De qual lado?

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A crise política na Venezuela (pouco divulgada, aliás) tem muito a ver com o que ocorre no Brasil. Nessa última semana, protestos explodiram em diversas localidades do país vizinho, começando como uma alusão ao dia do Estudante e que cresceu e inflamadas por líderes da oposição se tornaram marchas contra o governo, que resultaram em confrontos violentos e em pelo menos três mortes. De certo modo, lembra um pouco o que aconteceu no Brasil ano passado (apesar de, até onde eu saiba, a derrubada do governo nem ter sido pauta por aqui). Na verdade, o que chama a atenção é como a questão está sendo tratada, e nesse ponto encontramos a principal correlação.

Vejam bem, é complicado avaliar a informação de fora. Geralmente, busca-se um culpado quando há mortes. No caso venezuelano, levando em consideração o fato de que observamos de fora, é bem inconclusivo pensar em termos de “responsabilidades”. De um lado, as fontes do governo acusam a oposição defascismo. De outro, temos reivindicações acerca de problemas sérios e indícios de violência e abusos do governo na repressão. E a polarização acaba acontecendo naturalmente: quem não está conosco, está contra. O que leva ao questionamento é pensar se realmente se torna necessário “escolher” um lado. A polarização do debate se torna realmente necessária? É preciso ficar do lado de Maduro e escorraçar os “terroristas”? É necessário pleitear a queda do governante?

No Brasil, algo semelhante há bastante tempo, mas ficou mais agudo desde o ano passado. Pegamos o exemplo lamentável do cinegrafista que morreu na semana passada. Basicamente, temos aqueles que condenam completamente a atividade dos manifestantes, e aqueles que tentam mostrar que tudo foi uma armação ou resultado de manipulação do governo para desacreditar os protestos. Tem teoria da conspiração pra tudo. E nesse meio, perdem-se aqueles que expressam livremente suas ideias e colocam pautas de fato para as manifestações, assim como as ações que poderiam ser tomadas efetiva e legitimamente pelos membros do governo.

Não falo de ficar em cima do muro – fazer nada é tão ruim quanto ser extremista. Mas quando a insatisfação extrapola limites, a repressão responde na mesma moeda e chegamos às mortes, em um movimento de reivindicação em um Estado de direito, que tem ferramentas apropriadas para isso, existe alguma coisa muito errada. A polarização tende apenas a piorar o problema – em ambos os lados. Deixar de entender o “outro” lado significa deixar de perceber soluções diferentes para problemas comuns. Cruzar a linha do extraordinário faz com que algumas soluções não tenham mais volta – o que é muito comum na vivência internacional, hoje experimentamos na vida cotidiana. É o que está acontecendo em Caracas – um dos líderes da oposição, Henrique Capriles, se mostrava contra a estratégia dos protestos por achar que não era o momento nem o meio adequado. Não foi ouvido. Agora, o governo já manda prender mentores das manifestações. Não tem mais volta.


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Entra e sai

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Uma antiga profecia mexicana afirma que os territórios conquistados pelos EUA durante seu processo de expansão serão um dia retomados, devolvidos aos velhos donos graças a mística que protege tais terras de ocupações feitas por outros povos. A crescente presença latina no país vez ou outra voltam a ser debatida, quase sob uma ótica de medo de que de alguma forma tortuosa essa profecia se cumpra.

A “invasão latina” é um fenômeno de efeitos colaterais, que causam problemas como a xenofobia e a intolerância, problemas de superpopulação e violência urbana. Mas independente das opiniões sobre a imigração nos EUA, principalmente a ilegal, é inegável a importância dessas pessoas na construção econômica do país, principalmente pela garantia de uma saudável força de trabalho e da vontade individual de alguns, baseados no “sonho americano” de oportunidade para todos, mesmo que esse sonho por muitas vezes não passe disso.

