Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[Hoje temos o prazer de publicar no blog um post do leitor diferente. Este texto nos foi enviado por William Soares Gonçalves, dedicado aluno do final do ciclo do Ensino Fundamental na Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP. Neste texto, William nos apresenta sua visão sobre uma lei nacional envolvendo os caminhoneiros. Vale a pena conferir sua análise! Boa leitura!] 

Gigantes do asfalto

 

Muito se tem falado sobre a nova lei imposta pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) ao governo, que obriga caminhoneiros a fazerem paradas de descanso pelo menos de 11 horas em um período de 24 horas. Esta nova lei gerou muita discórdia na classe dos caminhoneiros, pois como eles poderiam fazer paradas em lugares que nem sempre se tem hotéis ou postos de gasolinas, para que os motoristas pudessem cumprir sua jornada de descanso?

Os caminhoneiros estão pedindo mais estrutura nas estradas que eles possam cumprir a lei em segurança. Por outro lado, uma das polêmicas geradas pela nova lei é a questão do tempo de entrega de fretes que os companheiros da estrada devem cumprir. Muitos fretes que os caminhoneiros fazem têm que serem entregues no tempo certo, que é imposto pelas transportadoras. Essas cargas são chamadas de cargas perecíveis, ou seja, produtos que podem ser estragados facilmente.

É ai nesta corrida contra o tempo que acontece a criação da lei. Os motoristas são subordinados a viajarem no menor tempo possível, cortando estradão dia e noite, e é assim que o perigo chega. Rodando noites e noites, o cansaço bate, e junto com ele o sono, que muitos caminhoneiros tentam driblar, usando drogas como o “rebite”, que é um estimulante para que os motoristas possam ficar horas e horas acordados. Mas quando o sono bate de verdade, não tem “rebite” que dê jeito, e aí é que acontecem as tragédias nas estradas envolvendo os caminhoneiros que são noticiadas em telejornais.

Devido às altas estatísticas envolvendo acidentes com caminhoneiros, a lei do descanso foi criada. Mas está lei também foi criada para preservar a vida dos irmãos da estrada. O que seria de nós sem os caminhoneiros? São eles que nem sempre têm o valor merecido, que carregam a economia do país nas costas, transportando o arroz e o feijão para as nossas mesas, deixando suas famílias em casa para cumprirem seus deveres e às vezes, ou muitas vezes, não tendo a valorização de seus trabalhos por nossa parte.

Então fica a reflexão, para que possamos valorizar mais essa classe de trabalhadores que passam horas e horas na “boleia” do caminhão para sustentar nossa sobrevivência, e sustentar principalmente suas famílias. Fica uma simples pergunta: você passaria dias longe de sua família para levar o pão e o leite para outra? O caminhoneiro passa. 


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 10]

[Encerra-se, hoje, a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Desde já, a equipe da Página Internacional gostaria de agradecer imensamente sua contribuição, que aumentou bastante o leque de temas trabalhados no blog. Este décimo post analisa algumas consequências de “políticas desajustadas pelo mundo”. Aproveitem a leitura!] 

Jogos Vorazes: verdade ou desafio? 

Nem todo conluio é vão, em natureza e fins. Verdade ou desafio? 

Na ficção, sempre que há a incomoda presença das irmãs repressão e opressão, levantes se tornam peças no tabuleiro de jogos tão vorazes. É assim em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), em Fahrenheit 451 (Ray Brandbuy, 1953), Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (George Orwell, 1948), Battle Royale (Koushun Takami, 1999) e, no mais recente, The Hunger Games (Suzanne Collins, 2008). Ora, se a arte imita a vida e vice-versa, não seria exagerado afirmar que estamos a viver num momento em que iniciativas políticas “desajustadas” ainda teimam em dar as caras e que, para tanto, surgem respostas inusitadas. Embora nem sempre assim sejam compreendidas algumas lembram curiosas e intrigantes conspirações – termo que compreendo mais como uma “vontade coletiva em prol do avesso” e menos (muito menos) no sentido daquelas teorias desconfiadas – em que canetas BIC são rastreadores da NASA, Paul McCartney não é o Beatle original e Elvis não morreu… [1]

Descrevo, a seguir, três delas. 

Há pouco tivemos o caso Pussy Riot, banda punk feminista que ao sustentar uma narrativa anti-Putin teve parte de suas integrantes presa. Houve comoção internacional por conta da severidade com a qual o caso teria sido tratado, mas também por tornar evidentes equívocos e destemperos do atual governo russo. [2] Composta por anônimas, as artistas mascaradas teceriam críticas à gestão do Kremlin por meio de letras e apresentações clandestinas, como aquela que tentou colorir a Catedral de Cristo Salvador. Esta última resultaria na prisão e na recente condenação das dissidentes por vandalismo. Simbolicamente, a “oração punk”, cuja duração seria de menos do que um minuto, bastou para que a ousadia das jovens pusesse abaixo as máscaras de um Estado conservador, no qual os limites entre religião e política são confusos e, portanto, questionáveis. 

