, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se envolveu profundamente com o país, e foi criada a International Security Assistance Force (ISAF).

Não fosse, todavia, a obstinação de certos homens e mulheres dentro da presidência de George W. Bush, e do próprio presidente em tomar algum tipo de medida, e de preferência o destronamento de Saddam Hussein no Iraque, o 11 de setembro de 2001 poderia sim manter o seu posto de uma das datas mais importantes para esta década que se finda – claro, em termos de segurança global. A introdução do tema Iraque e Saddam Hussein na agenda internacional dos EUA, coloca o dia 20 de março de 2003 – data da invasão americana no Iraque – como um ponto crucial para o desenrolar das relações internacionais no restante da década e que repercutirá – mesmo com o fim das ações no país – por considerável tempo.

A invasão americana do Iraque retirou esforços e recursos que poderiam ter sido guiados para o Afeganistão. Além do mais, a atitude quase unilateral dos EUA em perpetrar ações contra o regime de Bagdá minou o seu ‘soft power’ (isto é, a influência externa por meio de idéias e valores) em ações no Oriente Médio e mundo islâmico no geral. A oposição dentro de outros países muçulmanos às duas ações aumentou, mesmo que a de Cabul tivesse motivos completamente adversos da outra. Ao Afeganistão foi então sendo renegado um nível de compromisso que fez aumentar a insurgência e levar o país de volta ao caos, situação nada propícia para sequer a reconstrução do Estado, quanto mais para uma democracia.

Quando esta semana se divulgou o relato de uma fonte da OTAN dizendo que Osama Bin Laden viveria em uma confortável casa no Paquistão, não se deveria ficar espantado. O Paquistão tem ao longo da década permitido a reorganização do Talibã em seu território, assim, como o fez na década passada. Agora, se os americanos resolveram mudar o foco, não é injusto que bin Laden ficasse por quase uma década congelando em alguma caverna na fronteira entre o Afeganistão ou Paquistão?


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Post do leitor – Juliana de Menezes

[Segue abaixo um post recebido da leitora Juliana B. de Menezes, graduada em História (PUC/RJ) e com especialização em Relações Internacionais pela Unilsalle (RJ). Neste texto, ela analisa aspectos eleitorais no contexto atual da América Latina. Vale a pena conferir! Aproveitamos, pois, para agradecer a todos os seguidores do blog pelo envio de textos – em caso de qualquer dúvida, crítica ou sugestão, basta entrar em contato.]


O ciclo eleitoral latino-americano

Os países da América Latina iniciaram ano passado um novo ciclo eleitoral. El Salvador, Chile, Uruguai, Honduras e Costa Rica escolheram seus presidentes. Em breve, Colômbia e Brasil farão o mesmo. A Argentina renovou o legislativo, assim como a Bolívia na semana passada.

Eleições, neste continente, são vistas como oportunidades para renovação. A demora da classe política em reconhecer as demandas dos extratos marginalizados da sociedade faz com que o pleito se transforme em momentos de esperança. Como conseqüência, esta atitude leva à personalização do processo político, pois os cidadãos tendem a se identificar muito mais com o candidato em si do que com o partido. O fenômeno se verifica ainda hoje quando vários chefes de Governo e Estado postularam a possibilidade de um novo mandato. Hugo Chávez conseguiu este feito, mas não Álvaro Uribe.

Há aqueles, porém, que vêem o processo eleitoral com descrença. O histórico da região respalda a tese. Afinal, sobram exemplos de fraude, golpes e mesmo a suspensão deste direito fundamental para qualquer democracia. O voto passa pela concepção de cidadania. Mas quem era cidadão na América Latina? O negro escravizado? O índio visto sempre com desconfiança? A mulher relegada a um papel secundário? Não é de se espantar que ainda se duvide da eficácia do pleito.

Desde o começo da década se percebe que o sufrágio na América Latina está entrando em um ciclo virtuoso. Os governantes fazem questão de submeter seus mandatos a plebiscitos e não impedem a entrada de observadores estrangeiros a fim de acompanhar o processo. Estas medidas podem parecer populistas para alguns, mas é inegável que há um aumento de respeito por esta instituição tão preciosa para os regimes democráticos.


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Post do Leitor – Leôncio de Aguiar

[Em mais uma contribuição do leitor Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho, o texto discorre sobre a busca do Brasil por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e as possíveis implicações dessa empreitada. Lembrando que, se quiser postar no blog, o leitor pode enviar um e-mail com seu texto.]

O Brasil e o Conselho de Segurança da ONU*

Muito se tem dito a respeito de o Brasil, como potência emergente, almejar uma posição permanente no Conselho de Segurança da ONU, pois sua composição é obsoleta por refletir a ordem mundial surgida logo após a 2ª Guerra Mundial.


