Hermanos, pero no mucho

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Reação de uma eurodeputada à proposta de aprofundamento das relações comerciais com o Mercosul

Estamos na reta final da Copa do Mundo e o sentimento de união entre os países, que perfez o início dos jogos, se ofusca, dando lugar a um caldeirão de frustrações, alegrias e rivalidades. O assunto está tão em pauta, que nem mesmo a primeira visita ao Brasil do novo chanceler argentino, Héctor Timmerman, foi capaz de deixar de lado uma conversa sobre futebol. Por detrás de comentários jocosos inspirados na atual fase do mundial e da rivalidade futebolística entre brasileiros e argentinos, vislumbram-se anos de discórdia e lutas pela liderança regional sul-americana.

Historicamente, as relações políticas e econômicas entre Brasil e Argentina tardaram em alterar-se, somente atingindo um tom mais cooperativo ao final da década de 1980 e em meados da década de 1990. A assinatura do Tratado de Assunção em 1991 – criando o Mercosul – parecia haver trazido um novo patamar de entendimentos para os dois países. Todavia, ainda hoje é possível observar, no interior do Mercosul, certa herança dessa rivalidade histórica.

Exemplo disso são os famosos casos de barreiras argentinas à produtos brasileiros. E o novo episódio dessa longa saga deu-se em maio desse ano, com bases em uma controversa declaração do secretário do Comércio Interior argentino, Guilherme Moreno. Nesse polêmico discurso, o secretário argentino defendeu que os empresários e comerciantes de seu país não importassem produtos brasileiros que possuíssem homólogos nacionais. Ainda, falou-se de um bloqueio para esses produtos alimentícios. Pouco se sabe se tal iniciativa foi consolidada ou não, do ponto de vista oficial, mas sabe-se que a repercussão para a parceria comercial brasileiro-argentina (e até mesmo para os próprios comerciantes argentinos) não foi nada boa. O Brasil reagiu declarando que, se tal iniciativa fosse consolidada, haveriam medidas contra a Argentina.

Dado esse desenrolar de eventos, a recente visita do novo ministro argentino ao Brasil teve fins diplomáticos bem definidos: esclarecer essas questões comerciais – frisando que a Argentina não impôs oficialmente essas barreiras comerciais – e reforçar a importância das relações comerciais bilaterais. Ao final do encontro as pautas podem até ter sido esclarecidas, mas seus efeitos transcenderam a América do Sul, recaindo diretamente sobre o discurso da União Europeia. Daí emerge certa resistência ao aprofundamento das relações comerciais entre Mercosul e a UE. Afinal, como dar credibilidade a um bloco que não nem mesmo a tem entre seus próprios membros? E outra, talvez o Brasil não seja o único alvo de bloqueios e medidas protecionistas no setor alimentício, pois o próprio bloco europeu tem exigido o fim de medidas desse gênero por parte dos argentinos.

Esse tipo de prática de protecionismo no Mercosul degrada as relações comerciais no interior do bloco e garante-lhe desprestígio em âmbito internacional. Assim, entende-se que o maior receio da UE é que em um possível tratado de livre comércio com o Mercosul, os países-membros democratizem essa prática, o que os europeus não se podem dar ao luxo, dada a grave situação econômica de seu bloco.

Nossos hermanos argentinos podem até ter deixado de ser o foco de nosso eixo estratégico em questões de defesa. Mas tanto no campo de futebol, quanto no campo econômico, os resquícios dessa antiga rivalidade histórica ainda transparecem.


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Sério? Só percebeu AGORA?

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“Sr. Presidente, acho que o pessoal lembrou que tem cocaína aqui.”

“É mesmo né? Então amigo, vou te falar… é muito sério esse problema né?”

“E agora, como respondemos?”

“Bobinho, é só fazer uma meaculpa nossa e botar a culpa nos EUA como sempre e fica tudo certo, deixa comigo.”

“Morales se diz surpreso com volume do narcotráfico na Bolívia e acusa EUA.”

