O Brasil na luta global contra a fome

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Se, até agora, o Brasil ainda sonha com um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, a conquista do cargo de diretor-geral no órgão da organização para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) é uma realidade. Finalmente, um cargo de liderança na principal organização internacional (relembre, por exemplo, neste post do Alcir, uma manobra diplomática pouco entendida em relação a uma possível eleição para a Unesco). José Graziano, ex-ministro do governo Lula e atual representante da FAO para América Latina e Caribe, assumiu o cargo, após derrotar o diplomata espanhol Miguel Moratinos na eleição realizada no último domingo. Essa vitória – apertada, diga-se de passagem, 92 votos contra 88 – ocorreu graças ao apoio maciço dos países em desenvolvimento.

Quais as implicações dessa posição recentemente alcançada? O que isso representa para o Brasil? Primeiramente, ressalta-se que a missão da FAO é combater a insegurança alimentar. Isso é consonante com a prioridade do atual governo, iniciada nos dois mandatos anteriores de Lula: a luta contra a fome. No discurso de posse, a presidenta Dilma Roussef anunciou que a erradicação da fome e da miséria ditará a tônica deste quadriênio, o que pode ser confirmado com o lançamento, neste mês, do programa “Brasil Sem Miséria”.

Em segundo lugar, do ponto de vista das relações internacionais, observou-se, em outro post, que a questão dos alimentos está se tornando um tema cada vez mais sensível. Os preços subiram, estão 36% mais altos que há um ano, e um novo aumento de 10% poderia deixar mais de 10 milhões de pessoas na pobreza extrema. Um exemplo prático: se o preço do pão aumenta para um norte-americano, ele comprará menos pão; porém, se o preço aumentar para um congolês, ele poderá fazer apenas uma refeição diária. O Brasil ocupa, institucionalmente, uma posição de liderança na luta contra a fome e a miséria e deve enfrentar desafios.

O baixo orçamento da FAO é o primeiro deles. A organização dispõe apenas de 2,2 bilhões de dólares até o ano de 2013, dos quais 65% são destinado para o pagamento de funcionários. Para se ter uma ideia, é menor do que a verba destinada aos programas Fome Zero (US$ 4 bilhões) e Bolsa Família (US$ 7 bilhões). O segundo desafio é que os alimentos estão ameaçando travar as negociações comerciais e financeiras. O G-20 econômico, grupo constituído pelas vinte maiores economias do mundo, discute a possibilidade de se criar um mercado, um banco ou um estoque global de alimentos, bem como elevar a produção, para controlar o preço. Os países em desenvolvimento discordam.

O que fazer com os alimentos? Como eliminar a insegurança alimentar? Aí também acaba entrando meio ambiente, urbanização, crescimento populacional e outras questões. A recente conquista do cargo na FAO, para além das manobras políticas, indica a relevância, interna e externamente, que o Brasil atribui à questão da fome. Particularmente, nas relações internacionais, essa luta demonstra a continuidade da estratégia adotada, pelo país, de inversão da agenda internacional, priorizando o combate global à fome em detrimento do combate global ao terrorismo. E também traz novas responsabilidades, para as quais o país deve estar preparado.


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Existe chavismo sem Chávez?

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Chávez, gostem ou não, raramente mantém grandes lapsos de silêncio. Suas aparições são variadas e contundentes, uma das fortalezas do regime por ele comandado. Aquele socialismo do século XXI, apregoada há tempos pelo mandatário venezuelano, fica melhor contextualizado para muitos por meio do termo “chavismo”. Sem ele, não haveria o movimento socialista repaginado tal qual conhecemos atualmente. Nesse sentido, a internação em uma clínica em Havana (Cuba) e os 12 dias em que o presidente se manteve longe da mídia bastaram para despertar novas discussões.