Do outro lado do atlântico, a Europa sofre exatamente de um fenômeno contrário ao dos EUA. Com uma natalidade menor do que o mínimo para a garantia da reposição populacional e sem vizinhos com sorte diferente, alguns países europeus já beiram a escassez de força de trabalho, sobretudo em posições de serviços e da indústria que necessitam de profissionais jovens e de pouca instrução, completamente o oposto das populações locais, bastante instruídas e envelhecidas. É nessa realidade que vimos nos últimos anos políticas de apoio a imigração geridas por diversos países, que oferecem vantagens a famílias e casais dispostos a se mudarem em definitivo para onde falta gente. Também observamos um forte fluxo de imigrantes oriundos de países em desenvolvimento, graças as melhores condições de vida e a grande oferta de trabalho para atividades não especializadas.

Até aí nenhuma novidade. Notamos na Europa uma troca entre a necessidade econômica diante da nova realidade demográfica dos países desenvolvidos e a imigração de trabalhadores em busca de uma vida melhor. Entretanto, essa troca está longe de ser uma relação simbiótica e pacífica. A imigração tem que conviver com o ônus da chegada descontrolada de uma nova população e o ódio injustificável da xenofobia, fazendo com que parte dos habitantes nativos vitimados pela imigração alguns grupos nacionalistas entrassem em rota de colisão com os estrangeiros. Culpando-os por males que vão desde o aumento da criminalidade á crise que vive a Europa, alguns defendem até mesmo a expulsão de estrangeiros e a proibição da entrada de pessoas, ganhando novos adeptos a cada evento que acirre ainda mais a tensão social que fica latente nesse tipo de cenário.

Independente das razões sensatas ou preconceituosas com os imigrantes, a Europa segue precisando da força de trabalho importada. Chegamos a uma bifurcação, em que o reconhecimento da necessidade de crescimento populacionais e de força de trabalho e os problemas  da imigração descontrolada entram em choque e colocam em xeque diversos governos da região, que devem considerar com carinho qual seria a melhor saída para um problema aparentemente sem solução que agrade a todos.

Assim, podemos ver em um único dia duas manchetes completamente opostas. Por um lado, países do leste anunciaram essa semana que será facilitada a confecção vistos de trabalho para diversos países latinos a partir desse ano, visando facilitar a chegada de novos trabalhadores. Em outra, a  Suíça ameaça dificultar a entrada de imigrantes, limitando drasticamente o número máximo de estrangeiros que podem entrar no país por ano.

Entre o discurso dos nacionalistas, há também a preocupação em relação a proteção da cultura e da sociedade nativa dessas regiões, diante do que chamam de “invasão estrangeira”, lembrando os medos profetizados pelos mexicanos de reconquistarem o que lhes foi usurpado pelos EUA: a reconquista por meio da invasão de imigrantes. Mais realista do que tais preocupações que justificam preconceitos, há a certeza de que com os novos índices demográficos teremos uma Europa cada vez menos europeia, a despeito da vontade de determinados grupos. A não ser que políticas anti-imigração ganhem força, fato que teria uma reação interessante nas economias regionais, provavelmente negativa. Veremos isso nos próximos capítulos da guerra pela imigração.


Categorias: Europa, Polêmica


As reais imagens de Sochi

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Sochi Simbolo

Na última sexta-feira houve a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Sochi 2014, na Rússia. O que apareceu na televisão foi eloquente, bonito e alegre como normalmente são todas aberturas de grandes eventos. A delegação de doze atletas brasileiros foi saudada como carinho, a delegação estadunidense entrou ovacionada parecendo esquecer-se do boicote ocorrido em ocasião passada e a delegação russa fechou tudo com o “espetáculo de encher os olhos”.

Até aí tudo bem. No máximo divulgou-se que houve uma falha na abertura dos anéis olímpicos, porque o último deles permaneceu fechado e, adivinhem, representa o continente americano. Talvez tenha sido até proposital para as teorias da conspiração dizerem que o suposto erro representa os velhos tempos de Guerra Fria com o embate entre Estados Unidos e União Soviética.

