Apostas de risco

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Qual o destino da Ucrânia? É claro que boa parte disso vai depender do que rolar no seu vizinho gigante, mas talvez a solução esteja justamente na fonte do problema, que é a divisão da população.

A situação no momento está longe de ser estável (ainda há pessoas morrendo em confrontos isolados), mas é menos conturbada do que há algumas semanas. O parlamento da Crimeia, com a convocação de um referendo para esta fim de semana, quer oficializar sua volta à Rússia, sob as barbas do governo de Kiev. Na semana passada, comentei sobre a questão da autodeterminação, e desse ponto de vista nada mais justo: a população da região tem laços históricos e étnicos com a Rússia, e boa parte de sua própria população deseja a incorporação. Mas nenhum país aceita tão facilmente esse tipo de movimento de secessão, e é claro que a Ucrânia (assim como parte da opinião pública internacional) considera esse movimento ilegítimo – existe um governo (mesmo que provisório), constituição, e a culpa disso tudo seria da Rússia, que incita à desobediência com a presença de suas tropas. Aqui está o segundo problema, justamente a acusação de interferência estrangeira, que acaba valendo para os dois lados.

De certo modo, a “anexação” da Crimeia seria um dos resultados menos piores para a crise (apesar de estar longe de um desfecho satisfatório), já que evitaria a invasão militar russa e teria uma discutível, mas ainda válida, legitimidade. Por mais que a Ucrânia não queira, existe um movimento em curso de “russificação” de sua população, e uma divisão pacífica (como a da Tchecoslováquia) poderia evitar e resolver a crise sem (tanta) interferência estrangeira. Regiões como Lugansk e Donetsk podem seguir o mesmo caminho, e o que vai definir se o destino da Ucrânia vai ser uma fratura territorial ou o banho de sangue da guerra civil será a reação do próprio governo de Kiev. Mas o problema vai além das fronteiras, já que essa busca por incorporação pode não ser interessante a Moscou – basta lembrar da crise da Geórgia em 2008, quando as províncias separatistas da Ossétia do Sul e Abkhazia tiveram apoio russo, mas quando se pensou em incorporação Moscou desconversou. Apesar das populações russas nas regiões, sempre podemos definir o interesse russo na questão estratégica (como o porto de Sebastopol), e quem quiser entrar no trem da alegria russo pode dar com burros n’água.

Isso tudo, é claro, se esses movimentos separatistas prosperarem. A tendência é que o governo não aceite isso e haja guerra civil – ou pior, a invasão russa de fato. Mesmo uma previsão otimista não se isenta do preço em vidas humanas, então devemos esperar mais noticiário desagradável da região nas próximas semanas.


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A laranja seca

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Numa surpreendente reviravolta, a Ucrânia acordou hoje com a notícia de um acordo preliminar que restauraria a Constituição de 2004 e possibilidade de anistia aos presos nas manifestações e confrontos das últimas semanas. Um desfecho bastante interessante quando consideramos que ontem mesmo o presidente (em vias de defenestração) Viktor Yanukovich mandava a polícia mandar bala (literalmente) nos manifestantes gerando uma carnificina nos últimos dias com dezenas de mortes.  O que mudou nesse meio tempo?

Pressão internacional parece ser a primeira ideia. Lembramos que um dos maiores interessados nessa questão está ali do outro lado da fronteira, o russo Vladmir Putin, e a violência em Kiev estava tirando o brilho da imagem dos jogos de Inverno, que deveriam ter sido um show particular de pujança do governante. Parece um pouco tarde para contornar os estragos, mas certamente haveria interesse de Moscou em que as coisas esfriassem. Já os EUA estão interessados, mas muito mais para espezinhar a Rússia. Quem entrou com unhas e dentes na questão foi mesmo a União Europeia, que praticamente costurou esse “acordo” de paz, mas conseguiu apertar o governo ucraniano mesmo com uso das boas e velhas sanções. A Rússia deve perder influência e os ucranianos mostram claramente que rejeitam Moscou. Pressionado por todos os lados, o congresso expurgou o ministro do interior e cortou as asas do presidente enquanto Bruxelas aprova a tudo.  No fim das contas, é o único lado que parece ganhar com tudo isso.

