Um sonho futuro

Por

obama imigração

Em um ano que não vai deixar saudades para Barack Obama, pelo menos uma de suas decisões vai ter um impacto duradouro na sociedade norte-americana, e possivelmente benéfico. Nesta semana, o presidente recorre a decreto, um recurso não muito bem-visto nos meios democráticos, mas que funciona quando necessário, para aprovar mudanças nas leis de imigração do país e passar por cima da oposição cerrada no Congresso, legalizando milhões de imigrantes em situação irregular.

Vamos por partes. A reforma da imigração sempre foi uma das principais bandeiras de Obama (lembrem-se que grande parte dos eleitores que o colocaram na Casa Branca são os de origem latina, imigrantes ou descendentes), com a finalidade de resolver o problema dos quase 12 milhões de ilegais no país. Porém, o que se viu foi uma onda de deportação recorde, igualando em dois anos a quantidade de deportados em oito anos de Bush filho. A razão disso é o velho problema da política de oferecer agrados a opositores para tentar colher os frutos no futuro. Visando ao apoio republicano, Obama teve de endurecer as políticas as aguentar as críticas em cima disso, na esperança de que quando a nova legislação de reforme fosse votada, tivesse a simpatia dos opositores. Não deu muito certo, seja por que os republicanos não engoliram esse macete, seja pelo fato de que conseguiram conquistar a maioria nas duas casas e agora estão pouco se importando com quaisquer políticas de Obama – ou, pior, se dedicando a sabotá-las.

Sem alternativa, o presidente abraçou uma alternativa mais modesta, e por meio de decreto deve beneficiar quase 5 milhões de ilegais com o abrandamento de condições para a deportação. Permanece o rigor com os que chegaram recentemente ou cometeram crimes, mas aqueles que estão há mais de 10 anos ou tenham filhos cidadãos norte-americanos podem acabar permanecendo. O decreto não chega ao ponto da concessão de cidadania (que era um dos pontos principais da nova lei), mas é um passo importante para manter funcionando uma das principais engrenagens da economia norte-americana ao trazer uma enorme parcela de população economicamente ativa para o setor formal.

Basta lembrar que, em comparação a outras economias desenvolvidas maduras, os EUA são a única em que não há déficit populacional. A Europa em crise sofre com a redução da força de trabalho, mas isso não acontece nos EUA por ser um polo de atração tão forte de imigrantes, que substituem os aposentados em ritmo estável. Pensando mais adiante, os impactos em longo prazo são ainda maiores, pois a contribuição dessa camada da população para planos de previdência social e programas assistenciais é imprescindível para que as contas fechem. Conseguir inserir legalmente uma parcela na casa dos milhões de cidadãos, que já estão na economia de algum modo mas sem participar do sistema, é uma medida impopular com setores mais conservadores (apesar de a maior crítica dos republicanos não ser às medidas, mas pelo fato do presidente ter passado por cima do Congresso) mas ao mesmo tempo assenta bases para uma fundação sólida do sistema previdenciário nas próximas décadas, e a depender dos rumos do mandato, pode acabar sendo a maior contribuição de Obama para o país em seus dois mandatos.


Categorias: Economia, Estados Unidos, Política e Política Externa


Imagem da Semana

Por

G-20

Foi realizado no último final de semana o encontro do G-20 na Austrália, com os líderes que respondem por 85% da riqueza global reunidos em um mesmo espaço.

Se a imagem da semana certamente foi a foto oficial com os líderes dos 19 países mais poderosos do mundo mais a União Europeia, a capa do jornal australiano “Courier Mail” deu um tom descontraído às boas-vindas e também merece registro…

Capa jornal


Onde há fumaça…

Por

china eua

Enquanto a Agência Espacial Europeia faz história no espaço, aqui na Terra tivemos uma notícia tão surpreendente quanto a expectativa do pouso de uma sonda em um cometa longínquo. O que antes parecia impossível abismou a comunidade internacional, de um jeito positivo, quando EUA e China declararam um esforço conjunto para, entre outras modalidades de cooperação, reduzir as emissões de gases estufa pela primeira vez na história.

Quem acompanha o noticiário internacional sabe das motivações por trás da recusa em assumir os compromissos do protocolo de Kyoto, a base para o esforço global em reduzir os problemas de mudanças climáticas. Os maiores responsáveis pelas emissões sempre foram contrários às reduções “arbitrárias” que danificariam seu crescimento econômico. Por isso a surpresa com o anúncio, mas existe muito mais por trás dessa cooperação (nem tão) inusitada.

