E lá vai o Evo…

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Evo
E não é apenas o Brasil se encontra em ano decisivo de escolha presidencial: também nossa vizinha Bolívia esteve hoje em dia de votações para presidente, senadores e deputados. Contudo, ao contrário das inesperadas reviravoltas em território brasileiro, o pleito boliviano se passou com certa tranquilidade – pesquisas indicam vitória de Evo Morales no primeiro turno.

Possivelmente com aproximados 60% dos votos, temos um Evo que vai garantindo um terceiro mandato, até 2020, à revelia do que antes se previa na própria Constituição do país. Com um perfil, no mínimo, polêmico, considerado “autoritarismo populista e pragmático” por alguns analistas, talvez estejamos visualizando a abertura de um precedente para sua continuidade no governo – aspecto que não representa, de fato, uma boa prática ao sistema político sul-americano, favorecendo a permanência no poder por tempo indeterminado.

Entretanto, com resultados claros na redução da pobreza extrema durante seu governo, aliado a um alto crescimento econômico (na expressiva faixa de 5%), Evo abre caminho para seguir na liderança da Bolívia demonstrando-se estável no poder e protagonista de medidas alinhadas com as necessidades sociais. Apesar de o caminho ser longo, não se pode subestimar o potencial de crescimento da Bolívia, cuja administração pública certamente merece crédito pelas medidas adotadas até o momento.

No que se refere ao Brasil, principal parceiro comercial da Bolívia, laços “de confiança”, apesar de “distantes”, dão o tom da relação durante o governo de Dilma, que não chegou a visitar seu homônimo boliviano, além de ter vivenciado a crise com a “fuga” do ex-senador e opositor ao governo de Evo Roger Pinto. A situação desencadeou a mudança do nome do chanceler brasileiro, porém o solicitante de refúgio no Brasil ainda é esperado em sua terra para julgamento pelo governo…

Se eleições normalmente nos remetem a momentos de inflexão e mudança, na Bolívia o clima é, todavia, de continuidade. Avaliação positiva em alguns aspectos, negativa em outros, somente o que se pode afirmar com segurança é que lá vai o Evo… até onde, será?


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O mundo às urnas

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votos

Ontem tivemos eleições gerais no Brasil, e apesar do impacto tremendo disso na vida política nacional (e claro, internacional), vamos falar no dia tradicionalmente dedicado pelo blog a eleições, de outros escrutínios que acontecem pelo mundo. Ou melhor, aconteceram, pois em pelo menos dois países o fim de semana foi movimentado para seus eleitores como foi para os brasileiros.

Para pegar o gancho, na Bulgária, terra da família da atual presidente, as eleições legislativas mostraram a vitória do partido de centro-direita GERB. Porém, como parece ser a regra em países europeus em crise, o partido não obteve a maioria e encontrará dificuldades em se articular com os demais especialmente o Partido Socialista. O populista ex-primeiro ministro Boiko Borisov tem a ingrata tarefa de levar o país mais pobre da União Europeia (sim, até mesmo a Grécia tem renda por cidadão maior), em um ambiente de crise política e corrupção endêmica que se arrasta por quase 25 anos (desde o fim do comunismo) somado a uma crise bancária que ameaça seu principal banco e espanta o investimento estrangeiro.

Um pouco acima, na Letônia, as eleições parlamentares levaram o partido Harmonia à maioria e devem dar fim ao governo de coligação atual que já dura 9 meses. Assim como a Bulgária, o país se encontra na UE, e em situação delicada – mas pela presença do gigante russo ao lado. O Harmonia é um partido de tendências pró-Moscou, e com isso é esperado que recomece a haver uma influência significativa da política russa no país. Ao contrário da Ucrânia, porém, a Letônia é membro da OTAN, e uma interferência mais aguda como a que assola o celeiro da Europa desde o começo do ano é uma improbabilidade. Existe uma parcela significativa de russos étnicos no país, e o debate entre a manutenção dos laços com a Europa ou voltar a face a Moscou é um temor factível que pode resultar em divisões internas. Ou seja, problema a longo prazo.