Veja essa frase: “Vejo que há muita cumplicidade de algumas instituições, de membros da Justiça boliviana, mas também de alguns membros da polícia. Por que essa forma de comprar nossos membros do Estado? Cheguei à conclusão de que é muita ‘plata’ (dinheiro), o narcotráfico manipula muita ‘plata’.” Deviámos chamar o Morales Man pra dar palestras sobre narcotráfico, pois as descobertas que ele fez iriam revolucionar a forma do combate as drogas. Se o Lula é gabaritado para ser o Presidente do Banco Mundial, é Evo Morales pra INTERPOL!

Como que nos diversos encontros, jantares e chopinhos com seus amigos bolivarianos esse assunto não entrou em pauta de forma efetiva? Talvez não houvesse espaço no meio das discussões comunistas (sem é claro discutir distribuição de renda e melhora de serviços públicos ou desinchar a máquina estatal, como bons estadistas que são) para reais cooperações que poderiam beneficiar a todos, enquanto o tempo era gasto com papos “identitários” ou trocando histórias de quando “os EUA nos ferraram”.

Não que eles tenham que dar uma de Colômbia e fazer um leasing do território pro Obamenon, mas pelo menos adimitir o problema que tem em mãos e buscar cortar as cabeças, funcionários públicos e políticos, daqueles que comprometem a nação por dinheiro. Pensando bem, é mais barato e prático xingar os EUA mesmo…


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Dominó mundial

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Parafraseando Hamlet, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. No caso das Relações Internacionais, tal colocação shakespeariana revela grande veracidade quando transposta a um nível horizontal. Há muitas conexões entre temas e fatos internacionais que nem imaginaríamos. Pois há discussões recentes que se em sua comoção isoladamente já apresentam relevância para o cenário global, associadas podem guardar a chave para a análise da conjuntura atual e do que pode vir a ocorrer nos próximos meses.

Dois temas disputam o titulo de “mais pungente” da atualidade: a tensão entre as Coreias e o infindável tango nuclear iraniano. E ambos têm um denominador comum na relação entre China e EUA. Se comercialmente são grandes parceiros, politicamente há muitas rusgas, desde o fim da Era Bush. Hillary Clinton, por exemplo, está em Xangai a pedir que os chineses deixem de desvalorizar o Yuan (a que receberá o “não” de praxe). A situação tende a piorar e se mostra delicada quando pensamos nos tais fatos recentes.

A crise das Coreias está enfrentando o que os autores clássicos como Deutsch chamam de “escalada de conflito”. O que começou como exigência de pedidos de desculpas pelo afundamento de um navio já se tornou bloqueio de comércio e ameaça de exercícios militares de fronteira, além de planejar levar a disputa ao Conselho de Segurança da ONU (CS). Não falta muito para que alguém dê o primeiro tiro e recomece a hostilidade. Provavelmente é a maior crise desde a guerra nos anos 50 (lembrem que, tecnicamente, os países ainda estão em guerra visto que não houve tratado de paz, apenas um armistício). E a China e os EUA com isso? Os norte-americanos estão do lado da Coreia do Sul, endossam o discurso pelas desculpas oficiais e estão prontos para acionar seu hard power caso necessário. Já a China se mostra reticente e vaga, clamando por sensatez das partes. Obviamente penderia para o lado de seu apêndice coreano em caso de conflito, e nisso já entraria em uma contraposição aos EUA.

Do outro lado da Ásia, a crise da moda tem como protagonista o Irã. Aquela mesma, discutida à exaustão, que parecia mediada por Brasil e Turquia, mas que o governo dos aiatolás insiste em azedar. O que se sabe basicamente é que a turma do CS provavelmente aprovará uma rodada de sanções (que provavelmente não serão eficazes). A China até apóia as sanções, mas como a diplomacia chinesa já se mostrou volúvel e enigmática anteriormente, se esforçando para mostrar que não foi cooptada pela norte-americana, e não é tão absurdo suspeitar que troquem de lado caso o acordo encabeçado por Lula tenha sucesso na AIEA. Romperão a “aliança” dos membros permanentes pelas sanções? Se isso vier a ocorrer, esperem mais troca de farpas entre Pequim e Washington.

