Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 1]

[A Página Internacional inicia hoje uma série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Esta coletânea de dez textos semanais terá como objetivo problematizar temáticas diferenciadas no âmbito das Relações Internacionais, oferecendo aos leitores importantes elementos para impulsionar o debate e a reflexão. Este primeiro post traz como tema a diversidade sexual – assunto bastante atual, especialmente em meio às eleições norte-americanas. Nossos mais sinceros agradecimentos à Tamiris por essa contribuição voluntária e tão interessante ao blog: seus ótimos textos são sempre muito bem-vindos! Aproveitem a leitura!]

“Qualquer maneira de amor vale amar. 
Qualquer maneira de amor vale a pena.” 

Milton Nascimento (Paula e Bebeto) 

Em face à possibilidade de reeleição, o presidente Barack Obama se posicionou a favor da união homoafetiva, em declaração à ABC. O pronunciamento tem sido considerado um marco histórico na política dos Estados Unidos, uma vez que nenhum outro representante político assim o havia feito. Para além das fronteiras americanas, François Hollande – candidato francês eleito à presidência – também se pôs a favor da união entre casais do mesmo sexo, exaltando em sua campanha as liberdades individuais e a igualdade de direitos civis. Ao tomarem a questão para si, transcendendo a incorporação de novas demandas sociais, estes parecem enunciar uma nova era: a Era do Amor Livre. 

Nas últimas décadas o movimento em prol da diversidade sexual ampliou seus capilares: Holanda, Espanha, Bélgica, Suécia, Noruega, Islândia, Canadá, Portugal, e África do Sul são apenas exemplos de países nos quais há reconhecimento formal. A Argentina foi pioneira na América Latina e o Brasil teve aprovação unânime no Supremo Tribunal Federal em 2011, tornando a regulamentação da união estável mais abrangente. Embora haja avanços neste sentido, há países em que a questão antecede o não reconhecimento legal: a homossexualidade é criminalizada – em alguns deles com previsão de pena de morte –, esbarrando numa série de questões culturais, sociais e religiosas. 

Ainda assim, parecemos caminhar à ressignificação das relações humanas, agora estendida ao ambiente político. Seria ingênuo considerar que a retórica eleitoral eloquente apropriada pelos agentes do Estado e os avanços legais mencionados significarão o fim das desigualdades sexuais, tão pouco a construção de um amor libertário. Há muito a se fazer. Indicam, contudo, a mudança no imaginário social, no qual as relações “livres, leves e soltas” começam a ganhar espaço. Antes de se tratar da igualdade de direitos a caminho da universalização (e, então, da humanização), é também um movimento em consonância à complexidade de um mundo formatado por relações “pluri”, “multi” e “inter” – e outras coisas mais. 

Nota: o amor livre ao qual nos referimos pouco tem a ver com a conotação promíscua, que geralmente (e erroneamente) lhe é atribuída, ou daquela que rejeita quaisquer interferências nos modelos de relação, como a religião e o Estado o fariam. Referimo-nos ao movimento contrário à institucionalização das relações afetivas em formas rígidas e envelhecidas, que não admitem a nova realidade social que se figura. 


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Conversando com a Teoria

Por

Post do Leitor

[Dando continuidade a nossa análise, hoje teremos um post especial e riquíssimo, de autoria de nosso colega Bruno Hendler, mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e bolsista CAPES, no qual ele abordará a teoria do sistema-mundo e seus autores. Aproveitem!] 

Sistema-mundo e as relações internacionais 

Sistema-mundo moderno de 1500-1775 (BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII: O tempo do mundo. São Paulo, Martins Fontes, 1996. p. 18-19)

A perspectiva teórica dos sistemas-mundo surge com a publicação do livro “The World-System Analysis” de Immanuel Wallerstein, como uma crítica à centralidade do Estado nas ciências sociais. Sua origem está ligada ao surgimento da economia política internacional nos anos 70 e aos questionamentos da época sobre os rumos do sistema internacional frente à crise hegemônica dos EUA durante a Guerra do Vietnã e o fim do padrão ouro-dólar. Assim, autores da teoria da estabilidade hegemônica como Gilpin e Kindleberger, da interdependência complexa como Nye e Keohane e o próprio sistema-mundo de Wallerstein apontavam respostas diferentes para perguntas parecidas. Vamos ficar com o último e ver mais a fundo as bases do sistema-mundo para entender suas respostas. 

Em primeiro lugar, o método de análise dos sistemas-mundo evita o uso de conceitos abstratos para depois buscar exemplos históricos que os comprovem ou refutem. Wallerstein utiliza o método da “comparação incorporada”, ou seja, seus conceitos são construídos à medida que avança na análise da história. Para ele, o sistema social que existe hoje surgiu no fim da Idade Média na Europa Ocidental e se expandiu pelo mundo todo como a soma de um sistema de unidades políticas competitivas e uma divisão internacional do trabalho que supera as fronteiras políticas e funciona sob a lógica do capitalismo. 

Teríamos dois tabuleiros no sistema-mundo moderno, que se afetam mutuamente: a esfera do capitalismo, onde os agentes empresariais buscam lucro e riqueza com aplicações econômicas; e a esfera do sistema interestatal, onde os Estados aplicam recursos de violência em busca de poder. É importante ressaltar que nas duas esferas há uma hierarquia que define o papel dos agentes e faz o sistema oscilar entre a ordem e a anarquia. 

