Quem vai ficar com Snowden?

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Já comentamos anteriormente que Edward Snowden é como aquele presente que ninguém quer ganhar – ele fez revelações bombásticas que tiveram muito impacto na política internacional, mas quando ele precisar de ajuda, não haverá muitas mãos amigas dispostas a tirá-lo do sufoco. Em junho, ele conseguiu se refugiar na Rússia, e ganhou um ano para ficar por lá. Toda aquela discussão sobre possibilidades de asilo ficou para um segundo momento – por enquanto. Pois tão logo termine o prazo, Moscou não parece tão inclinada a se indispor com Washington novamente e Snowden vai precisar se virar. 

É nesse contexto que surgiu a tal carta aberta aos brasileiros, de sua autoria, revelada ontem. Pra quem não viu, Snowden fala aos brasileiros que poderia ajudar nas investigações sobre as violações de privacidade da NSA, impedido apenas por que enquanto não estiver em um asilo definitivo sempre estará cercado. Para bom entendedor, meia palavra basta, e apesar de não expressar o desejo de asilo no Brasil em momento algum (e dessa intenção ser negada pelos seus interlocutores), a intenção é bem clara. 

Buscar refúgio no Brasil não seria má ideia, se até carrascos nazistas conseguiram se esconder por aqui, quanto mais uma pessoa bem-intencionada (até onde se sabe) como Snowden. A chave disso tudo é que Snowden está enrascado – os países ocidentais, mesmo que ultrajados com a espionagem norte-americana, jamais vão conceder asilo pelo risco que correm de sofrer retaliação dura do Tio Sam. Mesmo a Venezuela, que em outros tempos aventava essa possibilidade, não tem mais a figura de Chavez (pelo menos, pessoalmente) para espezinhar os EUA e certamente não iria querer enfurecer seu maior comprador de petróleo em tempos de crise econômica. Restariam os países que são declaradamente “contra” os EUA, como um Irã ou Coreia do Norte, mas pelo fato de Snowden ter feito o que fez pelo bem da liberdade de informação e proteção de direitos individuais, essa possibilidade parece bastante improvável, pra não dizer ridícula. 

Uma boa aposta seria justamente o Brasil. Foi o país que mais mostrou indignação com a espionagem (a ponto de gerar um mal-estar na Assembleia Geral da ONU), está junto da Alemanha em uma possível revisão da governança da internet, e tem todo um histórico de proteção a refugiados. Já existem movimentações para aceitar essa “proposta”. A grande dúvida é se o Brasil poderia realmente aceitar a vinda de um procurado com embasamento relativamente sólido em sua acusação, e arrumar mais uma briga com Washington de lambuja. Planejar sua política externa com a previsão de decadência da potência americana (como o Brasil andou fazendo, e equivocadamente) é uma coisa, dar abrigo a um dos homens mais procurados dos EUA e ensejar uma crise diplomática e política severa, outra bem diferente. A única certeza disso tudo, apesar de ter feito um grande serviço ao mundo (dependendo do ponto de vista), Snowden está frito. E pode levar um país junto dele.


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Estratégia franco-brasileira

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Em clima amistoso, vimos um cordial François Hollande visitar o Brasil essa semana, retribuindo visita de Dilma a Paris no final do ano passado e buscando estreitar as relações franco-brasileiras em diversos domínios estratégicos.

Aspectos diplomáticos da visita à parte, economicamente a França é o quarto país que mais investe no Brasil, apresentando ainda o sexto maior Produto Interno Bruto do mundo. E Hollande reiterou, presencialmente, o interesse francês em ampliar seus negócios com o Brasil. Notadamente, vimos o destaque da mídia em relação ao lobby para a bilionária negociação dos jatos militares que se arrasta há meses – e deve continuar incerta até 2015, dadas as diferentes prioridades assumidas em ano eleitoral.

Os jatos “Rafale” fabricados por empresa francesa competem com outros modelos fabricados pela Suécia (!) e pelos Estados Unidos pela preferência brasileira. Antes favoritos, os jatos yankees ficaram à mercê do debate sobre espionagem, já que nossas relações com os ‘amigos do Norte’ esfriaram depois das recentes denúncias na mídia.