Vejam que são duas situações dispostas como duas peças de dominó, enfileiradas. Se tocada, qualquer uma delas vai necessariamente alterar o estado da outra. Se a tensão coreana escalonar até o conflito armado, China e EUA muito provavelmente tomarão posições díspares e isso influenciará as negociações sobre sanções ao Irã. Concomitantemente, o desenrolar das negociações no CS podem afetar sensivelmente as posições quanto à crise na Coréia e decidir qual o resultado – EUA e China agindo juntos para debelar as tensões ou rivalizando-se por seus aliados como reflexo de posições opostas no CS.

É mais provável que a peça a ser derrubada primeiro seja a da península coreana, mesmo pela rapidez com que tem se desenrolado. Como afirmado anteriormente, devemos esperar pelo desenrolar do conflito para averiguar suas implicações, mas neste caso o resultado a que se está se tomando é o pior possível, e deve-se torcer para que não a queda dessa peça não tenha forças para iniciar um nefasto efeito dominó ao redor.


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Inocentes em Guantánamo?

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Inocência. Este pode ser (ou ter sido, pelo menos) o status de boa parte daqueles que foram presos em Guantánamo durante os anos de “luta anti-terrorista” promovida por George W. Bush (foto). Uma impactante declaração efetuada ontem pelo jornal britânico The Times traz novamente à pauta internacional a polêmica envolvendo o governo dos Estados Unidos e a prisão de Guantánamo.

Lawrence Wilkerson, assessor do ex-secretário de Estado norte-americano Colin Powell, foi o responsável pelo primeiro testemunho escrito de um alto funcionário da administração do antigo governo demonstrando a incerteza quanto ao status de “terrorista” de numerosos detidos na base naval à época (cronologia aqui). Este testemunho constitui parte de um processo contra a administração norte-americana por torturas.

Como pode ser lido aqui e também aqui com maior detalhamento, Wilkerson afirmou que o governo possuía informações certas de que a maioria dos 742 detidos enviados em 2002 para a prisão eram inocentes. Sua declaração envolve, ainda, a grave denúncia de que a maioria destes, então, inocentes foi “vendida” aos EUA por afegãos e paquistaneses ao custo de 5 mil dólares cada um. No mínimo polêmico, não?

Aliás, polêmica é o que não falta quando se trata de Guantánamo. Desde a criação da base naval norte-americana nesse território cubano (perpetuamente arrendado pelos EUA), a pressão pela transparência a respeito dos procedimentos desenvolvidos internamente é grande. As constantes suspeitas (e denúncias) a respeito de práticas de conduta norte-americana inadequadas no que tange os Direitos Humanos em geral constituíram fator determinante para a baixa popularidade de Bush ao final de seu mandato.

Assim que assumiu o poder, então, Obama prontamente assinou a ordem de fechamento da penitenciária, o que representou um ato simbólico de drástica ruptura com a política do governo anterior. O prazo assumido para a efetivação de tal fechamento foi de um ano a partir de então. (…) Sim, o prazo já expirou.

Aquele ímpeto inicial enfrentou a oposição generalizada dos legisladores norte-americanos quanto a aceitar a transferência dos presos para os Estados Unidos. É importante notar que Mike Hammer, porta-voz do Conselho Nacional de Segurança dos EUA, reiterou recentemente que “o presidente está comprometido com o fechamento de Guantánamo”, mas não existe prazo certo para a efetivação de tal proposta…

Enquanto isso, alguns países vêm acolhendo prisioneiros da base naval, distribuindo assim, de certa forma, a responsabilidade por estes. Geórgia e Suíça, por exemplo, podem ser citados dentre os vários países que se dispuseram a receber estes prisioneiros.

Acompanhemos, pois, o desenrolar dos acontecimentos a respeito de Guantánamo, cujo fechamento foi uma das principais promessas eleitorais de Obama. “Yes, we can”? Bom, ao menos é o que se espera a esse respeito, especialmente em face de acusações tão graves como tais veiculadas pela mídia internacional nos últimos dias.


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Passos de Curupira

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Na semana passada, foi veiculada notícia do envio de uma carta da blogueira cubana Yoani Sánchez diretamente ao presidente Lula. Nesta, expressava o desejo de ter o direito inalienável ao ser humano de ir e vir, e roga ao brasileiro que intervenha em seu favor ante ao impassível governo cubano, que insiste em não deixá-la sair da ilha. A assessoria presidencial nega que a carta tenha chegado. Mas este é apenas um capítulo adicional àquelas que podemos chamar de “relações perigosas” do Brasil.