Por fim, quando estivermos perto do segundo turno das eleições presidenciais aqui, lá nos EUA estarão ocorrendo as eleições do “mid term”, ou seja, do Legislativo. A decisão da composição da Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e do Senado contém a chave para o futuro do país, pois a distribuição dos partidos no Congresso vai definir se as políticas dos próximos dois anos vão render algo ou se um entrave político emperrará decisões vitais na área de Defesa e economia. Uma derrota republicana no Senado manterá um Congresso engessado e impopular, enquanto uma vitória poderá significar uma campanha de terror pela não-cooperação com as políticas de Obama e até mesmo definir as possibilidades reais de derrota democrata nas eleições presidenciais de 2016. E mesmo com essa eleição histórica a menos de um mês, o modelo de alistamento eleitoral voluntário mostra uma incrível taxa estimada de apenas 15% de eleitores interessados no assunto.

Logo teremos a chance de verificar o resultado desse evento, mas com estes exemplos fica aparente a situação de crise que a maior parte destes países enfrenta, de democracias consolidadas a novatos nesse clube pós-muro de Berlim.


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Imagem da Semana

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Independentemente dos resultados das eleições de hoje por todo o país, a imagem do dia reflete uma triste, apesar de recorrente, situação em época eleitoral: lixo espalhado pelas ruas, principalmente nas proximidades de locais de votação pelo Brasil afora. A foto acima é do Rio de Janeiro e ilustra o extremo de uma situação de poluição eleitoral.

Se a Lei das Eleições (n. 9.504/97) determina que o recrutamento de eleitores ou a chamada propaganda de “boca de urna” pode resultar em multa e detenção, a poluição nas ruas revela uma forma velada de influenciar os eleitores indecisos na última hora, o que, indiretamente, não deixa de constituir também crime eleitoral.

Aliás, toneladas de materiais (panfletos, cavaletes, faixas, etc.) têm sido apreendidas em todo o país durante o período pré-eleitoral por estarem dispostas em locais/horários irregulares. O Distrito Federal bateu o recorde nacional: 350 toneladas de propagandas ilegais – cuja destinação final, ao menos, deverá ser a reciclagem

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Eleições, sociedade e mídia

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Este post, diferente de outros que já escrevi, é muito mais um desabafo do que uma análise. Não é e nem deve ser interpretado como uma apologia a qualquer candidato a Presidente da República ou a qualquer outro cargo eletivo. Ele é o relato da frustração temperada pela desesperança: um povo que não conhece a si e nem a própria história é incapaz de transformar seu destino.

Os fatores dessa frustração serão concentrados, neste texto, em dois atores fundamentais do atual ciclo eleitoral: sociedade e mídia. Nesse período, praticamente todos, sem exceção e principalmente quem nunca se interessou, tornam-se especialistas em política. Por isso, não raro, constata-se a elevação do nível de bobagens divulgadas, a ascensão do sentimento de intolerância e o baixo nível do debate em torno de programas de governo – os quais, na verdade, deveriam ser de Estado.

Em primeiro lugar, as ideias e as propostas dos presidenciáveis – à exceção daqueles que conhecemos – são cada vez menos direcionadas para os eleitores e cada vez mais direcionadas para mídia. Importa aquilo que repercute, não necessariamente o que é essencial para o país. E a repercussão tem um preço: a construção de estereótipos, que alimentam a desinformação e a intolerância. “Isso é coisa de PTralha!” ou “Os tucanos privatizaram o país!”. Mesmo quem propõe o fim dos estereótipos – ou da polarização, como queiram – ou fica no vazio, ou fica na farsa.

Nós, sociedade, caímos na armadilha. Talvez por causa de nossa volúpia por simplificações grotescas. É mais fácil aceitar e reproduzir uma informação, especialmente quando ela reforça nossa identidade e convicções como contrárias àquelas que negamos, do que ir atrás da informação. O compromisso com a veracidade acabou. Prevalece a desinformação ou, pior, a falsificação da informação combinada com a intolerância e o sensacionalismo, que também são utilizadas nas campanhas. Um exemplo claro é a afirmação de que o Brasil propõe dialogar com terroristas que cortam cabeças. Afirmar isso é, no mínimo, desconhecer os princípios constitucionais de nossas relações exteriores e a tradição diplomática brasileira.