Por falar em movimento anônimo e mascarado… Quantos já ouviram falar na ideia Anonymous

Desde 2003-2004, esta se trata de uma emblemática representante do chamado “hacktivismo”. Dizem as más línguas que, em realidade, seria uma forma contemporânea de terrorismo. Os caras, entretanto, se autodefinem como uma “ideia de mudança” [3] voltada a lutar contra as injustiças do mundo. Para o bem ou para o mal, a Anonymous disseminou a ideologia hacker ao mesmo tempo em que passou a colecionar intervenções memoráveis ao longo de seu histórico (Avenge Assange e Occupy Wall Street estão no pacote). Apesar de ser característico aos integrantes se utilizarem da face estilizada de Guy Fawkes, a mesma de V for Vendetta (V de Vingança, 2006), como elemento identificador do ciberativismo, a figura acabou se tornando ícone “pop”. Ressalto, contudo, que a busca incessante por liberdade – e, então, justiça – mesmo que em meio ao caos que provocam, parece ser o ponto nodal da missão desta legião de anônimos

Por fim, embora saibamos que virais são suficientemente polêmicos a ponto de gerar desconfianças (vide KONY 2012), a terceira e última “maquinação” assim veio a nós: Israel Loves Iran, famigerada fonte de compartilhamentos nas redes sociais, soa como o mais novo “boicote” civil ao que pretendem os entes do sistema. Por meio de uma campanha virtual, o casal anônimo Ronny Edry e Michal Tamir se dispôs a propagar o amor e a tolerância como antídotos à eminência de conflito – a saber, Israel se sente ameaçado pelo programa nuclear iraniano e blá blá blá. O objetivo seria suprimir o discurso belicoso das partes e ceder espaço às mensagens de conscientização, fazendo com que o amor se apresente como elemento transformador. Aparentemente bem sucedida, a proposta do casal israelense teve a adesão não apenas do Irã, mas também de outros países pelo mundo. 

Que representam as iniciativas? O avesso, como enunciado ao inicio. Antes de serem conotadas como subversão – de natureza e em intensidades distintas –, sugiro que sejam compreendidas para além. Compreendidas como a reação voraz do humano. Simples, apenas, tão somente assim.

*

Ao propor este espaço objetivei olhar ao mundão, nossa morada e objeto de estudo, de forma transcendente. Reconheço que nem todos os temas abordados (eram) são passíveis de incorporação às Relações Internacionais enquanto disciplina. Diria, em realidade, que estariam para além. Para além da caixa de fósforos na qual foram transformadas as Relações Internacionais. Creio, contudo, na esperança. A mesma esperança que resta ao fundo da caixa de pandora. Aquela em que a aspereza do mundo não supera a delicadeza da vida. Verdade ou desafio? 

[1] Mais aqui e aqui.
[2] Entenda mais do contexto Russo por abordagens anteriores do Página Internacional aqui, aqui, aqui.
[3] Mais sobre o Anonymous aqui.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 9]

[Chegamos ao penúltimo texto da série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este nono post analisa a questão do tráfico de seres humanos e aborda como este tema pode ser vinculado à mídia televisiva. Aproveitem a leitura!]

Papo de novela 

Não é objetivo deste texto se aprofundar nas discussões sobre cultura e comunicação de massas e a trama de interesses que daí se origina, mas refletir sobre a importância da disseminação de temáticas relevantes pelo globo, atingindo um elevado número de indivíduos. Atentemo-nos, então, às telenovelas brasileiras, enquanto representações sociais, serem capazes de fazer circular informação não apenas no âmbito local, mas também em mais de cem países. 

Sabemos que os folhetins estão expostos ao que alguns chamam de “preconceito acadêmico” – tendo sido alvo de críticas das correntes teóricas dos anos 1970 e 1980, vistas meramente como produtos de entretenimento da indústria cultural. Honestamente, todos nós fazemos julgamentos diários a respeito – e desconfio que, em muitos casos, as pessoas o fazem mais por se tratar do popular, do mainstream, do que por outras razões. No entanto, quaisquer críticas não invalidariam sua habilidade (salvo engano, de meio século) na mediação entre o mundo vivido e o mundo representado. 

Mencionei na última postagem que as “cenas do próximo capítulo” envolveriam o tráfico internacional de seres humanos e que a motivação a dar vida à postagem seria justamente uma trama ficcional. Aos desavisados, é suficiente saber que a Rede Globo promete em Salve Jorge – sucessora de Avenida Brasil – o trato do tema.* Além de outros aspectos, a nova novela global trará depoimentos de vítimas, apresentados ao longo da produção. 

Longe de acreditar que pela menção ao assunto a complexa rede de crimes será dissolvida/atingida. Noto que talvez isso possa indicar, entretanto, que os estímulos presentes em novelas não estejam mais voltados apenas aos temas rotineiros, nos quais se acreditava serem os únicos passíveis de gerar identificação no público. Parece haver lugar, hoje, às representações de uma multiplicidade de universos, fazendo com que outros retratos e apelos sejam também levados a distintos territórios e audiências. 