Pouco se sabe sobre o problema de saúde que o acomete, porém menos ainda se sabe sobre o que seria do regime frente possíveis limitações ao exercício de sua função. O chanceler Nicolas Maduro resume a preocupação: “A batalha que o presidente Chávez está enfrentando por sua saúde deve ser uma batalha de todos, uma batalha pela vida, pelo futuro imediato de nossa pátria”. Uma das características que sustenta governantes por todo nosso continente é justamente o viés personalista que adotam. No caso de Chávez, reformas constitucionais garantem o direito de re-eleições ilimitadas na Venezuela, sendo o atual presidente a grande – quando não única – aposta de seus seguidores.

Mesmo que a situação de Chávez não lhe imponha nenhuma limitação às suas funções e seu ativismo, ainda desperta uma velha pergunta intermitente. Existe “chavismo” sem Chávez? O dilema não é novo. Fidel Castro transferiu seus poder político e decisório em Cuba, seguindo um cronograma conservador como meio de garantir a aceitação popular e a legitimidade política de seu sucessor, Raul Castro. Em realidade, esse exemplo pouco nos serve. Chávez poderia escolher um sucessor dentro do partido, o(a) qual teria de enfrentar uma dura luta eleitoral. Assim, muito como Lula no Brasil, um dia o maior expoente do “chavismo” elegeria um(a) herdeiro(a) somente em seu partido. No melhor dos cenários, esse sucessor seguiria rumos similares e ficaria à sua disposição re-eleições ilimitadas.

O silêncio de Chávez, interrompido via rede social durante a manhã de hoje, preocupou seus partidários e abriu espaço para novas ondas de questionamento da oposição. Afinal, não foi empossado temporariamente o vice-presidente, tampouco houve transparência sobre o real quadro de saúde do presidente. 12 dias de um vazio político somado a problemas sérios na Venezuela. Talvez fosse a hora de Chávez começar a pensar no futuro de seu país desvinculado do seu, para o bem do acirradamente defendido projeto de “Revolução Bolivariana”. Muito se perderia caso não se construa essa diferenciação ou mesmo que os cidadãos não a reconheçam. Frente a uma nova eventualidade com a saúde de Chávez, há alguém que personifique a imagem de comandante? Muito poderia estar em jogo, possivelmente o “chavismo” em si.


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Vem, vem, Croácia vem!

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E não é que a Croácia será mesmo o próximo país a fazer parte da União Européia (UE)? Desta forma, o número de membros deste bloco de grande prestígio político-econômico no mundo sobe para 28, sendo a Croácia o segundo país formado após o desmembramento da antiga Iugoslávia a fazer parte dele (o primeiro foi a Eslovênia).

A inclusão croata na UE foi anunciada hoje pela Comissão Européia – após anos de negociações, adaptações e reformas –, mas o tratado de adesão ainda precisa ser assinado e a entrada efetiva do país no bloco está prevista apenas para julho de 2013. Apesar disso, os principais passos já foram dados e espera-se que o governo croata mantenha as condições determinadas nos últimos anos como pressupostos para a aceitação do país na UE.

Detalhe que a admissão da Croácia vem ainda carregada de mais um significado: estímulo para que mais países do Sudeste da Europa se esforcem para cumprir as exigências e ingressar na UE, em que se destaque o caso da Sérvia.

Se, por um lado, a entrada da Croácia parece dar novo ânimo aos entusiastas da UE e enfatizar os benefícios de fazer parte do bloco (a despeito das contrapartidas exigidas em termos políticos, econômicos e sociais); por outro lado é inevitável reconhecer que, em geral, a Europa não passa por seu momento de mais pleno crescimento, em todos os sentidos. Pelo contrário. A trágica situação grega ou a revoltosa situação espanhola, por exemplo, constituem aspectos bastante midiatizados nos últimos tempos que deixam claras as crises internas dos países-membros da UE que, inevitavelmente, afetam de alguma forma todos os membros do bloco.