Em segundo lugar, ou a voz das ruas dos protestos de junho de 2013 não foi ouvida pelos presidenciáveis, ou o povo não soube o que pedir nem o que esperar. No máximo, apenas dois dos candidatos poderiam acolher essa voz, porém, estão bem abaixo nas intenções de voto. Isso leva inevitavelmente a seguinte dedução: o povo é radical e genérico no pedido, mas conservador na mudança, seja por temor, seja por inaptidão. Daí resulta a escolha na hora de votar, preferindo a opção “menos pior”, que pode ou não ser diferente da situação, em vez da melhor opção, aquela em que se confia de fato.

Outro ponto que cabe observar é a inversão das prioridades no debate eleitoral. São os temas polêmicos – legalização das drogas, aborto, criminalização da homofobia, etc. – que ocupam o centro do debate e não as políticas e as estratégicas dos programas de governo que contemplam esses temas. Não faz sentido discutir legalização das drogas e aborto, por exemplo, descolados dos programas para saúde e segurança públicas, bem como sua integração com outras políticas públicas. Dizer se é favorável ou contra não é o mesmo que propor ações consonantes com as próprias posições no contexto de uma ampla e integrada estratégia. Em grande medida, a mídia é a responsável por polemizar, por canalizar o debate em torno desses temas estruturados, não estruturantes, deixando a sociedade à deriva da audiência.

Finalmente, a votação clarifica o profundo abismo social no Brasil. Ela praticamente reflete uma versão adaptada da luta de classes das análises marxistas. Quem tem menor renda, vota no PT; quem tem mais, no PSDB (ou PSB). Ambos se criticam pelas razões inversas, enxergam-se como mutuamente excludentes e cultivam um sentimento recíproco de intolerância. Uns dizem, por exemplo, que políticas de transferência de renda são compra de votos, outros propagam o apocalipse dos programas sociais. Convém lembrar que nenhum candidato propõe o fim de programas dessa natureza. Os argumentos dos dois são injustificáveis. Trata-se de uma política de Estado, aliás, tão velha e praticada quanto à própria Economia. É, antes, um problema de ênfase – investir demasiadamente em uma área em detrimento de outra –, não motivo de intolerância e de segmentação social. Isso deve ser compreendido e aceito pela sociedade sem titubear.

Está chato! Sinceramente, ou nós – e também a mídia – evoluímos conscientemente enquanto seres pensantes em política, ou nós deixamos, de acordo com o senso comum, esse assunto relegado na discussão – como futebol e religião – para evitar brigas. Não é assim que se pensa no futuro do país, pela exclusão das diferenças. É, sim, pelo diálogo construtivo das alteridades, indispensável ao jogo democrático. Mas talvez isso fique para 2018, quando voltaremos a falar de política novamente.


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Democracia, pero no mucho

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O mundo se volta para China esperando a reação de Beijing aos protestos em Hong Kong.  Iniciados nesse fim de semana, à moda dos protestos de ocupação europeus e nos EUA, pequenas multidões se aglomeravam em espaços públicos pedindo por democracia. Apesar de nem chegar perto da truculência de 1989 (mesmo por que o governo da região é autônomo), a polícia honconguesa fez o que qualquer polícia do mundo faria e chegou atirando gás nos manifestantes. A reação, como qualquer massa de manifestantes no mundo faria, foi de se aglomerar ainda mais em protesto à violência policial. O resultado é que hoje temos 80 mil pessoas nas ruas e uma incógnita.

A razão de tudo isso são as eleições do governante da ilha. Desde que deixou o domínio inglês, Hong Kong funciona num modelo de “um país, dois sistemas”, com uma autoridade semiautônoma na ilha e funcionando no capitalismo de mercado. Um dos pequenos benefícios disso era a capacidade de escolher os próprios governantes. Nisso a China não mexe – mas neste ano, porém, resolveram que é o governo central quem vai escolher os candidatos, possivelmente limitando aos amigos de Beijing. Ou seja, o povo de Hong Kong vai escolher seus líderes – mas entre os escolhidos pela China. E isso enfureceu a massa.

