O que 60 mil Almas Devem Ensinar

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Por vezes a distância territorial e cultural não nos permite, por mais informados que estejamos sobre o mundo e a realidade de um país específico, ao menos uma compreensão superficial destes. Os conflitos religiosos na Irlanda do Norte, os estupros e a proliferação da AIDS como arma de guerra na África ou a total falta de direitos das mulheres no Marrocos podem ser conhecidas facilmente, mas poucas vezes entendidas.

Na maioria das vezes apenas nos atemos a definições genéricas para cada assunto, enquanto na vida real e as relações que definem quem somos é mais complexa. Em certo momento, para todos que tentam conhecer as razões que definem as sociedades é necessário a utilização de todas as peças do quebra-cabeça social, mesmo enquanto analisamos uma única parte. Ainda mais quando se procura más características, como a quem busca compreender conflitos ou injustiças, temas em que as verdades são apagadas propositadamente dos livros oficiais e só levantadas às vezes por uma série de pensadores e críticos corajosos.

Entretanto, tudo pode parecer mais claro quando relacionamos injustiças sociais à como uma cultura ou uma sociedade que conhecemos profundamente foi estabelecida. Para completar um dos quebra-cabeças entre legitimação social de uma injustiça e como é estabelecida uma sociedade, utilizo um fato ocorrido em nosso país há apenas 30 anos atrás.  

O caso do hospital psiquiátrico de Barbacena e do tratamento de seus “pacientes”, ocorrido por quase um século, é o melhor exemplo que podemos utilizar. Os motivos para as internações da maioria que ali residiam, a vida que levavam dentro da instituição e, por fim, o baixo preço da existência dessas pessoas formam um quadro exato para a compreensão das injustiças sociais ligadas à cultura brasileira.

O hospital, que abrigou milhares de pessoas durante o século XX, foi responsável pela morte de pelo menos 60 mil pessoas, número que representa apenas os 15 anos em que documentos oficiais e pesquisas foram capazes de contabilizar os mortos. As peculiaridades da instituição impressionam. Era uma população formada por mais de 200 mil pessoas, nas quais 70% delas não apresentando nenhum quadro de problemas mentais. Eram sim desafetos políticos de senhores poderosos, prostitutas, mulheres engravidadas fora do casamento, supostos criminosos e pessoas afetadas pela pobreza extrema.  

O hospital psiquiátrico de Barbacena foi verdadeiramente um cárcere travestido de instituição médica, utilizado como ferramenta para o cumprimento de desejos pessoais e políticos de pessoas poderosas, e do desejo de limpeza étnica e social por parte da sociedade de Minas Gerais e dos estados vizinhos. 

Dentro do cárcere, a maioria experimentava a morte e a indigência. Enquanto viviam tal brutalidade, o hospital de Barbacena gozava de enorme prestígio entre políticos, autoridades policiais e homens de grande respeito e poder aquisitivo, os grandes utilizadores dos “serviços” prestados pelo hospital. Os que não participavam diretamente do absurdo, mas podiam protestar contra o que ocorria, também nunca ousaram contestar a forma como eram tratados os pacientes. 

O hospício que fabricou o “Holocausto brasileiro” em nenhum momento esteve isolado do mundo, muito menos as suas atividades permaneceram escondidas nas sombras. Durante seu funcionamento, bebês foram retirados das mães internadas e adotados por outras famílias, com o conhecimento de autoridades e de diretores de Barbacena. Corpos foram vendidos à faculdades de Medicina, instituições de prestígio. Pessoas sumiam, trens cheios de novos presos chegavam todos os dias, sem que parentes e amigos contestassem os sumiços, autoridades ou moradores da cidade buscassem informações sobre as causas de tantas internações.

O caso de Barbacena é de um exemplo quase cristalino da injustiça social em que aos poucos se constituiu a pior característica do Brasil. O poder exacerbado para alguns, baseado nas raízes nacionais do coronelismo e do triste contraste entre sujeitos cheios de poder e miseráveis sem direitos, foram os responsáveis por esse episódio. 

Barbacena é a identidade primitiva para compreendermos como hoje em dia ainda temos tanto descaso pelos Direitos Humanos no país, junto a um abuso de autoridade constante, ambos legitimados pela maioria da população. Os pacientes, por serem “loucos” ou criminosos, pouco mereciam de consideração e respeito. Para outros, a miséria do hospício se transformava na única forma possível de vida que pudesse ser ofertada a “esse tipo de gente”.  Por fim, a exagerada crença nas autoridades, agindo como criminosas, forjavam os 70¨% de internações ilegais pela instituição e o descaso total à vida. 

As milhares de pessoas falecidas, que ainda viveram um final de vida em que estavam presos, nus, sem alimento e sem água potável, é uma atrocidade genuinamente brasileira. Como deixamos acontecer? Simplesmente não sabíamos, não desconfiávamos e não nos importávamos. Um tripé que em muito ajuda a esclarecer como coisas do tipo podem ocorrer em outros países, pergunta que muitas vezes não encontramos quando falamos de um realidade exterior. 

Quantos casos como esse existiram e ainda existem no Brasil? Quantas são as vítimas totais? Até qual ponto a cultura e a estrutura social  foram responsáveis para que tais fatos fossem legitimados, esquecidos e não punidos, algumas vezes até mesmo apoiados? Nesse momento conseguimos perceber o quão fácil é para uma cultura legitimar o que para nós, quando estamos distantes, se torna abominável. Por que o abominável de cada sociedade não reside mais nas sombras do que na claridade do dia-a-dia. 

 As 60 mil almas perdidas nesse triste episódio brasileiro só podem servir como um fato positivo nos dias atuais: a compreensão de como um sistema e uma ordem social se estruturam para legitimar situações absurdas e atentados contra seu próprio povo, sejam elas motivadas por causas econômicas, religiosas ou de poder. Cabe a nós evitarmos que o pior de uma sociedade se levante.

Recentemente, a publicação do livro “O Holocausto brasileiro” foi o primeiro grande passo para a recuperação da memória do que houve em nosso país durante a existência de tais “instituições psiquiátricas”. O conhecimento desse tema é crucial ao brasileiro. Afinal, relembrar o passado é a ferramente para compreender e modificar o presente.  E infelizmente, parte desse passado nunca será totalmente varrido de nossa sociedade, por que as sociedades reproduzem Mário Quintana com a verdade da célebre frase: “o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente”.