No tabuleiro do capitalismo, também chamado de economia-mundo capitalista, existe uma polarização de riqueza, não apenas entre classes, mas principalmente entre regiões do sistema. Wallerstein se aproxima dos teóricos da dependência ao verificar uma hierarquia na divisão internacional do trabalho entre regiões ou Estados centrais (que se ocupam de tarefas que exigem maior qualificação, aplicação de tecnologia de ponta, agregação de valor a mercadorias e maior acumulação de riqueza) e regiões ou Estados periféricos (que apresentam baixa rentabilidade marginal e transferem para as regiões centrais grande parte do seu excedente de riqueza). Porém, Wallerstein vai mais longe e ainda identifica regiões ou Estados semi-periféricos, onde há uma proporção equilibrada entre atividades que acumulam e transferem valor. 

O tabuleiro do sistema interestatal também tem suas assimetrias, que dependem não apenas dos recursos de poder entre os Estados, mas da função que ocupam na economia-mundo capitalista. Assim, Giovanni Arrighi, outro expoente, percebe ciclos entre governança e caos de acordo com potências hegemônicas. A governança decorre da capacidade da hegemonia em garantir a ordem no tabuleiro político (por meio da hierarquia de poder) e a rigidez no tabuleiro capitalista para manter-se no centro; e o caos sistêmico substitui a governança no momento em que surgem Estados capazes de enfrentar militarmente o poder hegemônico e/ou concorrer e ultrapassá-lo na vanguarda do capitalismo. Em outras palavras, a ascensão e queda de potências. Assim ocorreu com o declínio da hegemonia holandesa frente à ascensão da Inglaterra e da França; e o declínio da hegemonia inglesa frente à ascensão da Alemanha e dos Estados Unidos.

Com isso, a grande interrogação que fica é sobre os rumos do sistema-mundo diante das sucessivas crises nas últimas décadas. Wallerstein sugere o “fim do mundo como o conhecemos”, uma verdadeira ruptura com o padrão histórico do sistema-mundo moderno; já Arrighi sugere uma fissão das capacidades sistêmicas: um novo ciclo econômico estaria surgindo na Ásia, puxado pela China, enquanto que a hierarquia no tabuleiro de poder continuaria a favor dos Estados Unidos por um bom tempo. Façam suas apostas!


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Post do Leitor – Jéssica Monteiro

[Pessoal, recebemos um interessante de Jéssica Monteiro sobre a questão dos refugiados no mundo atual. Vale a pena conferir e refletir sobre um tema ainda pouco abordado nas Relações Internacionais. Lembrando que todos podem postar na Página Internacional, basta que nos enviem um texto para [email protected]. Boa leitura!]

Em busca de um abrigo

Em 2011, ano em que a Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados completou 60 anos, foi divulgado pela Agência da ONU para refugiados (ACNUR) um relatório sobre a situação dos mesmos pelo mundo. Segundo ele, há cerca de 25,2 milhões de pessoas protegidas pelo ACNUR e aproximadamente 4,82 milhões de pessoas sob a égide da UNRWA, que é a agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos. Dados do relatório revelam que os países em desenvolvimento acolheram perto de 80% dos refugiados do mundo.

Entretanto, as estimativas são de que esses números aumentem. No Norte da África, Primavera Árabe fez com que muitos buscassem abrigo em países vizinhos ou atravessassem o Mediterrâneo ilegalmente de barco (pagando cerca de 1500 euros) para chegar até a Europa. Esse fato pôs em questão o chamado Acordo de Schengen, pois muitos dos refugiados africanos chegavam à costa italiana e de lá iam rumo a outros países como, por exemplo, a França.

Dentre os países que mais acolheram refugiados estão Paquistão e Irã que receberam a maior parte dos afegãos. A Síria, antes dos últimos acontecimentos, também estava incluída nesse grupo, acolhendo grande parte dos iraquianos que fugiam da guerra e do caos que se instalou no país logo após a invasão da Coalizão. Contudo, o conflito político que atinge o país resultou em uma massa de pessoas fugindo, principalmente para o Líbano, da violenta repressão comandada pelo governo sírio.

Outros países, como os que se encontram no chamado Chifre da África (Quênia, Somália, Djibuti e Etiópia), também enfrentam sérios problemas com os refugiados. A Somália, que já foi tratada no blog diversas vezes, passa por uma crise política que, aliada à seca que castigou a região, culminou com um quadro de extrema miséria que fez com que houvesse uma fuga acentuada do país. Apesar da declaração da ONU sobre o fim da crise de fome, a situação para os somalis ainda não é nem um pouco estável.

A maioria das pessoas foge para o país vizinho, o Quênia, onde está instalado o maior campo de refugiados do mundo, que recentemente completou 20 anos, o campo de Dadaab (aqui e aqui), que, por sinal, está congestionado. Segundo Elena Estrada, assessora para assuntos humanitários dos Médicos Sem Fronteiras: “As condições estão abaixo dos padrões humanitários internacionais mínimos. Os refugiados têm acesso escasso à água, comida, itens não-alimentares e abrigo. Não existem latrinas, fazendo da defecação a céu aberto a única opção, e assim aumentando o risco de disseminação de doenças, particularmente nesse grupo vulnerável que já está fugindo de guerra há anos”.

