Post do Leitor

Post do leitor – Andrew Zanelato

[Confiram abaixo mais um ótimo texto do leitor Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, em que ele analisa as eleições parlamentares em Israel e seu impacto nas relações do país com a Palestina, relações tão históricas quanto complexas. A Página Internacional é um espaço aberto a contribuições de seus leitores, não deixem de participar! Basta enviar um e-mail com seu texto para [email protected] que retornaremos o contato. Boa leitura!]

Por que o Hamas é o maior aliado de Netanyahu? (E vice-versa)

Israel

Na terça-feira, 17 de março, ocorreram as esperadas eleições parlamentares em Israel. O atual premiê, Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, se reelegeu e continuará no cargo que ocupa desde 2009. No entanto, foi surpreendente o resultado da União Sionista, grupo de centro-esquerda liderado pelo líder trabalhista Isaac Herzog, que chegou a liderar as pesquisas, mas terminou em segundo lugar.

Um dia antes da eleição, em uma última tentativa de ganhar mais apoio dos eleitores dos partidos de extrema-direita e religiosos (especialmente os ultra ortodoxos), Netanyahu declarou aquilo que já era evidente há anos (mesmo que depois tenha voltado atrás): que enquanto for Primeiro-Ministro não haverá Estado palestino. Para completar, ainda criticou os cidadãos árabes de Israel, que decidiram votar em massa em seus opositores, ofendendo assim 20% da população do país. Apesar de sua vitória e suas declarações terem sido lamentadas internacionalmente e internamente, inclusive de modo reservado pelo próprio governo americano, muitos judeus e apoiadores de Israel no mundo todo comemoraram, argumentando que Netanyahu é um líder forte e capaz de destruir os inimigos de Israel, como o Hamas. Na verdade, porém, não há nada melhor para o Hamas que o próprio Netanyahu.

Amos Oz, maior escritor de Israel e ativista pela paz, certa vez disse que o conflito na verdade não é entre israelenses e palestinos, mas entre radicais e moderados dos dois lados. Se analisarmos a fundo a questão, sem paixões, ideologias ou maniqueísmo, veremos que ele não poderia estar mais certo.

Primeiro, é necessário entender o que é o Hamas. Não se trata apenas de um grupo armado ou de terroristas, o Hamas é uma ideia, uma ideia de luta armada contra a ocupação israelense (ou mais que isso, pois sua carta de fundação defende a necessidade da destruição total de Israel de seu povo). A força do Hamas vem do apoio da população à sua ideia, pois ele se alimenta do ódio palestino contra Israel, e sem isso ele morre, como já quase aconteceu algumas vezes durante a década de 90. Não é possível destruir uma ideia usando força militar, pelo contrário, isso só a fortalece, especialmente neste caso, em que as ações militares contra Gaza e as mortes que causam só aumentam o ódio contra o Estado judeu e o apoio ao Hamas.

De fato, se observarmos os dados de pesquisas de opinião na Palestina, veremos que em abril de 2013, a maioria da população apoiava a resistência pacífica contra a ocupação, e o apoio ao Hamas estava bem baixo. Esse cenário ainda persistia um ano depois, em abril de 2014, pouco antes da Operação Borda Protetora, com a popularidade do Hamas muito baixa e o apoio às negociações pacíficas de Abbas com Israel muito alto. Entretanto, em agosto, um mês após a guerra e os 2.200 mortos em Gaza, o apoio ao Hamas e à luta armada estava nas alturas, mesmo que ele tenha caído um pouco em setembro, quando a poeira estava baixando. Ao mesmo tempo, enquanto Mahmoud Abbas, do Fatah, aparecia muito à frente de Ismail Haniyeh, do Hamas, nas pesquisas presidenciais anteriores à guerra, logo após Haniyeh surgiu ganhando disparado, e na última pesquisa, em janeiro desse ano, ainda aparece bem à frente de Abbas.

A outra ideia principal na Palestina é a defendida hoje pelo presidente da Autoridade Palestina, Abbas, e se trata de negociações e cooperação por um tratado de paz com Israel. As acusações feitas por Netanyahu, de não haver parceiros pela paz e de Abbas ter sabotado as negociações de Kerry são falsas (o próprio Netanyahu quem as sabotou), assim como as de que ele encoraje o terrorismo, já desmentidas inclusive pelo chefe do Shin Bet. Ações como a guerra de Gaza e as últimas declarações de Netanyahu só enfraquecem a ideia da possibilidade de negociação e de convivência pacífica, destruindo assim a popularidade de Abbas e ajudando o Hamas, que já declarou que espera que agora o Fatah desista de ideias pacifistas.

A única coisa que pode destruir uma ideia é outra ideia mais poderosa. Assim, o que poderia enfraquecer o Hamas seria um acordo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina, que melhorasse as condições de vida dos moradores da Cisjordânia e assim mostrasse de forma prática que a convivência é mais benéfica que a destruição. Isso não é algo difícil de perceber. Por que então Netanyahu faz justamente o contrário?

Porque o mesmo ocorre em Israel. As guerras, os ataques, a sensação de um inimigo sempre à espreita, a visão de que todos os palestinos são terroristas fortalecem um líder agressivo como Netanyahu, e fortalecem os radicais israelenses, nos quais ele tem se apoiado cada vez mais. O isolamento ainda maior de Israel na comunidade internacional decorrente de suas declarações é outra coisa que fortalecerá os radicais, especialmente os mais nacionalistas. Assim, os radicais israelenses e palestinos são na verdade aliados informais, fortalecendo-se mutuamente para destruir qualquer chance de convivência pacífica, e enfraquecendo mutuamente os moderados dos dois lados.

Os resultados da União Sionista são surpreendentes porque os trabalhistas, do mesmo modo que grupos pacifistas como o Shalom Aksheva, estavam praticamente mortos na política do país. Uma vitória de Herzog teria sido muito benéfica para o processo de paz, uma vez que ele foi eleito líder do Partido Trabalhista focando em esforços de paz com os palestinos (enquanto sua adversária Shelly Yachimovich se focou em assuntos econômicos), e após sua eleição, um dos primeiros atos foi um encontro com Abbas.