De fato, o conhecido ditado “Grandes poderes trazem consigo grandes responsabilidades” parece ser mais verdadeiro que nunca para a União Européia. Com a ampliação do bloco e a busca por seu fortalecimento, todos os países-membros assumem cada vez mais riscos e responsabilidades uns em relação aos outros. Ceder, de certa forma, parte de sua soberania para obter maiores benefícios conjuntamente em um bloco supranacional demonstra o interesse dos países europeus em se aliarem em prol de seu próprio crescimento nacional. E que venha a Croácia, então!


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França, a prostituta europeia

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A Velha Senhora, como é conhecida a cidade de Paris, ainda tem muito do seu amor de pássara noturna para dar e vender nas relações internacionais. Isso tem uma explicação muito simples: a França alimenta os sonhos reprimidos de ser a grande potência europeia que não foi, ofuscada pelo brilho britânico durante todo o século XIX. A obra inacabada de Napoleão Bonaparte povoa o imaginário francês e, ao mesmo tempo, corrompe-o. Um dia, dorme com um cliente, noutro, com outro. Depois os esquece e se vende para os mais fortes.

Quem tomou a dianteira para bombardear a Líbia? E a Costa do Marfim? Quem agora quer, a todo custo, sancionar a Síria? Muitas vezes, a memória é mais fraca do que se pensa. Isso é também proposital. Há pouco tempo, Sarkozy dormia com Kadafi por causa do petróleo líbio e flertava com Al Assad, almejando influência no Oriente Médio. Agora não mais. O negócio é atacar, dissimular, ser grande… Então, chama as amiguinhas potências, fala uma coisa sensível sobre direitos humanos e as convoca para agir, sem medir a consequência dos atos. O importante é dizer: “Fomos nós, franceses, que tomamos a iniciativa!”

Aí vem a parte econômica. Tem um francesinho na diretoria-geral da OMC, Pascal Lamy, e querem outro no FMI, Cristine Lagarde. Aqui, os franceses optam por seduzir os países emergentes. Se concretizada a escolha, as negociações futuras estão condenadas a nascerem travadas, principalmente na questão agrícola e na política cambial e fiscal. Ora, deixar a principal instituição econômica e a principal instituição financeira justamente nas mãos de quem é autor da Política Agrícola Comum (PAC) europeia é pedir para esquecer grandes acordos em uma das áreas mais travadas ou repensar a atual crise sob o viés do dito mundo desenvolvido. Daí prevalece a França, que prefere ser tratada por Europa, só porque soa mais bonito: a vontade dos europeus está sendo bem representada.

Ah, sim. É impossível não lembrar que a Revolução Francesa trouxe novos ares para o mundo. Na época, as aspirações nacionais, encabeçadas pelos girondinos, deveriam se tornar aspirações universais: a libertação da França conduziria a libertação dos demais povos. E hoje? Já pensou se as fronteiras da exclusão, lançada contra imigrantes, notadamente muçulmanos, e ciganos virarem moda? Leis racistas, xenófobas, intolerantes, etc., emanadas do berço da liberdade contra a liberdade. É claro que isso não é importante, afinal, o governo francês luta pelos direitos humanos fora de casa, não é? Tadinho do sírio, do líbio… a maioria deles, muçulmanos!

Pois é, vale tudo para a França ter os seus orgasmos da grande potência que não foi e nem vai ser. Não adianta nem querer ressuscitar Napoleão III – em cujo período de governo o país gozou de maior influência na Europa – e restaurar o antigo Concerto Europeu. Fato é que esse sonho já descansa em paz faz muito tempo e seu comportamento em função dele a torna uma prostituta. França, a prostituta europeia.


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Presentes de grego

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Desde o ano passado que temos falado no blog sobre a trágica situação de crise de dívida pública em alguns países da União Europeia. Esse é um momento de tamanha dificuldade que se tem questionado o tamanho dos custos dessa integração europeia e o quão dispostos em socorrer as porcalhadas de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (chamados pejorativamente de PIIGS pela imprensa, baseados nos nomes dos países em inglês).