Primeiro, os países ainda não entraram no esforço “global” por assim dizer. Quando necessário, quiseram adequar suas reduções aos próprios termos, ou seja, à revelia da comunidade internacional. Não se trata de intransigência, mas pragmatismo – fica o recado para o mundo de que algo precisa ser feito, e será, mas do jeito que os gigantes quiserem. O fato de China nem estabelecer um teto para essa meta, mas apenas dizer que vai reduzir as emissões até 2030, bem vago mesmo, é indicativo disso. Ao mesmo tempo, é histórico por ser o primeiro movimento claro e oficial de ambos em direção a políticas ambientais mais sustentáveis, mas as expectativas podem não corresponder à realidade quando for necessário avaliar os resultados de tais políticas.

E claro que existe um jogo político. O anúncio das metas de redução veio em um grande pacote de cooperação sino-americano, que passa por acordos econômicos e militares. Isso se deu após uma reunião de cúpula dos países asiáticos, e Obama acabou tendo algumas conversas breves e pouco amistosas com Putin por ocasião disso. A relação gélida com Moscou contrasta com a aproximação clara de Washington com Beijing, eleito como o grande rival e parceiro na região nos últimos anos. Mais do que uma novidade bem vinda para o cenário ambiental, essa declaração conjunta pode significar uma mudança drástica mas já em curso nas relações de poder daquela região do mundo.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Estados Unidos, Meio Ambiente, Política e Política Externa


Déjà vu

Por

putin-x-obama1

Para um mundo que passou o século XX acostumado a ver EUA e Rússia (então com outro nome) se bicando, não parece nada de novo ver o pé em que estão as relações entre os dois países hoje. O que começou com um imbróglio diplomático por conta do asilo russo ao analista da CIA Edward Snowden virou uma crise internacional por conta dos eventos na Ucrânia no começo do ano. O cancelamento de visitas entre os líderes foi seguido pela exclusão russa do G8 (que voltou a ser G7 mesmo, sem +1) e troca de farpas, que pelo andar da carruagem não terá fim tão cedo.

Tome-se por exemplo a proibição da venda de um modelo de celular em território russo a partir do ano que vem. Existe uma justificativa técnica, de adequação à legislação russa, mas a exemplo da China, que mantem rigoroso controle sobre sistemas de informação, não seria o caso de limitar a “presença” norte-americana em seu território? Aqui entramos num terreno de especulação, mas a coincidência é inegável.

E no nível protocolar, as consequências podem ser bem mais nefastas. Moscou já disse, por exemplo, que não vai participar da cúpula bianual sobre segurança nucelar de 2016, justificando que prefere participar das reuniões semelhantes no sistema ONU por intermédio da AIEA. Mas é claro que sendo uma reunião proposta pelos EUA e a ser realizada na cidade de Obama, fica claro que há outras motivações. A aproximação com a Sérvia, que tem um passado recente de relação complicada com a Europa e os EUA também indica uma busca por consolidação de esfera de influência e mesmo afrontamento aos aliados ocidentais.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma crise – a exemplo do Brasil, a economia enfrenta problemas, desvalorização cambial, e a queda no preço de commodities, sua tábua de salvação nos anos de crise. Além disso, as sanções impostas a empresas russas por causa da crise na Ucrânia causam perdas consideráveis. Resta saber se nesse ambiente conturbado prevalecerá o discurso do interesse nacional ou o pragmatismo tão necessário para a distensão e o retorno a relações amigáveis e mutuamente benéficas para os dois gigantes da política internacional. No aniversário dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e de todo aquele processo de bipolaridade, os mesmos protagonistas se vêm em lados opostos e com uma nova barreira a ser vencida.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Estados Unidos, Europa, Política e Política Externa


Problemas de primeiro mundo

Por

obama dilma

Há algumas semanas tivemos um post sobre eleições e suas consequências. Uma das mais importantes mencionadas era justamente a que ocorrerá amanhã nos EUA, a chamada eleição do “midterm”, quando os eleitores fazem a escolha do Legislativo. Após os eventos da última semana, não tem como não traçar um paralelo com o Brasil.