Brincadeiras à parte, vamos às reais imagens de Sochi:

1) Corrupção

Somente uma parcela mínima da mídia divulgou que a olimpíada russa custou mais que o dobro da Copa de 2014 e Rio 2016 juntas, somando um valor não-oficial de 50 bilhões de dólares! Isso, inclusive, foi postado no texto “Imagem é tudo” aqui na Página Internacional. Segundo dados da ONG Fundação Anti-Corrupção, esse montante representa de 1,5 a 2,5 a mais do que o normal se comparado com outras olimpíadas de inverno. Em Pequim (2008) foram gastos 43 bilhões de dólares, em Vancouver (2007) 7 bilhões, em Londres (2012) aproximadamente 14 bilhões e no Rio de Janeiro (2016) estima-se um total de gastos/investimentos nessa ordem também de 14 bilhões de dólares.

2) Preconceito contra homossexuais

Em janeiro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse publicamente que os visitantes gays que desejavam ir aos jogos de Sochi não deveriam temer o país, mas que os mesmos precisavam “deixar as crianças sozinhas”. Dias atrás a ONG Human Right Watch (HRW) publicou um vídeo em que são mostrados diversos ataques a gays e lésbicas no país. As imagens são revoltantes e diversas organizações acusam o governo conservador russo de perseguir os homossexuais e não investigar seriamente os ataques feitos contra os mesmos. Essa questão vai muito além das olimpíadas, mas até mesmo Thomaz Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) afirmou na abertura que os jogos são “festival de esportes que abraça a diversidade humana e sua grandiosidade”.

3) Exclusão social

Em matéria intitulada “Sochi tem o ouro. Vila ignorada tem a poeira”, o New York Times trouxe a notícia do total descaso do governo para com regiões vizinhas de Sochi, citando o caso do vilarejo de Akhshtyr, o qual é situado entre dois complexos esportivos dos jogos. Lá não há combustível, a qualidade da água é horrível e não existem estradas de escoamento ou que permitam a saída tranquila e viável dos moradores. As imagens podem ser encontradas no link da notícia e revelam o outro lado de Sochi, literalmente.

Cidade Sochi

Obviamente, a abertura dos jogos é legal de assistir e os esportes ganham uma nova roupagem nessas épocas. Entretanto, muito mais do que isso, é preciso atentar-se e aludir algumas questões que ficam “embaixo do tapete”. Era para eu ter escrito o texto da “Imagem da Semana” aqui na Página Internacional, mas acabei escrevendo sobre as reais imagens de Sochi que não aparecem na TV. Corrupção, preconceito e exclusão social são algumas delas.


Categorias: Ásia e Oceania, Direitos Humanos, Mídia, Polêmica


A Suíça e o fim da imigração massiva?

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Imigração Suíça

A Suíça e seus referendos… em um país em que inúmeros assuntos internos são levados a consulta pública, vemos que um dos temas votados hoje ultrapassa as fronteiras nacionais e impacta, na verdade, toda a União Europeia (UE): trata-se da limitação à livre circulação de cidadãos do bloco europeu no país.

campanha retrata a imigração a partir da imagem simbólica de uma árvore que dá frutos, mas cujas raízes destroem gradativamente o país em sua base (foto), criticando a entrada massiva de imigrantes no país. Trata-se, de fato, de uma crise identitária em um país diversificado em suas regiões e idiomas, e cujo destacado centro cultural e econômico é Genebra, uma cidade com 43% de estrangeiros compondo sua população.

Vale lembrar que a Suíça não pertence à UE, mas, cercada por países do bloco, mantém com este uma série de acordos bilaterais de benefício mútuo. O acordo de livre circulação entrou em vigor em 2002, mas, com o resultado de hoje, será necessária uma revisão da relação entre as partes.

A proposta, apresentada em 2012 pelo partido conservador da “União Democrática do Centro” (UDC), advogou para que fosse estabelecido um teto máximo de imigrantes e um contingente anual limitado de estrangeiros entrando no país. A votação foi acirrada, mas deu a vitória à UDC, com aproximados50,4% de votantes de acordo com estes termos. Ironicamente, a taxa de participação voluntária foi alta (56,6%) como não ocorria desde 2005 quando foi votada a associação do país ao Espaço Schengen, o “espaço sem fronteiras internas” na Europa, o qual teve a ratificação suíça em 2008.