Aliás, Hollande também vem em momento propício para juntar-se ao coro anti-espionagem-estadunidense, procurando aproveitar-se disso também para reerguer sua popularidade decadente na França, já que ser considerado o presidente mais impopular do país desde 1958 não é um título desejado por nenhum líder mundial…

Com a visita, foi ainda assinado um interessante acordo de “visto mochileiro”, possibilitando a estadia de jovens brasileiros na França (e vice-versa) por um período de um ano com a possibilidade de trabalhar. Iniciativa interessante que amplia o intercâmbio, promove oportunidades aos jovens e, consequentemente, aproxima ainda mais os países.

Para Dilma, a visita de Hollande vem ainda revestida de um forte caráter político, evidenciando o interesse brasileiro em manter/ampliar suas relações com os países desenvolvidos enquanto assume seu papel de líder dos emergentes. Trata-se de parceria visualizada como estratégica para ambos os lados, cada qual em busca do reforço de suas prioridades por meio de laços que, ano a ano, vem vislumbrando novos horizontes. 


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Na contramão?

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Nos últimos anos, desde a crise de 2008 (que parece ter sido há uma eternidade mas ainda está repercutindo), quando se fala do noticiário europeu as notícias são quase sempre negativas, com as reclamações dos países que estão pagando pela incompetência dos devedores (leia-se, Alemanha) e lamúrias dos que precisam cumprir as regras do jogo, estão devendo até as calças e precisam praticar a austeridade. Nisso tudo, a União Europeia acaba vilanizada, seja por proporcionar a necessidade desse arrocho fiscal, seja por causar gastos aos bons pagadores para salvar outros países. A Inglaterra sorri de orelha a orelha por não ter caído nessa “armadilha” monetária. E na maioria das vezes vemos o risco é de países saírem da zona do Euro… mas eis que um país em crise está fazendo exatamente o oposto, e aqui entra a discussão sobre a Ucrânia.

Já falamos algumas vezes do país eslavo por aqui. A ex-presidente Yulia Timoschenko foi a última grande manchete, quando acusada de corrupção foi presa e, suspeita-se, vítima de tortura. A prisão, considerada arbitrária por muitos observadores internacionais, mostra o grau de turbulência por que passa o celeiro da Europa, com a oposição e o presidente Viktor Ianukovich trocando farpas das mais afiadas. Ianukovich (outrora aliado de Timoschenko) é pró-Rússia, e em tempos de crise (e a condição que a ex-presidente fosse libertada), mandou a UE catar coquinho e optou por buscar arrego com Moscou, anulando um acordo de adesão que gerou protestos e revolta no país, resultando em violenta repressão policial e ainda mais protestos em consequência (conhecemos bem essa equação aqui no Brasil lá pelos idos de junho). 

A relação da Ucrânia com a Rússia é visceral. Os países mantêm laços econômicos estreitos, na verdade, a própria origem do Império Russo (séculos atrás) se deu em território ucraniano, para depois começar a se expandir setentrionalmente. Foi apenas com a desintegração da URSS que o país se “desligou” formalmente do gigante euroasiático, e isso foi uma das maiores perdas russas com o fim de seu império socialista (indo de aspectos econômicos, como os recursos agropecuários e minerais, até mesmo ao futebol, já que a Ucrânia era a fonte de uma estirpe de jogadores de alto nível). A relação é, obviamente, controversa – por exemplo, existe uma lei de 2012 sobre o ensino da língua russa que causa discussões exaltadas (e pancadaria) até hoje no país. 

Essa sombra da “dominação” russa é o que faz a população ucraniana se revoltar. Não bastasse a dependência econômica, agora estaria voltando a acontecer ingerência política. Como vemos diariamente nos jornais, a entrada na UE certamente não seria pela estabilidade do bloco (apesar de possivelmente trazer grandes benefícios ao país). A revolta com o cancelamento é muito mais uma mensagem de reprovação ao alinhamento com Moscou, que parece interessar apenas a membros do governo de Ianukovich e à própria Rússia, enquanto a população fica à mercê dessa crise econômica e política. A prisão de Timoschenko já era um sinal de que as coisas já não iam bem no país, e esse ambiente de revolta e descontentamento pode ter um desfecho ainda mais impactante que os protestos do meio do ano por aqui.