Há, nas várias partes do globo, muitos países que passam por problemas que originam essa situação de refúgio. O Brasil mesmo vem recebendo uma grande quantidade de haitianos e de colombianos. Outros países africanos e asiáticos que não foram citados também recebem diversas pessoas fugitivas de conflitos em seus países.

Diante disso, não se pode esquecer o papel das organizações humanitárias, que é indispensável para levar ajuda a essas pessoas que tanto necessitam. Essas organizações enfrentam enormes desafios perante um panorama mundial caótico e complexo. Assim, independente do país, é fato que há um problema e que ele tem que ser resolvido. Quantos mais terão que deixar suas casas em busca de segurança, de um lugar digno para se viver?


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Post do Leitor – Tiago Pedro Vales

[Pessoal, hoje apresentamos um post escrito por Tiago Pedro Vales, mestre pelo programa de pós-graduação em História da UNESP, acerca da crise na União Europeia. O texto se torna ainda mais interessante pelo fato de o autor atualmente residir em Lisboa e, portanto, está vivenciando a crise de perto. Lembrando que todos podem participar da Página Internacional, basta enviar textos para [email protected]


Crise…

A crise econômica do velho continente tem ocupado boa parte dos noticiários mundo afora. Mais do que isso, tem deixado muita gente preocupada. Os Estados tem se esforçado para encontrar uma solução mas, no entanto, é difícil atender a todos os interesses, principalmente quando se fala em um bloco de países como a União Europeia, que guarda dentro de si discrepâncias enormes quando se trata de desenvolvimento econômico. 

De um lado está a todo-poderosa Alemanha (PIB atual de US$ 3,3 tri), atualmente a quarta economia do mundo e, por outro, uma série de países que, mesmo somados, tem economias pouco expressivas, como Portugal (US$ 228 bi), Grécia (US$ 301 bi) e Romênia (US$ 161 bi) que dividem um mesmo banco central. Este tem o desafio de formular políticas monetárias que sejam viáveis desde a Finlândia ao Algarve. Tarefa bastante ingrata, é verdade, e que, segundo alguns, é a causa da crise. 

Não é só entre ricos e pobres que se dividem os interesses na União Europeia. Dentro do “alto clero” (Alemanha, França e Reino Unido) há interesses divergentes que por vezes impedem a aplicação de medidas que evitariam ou solucionariam crises como a atual. Ainda assim, a União Europeia serve de exemplo de integração regional e desenvolvimento econômico a todos os blocos que assim pretendem ser. 

Há muitas críticas acerca dos planos de recuperação em Portugal e Grécia, principalmente. Por conta das condições e reformas exigidas em troca de ajuda financeira, os países tiveram de cortar drasticamente seus investimentos em todas as áreas. Suspenderam direitos, cortaram salários, aumentaram impostos, despediram funcionários públicos, entre outras medidas que, ao menos por enquanto, não tiveram o resultado esperado. Em Portugal, nove meses depois dos acordos com a troika (Banco Central Europeu + Comissão Europeia + FMI) pariu-se uma taxa de desemprego que está chegando aos 20%, ou 35% entre os jovens (20 a 25 anos). A expectativa é que essa taxa aumente ao menos até meados de 2012. 

A crise europeia, no entanto, é diferente das crises do passado no Brasil e América Latina. Há tempos que os europeus, de forma geral, superaram alguns problemas sociais que ainda estão presentes no cotidiano brasileiro. Pelo menos por enquanto, a crise ainda não corroeu a boa qualidade de vida que os Estados europeus conseguem oferecer aos seus cidadãos. Por enquanto não há índices inflacionários tão altos, ou seja, não há inflação como houve e há na América Latina (ou pelo menos o Banco Central Europeu não a quer, mesmo que for para resolver a crise), há desemprego, mas também há alternativas (mesmo que sejam a migração para países da União Europeia menos afetados pela crise ou ainda em direção a países emergentes). De fato, o primeiro-ministro português, Passos Coelho, encorajou seus cidadãos a migrarem. Há portugueses pedindo emprego em call centers brasileiros. O consumo de bens não duráveis tem caído, um efeito colateral esperado, já que se tem, ao menos em Portugal, aumentado os impostos e cortados os salários. Mesmo assim, não há um mal social generalizado e sim dificuldades. 

Não se pode, no entanto, minimizar alguns casos extremos. Por exemplo, portugueses estão “rifando” a própria casa para poder sobreviver. Espanhóis estão migrando ilegalmente às suas antigas colônias em busca de oportunidades. Mais chocante ainda, casais gregos estão doando os próprios filhos porque não têm como sustentá-los. Mas isso, por enquanto, são casos extremos. Façamos votos que não se torne a regra.


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Post do leitor – Laura Pimentel Barbosa

[Hoje apresentamos mais um post do leitor que nos foi enviado por Laura Pimentel Barbosa, recém-formada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Nesta oportunidade, ela discute um tema bastante atual, a respeito da internet e sua relação com o desenvolvimento econômico e social, sugerindo uma interessante reflexão a respeito. Vale a pena conferir! Agradecemos a participação dos leitores e os convidamos a construírem sempre conosco o conteúdo da Página Internacional! Boa leitura!]