É bacana refletir sobre os conteúdos e a sua disponibilização, afinal, apesar de estarem aquém do ideal em muitos sentidos, as narrativas agregam informação aos espectadores. Trata-se, enfim, de conhecimento sendo compartilhado. Mais bacana ainda é saber que mais pessoas entenderão, por exemplo, que o tráfico é uma das, senão a, atividades criminosas mais lucrativas do mundo e que, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a modalidade voltada especificamente aos seres humanos movimentaria bilhões de dólares a cada ano. Que, ao extrapolar fronteiras, envolveria um preocupante número de agentes e de países, tornando-se ainda mais complexo quando adicionais como a corrupção e o advento da Internet, como rede de aliciamento, entram em questão. Que os insanos objetivos deste, são fins de adoção, uso de mão de obra escrava, exploração sexual e comercialização de órgãos. Que crianças e mulheres são os principais alvos. E que, sei lá, um vizinho pode estar envolvido nisso – estamos todos vulneráveis a prática sendo, portanto, fundamental zelar pelo seu combate. 

Ademais, pode ser um trunfo favorável ao enfretamento. O receituário básico de medidas corresponderia à prevenção, proteção e criminalização – alicerçadas na cooperação internacional para o caso da transnacionalidade do crime. Da maneira como nos são apresentadas parecem um pouco distante, não? Outras fontes (que não a Organização das Nações Unidas) especificam estratégias mais simples e pontuais, dentre as quais destaco a necessidade em dar visibilidade ao tema. Uma vez abordado por um veículo de comunicação popular, pode vir a transformar sujeitos ativos da ficção em sujeitos ativos da realidade. 

De tamanha popularidade, também para além das fronteiras nacionais, devemos admitir que as propostas de ficção seriada são parte de uma experiência cultural contemporânea. Se pensarmos na necessidade de exposição do tráfico internacional de pessoas, tais propostas poderiam, então, ter um papel transformador. Se a linguagem e a mensagem (são) serão as mais adequadas? Difícil determinar, mas imagino que para questões como estas não haja muito tempo para firulas e preciosismos de academia. Bem ou mal, “o que se quer comunicar” chegaria a um mundaréu de gente. E, por fim, objetos e saberes (estão) estarão por aí, escancarados diariamente em lares de algum canto do mundo.

*: A história protagonizada por Carmem Lúcia (Adriana Esteves) e Nina (Débora Falabella) bem que tentou uma breve abordagem, mas teve que abortar a missão para não esgotar o assunto antes do tempo. 

PS: Mais informações podem ser acessadas diretamente nos sites do UNODC e do “Tráfico de Pessoas”.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 8]

[E continuamos com a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este oitavo post aborda a presença brasileira no Haiti para muito além de sua pacificação interna. Aproveitem a leitura!]

Tambores da Paz 


A poesia não se perde, ela apenas se converte pelas mãos no tambor que desabafam histórias ritmadas como único socorro promissor [1] 

Embora tenha me dedicado a investigar algo mais sobre tráfico de pessoas, em parte inspirada pelo caso do menino haitiano que há de receber cidadania brasileira e pela próxima novela global “Salve Jorge” (pois é!), deixarei o tema para as cenas do próximo capítulo. Sim, porque foi pesquisando sobre o Haiti que descobri uma participação brasileira nos bastidores de outra questão: as crianças soldado. 

Neste ano, o tema circulou com alguma intensidade. Quem não se lembra do polêmico viral “Kony 2012”? De Charles Taylor, o primeiro chefe de Estado (Libéria) a ser condenado por um tribunal internacional? E do senhor da guerra congolês Thomas Lubanga Dyilo, sentenciado a 14 anos de prisão pelo Tribunal Penal Internacional? [2] 

Apesar de Kony, Taylor e Dyilo (e outros mais) protagonizarem a barbárie pela África, e de a maioria dos infantes se encontrar nesse território, os demais continentes têm faceado algo semelhante (mais aqui). Estima-se, então, que um número relevante de crianças sejam vítimas, mas também rés das guerras e dos conflitos armados no mundo. O crime? Sonhos e infâncias roubados. A pena? Quando não a morte, os abusos que sofrem – os quais prefiro eufemizar como experiências assustadoras e repulsivas – e que resultam em danos emocionais e físicos gravíssimos. [3] 

Vale lembrar que o Haiti carrega consigo um histórico político, econômico e social instável. Desde a sua independência em 1804, os golpes, as revoltas, a sucessão de governos provisórios, a corrupção, a violência, o quadro de pobreza e uma trajetória grave de violação aos direitos humanos chamam a atenção da comunidade internacional. Aquele que já sucumbia a este cenário se viu devastado por uma tragédia natural em 2010: um terremoto. Ou seja, o país caribenho passou a trilhar caminhos ainda mais delicados.

Diante disso, para muito além da MINUSTAH [4], o Brasil estreitou laços com o país de outra maneira: o Viva Rio, famoso por seu protagonismo em favelas cariocas desde a década de 1990, transcendeu fronteiras e levou sua bem-sucedida tecnologia social ao país. Dada a experiência adquirida ao longo dos anos, a organização não demorou muito a reconhecer que as zonas de conflito do Haiti, somadas à dura realidade que se figurou, induziriam crianças e adolescentes às situações de vulnerabilidade. À bem da verdade, os caras parecem ter se sentido em casa: a atuação seria voltada àquelas comunidades em que os pequenos estariam a serviço do crime – o que vai da simples transmissão de informação (o equivalente aos nossos vapores do tráfico) até o manuseio de entorpecentes e armas, a prostituição, e outras coisas mais. Aquela velha história: contextos distintos, demandas semelhantes. Sendo a “paz” parte integrante de seu DNA, foram à ação. 