Agora o governo insular fica em uma encruzilhada. Tem de reprimir os protestos pois ainda é assunto de sua responsabilidade, e trazer Beijing para este cenário seria preocupante, sem contar que desagradar o governo central seria ainda pior. Por outro lado, angariar a insatisfação da população sem atender às demandas pode resultar em ainda mais protestos e a coisa sair do controle. Sem contar que Hong Kong tem uma transparência muito maior que outras partes da China para a mídia internacional, então os resultados podem ser catastróficos. A própria China já se move no sentido de tentar abafar o caso, seja para evitar intrusão estrangeira, seja para que o exemplo não espalhe ideias estranhas para outras regiões menos satisfeitas do país, mas qualquer repressão mais pesada pode ter o efeito inverso e espalhar ainda mais insatisfação como quase todas as revoltas do mundo nos últimos 3 anos demonstraram.

Desdobramentos internacionais à parte, talvez a grande lição disso tudo… seja para o Brasil. A uma semana das eleições nacionais, onde insatisfação com os rumos da política se tornam piada, fúria retórica vazia ou indiferença, a revolta do povo honconguês diz muito sobre espírito cívico, sem apelar às bobagens do nacionalismo ou da violência.


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Peregrinação

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kirchner

Religiosos do mundo todo realizam viagens a lugares místicos ou sagrados para seu credo com a intenção de se aproximar da respectiva divindade, cumprir alguma penitência ou simplesmente fazer turismo. Nos últimos dias a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, perfaz seu calvário em busca da solução para o poço de problemas financeiros que se tornou seu país.

Primeiramente, um encontro com o papa Francisco no sábado. Após a troca de presentes (incluindo uma pintura da onipresente Evita, de modo irônico a resgatar a fonte inicial dos problemas platinos, a praga do peronismo) ficou claro que, apesar das rusgas no passado, o papa demonstra apoio à presidente em suas reivindicações com esta oportuna passagem pelo Vaticano. Como visto há algumas semanas, a Argentina tenta em vão pagar sua dívida com credores internacionais, que impediram o repasse dos recursos por discordarem do valor dos juros. Talvez, mais que o apoio do “soft power” eclesial, Cristina precise de um milagre para dobrar Paul Singer, o líder dos credores.

Daí vem a segunda parte da sua peregrinação – em Nova Iorque, onde se prepara para a Assembleia Geral da ONU daqui a dois dias, Cristina teve reunião hoje com George Soros. Outrora um dos “vilões” da economia internacional (e apontado por muita gente como culpado pela crise asiática de 1997) o megainvestidor tem muito interesse na solução do impasse, já que é um dos credores favorável ao pagamento. Sua intercessão no “clube dos magnatas” pode vir a ser bem mais oportuna para a solução dos problemas de Cristina.

Porém, de nada adianta resolver a questão das contas quando permanece a crise doméstica. Há quatro dias foi aprovada (na verdade “ressuscitada”) uma lei que controla preços e taxas de lucro, semelhante a uma implantada na Venezuela no começo do ano. A tentativa desesperada de conter a inflação galopante (na casa de 40%) a expensas do setor privado pode resultar, assim como no país bolivariano, em desabastecimento e mercado negro. Mas isso não abala a presidente, que tem entre seus planos a inusitada (apesar da não inédita) ideia de mudar a capital de Buenos Aires para a pacata Santiago del Estero, no noroeste do país, com menos de 300 mil habitantes e longe de tudo – inclusive dos protestos. Afinal, se a ideia deu certo no Brasil, por que não? A cada dia o noticiário mostra que, com tais políticas, cada vez mais um milagre seja necessário dentro da Casa Rosada.


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Há… uma semana!?

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relogio

Aqui no blog temos a seção “há um ano” em que postamos análises das consequências dos fatos que, bom, aconteceram há um ano. Mas nessa semana agitada, já se faz necessário rever as postagens de poucos dias atrás por que durante esse período em que a Terra deu pouco mais de 7 voltas no próprio eixo muita coisa aconteceu.