O Brasil tem feito amplo esforço diplomático ao redor do planeta a fim de convencer os mais diversos governos a apoiar sua candidatura, tentando, a todo custo, futuramente garantir, na Assembléia-Geral da ONU, o número mínimo de votos a fim de validar tal pretensão.

Ocorre que, para que o Conselho seja reformado com a admissão de novos membros permanentes, seus governos devem divulgar em que direção irão gerir a responsabilidade daí decorrente – afinal, trata-se do uso do poder de veto no órgão jurídico condutor da segurança mundial – e com que meios irão administrar as conseqüências de tão delicada escolha.

Apesar disso, o governo brasileiro ainda não divulgou que benefício concreto a entrada no Conselho poderá trazer ao país. Talvez porque, a priori, não haja mesmo nenhum. E, pior que não haver qualquer benefício, são os malefícios que poderá acarretar.

Inicialmente, trata-se de algo que irá afetar nossa tradição diplomática de neutralidade, mudando drasticamente nossas relações com o resto do mundo, pois o uso do poder de veto, ou sua negação – caracterizada, inclusive, pela abstenção – é absolutamente incompatível com qualquer forma de neutralidade. O Brasil, inevitavelmente e como qualquer outro país com assento permanente, tenderia a favorecer um dos lados na votação de qualquer resolução, criando animosidades que se traduziriam em sanções econômicas por parte das grandes potências – especialmente na questão dos subsídios, em um momento no qual não se vislumbra uma saída eficaz e de curto prazo para a nova depressão econômica mundial – ou, caso vote em conformidade com suas diretrizes, em ataques terroristas ao território brasileiro. Em outras palavras, teríamos que fazer a cruel opção entre manter a paz exterior ou prosperar no ambiente da interdependência econômica global – algo que qualquer país minimamente maduro deseja.

A possibilidade de ocorrerem atentados terroristas no Brasil é a mais assustadora, já que atualmente a grande ameaça à segurança internacional não é representada pelas grandes potências – já que todas são aliadas – mas por grupos fundamentalistas, como a Al-Qaeda, que, contrariamente ao que vem sendo divulgado, não lutam apenas contra os Estados Unidos e seus mais próximos aliados da OTAN: sua luta é contra o Ocidente, entendido não só como um conceito geográfico, mas como o sistema de valores que, capitaneados pela democracia laica, surgiu neste Hemisfério. O Brasil, sendo Ocidente no duplo sentido, ficaria vulnerável em todas as frentes.

A Al-Qaeda, e outros similares, possuem células terroristas em dezenas de países, desde os de teocracia islâmica até os que são seus meros simpatizantes. Portanto, futura e eventual resolução autorizando ofensiva militar de potências ocidentais no território de qualquer desses Estados, a fim de neutralizar tais células, com o apoio explícito (no caso de voto favorável) ou implícito (no caso de abstenção, caracterizada pela ausência de voto favorável e pela presença do não-veto) do Brasil, certamente nos colocaria em grande e desnecessário perigo, que, se concretizado, faria com que ficássemos inviabilizados de ter qualquer reação externa. Afinal, não sendo um ataque de outro Estado Nacional formalmente constituído, com suas forças armadas regulares, e sim, como já dito, de grupos dentre muitos radicados em dezenas de Estados, estaria inviabilizada uma declaração formal de guerra – o máximo a ser feito seria a investigação policial interna para prender e julgar os executores como criminosos comuns.

Por outro lado, mesmo que viesse a ser provado o apoio material e/ou logístico de determinado país ou grupos de países à ação terrorista, tornando possível uma ou mais declarações formais de guerra, nossas forças armadas, apesar de bem treinadas e determinadas, não teriam como se manter em estado de beligerância por longos períodos, dada a ausência de armamento tecnologicamente apropriado, fundamental para a sobrevida das tropas.

Como o custo político, para qualquer governo, de uma não-reação minimamente proporcional e eficaz seria fatal, seríamos obrigados a pedir auxílio militar às grandes potências, que o condicionariam a nosso apoio permanente nas resoluções no Conselho de Segurança – o que daria legalidade às suas ações externas, por mais absurdas e arbitrárias que viessem a ser. Seríamos lançados em uma constante espiral simbiótica de dependência-violência que nos obrigaria a, como na Guerra Fria, pender para apenas um lado do conflito. Nossa ideologização forçada nas relações internacionais estaria formada, não mais nos permitindo o retorno à boa e velha condição de neutralidade e nos mantendo em permanente estado de tensão bélica.

A absurda pretensão do governo brasileiro é uma faca de dois gumes. Não satisfeito em fazer vigorar, no plano interno, atos executivos inúteis e desconexos da realidade, quer transplantá-los para a política internacional, e de um modo que pode determinar o encerramento do único serviço público mantido incólume por décadas: a manutenção constante da paz exterior.