O tema está em voga e já tomou espaço em numerosos posts antes desse. O apoio silencioso a um regime cubano totalitário e violador de direitos humanos, ignorando a morte e suplício de prisioneiros políticos; a estranha obsessão com a reabilitação dada ao fracasso do regime iraniano perante a comunidade internacional; os laços estreitos com um regime que impede opositores de sair do país e fecha canais de televisão sem razão aparente (ou pior, com razões inadvertidamente autoritárias). Isso entre muitos outros fatos conhecidos. O que se pode pensar dessa situação?

Parafraseando nosso mandatário, nunca antes na história desse país o Brasil esteve tão em evidência no cenário internacional. Muito se deve ao carisma do nosso presidente e a uma série de coincidências interessantes para a projeção de um futuro brilhante para o nosso país. Entretanto, o Brasil pode estar encarando uma situação curiosa. A história nos diz que aumento de prestígio internacional redunda em aumento de responsabilidades, e nesse quesito o Brasil tem se mostrado um tanto quanto atabalhoado. Diversos Estados democráticos cobram uma posição do Brasil condizente com os princípios régios da convivência internacional no que tange à solução do dilema iraniano e as questões de Direitos Humanos. Qual a razão para isso?

Fala-se em pragmatismo, mas vamos entrar no terreno das conjecturas, na acepção pura da palavra. O Brasil toma essas atitudes como forma de abrir novas frentes de atuação no cenário internacional, como uma opção às alternativas correntes. Uma liderança que aspira admiração do “terceiro mundo” ou coisa parecida. E para isso, acaba enfrentando abertamente os atuais defensores da ordem – políticas que ao buscar uma via “diferente” se opõem ao consenso de Estados desenvolvidos. O caso mais aparente é o Irã, em que a posição brasileira não faz muito sentido além de municiar o blefe de Teerã, e irritar os países ocidentais, principalmente os EUA. Ora, estaria o Brasil enviando uma mensagem sutil aos desenvolvidos, em especial ao gigante do norte?

Seria um evento sem par na história da diplomacia brasileira, que mesmo nos momentos de maior busca por independência de atuação na política mundial (como os governos de João Goulart e Geisel), nunca chegou a se opor diretamente aos EUA. Podia-se criticar, mas não se opor. Eram outros tempos, e os ventos do século XXI trazem um fôlego inédito ao país, com perspectivas de pujança econômica e de influência alem do âmbito sul-americano. Mas essas escolhas de relacionamentos estranhos e criticados podem por a perder, e muito, uma parcela do prestigio internacional tanto almejado.

Estratégias errôneas? Uma questão de políticas de governo condicionadas a situações muito específicas ou uma tentativa de impor uma inflexão paradigmática no histórico da política externa brasileira? Espera-se que não seja o segundo caso, se tratando realmente de um devaneio deste colaborador, pois a tentativa de fazer o país se sobressair através de um novo rumo na política internacional, estaria sendo dada com passos de curupira, os quais vão para a um rumo e apontam para outro, confundindo os que observam e apontando na direção oposta da meta inicial.


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Vigilância On-line

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É pessoal, cada vez mais estamos chegando perto do Big Brother Orweliano! (Não, não é aquele do Bial). Está cada vez mais próxima a elaboração da proposta final do ACTA! Uau! O que é isso?

Uma discussão realizada a nível intergovernamental a portas fechadas sobre a criação da “Anti-Counterfeiting Trade Agreement” – Acordo Comercial Anti-Pirataria (tradução livre). Esse acordo tem como objetivo a criação de um organismo com características semelhantes à OMC, operando de maneira externa as Nações Unidas, que lutaria contra a pirataria em medicamentos, produção industrial, propriedade intelectual, direitos de imagem, etc.

“Nossa, bacana essa iniciativa?” Sim, mas vamos nos ater a um simples detalhe: “a portas fechadas”. Por que um debate tão interessante para toda a sociedade não tem seus detalhes divulgados? Nossos amigos hackers, por meio de relatórios surrupiados virtualmente, descobriram a razão: é porque esse acordo praticamente ignora vários direitos individuais e abre precedentes extremamente perigosos no combate ao crime.