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Um caminho para o futuro

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Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


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Aspectos mínimos da democracia

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Nesta semana, deparei-me com uma interessante publicação. Chamaram-me atenção especialmente dois textos, um sobre o chavismo sem Chávez e outro sobre a democracia no Equador. Em ambos os casos, surgem questões fundamentais quanto aos parâmetros para a definição de um regime como democrático ou não.  

Pensando os teóricos clássicos, em algum momento houve a necessidade de estabelecer um organismo superior que se encarregaria de mediar os conflitos da sociedade. Era o Estado. No âmbito estatal, existiriam diferentes formas de administrar seus meios e fins. Nas últimas décadas, tornou-se evidente a prevalência da escolha pelo regime democrático.  

De maneira geral, pode-se identificar a democracia como o mecanismo para atingir decisões coletivas por meio de procedimentos definidos e por intermédio de atores igualmente definidos. Desta forma, consolidou-se o sistema representativo e a disputa competitiva pelo voto. Os partidos ganharam relevância como meio de canalizar as demandas populares e transformá-las em políticas públicas adequadas.  

Seguindo este panorama base, seria desnecessário prosseguir o argumento no sentido da importância da liberdade de expressão, da independência dos poderes e de um sistema partidário verdadeiramente competitivo. Afinal, esses são pressupostos para o pleno funcionamento de um modelo que queira formalizar as necessidades dos representados. Mais ainda, muitos desses direitos foram positivados como Direitos Humanos. Contudo, são justamente estes os temas colocados em pauta nos textos que cito.  

O caso equatoriano é intrigante. Segundo seu autor, não se trata verdadeiramente de um governo apoiado na mobilização popular, mas sim na racionalização administrativa pelo fortalecimento de um quadro técnico. Por um lado, coloca-se como representante dos interesses populares contra grupos minoritários, poderosos e por décadas detentores do poder no país. Por outro, parece caminhar por trilhas do cerceamento da imprensa e da independência dos poderes. Um claro paradoxo, ao mesmo tempo que afirma representar o povo, limita os meios para entidades sociais e cidadãos expressarem eventuais divergências. 

O horror ao dissenso e a formação de blocos monocromáticos não parecem ser características da democracia, na concepção clássica. Alguns teóricos contemporâneos temiam a ampliação da participação popular, por acreditarem que ensejaria instabilidade política, preferindo limites ao dissenso. No decorrer do século XX, em sentido contrário, assegurou-se a expansão dos direitos políticos e firmou-se o modelo democrático com ampla participação. A evolução no caso da Venezuela e do Equador demonstra novas questões relativas a desafios que surgiram.  

Weber, sociólogo alemão, tratou dos tipos de dominação legítima (racional, tradicional e carismática). O líder carismático teria um potencial revolucionário, polarizador. Com o tempo, mesmo a liderança carismática tenderia a se racionalizar ou se tradicionalizar, como forma de possibilitar a sua continuidade. A meu ver, o Equador ensaia efetuar a transição, de forma a consolidar o projeto de Revolução Cidadã, sem Correa no futuro. A Venezuela, com a morte de Chávez, é um exemplo de dificuldades de seguir sem esta figura polarizadora ou talvez de uma transição inacabada.  

Novamente, cabe uma reflexão sobre as regras do jogo democrático e até mesmo dos seus parâmetros mínimos. Na realidade, coloca-se um desafio para o estudo de regimes que proliferam na América Latina, região que conheceu períodos de autoritarismo e celebrou a democracia como um novo começo. Os novos ventos, apesar dos inegáveis avanços sociais, evidenciam desafios igualmente relevantes no campo da participação e instituições políticas. 


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O grampo que une?

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Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


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Fala muito!