Evitar uma guerra civil parece um triunfo daqueles, mas qual o significado disso? A anistia traz de volta a principal figura de oposição, a ex-primeira ministra Yulia Timoschenko, mas que não tem a força politica de quando conduziu a pacífica Revolução Laranja do começo da década passada. Escândalos de corrupção e brigas internas (como a que levou Yanukovich ao poder) mancham a política ucraniana, cuja população vê a associação à UE como uma última oportunidade de mudança e evolução contra velhos hábitos patrimonialistas lá da época dos soviéticos. As concessões de Yanukovich, que incluem antecipação de eleições, são sinais positivos, mas uma vez mais surge esse risco do “vácuo” de poder. Mesmo com um governo de coalizão entre situação e oposição, a falta de uma liderança que corresponda aos anseios dos protestos preocupa. O risco que a Ucrânia corre é proporcional à oportunidade que se apresenta, de passar uma borracha nos desmandos dos últimos anos, e literalmente começar de novo a revolução de 2004. Mas para isso é necessário ainda superar a onda de violência e confrontos, que ainda persiste e pode jogar por terra todos esses esforços caso não seja resolvida.


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De qual lado?

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A crise política na Venezuela (pouco divulgada, aliás) tem muito a ver com o que ocorre no Brasil. Nessa última semana, protestos explodiram em diversas localidades do país vizinho, começando como uma alusão ao dia do Estudante e que cresceu e inflamadas por líderes da oposição se tornaram marchas contra o governo, que resultaram em confrontos violentos e em pelo menos três mortes. De certo modo, lembra um pouco o que aconteceu no Brasil ano passado (apesar de, até onde eu saiba, a derrubada do governo nem ter sido pauta por aqui). Na verdade, o que chama a atenção é como a questão está sendo tratada, e nesse ponto encontramos a principal correlação.

Vejam bem, é complicado avaliar a informação de fora. Geralmente, busca-se um culpado quando há mortes. No caso venezuelano, levando em consideração o fato de que observamos de fora, é bem inconclusivo pensar em termos de “responsabilidades”. De um lado, as fontes do governo acusam a oposição defascismo. De outro, temos reivindicações acerca de problemas sérios e indícios de violência e abusos do governo na repressão. E a polarização acaba acontecendo naturalmente: quem não está conosco, está contra. O que leva ao questionamento é pensar se realmente se torna necessário “escolher” um lado. A polarização do debate se torna realmente necessária? É preciso ficar do lado de Maduro e escorraçar os “terroristas”? É necessário pleitear a queda do governante?

No Brasil, algo semelhante há bastante tempo, mas ficou mais agudo desde o ano passado. Pegamos o exemplo lamentável do cinegrafista que morreu na semana passada. Basicamente, temos aqueles que condenam completamente a atividade dos manifestantes, e aqueles que tentam mostrar que tudo foi uma armação ou resultado de manipulação do governo para desacreditar os protestos. Tem teoria da conspiração pra tudo. E nesse meio, perdem-se aqueles que expressam livremente suas ideias e colocam pautas de fato para as manifestações, assim como as ações que poderiam ser tomadas efetiva e legitimamente pelos membros do governo.