*Artigo inicialmente publicado em “o Globo on Line” no dia 10/03/2009.


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Post do Leitor – Ana Elisa Thomazella Gazzola

[Pessoal, recebemos mais um post do leitor. Quem agora nos escreveu foi a bacharel em Relações Internacionais pela Unesp-Franca Ana Elisa Thomazella Gazzola, refletindo acerca da mediação brasileira nas negociações de paz no Oriente Médio e os questionamentos que tal atitude suscita, sobretudo a negligência com relação aos assuntos regionais ou a polêmica relação com o Irã.]

Mediação brasileira: é preciso olhar para os lados

 
 

A iniciativa brasileira de negociação de paz no Oriente Médio e a aproximação com o Irã trouxeram à luz muitas reflexões acerca da condução da política externa do Brasil, especialmente em relação aos seus vizinhos da América do Sul.

O Brasil tem demonstrado grande interesse em se firmar como mediador dos conflitos entre Israel e Palestina – papel este já exercido constantemente pelos EUA, que se utilizaram de todos os meios possíveis de negociação pacífica e mesmo assim, não obtiveram grandes avanços – enquanto que, divergências na região sul-americana passam despercebidas diante dessas mesmas iniciativas.

Em 2005, os bloqueios às vias de acesso e às pontes sobre o rio Uruguai, por parte da Argentina, resultante da controvérsia gerada pela instalação de indústrias de celulose na sua fronteira com o Uruguai, geraram grandes perdas econômicas e violaram o direito de livre trânsito de pessoas e mercadorias entre os países-membros do Mercosul; violando, portanto, o Tratado de Assunção. Nesse contexto, o Brasil não hesitou em sustentar que essa questão devia ser tratada no âmbito das negociações bilaterais, excluindo a participação do bloco na resolução do conflito, e se ausentando do papel de mediador.

Do mesmo modo, em 2007, quando a Bolívia anunciou sua intenção de desapropriar, sem acordo, as refinarias que a Petrobrás mantém no país, longe de uma resolução satisfatória do caso, o Chile revelou intenções de trazer gás líquido da Indonésia e o Brasil de Dubai.

O diplomata Rubens Ricupero acredita que o Brasil deve escolher com mais cuidado como conduzir sua política externa, priorizando o fomento de boas relações com seus vizinhos, para obter o máximo ganho possível, levando-se em conta que os recursos do país são limitados.

É preciso maior empenho nas relações comerciais com os países da América do Sul, como forma de diminuir as assimetrias e fortalecer a economia regional; assim como, resguardar a credibilidade do Mercosul. Para isso, é necessário articular melhor as políticas comuns dos Estados-membros em detrimento da bilateralidade Brasil-Argentina e harmonizar as legislações nas áreas pertinentes ao comércio.

Saber direcionar os esforços da Política Externa para os eixos certos é um grande desafio para o país. O Irã, sem dúvida, tem antigas intenções de se firmar como regionalmente dominante – fazendo uso da produção de armas nucleares como instrumento de poder e barganha – e, não será a iniciativa brasileira capaz de desfazer políticas tão profundamente enraizadas naquele país.

Sem perder de vista, é claro, a linha cooperativa do Itamaraty, o Poder Executivo brasileiro deve ter em mente que o Brasil só tem uma forma de poder dominante: o poder do exemplo e das iniciativas pacíficas. Torna-se crucial, portanto, que o país evite o apoio equivocado a países que – como o Irã – passam por cima de questão de interesse da comunidade internacional, como o respeito aos direitos humanos e tenha foco nas relações pacíficas com países que, da mesma forma, assim conduzem suas políticas.

Somente deste modo, o Brasil terá condições de fortalecer seu papel no sistema internacional, com legitimidade e longe do “protagonismo” excessivo, já anunciado por Ricupero.

[Aproveitando a oportunidade, a Página Internacional gostaria de agradecer imensamente a todos os leitores que tem nos enviado posts regularmente, ajudando-nos a manter a qualidade do blog. Continuem escrevendo sempre!]


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Post do Leitor

Post do Leitor – Rafael Reis

[Pessoal, recebemos mais um post do leitor. Desta vez, quem nos enviou foi o graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca, Rafael Reis, tratando das agitações no mundo dos negócios após a quebra do Lehman Brothers. Confiram abaixo!]

Como, quando e onde?


Dramática foi a quebra do banco Lehman Brothers. Mas passado é passado, e o presente é glorioso, talvez muito mais do que o futuro venha a ser. O aniversário de um ano do começo da recuperação das bolsas de valores ao redor do mundo, comemorado na semana passada, não podia vir em melhor hora – acompanhado da lista dos homens mais ricos do mundo. Entre os bem afortunados, Eike Batista, um mega empresário tupiniquim.