E hoje a Grécia ainda está emersa nos graves efeitos dessa severa crise. Após a aprovação, no ano passado, daquele famoso pacote de austeridade fiscal que foi seguido de um pacote de ajuda de 110 bilhões de euros (a serem liberados gradualmente) pelo FMI e pelo bloco europeu, esses dois credores se preparam para liberar mais 12 bilhões de euros da quantia.

Só que, como da última vez, para garantir mais uma parte do valor, a Grécia precisaria aprovar mais medidas de austeridade fiscal, significando cortes de gastos públicos em geral, como saúde, educação, reduzir salários, demitir funcionários públicos, realizar as sempre polêmicas privatizações, entre outras. O primeiro passo em direção da consolidação dessas novas medidas já foi dado: o voto de confiança do parlamento do primeiro ministro grego, George Papandreou (cabe notar que os 158 votos que recebeu vieram do Partido Socialista, seu próprio partido).

Agora resta somente aguardar até a semana que vem quando o parlamento votará no novo pacote.

Se esse é um bom presente (apesar de questionar-se se é suficiente) para uma Grécia que sem essa quantia não conseguiria nem pagar suas dívidas do próximo mês, para a maior parte dos cidadãos gregos é tido apenas como mais um presente de grego, um conjunto de medidas extremamente impopulares. Isso porque não há previsões de o país recuperar-se no curto prazo, e acredita-se que ficará imerso em pacotes de austeridade pelos próximos quatro anos.

O que, em outras palavras, significa quase meia década sem crescimento real, quase meia década sem recuperação das produções nacionais e quase meia década de dificuldades para o povo grego. Situação já bem compreendida pela população grega que já saiu em protestos na noite da aprovação do voto de confiança do primeiro ministro.

Mas a questão que emerge é o que fazer? O que fazer se os custos de sustentar uma Grécia falida são altíssimos e se uma moratória grega representaria quebradeiras generalizadas de bancos na Europa (já que grande parte dos títulos da dívida pública da Grécia foram adquiridos por bancos alemães, ingleses e franceses)? O que fazer se o caminho para a recuperação implica em um severo prejuízo social?

Essas questões são muito mais complexas do que parecem e são aquelas que os próprios policymakers da UE e da Grécia tem se perguntado. E, enquanto isso, a população se revolta, mas espera que esses presentes de grego, no longo prazo, tornem-se o grande presente da recuperação grega.

[Para mais sobre o assunto: 1, 2, 3, 4 , 5 , 6 , 7 , 8]


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Socorram o Marrocos

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Parece que o tema da tal “primavera árabe” não morre tão cedo. Em 2011 já se falou de tudo sobre isso, de espírito democrático a questão de intervenções. Mas, qual o saldo até o momento? Temos dois governantes depostos, mas com seu país atualmente imerso em caos e incerteza (Tunísia e Egito), uma invasão cujo único resultado prático foi ressuscitar velhas maneiras de intervenção com uma roupa nova e causar a morte de mais civis, sem resultado prático visível (Líbia), e os casos em que o governante não larga o osso mas solta o porrete contra os insatisfeitos (Iêmen, Síria, etc…). Curiosamente, temos um caso em que finalmente podemos ter um resultado “satisfatório” em termos de democracia, que é o Marrocos.

O país do norte africano não escapou das ondas de protestos, mas a repressão foi bem mais, por assim dizer, light – mesmo por que a família real está consolidada no poder há mais de 300 anos, não são aventureiros como muitos de seus vizinhos, e a economia não anda mal das pernas. Quando tentou reprimir com mais violência, causou a morte de um opositor pacífico e gerou ainda mais furor; com isso, o governo diminuiu a repressão e parece que o rei Mohammed VI se deu conta que reprimir com violência é improdutivo. Continuam a pipocar denúncias e protestos, e de maneira inédita na região, foram apresentadas propostas de reforma para transformar o Marrocos em uma monarquia constitucional. É o bom e velho ditado dos “vão-se os anéis, ficam os dedos”: o rei abre mão de parte do seu poder para se manter, enquanto se implementam algumas reformas desejadas pelos revoltosos.