Para interessados, a apresentação do livro “O Holocausto brasileiro” – (clique aqui). 


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Uma Sombra a Cada Oito

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Quando uma pessoa é questionada sobre quais são os cinco ou dez maiores problemas existentes no mundo, ela provavelmente não vacile em responder a fome como um deles. Entre os problemas globais, a solução para fome só seria tão popular do que a o estabelecimento da Paz Mundial, tanto no discurso de concursos de beleza quanto nas discussões política. Também distante do nosso imaginário e da mídia, que o torna popular, o problema da fome continua a ser uma das maiores tragédias humanas.

Desde 1992 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) tem realizado, entre muitos outros projetos, a confecção de relatórios anuais que mapeiam a fome no mundo. Em todos esses 21 anos de dados a humanidade tem apresentado uma evolução continua rumo ao fim do problema no futuro. Mesmo assim ainda temos um total de 896 milhões de famintos atualmente, um número enorme, mesmo sendo 17% menor do que era indicado nos anos 90 do século passado.

A evolução da diminuição da fome tem sido causada principalmente pela América Latina e a Ásia. Nesses continentes, a evolução econômica dos países emergentes, junto a uma crescente diminuição da desigualdade, tem feito com que obtivessem os melhores resultados de melhoria de vida para a população faminta. Se o Mundo todo estivesse no mesmo ritmo desses países, o número de famintos no mundo poderia ter recuado até 50% nos últimos 20 anos, índice muito maior do que foi visto.

Mas por que a fome, mesmo cultivando uma grande preocupação mundial, tem se apresentado um adversário difícil de ser vencido? Talvez essa questão possa ser respondida com o caso da África Subsaariana, o local no mundo mais atingido pela fome. Expor causas que justifiquem a realidade de pobreza e fome nesse continente não caberiam em uma coleção de livros, quanto mais em uma postagem. Mas podemos pegar alguns aspectos atuais do continente para entender por que este permanece nessa situação.

Na África, não só temos o maior número de famintos como a maior desaceleração na diminuição de pessoas que saem dessa situação anualmente. Tal cristalização da fome, em contrapartida a rápida melhora do quadro em outros locais do mundo, tem alarmado a todos. Nem mesmo os países emergentes da África parecem ter força para anular a fome. O simples movimento de crescimento econômico não é suficiente no continente. 

A incapacidade da economia para solucionar o problema por si só é facilmente explicável. No caso de países como o Congo Belga, a riqueza é compartilhada apenas por uma minoria da elite nacional e magnatas estrangeiros. Já na Nigéria, a situação é bastante exemplar. Sua capital Abuja, fabricada exclusivamente para a elite política e econômica do país, ostenta grandes obras de infraestrutura e uma riqueza quase inigualável entre as capitais africanas. No entanto, os interiores do país continuam afundados na miséria e fome.

Diante desse cenário, até mesmo o aumento da produção agrícola, o maior desenvolvimento da história da África, e consequentemente da oferta de alimento, não tem sido suficiente. A FAO considerava esse fator como crucial a uma menor quantidade de famintos. Infelizmente, os resultados ficaram distantes do esperado. Isso pode ter ocorrido graças a grande concentração do desenvolvimento, restrito apenas às capitais e áreas urbanas.

A verdade é que a África expõe uma dura realidade: no mundo a desigualdade na divisão de recursos e de alimento é tão grande, que mesmo em um planeta que produz mais do que o suficiente para a alimentação diária de toda a população, quase 1 bilhão de pessoas passam fome. 

Mas para outros especialistas a culpa da falta de evolução do combate á fome na áfrica não diz respeito apenas a desigualdade. Os grandes índices de natalidade deram nova voz a teorias Neomalthusianas, que afirmam por meio de uma simples conta entre o alimento disponível e superpopulação, que a não redução da fome é originada pela falta de controle de natalidade.

Para eles, os africanos teriam que ter menos filhos. No entanto, a própria evolução da agricultura, que abriu uma nova oferta alimentar, e os altos índices de mortalidade da população, alavancada por males como a própria fome e a AIDS, tem jogado por terra essa teoria. Há menos pessoas, mais alimentos, e o problema persiste. A questão parece ser mais de falta de acesso ao alimento do que propriamente de escassez. Caímos então em uma complexa relação de cause e consequência causada pelo tipo de organização política e de desigualdade histórica na África, um problema social dos mais complexos existentes.

Abaixo, um vídeo bastante didático para a compreensão do mapa atual da fome e a questão da produção de alimentos versus a desigual distribuição: 

 

Na virada do século XXI, a Cúpula Mundial sobre a Alimentação definiu que o número de famintos no mundo em 2015 deveria ser de 498 milhões de pessoas, o que representaria uma diminuição de 60% no número de famintos desde que a FAO iniciou o seu projeto de relatórios anuais sobre a fome, em 1992. No entanto, faltando apenas 2 anos para o tempo limite da meta, ainda estamos com um número total de 846 milhões de pessoas famintas, quase o dobro do esperado. Ainda pior, tivemos uma baixa diminuição nos índices, em média apenas 20 milhões de pessoas por ano, o que leva a crer que estamos desacelerando na solução do problema.

A grande evolução econômica dos emergentes da América Latina e Ásia foi o grande combustível da evolução para um mundo sem fome. No entanto, nesses países o número de famintos é cada vezes mais baixo, os impossibilitando de prosseguiram como a grande vanguarda de combata a fome. Em contrapartida, a África Subsaariana, depois de anos de recuperação, parece se chocar contra os muros que  a impedem a um desenvolvimento mais veloz. A atenção estará voltada para a solução desse mal nesse local específico nos próximos anos.

Sintomaticamente, a ONU define a fome como “o maior problema solucionável da humanidade”. Enquanto tivermos pessoas vivendo nessas condições, teremos uma sombra permanente a nos rondar. Atualmente, há ainda muitas delas, uma em cada oito pessoas. Tomara que a situação em que vivem e as soluções para ela não sejam tragadas também por essa sombria escuridão.