A entrada na Suíça de aproximados 80 mil imigrantes dos Estados Membros da UE na última década foi criticada com o argumento de que está ocorrendo uma “pressão” na infraestrutura e no mercado incompatíveis com as condições de acolhimento do país. Entretanto, os dados demonstram que, em 2002, a Suíça tinha 20% de imigrantes e hoje este contingente representa 23,4% em uma população total de quase 8 milhões. Com um aumento cuja expressividade pode ser questionada e levando-se em consideração que 22% da força de trabalho, principalmente na área de serviços, é composta por mão-de-obra estrangeira, percebe-se porque o assunto gera polêmica.

Representando um retrocesso à integração do continente, ao discutir um de seus princípios fundamentais de integração, os impactos da decisão suíça ainda são incertos. A renegociação de acordos representa um risco à própria economia suíça, que não deseja o isolamento e depende de boas relações com seus vizinhos europeus – com os quais o “saldo” nas relações sempre foi positivo.

Se a campanha apresenta o “excesso” como prejudicial também em matéria de imigração, trazendo consequências a longo prazo às instituições sociais e à integração cultural, vale a pena refletir até que ponto o excesso de nacionalismo também não representa um prejuízo ao futuro de um país como a Suíça. Diante de uma crise de identidade controversa, questiona-se se os frutos da imigração não enriquecem as raízes suíças, ao invés de destruí-las como a campanha pelo “sim” apresentou…


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A impunidade exemplar

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Em um dos estados mais pobre do país, com os piores indicadores sociais, a superlotação dos presídios causa um rebelião que será seguida da barbárie. No dia seguinte, circula pela internet e pelos jornais impressos fotos de homens decapitados, celas cheias de gente, pessoas vivendo fora do que lhe garantam o mínimo de humanidade.

Apenas alguns dias depois, em Campinas, terceira cidade mais populosa do estado mais rico, a polícia invade um dos bairros periféricos da cidade à procura de um suspeito de assassinato de um dos seus agente. Durante a busca, homens não fardados são responsáveis para que mais 12 jovens sejam mortos. Entre todas as vítimas, nenhum deles é o acusado.

Campinas e Maranhão, duas cidades que poderiam ser os exemplos da violência e do desmando policial em nosso país, algo generalizado. Territórios com histórico recente de governos corruptos e da ineficiente do judiciários. Um deles, governado pela tradicional família Sarney, a oligarquia política de sempre. O outro, com recentes desvios milionários da prefeitura, com seu último prefeito no banco dos réus.

São em lugares assim que a “justiça” no Brasil vem à galope, tortuosa e fora da lei. Hoje, somos o Estado democrático campeão do mundo no desrespeito aos Direitos Humanos. Um dos últimos alicerces de nossa cultura totalitária, a ação fora da lei de agentes públicos de segurança ainda preocupa, parece um problema longe de se esgotar.

É exatamente isso que critica o relatório da ONG Human Rights Watch, que aborda a triste realidade brasileira. A organização defende que as prisões ilegais no país, as torturas e os assassinatos cometidos por agentes do Estado colocam o Brasil distante de se tornar uma democracia influente no mundo, a despeito de sua crescente importância econômica.


Essa não é a primeira vez que o Brasil é alvo de criticas desse tipo. Relatórios de organizações internacionais e manchetes vergonhosas em importantes jornais do mundo são bastante comuns, todos estampando a triste situação dos Direitos Humanos no país. Situação essa que causa muito menos inconformismo por esses lados do que no exterior, numa democracia em que não é raro assistir a âncoras de jornais supostamente sérios e de programas policiais defendendo a quebra do Estado de Direito por agentes policiais em rede nacional, e jogando os militantes de Direitos Humanos aos cães da audiência de telespectadores pouco informados, como se isso fosse a representação genuína da justiça.

O forte apoio popular de ações fora da lei cometidas pelo Estado, desde que sejam contra “suspeitos” ou “bandidos”, e nossa forte tradição institucional totalitária garantem a continuidade desse tipo de anomalia. As causas de nossa atual situação são evidentes. Em um país cercado pela impunidade legal, os mais pobres pagam o preço de sofrerem os crimes cometidos pelo Estado e por oportunistas, todos em nome da lei.