De 2004 aos dias atuais, a iniciativa mantém quatro unidades em território haitiano por meio das quais desenvolve projetos em áreas centrais, tais como saúde, educação, meio ambiente e segurança comunitária (mais aqui). Para esta última, considerada como um de seus projetos mais desafiadores, há ações específicas que compreendem a reintegração das crianças soldado. O programa inclui atendimento médico, oficinas profissionalizantes, atividades psicossociais, aulas extracurriculares, suporte financeiro, atividades geradoras de renda e, principalmente, um convite a fazer arte. É, arte! Mais uma vez, trata-se da cultura como meio para um fim maior: a promoção da paz. A violência da história se retira e cede lugar às práticas culturais.

Como? Descobriram, por exemplo, que os tambores que marcam o rará (som local típico) eram parte essencial dos grupos sociais. E também que, por meio deles, seria possível unir rivais – o que em princípio contava com o apoio de apenas 14 líderes locais, hoje integra mais de 100. Nasceram daí 5 acordos de paz, os Tanbou Lapè (Tambores da Paz). As vibrações e os ecos produzidos pelos conflitos são sufocados por formas de expressão e de resgate da identidade e da auto-estima dos pequenos. E espera-se que o único emprego da violência passe a ser para que os tambores rufem em nome da paz. 

[1] Brixton, Bronx ou Baixada. Disponível aqui.

[2] Abordado no Página Internacional aqui e aqui

[3] O artigo 38 da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, somado ao Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas, estabelece a proibição dos governos e dos grupos armados em recrutarem crianças e adolescentes menores de 18 anos em conflitos armados. Apesar de mais de 100 países ratificarem o acordo, as crianças soldado ainda existem. 

[4] Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti. Dos objetivos da missão, ressaltam-se a estabilização nacional, a pacificação e o desarmamento de grupos insurgentes, a promoção da democracia por meio de eleições livres e públicas e o desenvolvimento institucional e econômico do país. 

[5] Materiais Viva Rio Haiti aqui e aqui.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 7]

[Damos prosseguimento à série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este sétimo post relaciona a incipiente juventude global, as novas mídias sociais e a “economia criativa”. Aproveitem a leitura!] 

Sobre nós: economia criativa 


Foram criadas, há muito, categorias geracionais em que “estereótipos” nomeariam a essência de cada época. Em realidade, teriam sido desenvolvidas para mapear tendências de comportamento e consumo (mais aqui). Cá nos importa saber que precedida pela “juventude libertária” (1940-1950) e pela “juventude competitiva” (1960-1970), a “juventude global” é o rosto da nova economia

Talvez porque, hoje, 2.3 bilhões de jovens estejam no topo da pirâmide de consumidores e potenciais influenciadores de consumo, fazendo dessa a geração com maior poder de compra da história. Mais que números, são também considerados catalisadores de grandes mudanças e representantes de novas linguagens e comportamentos. Devoradores de outros tipos de capital (sobretudo o cognitivo), a maneira como se relacionam passa a testar os limites e a promover o alargamento da visão econômica tradicional. Estamos a falar dos porta-vozes de um movimento mais expressivo, colaborativo e consciente, dos insaciáveis e provocadores embaixadores da economia criativa

Diferente das demais gerações, estes jovens têm agora uma importante aliada em sua jornada: a Internet – que não significaria apenas a vida em rede, mas também a aquisição de um alto volume de conteúdo, bens, serviços e de pessoas em constante e pulsante circulação. É a partir dela que as perspectivas de tempo e espaço se alteram, fazendo com que local e global nunca estivessem tão próximos e que individual e coletivo caminhassem tão juntos. Tudo isso (e muito, muito mais!), requer habilidades distintas de gerenciamento, resultando em novos cenários para que possam performar de forma autônoma, livre, colaborativa. E, se possível, com doses diárias e cavalares de amor, prazer e diversão. Vale lembrar que “[…] estamos falando da geração de jovens mais plural da história”. [1] (mais aqui

Daí é que nascem as redes sociais (em amplo sentido), os empreendedorismos da vida, o open source, o crowdsourcing, o e-commerce, o creative commons… e a economia criativa. Direta e intimamente ligada aos “Y”, “We”, “Millenials”… sua força motriz vem dos cérebros (e dos corações) daqueles que põem ao chão o velho sistema de trabalho aos moldes fabris, e optam por se utilizar de matérias primas aparentemente corriqueiras, mas inesgotáveis, como as ideias, os sentimentos, a imaginação e o sonho o são. 

Segundo o inglês John Howkins, a economia criativa integraria às atividades e aos processos que envolvam criação, produção e distribuição de produtos e serviços, cujos recursos têm por base capital cognitivo. [2] Estaria, assim, despertando cada vez mais o interesse dos setores público e privado, uma vez que viabilizaria negócios e atividades menos predatórias que as vigentes, valorizaria questões sociais e culturais, além de sua alta capacidade em estimular crescimento econômico – mais equilibrado e, portanto, sustentável. 