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A crítica sempre esteve ligada, de certo modo, ao anonimato. O medo de rejeição, e principalmente o temor de represálias leva os insatisfeitos desde muito tempo atrás a se exporem ocultando sua identidade. Se a crítica é aceita pela coletividade, passa a fazer parte desse fenômeno de massa – se não, não causa mal algum ao autor. Mas e se for descoberto? 

Esse fenômeno é potencializado hoje, já que a vida em rede já faz parte da vida política contemporânea. Redes sociais, fóruns de discussão e redes de telecomunicações têm um impacto formidável na opinião pública. A eficiência disso, é claro, depende de quem está envolvido, e de muitos outros fatores. Basta lembrar da “revolução” de julho no Brasil, que saiu do Facebook para durar umas… duas semanas, e desaparecer quase que por completo, mostrando apenas resquícios desse ativismo em protestos pontuais (apesar de recorrentes). 

Isso tudo vem da atividade em grupo, mas resta algum papel para o indivíduo? A noção de uma “massa” vem justamente do fato de que se faz parte de uma coletividade, com interesses que estão acima dos pessoais, e a noção do anonimato é fundamental em alguns casos. É interessante notar como o anonimato volta a ter importância nesse contexto, já que é um ambiente propício a essa condição. 

 Em um caso recente, um funcionário da Casa Branca foi demitido por manter uma conta anônima em que espinafrava membros do governo. Descoberto, foi demitido e lhe resta a infâmia. Enquanto isso, no Brasil, contas “fakes” (falsas, com pessoas imitando personalidades) fazem sucesso, e uma delas imita a presidente Dilma por meio de uma sátira bem-humorada, sendo que o humorista criador da conta até já esteve em conversa pessoalmente com a “vítima”. Descoberto, não foi arrasado, e sim premiado pelo uso “inteligente” das redes sociais. 

Vê-se que depende muito de contexto, é claro, e do uso que é dado a cada ferramenta, mas nem mesmo o anonimato serve de blindagem, já que pode ser revertido a qualquer momento nessa nuvem de informação.


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Política Externa Local

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Ponte Estaiada – São Paulo


Semana passada foi publicado um artigo intitulado “Foreign Policy Goes Local”* na revista “Foreign Affairs” e o mesmo tornou-se o quinto texto mais acessado nos últimos dias na página web do periódico. Escrito por Rodrigo Tavares, atual Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo, mostra como o estado federado aumentou sua projeção externa nos últimos anos, adquirindo patamar de “poder diplomático” da nova ordem mundial caracterizada pela intensificação da globalização. 

O artigo em si é bem escrito e fundamentado. Mas, além disso, devo destacar outro ponto: o espaço aberto em uma revista de grande porte para tratar de uma nova temática que há anos luta por maior reconhecimento na academia e, por que não dizer, na própria prática política. Estou falando do que Rodrigo Tavares e a grande maioria da literatura que se debruça sobre essa área denominam de paradiplomacia, seja ela a inserção internacional dos atores subnacionais (cidades, municípios, estados federados, províncias, departamentos, regiões, etc.). 

Em momento anterior eu mesmo escrevi uma pequena série de três postagens sobre paradiplomacia aqui na Página Internacional. Em “Para…o que?”, falei sobre o mundo do pós-Guerra Fria e dos novos atores que emergiram. Citei alguns dos principais exemplos de atores subnacionais com intensa atividade internacional e entrei no mérito da paradiplomacia desenvolvida nos processos de integração regional e em redes de cidades. 

Voltando ao assunto principal, o texto referente à “Política Externa a caminho do Local”, não sei se é de simples acesso ou não ter um texto publicado na “Foreign Affairs”. Mas muito me alegrou esse texto, porque sou pesquisador da área. São Paulo, e poderia citar até mesmo a cidade além do estado, tem uma potencial gigante de internacionalização. E isso tem sido fomentado, em maior ou menor escala, nos últimos anos. 

Ao final do texto, Rodrigo Tavares utiliza o termo “diplomacia subnacional” e, particularmente, defendo mais a utilização desse termo do que paradiplomacia. O discurso sobre a inserção externa dos atores subnacionais é muito importante para dar respaldo a essa área tanto na academia quanto na prática. Cada vez mais me convenço de que, quando falamos sobre política local, são necessárias pessoas formadas em Relações Internacionais para dar conta dessa demanda. Teoria e empiria se misturam, e muito, aqui. 