Não falo de ficar em cima do muro – fazer nada é tão ruim quanto ser extremista. Mas quando a insatisfação extrapola limites, a repressão responde na mesma moeda e chegamos às mortes, em um movimento de reivindicação em um Estado de direito, que tem ferramentas apropriadas para isso, existe alguma coisa muito errada. A polarização tende apenas a piorar o problema – em ambos os lados. Deixar de entender o “outro” lado significa deixar de perceber soluções diferentes para problemas comuns. Cruzar a linha do extraordinário faz com que algumas soluções não tenham mais volta – o que é muito comum na vivência internacional, hoje experimentamos na vida cotidiana. É o que está acontecendo em Caracas – um dos líderes da oposição, Henrique Capriles, se mostrava contra a estratégia dos protestos por achar que não era o momento nem o meio adequado. Não foi ouvido. Agora, o governo já manda prender mentores das manifestações. Não tem mais volta.


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Imagem é tudo

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A Rússia está nos holofotes essa semana, seja pelo improvável duelo de olhares entre seu presidente e um filhote de leopardo, seja pelo início no dia de hoje das Olimpíadas de Inverno, na cidade de Sochi, seja pela escalada da crise ucraniana que gradualmente está se tornando um romance de espionagem da Guerra Fria.

Se o caro leitor acha que a gastança do Brasil com a Copa e Olimpíadas já causa alvoroço e indignação por esses lados (como já esperávamos há alguns anos…), o caso de Sochi é ainda pior. Basta dizer que o dinheiro gasto para a realização dos jogos supera a quantidade de TODAS as edições anteriores somadas. Entre outras coisas, até a neve tem que ser “produzida” para o evento – já que, entre tantas cidades literalmente congeladas no país, escolheram uma em que o sol brilha forte nessa época do ano. As denúncias de superfaturamento e corrupção deveriam ir lado a lado com o quadro de medalhas, mas com a liberdade de imprensa bastante comprometida naquele país, resta à comunidade internacional observar o boicote de alguns atletas e políticos internacionais ao evento como protesto. E isso para não entrar na questão da ameaça dos possíveis ataques terroristas, já que a localização dos jogos é perfeita para isso.

Mas o que está chamando a atenção mesmo é o caso da Ucrânia, por que a briga com os EUA remonta aos tempos da bipolaridade. Resumindo a ópera, a população ucraniana protesta desde novembro do ano passado contra a decisão do governo de cancelar um acordo com a União Europeia, supostamente sob pressão russa, e a tensão se desenrola há meses. EUA e Rússia fazem parte dos esforços de negociação para resolver o impasse, mas um vazamento nessa semana esquentou o clima: provando um pouco de seu próprio veneno, a secretária de Estado adjunta dos EUA foi flagrada em conversa com o embaixador norte-americano nos EUA, na qual ofendia (pra dizer o mínimo) os esforços da UE em participar do processo. A troca de acusações vai para todos os lados: os EUA acusam a Rússia de espionar e vazar a conversa, a Rússia acusa os EUA de ajudar a oposição e a UE fica indignada com tudo isso.

O que vemos aqui é uma clara mensagem do governo russo de exibição de poder. O caso da Ucrânia mostra que mais uma vez a Rússia expande e tenta manter sua esfera de influência. Os EUA espionam todo mundo? “Nós também podemos”, responde entrelinhas Moscou (na verdade todos fazem isso, mas já é outra história). A China fez a mais imponente Olimpíada de todos os tempos? Putin faz nevar em uma cidade ensolarada para os Jogos de Inverno. E encerramos esse raciocínio com a imagem do presidente entre os leopardos. A ideia, oficialmente, é de divulgar uma iniciativa ecologicamente correta sobre um santuário para a preservação desses animais, mas é claro que aparecer amansando feras selvagens adiciona mais um capítulo no imaginário desse presidente “folclórico”, por assim dizer. Sua ideia de reerguer a Rússia no plano internacional é clara. E para isso, um país precisa demonstrar recursos de poder, seja duro ou brando. E a Rússia está demonstrando que domina ambos, com foco na figura desse presidente enigmático e matreiro.


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Ideologia ou pragmatismo?