Não há solução para o conflito Israel x Palestina que não seja a cooperação voluntária. Ações militares e “líderes fortes e corajosos” só aprofundam o problema, pois a coragem de que se precisa agora é a de dialogar com o vizinho. Se seguir nesse caminho, Israel acabará sem nenhum aliado. Netanyahu e a extrema-direita são ainda mais prejudiciais aos israelenses que aos próprios palestinos, assim como o Hamas é mais prejudicial aos palestinos que os próprios israelenses, e no fundo, ambos são a mesma coisa…


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Post do leitor – Andrew Zanelato

[Com os recentes acontecimentos na Tunísia, que está inclusive sediando essa semana o Fórum Social Mundial, vale a pena conferir a análise abaixo de Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, sobre o país e seus desafios após a “Primavera Árabe”. Caso você também queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected], a Página Internacional é um espaço aberto ao debate e à reflexão sobre os temas de interesse de seus leitores. Boa leitura!]

tunisia

Era 18 de dezembro de 2010. Em Ben Arous, na Tunísia, um vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi, ateia fogo ao próprio corpo em desespero após a apreensão de suas mercadorias por funcionários do governo, que há anos o extorquiam alegando que ele não tinha uma licença para trabalhar. Foi o estopim de uma revolta nacional contra a corrupção, inflação, desemprego e falta de liberdades no país, que ganhou o nome de “Revolução de Jasmim”, e depois se espalhou para os outros países do norte da África e do Oriente Médio, dando origem à “Primavera Árabe”. Porém, ao contrário da maioria desses outros países – onde os protestos resultaram em guerra civil, anarquia ou volta de ditaduras – a Tunísia seguiu num caminho estável e democrático, e após as eleições de novembro de 2014, já pode ser considerada oficialmente a primeira democracia do mundo árabe, se tornando uma esperança para a região e uma resposta àqueles que não acreditam na compatibilidade entre muçulmanos e democracia. Mas por que as coisas estão dando certo na Tunísia e em seus vizinhos, como a Líbia e o Egito, não? Há muitos fatores envolvidos, porém cinco deles merecem atenção especial.

O primeiro tem a ver com a unidade nacional e a força das instituições. A maioria dos países árabes enfrenta problemas com conflitos entre religião e secularismo, tribalismo e instituições, sectarismo e identidade nacional, e o clássico embate entre ditadura e democracia. Na Tunísia, é visível que a opção democrática foi a escolhida, e escolhida pela própria população, não por uma imposição estrangeira como ocorre, por exemplo, nas intervenções americanas (como disse uma vez o professor de Relações Internacionais da Boston University Andrew Bacevich, “a democracia é uma porta que tem de ser aberta por dentro, não forçada”). Além disso, as instituições são fortes, e não há problemas sectários ou étnicos, diferente do Marrocos e da Argélia, onde há conflitos entre árabes e bérberes. A religião também ocupa um papel secundário na sociedade (por exemplo, o aborto é legal desde a década de 60), e o partido islamista vem mantendo um diálogo pacífico com os seculares.

O segundo fator é o papel histórico dos militares tunisianos, bem diferente daquele dos egípcios. Enquanto no país das pirâmides os militares continuaram atuando na política, para depois intervirem e restaurarem uma ditadura em que hoje governam com mão de ferro, os tunisianos entregaram o poder aos civis e discretamente voltaram aos seus quartéis. Isso se deve ao fato de que o fundador da Tunísia, Habib Bourguiba, nunca confiou no Exército e o restringiu ao papel de defender as fronteiras, sem participação na política. Apesar de ser um líder autoritário, Bourguiba baseava seu poder no carisma, no seu passado como líder do movimento de independência e na repressão policial, que continuoucomseu sucessor Ben Ali, que também manteve os militares restritos a assuntosmilitares. A situação é muito diferente do Egito, onde os mesmos militares têm se mantido no poder desde a queda da monarquia.

O terceiro fator é que o caminho escolhido para solucionar as divergências entre os diferentes grupos políticos (principalmente entre religiosos e seculares) foi o diálogo, outra diferença para o Egito, onde os partidos religiosos foram literalmente esmagados pelos militares. Logo após as primeiras eleições após a queda de Ben Ali em 2011, os religiosos moderados do Ennahda saíram vitoriosos das urnas, porém buscaram criar colisões com partidos laicos. Nos últimos anos, o Ennahda cometeu muitos erros que o fizeram perder apoio popular, e nessas eleições de outubro de 2014 o vitorioso foi o Nidaa Tounès, partido laico que reúne políticos de direita e esquerda, porém mais voltado ao liberalismo, com seu líder Beji Caid Essebsi, um liberal laico, sendo eleito presidente em dezembro. O Ennahda aceitou a derrota sem problemas e ainda felicitou os vencedores, que agora devem formar uma coalizão ou com outros partidos liberais, ou com a centro-esquerda ou até mesmo com o próprio Ennahda.

Já o quarto fator envolve a área econômica. A maioria dos analistas vê a liberalização econômica ocorrida na Tunísia durante o regime de Ben Ali de forma negativa, pois as empresas privatizadas acabaram nas mãos de aliados do regime, que também dominaram os ramos em que o Estado se retirou, como o turismo e o mercado imobiliário. Por isso, alegam que o liberalismo econômico, ou “neoliberalismo” como preferem usar, fortaleceu o regime e enfraqueceu a democracia. Porém, se olharmos mais amplamente, os efeitos dela não foram totalmente negativos. É verdade que os ativos ficaram nas mãos de apoiadores do regime, porém, se a economia ficou concentrada nas mãos deles, é porque não foi uma liberalização verdadeira, com direito à livre concorrência, mas de cartas marcadas, e por isso o ouro todo acabou nas mãos dos “amigos do rei”, ou melhor, “amigos do ditador” (como ocorreu também no Brasil). Apesar disso, não faltam exemplos históricos de nações ditatoriais em que uma liberalização econômica foi seguida de uma liberalização política algum tempo depois, como foi o caso de Chile, Coréia do Sul, Taiwan e Indonésia. Isso ocorre porque o aumento da liberdade econômica causa uma perda de controle político sobre os cidadãos (como vem ocorrendo na China), que passam a ter maior independência civil e, com isso, maior consciência política. Isso foi o que ocorreu na Tunísia. Outro fator importante é que em 2013 a economia tunisiana cresceu 2.3%, enquanto no mesmo período o Egito continuou em recessão, e esse crescimento ajudou na manutenção da estabilidade.