 


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Calcanhar de Aquiles estadunidense

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Pra quem não é da área de economia, entender o impacto da discussão sobre o aumento do teto da dívida pública dos Estados Unidos não é nada simples. As variáveis são muitas e os jargões econômicos muitas vezes não são suficientemente autoexplicativos. A questão é que, em se tratando de Estados Unidos, um assunto predominantemente interno como esse revela o calcanhar de Aquiles de Obama e possui, na verdade, implicações internacionais diretas no mundo inteiro.

Manchetes anunciam a possibilidade de que o mundo presencie o “primeiro calote da história” do país, já que o Tesouro norte-americano ficará sem recursos para cumprir seus pagamentos na falta de aprovação de um acordo possibilitando a tomada de recursos emprestados do mercado financeiro – impasse que persiste no governo desde maio, quando foi alcançado o limite da dívida atual. Sobrevivendo com recursos extraordinários para honrar compromissos, há quase duas semanas vemos um país com o governo paralisado (bem como outras instituições), já que o dinheiro se esgota e o prazo para que uma solução seja anunciada se aproxima: 17 de outubro, quinta-feira.

Duas considerações são necessárias para (começar a) entender o impasse. Em primeiro lugar, Obama é democrata e uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral era (e ainda é) a reforma da saúde, incluindo quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de “SUS compulsório” [Reveja post de 2010 no blog a respeito aqui]. Os republicanos, oposição já naturalmente, opõem-se fortemente ao que foi apelidado de “Obamacare”, argumentando ser esta lei uma afronta ao princípio de livre arbítrio (!), obrigando os cidadãos a terem um plano de saúde.

Em um país do porte dos Estados Unidos, perceber a inexistência de um sistema público de saúde e a carência da maior parte da população em atendimento gratuito revela uma situação caótica e que comprovadamente se tornou um dos temas prioritários da gestão de Obama. Contudo, e aqui vai a segunda consideração importante, os dois partidos assumem posturas com frequência intransigentes e, querendo ou não, precisam negociar, já que o comando do Congresso é dividido, sendo que os republicanos representam maioria na Câmara e os democratas no Senado.

Um Obama que não é dotado de poder para desconsiderar estas instâncias se vê com o calcanhar atado diante de negociações atravancadas: por um lado, republicanos querendo a todo custo ter esse aumento do teto da dívida vinculado a grandes cortes no orçamento (incluindo explicitamente o adiamento ou a eliminação do financiamento à Saúde previsto na lei de reforma!). Por outro lado, democratas insistindo em cortes menores para garantir a manutenção dos benefícios sociais à população, com pouca margem de manobra para negociar.

Tendo rejeitado a última proposta republicana de elevação do teto da dívida apenas temporariamente, Obama arrisca (ou aposta) na busca de uma solução duradoura antes do prazo estipulado, já, contudo, sofrendo com as consequências econômicas da falta de aprovação do novo orçamento, revivendo a mesma situação de 2011, quando a polêmica acerca da reforma da saúde ainda era recente e predominava em qualquer debate.

Sensacionalismos à parte, o desfecho desta novela estadunidense não tardará a ser desenhado e possivelmente trará à tona um certo nível de diálogo que evitará, na última hora, o calote, evitando impactos econômicos estrondosos no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento. Entretanto, não deixa de ser impressionante o impacto que o tema da reforma da saúde proporciona nos interesses políticos do país, e a forma como tais interesses afetam diretamente o desenrolar econômico deste gigante. Gigante cuja principal fraqueza parece se mostrar, justamente, de dentro para fora… 


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Vivemos na pré-história?

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O presidente uruguaio, José “Pepe” Mujica, discursa na abertura da

 68ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU)


Não posso deixar de comentar sobre a Abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) que ocorreu no último dia 24 de Setembro. O Álvaro já o fez em seu texto “O poder do discurso”. Mas não se configura em repetição nos debruçarmos novamente nesse aspecto. Discursos públicos com toda certeza refletem as relações de poder entre as pessoas e, especificamente na ONU, entre os Estados nacionais. 

Obviamente, muito se falou sobre o discurso da presidente Dilma Rousseff. Atacou a espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) dos Estados Unidos. Criticou a falta de resposta do governo de Barack Obama. E defendeu a criação de um marco regulatório de dados sobre as informações que circulam na rede mundial de computadores (internet). Os pronunciamentos do próprio Obama e do presidente iraniano, Hassan Rouhani, também foram impactantes no sentido de procurarem fomentar o diálogo entre as partes. Mas as falas do líder norte-americano basearam-se no de sempre: problemas com o terrorismo e com a segurança nacional de seu país. De necessário, e mesmo sendo criticado por isso, as palavras sobre a situação desastrosa na Síria soaram de forma razoável e deveriam mesmo ser mencionadas. 

De forma mais “secundária”, sem os holofotes da grande mídia nacional e internacional, outro discurso chamou a atenção na abertura da AGNU. Estou me referindo a José “Pepe” Mujica, presidente uruguaio. Foi um pronunciamento eloquente, ávido, perspicaz e, porque não dizer, moralista. Moralista no sentido de “puxar a orelha” de muitos governantes que estavam ali presentes, principalmente dos líderes das maiores economias e do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). 

Mujica fez um discurso que, nos dizeres das Relações Internacionais, pode-se denominar “do sul para o sul”. Citou como recurso identitário a América Latina, nome que não tem um sentido único, mas que nesse contexto remeteu-se, nos dizeres do presidente, aos “compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões” da região. 

Seu pronunciamento foi liberal, humanista e crítico. Liberal no sentido político, mas totalmente avesso ao neoliberalismo de mercado. Humanista por tentar resgatar o que há muito estamos perdendo: o sentido de cidadão, o “ser civilizatório”. Crítico, porque serve para mim, para você e quaisquer pessoas. Para autores como Francis Fukuyama, o qual ficou globalmente conhecido por decretar o fim da história, aparece uma nova dúvida a partir das palavras de Mujica. Fim da história? Como, se ainda vivemos na pré-história? 

Ah sim, para o filósofo e economista nipo-estadunidente, a Democracia Liberal seria o último estágio da evolução social da humanidade. Meia-verdade. Falta chão para termos democracias liberais de fato e não de presidenciáveis alheios às visões de quem realmente precisa de recursos. Voltando ao Mujica, ele diz que vivemos em tempos de turbulência econômica e de guerras, daí decorre a nossa atual pré-história. Em suas palavras: “No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.” 