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Desde a década passada, o debate sobre política externa deixou apenas os corredores do Itamaraty para ocupar também espaços na mídia. Longe de atingir o status de discussão de interesse geral, a ação exterior esteve mais evidente do que em outros períodos. Em parte, a personalidade de pop star do ex-presidente Lula e sua vontade de estar envolvido nesse processo contribuíram para isso. Também, o interesse de empresários, sindicatos e grupos sociais de estarem incluídos em negociações internacionais importantes influenciaram a construção do cenário que se vê hoje.

 A questão é que a política externa está em pauta. Porém, como ocorre com qualquer tema que se torna manchete, está sujeita a simplificações e distorções. Nos últimos anos, quando os temas foram relações com a América do Sul, Cuba e África, dois eram os argumentos principais. De um lado, setores da mídia vociferavam que a política externa era ideológica, regida por um viés “esquerdista”. De outro, defensores diziam que se tratava de pragmatismo.

A visita de Dilma à Cuba para inaugurar o porto de Mariel é um exemplo da divisão dos últimos anos. O financiamento do BNDES para uma obra em Cuba e os incentivos do Brasil para aproximações bilaterais incomodaram a muitos, enquanto que, a outros, foram pragmáticos. O problema é que atos isolados dificultam a compreensão de algo complexo, e acabam por levar a questionamentos muito simplificados.

Talvez por isso, a pergunta “ideologia ou pragmatismo?” seja muito singela. Essa divisão, bastante saudável na sociedade democrática, poderia ser utilizada para  perguntas mais adequadas, relacionadas às escolhas da política externa brasileira no longo prazo. Não quero definir aqui as “perguntas certas”, mas sim indicar algumas que entendo valer a pena ser pensadas. Para tanto, é preciso contextualizar os acontecimentos nos movimentos dos últimos anos.

Primeiro, o financiamento BNDES ao porto cubano não é um ato isolado. É a manifestação de um processo que vem se arrastando desde 2003. O Brasil tornou-se um grande financiador de projetos de infraestrutura na América Latina. Entre 2003 e 2010, por exemplo, financiou mais de 80 projetos na América do Sul, com um valor total de US$ 80 bilhões. Pontes, estradas, metrôs e hidrelétricas foram alguns exemplos.

Esses financiamentos tem sido feitos de formas diretas e indiretas. A direta seria por meio de empréstimos feitos pelo BNDES e pela Camex. Já a indireta, por doações a organizações internacionais que fazem esse trabalho. Por exemplo, o Fundo de Convergência Estrutural (Focem), do Mercosul, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, da OEA. No que se refere à primeira forma, é interessante observar que, em muitos desses projetos de infraestrutura, as principais beneficiadas são grandes empresas brasileiras. O resultado foi que o BNDES se tornou uma das mais importantes ferramentas para a internacionalização de empresas. A título de exemplo, entre 2003 e 2013, os financiamentos a empresas brasileiras no exterior, em especial, na América Latina e África, cresceram aproximadamente 1185%. 

O segundo ponto é que, no mesmo período, o Brasil ampliou também o valor destinado à cooperação para o desenvolvimento de países menos desenvolvidos. O foco principal também tem sido a América Latina e África. Além de infraestrutura, o governo também envolveu-se em muitos projetos de transferência de conhecimento técnico para incentivar o desenvolvimento de países dessas duas regiões, principalmente nas áreas de agricultura e saúde. O aumento do valor destinado a essas atividades foi significativo e ilustra um pouco essa tendência. Segundo a Agência Brasileira de Cooperação, entre 2005 e 2009, por exemplo, a cifra cresceu aproximadamente 178% (de US$ 35,102 milhões para 97,744 milhões).

No conjunto, houve alguns ganhos de curto prazo. Entre 2003 e 2010, o comércio com a América do Sul cresceu 165,5%, com a América central e México, 14,5%, e com a África, 520%. Ganhos importantes, mas, não o suficiente para substituir os outros tradicionais parceiros comerciais brasileiros. Nos últimos anos, a China, os Estados Unidos e a Argentina ainda eram os principais em volume de comércio.

