Derrota iminente

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Ah, a Copa do Mundo. Começou ontem, e enquanto o leitor se depara com a enxurrada de notícias e análises que vão infernizar nossa vida por cerca de um mês, sugiro que confira com alguma atenção a seção de notícias internacionais de seu jornal. Isso por que existe um problema gravíssimo no cenário internacional que está passando completamente batido e pode ter muitas consequências inesperadas.

E não é um problema novo – a crise do Iraque, que está esquecida mas já completa mais de dez  anos (na verdade, se fossemos puxar o fundamento histórico, o Brasil nem era tetracampeão quando as coisas começaram a degringolar, mas enfim…). Nos últimos dias, a violência no Iraque aumentou consideravelmente (como se já não fosse alta) devido à ação de insurgentes sunitas que tomaram diversas cidades, espalhando violência contra a população xiita em seu caminho, e tomando o rumo da capital Bagdá em um ritmo alarmante – ao ponto de o presidente Obama cogitar medidas extraordinárias para ajudar a evitar a queda do governo iraquiano. Irônico, não?

A revolta sunita tem muito a ver com a marginalização em relação ao governo xiita. Nos últimos anos, o primeiro-ministro al-Maliki removeu oficiais sunitas e curdos das forças de segurança e contou com o apoio de milícias sunitas para atuar nas suas áreas; quando os levantes foram debelados, entre 2008 e 2009, esses sunitas foram simplesmente esquecidos e muitos tomam parte da revolta atual. Porém, a maior fonte de problema vem de fora. Esses insurgentes são liderados pela organização que começa a ganhar nome no cenário internacional como ISIS (em inglês, “Estado Islâmico da Síria e Iraque”), uma sucursal da Al-Qaeda que representava seus interesses no Iraque mas brigou com a matriz, usa de uma truculência desmedida e é um dos principais membros da oposição na Síria. Lembram do Boko Haram? Isso mesmo, o grupo nigeriano que sequestra meninas para revender e chacina estudantes. Basta dizer que é um “afilhado” da organização. Sequer podemos descrever como um grupo terrorista, e sim como uma facção política ultraviolenta que avança a passos largos pelo Oriente Médio (e norte da África).

As implicações desse avanço são enormes. Acima de tudo, pioram a crise do Estado iraquiano, que não parece ter fim (lembre que desde a invasão norte-americana o país ainda não saiu de estado de guerra) e embaralhou a geopolítica regional. Iraque, Irã e Arábia Saudita se contrabalanceavam; com a queda do Iraque, existe uma polarização nefasta entre a monarquia sunita do golfo e a república islâmica xiita, que favorece o radicalismo em ambos os lados. Curiosamente, o Irã parece ser o fiel da balança, já que é aliado dos governos atuais do Iraque e da Síria, sendo um inimigo potencial do ISIS. Os EUA apoiam a organização indiretamente na Síria (entre outros grupos radicais islâmicos, o que muita gente vem alertando desde 2012), mas em vista de seus interesses regionais, pode acabar tendo que buscar a aliança improvável com o Irã. E nesse meio todo temos Israel, programa nuclear iraniano, Rússia…

Se instabilidade no Iraque não fosse um problema suficiente para agravar a guerra civil na Síria, já que os países são vizinhos, se o ISIS conseguir se estabelecer de modo sólido naquele, terá uma base de operações para sua atuação na Síria e vai complicar ainda mais a até agora pior guerra civil do século.  Literalmente, é uma situação em que todo mundo tem a perder – nem mesmo a organização Al Qaeda é aliada do ISIS. Resta saber se o resultado será uma nova atuação independente dos EUA, a busca de alianças improváveis (mas históricas se vierem a ocorrer) ou o simples desmoronamento final de um Estado já em ruínas.


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O rei se cala

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Nesses últimos anos tivemos a chance de ver eventos bastante incomuns no cenário internacional, como um Papa deixando seu posto. Nesta semana, há quatro dias, vimos algo que parece coisa de livro de história, mas em pleno século XXI tivemos um rei abdicando em favor de seu filho, com a renúncia do rei Juan Carlos da Espanha.