Finalmente, o quinto e último fator nesta análise foca no campo do Direito. A Tunísia aprovou em janeiro de 2013 uma constituição que talvez seja a mais avançada daquela região do mundo, garantindo direitos iguais para homens e mulheres, mecanismos contra a corrupção e a violência, liberdade religiosa (incluindo aos ateus) e até mesmo proteção ambiental. Na aprovação do texto, o então presidente, Morcef Marzouki, declarou que “com o nascimento desse texto, nós confirmamos nossa vitória sob a ditadura”. Além disso, também foi aprovada uma nova lei eleitoral, bastante livre e representativa, e que garante espaço as mulheres nos cargos políticos.

Hoje em dia é normal ver os termos “árabes” e “democracia” sendo apresentados como antônimos, porém os que têm essa visão se esquecem de que, muito antes de se espalharem pelo Ocidente, conceitos como individualismo, secularismo, ceticismo e liberalismo já estavam nas cabeças de pensadores árabes na época da Era de Ouro Islâmica. Talvez o que está acontecendo na Tunísia represente o início de uma nova era de ouro, apesar de ainda existirem muitos desafios pela frente. Os atentados terroristas dessa semana no Museu de Túnis abalarão a economia, já que o turismo é um de seus principais setores, além de reavivaremos fantasmas do terrorismo e do ISIS. Entretanto, o país deve se recuperar e, apesar de ainda não constituir uma democracia “perfeita”, certamente os tunisianos estão trilhando um caminho importante neste sentido. Não só os outros países árabes, mas também países do Ocidente, como o próprio Brasil, têm muito a aprender com esse pequeno país do norte da África.


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Post do leitor – Lívia Peres Milani

[Com as recentes notícias sobre o possível pagamento dos chamados “fundos abutres” por parte do governo argentino, a leitora Lívia Peres Milani, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Franca), mestranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP/ PUC-SP) e membro do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (GEDES/UNESP) analisa a importância das crises econômicas para o futuro do país, bem como para seus vizinhos, incluindo o Brasil, e postula que a América Latina deve adotar posturas coesas para combater prejuízos financeiros na região. Caso queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

A dívida externa Argentina e a América Latina

Fonte: Epoch Times

Fonte: Epoch Times

Recentemente, os problemas decorrentes da dívida externa atingem de forma impiedosa a Argentina, que vinha mantendo o compromisso de pagar a seus credores, mas foi surpreendida por uma decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos (EUA). A Justiça dos EUA determinou que o país pagasse integralmente os chamados “fundos abutres”, os quais compraram títulos da dívida argentina a preços irrisórios, provenientes daqueles credores que recusaram a proposta de renegociação. A dívida argentina fora reestruturada em 2005, quando se chegou a um acordo com 92,5 por cento dos credores.

A decisão da Justiça dos EUA torna-se ainda mais problemática porque significou que a Argentina tem que resolver essa situação para continuar pagando os credores da parte reestruturada da dívida. Apesar de ter depositado o dinheiro destinado ao pagamento de parcela do débito renegociado, a Justiça dos EUA considerou a transação ilegal e o país entrou em default técnico. No entanto, a Argentina resiste a pagar integralmente os “fundos abutres”, pois a existência de uma cláusula que determina o tratamento igualitário a todos os credores abriria a possibilidade de que toda a dívida fosse objeto de nova negociação e poderia significar que a mesma se tornasse muito mais alta.

Os acontecimentos atuais representam mais um episódio da dramática crise de 2001, que atingiu o país de forma generalizada, causando instabilidade política e econômica. Esse episódio foi um trauma para a Argentina e uma ocasião para que a América Latina repensasse sua postura e entendesse os problemas de aderir ao Consenso de Washington de maneira acrítica. Antes da crise, a Argentina era um dos países mais abertos da região e era considerada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como um modelo aos países em desenvolvimento. No entanto, com a explosão da moratória, o FMI negou responsabilidade e qualquer ajuda. Paralela e atualmente, apesar de entender as contradições da decisão judicial, o governo dos EUA não busca reverter o processo.

 Apesar de o problema atual ser referente à Argentina, a questão da dívida externa não é isolada a esse país. Ao contrário, esse é um problema estrutural da América Latina, que condiciona e limita as possibilidades de desenvolvimento. Essa situação fica clara ao se pensar nos anos de 1980, conhecidos como década perdida, quando se assistiu a situações de moratória no México e no Brasil, as quais causaram problemas econômicos graves a esses países.

Além disso, um default oficial na Argentina não seria problemático apenas para esse país, mas teria graves consequências ao Brasil. A partir do momento em que possa significar uma crise no vizinho, os efeitos serão sentidos aqui, pois a Argentina é um dos principais destinos dos produtos manufaturados brasileiros. Ademais, assim como argumentado pelo ministro das Relações Exteriores brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, o episódio é um sinal de alerta, porque possui impactos em outros processos de renegociação de dívida externa.

Assim, o contexto atual mostra a necessidade de que a América Latina, e o Brasil em particular, apoie a Argentina e pressione para que sejam garantidas condições justas de renegociação da dívida, sem prejuízos para a economia do vizinho brasileiro. As resoluções em apoio à posição argentina, aprovadas na Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual EUA e Canadá se abstiveram, e em outros órgãos, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), são importantes passos nesse sentido.


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Post do Leitor

Post do leitor – Wilson Pedro Té

[A importância dos estudos e textos sobre a África é incontestável. O terceiro continente mais extenso do planeta, e o segundo mais populoso, apresenta uma riqueza cultural ímpar, uma expansão econômica recente e uma complexidade social capazes de centralizá-la no debate internacional. Mesmo assim, a escassez de textos sobre o continente ainda é um problema grave, já debatido em algumas de nossas postagens. Por isso mesmo, é com enorme alegria que publicamos um texto sobre a África, e ainda melhor, escrito por um leitor africano. Wilson Pedro Té, natural de guiné-Bissau e mestrando do programa de pós graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), hoje nos premia com esse excelente e importante post sobre como a África Ocidental se transformou em uma importante região de trânsito para o tráfico de drogas internacional. Caso tenha um assunto preferido e a vontade de publicá-lo em nosso blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

África Ocidental, teatro de tráfico de drogas 

A África Ocidental é uma região do continente que inclui os seguintes países: Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Guiné Conacri, Libéria, Mali, Mauritânia, Niger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Esses países foram colonizados pelas potências europeias (França, Inglaterra e Portugal), sendo que o processo de descolonização iniciou-se em 1957, com a exceção da Libéria, e culminou em 1975. 