Na época do “seguir”, do “compartilhar” e do “curtir” perspectivas hackeiam a “economia-arroz-com-feijão”. Uma vez que as dimensões materiais e simbólicas se integram, teríamos algo inédito no mundo. O consumo globalizado sob diretrizes mais criativas se transformaria num promotor de conexões sociais. Mais que isso, teríamos caminhos mais éticos e humanos. 

[1] We all Want to be Young. Disponível aqui

[2] Economia Criativa. Disponível aqui.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 6]

[Depois da semana em que a Página Internacional comemorou sua milésima postagem, voltamos com a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este sexto post traz uma visão diferente e poética a respeito do cotidiano de algumas “cidades-globais”. Aproveitem a leitura!]

Canção da liberdade na cidade 



Uma voz que atravessa a cidade […] 

Voz que vem do trapiche dos Capitães de Areia

[…] Voz poderosa como nenhuma outra. 

Porque é uma voz que chama para lutar por todos, 

pelo destino de todos, sem exceção. 

Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. 

Voz que traz com ela uma festa, 

que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera.

A primavera da luta. […] 

Voz que traz o bem maior do mundo, 

bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. [1] 

No ano em que se comemora o centenário de Jorge, o amado, debruço-me brevemente sobre o lugar dos Pirulitos, dos Sem Pernas, dos Gatos, dos Professores, das Doras, dos Balas. Ou, segundo o autor, daqueles que, em verdade, são os donos da cidade, os que a conhecem totalmente, os que a amam, os seus poetas. Salve Jorge! 

Uma vez que as desigualdades continuam tão pontiagudas quanto no passado, coexistimos, então, com uma “periferia global” que faz das cidades palco de abismos sociais. Já nos anos 30, ao escrever Capitães de Areia, Amado anunciou, com algum (des)encantamento, um futuro em que rua e vida se fazem confundir. Seja no trapiche baiano ou na “quebrada” dos grandes centros urbanos, o lugar dos “capitães” é também o mundo. 

Cidade do México, Cidade do Cabo, Karachi, Nairóbi, Dakar, Medelín, Rio de Janeiro e noutras tantas mais… A partir das últimas décadas, houve a proliferação de propostas autonominadas antídotos às mazelas sociais, das e nas cidades partidas. Afirmando-se também emancipadoras – e portadas, em alguns casos, de um invólucro discursivo mais importante que suas ações – acompanharam o movimento global pela justiça social. Brotaram, então, os projetos de inclusão. Inclusão dos “meninos”, cuja infância marginal foi dedicada a espalhar doçuras e travessuras pela urbe. 

Exauridos pela ciranda social que os impunha a margem da sociedade, os capitães se empoderaram e se empenharam na busca por alternativas de enfrentamento mais maduras, legitimas e, principalmente, criativas. É por isso e muito mais que vislumbramos, hoje, significados de cidade menos cinzentos. Mais que unidade geográfica elementar, se torna “as pessoas nos seus conflitos, medos, alegrias e paixões” [2], a “paisagem de nossas confusões” [3], um grande carrossel que, uma vez armado, mesmo que com cores desbotadas, iluminaria a todos os corações. 

Muito porque o canto e a voz da “periferia” ressoam, hoje, como os clarins de Amado, não para predizer a guerra, mas a liberdade. Que diria o camarada, o organizador de greves, o dirigente de partidos ilegais, o perigoso inimigo da ordem, Pedro Bala, nos dias atuais? Que os capitães estão em pé e que o destino do planeta mudou. 

[1] AMADO, Jorge. Capitães de Areia. Rio de Janeiro: Record. 72ª. ed., 1991. p.228. 

[2] BARBOSA, Jorge Luiz. Cidade e território: desafios da reinvenção política do espaço público. Disponível aqui.

[3] Thomas Flanagan cit. Lynch, K (1997, p. 134) apud VIANNA, Andréia de Resende Barreto. Cidade e arte: uma rua de mão dupla. 2002. 62f. Dissertação (Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2002. p. 37.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 5]

[E damos continuidade à série de postagens “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este quinto post analisa a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, ou seja, debate o que será colocado em questão na Rio+20 (que começa HOJE!) e vai mais além…!] 

Prato do dia: economia (verde) 



Estamos na Rio +20, a conferência internacional que, em grosso modo, buscará pela articulação entre crescimento econômico, inclusão social e meio ambiente – embora haja quem diga que “o buraco é mais embaixo”. Apesar de ser essencialmente voltada ao meio ambiente, terá a economia como um dos (senão o) pratos principais. Sim, por que para saborear a causa ambiental, deve-se por à prova o “indigesto” sistema econômico vigente. 