Ele permite que uma pessoa seja investigada e tenha sua privacidade invadida apenas por ser suspeita de realizar downloads ilegais, chegando ao ponto de obrigar os provedores de internet a disponibilizar relatórios completos que incluiriam dados pessoais e registros de tráfego desses “suspeitos”. É como se fosse uma versão virtual do “Ato Patriótico”, que mandou muitos direitos individuais dos cidadãos estado-unidenses na privada em nome do combate ao terrorismo, contudo serviu mais constranger e causar discórdia do que prender algum Al Qaeda escondido atrás da garagem.

Estão achando estranho? Pra piorar: enquanto nenhum cidadão de bem pode saber o que ocorre durante as reuniões, as associações industriais da música (RIAA) e até mesmo os sindicatos patronais farmacêuticos (gente pior que os magnatas da indústria do cigarro) participaram de reuniões!

Resumindo, reuniões secretas entre governos sobre proteção de propriedade com abertura de precedentes para investigações com participação do setor privado. Não podia soar mais democrático. A sorte é que existem tantos conflitos, tanto no campo legislativo quanto ideológico emperrando a aplicação dessas novas normas, que provavelmente vai demorar um boooom tempo pra versão final desse acordo chegar a votação.

E porque ninguém ouve falar disso? Não precisa nem falar…


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Tempos modernos?

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Século XXI. (Pós-)Modernidade. Liberdade de expressão. Construção de novos paradigmas… Tais idéias remontam diretamente ao contexto político e social em que vivem as Relações Internacionais atualmente. Vincular, contudo, a sexualidade de militares à responsabilidade pelo massacre de milhares de inocentes certamente não se enquadra nessa visão.

Pois esta foi exatamente a polêmica dos últimos dias. Com o intuito de argumentar contra a proposta do presidente dos Estados Unidos de garantir que militares gays assumidos possam servir nas Forças Armadas do país, um importante general americano fez declarações de cunho pouco amistoso/diplomático/razoável em relação a militares holandeses que participaram da Guerra da Bósnia (1992-95).

Em 1995, sabe-se que forças servo-bósnias avançaram sobre a cidade de Srebrenica e promoveram o massacre de mais de 8 mil muçulmanos (foto), segundo estatísticas gerais. Este acontecimento, maior massacre europeu desde a II Guerra Mundial, foi inclusive caracterizado como genocídio pela Corte Internacional de Justiça.

Isto posto, o supracitado general John Sheehan, comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) à época do massacre, declarou perante o Senado norte-americano esta semana que o insucesso na proteção de Srebrenica tem relação direta com o fato de a liderança militar no local ser composta por soldados holandeses assumidamente homossexuais, mostrando-se, pois, contrário a qualquer medida de “liberalização das Forças Armadas”. (Leia mais sobre as declarações de Sheehan aqui e aqui.)

A repercussão destas declarações foram, é claro, muito mal recebidas pela Holanda, tendo que seus representantes afirmado abertamente que os comentários são “ridículos” e “tirados do mundo da ficção”. Exaltações à parte, realmente as afirmações denotam um nível de preconceito que destoa de nossa realidade social pós-moderna. Realidade esta que congrega (ou, ao menos, visa congregar) as diferentes percepções de mundo pelo incentivo ao diálogo e à compreensão mútua.

Espera-se, portanto, que os atores das Relações Internacionais, em que se enquadram os próprios indivíduos, possam agir de acordo com esta perspectiva especialmente diante de situações em que a vida humana está envolvida.


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Ou isto ou aquilo?

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[Esse post poderia ser sobre o Brasil e o Oriente Médio, ou a intenção do Chávez de controlar a internet, mas esses vão ficar pra depois, mesmo porque o post do Giovanni dispensa maiores esclarecimentos. Dessa vez, vou comentar um assunto que veio à tona essa semana: a não-sexualidade].