Se tudo correr bem, será um exemplo aos demais países da região, uma reforma pacífica e que não deixa um vazio político e problemático como no Egito ou Tunísia, mantendo um aparato institucional ao mesmo tempo em que se atendem as reivindicações (ou, ao menos, parte delas…). O grande mistério é o que esperar do rei Mohammed VI com relação às manifestações – tanto estas quanto a repressão foram crescentes nos últimos meses. E por mais que esteja evitando medidas mais drásticas, caso se sinta muito ameaçado, o governo pode recorrer ao exemplo de seus vizinhos, indo pelo caminho “fácil” de desbancar pra violência pesada contra os manifestantes.

Ignorando o palíndromo do título, o Marrocos parece ser um excelente exemplo de que a melhor via para a democracia é mesmo pela reforma interna. O jeito é torcer pelo melhor.


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Esse ouro parece mais lata

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Poucos são os temas que movem tanta emoção quanto os esportes. É amplamente reconhecido que os benefícios da escolha de nosso país para receber dois mega-eventos são imensuráveis. Fica fácil listar os pontos positivos: os investimentos estrangeiros, o crescimento do turismo, a evolução da infra-estrutura e o aumento do interesse internacional com relação ao Brasil. Para o bem ou para o mal, a imagem brasileira será muito pautada na qualidade da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

O Brasil, aquele “país do futuro”, viu sua vez chegar. Uma economia estabilizada e em expansão, ancorada na evolução da renda de seus cidadãos. No âmbito internacional, nosso papel diplomático foi ampliado, tal qual nossa influência nas decisões mais relevantes junto à comunidade internacional. O maior exemplo do momento favorável que atravessamos é a oportunidade de coroar nossa entrada no rol dos grandes através de eventos esportivos que demonstrem uma capacidade política apoiada em uma boa capacidade administrativa.

A grandeza dos eventos, especialmente as Olimpíadas, ensejou grande expectativa. Contudo, pouco a pouco, os custos são reavaliados, os requisitos se tornam mais rígidos, assim como as obras mal começam e já estão atrasadas. Para simplificar, no dia que o Brasil foi outorgado o direito de sediar os Jogos Olímpicos, os investimentos estavam estimados em 25 bilhões de reais. Atualmente, menos de dois anos depois, a conta (também em estimativa) já atingiu 62,5 bilhões de reais. 

Passando para a Copa do Mundo, Brasília, Cuiabá, Manaus e Natal terão estádios (construídos ou reformados) para mais de 40.000 pessoas, ainda que não tenham nenhuma equipe na primeira divisão do futebol nacional. Em total, a Copa de 2014 terá 10 cidades-sede. Até a FIFA (entidade responsável pelo futebol em nível internacional) preferia um número menor de sedes com o intuito de gerar menos despesas. Qual será o destino desses estádios depois?

Seguimos com fatos novos. Primeiro, alguns aeroportos poderão ser privatizados, afinal os nossos não chegam perto do ideal nem para nossa demanda corrente. Imaginem para eventos internacionais. As licitações também poderão ser flexibilizadas como forma de agilizar as obras. Por fim, o Fielzão (estádio que o Corinthians está construindo em São Paulo) será financiado pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento) e possivelmente terá isenção fiscal de até 420 milhões da Prefeitura de São Paulo. Ao contrário do prometido, o Corinthians construirá um estádio com dinheiro público para atender as demandas da FIFA. Se fosse um projeto desvinculado da Copa do Mundo, o próprio presidente do Corinthians já admitiu que a conta seria bem menor.

E agora? A Copa e as Olimpíadas vão representar “aquele país do futuro” ou “o país que viu seu futuro chegar”? Até o momento, os céticos parecem ver suas preocupações confirmadas. Mais que uma oportunidade para capitalizar nosso futuro, os mega-eventos podem enterrar de vez nossos planos de organizar eventos como uma grande potência. Ainda há tempo de ser diferente?

Lembram do meu ceticismo?