O “cardápio econômico” tem lá suas variedades: economia de escala, de guerra, de mercado, doméstica, popular, social, livre, política, rural, criativa…! Nos últimos anos, uma opção deste menu – talvez, hoje, a mais cara delas – passou a saltar aos olhos dos representantes políticos, dos organismos multilaterais e da sociedade civil: a economia verde* – da qual sabemos apenas que seu ingrediente basilar seria o entendimento da economia como um subsistema do ambiente natural. ** 

Para além de Rio +20, o peso do tema se dá pela compreensão comum das trocas financeiras não mais como condimento único à sobrevivência das economias do mundo. É, então, que se torna insustentável nos nortearmos somente pelo que é expresso por indicadores econômicos, uma vez que desconsideram elementos fundamentais às novas – já não tão novas assim – demandas. Interessa-nos saber que cada vez mais são adotadas vias alternativas para complementar e/ou superar aos existentes – é o caso do Better Life Index, do Gross National Happiness, do Happy Planet Index (mais exemplos aqui). Mais recentemente, do PIB verde e das contas econômico-ambientais. (entenda mais aqui e aqui

Os pioneiros a esse respeito são Costa Rica, Colômbia, Filipinas, Botsuana e Madagascar. Mas não é só coisa dos pequeninos. A Índia tem buscado estimar economicamente sua biodiversidade e, na China, a métrica sustentável possui cinco componentes – qualidade econômica, qualidade social, qualidade ambiental, qualidade de vida e qualidade de gestão – que estariam de acordo com as metas assumidas na COP15. É claro que isso não faz do gigante vermelho, verde. Os exemplos nos mostram, contudo, que quaisquer economias podem (e devem) buscar diálogo junto à sustentabilidade. ***

Que esperar da Rio +20, então? 

Quanto à economia verde, há ainda um descompasso conceitual entre as partes, assombrando ao evento, que nos torna vulneráveis a apropriação indevida das “expressões verdes” – o que seria nada mais que “o lado verde da força”, a encobrir a falência da economia e dando sobrevida a mesma –, comprometendo quaisquer ações a serem definidas desde a gênese. 

Vinte anos passados da Eco92, as expectativas seriam ainda por ponderações mais concretas, voltadas ao “como fazer”. Tendo-se em vista o Zero Draft, possivelmente isso não acontecerá. Nos próximos dias os nobres delegados estarão empenhados em pensar sobre o futuro que queremos – ironicamente, em apenas três dias de evento – e a questão ambiental lhes parece ser tão “enfadonha”, que talvez caiba a nós repensar os limites do atual sistema econômico mundial (o tão “perverso” capitalismo) em consonância aos limites do planeta. E então poderemos agir sobre o futuro que teremos

*: Nem mesmo a Organização das Nações Unidas apresenta considerações consistentes e aceitas consensualmente pela comunidade internacional. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), a economia verde é aquela voltada a melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e a escassez ecológica. 

**: HERRERO, Thaís. De que economia estamos falando?. Página 22: informação para o novo século. FGV. abr 2012. p. 28 

***: Inspirado no gigante, o Brasil caminha neste sentido através da lei 2900/11, ainda em trâmite.


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Ideias que transcendem fronteiras [Post 4]

[Continuamos com a série de postagens “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este quarto post aborda um pouco dos novos movimentos sociais. Estas reivindicações são possibilidades de se considerar os indivíduos como atores das Relações Internacionais. Boa leitura!]


Planeta Satyagraha*



Neste “ideias que transcendem fronteiras” decidi pautar brevemente algo que não estava nos planos – talvez, influenciada pela mobilização voltada ao Código Florestal e pela Marcha das Vadias, nos últimos dias. As tags #protestos e #manifestações inundam os blogs, as redes sociais, os noticiários, tornando-se impossível não lhes dedicar alguma atenção. Inúmeras cidades vêm sediando eventos cujas reivindicações vão da educação às crises financeiras, da corrupção às questões de gênero. Borbulham movimentações na Espanha, na Alemanha, na Rússia, no Canadá, na Grécia, no Tibet…! De estudantes indo às ruas em Quebec, aos palhaços (pois é!), em Lima. As questões levantadas acabam por ganhar notoriedade noutros lugarejos – e com isso força social – fazendo do planeta efervescente!


Em 2011, a Revista Times dedicou à categoria de “personalidade do ano” aos manifestantes, sob a justificativa de que cerca de 3 bilhões de pessoas evidenciaram que a ação coletiva pode nos conduzir a grandes mudanças. Seja nas urnas ou nas ruas, um grito coletivo ecoou pelo globo, fazendo tamanho barulho. Eram os ilustres protagonistas de capa de revista – ou, como prefiro chamar, cidadãos comuns – nos mostrando a que vieram. A bem da verdade, sempre o fizeram – cada qual a sua maneira –, mas agora parecem ter seu lugar reconhecido na história (e pela mídia). Aqui o que nos importa é que os gritos ainda podem ser ouvidos a cada esquina do mundo.



Salvo exceções, o que se tem visto é que tais movimentos contemporâneos tomam cada vez mais as nuances de tipos de resistência não violenta – pelo menos em intenção. Notem que, na maioria dos casos, se tratam de questões sociais onde protestos simbólicos – que incluem, também, de guerra de informações online às intervenções artísticas – são utilizados como meio para a promoção da mudança a qual se intenta. Ao contrário do que se imagina, parece ter havido, então, alguma redução no emprego da violência quando se quer reivindicar ou mudar algo. 