Criatividade em rede

Quaisquer que sejam as antinomias que

se apresentem entre as visões da história
que emergem em uma sociedade, o
processo de mudança social que chamamos
desenvolvimento adquire certa nitidez quando o
relacionamos com a idéia de criatividade.
Celso Furtado

Nos últimos dias assistimos ao aprofundamento do debate a respeito das regulamentações contra a pirataria na Internet propostas pelo Congresso estadunidense. As indústrias fonográficas e cinematográficas têm interesse na aprovação da SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act), porque vêem o sistema de funcionamento da Internet, abalizado no compartilhamento descentralizado de informações, um risco aos lucros fundamentados nos direitos de propriedade intelectual, tão caros ao nosso sistema econômico. É importante lembrar que no Brasil também tivemos um caso semelhante, embora infelizmente a visibilidade tenha sido bem menor, como foi o caso da Lei Azeredo.

Apesar de ser possível apreender diversos temas a partir desse debate, achei que seria pertinente colocar em discussão a relação entre o caráter da Internet e os novos rumos para a cidadania e para o desenvolvimento econômico e social.

Para tanto, faço uma breve introdução aos princípios da Internet. Durante os anos 60 e 70 houve um debate acirrado a respeito de quais deveriam ser os padrões que regeriam a rede, em razão da forte influência dos setores acadêmicos com ideais libertários na sua criação, os padrões mais simples, ou seja, com menos regulamentação tanto no processo de geração do conteúdo quanto no de compartilhamento, acabaram por se tornar os princípios da rede*.

A informação é condição necessária aos investimentos internacionais, e os padrões abertos facilitam a inovação e a criação de novas ferramentas para que se tornem mais sofisticados os modelos de desenvolvimento, tornando a pluralidade cultural e informacional cada vez mais valorizadas no sistema econômico internacional. A SOPA e a PIPA são propostas oriundas de um sistema econômico que não parece ter acompanhado as demandas do desenvolvimento tecnológico e científico que ele próprio incentivou.

Nesse sentido, os convido a fazer um paralelo entre a cidadania e como ela pode se beneficiar através de um recurso tão importante como o é a Internet. Yonchai Benkler** afirma que as relações no ecossistema digital, baseadas na colaboração e em uma infra-estrutura orientada a serviços públicos ou bens comuns, pode ampliar a voz dos cidadãos. E esses bens comuns não necessariamente obedecem aos padrões de propriedade, ou seja, às relações tradicionais do mercado, que por sua vez são fundamentadas na apropriação e na restrição.

A justificativa de proteção às patentes pela SOPA e PIPA pode resultar em mais do que a restrição ao acesso à informação, cultura e conhecimento, pode ser um freio à inovação e criatividade que vem impulsionando planos para o desenvolvimento econômico de países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

Por fim, gostaria de colocar como reflexão a questão da apropriação social da tecnologia da informação e comunicação, que pode ser sim um risco ao sistema econômico e produtivo como o conhecemos, mas talvez seja uma oportunidade para um novo modelo econômico, mais plural e cooperativo, que encontre caminhos para a superação das desigualdades que a apropriação e a acumulação ajudaram a criar…

* GETSCHKO, Demi. Algumas características inatas da Internet. Publicação do Comitê Gestor da Internet do Brasil, ano 1, 2009, ed. 1. p. 42-43.
** AMADEU, Sérgio. Cidadania e redes digitais. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2010. p. 22-25.


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Post do Leitor – Cairo Junqueira

[Pessoal, abaixo está um interessante texto sobre o aniversário de São Paulo e algumas reflexões sobre a cidade, proposta pelo nosso leitor, Cairo Junqueira. Lembrando a todos os leitores que gostariam de postar na Página Internacional, basta que nos enviem textos para o e-mail [email protected]. Aproveitem a leitura!]


São paulo. 458 anos e outros números


Durante meu período como coordenador do Setor Governamental da ORBE, a Empresa Júnior de Relações Internacionais da UNESP/Franca, recebi em mãos uma publicação intitulada “Discover a Green City – A guide to one of the world’s largest cities” que tratava sobre as iniciativas locais para a inserção internacional da capital paulista. Para tanto, achei interessante pegar alguns dados da publicação e esquematizar um pequeno texto em comemoração à data mencionada no título.

São Paulo festejou seu 458º aniversário como a maior cidade brasileira e a sétima maior do mundo, com uma população na casa dos 11 milhões e 200 mil. Possuindo um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em 388 bilhões de dólares, também está no ranking das dez cidades mais ricas, lideradas por Tóquio, Nova Iorque e Los Angeles, respectivamente.

A cada três eventos realizados no nosso país, dois acontecem em São Paulo. Ela é a 24ª no ranking mundial de cidades por eventos de negócios internacionais e recebe cerca de um milhão e 600 mil turistas estrangeiros todo ano. Ainda assim, detém a maior frota de helicópteros e a maior rede de iluminação pública mundiais. Na Avenida Paulista, em horário de pico, passam cerca de 4 mil carros e pouco mais de 200 ônibus.