Essa é uma imagem recorrente nos tempos pré Idade Contemporânea, quando guerras e brigas por sucessão dinástica eram comuns na Europa. Com a perda progressiva de poder das monarquias com os processos revolucionários e a estabilização da política europeia em modelos monárquicos parlamentaristas, no pós-guerra as famílias reais se tornam praticamente figuras decorativas, de alguma importância política, mas só. Por um lado, isso rende uma certa estabilidade, já que os soberanos acabam tendo uma vida à parte da política “dura” e não precisam se preocupar com repreensão pública a não ser que pisem feio na bola (e mesmo assim ainda temos figuras pitorescas como o Duque de Edimburgo Philip da Inglaterra e suas dezenas de citações infelizes).

O caso da Espanha, porém, tem um fator de peso – sendo um país assolado por sectarismo, a monarquia tem bem mais importância para a integridade do país. Na verdade, movimentos como o dos separatistas bascos não reconhecem o governo de Madri, e sim a Coroa. Por isso causa preocupação essa abdicação, pois mostra como a crise está afetando de modo cada vez mais profundo o país ibérico. A monarquia, antes uma das instituições mais respeitadas da Espanha, perdeu prestígio nos últimos anos por consequência direta da crise econômica. O rei Juan Carlos, muito famoso (e até querido) por essas bandas por ter mandado o finado Chavez se calar não goza mais de tanto carinho em seu próprio país, e não sem razão. Fausto e gastos despreocupados são traço de monarquias desde sempre, mas em um dos países mais endividados da Europa, as gastanças do rei, sua filha e genro escandalizaram a opinião pública ao ponto de ser necessária sua saída de cena. Não se pode deixar de associar essa medida extrema à saúde frágil do monarca (na verdade, a justificativa “oficial”), mas isso apenas reforça a tese de uma fragilidade ante a pressão e críticas.

Ao príncipe de Astúrias, agora rei, Felipe, sobre uma tarefa árdua – ser o representante da moral da nação no momento mais delicado de sua história recente, ao mesmo tempo em que deve articular habilmente, como seu pai, o complexo e instável xadrez da política doméstica espanhola.


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E que vença… o melhor?

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Em meio a um conflito armado de proporções alarmantes, eis que estamos diante de eleições presidenciais na Síria. Se a ideia de eleição remete aos preceitos de defesa da democracia, promoção dos direitos humanos e expectativa de mudanças, talvez o processo eleitoral hoje no país pudesse ter outro nome…

Considerada uma farsa pelos opositores do regime atual, bem como por boa parte da comunidade internacional, a eleição que se realizará amanhã na Síria começou, na verdade, na última quarta-feira nas Embaixadas sírias pelo mundo afora.

Pela primeira vez em décadas, há que se reconhecer, o pleito ao mais alto cargo político do país tem mais de um concorrente – porém de acordo com uma polêmica lei eleitoral que aceitou apenas três candidaturas de 24 levadas à Suprema Corte Constitucional. Os restritos critérios de “aptidão” dos candidatos levam apenas dois desconhecidos (Maher al Hajjar e Hasan Nuri) a competir com Bashar al-Assad na disputa presidencial, sob o mesmo discurso de combate ao terrorismo.

Com um saldo assustador estimado em 162.000 mortes, Assad – no poder há 14 anos, herdeiro de um cargo que seu próprio pai ocupou por mais de 30 – deve permanecer como líder do país por mais sete anos, em um processo que parece apenas artificialmente indicar a liberdade de um povo em lutar por mudanças políticas.

Na semana passada, as eleições nas Embaixadas da Síria pelo mundo indicaram importante participação popular, porém com indicativos preocupantes de manipulação, especialmente em meio aos refugiados nos países vizinhos. Nos Estados Unidos, na França e em uma série de outros países, as votações sequer foram permitidas.

Em Brasília, por sua vez, as eleições transcorreram em clima festivo (fotos), reunindo a comunidade síria local com o intuito do voto e da confraternização. Não se pode negar que o fato de que os sírios tenham a possibilidade de votar em três candidatos diferentes (e não apenas responder sim ou não em um plebiscito) por si só não deixa de ser importante.