Sobre a epidemia de Ebola na África, começa hoje a quarentena nacional em Serra Leoa. Cerca de 6 milhões de pessoas estarão impedidas de saírem de casa, não para evitar o alastramento da doença – mas para que seja mais fácil identificar os infectados. A situação exige essas medidas drásticas, mas faltam condições e pessoal. Sem auxílio, a estimativa é que, sem os casos contabilizados e com a possibilidade de alastramento e mutações do vírus, até 2015 a epidemia a casa dos milhões de infectados.

Enquanto isso, um pouco ao norte, a coisa esquenta no Iraque com os primeiros ataques de países ocidentais a bases do ISIS/Estado Islâmico, efetuados pela França. A expectativa é que se mantenham os ataques aéreos, mas ao longo da semana o comandante das Forças Armadas dos EUA cogitou a possibilidade de enviar tropas em solo caso seja necessário. Obama já refutou essa possibilidade, pois com as implicações dessa empreitada passando até pela crise ucraniana (já que o apoio da Rússia nas operações será essencial e isso deve afetar negociações que vão de Damasco a Kiev) a última coisa que quereria é mais uma impopular incursão armada para causar a morte de americanos.

Por fim, ontem aconteceu o tal referendo na Escócia acerca da independência do Reino Unido. E para a felicidade dos professores de Geografia, a terra da rainha continuará a ter seu fundo azul com a cruz diagonal branca, pois resultados preliminares apontam a vitória do “não”, permanecendo o vínculo histórico. Análises sobre a razão disso passam por muitos fatores, o principal deles o risco econômico que a opção pela separação apresentava e o fato que o “sim” havia sido superestimado. Bom para David Cameron, que não entra pra história como o Primeiro-ministro que destruiu o Reino Unido, mas tem problemas pela frente por ter sido um dos responsáveis por esse plebiscito em primeiro lugar, e agora para agraciar o parlamento escocês, que vai receber alguns poderes (e mais dinheiro) como parte de um acordo proposto como medida preventiva da separação.

Não é possível nem escrever o “postando e relembrando” por ser algo tão recente, mas imagino como será o “há um ano” de setembro de 2015 se os eventos dessa semana repercutirem como o esperado…


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O abacaxi ucraniano

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Ukraine soldier Russia Slovyansk

A quantas anda a Ucrânia? Talvez a palavra-chave seja insatisfação, que está aparecendo por todos os lados.

Semana passada um cessar-fogo iniciado no dia 5 tem tido sucesso (leia-se – respeitado por quase todos) em evitar as mortes que pipocavam diariamente em confrontos entre forças ucranianas e separatistas. Mas nem tanto – confrontos isolados levaram a pelo menos seis mortes que abalam o tênue acordo. Como se vê no caso de Israel e Palestina, sempre há aqueles mais beligerantes dispostos a arruinar o esforço de entendimento.

Enquanto isso, o parlamento da Ucrânia tenta resolver o impasse agradando a todos – na terça ratificou o famigerado acordo de comércio com a Europa e concedeu status especial às regiões em distúrbio. Basicamente, concede um grau mínimo de autonomia a essas localidades por três anos e possibilitando que façam eleições além de anistiar os combatentes (exceto aqueles envolvidos na derrubada do avião de passageiros da Malaysian Airlines) e atender a maior parte das reivindicações sem que os separatistas precisem largar Kiev pra trás. Na ideia, reivindicações de todos os lados são atendidas. Na prática, é praticamente a aceitação de que estão prestes a perder nacos de seu território (tendo sido aceito com relutância pelo presidente Poroshenko), enquanto o acordo com a União Europeia, visto como um passo necessário ao ingresso no clube europeu, irrita tanto os líderes separatistas quanto Moscou.