Mujica é exaltado e, de maneira inversa, veementemente alvo de críticas enquanto líder uruguaio. Acredito que não devemos colocá-lo em um pedestal e ovacioná-lo toda hora. Todavia, não podemos deixar de notar seu espírito futurístico e, mais importante ainda, humano que muito faz falta a outros governantes. Cabe a cada um interpretar sua exposição durante a AGNU. Para mim, foi meio que um “tapa na cara” para dizer “Acorda, cara. Tem muita coisa acontecendo por aí”. 

Para terminar o texto com palavras bonitas, copio outro trecho do discurso de Mujica: “A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos”.

PS: O discurso completo de José Mujica está disponível em vídeo aqui e escrito aqui.


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Pessoas da Síria, vergonha de mundo

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Há 7 meses escrevia meu primeiro texto para o blog. Na época, como ainda não havia escrito nada, pensei em publicar o assunto que mais me incomodava. E nenhum outro tinha tanta força de tirar o sono do que o tráfico internacional de pessoas, mais precisamente o tráfico de mulheres. Não somente por ser um dos atos mais asquerosos existentes, mas também por ter certeza que ele não seria eliminado à curto prazo.

Afirmava na época que embora houvesse uma enorme tentativa por parte das forças policiais e jurídicas de diversos países para coibir essa forma de crime, ele só se fortalecia com o tempo. Mas então qual seria o segredo do sucesso dessa prática? Hoje o crime mais rentável do mundo. E concluí que isso ocorria precisamente por ser executado contra pessoas de “menor importância”, que não eram valorizadas por governos e sociedades.

A única coisa que faltava naquele texto era um cenário que na prática demonstrasse a relação entre crimes hediondos contra a humanidade e a falta de valorização de certos grupos, o que legitimava tais ocorrências. Agora surge a Síria, que infelizmente pode servir como um bom exemplo.

O país que passa por uma guerra nos últimos meses entre governo e oposição. Conflito que já matou mais de cem mil pessoas, segundo estimativas. De um lado, Bashar Al Assad. De outro, rebeldes, muitos deles financiados pelas potências ocidentais. Uma massa heterogênea de pensadores, políticos, pacifistas e terroristas, digna das complexidades presentes nos conflitos do Oriente Médio.

A guerra corria sem novidades, até a ocorrência de um ataque químico, ao qual o ditador sírio é acusado de ser o mandatário. A denúncia de que haveriam mais armas desse tipo em poder de Assad, que inclusive poderiam ser descarregadas não só contra os rebeldes, mas contra os inimigos da Síria, e coloque-se aí Israel e EUA, ligou o sinal de alerta de Obama e das potências europeias. Agora, passado algum tempo, estamos prestes a ver uma intervenção americana no país.

Feita a exposição inicial da situação, proponho um processo de desconstrução do que ocorreu nas últimas semanas, colocando os excluídos sírios, até aqui invisíveis, no papel central da discussão. Por que a não ser que tenha ficado louco, nada do que acabei de dizer, embora realmente esteja ocorrendo, faz sentido. Há hoje, uma guerra que matou 100 mil pessoas, e Obama só agora propõe uma intervenção, se utilizando de um discurso moralista, do tipo: “as potências não podem se calar diante dessa tragédia.”

Como justificar que após 100 mil mortes omitidas, ou pelo menos “pouco impactantes”, mil e quatrocentas vidas sejam tão mais importantes? A ponto de fazer o presidente ficar tão inconformado e buscar justificar um ataque à Síria. Seria necessária um grande poder de discurso, de persuasão. E para os EUA é o que não falta.

Obama é astuto, ele conhece os caminhos da compaixão humana. Ele fala em 1400 mortos e logo acrescenta, “boa parte crianças”. E afirmo que no dia em que as análises de discursos políticos não se limitarem ao que foi dito, mas também ao que foi omitido, o tom moralista e heroico de Obama após os ataques químicos tem muito a dizer sobre por que ocorrem atrocidades que passam batidas, como guerras e  o tráfico de pessoas. E agora explico.

Quando Obama fala em mortes de civis, e em sua maioria crianças, ele faz um contraponto entre os milhares de mortos em guerra. Primeiro, por que na guerra existe um “lado mal”, e para esse lado a morte não deve ser lamentada. Segundo, que há a ideia de que os que morreram pelo lado correto, se sacrificaram pela “guerra justa”. Por último, uma constatação: a maioria dos que morreram em combate são homens adultos. “Soldados”. Menos valorosos que crianças.

E por que eu digo que são homens adultos? Primeiro, por que a Síria é um dos países mais machistas do mundo. Logo, a mulher está pouco representada no espaço público, ainda mais durante guerras. Segundo e mais conclusivo, digo isso por ter lido alguns dados, que dão conta de uma migração de mais de 2 milhões de refugiados sírios, em sua maioria mulheres e crianças.

Se a necessidade da guerra justifica a morte de milhares de “soldados” dentro da Síria, a falta de importância dos refugiados justifica a omissão dada a esse problema. São milhões de crianças, e logo muitas delas serão traficadas, ou utilizadas em trabalhos desumanos. Milhares de mulheres que começam a sofrer a mesma ameaça. O tráfico de pessoas e a prostituição forçada dependem e sempre foram muito eficazes em recrutar esse mar de refugiados que se forma a cada conflito. É assim no mundo todo, será assim na Síria.

Voltando ao discurso de Obama, o ouvimos dizer que “nós (EUA) faremos uma intervenção na Síria, por que é inconcebível que um país descumpra um tratado internacional”. Pelo que sei, Obama não é professor de política internacional, muito menos de sociologia. O público dele não é uma sala de estudiosos, mas sim o cidadão americano. Quando ele direciona o discurso para estes, ele não pode justificar suas ações lendo bulas, mas exercendo uma argumentação que alimente o senso de justiça da população. Que legitime o ataque por esse ser algo correto a se fazer, e apenas isso.

Mas não. Obama usa somente um discurso legalista para justificar a invasão. Mais e ainda pior: ele dá importância a um fato sobre os outros. Obama está praticamente dizendo que “o que justifica a nossa intervenção é o uso de armas químicas”. Em outro ponto ele traz para mais próximo a ameaça dessas armas, dizendo que elas “põe em perigo os EUA e toda a comunidade internacional”. Fala completa, cidadão convencido ou não, há um outro discurso: o do silêncio.