No que se refere ao tráfico de drogas, o cultivo é destacado principalmente em três países da América Latina (Bolívia, Colômbia, Peru), onde as folhas de coca são transformadas localmente em cocaína, depois exportados principalmente para América de Norte e Europa Ocidental, passando pela África Ocidental. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2012), embora em declínio, os mais importantes destinos destes mercados são os Estados Unidos da América, absorvendo cerca de 157 toneladas de cocaína por ano (36% do total mundial, em estimativas de 2009). 

A partir de 2004, África Ocidental se tornou uma importante área de trânsito para o tráfico de drogas destinado ao mercado europeu e americano. Entre 2005 e 2007, as apreensões têm aumentado na África Ocidental e nas redondezas. Chegando da América do Sul, principalmente através de via marítima, mas também aérea, as principais vias de entrada de drogas na África Ocidental são: primeiramente, as costas da Guiné-Conacry e da Guiné-Bissau, e ainda, o Golfo de Benin (Gana, Togo, Benin e Nigéria). 

Além disso, alguns fatores podem ser aventados para explicar este novo papel da África Ocidental no tráfico de drogas. Inicialmente, citamos o fortalecimento dos controles nos aeroportos e portos europeus dos aviões e navios vindos da América Latina, a situação geográfica da sub-região do oeste da África, muito próxima de América Latina, e menos de duas milhas de quilômetros distante do sul da Europa, onde a quantidade de cocaína importada está aumentando. 

Ainda, o contexto “Pós-conflito” de alguns países da África Ocidental, também conhecidos como países da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), a presença da corrupção nos vários níveis de forças de segurança, de justiça e política de vários países, a fraca rentabilidade das atividades econômicas legais, em um contexto de crise e de redução da demanda, diminuição da ajuda ao desenvolvimento, são, entre outros, fatores que favoreceram o surgimento e desenvolvimento de tráfico de drogas nesta região da África. 

O tráfico de drogas na África Ocidental tem consequências negativas, sendo uma delas é o grave problema da saúde pública. Tem‐se constatado que, em meio aos grupos vulneráveis, tais como os consumidores de drogas, as doenças infeciosas espalham‐se muito rapidamente. Em Cabo Verde, por exemplo, a prevalência geral do HIV/AIDS é de 0,8%, ao passo que atinge quase 14% entre consumidores de drogas. 

Em todos os países, os principais atores que intervêm na área de segurança e defesa são os militares e policias. Porém, na África Ocidental, os principais colaboradores dos traficantes de drogas são esses dois atores. Qual será, portanto, a solução para África Ocidental no combate ao narcotráfico? Será que a DNA pode combater o tráfico de drogas na região por conta própria, sem a colaboração das autoridades desses países?


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Post do leitor – Isabela Pinotti

[Com a recente onda de protestos aqui no Brasil e o anúncio da presidente Dilma Rousseff sobre uma futura reforma política, a leitora Isabela Pinotti, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Franca), nos traz uma interessante análise sobre o processo de participação popular através da internet para a construção de uma nova constituição na Islândia. Caso queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

A participação política nos tempos da era digital 


 

A edição de agosto da revista Superinteressante trouxe uma entrevista com o cientista político islandês Eiríkur Bergmann, um dos integrantes do conselho formado para elaborar uma nova Constituição na Islândia. Se você não sabe o que se passou no país nórdico nos últimos tempos, aqui vai um breve resumo: a Islândia era considerada um país com ótima economia e índices sociais invejáveis. Entretanto, o jogo virou após a crise financeira de 2008. A economia do país foi à bancarrota, o desemprego cresceu, assim como a dívida pública. A Islândia teve que pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas pedir ajuda a este organismo internacional significa aceitar seu pacote de medidas de austeridade. Os islandeses não quiseram beber deste remédio amargo e foram às ruas protestar. A renúncia do primeiro ministro e a convocação de novas eleições não foram suficientes para arrefecer os ânimos, a população já clamava por uma nova Constituição. É aí que entra Bergmann e os outros vinte e quatro integrantes da comissão responsável pela elaboração de uma proposta de nova Carta Magna. 

O interessante é que a comissão resolveu integrar toda a população no processo de elaboração da proposta através da internet, mais precisamente por meio do Facebook. Segundo Bergmann, foi criada uma página na rede social para que as pessoas pudessem expor suas opiniões e sugestões. Também era possível entrar em contato com os membros do conselho através de e-mail, Twitter e até mesmo por ligações telefônicas. Ou seja, muitos canais foram abertos para que as pessoas passassem de simples espectadoras para reais atores do cenário político nacional. Os islandeses não desapontaram e atenderam massivamente ao chamado da comissão. 

Observando a experiência da Islândia e os protestos ocorridos em junho no Brasil, organizados não por partidos políticos ou sindicatos, mas principalmente através das redes sociais e articulados entre a própria população, é possível pensarmos sobre o nascimento de um novo tipo de participação democrática: aquela intermediada pela internet. E, justamente por essa tecnologia estar se tornando cada vez mais acessível, possui o poder de englobar cada vez mais pessoas a um processo político que antes se restringia e interessava a poucos. 

O governo Dilma propôs uma reforma política após os protestos, e fiquei imaginando como seria interessante se essa reforma, em vez de ser submetida a um referendo depois de pronta, fosse construída com a participação da população brasileira, expondo, através de canais criados na internet e fora dela, suas reais necessidades e carências, que são diversas devido às enormes diferenças regionais.