Tal situação ainda é legitimada pelo restante da população, os por muitos vezes chamados, como forma de diferenciação, de “cidadãos de bem”. Em grande parte das vezes, em uma visão distorcida do que seria justiça. Não à toa, pesquisas recentes apontam que metade dos brasileiros defendem a tortura e outras medidas que deveriam ser consideradas deploráveis, desde que contra suspeitos de cometerem crimes.

Engana-se quem acredita que o descaso pelos Direitos Humanos seja algo somente construído pela ação das autoridades responsáveis, e não por uma vocação cultural de violência, impregnada na sociedade. Mais enganado está quem acredita que a violência policial é apenas contra criminosos e somente por motivos policiais “honestos”. Basta lembrar do assassinato de um publicitário nas movimentadas ruas de um bairro central de São Paulo, motivadas pela infidelidade da mulher de um dos agentes envolvidos, não faz um ano. Também das fortes suspeitas de envolvimento policial no assassinato recente do funkeiro MC Daleste.

Mas o exemplo mais chocante a respeito de atitudes acima da lei de policiais, fica por conta do assassinato da juíza no Rio de janeiro em 2011, responsável pelo julgamento de diversos casos de corrupção e abusos de autoridade cometidos por membros da polícia militar. Um vergonhoso “cala a boca” em uma das poucas vozes no judiciário que negaram a se calar diante de tal afronta ao Estado de Direito.

Em nosso país, quem luta pelo cumprimento da legalidade democrática também deve ser atingido por argumentos rasteiros de que os “Direitos Humanos visam defender apenas bandidos”, e não a todos, ou pelo menos não aos “de bem”. Ingênuo é quem acredita que as ações policiais não atingem inocentes todos os dias, ou que ao menos não poderiam atingir.

Outros pedem aos defensores dos Direitos Humanos que acusem criminosos pelos seus atos, e não somente o Estado e a polícia. Ora, se os crimes cometidos pelo Estado são exatamente os que preocupam tais organizações! Os crimes comuns, cometidos por indivíduos como eu e você, já contam com um sistema judiciário e policial estabelecido, eficiente ou não, para serem coibidos. Falta boa vontade e inteligência para compreendermos a importância de leis que deveriam ser tão básicas e enraizadas.

O Brasil é de longe um dos países mais violentos do mundo.Não só nos indicadores criminais comuns, mas em casos de violência específicos. É o campeão mundial de quase tudo que envolva ódio, exploração e preconceito. Muitos desses crimes são tratados como “menores” pela população, ainda mais quando cometidos por autoridades. Logicamente, sempre quando são contra os mais pobres. Uma visão estranha de “punição” contra os malfeitores sociais. Para o restante, a impunidade pode prosseguir exemplar. E assim construímos a infância da nossa democracia, em nossas rua periféricas, presídios lotados e estampados em relatórios e notícias vergonhosas mundo afora.


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Investimentos e…

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Um brasileiro otimista com o futuro do país abre o seu jornal, e entre as notícias de estagnação econômica e social, deveria se incomodar ainda mais com outra informação: mais uma vez não fomos além dos últimos lugares no ranking mundial da educação. A péssima qualidade educacional em nosso país talvez seja o maior símbolo do pessimismo em relação ao futuro. Ainda mais em um dos países em que é mais forte a crença na educação como caminho quase exclusivo para uma sociedade melhor.

Foi com o discurso de um “futuro melhor” que recentemente o Planalto, especialistas em educação e grupos organizados pressionaram o Congresso para a aprovação da Lei dos Royalties do Petróleo, que destinou 75% dos ganhos com a exploração desse recurso natural para a educação. Isso significa que em dez anos, o montante deve chegar a 112 bilhões de reais a mais investidos na educação por ano. Isso elevará o país a ser o detentor do terceiro maior orçamento do mundo na área, atrás apenas das superpotências EUA e China. 

Por mais positivo que seja esse aumento no investimento, é bastante perigosa e incompleta a crença de que a somente o orçamento disponível seja suficiente para a evolução da educação. Exemplos de países que mudaram da água para o vinho os seus sistemas educacionais provam que tal “milagre” vai muito além de uma grande quantidade de dinheiro disponível, mas sim de uma organização baseada em um tripé, que envolve a qualidade das políticas públicas, do investimento empresarial privado e da sociedade civil.  