Países como Bélgica, Alemanha, África do Sul, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina e por aí vai, têm uma política externa mais permeável aos interesses subnacionais. No Brasil, conforme apontado no texto, essa ideia vem crescendo, mas digo que o Itamaraty ainda tenta concentrar ao máximo a tomada de decisões e nosso histórico de centralização de poder ainda atua como “barreira” à diplomacia subnacional. 

O governo paulista vem quebrando essa lógica com muitos méritos. Possui população densa, infraestrutura e produto interno bruto para tanto. Além dos estados, muitas cidades também estão criando secretarias ou coordenadorias municipais de Relações Internacionais com o intuito de aumentarem diálogo, cooperação e troca política com seus semelhantes internacionais. Belo Horizonte, Vitória, Santo André, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Guarulhos, Campinas detêm ineditismo e destaque, também, nesse mérito. 

Que seja, gradualmente, produzido mais conteúdo sobre paradiplomacia, ou melhor, diplomacia subnacional. E que seja publicado em “Foreign Affairs” e muitos outros periódicos. Área de estudos fascinante tanto para pesquisadores quanto para aqueles que mexem com a política local no dia-a-dia. Se você pretende estudar ou está estudando Relações Internacionais e ainda não sabe “para que serve o curso?”, experimente conhecer o mundo da política local. Ratifico: só haverá maior crescimento da atuação internacional dos atores internacionais com o trabalho de pessoas especializadas em Relações Internacionais. 

* Para acessar o texto é necessário fazer um breve cadastro na “Foreign Affairs”.


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Calcanhar de Aquiles estadunidense

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Pra quem não é da área de economia, entender o impacto da discussão sobre o aumento do teto da dívida pública dos Estados Unidos não é nada simples. As variáveis são muitas e os jargões econômicos muitas vezes não são suficientemente autoexplicativos. A questão é que, em se tratando de Estados Unidos, um assunto predominantemente interno como esse revela o calcanhar de Aquiles de Obama e possui, na verdade, implicações internacionais diretas no mundo inteiro.

Manchetes anunciam a possibilidade de que o mundo presencie o “primeiro calote da história” do país, já que o Tesouro norte-americano ficará sem recursos para cumprir seus pagamentos na falta de aprovação de um acordo possibilitando a tomada de recursos emprestados do mercado financeiro – impasse que persiste no governo desde maio, quando foi alcançado o limite da dívida atual. Sobrevivendo com recursos extraordinários para honrar compromissos, há quase duas semanas vemos um país com o governo paralisado (bem como outras instituições), já que o dinheiro se esgota e o prazo para que uma solução seja anunciada se aproxima: 17 de outubro, quinta-feira.

Duas considerações são necessárias para (começar a) entender o impasse. Em primeiro lugar, Obama é democrata e uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral era (e ainda é) a reforma da saúde, incluindo quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de “SUS compulsório” [Reveja post de 2010 no blog a respeito aqui]. Os republicanos, oposição já naturalmente, opõem-se fortemente ao que foi apelidado de “Obamacare”, argumentando ser esta lei uma afronta ao princípio de livre arbítrio (!), obrigando os cidadãos a terem um plano de saúde.

Em um país do porte dos Estados Unidos, perceber a inexistência de um sistema público de saúde e a carência da maior parte da população em atendimento gratuito revela uma situação caótica e que comprovadamente se tornou um dos temas prioritários da gestão de Obama. Contudo, e aqui vai a segunda consideração importante, os dois partidos assumem posturas com frequência intransigentes e, querendo ou não, precisam negociar, já que o comando do Congresso é dividido, sendo que os republicanos representam maioria na Câmara e os democratas no Senado.