É semelhante ao que atesta Steven Pinker, professor de psicologia em Harvard, em sua obra The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined. Segundo o autor, vivemos o momento mais pacífico da história – ainda que coexistamos com realidades que contradigam a afirmação. Seu estudo trata do declínio estatístico da violência física, aponta a emergência de outros tipos de agressão, agora imateriais (psicológicas, morais, cibernéticas…). Dos argumentos que apresenta para sustentar sua tese, é bacana ressaltar dois deles: aquele em que eleva a tecnologia enquanto uma das responsáveis por tanto, uma vez que fomentaria jogos de soma positiva com os quais os indivíduos podem se envolver e optar por processos cooperativos e co-criados, resultando em soluções mais pacíficas; e aquele em que exalta a empatia, a qual está cada vez mais presente nos discursos e em áreas diversas, como sintoma da evolução humana – e, particularmente, tenho considerado que em breve a elegeremos como o zeitgeist deste século. 


Em adição, notamos ainda que estamos a viver num momento em que felizmente não temos mais o horror generalizado das grandes guerras, tão pouco das grandes depressões – fatores que um dia foram apropriados para justificar o uso da força em escala global**Isso não faz de nós rebeldes sem causa, mas revolucionários (e, ao mesmo tempo, sobreviventes) das guerras diárias as quais enfrentamos. Algumas delas mais simbólicas e menos rancorosas que no passado, mas pelas quais ainda emanamos gritos por liberdade, igualdade e dignidade. Sendo assim, neste século, afirma Pinker, o questionamento central não é somente “porque existe a guerra”, mas também “porque existe a paz”, pois, ao que nos parece, estamos a acertar em alguns pontos – ainda que haja muito a se fazer.


* Satyagraha: satya (verdade), agraha (firmeza, constância); filosofia desenvolvida Gandhi, remetendo aos movimentos de resistência não violenta, nos quais não há vitória ou derrota, mas o estabelecimento de harmonia e equilíbrio. 


** Longe de anular, por exemplo, o momento social vivenciado pela África, ou o econômico, pela Europa.


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 3]

[A Página Internacional dá continuidade à série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este terceiro post traz como tema central a educação, enfatizando-se novos projetos e iniciativas que procuram vinculá-la com a humanização dos aprendizes. Boa leitura!] 


Bê-á-bá com biscoitos: sinta, imagine e…



Como estabelecimento de fronteiras permeáveis, emergem desafios nas mais diversas áreas. Há ainda a perda de referencial em relação ao tradicional (e dogmático). Em grosso modo, a carcaça não se adapta mais ao conteúdo (e vice-versa). Não é diferente com a educação. Num contexto cuja formatação é tão densa, tem se pensado em como preparar indivíduos para conhecerem ao mundo, aos outros e, antes de tudo, a si mesmos. 

O sistema educacional adotado pelos Estados, hoje, parece seguir a linha de montagem proposta por Ford ao inicio do século XX. E em prol de um bê-á-bá esvaziado de sentido, admitiu poucas inovações ou sufocou aquelas iniciativas que teimosa e corajosamente o fizeram. 

Não há propriamente mocinhos e vilões, mas um descompasso entre modelos e contextos, isto é, a educação imposta sem que haja uma contrapartida de espaços e lugares compatíveis às necessidades e manifestações sociais contemporâneas. Em consequência, há o desgaste e, portanto, o vácuo na relação entre os envolvidos, os quais ora não se reconhecem, ora o fazem com demasiado estranhamento. Notou-se, então, a necessidade de revisão dos ambientes de aprendizagem bem como do papel daqueles que o integram. 

Voltadas a tal fim e com um jeitinho “diferentão”, nascem ações pedagógicas e metodologias pulverizadas pelo globo. Promovendo a junção entre cognitivo e afetivo são replicadas e multiplicadas em contextos extremamente plurais. 

Tomamos de empréstimo um movimento notável (e apaixonante): o Design For Change (DFC). Munida de uma metodologia peculiar, desde 2006 a idealizadora indiana Kiran Bir Sethi objetiva mudar os destinos de crianças e jovens em seu país e no mundo. [1] 

Em conversa, Anshul Aggarwal, articulador global do DFC, nos explicou por que, apesar de diferentes contextos, estão presentes em mais de 30 países (também no Brasil). Contou-nos que o design thinking [2], basicamente, põe o usuário no centro da experiência, já que são formuladas soluções voltadas às suas necessidades. Crianças e adolescentes são convidados a sentir, imaginar, agir e compartilhar ideias, tornando-se protagonistas de seus processos de aprendizagem. Uma vez aplicada ao ambiente educacional, tal metodologia contribuiria ao cultivo da empatia que seria o elemento chave para unir seres humanos, ensinando-nos a desenvolver novos olhares sobre o universo que nos rodeia. É assim que o DFC transcende fronteiras – quaisquer que sejam. 