Nele, Obama está dizendo: “armas químicas são perigosas, inclusive para nós. Queremos a queda do ditador e para isso financiamos os rebeldes. As 100 mil mortes até aqui dessa guerra não foram suficientes para realçar nossa compaixão, ou mudar nossa política. Os milhões de refugiados, que logo morrerão, ou pior, se tornarão escravos, sexuais ou não, não tem tanta importância. Por isso atacaremos, mesmo que o ataque piore ainda mais todo o cenário para a população comum”. E governos e homens como Obama não se importam mesmo. Para diminuir o peso da crítica que faço sobre eles, afirmo que sei que não são os únicos omissos. São parte da maioria.

Por isso mesmo essa semana discutiremos novamente a intervenção ou a votação do Congresso americano. Será tema principal até o poder de destruição das possíveis bombas, como funcionam, como são construídas. E no mesmo momento estarão passando pelas fronteiras milhares de mulheres, que logo serão exploradas graças a esse cenário de desgraça. Inclusive pelo tráfico internacional de mulheres. Quem sabe algumas delas até nos clubes de Miami, bem próximas a Obama. Algo terrível. Mas que de forma impressionante sempre permanece como problema de última prioridade.

Alguns podem dizer que meu texto é utópico. Afinal como Obama poderia ser responsabilizado por essa situação, ou mesmo como lutaria para terminar com um problema mundial tão complexo? Eu também faço esse tipo de pergunta, mas para uma outra situação: como uma intervenção de Obama poderia trazer democracia e paz na Síria? Essas ideias já passaram por Iraque e Afeganistão.  Em todos os casos, a “democracia” cobrou mais vidas do que deveria. O presidente dos EUA “acredita” que pode levar soluções a conflitos, mas não move um dedo para para discutir a situação de refugiados, os milhares de mortos de uma guerra em que ele é um dos financiadores, ou o florescimento do tráfico de pessoas, que ficará ainda mais forte com essa nova “leva” de refugiados sírios.

Agora, uma questão pessoal. Quantas armas químicas são necessárias para igualar o caminho de dor e desilusão causada pela bomba formada por guerras, milhões de refugiados e o sistema internacional de tráfico de pessoas?  Mas aparentemente esse problema segue fora de pauta, por vezes relembrado aqui e ali, esporadicamente. Retratos obscuros da marcha dos crimes contra seres humanos pouco valorizados, refugiados, traficados, entre outros. Seres humanos invisíveis.


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O caminho para a destruição

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Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


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Cegueira não tem fim

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Em todos os lugares, de tempos em tempos um tema qualquer polariza a discussão sobre os caminhos adotados pela política nacional. Grupos se concentram em lados opostos, à esquerda e à direita, liberais e social-democratas, conservadores ou progressistas. Apresentam caminhos diferente para a solução de problemas em comum. Desses embates surgem propostas e posições que irão definir o futuro das decisões políticas importantes. Na saúde, nos transportes, na educação, nos direitos das minorias etc.

Mas a polarização tem um efeito colateral. Dela, surgem grupos que mais parecem caricaturas. Logo, começam a colocar ideias por vezes esdrúxulas, em outros momentos perigosas. E assim formulam as mais absurdas respostas para a realidade e os problemas sociais. Qual a política de emprego? “Expulsar os imigrantes, metralhar os patrões.” Qual a solução para a violência? “Execuções em praça pública, condenações sem julgamentos”.  

Nos dias atuais, ao menos no processo decisório, as caricaturas quase nunca aparecem. Não aparecem por que já perderam o embate da discussão, não foram levadas suficientemente a sério pela maioria. E cada dia são menos levadas. As caricaturas sempre ficam em segundo plano, longe do centro debate. Exceto no Brasil. Aqui, há uma recente tendência que a caricatura apareça mais que o bom senso em grande parte das vezes. E com uma recorrência que deveria nos assustar.

Como eu poderia provar essa afirmação? Com o assunto do momento: a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, por meio de um programa federal de “cooperação internacional”, em que se abrem vagas para estrangeiros trabalharem no Sistema Único de Saúde. Uma decisão que tem gerado bastante polêmica. Vamos compreendê-la melhor.

Tudo começou quando Alexandre Padilha, então ministro da saúde sem grande destaque, foi alçado pelo ex-presidente Lula como uma dos nomes futuros de seu partido. Padilha supostamente sairia do ministério rumo à disputa para algum cargo executivo, de preferência o governo do Estado de São Paulo. Mas ele precisava de uma propaganda positiva. Mas como fazer a propaganda de um homem que gerencia a mais criticada área pela população? Aqui no Brasil é possível. Basta criar uma “marca”.

As marcas servem para cobrir gestões medíocres ou instáveis. A partir delas é que criou-se a ideia de um ministro que é “pai do Real” ou de uma suposta “mãe do PAC”. Se personaliza tudo. Quem se interessa por política interna sabe que aqui a propaganda política não morre órfã. Padilha, que não era pai de nada, resolveu ser pai do Programa Mais Médicos.

Foi um ano de negociações, sempre com muitos empecilhos e criticas, em que o ministro buscou transformar seu filho em realidade. Até que ocorreram as manifestações de junho. Na ânsia de dar resposta satisfatória ao povo, a presidente decidiu tomar um série de medidas de melhoria em várias áreas, inclusive na saúde.

Anunciou então 50 bilhões de reais em investimentos, mais de 12 mil novas vagas de graduação em medicina nas universidades públicas federais e a vinda de milhares de médicos estrangeiros. Notem, a medida da vinda de médicos estrangeiros foi anunciada como a principal delas. Óbvio, 12 mil vagas nas universidades e 50 bilhões em investimentos valem menos politicamente do que ser pai de algum projeto.  

A partir daí houve a polarização, tão comum nas democracias. Parte dos médicos acusavam a medida de populista. Outros defendiam investimentos além de novas contratações, ou a melhoria das condições de trabalho nas cidades pobres, para que surgissem vagas mais atraentes. Outros argumentavam que o aumento de formandos por si só solucionaria o problema da falta de médicos, não precisando de medidas emergenciais. O assunto seguia interessante. A vinda dos médicos estrangeiros era mais um bom debate no efervescente momento dos protestos. Aos poucos os médicos foram perdendo espaço. Pesquisas mostravam que o apoio ao plano do governo saíra de 7% de desvantagem para os contrários à medida, para 8% de vantagem.