A capital é um exemplo clássico de cidade-global: tem uma completa rede de empresas que prestam serviços especializados e que dinamizam suas estruturas internacionalmente. Embora em número reduzido, comparado com outras cidades brasileiras, participa ativamente de redes de cidades, as quais são um meio de organização e coordenação descentralizada destes atores para fortalecerem suas atividades internacionais. Exemplos são a Rede Metrópolis e a Rede Mercocidades, aquela composta por cidades com mais de um milhão de habitantes e esta representante da estratégia mais usada no Cone Sul para a inserção externa de atores subnacionais.

Articula-se, também, através dos Fóruns de Secretários e Gestores Municipais de Relações Internacionais (FONARI) e possui uma Secretaria Municipal de Relações Internacionais (SMRI) desde 2001, responsável por projetar a cidade mundialmente e estabelecer contatos e convênios com os mais variados atores internacionais. Entretanto, inúmeras vezes, fica à mercê da burocracia pública e, com as mudanças de governo, acaba por retardar as iniciativas que vão ao encontro dos fatos mencionados acima. Inúmeros são os comentários benéficos sobre a gestão da Marta Suplicy no que tange à “internacionalização paulistana”, mas isto mudou com as diretrizes dos prefeitos mais recentes.

O que está em pauta, atualmente, é a promoção da capital como “cidade verde”. Sediou a reunião do C40 (Climate Leadership Group) no ano passado e tem buscado observar o que fazem outras cidades para o aumento da sustentabilidade ambiental. Amsterdã, na Holanda, é pioneira no uso da bicicleta como transporte diário e para o trabalho; Johannesburgo, na África do Sul, tem corredores de ônibus com baixo nível de poluição; São Francisco, nos Estados Unidos, destina apenas 20% do lixo para aterros sanitários; e os exemplos não param por aí…

Baseando-se na máxima liberal, no campo das Relações Internacionais, de que os ambientes interno e externo são inseparáveis, ainda faltam ajustes para ratificar, de fato, a inserção internacional de São Paulo. É óbvio que a capital enfrenta problemas de transporte, de infraestrutura e de urbanismo. Mas é gratificante ver como a maior cidade do país se firmou nos últimos anos, sendo um dos cartões postais brasileiros.

O enfoque, agora, é a Copa do Mundo e a possível realização da EXPO em 2020, considerada o terceiro maior evento mundial em termos econômicos. Com uma área de 1.500 km², densidade demográfica de 7,4 mil habitantes/km² e um orçamento municipal de cerca de 28 bilhões de reais; São Paulo, composta por 5 regiões, 31 subprefeituras, 96 distritos e 58 zonas eleitorais, tem muito a crescer e muito a ensinar para o restante das cidades brasileiras. Mesmo com seus pontos negativos, a capital paulista é um espelho dos brasileiros, tanto nacional, quanto internacionalmente.

Parabéns, São Paulo!


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Post do Leitor – Cairo Junqueira

[O leitor Cairo Junqueira mais uma vez nos brinda com um interessante texto. Desta vez escreve sobre a política externa brasileira para 2012 e as relações com Cuba. Vale a pena a leitura! Aproveitamos a oportunidade para lembrar que todos podem postar na Página Internacional, basta que enviem seus textos para contato @paginainternacional.com.br]


Brasil e Cuba: o retrato do multilateralismo

Nem bem o ano começou e a agenda diplomática brasileira já iniciou seus trabalhos envolvendo a futura ida da presidente (ou presidenta, como quiserem) Dilma Rousseff a Cuba. O Ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, esteve em Havana nos dias 16 e 17 deste mês e conversou com o Chanceler Bruno Rodríguez sobre os caminhos das relações bilaterais dos países no ano que se segue.

Desconheço os acordos e as histórias existentes entre o Brasil e os cubanos, mas meu enfoque neste post é outro: o multilateralismo brasileiro na prática. Em meio ao cenário internacional atual, com os rumores das eleições norte-americanas, a tensão existente na política externa norte-coreana e a tímida comemoração dos dez anos do euro, nosso país mantém seu enfoque e reafirma seus ideais.

Isso não quer dizer que estamos nos desvinculando ou colocando em segundo plano estes aspectos citados acima, muito pelo contrário. O principal ponto é justamente verificar como o Brasil continua com a sua postura de multilateralidade bastante nítida nestas reuniões em Cuba, uma vez que é um país ímpar nas relações internacionais, seja devido ao seu sistema político interno, à sua estrutura social e urbana ou até mesmo à sua posição geográfica e diplomática.

As intenções do Itamaraty para com o país são visíveis: relacionamento bilateral, integração regional, cooperação técnica internacional e infraestrutura. São temas centrais da nossa política externa, bem como do nosso papel emergente. O estágio contemporâneo do multilateralismo brasileiro mescla a reciprocidade entre países hegemônicos e em desenvolvimento, sem deixar de lado aqueles considerados “terceiro mundistas”.

O aspecto plural de nossas relações exteriores é mais benéfico que a bipolaridade e representa a autodeterminação nacional. Começar 2012 com a visita a Cuba não é algo escolhido aleatoriamente. Para mim representa, e muito, o novo contexto internacional e o novo papel que o Brasil vem desempenhando na política mundial. Parece que nosso país quer dizer o seguinte: “estamos de olho em tudo e em todos”.