A impopularidade crescente de Obama por conta da economia e deslizes na política externa podem ter seu preço, com a possibilidade real de os Republicanos tomarem a maioria no Senado (atualmente dos Democratas por seis cadeiras) e expandirem seu domínio na Câmara. Com isso Obama corre o risco de herdar um país ingovernável por dois anos, em que o Congresso terá o poder de barrar quaisquer medidas que desejar e abrir caminho para a oposição nas eleições presidenciais de 2016.

Ora, o que vemos no Brasil? Na semana passada o governo aumentou a taxa básica de juros (indo contra sua propaganda eleitoral) e está em queda de braço com o Congresso por conta da rejeição de um decreto sobre comitês populares. Apesar de ser uma das medidas que efetivamente trariam mais participação política ao cidadão (e satisfazendo a tal “sede de mudanças políticas”), deve ser rejeitado um pouco por obra da oposição (ainda mordida pela derrota na última semana) e um pouco por uma revolta de partidos da base aliada (que querem colher os frutos do apoio no pleito).

Não se trata de uma discussão ideológica, mas política. O que importa não é o conteúdo do ato administrativo, mas o resultado da sua rejeição, visto como danoso ao governo. As situações de Brasil e EUA, nesse momento, são relativamente parecidas. Claro que não podemos igualar a situação de um bipartidarismo de facto como o americano com a farra de 28 partidos que elegemos em 2014. E enquanto Obama está à própria sorte, Dilma ainda tem maioria no Congresso, mas com uma margem de manobra extremamente reduzida comparando aos governos anteriores. Contudo, considerando que governo e oposição se aglomeram em torno de dois partidos, temos algo similar, com a grande diferença sendo a existência daquele monólito chamado PMDB, sempre pronto a agradar qualquer um dos lados em troca de bocados políticos (e que, de certa maneira, faz a coisa toda funcionar já que possibilita a maleabilidade que inexiste no modelo bipolarizado norte-americano).

Na verdade isso é comum a quase todos os sistemas políticos que se proponham a ser democráticos. Mas Obama e Dilma terão anos visivelmente complicados daqui em diante, com um Legislativo arredio e de certo modo interessado apenas nas consequências para o próximo ciclo eleitoral. Podemos dizer que enfrentamos “problemas de primeiro mundo”, mas não no sentido usual de algo frívolo ou que não se compara aos problemas mais graves de países empobrecidos. E quando a atividade política deixa de ser um meio para o bem da comunidade (com a replicação de discursos dicotômicos e emperramento da máquina pública) e se torna um fim em si mesma, seja de perpetuação no poder ou de busca pelo mesmo, a sociedade perde como um todo.


Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


Ambiente inóspito

Por

999a3f73e5ca1c24600f6a706700c7d5

Quem navega a internet sabe que a Austrália é famosa pela fauna bizarra e letal, inglês com sotaque e gírias indecifráveis e por usarem as cores do Brasil nos esportes apesar de sua bandeira ser azul e vermelha. Nesta semana, o país vem ao noticiário com notícias bem chamativas – e polêmicas.

Primeiro, foi o primeiro país a fechar oficialmente as portas a cidadãos do oeste africano afetados pela epidemia de ebola. A medida, com a intenção de evitar o contágio do vírus no país, é polêmica pois vai contra instruções da própria OMS (Organização Mundial de Saúde) e os fatos – apesar do pânico, o número de pessoas infectadas fora da África não chega a uma dezena. A paranoia deu certo (como mostrou bem o caso suspeito que mobilizou o Brasil há umas duas semanas), e quase todos os países estão tomando medidas preventivas e de isolamento satisfatórias quando há suspeitas. A chance de uma epidemia em outros continentes é remota. E negar vistos é considerada uma atitude grave no cenário internacional – claro que os países podem escolher quem pode ou não entrar, mas na maioria, desde que tenha o visto, a circulação de pessoas é livre. Negar esse direito equivale à privação de um direito universal, e definitivamente não é uma medida que ajuda na luta contra a epidemia, pois significa que o envio de pessoal australiano para ajudar nas áreas afetadas (onde números oficiais contam mais de 5 mil mortos mas estimativas chegam a quatro vezes mais) também fica proibido.