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Bolívia Motorizada

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Vamos falar de um assunto meio polêmico. Anda causando certo alvorço na mídia brasileira um decreto do presidente da Bolívia, Evo Morales. O motivo? Tal decreto anistia carros irregulares (leia-se: contrabandeados) em território boliviano mediante o pagamento de uma pequena taxa. A intenção é livrar a cara de muita gente e conseguir um pouco mais de arrecadação pra aliviar a secura nos cofres públicos do vizinho andino. É claro que a maioria dos vizinhos não gostou nada dessa notícia – carros contrabandeados são na maioria roubados em países como Brasil e Chile e, pior, servem como moeda de troca para a entrada de narcóticos bolivianos.

É claro que isso causou bastante comoção. A mídia aponta Morales como tresloucado, reclama da fraqueza do governo em permitir algo dessa natureza e prevê como os roubos a veículos brasileiros vão aumentar para alimentar essa economia macabra. O governo rebate enviando a La Paz listas de carros roubados para que não sejam legalizados (pouco efetivo, já que chegam com placas frias ou numeração raspada). Parlamentares exigem explicações do Itamaraty e cada vez mais a posição do Brasil parece complicada nessa questão.

Tem um aspecto bem interessante nesse rolo todo. Podemos reclamar o que for sobre essa medida do nosso vizinho (ao meu ver, bastante descabida, de fato). Agora, acho exagero reclamar do Brasil não ter pressionado para que isso não ocorra. É um assunto que nos afeta diretamente, mas Soft Power à parte, se trata de legislação interna e o Brasil não tem absolutamente nada em que pressionar ou intervir nisso. É simples assim. O que ele pode fazer, que é a integração de inteligência, como a questão de repassar as listas de veículos roubados, já está sendo feito. Talvez seja o caso de melhorar isso, como por exemplo, uma fiscalização mais rigorosa das fronteiras (afinal, carros não são coisas que se passam escondidas debaixo da blusa ou em fundo falso de motos na Ponte da Amizade). Por sinal, já passou da hora de fazer algo assim, e não apenas por causa de carros roubados…

Agora, alardear como vejo por aí que o Brasil “deixou” Morales agir como quis é no mínimo leviano. Se o Brasil deve ser criticado, vamos criticar pelo motivo certo, como o débil controle de fronteiras, em vez de ficar nos aspectos mais personalistas e descabidos de críticas como o governo foi passivo ou deixou de agir com relação a legislação interna de um Estado soberano.


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20 anos com corpinho de 90…

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Nesse fim de semana a Rússia fez 20 anos – ao menos, sua democracia, pois em 1991 era eleito Boris Yeltsin e terminava o sombrio período do desmoronamento da União Soviética. Indícios de uma era de paz e prosperidade pós-comunismo? Nem tanto, pois a primeira coisa que fizeram foi invadir a Chechênia, e repartir todo o aparato estatal entre oligarquias misteriosas que encheram as listas de “mais ricos do mundo” de magnatas russos.

Em 20 anos, o que conseguiram? 3 presidentes, uma certa melhora em níveis de vida, crises econômicas, alguns atritos com países vizinhos, o direito de sediar uma Copa do Mundo… Bem parecido com o Brasil pós-1988 não? Fora o número de presidentes, o Brasil e a Rússia passaram por poucas e boas desde que adotaram formalmente a democracia. Qual a diferença primordial? A Rússia ainda tem muita influência na política mundial. Não apenas por sua cadeira permanente herdada da URSS no Conselho de Segurança da ONU e as centenas de ogivas nucleares em sua posse (ainda a segunda reserva destas em número no mundo; vale lembrar uma antiga piada: os EUA disseram à URSS que tinham um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes, ao que os soviéticos respondem que se quisessem seu arsenal bastava para fazê-lo uma única vez…), mas pela capacidade de influência na região e mesmo na Europa. Basta ver como decisões da UE ou da OTAN sempre levam em consideração as possíveis reações russas.