Norrie May-Welby (may well be, trocadilho para ‘pode ser’ em inglês) nasceu na Escócia e foi registrado como homem. Aos 23 anos, ele passou por um tratamento hormonal e cirurgias para mudar de sexo, e foi registrado na Austrália como mulher. No entanto, Norrie ficou insatisfeito com a mudança e interrompeu seu tratamento, preferindo denominar-se “neutro”. Segundo ele,”Não me encaixo no conceito de homem ou mulher. A solução mais simples é não ter nenhuma identificação sexual”. O governo do estado de Nova Gales do Sul, então, emitiu uma certidão de “Gênero Não-Específico” a Norrie May-Welby, o que na prática significa que o governo não reconhece Norrie como homem ou mulher.

A transexualidade é classificada pela OMS como um transtorno de identidade de gênero, tem causas médicas e psicológicas, e ocorre quando uma pessoa, nascida como homem ou mulher, encontra-se insatisfeita com seu próprio gênero por identificação com o gênero oposto. A mudança de sexo é o extremo dessa condição. A França, esse ano, foi o primeiro país a retirar a transexualidade da lista de doenças mentais.

Esse ponto levanta uma discussão. Há muito, é difícil afirmar que as coisas são ou não são, que existem duas opções apenas, que o mundo é bipolar. Segundo muitos autores, nossa realidade contém várias em uma só. Nada é um dado, tudo pode ser múltiplo. O que é o real, afinal de contas? Essa é uma das muitas perguntas que buscam desconstruir a objetividade e o referencial que possuímos sobre dos mais variados aspectos. O mote aqui é subjetividade e simultaneidade, podendo um elemento significar diversas coisas, sem prejuízo de conceituação.

À parte da [bem superficial] explanação acima, parece que o conceito de simultaneidade realmente está sendo levado às últimas conseqüências. Talvez a resposta para esse caso seja uma androginia, pois poderia ser uma mistura de dois sexos, não sendo nem um, nem outro. Os dois gêneros, gênero como ‘indeterminado’, assexualismo (e você que pensava que isso era coisa de anjo, hein?).

Ah, Cecília Meirelles… Quem disse que só se pode ser isso ou aquilo? Se a moda pega, qual vai ser o próximo país a adotar tal medida? E se antes buscava-se uma terceira via, qual seria o terceiro sexo?


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Greve de Fome: Um novo jeito de fazer política na América Latina?

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A greve de fome iniciada por alguns dissidentes cubanos em protesto às condições subumanas das prisões da chamada Grande Antilha parece ser o foco de atenção da nova onda de comoção que atinge a região.
No decorrer da semana, os colegas do blog já dissertaram sobre o assunto. Não é intenção deste post fazê-lo novamente, pois o que o motivou não foram as declarações do presidente brasileiro sobre o assunto ou as críticas que vem recebendo de atores internacionais, sejam eles organizações internacionais governamentais ou não governamentais.
O que chama a atenção e merece ser comentado é o modo encontrado pelos insatisfeitos com a política autoritária de Cuba de protestarem. Na História Contemporânea, pelo menos que eu me lembre, Ghandi foi quem iniciou a prática. Na América Latina, recentemente tivemos um episódio semelhande de greve de fome comentado por mim em um post ano passado, em que Evo Morales iniciou uma greve de fome para que seu Congresso aprovasse uma nova Lei Eleitoral.
Será essa a nossa nova identidade política? Será essa a nova face da democracia latinoamericana tão festejada pelos países que enfrentaram e venceram regimes ditatorias militares não faz muito tempo? Que deixa de lado, e peço perdão por ser repetitiva e reproduzir aqui os argumentos já usados em post anterior, o diálogo e a concertação política para apelar para o autosacrifício seja lá por que motivo for? Medidas desesperadas raramente resultam em soluções satisfatórias, quando muito, se obtém algum sucesso em chamar a atenção do público, são classificadas como heróicas e não se sustentam ao longo do tempo.
Vejam, caros leitores, não quero entrar aqui no mérito das condições das prisões cubanas ou se o governo cubano é autoritário ou não; se permite o diálogo ou não; se os Direitos Humanos estão sendo violados ou não. Questiono apenas nossa maneira de fazer política.
Se a região como um todo quer se projetar no Sistema Internacional, como em alguns momentos tem conseguido, é preciso ter maturidade política para tratar de questões internas e externas, porque ao contrário do que acontecia nas décadas de 50, 60 e 70, em que se recorria às revoluções para provocar mudanças, como acontenceu na própria Cuba, atualmente é essa a linguagem vigente e que espelha a racionalidade da atual sociedade internacional.