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Contudo, inocência seria acreditar que os dois novos candidatos possuem iguais possibilidades de vencer uma disputa com aquele que estampa quadros e faixas, reprimindo as forças rebeldes (!), mas tornando cada dia mais complexa a evolução de uma crise regional que se alastra há três anos, ainda sem perspectiva de ser encerrada. Contradições que persistem em um país cujos anseios por paz e democracia contrastam com a dura realidade de uma guerra civil.

Nesta disputa síria, só nos resta esperar que, muito em breve, possamos nos referir a batalhas apenas eleitorais com um candidato vitorioso cuja missão venha a promover a paz e a reconciliação neste mandato que se iniciará.

[ATUALIZAÇÃO: E não houve surpresa na confirmação da vitória de Bashar al-Assad para seu terceiro mandato consecutivo, eleito com 88,7% dos votos (alcançados, não por acaso, apenas nas áreas sob controle do governo…). Sob a alegação de que as eleições foram ilegítimas, a oposição argumenta que a luta contra o regime deve continuar, em um cenário trágico de conflito, disputa política e convulsão social completa.]


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Criando seus demônios

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Após o ultraje internacional direcionado ao rapto de centenas de meninas na Nigéria, finalmente o Conselho de Segurança da ONU tomou uma decisão (após a Nigéria relutar por semanas, afinal não pega bem ter que ficar pedindo ajuda internacional…) e baixou sanções contra o grupo Boko Haram, incluindo nebulosos “congelamento de bens e embargo de armas”. Na prática, não parece que o resultado vá ser tão relevante, mas no campo das ideias significa muito – incluindo o grupo na lista de organizações terroristas como Al Qaeda e outros, praticamente dá a chancela da ONU de reconhecer aquilo como um grupo radical e verdadeira ameaça à segurança internacional. Ora, não é justamente o que eles querem?

Existe um famoso e controverso documentário da BBC britânica chamado “The Power of Nightmares”, que em três episódios esmiúça a relação existencial entre os grupos terroristas islâmicos e o movimento neoconservador nos EUA. Um dos dados mais chocantes que se constata nos vídeos é que a famosa Al Qaeda simplesmente não existia até idos de 1998 – havia um grupo de descontentes ligados ao finado Osama bin-Laden, mas sem expressividade ou agenda concreta. Porém, devido a uma série de fatores (e um julgamento fajuto) a mídia e o governo norte-americanos lançaram o termo “Al Qaeda” para designar o grupo, dando-lhe assim um nome e propósito (de fato, bin-Laden nem nome tinha para sua turma e só assumiu de fato o antiamericanismo quando os próprios EUA engoliram essas ideias). O resultado disso tudo é que hoje um grupo de meia dúzia de tresloucados, que se tivessem sido deixados de lado possivelmente nem teriam sobrevivido aos conflitos internos com outros ativistas islâmicos, foram reconhecidos como ameaça pela maior potência do mundo e criaram uma aura de interesse ao seu redor, inspirando muita gente a seguir seus passos. E com isso o grupo é uma ameaça verdadeira nos dias de hoje, como podem constatar os habitantes de Nova Iorque, Londres e Madri.

Longe de dizer que o Boko Haram deva ser ignorado, mas se o exemplo da Al Quaeda ensina alguma coisa é que dar esse “status” a grupos criminosos e terroristas geralmente apenas aumenta seu apelo. Vamos lembrar que definições de terrorismo são variadas, mas um traço comum é o fato de buscar o terror psicológico na população civil, sempre sob ameaça do desconhecido. O grupo nigeriano já tinha na conta milhares de mortes em atentados (que deveriam ser tão chocantes quanto o sequestro das meninas, mas não despertam tanto interesse na mídia…), e estando sob os holofotes da mídia internacional, não vai buscar outra coisa que não seja mais “publicidade” para suas atividades. Basta ver o duplo atentado do dia 21, em que mais de 140 pessoas pereceram. Muito provavelmente, a tendência é que os ataques do grupo aumentem para explorar a imagem criada pelas próprias vítimas. O caminho das sanções é importante para estrangular a captação de recursos dos grupos, mas não é o bastante. E pensando na fragilidade do governo nigeriano com relação a essa crise, infelizmente devemos esperar mais ataques e vítimas nas próximas semanas…


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E a história se repete…

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Há algumas décadas, imagino que não seria utópico pensar que, no ano de 2014, as ideias de genocídio e crimes contra a humanidade constituiriam marcas de um passado distante, refletindo expectativas em relação a um novo contexto internacional em que tais situações não mais seriam identificadas ou, se identificadas, facilmente combatidas.