Segundo, o país está endurecendo leis contra terrorismo. Pode parecer uma coisa positiva, mas a exemplo do Ato Patriota de Bush há acusações de ser uma justificativa para ameaçar direitos civis, discriminar indivíduos de religiões específicas e “imunidade civil” para agentes da lei – o que poderia liberar geral, por exemplo, a prática de tortura, à sombra do Estado. Desnecessário dizer que isso revoltou defensores de direitos civis e organizações islâmicas pelo mundo. Isso vem no momento em que a Austrália se junta à coalizão internacional contra o ISIS, e a medida que tem como objetivo “proteger” o país pode ter o efeito oposto, trazendo atenção internacional e ódio daqueles a que se dirige. Basta ver o que aconteceu no Canadá semana passada para entender que não é nada impossível uma ação desta natureza em um país aparentemente pacífico e longe da carnificina do Oriente Médio.

Essas duas notícias mostram um pouco de intransigência – o governo conservador do premiê Tony Abbott mostra claramente que, em momentos de crise, uma guinada conservadora pode ser a medida considerada mais segura pelos governos para preservar sua integridade. Porém, os resultados são os mais adversos possíveis.


Categorias: África, Ásia e Oceania, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Polêmica, Política e Política Externa


Política externa e futuro

Por

Dilma-na-ONU-e1380033497282-2

O que significa a reeleição de Dilma Rousseff para o Brasil na área da Política Externa? Por um lado fica difícil pensar nos planos para o futuro já que, como de praxe, o debate eleitoral marginalizou (de ambos os lados) a discussão sobre Política Externa e Defesa (duas das principais atribuições da Presidência). Por outro, temos o histórico de Dilma nesses últimos quatro anos, que vão mostrar indícios do que poderá ser esse próximo quadriênio.

Dilma começou seu governo com Antônio Patriota no timão do Itamaraty, um nome de peso e respeitado na carreira, mas que sofreu ao tentar conciliar planos de uma diplomacia mais convencional com o gigantismo (chamada por alguns de “megalonaniquismo”) da política externa de Lula. Lentamente corroído e finalmente espinafrado após o causo do senador boliviano que fugiu para o Brasil debaixo do nariz do Itamaraty, ganhou o exílio dourado na sede da ONU enquanto o discreto Luiz Alberto Figueiredo assumia a chancelaria. Essa turbulência é sintomática de um período instável e, de certo modo, desfavorável para o país no cenário internacional.

Dilma nunca teve o espetáculo de Lula em termos de Política Externa. A busca pela diversificação de parcerias minguou; na ONU, a cruzada pela busca do assento permanente no CS da ONU parece cada vez mais uma realidade distante e colocada em segundo plano, e o conceito de Responsabilidade ao Proteger está esquecido; novas lideranças como a Turquia disputam um espaço de liderança com os países do “Sul” que antes tinham o Brasil como principal referência; dificuldades econômicas e escândalos políticos causam efeito adverso em investidores e afetam o ambiente financeiro e a confiança no país. Parece que o Brasil perdeu espaço nesses quatro anos. Porém, ao mesmo tempo, o país também protagonizou momentos de grande exposição, como a liderança, ao lado da Alemanha, do movimento de indignação contra a violação de dados e espionagem contra líderes mundiais feita pelos EUA, a indicação de um brasileiro, Roberto Azevêdo, para presidir a Organização Mundial do Comércio (e conseguir, após uma década, fazer andar minimamente o acordo da rodada Doha de liberalização do comércio), e intenso empenho na ONU para a aceitação da Palestina como membro observador na Assembleia Geral. Não foi pouca coisa.

Pensar em curto prazo nas consequências dessas escolhas é um exercício arriscado. Há de se lembrar que Política Externa é uma política de Estado, e deve sobreviver à mudança de governos. Coesão e previsibilidade são características de uma chancelaria forte, e o Brasil permanece atrelado a princípios históricos de sua atividade. Um exemplo claro dessa discordância foi a exposição dada ao discurso de Dilma na ONU, que se interpreta como uma tolice ao ser lido como a proposição de “discussão” com os terroristas do ISIS. Qualquer conhecedor da tradição diplomática brasileira sabe que o país preza pela não intervenção e soberania. Defender os meios não violentos não significa aceitar o terrorismo (que o país repudia, de qualquer modo), mas denuncia o emprego da força em situações como a do Iraque e da Síria, cujos resultados geralmente são catastróficos e distantes do objetivo almejado – como o noticiário comprova diariamente o esforço de Sísifo da coalizão.