No entanto, é preciso atentar-se aos números. A Islândia é um país de 320 mil habitantes, com uma população relativamente homogênea, que apresenta altas taxas de alfabetização (99%) e de acesso à internet (95%). Já o Brasil, composto por 200 milhões de pessoas com costumes e necessidades extremamente díspares, amarga uma taxa de 22% de analfabetismo (isso sem contar os analfabetos funcionais). Além disso, o acesso à internet, apesar de estar muito difundido nas regiões sul e sudeste, ainda não está ao alcance de todos nas demais regiões.

Em um cenário como este, é quase utópico pensar que toda a população brasileira (ou a maior parte dela) atenderia ao chamado para uma participação democrática como a elaboração de uma reforma política (e conhecendo os políticos brasileiros, não seria estranho se usassem este caminho para conseguir a inclusão de seus interesses pessoais e partidários). Mesmo assim, seria importante que canais fossem abertos para a participação do povo brasileiro, que já provou em junho estar insatisfeito com a configuração política atual e mostrou que tem força e poder para operar mudanças. 

Para maiores informações clique aqui e aqui.


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Post do leitor – Guilherme Backes

[Neste clima atual de mobilização e debate político em todo o território nacional, o leitor Guilherme Backes, acadêmico de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), nos brinda hoje com uma excelente reflexão para o blog. Confiram seu texto abaixo! Aproveitamos para agradecer as ótimas contribuições dos leitores e lembrar a todos os interessados que, para postar na Página Internacional, basta entrar em contato conosco pelo e-mail [email protected]. Boa leitura a todos!]

O Brasil em mobilização: desafios e oportunidades

As recentes manifestações que agitam as principais cidades brasileiras exigem uma profunda reflexão acerca do momento político pelo qual passa o Brasil. Após dias de estupor, uma série de contradições e de desconexões é arrolada pelos mais variados setores de nossa sociedade. Atores políticos dizem-se surpresos com a proporção dos acontecimentos; intelectuais dos mais variados matizes ideológicos titubeiam em oferecer respostas minimamente satisfatórias à luz das Ciências Sociais; uma miscelânea de demandas e de insatisfações compõe um processo equivocadamente interpretado.

Dentre tantas considerações, menciono, primeiramente, que nossos governantes bradavam em alto e bom som que o país se encontra em processo de desenvolvimento econômico sem precedentes. Baixo índice de desemprego, políticas de redistribuição de renda, maior acesso ao ensino superior, aumento do poder aquisitivo de milhões de famílias, diminuição das desigualdades sociais, ampliação de políticas sociais, inúmeras são as conquistas da sociedade brasileira que ocorreram nos últimos anos. No entanto, os protestos das últimas semanas demonstram que, muito longe do ambiente de estabilidade e de bonança erroneamente entendido por um segmento da classe política, o Brasil não constitui o mais recente paraíso das mil maravilhas.

Certo é que inegáveis são as mudanças sociais da última década, e negá-las consiste de desserviço para o aprofundamento do debate a respeito de nossa atual conjuntura. Por outro lado, a sociedade clama por mudanças significativas e urgentes. O distanciamento dos partidos políticos da realidade que circunda nossas demandas sociais, os subsequentes escândalos de corrupção, o incitamento à intolerância pregado em Comissões instituídas para a defesa dos direitos humanos, o desleixo com que bandeiras históricas da esquerda são tratadas por segmentos acomodados no establishment, o fim de uma pretensa pureza moral defendida pela esquerda tradicional, as flagrantes malversações de dinheiro público na execução de obras para a Copa de 2014 e o conluio com os setores mais arcaicos e reacionários da política nacional estimularam o surgimento de um denominador comum – a insatisfação generalizada. A partir desse sentimento compartilhado pelos mais distintos setores da sociedade brasileira, a impressão gerada é a de que as conquistas auferidas, ao longo dos últimos anos, não bastam. Nós, brasileiros, queremos mais! Queremos participar ativamente do processo político, conferindo-lhe um grau de legitimidade muito maior do que o existente até então.

Em segundo lugar, muito tem sido comentado e debatido sobre o perigo representado pela grande mídia e por segmentos à direita da política brasileira na condução do atual processo. Ora, todas as mobilizações das últimas duas semanas têm como origem a repressão policial a uma legítima manifestação da esquerda, a qual lutava pela redução da tarifa dos transportes coletivos da cidade de São Paulo. Admitamos, sim, que, com a retirada de cena do Movimento Passe Livre (MPL), a ausência de liderança tornou-se ainda mais premente. A consequência de tal lacuna incita a heterogeneidade do corpo que toma conta de nossas cidades, a demasiada amplitude de suas demandas, a abstração em torno de críticas vagas dirigidas a políticos corruptos e a aparente falta de direção de suas vozes. Todavia, enganam-se – voluntariamente ou não – aqueles que sucumbem ao desvario gerado pelo receio de um golpe da direita.

Evidentemente, a direita sempre esteve presente na seara política brasileira. Em diferentes momentos de nossa história política, abundantes são os exemplos da capacidade de influência de setores extremamente conservadores do empresariado e da política nacionais. A despeito de reconhecermos a presença, os interesses e as manobras desse grupo político, ledo engano seria superestimarmos seu respaldo na sociedade brasileira. Existem, sim, casos de flagrante atentado à democracia perpetrados por elementos infiltrados, de forma oportunista, no movimento de contestação ao descaso da classe política. Entretanto, pode-se asseverar, cabalmente, que a imensa maioria da população brasileira não defende a regressão à ditadura militar, tampouco outros fatores que compõem uma típica plataforma de direita. Se elementos de tal espectro ideológico – em suas facetas moderadas e extremadas – tentam moldar e canalizar o movimento em prol de suas causas políticas, é dever da esquerda continuar nas ruas e defender a originalidade e a legitimidade de suas demandas.