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Post do Leitor – Cairo Junqueira

[Pessoal, recebemos mais um post do leitor de Cairo Junqueira, recém-formado em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Dessa vez, ele faz uma breve e interessante retrospectiva dos acontecimentos que marcaram em 2011. Vale a pena conferir!]

2011: O ano de todas as quedas!

Inicio dizendo que o título deste post foi copiado de uma matéria do Le Monde intitulada “2011, l’année de toutes les chutes”. Na verdade, estava eu procurando alguma notícia que serviria de inspiração para uma retrospectiva do ano que se passou e esta frase me agradou bastante. Nela aparecem fotos retratando as mortes de Bin Laden e Kadafi, bem como as quedas de Mubarak, Berlusconi e Strauss-Kahn.

Foi um ano ímpar para a Política Internacional e, evidentemente, para as relações internacionais. Não só pelos fatos retratados no parágrafo anterior. Com as personificações, quando são apontados nomes de ditadores, políticos ou figuras públicas, torna-se bem mais fácil entender o que se passou nos últimos doze meses. Entretanto, meu intuito no presente tópico é mesclar tais acontecimentos com outros que também merecem análise aos leitores da “Página Internacional”.

Comecemos pela morte de Bin Laden. Talvez, somente neste episódio os Estados Unidos mereceram grande atenção por parte da mídia internacional. Quero dizer que 2011 não foi um ano “à moda” norte-americana, uma das poucas atitudes destacadas foi a retirada das tropas do Iraque. Mesmo assim, na última semana, saiu a notícia de que a solicitação de seguro desemprego no país diminuiu consideravelmente, alcançando níveis mais baixos desde 2008 e evidenciando uma possível recuperação e reestruturação política interna muito divulgada por Obama. Não acho que os EUA ficaram um pouco inertes no cenário internacional, sua presença é e continuará a ser necessária para as relações internacionais, contudo, outros acontecimentos abafaram sim algumas de suas ações.

Falemos do Fundo Monetário Internacional e da crise econômica na União Europeia, por exemplo. Era só abrir o jornal ou ler qualquer newsletter que lá apareciam os elevados índices de desemprego na Espanha, chegando à casa dos 25%, o suposto calote grego e as “mãos de ferro” de Sarkozy e Merkel para tentar controlar o abismo econômico e financeiro apresentado pelo bloco. Não sou especialista no assunto, mas o que eu destaco nestes episódios resume-se em dois simples fatos: de uma maneira ou de outra, a Europa aguentou a pressão, todavia… o medo de uma recessão econômica chegou aos países desenvolvidos! Juntamente com os presidenciáveis, Strauss-Kahn representou um pouco esta desordem nunca antes imaginada, principalmente no século XX, nos países do norte. Sinal dos tempos modernos ou, quem sabe, pós-modernos…

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ambém na Europa ocorreu um episódio que, para mim, teve papel central neste ano: o duplo atentado na Noruega. Aquele massacre na Ilha de Utoya trouxe ao debate algo muito visado nas relações internacionais, seja ela a questão multicultural. O autor do ataque identificou-se como nacionalista extremo e ultradireitista, mas o mais notável foi tudo isso ter acontecido em um país que tem uma cultura e um histórico voltados para a paz. Quero dizer que ninguém esperava estes acontecimentos que demonstram os sinais dos tempos. Para o bem ou para o mal, a interdependência entre os países existe e o ataque com carro-bomba em Oslo demonstrou, também, que nenhum país passa ileso pelas questões contemporâneas envolvendo, além da supracitada questão cultural, movimentos racistas, pressões governamentais e problemas com segurança internacional.

Mudemos para o Oriente Médio e a África. 2011 foi, com certeza, o ano da Primavera Árabe. Manifestações públicas, guerra civil, descontentamento com governos autoritários, renúncia de Mubarak e morte de Kadafi representaram a volta pelos anseios democráticos. Este é o principal ponto para minha análise: a democracia! Não entrarei no mérito de especificar o que é ou o que dá as bases para um governo democrático, mas usarei o pensamento de Robert Dahl, professor emérito de Ciência Política da Universidade de Yale, para analisar este processo. No Egito e na Líbia, principalmente, foram vistas lutas para uma mudança total da organização política e, consequentemente, social, culminando em aspirações democráticas, tanto no âmbito real, quanto no ideal. Pelo primeiro, evidenciam-se as bases para um sistema representativo de governo e, para o segundo, estabelecem-se valores universais a serem alcançados para o bem-estar geral. Ambos foram vistos este ano na região, as manifestações objetivaram a queda dos governos e, ao mesmo tempo, uma maior participação política da sociedade.

A Ásia passou por uma série de turbulências. O tsunami que devastou o Japão talvez tenha sido a materialização de como 2011 foi um ano “incomum” no continente. Perdeu o posto de segunda maior economia mundial para a China e, tendo o nível de tecnologia reconhecido mundialmente, falhou por não ter previsto a dimensão da catástrofe natural. A morte de Kim Jong-Il entrou para o rol histórico e colocou ainda mais dúvidas sobre o futuro político e nuclear da Coreia do Norte. Somente os chineses continuaram a sua caminhada de liderança, fortalecendo os BRICS e ganhando reconhecimento e prestígio internacionais.