No Brasil, por sua vez, há o exemplo emblemático do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), encabeçado pelo educador Tião Rocha. Desde 1984, roda, cafuné, abraço e sabão foram transformados em pedagogias e o pé de manga (isso mesmo!) em “sala de aula”. Além dos inúmeros projetos desenvolvidos em território nacional, países como Angola, Moçambique e Guiné Bissau também agregam experiências vindas lá das Minas Gerais. A essência do CPDC humaniza a educação e instiga ação e reflexão por meio de práticas de aprendizagem simples e construídas coletivamente – já pensaram em alfabetização com biscoitos? 

Em ambos, para lá do que já fora mencionado, saltam aos olhos outros predicados: customizam a relação “ensinar-aprender” e valorizam os múltiplos saberes dos agentes, o que enriqueceria ainda mais as vivências, tornando-as experiências completas de vida. E, ainda, ampliam as possibilidades de cada indivíduo em tomar para si o controle de seus próprios destinos. 

Ora, torna-se evidente que as possibilidades de transformação são infinitas e que há uma centelha de futuro bastante otimista. Mais que adaptáveis aos diferentes ambientes, são também (e principalmente) formas de compreensão da educação realmente voltadas e comprometidas com desenvolvimento humano.

[1] Kira dirige a River Side School, onde o DFC nasceu e é aplicado.
[2] Para conhecer mais sobre design thinking voltado à educação acesse Design Thinking For Educators e IDEO.
[3] Mais informações sobre as perspectivas da educação, segundo a UNESCO, disponíveis aqui.
[4] Infográfico sobre perspectivas da educação disponível aqui.


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 2]

[A Página Internacional dá continuidade à série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este segundo post traz como tema a emergência de novas organizações ditas “alternativas” e que impactam diretamente a realidade social. É o caso dos chamados “coletivos culturais”. Aproveitem a leitura!] 

Instinto Coletivo: “velhos sonhos, novos nomes”*. 


No Brasil, após o boom de iniciativas do terceiro setor e da sociedade civil na década de 1990, aspirando por demandas diversas, temos visto a emergência de outras formas de movimentação social, estabelecendo-se com solidez em território nacional. Nota-se, então, uma tendência à proliferação de manifestações e tipos de organização, cujas características tão peculiares se prestam a (re) colorir o imaginário e a realidade social brasileira. Estamos a falar de agrupamentos de pessoas voltadas aos mesmos fins, os chamados coletivos culturais. Em suma, representam as novas formas de produzir, organizar e valorizar o fazer cultural. Mais que isso, representam também a voz de uma geração que pensa, age e sente de forma articulada e colaborativa. 

É o caso do Circuito Fora do Eixo (FdE). Trata-se de uma rede de trabalho concebida por produtores culturais, ao final de 2005, cujo objetivo era estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia social e o escoamento de produtos para além do eixo dito “tradicional” – em muitos sentidos. E, também, superar os desafios e a invisibilidade, na qual as múltiplas manifestações artísticas e culturais (são) eram relegadas. Tal perspectiva se reforça quando Pablo Capilé, um dos fundadores e articuladores do FdE, afirma: “[…] Não tem grana da iniciativa privada, não tem um mercado e o poder público não nos visualiza. A gente tem que empreender.” Criou-se, assim, um universo cultural paralelo e independente, que conta com uma gama de elementos próprios, os quais chamam de simulacros FdE: universidade (UniFdE), agente econômico e financeiro (Banco FdE), ação política (PCult – Partido FdE) e a Mídia FdE (que conta com diversas ferramentas para compartilhamento – e a consequente democratização –, do conhecimento, cujo o conteúdo está disponível na rede). 

Reconhecendo o alto potencial latino americano para o desenvolvimento de circuitos culturais independentes, o FdE transcendeu as fronteiras brasileiras e se integrou aos “hermanos”. É aquela velha história: realidades distintas, demandas semelhantes. Propuseram, então, um “junto e misturado” que fomentou iniciativas solidárias, colaborativas e articuladas – seja por meio de vivências e imersões, compartilhamento de ideias e tecnologias, debates, promoção de festivais e eventos. Países como Argentina, Venezuela e Uruguai se tornaram grandes parceiros sociais do FdE. 

O Grito Rock, por exemplo, maior festival de artes integradas da America Latina, fechou em 2012 um ciclo de 200 cidades em 15 países. Foram 170 mil pessoas em mais de 180 edições. Parte do financiamento do evento se deu por meio da moeda complementar do FdE. 

Se se trata de um movimento continental que estimula (inter)conexões e (inter)ações sadias entre as diferentes nações, talvez estejamos a falar de uma espécie de “panamericanismo” sob novas nuances – não nos prendamos ao que o signo tem feito menção historicamente, mas a uma releitura simbólica deste. Isso porque o movimento cultural ao qual nos referimos se pautaria também em princípios diplomáticos e sociais, agora livres de interesses meramente econômicos e/ou políticos que, ainda que timidamente, estimulariam o empreendimento conjunto de um novo universo. Num século XXI permeado por significações e ressignificações, não se trata agora de um libertar colonial – ainda que por vezes nos deparemos com seus resquícios – mas de um libertar de instintos coletivos, antes velados e esmaecidos. Velhos sonhos ganham, portanto, novos nomes. 

* Em referência à música Instinto Coletivo de O Rappa.


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