Talvez a palavra-chave seja “alerta”. A posição do Brasil no cenário internacional hoje não é a mesma de quando Lula deixou o Planalto, mas tampouco é o desastre completo que se veicula por aí, e ainda goza de muito prestígio. O perfil da governante alterou o modo de operação visto em Lula, mas as metas tradicionais de nossa diplomacia estão lá, bem ou mal. Parece que Figueiredo não terá a sorte de seu colega da Fazenda e se manterá no cargo em 2015, então se pode esperar que não haja grandes mudanças no perfil da atuação do Itamaraty. Mas diversas áreas demandam ação (da busca pelo assento permanente e disputas econômicas no seio do Mercosul), e caberá à presidente ponderar sobre erros e acertos para definir quais as metas para os próximos quatro anos.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


Levando na conversa

Por

130928065924-pkg-roth-iran-pres-rouhani-landmark-week-00005004-story-top

Com toda a crise do ISIS e a formação da coalizão dos EUA e amigos no Oriente Médio, um assunto que tem passado ao largo do noticiário internacional é a crise do programa nucelar iraniano. Para quem não lembra, é a grande crise geopolítica da região, mais ainda que a questão palestino-israelense, e envolve o delicado balanço de poder da região. Até a eclosão das revoltas da Primavera Árabe, era o grande tema da política norte-americana na região, e não deixa de ser – mas enfrenta complicações justamente por causa dos efeitos das revoltas, e a aproximação da data-limite para sair um acordo.

Como está a situação atual? O Iraque (antigo inimigo do Irã) tem agora um governo pró-Teerã, e enfrenta problemas com o ISIS juntamente dos curdos e com apoio dos EUA. A Síria está dividida em três, com o governo Assad (amigo do Irã), o ISIS (inimigo de todo mundo) e as forças de oposição espalhadas (que deveriam ter apoio ocidental mas estão à míngua). O Irã tem uma aproximação tímida com os EUA após a eleição de Hassan Rohani, mas ainda é tecnicamente um inimigo pelo apoio a Assad, oposição a Israel, entre outros.

Como o acordo do programa nucelar afeta isso? A negociação, envolvendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha, busca frear o programa nucelar iraniano oferecendo a contrapartida de retirar algumas das sanções aplicadas ao país por conta do mesmo. Seria a chance perfeita de barganhar um auxílio contra o ISIS – como diz a máxima realista, o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo. O problema é que existe muita desconfiança, especialmente nos EUA (onde até tem quem deseje que a coisa azede). O lobby israelense é forte e qualquer aproximação de Teerã seria malvista. Talvez a coisa funcione indiretamente – por meio, por exemplo, da Turquia, que está cada vez mais ativa na questão do ISIS e poderia fazer essa “intermediação” entre os lados. Trazendo o Irã, indiretamente a Síria estaria envolvida nessa coordenação. Um front unido contra o ISIS é irreal, mas a coordenação é possível, e um dos indicativos (ou, mais ainda, fundamentos) para isso seria a confiança resultante de um eventual sucesso nas negociações do programa nuclear.

De fato, o que temos é uma discussão cercada de mistério e, apesar das possibilidades, com um indicador de fracasso rondando as negociações. Caso isso aconteça, além da possibilidade de mais sanções serem aplicadas, perder-se-ia uma chance de ouro de formar uma aliança eficaz para os envolvidos enfrentarem uma das maiores complicações geopolíticas da história recente.

 


Categorias: Conflitos, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa, Segurança


Indignação à mexicana

Por

606x340_284884

Existe muita indignação com o grupo Estado Islâmico pelo modo ultrajante pelo qual elimina seus opositores e prisioneiros, degolando pessoas em pleno século XXI. Mas o ultraje deveria ser muito maior quando se pensa que muito mais pessoas sofrem esse destino, ou pior, bem ali no quintal do Tio Sam, por obra dos carteis de narcotraficantes mexicanos.

Desde 2010 temos notícias escabrosas de covas coletivas cheias de pessoas decapitadas, sejam imigrantes ilegais ou pessoas com dívidas do tráfico. Mas parece que foi preciso um novo grau de crueldade para que a indignação internacional finalmente fizesse com que o mundo volte os olhos para a situação do México. Há algumas semanas, estudantes de uma escola rural participavam de um ato em prol de melhorias na educação no estado de Guerrero, e logo veio a repressão policial. Nada de novo, infelizmente, mas o desfecho foi trágico – levados em camburões, 43 estudantes estão desaparecidos até hoje, apesar de dezenas de cemitérios clandestinos e corpos carbonizados terem sido encontrados. A suspeita é de que o governo esteja envolvido com um cartel criminoso e tenha enviado os estudantes para os traficantes realizarem seu trabalho sujo.