Isso nos leva ao terceiro, e principal, ponto: onde o Brasil quer chegar? Ao que parece, existe caráter estratégico nesses investimentos. Do ponto de vista econômico, os financiamentos significam que o Brasil seria um parceiro privilegiado nos negócios futuros com esses países; e cooperação para o desenvolvimento significaria “investir hoje nos parceiros de amanhã”. Do ponto de vista político, o país poderia ter mais apoio para futuros objetivos internacionais, como, por exemplo, reformas na ONU, na OMC, FMI e etc. A Unasul e a Celac (para mais no blog sobre o bloco, clique aqui) são exemplos de dois órgãos incentivados pelo Brasil para garantir que haja um estreitamento político além dos laços econômicos.

Agora, com base nesse panorama geral, ficam novas perguntas. Quais são os objetivos? Essa é a estratégia mais adequada para atingi-los? Quais tem sido as vantagens para os diversos setores da sociedade, para a diplomacia e para a política externa? Quais as contradições? Frente à dicotomia “ideologia x pragmatismo”, talvez essas perguntas valham mais a pena. Porque simplificar uma realidade tão complexa a somente esses dois conceitos seria perder muito do que vem ocorrendo na política externa brasileira dos últimos anos.


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Fim da linha

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Mapa da nova fronteira marítima entre Chile e Peru

Na última segunda-feira findou-se uma batalha que há muito tempo ecoava aqui na América do Sul. Chile e Peru, cuja rivalidade remonta à Guerra do Pacífico (1879-1883), na qual o segundo país perdeu dois territórios, além da Bolívia ter ficado sem saída para o mar, colocaram fim à contenda que estava nas mãos da Corte Internacional de Justiça, mais conhecida como Corte de Haia, desde 2008 sobre disputa envolvendo a fronteira marítima de 38 mil quilômetros quadrados do Oceano Pacífico (vide imagem acima).

O vencedor foi o Peru que adquiriu mais da metade dessa área. Seu presidente, Ollanta Humala, afirmou que foi um dia histórico para toda nação peruana. Por sua vez, o líder chileno, Sebastián Piñera, manteve o discurso diplomático dizendo que era isso mesmo que seu país esperava. O chefe da delegação chilena, Alberto Sort, foi mais incisivo e falou que a decisão de Haia não teve fundamento.

Além de ser uma contenda histórica envolvendo calorosos debates nacionalistas de ambos os lados, a postura adotada pela Corte de Haia, a qual é inapelável e seu cumprimento é obrigatório, trará algumas implicações diplomáticas e econômicas para a região. Daqui para frente o Peru deverá colocar em prática um plano de ação para poder salvaguardar seus direitos na área marítima. Seus vizinhos chilenos conseguiram manter a fronteira rica em pesca de anchovas, mas a Confederação de Pescadores do Chile lamentou profundamente o fato do país ter perdido “um terço de seu mar” por onde passava rotas de recursos pesqueiros.

Fim da linha para uma disputa que durou, em tese, aproximadamente cento e trinta anos e, na prática, quase sete. Interessante observar que os dois países prometeram cumprir o acordo exigido e proposto pela Corte de Haia. Mais interessante ainda é ver que o principal organismo internacional judiciário da Organização das Nações Unidas (ONU) está funcionando e conseguindo impactar as políticas estatais. Mesmo com toda atual conjuntura das relações internacionais que faz das fronteiras um conceito perene, permeável e transpassado, no caso entre Peru e Chile a faixa marítima nunca deixou de ser um assunto de interesse nacional.