Por isso podemos dizer que a Rússia tem um corpo de 90 anos – afinal, muito de seu poder e instituições são herdeiros diretos da URSS, e se criou uma situação paradoxal. Se a China é um país comunista atípico, “capitalizado”, ao mesmo tempo a Rússia é uma democracia consolidada, mas ao mesmo tempo “ditadorizada”, com eleições livres, oposição organizada e afins, mas onde opositores são marginalizados e eliminados sumariamente, o Estado é truculento e sua burocracia é rígida, centralizada, e serve aos interesses de um hiperpresidencialismo. Nas mãos de Putin e Medvedev, ficou bem claro nas entrelinhas de seus projetos políticos o desejo pela nova ascensão da Rússia como potência mundial, e para isso o Estado precisaria de mão forte. Há até mesmo quem diga que as recentes rixas entre os dois sejam uma mirabolante manobra planejada por Putin para mostrar que existe dissonância interna e legitimar sua eventual terceira vinda ao poder.

Teorias da conspiração à parte, o fato é que a democracia russa cambaleia, fragilizada ao longo de 20 anos de tratamento de choque. E o irônico é que, enquanto persistir essa estrutura vertical e robusta de poder político centrado, essa nova e sui generis democracia russa ainda vai fazer muitos aniversários…


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O xadrez particular da Turquia

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Se o cerco internacional sob a Síria tem se fechado ainda mais do ponto de vista da agenda do Conselho de Segurança e da AIEA, o contexto tem trazido questionamentos interessantes sobre a posição de seus vizinhos, especialmente da Turquia.

As acusações contra o líder que já considera o Estado de emergência como normalidade, Bashar Al-Assad, variam entre proliferação nuclear ilegal (com cooperação da Coreia do Norte) e violação dos direitos humanos. No plano interno, os conflitos têm escalado. As repressões assumem proporções cada vez mais amplas, parte da população está armando-se e há quem fale sobre riscos de eclodir uma guerra civil.

Agora, o que tem chamado atenção é o âmbito regional, no caso, o governo turco. Durante a revolta no Egito, a Turquia foi o primeiro a condenar Hosni Mubarak. Quando a revolta na Líbia estourou, a Turquia tardou, mas não falhou, condenando os massacres de Kadaffi.

Mas, ainda há todo um cuidado com relação à Síria. E por quê? Bom, pra isso precisamos entrar mais a fundo no xadrez geopolítico entre esses dois países.

Desde década de 1940 que esses países vivem situações de tensões, devido a disputas do território turco de Hatay, antes clamado ser parte da Síria, mas que foi absorvido pela Turquia após a segunda Guerra Mundial. As relações conflituosas permaneceram até a década de 1990, quando em 1998, ambos os países quase entraram em guerra direta. As relações entre esses países passaram a melhorar apenas com a ascensão de Recep Tayyip Erdogan como primeiro ministro turco.

E esse é um equilíbrio que demorou a vir e que ainda é bem instável. Demorado, instável e vulnerável, esse equilíbrio se faz necessário e essencial caso a Turquia ainda pretenda dar seguimento às suas aspirações de ser aceita na União Europeia. Em resumo, todo cuidado é pouco.

Nesse contexto, uma tradição de mediação seria bem mais interessante do que a pressão direta por intervenções severas, como parecem propor alguns membros permanentes do Conselho de Segurança (apesar de também haver indicativos de a Turquia poder compartilhar de alguma resolução contra a Síria). Há ainda outra questão ainda crucial: o volume de refugiados sírios que tem se acumulado na fronteira entre os dois países e inchado a população turca.

Diferente das demais revoltas árabes, a Turquia parece ter se colocado com bastante cuidado, como que pisando em cascas de ovos, para não colocar em xeque nenhuma de suas possibilidades em seu xadrez particular. A pressão por solução pacifica pode ser tradição diplomática turca, mas como muitos dos angus na política internacional têm caroços, esse caso não se mostra muito diferente.

[Para um artigo interessante sob o fechamento do certo sob Assad, clique aqui;

Para um especial da Aljazeera sobre a crise na Síria, clique aqui]


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