O tripé organizacional a que me refiro é bastante evidente nos exemplos de alguns países que por muitas vezes elogiamos, mas quase nunca copiamos. Na Coreia do Sul, o “milagre” asiático de desenvolvimento meteórico, a educação é apontada como responsável pela escalada econômica do país, não o contrário. Investimento em capital humano e social, algo bastante desconhecido pelos lados de cá, foram mais importantes do que realocação de recursos do orçamento ou de investimentos financeiros.

O país asiático viveu 20 anos de reorganização da política industrial, dos programas de formação dos profissionais da educação e de movimentação da sociedade civil. Vale lembrar que a revolução educacional foi o principal combustível para o desenvolvimento econômico do país e não o oposto, como parece ocorrer no novo “Brasil do Petróleo”. Portanto, os sul-coreanos não tinham ao menos recursos econômicos para elevar gradativamente o investimento em educação, mas usaram a educação como trampolim para alcançarem novos investimentos.  

Já nos Estados Unidos, o queridinho dos que sempre argumentam que “lá é diferente”, para realçarem nossas dificuldades, a educação pública é tão importante para a noção de meritocracia e igualdade de oportunidades do que qualquer outro dos maiores símbolos do liberalismo. Uma rigorosa qualidade de gestão, um senso de responsabilidade social aguçado dos empresários regionais e uma forte contribuição da comunidade, que vê na escola um dos maiores patrimônios públicos, são os responsáveis pela educação gratuita e de massas, com muita qualidade. 

No Brasil, ouso dizer que faltam todos os elementos desse tripé:

Temos uma visão que o dinheiro por si só salva o que é em todos os sentidos péssimo, como se as notas de reais fossem planejar a questão pedagógica, dar aula às crianças e formular as políticas. Passado o frenesi pró-educação e as crenças no royalties do petróleo como salvador da pátria, observamos que não houve investimento na formação de profissionais de gestão escolar e de professores.

Em nosso país implantou-se a cultura de que o professor mais experiente da escola deve ocupar o cargo de direção, independente do seu conhecimento de gestão e de pedagogia. O que observamos é uma escola incompetente, ineficaz. Não há cursos de gestão escolar no país, não há respeito pelos pedagogos e a elaboração de seus planos, não há continuidade na formação para professores, muitas vezes com conhecimento insuficiente para ministrar aulas. Mesmo assim governo, grupos organizados e parte da sociedade civil teimam em afirmar que a educação tem como único problema a questão salarial do professor.

Então aumentamos os salários com a nossa salvação “milagrosa”, os royalties, e esquecemos dos tais problemas da gestão escolar. Aproveitamos e também nos esquecemos de que do que adiantará alguém se formar engenheiro em uma região sem industrias. A desigualdade regional no país centraliza as oportunidades em um só lugar. No caso da minha formação, por exemplo, só há vagas de empregos nas cidades de São Paulo, Rio de janeiro e e Brasília. Cientista Social no nordeste ou no interior vira pesquisador ou professor por necessidade. Isso se a universidade da região oferecer o curso. Mas alguém pensou em utilizar parte dos royalties para o desenvolvimento econômico de determinadas localidades? Algo que por tabela tornaria possível a revolução educacional que o projeto de lei prega. Claro que não!

A propaganda pelos 100% dos royalties para a educação, de tão bonita, cegou o governo e defensores da educação. Esqueceram completamente que ela não caminha por si só. Pode ser até a área mais bonita, a mais importante, mas necessita do desenvolvimento simultâneo de outras.

Por fim, como muitos outros espaços públicos, alguns agora explicitados pelos “rolezinhos” da juventude da periferia, o espaço da educação reflete um fenômeno comum ao Brasil, a distância entre a ocupação dos espaços públicos e quem deveria ocupá-los. Hoje não há nada mais distante da comunidade do que a escola. Se nos EUA é a “segunda casa da comunidade”, no Brasil é espaço obrigatório para os pais, quase uma cadeia aos alunos. Um mal necessário como uma injeção a quem está doente. Não há ligação entre escola e mercado de trabalho, escola e esporte, escola e cultura ou escola e lazer. Há a escola, instituição arcaica, e os alunos.