*Fonte da imagem: veja.abril.com.br


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Votação cá e acolá

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Todo ano pode ser definido como ano de votação, obviamente. Mas 2014 mostra-se um tanto quanto diferente nesse sentido. Por quê? Respondo com quatro pontos principais: a) haverá eleições presidenciais aqui no Brasil; b) Afeganistão, Líbia e Iraque, considerados três países com fortes pressões e tensões internas, abrigarão eleições presidenciais, parlamentares e constituintes, respectivamente; c) eleitores da União Europeia vão escolher novos nomes para o Parlamento Europeu; d) Escócia fará um referendo para decretar uma possível independência em relação ao Reino Unido e a Catalunha continuará suas pressões para fazer o mesmo com a Espanha.

Como já é bem sabido, em outubro iremos às urnas para escolhermos os novos presidente, governadores, deputados e senadores. No final do ano passado a pesquisa Ibope mostrava que Dilma Rousseff seria reeleita no primeiro turno. Todavia, atualmente não se sabe qual será o desfecho final após a formação da coalização entre Eduardo Campos e Marina Silva. O ex-presidente Lula já vem conversando com Dilma e terá grande impacto na campanha presidencial. Um ponto interessante para se destacar é a realização da Copa do Mundo no nosso país. Ela e os prováveis protestos terão peso decisivo nas urnas. Conforme afirma o professor e historiador Flávio de Campos, o desempenho do futebol brasileiro dentro de campo influenciará diretamente a vitória ou o fracasso de Dilma em Brasília.

No Afeganistão ocorrerão eleições presidenciais novas, pois o atual presidente, Hamid Karzai, não poderá se reeleger. Já no Iraque a situação está um pouco pior, haja vista que as eleições parlamentares tomarão forma em abril após o Supremo Tribunal Federal iraquiano derrubar a lei que permitia somente dois mandatos. Assim, o atual primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, está de olho em seu terceiro governo. Por sua vez, na Líbia, após todo caos e estado de guerra interno, serão escolhidos 60 representantes para formarem uma Assembleia Constituinte que criará um novo documento base do país.

Ainda haverá eleição na maior democracia do mundo, a Índia. Barack Obama lidará com um forte embate entre democratas e republicanos para uma nova formação do Congresso estadunidense. Na América do Sul, Uruguai e Colômbia também terão eleições gerais. José Mujica, que vem ficando famoso por suas reformas no país, não poderá se reeleger e o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe poderá ser estrela nas prévias legislativas. Para não me alongar muito, cumpre dizer que, do mesmo modo, haverá pleitos na África do Sul, Indonésia e Turquia.

A Europa será palco de muitas novidades. Em maio o Parlamento Europeu terá nova composição de seus deputados, os quais são eleitos diretamente pelos cidadãos. A instituição colabora com o Conselho de Ministros na formação das diretrizes legislativas do bloco e essa próxima eleição trará consigo novos desafios para seus membros, dentre eles combater as elevadas taxas de desemprego em alguns países. Paralelamente, a Escócia fará um referendo em setembro para decidir se se tornará independente do Reino Unido a partir de 2016 e a Catalunha continuará a demandar sua independência da Espanha através de referendo, conforme analisei previamente aqui no blog.

Muitas surpresas estão por vir, acredito. Para nós, sem dúvidas, a eleição presidencial brasileira terá seu gostinho especial. Mas, sem dúvidas também, é sempre bom acompanhar um pouco do que se passa ao redor do mundo. Líbia, Uruguai e Escócia, principalmente e cada um à sua maneira, representarão alguns novos rumos que a política internacional vem adquirindo na última década.


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Rumo a um mundo melhor…

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Trazer à tona o drama vivido diariamente por pessoas em situação de migração ou refúgio nunca é demais. Em 20 de junho, celebra-se o Dia Mundial do Refugiado, estabelecido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em 1951. E, hoje, 19 de janeiro, celebra-se o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, data instituída pela Igreja em 1914, no momento em que se iniciou a Primeira Grande Guerra.