Passemos à América Latina e ao Brasil. No meu primeiro post aqui no blog já havia comentado sobre a integração na nossa região. Continuo destacando estas iniciativas neste ano, pois CELAC e UNASUL procuraram e deram uma nova roupagem positiva para o subcontinente nas relações internacionais. No nosso país, o que ficou em evidência foi a crise nos ministérios, sete ministros deixaram seus postos, todavia a presidente Dilma não perdeu sua popularidade. Mesmo assim, não foi nada bom para a imagem do Brasil no exterior, que fechou o ano como a sexta maior economia do mundo, ultrapassando o Reino Unido, de acordo com o Centre for Economics and Business Research.

E por ai vai… 2011 também foi o ano em que Steve Jobs faleceu, mas as redes sociais alcançaram patamares incríveis de popularidade evidenciados, principalmente, no movimento Occupy WallStreet. Foi o ano em que nasceu mais um Estado, o Sudão do Sul, e que outro, a Palestina, foi reconhecido pela UNESCO. Foi o ano que marcou uma década dos atentados de 11 de Setembro e duas da queda da União Soviética. Por fim, reafirmo que foi o ano das quedas e, ao mesmo tempo, o ano da elevação da classe média, segundo Eric Hobsbawm. Foi o ano em que o “11” passou a ser bem mais que um simples número.


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Post do Leitor – Tauã Carvalho

[Segue abaixo uma interessante reflexão proposta pelo leitor Tauã Carvalho*, sobre os desafios para uma possível democratização no acesso e na tomada de decisões em geral nas Relações Internacionais. Aproveitem a leitura! Agradecemos a contribuição do Tauã e lembramos a todos os leitores que, para publicar um texto no blog, basta enviar-nos um e-mail para o seguinte endereço: [email protected]]

Da democratização das Relações Internacionais

Existe uma crença no sentido de que as relações internacionais estão se democratizando, que o rol de países que passam a se integrar a sociedade internacional (no estilo da Escola Inglesa) está gradativamente sendo ampliado e que, com o passar do tempo, os mecanismos de posicionamento estão se tornando cada vez mais fortes e incisivos. Ou seja, a crença de que o passar do tempo leva à universalização de participação na decisão nas relações internacionais. Tal ideia crê que o avanço das tecnologias e a abertura de uma multiplicidade de fóruns multilaterais tornam as relações internacionais mais democráticas, pois permitem o ingresso gradativo e constante das nações a essas instâncias, estando assim na condição de influir nas decisões mundiais.

A realidade se mostra um pouco mais hard que o ideal. As nações ainda têm de lidar com a estratificação do poder de decisão de fato no âmbito internacional. Entre tantas fórmulas, os teóricos convergem no sentido de que as nações se movem para fortalecer, ampliar, alterar ou reverter o status quo. Posição no sistema internacional parece ser uma noção intimamente ligada ao poder de decisão.

Para a última cúpula do G-20 financeiro, realizada em Cannes na França durante a semana passada, a Casa Branca informou que antes do certame promoveria reuniões privadas bilaterais entre Obama e os presidentes europeus Sarkozy e Merkel. A reunião teria por fim, indicaram muitos dos analistas, ritmar as posições das três nações.

De acordo com a crença da onda de universalização na tomada de decisões em âmbito mundial esse pequeno encontro dos três países é uma afronta aos ideais democráticos da expansão do poder para todos.

Em termos do G-20, três países se reúnem para traçar estratégias unificadas. Se chanceladas no encontro, o efeito dessas medidas equivale a cerca de 90% do PIB mundial. Por tudo isso não se pode atestar a veracidade da ampliação do poder de decisão no sistema mundial.

Sabemos que o imperativo é a anarquia internacional, que, mesmo fora da conotação realista, a falta de um poder central e superior ao dos entes estatais é clara. Não havendo um poder maior, todos os Estados concorrem em ideias e poder. A isonomia de poder não é, nem nunca foi, um princípio das principais correntes da Teoria das Relações Internacionais, e o mesmo também não se percebe na realidade. Não se observa esse impulso de maior escala de participação estatal nas decisões e na implantação das medidas aprovadas no plano internacional.

Há alguns dias a ONU foi evasiva no pedido palestino de ingresso como membro estatal permanente na organização. O conflito árabe-israelense e o processo de paz tem encontrado grandes entraves na negociação e decisão de efetivação dentro da maior organização política multilateral universal de que temos notícia. Prova de que o multilateralismo por si mesmo não é capaz de gerir o sistema internacional.

A própria Liga das Nações é fiel reflexo dessa situação: não foi possível a instrumentalização da entidade e de sua efetividade. A falta dos Estados Unidos foi maior que a presença de outros inúmeros países. A possibilidade de uso real da força se mostrou extremamente necessária visto que a falta de poder da organização e sua incapacidade de conter a escalada da agressividade lhe garantiu um tom de nulidade.

Contudo, a tese da democratização das relações internacionais se propagou no pós-Segunda Guerra Mundial quando da criação da ONU e teve imenso fôlego após a queda do muro de Berlim. O fim da bipolaridade encaminhou outro debate aos ambientes acadêmicos e midiáticos: o mundo seria a partir de então unipolar ou multipolar? A tese do mundo multipolar pareceu mais adequada aos anseios da comunidade internacional, das nações em desenvolvimento e das nações em processos de independência na África e na Ásia.