Tudo isso, de forma bastante dolorosa, prova que a ineficiência do nosso país na educação é gerada por problemas muito maiores do que os investimentos, mas sim por uma cultura educacional falida. O sucateamento da infraestrutura escolar é bastante evidente, mas está longe de ser o único ou muito menos o principal problema dos baixíssimos resultados em que vivemos. Estamos na Era do desconhecimento técnico, pedagógico, social e econômico da importância da educação, mas mesmo assim culpamos o dinheiro, o crápula perfeito. 

O Brasil é o país em que os problemas políticos são tratados com crenças em fórmulas mágicas. “A corrupção seria solucionada com um presidente honesto”, “a polícia por si só pode acabar com a violência”, “basta fechar o Congresso para o fim dos problemas do povo” etc. O que faremos quando a infinidade de investimentos na educação falharem, ou se a evolução que esperamos for extremamente mais lenta? Vamos novamente culpar a corrupção ou os políticos, e ficarmos com as velhas frases de comparação entre Brasil e EUA ou Coreia do Sul, de que “aqui não é como lá”? Não mesmo, lá houve muito menos negação dos problemas reais que deveriam ser enfrentados, ou de preguiça e enganação em defender que somente dinheiro de royalties seriam o suficiente para uma revolução. Aos que sonham com tal revolução educacional, ela se ocorrer será muito mais longa do que os 20 anos necessários à Coreia do Sul, graças ao desenvolvimento estratégico de diversas áreas e ao trabalho duro. 

A defesa por uma educação melhor no país deve cobrar uma reorganização generalizada muito maior do que cifras destinadas ao investimento na área. Deve ser alicerçada no tripé que forma os grupos sociais interessados na melhoria e no desenvolvimento do país: a sociedade civil, o empresariado e a gestão escolar, que envolve desde formuladores de políticas públicas até professores. Caso não enxergarmos tais necessidades, o petróleo vai pelo ralo. Afinal, notas de papel não dão aulas, não se interessam, não constroem o futuro. E nem tem essa obrigação.


Categorias: Brasil, Economia, Polêmica


"No rape"

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“No rape”. Frase curta, mas de impacto gigantesco na Índia e no mundo inteiro. Há um ano, o caso de estupro coletivo de Jyoti Singh Pandey chocou o mundo e mobilizou as indianas na luta contra esse crime tão sério quanto repugnante em qualquer localidade, cultura ou credo.

Jyoti foi a jovem estudante de medicina que sofreu violência sexual por parte de seis homens ao voltar de ônibus do cinema, acompanhada de seu namorado que também foi agredido, mas sobreviveu. Após dias internada, ela não resistiu e tornou-se mais uma vítima dessa prática pavorosa que tem como fim não o prazer, mas apenas a humilhação e a expressão de poder e superioridade.

Em uma sociedade ainda patriarcal e machista como a indiana, infelizmente as vítimas são, muitas vezes, consideradas culpadas pela violência vivida. É a deplorável lógica de que, mesmo ao exercerem seus direitos básicos de “ir e vir” do modo e no horário que lhes convier, vestidas como igualmente lhes convier tal como qualquer cidadão livre, as mulheres “estão pedindo” para serem violentadas. Lógica ilógica que garante a perpetuação de uma cultura de violência em um país com histórico já manchado pelo sangue de tantas vítimas inocentes.

Após a triste história de Jyoti, o número de registros de casos de estupro na Índia aumentou, revelando que a mobilização ampliou a coragem das vítimas em denunciar – trazendo a verdade à tona e contribuindo para um processo de reeducação que deveria envolver a base da sociedade. Processo, entretanto, que se vê em face de um tradicionalismo por vezes extremado que ainda torna as mulheres vulneráveis às mais cruéis práticas no dia-a-dia.

Em termos numéricos, os casos de estupro aumentaram em 70% nos últimos dois anos no país (apesar do endurecimento de leis para crimes sexuais em março deste ano, o qual não foi acompanhado pela celeridade nos tribunais…), enquanto o turismo, notadamente feminino, caiu em aproximados 25% devido à sensação de insegurança generalizada.