Como tragédia ou farsa, já ouvíamos de Marx que a história se repete e, infelizmente, é o que vemos hoje acontecendo no Sudão do Sul. Este que é o mais novo país do mundo, cuja independência do Sudão ocorreu em julho de 2011 e configurou a esperança de solução para uma guerra civil duradoura em que sudaneses, ao sul e ao norte, sofreram aos milhões, tornando-se refugiados ou vítimas fatais de um conflito do qual não escolheram fazer parte.

Com uma geografia privilegiada em relação a reservas de petróleo, esse benefício se tornou a maior fonte de recursos (95% da economia do país) e, ao mesmo tempo, de hostilidades na região. Unindo esse elemento econômico às tensões étnicas que insistem em assolar o continente africano como um todo, mas hoje especialmente o Sudão do Sul, vimos um país nascer, porém já iniciar sua história com massacres e mortes. Despreparo de um país recém-criado em lidar com a situação? Corrupção política? Escasso apoio da comunidade internacional? Talvez todos esses elementos juntos ou nenhum deles sejam capazes de explicar a situação. [Reveja post de 2012 no blog a esse respeito aqui.]

Em um contexto como tal, fato é que nem o Sudão nem o Sudão do Sul puderam ainda vislumbrar o conceito de estabilidade nos últimos anos. Desde dezembro de 2013, contudo, uma situação cada vez mais crítica se alastra no Sudão do Sul sem que alcance os noticiários internacionais, em repetição de história já antes contada, como em Ruanda, há exatos vinte anos.

Tudo (re)começou no final do ano passado quando o ex- vice-presidente Riek Machar foi acusado pelo presidente Salva Kiir de uma tentativa de golpe de Estado, refletindo uma crise política enraizada em diferenças étnicas. O presidente Kiir é da etnia Dinka, predominante no país, enquanto Machar pertence à etnia Lou Nuer. [Mais informações aqui.] Desde 2011, conflitos étnicos têm sido constantes entre as comunidades, exacerbando-se nos últimos cinco meses e levando as Nações Unidas a alertarem a respeito da possibilidade de genocídio no país, além dos inúmeros crimes contra a humanidade cometidos por ambas as partes em conflito.

Segundo informações da ONU, 716.500 pessoas foram deslocadas no interior do Sudão do Sul desde dezembro, e 166.900 tornaram-se refugiadas em países vizinhos, mesmo com a presença de uma Missão da ONU no país (UNMISS). Números expressivos que levaram Ban Ki-moon (foto) e John Kerry (sempre ele) a mediarem um “Acordo para reduzir a crise no Sudão do Sul” na sexta-feira, com o compromisso de Kiir e Machar em assumirem um cessar-fogo que permitisse o apoio humanitário às vítimas.

Menos de dois dias depois de o acordo ter sido saudado internacionalmente, já foram registrados novos conflitos na cidade de Bentiu, estratégica pela produção de petróleo, e as partes se culpam mutuamente pelo reinício das hostilidades e pelo fiasco no diálogo.

À beira de uma epidemia de fome que pode vitimar 50 mil crianças (!) em um horizonte de poucos meses e se tornar uma das mais graves crises no continente africano em comparação com as últimas décadas, dizer que a situação demanda uma ação urgente é pouco. Entretanto, a perversa mistura de motivações e interesses políticos, econômicos e étnicos traduz uma situação de instabilidade em que a comunidade internacional se faz incrédula, ao mesmo tempo que impotente/indiferente diante de tamanha violência que se repete na região…


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Sobre monarcas e republicanos…

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Monarquia
A data de 21 de abril apresenta uma coincidência interessante envolvendo Brasil e Reino Unido: no dia em que os brasileiros relembram, inclusive com um feriado nacional, a morte do republicano Tiradentes, mártir na luta contra a monarquia portuguesa, os ingleses, por sua vez, comemoram o nascimento da Rainha Elizabeth II, soberana no país desde 1952.