Finalmente, cabe mencionar a pretensa despolitização das atuais mobilizações. A rejeição à política como um todo demonstrada por uma grande parte dos manifestantes ressoa de maneira compreensível diante dos desmandos e das maracutaias identificados com inúmeros partidos políticos tradicionais. É natural, portanto, que símbolos partidários – tais como bandeiras, cartazes, camisetas, etc. – sejam, previamente, rechaçados por pessoas que expressam seu descontentamento com o sistema político vigente. Ainda assim, imperativo é preservar a liberdade de expressão em um movimento democrático e, originariamente, de esquerda. A não identificação do movimento com partidos em especial não pode significar, em hipótese alguma, a negação da própria política, haja vista ser ela a única esfera onde nossas demandas serão ouvidas, debatidas e conquistadas. É sabido que o desmantelamento de partidos políticos, bem como a subjugação da política a movimentos disformes encontram respaldo na irracionalidade de regimes ditatoriais e, até mesmo, totalitários – tanto de direita como de esquerda, conforme analisado por Hannah Arendt. Nesse sentido, o apartidarismo do movimento em questão deve ser pautado por fatores construtivos e positivos, de modo que o sistema político seja oxigenado e adaptado às novas demandas da sociedade.

A desconstrução desordenada e inconsequente de símbolos e de estruturas representativas de nossa sociedade configura terreno fértil para a atuação de setores retrógrados e nefastos da política nacional. Sendo assim, o discurso da imprensa conservadora visa ao afastamento e ao escorchamento de partidos de esquerda para que a grande massa dos manifestantes seja direcionada à defesa dos interesses da direita – atingindo, justamente, o oposto da origem das manifestações de São Paulo. Ademais, cabe a reflexão acerca da manutenção ou não de grupos ligados à esquerda nas ruas, nas discussões das redes sociais e no debate imediato com a sociedade. Haja vista a proporção das últimas manifestações, a melhor alternativa seria retirar-se do processo e abrir mão da presente mobilização em favor de restritos grupos reacionários? Certamente, não!

Não se alude, aqui, à possibilidade de modelos políticos baseados em teorias execradas pelo próprio desenvolvimento do processo histórico. O mais importante, na atual conjuntura de nosso país, diz respeito à oportunidade de que mudanças criativas, reais e substanciais sejam impetradas por segmentos progressistas e de esquerda com a efetiva participação da sociedade brasileira. Sendo assim, afastada da demasiada utopia balizada pelo romantismo da esquerda clássica e o excessivo pragmatismo dos partícipes do sistema, a sociedade pode, sim, incitar uma onda de mobilizações com reivindicações concretas e ordenadas. O momento exige cautela e atenção a diferentes fatores, mas a subsunção da racionalidade política ao mero comodismo poderá tolher a capacidade de entendimento e de ação dos movimentos progressistas. O engajamento da esquerda (movimentos sociais e partidos políticos) deve, por conseguinte, ser exigido e afirmado por todos aqueles que se preocupam com o surgimento de figuras bonapartistas e demagogas, buscando-se, assim, a consolidação de nossa democracia, concomitantemente à ampliação da participação da sociedade civil. 


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Post do Leitor

Post do Leitor – Maria Eduarda Ferreira Cabral

[A leitora Maria Eduarda Ferreira Cabral nos brindou com uma interessante reflexão sobre as eleições venezuelanas. Confiram a seguir! Lembrando a todos que quiserem postar na Página Internacional, que basta enviar um texto para [email protected]! Boa leitura]

A luta continua!


Finalmente, saiu o resultado das eleições venezuelanas! E a novidade que todos já sabiam, mesmo com a queda que vinha sofrendo na última semana, Maduro venceu. Em seu discurso de vitória a promessa de continuar com as políticas do antecessor. Mas quanto tempo será que o chavismo aguenta sem Chávez? 

Com uma vitória apertada, de 1,6 pontos percentuais de diferença, ficou claro que a população sabe que, apesar da indicação de Chávez, o ex-motorista não é Chávez. Com essa pequena vantagem, de pouco mais de 200.000 votos, a pressão sob Nicolas Maduro será grande. A oposição não irá aceitar o resultado facilmente, Capriles já começou a se manifestar e a Espanha, aparentemente, também irá entrar na briga. Apesar de ter se apoiado no seu antecessor, ficou claro, no decorrer das campanhas eleitorais, que Maduro não tem o mesmo carisma, e não irá conseguir unir, sem maiores problemas, os grupos discrepantes que fazem parte do chavismo. 


Obviamente é esperado que o novo presidente continue com políticas públicas de assistencialismo para manter cativo a si a parte da população miserável que necessita do dinheiro vindo do petróleo para ter saúde, moradia e alimentação. Todavia, nessa eleição a população aparentou estar mais preocupada com a corrupção – já impregnada no país desde antes de Chávez entrar no poder -, a alta criminalidade, lacunas nos serviços, a ineficiência do governo estatal de controlar o câmbio, de manter a inflação controlada, de conseguir atrair investimentos para o país… A lista de insatisfações é longa. 


Os tempos mudaram. A Venezuela de 1998, com uma situação política que favorecia a valorização do Estado, inexiste atualmente. É inegável que Chávez trouxe diversos benefícios para o país, mas as políticas socialistas, de nivelar por baixo, não estão mais servindo. A luta do chavismo para se manter continua… Por quanto tempo?


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Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[Hoje a reflexão fica por conta do nosso leitor William Soares Gonçalves, aluno do1º ano do Ensino Médio na Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP. Neste texto, ele discute um tema da área de saúde que chama atenção no debate internacional: a AIDS e suas perspectivas de cura. Confiram o post! Lembrando a todos que, se quiserem escrever para a Página Internacional, basta enviar um texto para [email protected]

O fim está próximo?


O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), como todos sabem, é o vírus transmissor da AIDS (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida), uma das mais graves doenças sexualmente transmissíveis e tida como incurável, pelo menos até os avanços científicos dos dias de hoje. Com sua descoberta há cerca de 30 anos, o HIV já contaminou mais 60 milhões de pessoas no mundo, vitimando aproximadamente 25 milhões ao longo destes anos, principalmente na África (no Brasil, o Ministério de Saúde estima que entre 490 mil e 530 mil pessoas vivem com HIV). Mas será que estes dados podem parar por aí?

Antes, quando uma pessoa recebia o diagnóstico de AIDS, era como soubesse que morreria em questão de pouco tempo. Porém, com o passar dos anos houve também avanços na medicina e, a partir dos anos 1990, a doença se tornou tratável, apesar de, pelo menos por enquanto, ainda não poder ser não curada.