Não que a violência sexual seja um problema exclusivo da Índia, pelo contrário. Contudo, casos como o de Jyoti sensibilizam a mídia devido ao grau de violência envolvido e especialmente considerando seu padrão de vida de classe média, mais próximo da cultura ocidental que boa parte dos casos de vítimas indianas.

“No rape”. Que esse seja um dos desejos em nossos anseios por um 2014 mais bonito, menos violento e em memória daquelas(es) que já sofreram qualquer tipo de violência sexual, na Índia ou em qualquer outra parte do mundo. 


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A arte de ser mulher

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Sim, ser mulher é uma arte. O gênero não deveria, por si só, determinar tamanha discrepância de oportunidades, porém, (ainda nos dias de hoje!) os desafios do dia-a-dia contradizem as aspirações ideais de uma sociedade igualitária. Um longo caminho vem sendo percorrido nas últimas décadas em meio à luta das mulheres – em suas mais diversas realidades – pelo reconhecimento de direitos básicos, humanos, que nunca deveriam estar subordinados a exigências (artificiais) de gênero.

Segundo um relatório sobre desigualdades de gênero produzido e divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial, a Islândia é o “melhor país para ser mulher” no mundo. O país nórdico lidera um ranking de 136 países em que são elencados os elementos determinantes para uma sociedade em que homens e mulheres têm acesso igualitário garantido aos seus direitos. Os eixos avaliados incluem, majoritariamente, o poder político, a participação econômica, e o acesso à educação e à saúde – englobando, na amplitude de tal análise, os aspectos essenciais da vida em sociedade. [Confira o estudo completo aqui.]

Com o Iêmen (não surpreendentemente) em último lugar, e o Brasil assumindo uma tímida 62ª posição (idêntica à do ano passado, aliás), é reconhecido que o histórico islandês não foi alcançado sem lutas e sem a determinação de 90% das mulheres (!) que, em 1975, saíram às ruas para protestar. Paralisação que marcou o histórico feminista no país e que reflete a importância de que todas as vozes sejam ouvidas na participação na política e no mercado de trabalho.

Dizer que não houve mudanças históricas no Brasil seria também negligenciar os fatos. Se em 1979 não havia nem banheiro feminino no Senado (!!!), por exemplo, em 2011 tomou posse a primeira presidenta do país. Nesse ínterim, o relatório reconhece os avanços brasileiros na área de educação das mulheres, contudo, no que se refere à igualdade salarial, o Brasil ainda ocupa a 117ª posição da lista (do mesmo total de 136 países): um índice que impressiona (negativamente) e que demonstra que ainda temos muito a aprimorar, em muitos aspectos…

Na busca de quebras de paradigmas no mundo, é notável ainda o exemplo da jovem Malala, paquistanesa que, ao tentar ser silenciada, se tornou, paradoxalmente, a voz mais ouvida na luta pelo direito das mulheres à educação em seu país. Os países do Oriente Médio e do Norte da África figuram notoriamente no final das classificações, já que reconhecidamente a mulher ainda sofre barreiras sociais muito maiores na região que em outras áreas do mundo.

Em face a um panorama de tal complexidade, são conquistas e desafios ainda em jogo que se destacam. [Interessante série de reportagens sobre o tema aqui.] Conquistas que não deveriam ser vistas apenas como “feministas”, mas sim “sociais”, já que compreender o papel da mulher na sociedade constitui, na verdade, um esforço de homens e mulheres em avaliar o acesso a seus direitos e ao reconhecimento de suas capacidades – as quais não estão (e nunca estiveram) condicionadas à questão do gênero.

Enquanto isso, o “ser mulher” continua representando uma arte: a arte de demonstrar seu potencial e conquistar seu espaço paritariamente com os homens no dia-a-dia, desvinculando o gênero dos preconceitos históricos que, infeliz e injustamente, sempre situaram as mulheres em posição de inferioridade na vida social. 


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


Qual pátria de chuteiras?

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Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


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O grampo que une?

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Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


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