Pouco a pouco, os contrários a vinda dos médicos foram mudando de argumentação. Foram criando uma polêmica atrás de outra. Primeiro, contestaram a competência dos postulantes às vagas. Depois do sistema Revalida. Até que surgiu o anuncio da vinda em massa de médicos cubanos.

O problema é que pega mal a palavra Cuba aqui no Brasil. Inclusive, essa é uma palavra que parece mal-assombrada no país. Toda vez que entra em cena temos a percepção do ressurgimento de muitos esqueletos há muito enterrados. Esqueletos ideológicos. Não demorou muito para pessoas começarem a criar um suposto plano de infiltração de terroristas de jaleco, disfarçados para impor uma certa revolução vermelha.

Em qualquer país tais suposições não freariam o plano,  nem ganhariam repercussão. Mas aqui as caricaturas, por vezes, pesam mais que o bom senso. Os jornais passaram a noticiar a vinda de médicos como um embate ideológico sobre o apoio ou não à ditadura cubana. Houve quem ousasse tecer um plano para o governo brasileiro “financiar” a ditadura cubana, sabe-se lá por qual motivo.

E daí surgiram anomalias cada vez maiores. Um diretor regional de medicina dizendo que chamaria a policia aos estrangeiros e, pasmem, não socorreria erros médicos dos mesmos. Em uma ordem, o médico rasga o juramento que fez ainda na universidade, e diante da posição que ocupa, não mede esforços em fazer política com vidas.

Mas o assalto dos absurdos continuou. “Médicos cubanos são mercadorias, estão despreparados”, “a medicina cubana esta superada”. Até que surgiu a noticia de que seriam “quase escravos”, trabalhariam por 30% do salário. O restante seria entregue ao governo cubano. Enfim uma discussão valida. Afinal, seria correto essa forma de remuneração? 


Voltamos a boa discussão por um momento. Até que os médicos cubanos chegaram, afirmando amores ao Brasil. Dizendo que trabalhariam até de graça, que concordavam com a forma de pagamento. Seria o fim da polêmica de que os cubanos seriam escravos prestes a fugir do domínio do regime. Como combater o apoio dos próprios cubanos a suas contratações?

O resultado é o da foto acima. Uma dúzia de médicos recepcionando estrangeiros da forma mais vergonhosa possível. Criando uma espécie de corredor polonês, vaiando, ofendendo, pedindo a saída deles do país. Se houvesse um retrato do preconceito em exposição em uma galeria de arte, seria o acima. O que levaram tais médicos a se comportarem dessa forma? Diria eu, que o resultado do triunfo da mediocridade sobre o bom senso.

A caricatura vence o bom senso no Brasil por muitas vezes. Quando li que os médicos cearenses ofendiam os cubanos os chamando de “escravos”, já sabia do que se tratava: uma velha ação muito comum no Brasil. Imaginem que a mulher apanha do marido. Dias depois ela volta a viver com ele e apanha novamente. A partir de então se criminaliza a vitima, e o marido está livre para futuras surras. Algo do tipo “Os cubanos são escravos. Mas apoiam o modelo do seu governo? Então merecem a senzala.” A senzala, o corredor polonês, a xenofobia de perto. O brasileiro leva muito a sério o raciocínio binário.

Após o fato ocorrido, uma jornalista ainda colocou em uma rede social uma comparação entre a aparência de médicas cubanas e das empregadas domésticas. Em uma só frase foi racista, preconceituosa e um bocado ignorante. No fim ainda se esquece que os cubanos vieram exatamente para atender gente humilde, que ela mesmo humilha. Em sua “defesa” aos mais pobres, ainda afirma: “coitado desse povo, ser tratado por essa gente!” Coitado mesmo, que depende da decisão e ação de uma suposta elite, que tão facilmente cai no limbo do pensamento medíocre. A caricatura perfeita do preconceito, da xenofobia, do corporativismo e da intolerância. 

Esse debate surpreende pelo baixo nível até a quem já está acostumado as discussões sobre política em nosso país. E isso é de impressionar! O limbo intelectual tomou conta do centro do debate. Já não é a primeira vez que isso ocorre, seria otimismo demais dizer que será a última. E para quem se interessa pela melhoria do país, resta se contentar com opiniões desse tipo pipocando por todos os lados. Poderíamos até mudar a letra daquela velha música, para mostrar o que as vezes sentimos nesses momentos: “Cegueira não tem fim. Paciência, sim!”


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A "punição exemplar"

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Antigamente, se via muito a aplicação da chamada “punição exemplar”. Execuções horrendas, como esquartejamentos, serviam justamente para confirmar o poder de quem manda na ordem do momento (seja um governo, democrático ou não, seja um tirano) e colocar medo naqueles que estariam envolvidos para evitar a recorrência dos atos que levaram à punição. Basicamente, a mesma ideia do encarceramento, mas de um jeito horripilante e com muito mais impacto. É diferente do “bode expiatório”, quando colocamos toda a culpa em um certo indivíduo para livrar a cara de outros.

Pois bem, como hoje em dia não pega muito bem desmembrar gente em público (apesar da tradição da pena de morte em alguns lugares persistir), ou quando a situação escapa de “dentro” do Estado, o jeito encontrado para alcançar aqueles dois objetivos se tornaram bem mais sutis. Estamos vendo um pouco disso nos casos recente de vazamento de informações internacionais. O mais quente é o do brasileiro David Miranda, detido pela polícia britânica durante sua passagem pelo aeroporto de Londres por cerca de nove horas em decorrência de artigos no mínimo questionáveis da lei antiterrorismo do país. Durante esse período, para não ser preso, o brasileiro teve de responder questões pessoais, entregar senhas e teve seus pertences confiscados. O que isso tem a ver com terrorismo? Miranda é parceiro de Glenn Greenwald, o jornalista que jogou na mídia a bomba das revelações de Edward Snowden, e aqui as coisas começam a ficar estranhas. 