Contudo, existe uma perspectiva de otimismo com os avanços na medicina e um caso recente, ainda a ser confirmado, de cura “funcional” da doença. Trata-se de uma criança norte-americana recém-nascida. A menina teria tido o tratamento durante 18 meses, até os médicos constatarem que a menina estava curada. Antes desse caso, o único caso raro de cura reconhecido no mundo era o do também norte-americano Timothy Ray Brown após receber transplante de medula óssea de um doador com características genéticas particulares e raras que impediam o vírus HIV de penetrar nas células do corpo.

A ONU tem uma meta de, até 2015, reduzir pela metade o número de contágios da doença, mas a falta de recursos internacionais e as dificuldades regionais representam ainda grandes dificuldades. Na África, a AIDS já representou em determinados períodos a causa de mais mortes do que conflitos (leia mais aqui). Os números estão mudando, mas o problema ainda é grande.

Se os estudos continuarem, a cura da AIDS pode se tornar uma realidade (apesar de uma cura definitiva ainda ser um objetivo distante), mas devemos pensar que, antes de pensar em tratamento ou cura, o foco em nossa sociedade deve ser a prevenção, fazendo com que, por meio da conscientização geral sobre como evitar o contágio, a ameaça do vírus se torne cada vez menor em meio à população. 


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Post do Leitor

Post especial: O Decênio Iraquiano e Suas Consequências para os Estados Unidos e o Mundo

[Hoje é dia de post especial! Colaboração de nosso colega, prof. Ms. Danillo Alarcon, mestre em Relações Internacionais pela UnB e professor da Faculdade Anglo-Americano, de Foz do Iguaçu-PR, que traz uma análise importante sobre a guerra ao terror dos EUA e suas consequências, no dia em que se completam exatamente 10 anos da invasão ao Iraque. Lembramos que caso se interesse em ter um texto publicado pelo blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]. Aproveitem!]

No dia vinte de março de 2003, há exatos dez anos, se iniciava uma das guerras mais infames na qual os Estados Unidos da América já participaram. Embasados em diversas contradições e manipulação de informações e discursos (inclusive desveladas depois por um ex-funcionário do governo), a Guerra contra o Iraque suscitou um amplo debate na comunidade internacional acerca das instituições básicas que a sustentam e do papel das organizações internacionais na promoção de seus objetivos de segurança coletiva, além de, obviamente, ter questionado o papel dos Estados Unidos na ordem global do século XXI. Por estas e outras razões, é prudente, então que façamos um momento de reflexão sobre tal conflito. 

Engana-se quem tira rápidas conclusões dessa guerra, quer pró quer contra a posição norte-americana no conflito ou em relação ao Iraque. Mas na exiguidade de linhas, tendências amplas podem ser apontadas. Antes, vale relembrar que após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos contavam com considerável apoio internacional. A comoção com tamanhos atos de barbaridade fez Washington conseguir apoio de Moscou, a aquiescência global para atuar no Afeganistão e não ter problemas patentes em levar a OTAN ao distante país asiático. Além do mais, internamente, a histeria criada pelo medo de novos atentados terroristas deu base para medidas antes não aceitas, como um rigoroso controle imposto pelo criado Departamento de Segurança Nacional. 

Independentemente dos debates levados a cabo por muitos pesquisadores sobre a responsabilidade americana de ter nutrido seus futuros algozes,* é importante agora refletir sobre as possibilidades que o 11 de setembro trouxe para os Estados Unidos. Primeiro, uma considerável dose de apoio internacional – depois de nove meses de um governo que se fechava cada vez mais, era a possibilidade de levar adiante agendas que Washington considerava importante. Segundo, o revelar de um novo momento para a política externa do país, em que o apoio à democracia e aos valores que lhe são caros poderiam ser promovidos por meios softs. Por fim, a oportunidade de concretizar sua hegemonia, no que tange a assuntos sensíveis como, por exemplo, terrorismo. 

Todavia, nada disso fora aproveitado. A imprudência com que a administração Bush se lançou na caçada à cabeça do presidente iraquiano (conseguida em 2006), em especial com a junção de três senior players – Dick Cheney, vice-presidente, Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa, e Paul Wolfowitz, Subsecretário de Defesa – não era justificável por medidas racionais. Na verdade, os três já buscavam o desmantelamento do regime iraquiano desde finda a primeira guerra do Golfo, e criticaram veemente a postura de fraqueza do governo Clinton por não agir decisivamente para acabar com os excessos que encontravam na postura de Bagdá. Oras, quer seja pelas pretensas armas nucleares, ou pela necessidade de mudança de regime, a comunidade internacional não aceitou a nova guerra, e eis que aí, houve o ocaso do breve momento unipolar da América. 

As fissuras mais evidentes se deram em relação aos outros grandes global players. A França, aliada na OTAN, se opôs veementemente à guerra. A Rússia e a China exerceram pressão para que os “planos quixotescos” – a exportação da democracia, como acabou sendo – não fossem levados a cabo. Mesmo países com importância menor no Conselho de Segurança, como o México, se opuseram ao movimento das forças armadas vizinhas rumo ao golfo pérsico. 

Para além disso, o tiro no Iraque saiu pela culatra. O país hoje é governado pela maioria xiita, liderado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki, o que o aproxima do vizinho Irã, grande inimigo dos Estados Unidos. Os níveis de violência continuam alarmantes, sendo frequentes os relatos de atentados terroristas no país, chegando a uma média de 300 pessoas mortas por mês, fomentados justamente pelas divisões de cunho religioso. 

A credibilidade norte-americana, já abalada por seu jogo de superpotência e excessos cometidos há muitas décadas, sofreu duro golpe com a guerra contra o regime de Saddam Hussein. O número de mortos no conflito ajudou a cristalizar uma visão negativa da atuação internacional dos Estados Unidos na região. Em casa, os soldados, sem apoio perpetraram crimes contra seus próprios conterrâneos, e bem, nem os Estados Unidos, nem Israel, (o grande aliado norte-americano na região, impossibilitado ou indiferente a auxiliar o governo americano em diversas operações), estão mais seguros em um mundo cada vez mais efervescente, em que o uso da força é visto com cada vez mais suspeita. 