No centenário da data, e sob o lema “Os migrantes e refugiados: rumo a um mundo melhor”, o Papa Francisco instigou, em seu discurso proferido hoje, a necessidade de esperança e de combate aos “mercadores de carne humana”, que buscam escravizar pessoas em situação de risco.

Trata-se, de fato, de uma situação com dados nem um pouco animadores. Vemos uma colônia de mais de 45 milhões de refugiados e 230 milhões de migrantes nos dias de hoje, especialmente ao considerarmos regiões em meio a conflitos, em que os países vizinhos se tornam os grandes receptores de pessoas que fogem por suas vidas. Afeganistão, Síria, Somália, Sudão e República Democrática do Congo lideram a lista de países de origem dos refugiados de hoje. E os números, infelizmente, parecem apenas aumentar

No nosso próprio país, o total de refugiados no último ano triplicou em relação a 2012, de acordo com informações do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE), sendo que quase a metade dos mais de 600 pedidos aceitos pelo governo brasileiro foram oriundos da Síria.

Quando o problema tem raiz política, apenas uma solução política pode saná-lo definitivamente. Os meios humanitários utilizados para lutar contra as dificuldades dos refugiados, essenciais devido à gravidade da situação, veem-se, com frequência, restritos a medidas paliativas, temporárias. Estamos falando de indivíduos cujas vidas foram (e são) diretamente afetadas por conflitos que não são seus. 

“Rumo a um mundo melhor”: a mensagem certamente deve ser de esperança aos que buscam refúgio, mas principalmente de esperança que aqueles que possuem os meios políticos para sanar os conflitos se atentem às suas responsabilidades e avaliem o impacto de suas decisões não apenas em termos financeiros, mas – justamente – em termos humanos. 


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Tra(d)ição

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A capacidade dos estadistas em contornar crises é um dos ossos do ofício, mas quando isso envolve problemas pessoais sempre existe uma carga dramática maior. Ontem, o presidente François Hollande da França fez um discurso semestral de balanço, no qual apontou as dificuldades e metas para a economia francesa (um tema bastante importante, já que está sendo obrigado a retomar muitas políticas de seu impopular antecessor), mas a imprensa queria saber mesmo é de seu possível caso extraconjugal com uma atriz e como fica a primeira-dama nisso tudo (perguntas das quais habilmente se esquivou).

Para situar um pouco o leitor, temos Hollande, o presidente francês, que é separado e vive numa espécie de “união estável” com a jornalista Valérie Trieeweiler (a da foto, que a rigor é a primeira-dama, apesar de não ser “oficialmente”). Porém, revistas de fofocas descobriram escapulidas de Hollande com a atriz Julie Gayet, e isso tudo resultou numa crise doméstica com Trieewieler, que está hospitalizada após uma crise depressiva. 

Parece que essa avidez por detalhes sórdidos da vida pessoal dos chefes de Estado é uma coisa bem europeia. Na França mesmo, Sarkozy dividia a vida entre a coluna política e a social por causa de seu badalado relacionamento com Carla Bruni. Já na Inglaterra, o caso mais famoso, isso chega a ser patológico e move uma “indústria” de imprensa marrom inteira. Mas basta lembrar do estardalhaço amoroso do governo Clinton para ver que não é exclusividade do velho mundo (apesar de quem os EUA têm uma tradição em garimpar escândalos de seus presidentes, mas isso é outra história).

É estranho pensar sobre isso quando falamos, por exemplo, do Brasil (quando a coisa mais parecida foi lá na época do Itamar Franco, quando tiraram fotos indiscretas da Lilian Ramos junto do então presidente no carnaval de 1994). Temos tudo para oferecer histórias picantes, mas nada estoura, seja pela falta de uma imprensa dedicada a isso (e muito mais preocupada com conchavos políticos e denúncias para todos os lados) ou mesmo de “material humano”. Na verdade, é interessante reparar que a maioria das mandatárias pelo mundo nem chega a ter um “primeiro-cavalheiro”, como a própria Dilma (tínhamos o finado Nestor Kirchner da Argentina, mas hoje o mais relevante é o Dr. Joachim Sauer, um discreto professor universitário que deve ser mais famoso pelo trabalho como químico quântico do que por ser esposo da primeira-ministra alemã Angela Merkel), o que evita uma enormidade de problemas quanto a mexericos sobre a vida pessoal. 