Um Obama que não é dotado de poder para desconsiderar estas instâncias se vê com o calcanhar atado diante de negociações atravancadas: por um lado, republicanos querendo a todo custo ter esse aumento do teto da dívida vinculado a grandes cortes no orçamento (incluindo explicitamente o adiamento ou a eliminação do financiamento à Saúde previsto na lei de reforma!). Por outro lado, democratas insistindo em cortes menores para garantir a manutenção dos benefícios sociais à população, com pouca margem de manobra para negociar.

Tendo rejeitado a última proposta republicana de elevação do teto da dívida apenas temporariamente, Obama arrisca (ou aposta) na busca de uma solução duradoura antes do prazo estipulado, já, contudo, sofrendo com as consequências econômicas da falta de aprovação do novo orçamento, revivendo a mesma situação de 2011, quando a polêmica acerca da reforma da saúde ainda era recente e predominava em qualquer debate.

Sensacionalismos à parte, o desfecho desta novela estadunidense não tardará a ser desenhado e possivelmente trará à tona um certo nível de diálogo que evitará, na última hora, o calote, evitando impactos econômicos estrondosos no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento. Entretanto, não deixa de ser impressionante o impacto que o tema da reforma da saúde proporciona nos interesses políticos do país, e a forma como tais interesses afetam diretamente o desenrolar econômico deste gigante. Gigante cuja principal fraqueza parece se mostrar, justamente, de dentro para fora… 


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Prêmio discordante

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Peso na consciência é uma coisa complicada, especialmente se você tiver criado um dos explosivos mais potentes e perigosos da humanidade. Foi assim que Alfred Nobel, o criador da dinamite, resolveu gastar alguns dos seus milhões que ganhou com a invenção para tentar se redimir com a humanidade e premiar grandes invenções, pesquisas, ou simplesmente pessoas que ajudassem o ser humano a ser um pouquinho melhor. Nascia o prêmio Nobel, que está sendo entregue em sua edição 2013 nesse mês de outubro. 

Os prêmios científicos são muito interessantes, mas geralmente o mais chamativo é um bem subjetivo, o tal Nobel da Paz. Muita gente já ganhou esse de um modo bem contestável (basta lembrar do Obama em 2009, que continua massacrando gente com drones, ou indo mais atrás, Ted Roosevelt, aquele do ursinho de pelúcia e do “Big Stick”, que ganhou o prêmio pela mediação na guerra russo-japonesa), mas parece que esse ano a concorrência está boa. A principal aposta é na menina paquistanesa Malala Yousafzai, aquela que levou um tiro na cabeça por criticar o Taleban e defender escola para todos. Parece justo – mesmo por que o Taleban continua ameaçando ela de morte após sua quase milagrosa recuperação. Mas outros candidatos são um pouco mais controversos, como… o presidente russo, Vladmir Putin. Esse mesmo, o homem que prende ativistas, tem dezenas de denúncias de opressão e violação de direitos humanos contra e que vende armas para o ditador favorito da mídia atual. Sua indicação seria justamente por seu papel na mediação do conflito da Síria (apesar de absolutamente nada ter sido alcançado de concreto, fora o tênue compromisso de remover as armas químicas de lá). 

Não seria novidade – muitos desses prêmios são para acordos de paz. Claro que, geralmente, são para acordos já finalizados (com exceção do histórico prêmio de 1994, e que com a morte de Rabin deu no que deu). Mas o Nobel a Paz, o mais prestigiado deles, está ficando meio desacreditado nos últimos anos. Obama em 2009, a União Europeia ano passado, parece até piada. A indicação (e até uma possível vitória) de Putin seria basicamente um escolha de politicagem. Digamos que o controverso prêmio de Obama em 2009 abriu um precedente e agora Putin pode ser “recompensado” por sua busca de trazer a Rússia novamente a um primeiro plano. 

O prêmio Nobel, no fim das contas, não tem muita utilidade prática, mas é cheio de simbolismo, e essa desvirtuação não deixa de ser um pouco lamentável. Claro que, para quem não liga muito para o assunto, sempre temos o divertido IgNobel, que faz o contrário e premia pesquisas e pessoas que não contribuíram em nada para o progresso da humanidade. Em 2013, o IgNobel da paz foi para Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, que tornou proibido bater palmas em público. Putin vai ter que se esforçar pra ganhar disso.


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