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Economia doméstica

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Em alguns países, faz parte da grade curricular dos ensinos fundamental e médio uma matéria chamada “economia doméstica”, que no Brasil virou curso superior e abrange desde habilidades culinárias até a capacidade de sair do vermelho no fim do mês com as contas em dia. Ao que parece, seria um aprendizado muito salutar não apenas para indivíduos, mas também para alguns Estados em particular.

Vejam o caso da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. São eventos esportivos diferentes, mas ainda são os dois maiores do mundo e vão exigir somas astronômicas para a adaptação de necessidades estruturais. Se o país vive uma onda de ufanismo pelos eventos esportivos, não pode deixar de ter lucidez quanto aos gastos públicos. O discurso é bem conhecido: as organizações dos eventos vão atrás de patrocínios e parceiros de iniciativa privada nacional ou estrangeira para evitar a ingerência nefasta do Estado, aquele que não pode encostar os dedos na mão invisível do mercado. Mas vejam que, misteriosamente, o paizão sempre acaba tomando parte da farra.

Vejamos as olimpíadas no Rio. O orçamento inicial já é algo inimaginável de ser aplicado em uma só cidade por conta de um único evento, previsto inicialmente em singelos 29 bilhões de reais já está sendo inflado para mais de 33 bilhões apenas em infra estrutura, quase tudo às custas dos governos municipal, estadual e federal. Nada contra as melhorias em si, muito bem vindas por sinal, especialmente as estruturais, mas por que sua implementação será conduzida apenas por conta dos jogos? Por que não antes? Mistério. A questão não é apenas o custo em si, mas o “legado” dos jogos. Fala-se muito em deixar estruturas para o futuro, melhorias do esporte e afins, mas a realidade deixada pelo Pan-2007 é desanimadora, com seus prédios abandonados e dinheiro público que sumiu.

Se isso serve de um pouco de alívio (ou para piorar a história?), não é apenas no Brasil que isso ocorre. As últimas duas olimpíadas padecem do mesmo mal: Atenas-2004, apesar da ajuda da União Européia, e Beijing-2008, com o gigantismo da economia chinesa, tiveram gastos vultosos de seus Estados e produziram notórios elefantes brancos. Os extravagantes estádios chineses abrigam de tudo agora, menos eventos esportivos – os governantes podem optar por simplesmente por tudo abaixo e construir shoppings. A China é assim mesmo. Já a Grécia é um exemplo mais trágico, com 21 das 22 estruturas feitas para o evento consideradas desocupadas em 2009. Lembram da crise fiscal da Grécia? Diz-se que muitas das dívidas feitas pelo governo envolvem os jogos de 2004. Esta Olimpíada gerou prejuízos terríveis e comprometeu quase 7% do PIB do país (14 bilhões de dólares). Só comparando, a China gastou 21 bilhões, mas isto representa apenas 0,6% de seu PIB. Querer abraçar o mundo com as pernas, especialmente quando não se tem recursos, pode ser muito perigoso.

A Copa está prevista para seguir esse roteiro. Orçamento elevado (algo como 17 bilhões de reais, e que já está sendo previsto estourar em 120%), com a participação privada esperada mas o gasto final ficando às custas do governo. As melhorias de infra estrutura, em especial o trem-bala, são por demais custosas, e serão deixados alguns estádios com uso, digamos, limitado. Arenas novíssimas, de padrão internacional, construídas no meio do nada, não poderão ser mantidas por clubes pequenos (mesmo os grandes teriam dificuldades com isso, são todos deficitários). Essa farra com dinheiro público causa até problemas políticos (como na África do Sul). Melhor seria se nem tivesse sido escolhido como sede um país que não tem como arcar com estes gastos (ou o faz sacrificando outras coisas).

Se o Brasil pode aprender algo com os erros dos outros, é que uma política de irresponsabilidade fiscal pode causar problemas sérios e comprometer uma economia. Claro que o caso grego foi atípico, mas o Brasil há pouco tempo não era muito diferente, e não pode planejar gastos tão excêntricos sem uma fiscalização devida e responsabilidade – uma lição de economia doméstica que este não deve esquecer.


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