A mesma forma de governo combatida pelos inconfidentes mineiros no Brasil e que levou ao enforcamento e esquartejamento (!) de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, possui raízes históricas no Reino Unido, sendo a monarquia valorizada pela população e a rainha uma celebridade (inter)nacional.

Neste dia 22 de abril de 2014, a Rainha celebra seu aniversário de 88 anos com o lançamento de um novo retrato oficial (foto) destinado à estratégia de marketing para a promoção internacional do país. Já há 222 anos relembra-se no Brasil a memória do mártir Tiradentes, tendo sua sentença sido executada em praça pública em 1792.

Ícones em suas realidades, fato é que ambos fazem/fizeram parte da história de seus países e que a monarquia é o elemento que os une na análise: enquanto Elizabeth já nasceu dentro do sistema e cedo se tornou responsável por sua continuidade, o republicano Tiradentes se tornou nacionalmente conhecido por combatê-lo, lutando contra os impostos e as imposições de Portugal, especialmente na província mineira.

Se os ingleses não se imaginam sem sua Rainha e saem às ruas para homenageá-la em seu aniversário hoje, os brasileiros relembram, ao mesmo tempo, o momento histórico da Inconfidência Mineira e o luto de seu protagonista, fazendo com que a data de 21 de abril seja marcante tanto para monarcas quanto para republicanos…


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Fraternidade

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A Argentina e a Venezuela são muito parecidas, e muito diferentes. O continente está no meio de uma turbulência política, e os centros dela são esses dois países, em que um modelo de regime prosperou nos últimos 10 anos e agora não sabe exatamente como lidar com a insatisfação quando as coisas não funcionam. Mas a reação é meio diferente nos dois casos.

Da Venezuela já falamos recentemente. O presidente, Nicolas Maduro, herdeiro do Chávez, enfrenta uma onda de protestos que começaram despretensiosos e agora já chegam a ser contabilizados em mortes. Organizações alertam para a violação de direitos humanos enquanto o governo acusa a oposição de estar sendo financiada por potências imperialistas e de criar discórdia. Mas lembremos que nas eleições do ano passado sua vitória foi apertada, então não é exagero pensar que pelo menos metade do país pode sim estar insatisfeito com os rumos da Venezuela. Disso para derrubar um governo são outros quinhentos, mas não dá pra dizer que seja uma conspiração ou algo do tipo, e a economia vai de mal a pior.

Na Argentina, a coisa também desanda após mais de uma década de “kirchnerismo” e Cristina K., que já anda às turras com imprensa e diversos setores do empresariado,  enfrentou uma greve geral nesta quinta-feira. O impacto é notado até mesmo em outros países – voos para a Argentina estão sendo cancelados por todo o continente. Assim como na Venezuela, existe uma liderança personalista e forte na oposição (o caminhoneiro Hugo Moyano, líder do fortíssimo sindicato de transportadores), e o país está praticamente dividido, com sindicatos peronistas alinhados ao governo (como o dos professores e bancários) não aderindo às paralisações.

O interessante é justamente notar como a reação foi diferente em cada caso, e diz um pouco da própria cultura política de cada país. Na Argentina, cujo governo militar foi possivelmente o mais sanguinário das Américas, o debate político ainda é muito forte e confrontos violentos não costumam ser a tônica das reivindicações. Greves e panelaços são bem seu estilo. Já na Venezuela, que não passa uma década sem alguma tentativa de golpe, a insatisfação escalou muito mais rapidamente para chegar ao confronto, com repressão violenta do governo, prisões aparentemente arbitrárias e mortes anunciadas. Mas a conclusão é a mesma, com os governos não dando o braço a torcer – mesmo na Venezuela, onde está havendo intermediação internacional, o diálogo com a oposição não parece que vá render grande coisa. Na Argentina, Cristina dá de ombros aos grevistas. Ambos continuam acusando a oposição e “forças externas” pelos problemas de dentro. E a vida continua…


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1994, 20 anos depois

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Ruanda
1994, 20 anos depois. Há exatas duas décadas, o horror se iniciava em um país africano, até então, do qual pouco se sabia ou se procurava saber. O pequeno território de Ruanda se tornou palco de um dos maiores massacres da década de 1990 – um genocídio que, em aproximados 100 dias, levou à morte cerca de 800 mil inocentes, marcando tristemente e para sempre a história de um país e do mundo inteiro.