Afinal, qual a importância de saber se tal presidente fez voto de castidade ou vive com concubinas? Quando vida pessoal vira assunto de Estado? Existe muita história atrás disso, mas a estrutura do poder atual é uma repercussão da vida em sociedade. Espera-se “retidão” do cidadão que teve os poderes do estado investidos nele. Como confiar a cambaleante política econômica a uma pessoa que trapeia a própria companheira? Obviamente uma coisa não absolutamente nada a ver com a outra, mas existe o tal conceito do homem público, que vive para o Estado, e sua vida particular passa a fazer parte disso, especialmente aos olhos daquela entidade nebulosa chamada opinião pública. Talvez seja justamente esse resquício de patriarcalismo que facilite a vida das chefes de Estado, já que estão “entrando” no sistema de maneira relativamente recente e não precisam obedecer às “regras” do jogo – mas essa é uma discussão que vai longe. 

Enquanto isso, Hollande fica com a dor de cabeça, Trieeweiler com a depressão, Gayet com a fama, os jornais com a audiência e temas frugais, como economia e intervenções militares na África, esquecidos.


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Espírito de reconciliação?

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Eis que no funeral de Nelson Mandela, ícone mundial da reconciliação, vimos uma cena inédita ocorrer: um cordial aperto de mãos entre os líderes Obama e Raúl Castro – sob o olhar atento de Dilma, dos demais presentes e dos flashes mundiais.

E por que tal ato surpreende de forma a transformar-se em manchete internacional? Estados Unidos e Cuba, de fato, não possuem relações entre si desde 1961, dois anos após a chegada de Fidel ao poder na ilha, nacionalizando propriedades estadunidenses. Em 1962, portanto, Kennedy impôs um embargo econômico duradouro aos cubanos, o qual permanece até hoje e torna as relações entre os países tão tensas.

Raúl hoje propõe que ambos os países venham a “respeitar mutuamente suas diferenças e acostumar-se a conviver pacificamente com elas”, denotando a necessidade de flexibilizar as posições para viabilizar o diálogo. O próprio Obama reconheceu recentemente que tinha acabado de nascer quando Castro chegou ao poder, sendo “tolice acreditar que as medidas implementadas em 1961 ainda são eficazes hoje, na era da Internet e do Google”.

Ou seja, ambas as partes demonstram um certo grau de abertura ao diálogo que não se via há décadas. O aperto de mão da foto apenas reforça, em sua sutileza, a esperança de que as relações bilaterais Cuba-EUA sejam restabelecidas em um momento histórico propício a renovações e movimentos de reconciliação.

Os traços de rivalidade entre os países ainda são grandes e não se espera, ingenuamente, que um aperto de mãos resolva todos os problemas. Contudo, Raúl Castro tem colocado em prática – ainda que lentamente – reformas econômicas na ilha que podem facilitar esse diálogo com os “inimigos” do norte. Discussões bilaterais recentes sobre imigração e serviço de correio entre os países representam ainda um avanço histórico após tantos anos de distanciamento entre os países e seus líderes.

Que a chama do espírito reconciliador de Mandela mantenha-se viva após as cerimônias oficiais de despedida ao líder sul-africano que comoveram o mundo em tantos momentos. Uma porta, ou uma brecha que seja, talvez aberta ao diálogo entre Cuba e Estados Unidos é certamente significativa em nosso contexto atual, reavivando as expectativas de que 2014 seja um ano decisivo com relação a avanços nas negociações internacionais em todos os âmbitos. 


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