Por fim, nesta semana entraram em vigor as mais novas sanções da UE, EUA e Canadá contra a Rússia, reflexo direto da crise na Ucrânia. São mais diretas pois afetaram não apenas o acesso a mercados financeiros, mas também o setor petrolífero e empresas estatais russas. Desnecessário dizer quem fica insatisfeito nessa história, mas a Rússia o faz com classe – o presidente Putin afirma que é um esforço ineficaz e que pode até mesmo ajudar a Rússia em longo prazo, enquanto quer levar os países ocidentais à OMC por essa “injustiça” comercial. No fim das contas o efeito colateral é um rejuvenescimento da OTAN e, apesar do conflito ser uma possibilidade remota (pra não dizer impossível), a aproximação que se desenhava entre Rússia e EUA nos últimos 20 anos parece ser coisa do passado.

O centro de tudo, é claro, é quem mais sofre. A Ucrânia sofre o risco de fragmentação, instabilidade interna constante ao longo do ano e consequências econômicas nocivas. A depender do resultado do plebiscito na Escócia, os grupos separatistas podem ganhar ainda mais força. Mas sempre fica a lição de que, no mundo atual e interdependente, as consequências vão muito além das suas fronteiras. Pelo menos eles ainda têm a amizade inabalável do grande Canadá.


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O “sim” da discórdia?

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Quem assistiu o filme “Coração Valente” de 1996 deve achar que a relação entre Escócia e Inglaterra não seja das melhores. De fato, em alguns momentos predomina o atrito, mas na média a cooperação entre esses dois países sempre foi a regra (e benéfica para ambos). Tanto que a Escócia é, ainda hoje, membro do Reino Unido, tendo governo próprio e podendo mandar time para disputar a Copa do Mundo, mas com a Rainha da Inglaterra como chefe de Estado e mandando seus atletas para as Olimpíadas junto com ingleses, galeses e norte-irlandeses. Isso pode estar com os dias contados.

Pesquisas recentes mostram que o movimento separatista ganha força e a ideia de uma Escócia independente no sistema internacional é uma realidade plausível. Nesta quinta-feira ocorrerá uma consulta popular de resultado imprevisível já que pela primeira vez na história uma sondagem favorável à separação (ou o grupo do “yes”) mostrou um resultado vitorioso, mesmo que pela margem mínima de 51%.

O que significaria uma Escócia independente? Em termos políticos, apesar da extinção do Reino Unido como o conhecemos hoje, as mudanças seriam poucas, mas em termos econômicos, isso pode abalar a estabilidade dos dois lados. Como membro do Reino Unido, a Escócia faz parte da União Europeia e mantém a Libra como moeda oficial. Se tornando independente, essas duas situações podem ser comprometidas já que a Escócia não estará mais ligada ao Banco da Inglaterra (o BC deles), e tecnicamente precisaria cumprir todas as condições para ingressar na UE já que estaria surgindo como um novo Estado, e isso é algo difícil na atual conjuntura econômica. Do lado inglês, a saída da Escócia significa uma fratura territorial (quase um terço do território) e populacional significativa.

Então por que está acontecendo esse movimento? Afinal, parece que as consequências serão majoritariamente negativas. A razão disso tudo está um pouco no nacionalismo, um pouco na economia. Os escoceses rejeitam duramente os partidos ingleses e as políticas tomadas na última década, além de assumirem um perfil mais alinhado aos países europeus continentais com políticas de bem estar social. A crise econômica enfrentada pelo país é vista como consequência dessas políticas, e com isso cresce o movimento de insatisfação. Ao mesmo tempo, os “unionistas” preferem continuar nessa condição ao afirmar que a saída do Reino Unido piorará a situação com fuga de capitais e bancos – o maior banco da Escócia já avisou que mudará para Londres caso o referendo de separação seja aprovado.

Tudo indica uma situação de completa incerteza – as porcentagens não são definitivas e tanto o “yes” quanto o “no” podem vencer; a Escócia está saindo entre outros motivos por temer a saída do Reino Unido do Euro mas pode não ter condições de ingressar por conta própria no bloco; a crise econômica, principal fator de incentivo à secessão, pode ser agravada. Com isso, a única certeza é que com movimentos mais expressivos como a Catalunha, os Bascos, a rixa na Bélgica e a crise na ucrânia, seja o Reino Unido, uma das uniões mais estáveis e duradouras do sistema internacional, que esteja sob o risco mais concreto de se fragmentar.


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Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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