O governo britânico justifica que a detenção foi feita com base legal e no interesse dos cidadãos britânicos, de que os dados nos pertences poderiam comprometer a segurança nacional. Mas é muito suspeito que justamente ele tenha sido “sorteado” para essa busca. Há um claro interesse por trás desse ato, simbolismo, mas o difícil é saber de quem partiu. A CIA? Os EUA? Serviços de inteligência? Aqui já estamos na área das conspirações, mas parece claro que temos um fenômeno recorrente. Pensem nas nebulosas acusações de abuso sexual contra Julian Assange que fizeram dele morador permanente da embaixada do Equador em Londres. Ou o jogo de gato e rato de Snowden com a inteligência dos EUA e sua demonização na mídia de lá. Ou a papagaiada do avião de Evo. São casos em que, se os governos não têm meios de agir diretamente contra os que atingiram seus interesses, ocorrem ataques “indiretos”. A mensagem é clara – de um jeito ou de outro, alguém vai pagar. Quem quiser enfrentar o mundo e revelar segredos dos países vai ter que ser muito liso e torcer pra que não envolvam suas famílias ou coisa do tipo no meio. E isso pra não contar quando existe o peso da lei – como o caso do soldado Manning, envolvido com os vazamentos do Wikileaks lá em 2010, que acaba de ter a sentença anunciada e conseguiu escapar de 90 anos na prisão para “apenas” 35

Mas é, estamos falando de conspirações ou suposições com base em fortes suspeitas… mas o que temos de concreto? Na semana passada o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já tinha “puxado a orelha” do Secretário de Estado dos EUA sobre a vigilância. O caso de Miranda foi a gota d’água, e o Brasil condenou veementemente (e de um jeito até atípico) a atitude da Grã-Bretanha. Por muito menos que isso já rompemos relações com eles (nos bons tempos do Império), mas não deve ser para tanto. Talvez isso mostre o maior dano que os envolvidos na espionagem tenham: o diplomático. Esse demora para ser consertado, e a “punição exemplar” acaba tendo um efeito muito pior do que o dano que tenta evitar…


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Vamos falar sobre os Ciganos

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“A globalização aproximou todas as culturas”. Essa é uma das frases mais comuns que ouvimos em conversas descompromissadas do dia a dia. Em parte uma afirmação correta. Longe de imaginar o desconhecido de novos lugares, do “descobrimento de novas Terras e povos”, tudo se parece igual. Então começamos a pensar que o restou da diversidade de povos no mundo foram pequenas diferenças, o restante de singularidades que ainda os caracterizam. 

Como bons ocidentais, esquecemos populações inteiras, completamente distintas de nós. Esquecemos a África, minimizamos as superpopulações dos países asiáticos, reduzindo aos poucos imigrantes que conhecemos. Talvez tenhamos pontos em comum aos europeus. Copiamos em parte o modo de vida americano. Mas não temos ideia de quem é o camponês chinês, que representa cerca de 10% da população mundial. Como não o conhecemos e não fazem parte do nosso raciocínio de globalização, os esquecemos.

Mas não precisaríamos cruzar o mundo em busca de populações exóticas ou excluídas para encontrar exemplos desse tipo de esquecimento moderno. Poderíamos usar como exemplo o Brasil. E não falo de tribos indígenas ou povoados distantes, sem fácil conexão com a “civilização”. Fazemos o mesmo com quem vive em nossas cidades, por vezes são nossos vizinhos de bairro ou até mesmo de rua: os Ciganos. Uma junção de diversos povos nômades, compartilhando da mesma língua, o Romaní. 

Os ciganos são bastante peculiares. A maior parte da sua historia é baseada na exclusão de qualquer território pisado. E os territórios são muitos. Talvez os Ciganos tenham sido o primeiro exemplo de estereotipo da ficção literária e do imaginário popular. O grande retrato de um povo inferiorizado. Muito antes dos Nazistas publicarem em suas revistas caricaturas pejorativas de judeus, os Ciganos cumpriam papéis nessas publicações de assassinos, artistas de circo, piratas, farsantes, cartomantes, charlatões. Sempre pessoas a serem evitadas ou eliminadas. Diz-se que o ser humano, diante do medo do desconhecido, tende a cobrir o outro de véus. Uma boa metáfora aos muçulmanos, já literalmente vestidos da forma como os imaginamos ou desconhecemos. Melhor ainda para representar os ciganos. 

Interessante que intactos aos diversos ataques que sofreram de todos os Estados em que viveram, permaneceram em comunidades bastante exclusivas, bem cristalizadas, defendendo a sua cultura e crenças. E durante décadas passaram distantes de obrigações impostas. Não como os Amishes ou índios, reconhecidos juridicamente como donos de terras, de uma própria lei, da liberdade e reconhecimento. Os Ciganos se mantiveram unidos sob fortes ameaças, entre a cruz e a espada.

 No Brasil, entre as antigas discussões que negaram a legitimidade do povo cigano, estava a afirmação de que “não eram um povo em si, mas sim várias populações que compartilhavam ‘apenas’ da mesma língua”. Que grande surpresa isso não representar um povo para as autoridades brasileiras, assim como de muitos outros países. Afinal, não seria o Brasil o maior exemplo de torre de Babel em que diversas culturas compartilham  a mesma língua, e apenas por esse motivo se formaram como sociedade?  

Assim, os ciganos foram lançados ao maior abismo possível da exclusão. Maior que o do ódio, como sofreram os judeus. Foram jogados ao esquecimento, à falta de identidade. Invisíveis, seguiram como alvos de todas as barbáries possíveis. Estiveram nos massacres das guerras desde o século X, nos êxodos de populações, na Segunda Guerra Mundial, sofrendo um holocausto tão terrível quanto qualquer outro povo odiado pelos alemães. Mas um holocausto esquecido, nunca noticiado. 

Sempre comparado a ratos, como uma população de uma raça ou cultura inferior. Sem uma Terra, sem lobby político, sem órgãos de Direitos Humanos atentos, sem defensores. Massacrados pela Direita, pela Esquerda, pelo Centro e por Comunistas. Também por Ditaduras e Regimes Democráticos. Vezes mais, vezes menos. Vezes sem direito à dignidade, vezes sem direito à vida.