Por outro lado, o sistema onusiano, impossibilitado, pelos próprios mecanismos que lhe dão forma, de agir diante da ação unilateral norte-americana, vem tentando se reformular, para fazer frente aos desafios do século XXI e dos excessos de uma potência. Além do mais, outras instâncias internacionais foram criadas para abarcar países que discordaram das posições unilaterais de Washington. A América do Sul criou o Conselho de Defesa Sul-Americano no âmbito da Unasul; a União Europeia reforçou a partir de Lisboa (2007), a Política de Defesa e Segurança Comum, a União Africana está cada vez mais ciente de suas possibilidades de atuação nos territórios de Estados-membros; e no Golfo, o Conselho de Cooperação do Golfo se mantém firme em relação às ameaças que porventura surjam às monarquias do golfo (tal como as revoltas e levantes no Estado-membro Bahrein, desde 2011). Nenhum desses grupos ignora a importância norte-americana, mas hoje reconhecem que há agendas de segurança que devem ser debatidas localmente. 

Desta feita, não defendemos aqui que a Guerra do Iraque foi a causa nem o estopim para tamanhas mudanças. Todas elas, de alguma maneira, já haviam sendo gestadas desde o 11 de setembro. O que apontamos é como os Estados Unidos remaram na maré contrária ao dar continuidade ao plano de guerra, ao atacar o Iraque e ao tentar impor a visão maniqueísta de mundo sustentado por homens como Cheney, Rumslfed e Wolfowitz. É compreensível que a política externa norte-americana tenha ecos da política interna, dos lobbies e dos mais diversos grupos de interesse, mas dessa vez, a desconsideração para com o interesse nacional, ou sequer com valores internacionalmente aceitos, formulados a partir de uma hegemonia norte-americana, foram longe demais. Arriscaram a hegemonia, conquistada após a Guerra Fria, e por imprudentes que foram, se veem hoje diante de um mundo que não esqueceu a invasão iraquiana e todas suas consequências. 

*Para mais informações sobre o tema, consultar a dissertação do autor aqui.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais, Victor Uchôa, nos enviou mais um texto muito interessante. Desta vez, o tema é nossa rejeição em comer carne de cavalo. Vale a pena conferir! Lembrando a todos que quiserem postar na Página Internacional, que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

Por que ainda não inventaram o Mc Horse?

O escândalo da venda de carne bovina com traços de carne de cavalo esteve nos noticiários nas últimas semanas. Sabemos que se trata de um problema econômico e politico. No entanto, pretendo usar esse acontecimento para traçar um paralelo entre a alimentação e a cultura ocidental. Vamos a ele. 

Em fevereiro de 1930, milhares de pessoas marcharam pelas ruas do centro da cidade de Chicago. A crise econômica iniciada pela quebra da bolsa jogou milhões de americanos na situação de não conseguirem prover ao menos a própria alimentação. Nessa época surgiriam como solução os famosos hambúrgueres, inicialmente lanches de rua muito baratos. A outra ideia para o fim do problema, a mesma que levara milhares de pessoas indignadas ás ruas, foi o inicio da comercialização de carne de cavalo, ao custo de um terço do valor da carne bovina, nos mercados do país. 

A venda da carne de cavalo foi um dos maiores fiascos da indústria alimentícia do começo do século XX. Pensando que o consumidor americano compraria baseado apenas no preço, os produtores de carne esqueceram-se das implicações culturais que permeiam os hábitos alimentares. A exposição de carne de cavalo para consumo humano na época foi recebida com asco e revolta. 

Uma das teorias que explicaram esse fato histórico americano trata de como há influência nos hábitos e valores dos alimentos de acordo com a analogia que fazemos em relação aos animais e seres humanos. Os seus idealizadores defendem que quanto menor a proximidade entre os animais e suas partes do corpo, maior o valor econômico da carne. Explicando em poucas palavras, há preferência pelas partes do boi sem similaridade com órgãos humanos, como a picanha ou a alcatra, que teriam maior valor monetário e cultural em relação a partes como a língua, o fígado e o pescoço, por manterem menor aproximação com a anatomia humana. 

Em outro momento, chegamos ao ponto central dos fatores sociais que levaram ao protesto em 1930. Comemos carne de vaca e de porco com facilidade, animais que já nasceram em nosso processo industrial para serem abatidos em massa. Entretanto, temos mais dificuldade em comer a carne de cavalo, um animal que por vezes é de estimação ou utilizado em trabalhos humanos como o transporte de cargas. Finalmente, há um tabu em relação à carne de cachorro, certamente os animais com quem mantemos as mais fortes relações afetivas. Observando outras culturas, notamos como essa hierarquia de valores e aceitação por tipos de carne é modificada, dependendo do papel que os animais ocupam enquanto interagem com seres humanos. 

O problema da mistura da carne equina é motivado pelo não cumprimento do tipo de mercadoria estipulada nos contratos. Mas a indignação com o caso pode ter outros fatores. Os órgãos responsáveis pela inspeção da carne afirmaram que o seu consumo não traria riscos à saúde. Então, por que proibiram a sua venda? Parece certo que ninguém compraria um produto que promete algo sendo outro. A sua comercialização seria até mesmo antiética. Mas para a população, umas das motivações para a recusa não estaria no fato de ter nojo de se alimentar de carne de cavalo? Talvez até mesmo dó de consumir um animal que por vezes é de estimação, ou que minimamente está em contato com o ser humano enquanto cumpre trabalhos. Certamente, assim como muitos outros, eu pensaria bastante antes de ingerir carne equina. Na opção de outro animal, a rejeitaria sem pensar. 

Agora, façamos uma abstração. Imaginem se ao invés de traços de cavalo, achassem traços de carne de cachorro! Os cães são o limite de animais próximos de serem sagrados que é permitido pelos costumes e a religiosidade ocidental. Certamente, o produtor flagrado nessa fraude jamais venderia novamente, o chamariam de genocida, milhares sairiam às ruas defendendo a sua condenação a cadeira elétrica. Claro, o exemplo de carne de cachorro é um exagero para produzir uma reflexão final: 

Nós não comemos quem ou o que premiamos com traços humanos. Em partes, a indignação com a carne de cavalo reflete uma preocupação e uma oposição também culturais.


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