Genial em sua audácia transformou negócios “inexistentes” em companhias de sucesso que lhe renderam um patrimônio colossal. Curiosamente, em alguma entrevista à Exame há algum tempo atrás ele já prenunciava: “Minha meta é ser o homem mais rico do mundo em cinco anos”. Será? O importante é que é o mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo. Mais importante ainda é notar que sua fortuna tem ligação particular com a Bolsa de Valores brasileira.

Sua ascensão começou ao listar suas empresas “recém-nascidas”. Passaram por um processo diferenciado – por não terem uma estrutura empresarial consolidada, a oferta pública inicial de ações teve limite mínimo para investimento de R$ 300 mil reais, ante os R$ 3 mil reais habituais, para garantir que somente aqueles com recursos abundantes, e teoricamente com conhecimentos de mercado, participariam da emissão “de risco”. Após listar as companhias, obter recursos no mercado, montar uma estratégia agressiva e inteligente, remunerar seus executivos com incentivos, e decolar no mercado internacional ávido por commodities, Eike Batista e seus acionistas enriqueceram. Muitos falam que seu pai, personalidade destacada no setor de mineração, lhe entregou o mapa da extração mineral no Brasil. Mas o mérito é inegável.

Um exemplo entre suas empresas é da MMX, do setor de mineração, que valorizou no último ano dos R$ 2,46 do dia 18/03/2009, para os R$ 13,43 do dia 18/03/2010, 445% de lucro em um ano! Todas as suas empresas estão focadas no setor de matérias primas: mineração, energia, petróleo e logística.

Esse setor é o ponto forte do Brasil. Mas não só ele. Com a diminuição dos juros e o aumento do poder de compra, os setores de consumo e de habitação também entraram para a mira dos investidores. Enfim, o Brasil é um ótimo destino para os recursos internacionais, ou assim se apregoa por aí, ratificado pela melhora do rating das agências de risco em relação aos títulos públicos brasileiros, e à economia brasileira, conseqüentemente. Mas e daí, o que isso significa? Basicamente que o custo para captação diminui. E assim mais recursos virão através do mercado de capitais e do mercado financeiro.

O mercado brasileiro se tornará cada vez mais integrado ao mercado financeiro internacional. Algumas conversas entre entidades e lideranças brasileiras tentam se antecipar aos fatos e planejam a instalação de uma estrutura que transforme o Brasil em um Hub financeiro, por onde passariam os recursos destinados à região, além de facilitar o acesso a bancos e veículos de investimento internacionais que precisam passar por outros Hubs – Londres, Nova Iorque, ou Hong Kong, por exemplo – para chegarem ao Brasil.

Crescendo a integração, crescerá também a exposição ao mercado de capitais e à sua especulação. E vem a preocupação: como proteger nosso mercado, muitas vezes composto por recursos economizados com muito esforço ao longo da vida por poupadores precavidos? Aí não cabe nenhuma solução mágica, proposta de bate-pronto.

Mas uma sugestão de debate se destaca: é preciso incentivar o crescimento do mercado de capitais. Vide a diferença do mercado atual para o de anos atrás, quando a Bolsa do Rio de Janeiro quebrou. Naquela época os preços eram facilmente manipulados, em razão da baixa liquidez e volume de negócios. Hoje é muito difícil manipular uma ação, de companhia grande, especificamente, por haver muito volume, o que impossibilita que poucos investidores possam distorcer o valor dos ativos – a Vale chega a bilhões de reais negociados diariamente, e seria necessário muito poder de fogo para distorcer os preços da ação, pressionando-o para cima ou para baixo, no médio prazo, sem ser “engolido” pelo restante do mercado.

Reflitamos então: como tornar o mercado mais popular? Como aumentar a participação da população brasileira no mercado de capitais nacional, investindo nas empresas nacionais? O acesso às informações já é disponibilizado: há várias formas de participação nas discussões do mercado, através do acesso às entidades de mercado (Apimec, Ibri, Ini, etc), bem como aos órgãos reguladores; de eventos como Expo Money; de teleconferências e de reuniões publicas (únicas no mundo), realizadas pelas companhias; do acesso aos sites de relações com investidores das companhias.

E agora a pergunta mais pé no chão: como aumentar essa participação num país emergente, onde o povo ganha pouco, e pouco sobra? Essa é difícil de responder. De qualquer maneira, uma coisa está clara: a bolsa de valores brasileira se torna cada vez mais importante, assim como as empresas nela listadas – nosso bilionário, que está entre os mais ricos do mundo, pode confirmar isso.


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