Mesmo diante de uma situação bastante negativa, o que é interessante é que os ciganos por muitas vezes deram as costas a qualquer tipo de oportunidade de se misturar às populações dos países em que viveram. Não deixaram suas crenças e muito menos se prepararam para o mundo globalizado. A falta de escolaridade é uma das provas dessa afirmação. O analfabetismo veio bater forte no modo de vida cigana no mundo capitalista, jogando a população ainda mais na pobreza. O seu maior líder, autointitulado “rei dos ciganos”, Florín Cioaba, foi um dos primeiro a tentar modificar essa rebeldia contra qualquer tipo de instituição do Estado. Também aboliu o casamento de pessoas menores de 15 anos, muito comum em sua cultura. Pensou assim diminuir a exclusão Cigana no mundo moderno, a diminuição do preconceito contra seu povo. Esqueceu que não é nada moderna a segregação Cigana. 

A cultura, conhecida como anacrônica ao mundo atual e a obscuridade do modo de vida cigano fizeram com que se construísse a ideia de um povo negativo, mais uma vez. Logo, o cigano ganhou o papel moderno de único portador de fé em crendices, da ignorância, aquele retrato da mulher que faz leitura de mãos no centro decadente da grande metrópole. O que realçou ainda mais a visão de povo a ser ignorado. Diante de tantas populações nada esclarecidas, como a do Brasil, que desafiam o bom senso com discursos religiosos contrários ao relacionamento homoafetivo e mais recentemente, de forma absurda, contrários ao direito ao aborto em casos de estupro, o Cigano ainda se tornou a “antiguidade indesejada”, o bode expiatório do desejo progressista.

Distante da modernidade, do Estado, das elites e até dos “descolados”, os Ciganos permanecem esquecidos. Sofrendo massacres em parte da Ásia e leste europeu, excluídos no restante da Europa e nas Américas. Não saem em jornais, não há pesquisas acadêmicas sobre eles, nem história de seu povo. Não são incluídos em estudos nas escolas sobre migrações, muito menos lembrados em sua existência. Permanecem apenas no imaginário do artista de circo, da cartomante, da dançarina exótica.

Mas os Ciganos desafiam o silêncio e continuam a ser uma comunidade bastante restrita, mantendo laços de proximidade que protegem a sua cultura até mesmo da igualdade globalizante. E seguem às sombras, compondo o mais curioso retrato de povo do mundo globalizado.

Deixo alguns links para quem se interessou sobre o tema:

Embaixada Cigana no Brasil e um pouco de história desse povo.

Construção de muros anti-ciganos na Europa, exemplo muito comum da exclusão atual.

O Holocausto Cigano, ocorrido junto ao judeu pelos Nazistas, mas pouco noticiado.

Discussão sobre a exclusão Cigana da sociedade, dos noticiários e das pesquisas sociais e históricas.

O Cigano no mundo globalizado.


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Ultrapassando Mandela

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Nos últimos dias, tive contato com alguns dados recentes feitos por um programa de cooperação cientifica em sociologia entre China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul, do professor Tom Dwyer, do departamento de sociologia da UNICAMP. Nos próximos posts, tentarei compartilhá-los, junto a informações de pesquisas recentes, que dão conta da situação social atual desses países tão em moda, por formarem o grupo dos BRICS. 

E começo fazendo uma análise da importância desses novos estudos, tomando por base a África do Sul atual, pós Nelson Mandela, certamente um dos grandes líderes construídos durante o século XX. O homem considerado o principal ator na luta contra a segregação racial e o racismo na África do Sul e no mundo, o que por si só o coloca como grande símbolo de outras batalhas contra grandes injustiças. Sua história é impressionante. Passou décadas trancafiado na prisão, junto a seus companheiros, onde permaneceu são e convicto de suas ideias, aquém da cadeia e das acusações por terrorismo. Saiu dela e foi alçado a presidência de um país que era governado pela minoria branca, que havia institucionalizado o regime jurídico de segregação racial conhecido como Apartheid. 

Mas Mandela aparentemente não guardava mágoas. Dentro de seu governo, as leis que sustentavam o regime morreram. Mas as principais vitórias foram segurar o ímpeto dos mais radicais de seu partido, que defendiam a cobrança violenta dos débitos construídos durante o antigo regime, e também respeitar a oposição, parte dela ainda racista, que dominava a imprensa com mensagens reacionárias. A indiferença e a tolerância com esses grupos foi o próprio combustível para o enfraquecimento deles. A sua vitória foi o início de um novo tempo, em que ao menos seria possível imaginar construir um país coeso. 

Como todos os líderes muito envolvidos em suas batalhas, Mandela sempre soube que aquilo, em contrapartida a ser o final de uma luta, era apenas o início. Uma nação se construía, mas não uma nação bela, espontaneamente livre de seu passado. Se na maioria das vezes os tribunais não cobram os crimes prescritos, o futuro de uma sociedade sim. A África do Sul saiu do Apartheid como um país pobre em desenvolvimento, com forte desigualdade social e racial e assim continuou. 

Não existem milagres nas mudanças sociais. E não seria na África do Sul a primeira vez. Rasgadas as leis, acabada a desigualdade jurídica, sobra a social. Sobre a construção das nações modernas, estão escondidas as marcas que garantiram a sua própria formação. A África do Sul foi baseada na própria sociedade de segregação. Ainda hoje é, quando observamos que grande parte dos negros não saiu de bairros pobres como o famoso Soweto. Se Mandela se transformou em mito, os sul-africanos vivem na realidade.

O líder não só dividiu a história, mas parou o tempo no qual discutimos o país. Quando se discute fora da África do Sul do Apartheid, se discute o passado. Faltam análises sobre o presente. Um país com índice de Gini como um dos mais altos do mundo, de 0,593, ainda extremamente desigual. Com falhas no sistema de seguridade dos trabalhadores, bairros de negros inteiros feitos de madeira. O racismo ainda presente. 

Na África do Sul, o Soweto ainda é o exemplo de bairro dos negros do país, muitos anos depois do fim da segregação jurídica. Restam os muros garantidos pela estratificação social, cristalizada no país além do que se pode destruir com novas leis. E isso não ocorre só na terra de Mandela, mas também em outras sociedades. Nas sociedades dos BRICS. 

Resta romper outros muros, entre eles o do mito Mandela e da visão pausada no momento da vitória contra o Apartheid, para que se possa ter uma visão de como é a Africa do Sul internamente nos dias atuais, a realidade do “novo Brasil”, a “China desenvolvida” ou a “Rússia democrática”, fora das questões diplomáticas e do comércio internacional. Essas analises servirão para reafirmar ou contestar o modo como vemos o momento dessas nações internamente.


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