A situação do México já era considerada calamitosa há muito tempo do ponto de vista humano – mais de 10 mil mortos na “guerra” contra o narcotráfico desde a década passada. Porém, o aumento da violência escancara uma realidade comum até mesmo ao Brasil – a participação de agentes da lei no crime, mas de maneira muito mais profunda. Denúncias de militares eliminando civis são exemplares não apenas de despreparo das forças de segurança, mas de um governo em que a corrupção e o crime se imiscuem com o Estado.

O que mudou para que esse caso causasse tanta comoção? Talvez o fato de serem apenas estudantes, jovens lutando por seus direitos. Ou o fato de que, estando desaparecidos, ainda haja uma esperança, por menor que seja, da possibilidade de resgate. O fato é que a conivência de setores do Estado para com essa violência está gerando uma onda de protestos pelo mundo, inclusive no Brasil, além de reprimendas oficiais da OEA e da ONU. E claro, apesar da reação do governo federal, inflamou os protestos no próprio México, se espalhando da região para o país todo.

Fora o aspecto humanitário, acima de tudo, este ocorrido deixa uma importante informação sobre os protestos – desde a tal Primavera Árabe de 2011, quase todos os protestos que ocorrem ao redor do mundo estão tendo, em certo grau, uma repressão violenta. Do Bahrein à Ucrânia, de Hong Kong ao México, o desejo de mudança parece não ser compreendido pelos governantes, sob o risco de inadvertidamente fortalecerem o próprio movimento que visam a debelar. Esperamos que seja o caso do que está acontecendo no México.

 


Categorias: Américas, Direitos Humanos, Mídia, Política e Política Externa, Segurança


Quem é vivo aparece…

Por

L11160A8A1DF4499A97F9B27BAA61A358

…e no caso da Coreia do Norte é uma boa notícia. A fim de desmentir boatos que circulam há semanas sobe seu estado de saúde, o líder do país, Kim Jong-un fez uma aparição pública esta semana para mostrar que está firme e forte na condução da nação. A questão é que o herdeiro da dinastia Kim estava sumido há quase 40 dias e não compareceu a eventos políticos importantes, o que causou todo tipo de especulação (especialmente dos sul-coreanos) sobre todo tipo de sinistro que pudesse ter acometido o grande líder, de um golpe militar a problemas de saúde graves, e até mesmo a morte. Na verdade, essa possibilidade ainda não está descartada – há que diga que seja um sósia roliço…

Naquele mundo à parte da realidade que existe no país asiático, o que se sabe é que Kim apareceu de bengala e parece ter a saúde fragilizada. Em essência, a confirmação de sua permanência é uma boa notícia, pois o marechal de 31 anos já demonstrou reiteradas vezes ser um líder bem mais ponderado que seus antecessores (o que o colocaria em choque com os mais conservadores e radicais do partidão). Kim Jong-un, de educação ocidental, pode ser o fiel da balança quando pensamos na relação da Coreia com sua vizinha do sul e as potências ocidentais.

Apesar dos disparos e eventuais escaramuças, atitudes recentes como a liberação da entrada de familiares separados desde a época da guerra da Coreia, e reuniões militares de alta patente reforçam a noção de que nunca antes os países estiveram tão perto de chegar a um consenso sobre seu conflito congelado. Apesar da bravataria e testes de mísseis, a possível retomada do “six-party talks”, a negociação com os EUA, Rússia e outros países sobre o programa nucelar norte-coreano é um sinal extremamente louvável de que se pode vislumbrar uma solução pacífica para a questão.

Ainda persistem temores, especialmente do Japão, além de rusgas pontuais como o problema da libertação de três americanos presos por espionagem, mas não era possível pensar nesse tipo de aproximação clara quando Kim Jong-Il estava no poder. Cercada em mistério pela censura oficial, o que dá para saber sobre a Coreia do Norte é que Kim Jong-um tem um impacto positivo nas relações internacionais do país, e a sua permanência deve ser, de certo modo, comemorada.


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Política e Política Externa, Segurança