Dessa vez, na ONU, a sociedade internacional contaria com o poder militar e econômico da nação mais poderosa e com o mecanismo da democracia da Assembleia Geral, porém conviveria também com os mecanismos truncados do restrito Conselho de Segurança. O multilateralismo se fazia presente da mesma maneira que a tomada de decisão pelos detentores de poder efetivo, ou seja, possibilidade de uso real da força militar e nuclear.

Na questão palestina, outra vez, a ONU não fez aplicar suas decisões quanto às disputas territoriais nem ao reconhecimento da Palestina como Estado. Coube à UNESCO o papel de reconhecer a Palestina como Estado, uma vez que a ONU não cumpriu sua prerrogativa. Neste mesmo momento, retaliações a essa decisão já foram elaboradas e anunciadas. Os EUA congelaram o repasse à UNESCO e Israel assegurou o congelamento de repasse de recursos financeiros à Autoridade Nacional Palestina e reafirmou a construção de mais colônias de judeus em assentamentos palestinos.

São evidentes os avanços na democratização das relações internacionais passando do sistema europeu ao sistema mundial, a criação de um fórum político universal, a inclusão de muitas das nações da África e da Ásia. Assim como representam ampliações do G7 para G8 ou G7+1 e depois para G-20, alternativas bem melhores que as anteriores, principalmente a da triangulação do poder entre EUA, União Européia e Japão.

Sim, as relações internacionais passam por momentos de democratização, mas este não é um desses momentos. O G-20 foi um imperativo, não uma possibilidade de democratização. O agregado incorporou novos pólos de poder, mesmo que menores, à sua estrutura, mas não permitiu a universalização do ingresso voluntário. Em momentos de crise internacional – seja financeira, econômica ou militar – as pequenas nações detentoras de poder residual não têm a capacidade de estancar a situação ou de influir em sua resolução.

Uma maior participação nas decisões e ações coletivas mundiais ainda depende invariavelmente de incremento de poder por parte dos países desejosos de adentrar no “clube dos grandes”, participando das decisões de escala planetária, mas também arcando com os custos desse propósito.

O evidente salta aos olhos: a medida do multilateralismo não é a mesma do esquema multipolar. Uma e outra podem ser estratégias complementares nas relações internacionais, entretanto não se confundem.

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Post do Leitor

Post do Leitor – Tamiris Hilário

[Pessoal, esse é um texto da graduanda em Relações Internacionais pela Unesp, Tamiris Hilário, tratando da questão da arte como fator de transformação. Uma perspectiva muito interessante, vale a pena conferir! E, aos interessados em enviar posts do leitor e fomentar as discussões, basta enviarem um e-mail para [email protected]]

“uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas […] a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente”. Heidegger

A exposição paulistana “De dentro e de fora” , a ser exibida no MASP, de 17/08 a 23/12, apresenta trabalhos de arte contemporânea, dentre os quais se destaca a participação do fotógrafo francês JR , vencedor do TEDx2010 . JR, em face ao contexto vigente, oportunamente suscita a questão: poderia a arte salvar o mundo? De pronto, reconhece: não, não poderia. Isso porque, não se trataria de “salvar”, como afirma, mas de “mudar” o mundo. Vejamos de que maneira.

Parece confortável afirmar, hoje, que elementos culturais e artísticos se apresentam como transcendentes daquilo que se entende ou se convencionou chamar de fronteiras – físicas, sociais, econômicas, políticas e imaginárias. Carregam consigo, com isso, não apenas a idéia de agregação, mas também (e principalmente) de transcendência. Denso? Basicamente, estamos a falar da música, da fotografia, da dança, do circo, do teatro… como transgressores!

O Inside Out Projectde JR, por exemplo, é uma iniciativa a qual transforma fragmentos individuais pequeninhos em elementos artísticos. Qualquer um pode utilizar-se de fotografias em preto e branco para descobrir, revelar ou compartilhar histórias e imagens de sujeitos visivelmente invisíveis, ao redor do mundo.

Para além dos entraves e das burocracias tradicionais, comumente exigidas quando se quer mudar algo, neste faz-se necessária, apenas e tão somente, uma superfície sólida na qual a aplicação da imagem possa ser feita. Em grosso modo, uma parede. Testou-se assim, o poder da cola e do papel na África do Sul, Sudão, Serra Leoa, Libéria, Quênia, França, EUA, Inglaterra, Brasil, Índia…!

JR acredita que a arte se apresenta como um instrumento real para fomentar trocas e enriquecer discussões, tornando-se com isso capaz, não propriamente de alterar as regras do jogo, mas de modificar percepções.

Trata-se de um exemplo dentre a ampla gama de ações culturais transformadoras capazes de propiciar o aprendizado do convívio com a diferença, desencadear a formação de sujeitos criativos e transformadores e promover o sentimento de coletividade e de convívio social. A arte que “transforma” desenvolve assim um leque iniciativas mais inclusivas e que considera as diversas maneiras de fazer parte e de ser. Permite, com isso, que os espaços sejam realmente vistos – e entendidos – de forma mais humana.


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