Tentar entender o genocídio de Ruanda em poucas linhas não é tarefa fácil, dada a complexidade histórica de um país cujas marcas da colonização europeia deixaram raízes profundas, influenciando na própria diferenciação étnica entre “hutus” e “tutsis”, origem social e política de toda a violência que seria presenciada anos depois.

A (ainda obscura) queda do avião do presidente Habyarimana, hutu, em 06 de abril de 1994 desencadeou uma situação de instabilidade política e rejeição à minoritária, mas historicamente dominante no poder, etnia tutsi que definiu os traços de um genocídio – sinônimo de extermínio de todo um povo ou grupo étnico – como ainda não se havia (ou nunca se deveria ter) visto no mundo pós-Guerra.

Em linhas gerais, e para além de todo o atentado contra a humanidade que Ruanda vivenciou, fica o registro histórico da incapacidade internacional em (re)agir à situação. Passividade, inoperância, inconsequência… não há conceito que traduza a postura de uma comunidade internacional cujo choque diante das imagens ruandesas provocou talvez muita indignação retórica, mas pouca ação prática em um país onde as Nações Unidas já possuíam o mandato de proteger civis, mas se abstiveram de sua nobre missão, diante de claro desinteresse político na crise.

Sob o lema “Lembrar, unir e renovar”, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, incitou há semanas o debate sobre as lições aprendidas pós-Ruanda no seio da organização, a qual reconhece ter pouco ou nada feito diante da situação no país. Hoje, no “Dia Internacional para Reflexão do Genocídio de 1994 em Ruanda”, celebrou-se uma memória ainda muito viva, talvez pela experiência de seu próprio presidente, Paul Kagame, cujo envolvimento na morte do presidente Habyarimana ainda é questionado, bem como sua influência na escalada da violência na vizinha República Democrática do Congo, talvez pela ferida que segue contrapondo colônia e colonizadores tanto tempo depois de sua emancipação. Farpas políticas trocadas por Ruanda e França ainda trazem a polêmica “Operação Turquesa” ao centro do debate…

Diante de um país que prospera crescentemente nos indicadores econômicos e sociais, fato é que parece inconcebível constatar que, há vinte anos, se iniciava o massacre de aproximadamente 10 mil (sim, 10 mil!) tutsis e hutus moderados por dia (sim, por dia!) em um horizonte de três infindáveis meses. Cada ser humano sendo muitos, o número total de vítimas ultrapassa qualquer soma. Não há palavras para justificar ou compreender motivação genocida como aquela vivida em Ruanda, semeada por tantos anos, e com consequências tão desumanas.

Fica apenas um sentimento misto de luto, memória e culpa, aliado à necessidade de que tanto sofrimento desabroche finalmente em frutos de paz e convivência fraterna entre indivíduos, povos e sociedades.


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Há um ano...

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Relogio

Há um ano, o blog comentava o grupo BRICS, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, cuja V Cúpula anual acabava de se realizar na Índia. Em uma análise crítica e construída com base em argumentos concretos (vale a pena rever aqui), apresenta-se uma reflexão sobre a real efetividade do BRICS no atual contexto internacional. Acrônimo que reúne países de inegáveis proporções estratégicas, de que forma lidar com as lutas de poder em diferentes âmbitos multilaterais (Contexto de Segurança, por exemplo) para consolidar um grupo de tamanho potencial?

Fica a pergunta no ar, em um ano em que a Cúpula será “atrasada” para realizar-se em Fortaleza, logo após a final da Copa do Mundo. Diante do impasse internacional envolvendo a anexação da Crimeia pela Rússia, o BRICS tem se mostrado um fórum em defesa do diálogo e da não exclusão dos russos do G-20 (tal como já ocorreu com o G-8/G-7). De que forma o bloco evoluirá, pouco se pode presumir, porém fato é que o papel da Rússia poderá definir rumos diferenciados de construção e embate político entre grandes potências mundiais (emergentes ou não) diante de alianças e enfrentamentos.

Outro tema discutido no blog era a (sempre polêmica) Coréia do Norte, persistindo “alheia à ordem internacional”. Diante do uso de recursos bélicos contrapostos a pressões econômicas, vemos um país perpetuar práticas de abusos contra os direitos humanos de seus cidadãos em suas mais diversas formas. Com a recente aprovação total (!) nas urnas legislativas, Kim Jong-un segue com a ditadura que manda um recado claro para a ONU “cuidar de sua vida” (!!!) em meio a debates sobre crimes contra a humanidade cometidos no país… ano após ano, apenas a gravidade das acusações parece aumentar.

Por fim, fomos brindados com uma interessante (e atemporal) reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e a forma como reagimos a elas. Vale a releitura!

Postando, relembrando e refletindo, este é o propósito do “Há um ano…” na nossa Página Internacional!


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O que deu errado?

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O que deu errado na Turquia? A exemplo do BRICS, o país tem participação em seu próprio acrônimo, o MIST (junto com México, Coreia do Sul e Indonésia), como uma possível ilha de crescimento e futuro econômico. Mas ironicamente essa esperança parece se dissipar em uma névoa nos últimos dois anos, com crise econômica e um abalo político sem precedentes que transformou a imagem do primeiro ministro Recep Erdogan de um líder progressista em um tirano. Duas notícias dessa semana podem explicar um pouco dessa decadência.

Vendo de fora, há pelo menos dois fatores que explicam a importância de Ankara no cenário regional – sua relação com Israel e com a Síria. Após o ataque à flotilha de ajuda humanitária em 2010, as relações com Israel azedaram e a coisa esfriou apenas no ano passado com pedido de desculpas do premiê Netanyahu. E a Turquia é um dos principais interlocutores do processo de paz com os palestinos, então a situação não vai tão mal hoje. O problema mesmo é com a Síria – antigo aliado, mas que após o início dos conflitos com Assad se tornou inimigo com o apoio de Erdogan a grupos opositores – muitos deles extremistas. A guerra civil síria resulta em conflitos de fronteiras (com eventos como a possível derrubada de um avião sírio reportada nesta semana) e o principal fator de instabilidade, a fuga maciça de refugiados para o lado turco da fronteira. Estima-se algo em torno de 750 mil (mas pode chegar a  um milhão) de sírios no país vizinho, criando pressões internas além das que o governo já enfrentaria normalmente (como a questão curda). E isso tudo pra não falarmos do seu papel nas negociações com o Irã – apesar de o acordo costurado junto ao Brasil não ter vingado em si, ainda são países vizinhos, e um reage aos espirros do outro.

Mas aqui entra o segundo ponto – o apoio de Erdogan a grupos extremistas é sintomático da sua posição ideológica. A Turquia se orgulha de ser um Estado laico (desde os tempos do “pai fundador”, Ataturk), e Erdogan gradualmente aplicou uma agenda islâmica, que foi a raiz dos conflitos  em sua administração, somada ao atrito com o exército e denúncias de corrupção generalizada. E como todo governante que concentra poderes em um sistema corrompido, Erdogan retalia os inimigos com força. Nesta semana, se valeu de um dos grandes recursos clássicos dos líderes autoritários, literalmente, calar a voz da oposição, com a proibição de serviços como Twitter e Youtube. Censura descarada. A justificativa é para evitar “revelações” que poderiam causar guerra com a Síria (algo indesejável mas não impensável no momento), mas fica claro que é um “sacrifício” bem oportuno para a situação.

Talvez o grande ponto de crise seja o próprio Erdogan – não é um excêntrico como Kim Jong-un (que alegadamente baixou um decreto obrigando os cidadãos a usar cortes de cabelo aprovados pelo governo), mas gradualmente caminha para o caminho do autoritarismo (se já não tiver chegado lá). No mínimo desanimador, já que a vibrante democracia turca fazia com que se apostasse muito em sua liderança e estabilidade para esse cenário de crise. Com o sonho de ingressar na zona do Euro praticamente enterrado, temos um país em crise econômica acentuada e convulsionando politicamente. A esperança de mudança para esse quadro pode vir nas eleições do próximo domingo, em que vamos saber se surgirá uma nova liderança capaz de colocar o país nos trilhos ou se o impetuoso líder atual continuará aprontando.


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