O primeiro veto

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Diz-se popularmente que “o primeiro a gente nunca esquece”… talvez hoje essa frase se aplique a Obama, visto que foi o dia do seu primeiro veto enquanto presidente dos EUA no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O assunto? Um dos mais polêmicos e recorrentes possíveis: a ocupação israelense em territórios palestinos. (Vale ressaltar que, dependendo do ponto de vista, basta inverter as palavras “israelense” e “palestinos” para avaliar a amplitude deste que se caracteriza como um dos conflitos históricos mais complicados das Relações Internacionais. Para se aprofundar um pouco mais no tema, clique aqui e aqui.)

Contra o interesse dos EUA, grandes aliados de Israel, foi apresentado há mais de um mês ao Conselho de Segurança das Nações Unidas um projeto de resolução que condenava a política israelense de construção de assentamentos nos territórios palestinos ocupados. Este projeto foi apoiado por mais de 120 Estados, demonstrando a indignação da comunidade internacional diante de uma situação que dificulta enormemente o diálogo com a Autoridade Palestina em busca da paz na região.

Segundo declarações norte-americanas, contudo, este assunto deve ser discutido bilateralmente, considerando que “levar o assunto para a ONU só deve complicar os esforços para que seja retomado o processo de paz entre palestinos e israelenses”. Vale ressaltar que o veto dos EUA – enquanto membro permanente com o poder de inviabilizar o projeto – já era esperado, dado seu apoio histórico ao governo israelense, de forma que a votação veio apenas demonstrar o isolamento norte-americano (com o único voto contrário) diante da questão, despertando um profundo debate político.

Variadas são as questões que emergem neste momento, podendo levar a discussões muito mais amplas no âmbito dos estudos em Relações Internacionais, como as seguintes, por exemplo: Qual é o papel da ONU diante de um cenário de “impotência”? E qual é a perspectiva de desfecho nas negociações entre Israel e Palestina? Como a sociedade civil pode/deve intervir? Ou, enfim: pode apenas um país inviabilizar uma causa apoiada por dezenas? Neste caso, tal como a charge no início do post sugere, sim, eles podem


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A ausência difícil de preencher

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A fome não é muito exigente. Ela busca apenas ser contentada. Como, não importa. Essas sentenças são derivadas do pensamento de um antigo filósofo romano que inspirou a muitos: Lúcio Aneu Seneca. E de fato, não é preciso muito para dar aquilo que a fome quer, que nada mais é que uma ausência. E dar ausência é simples, dar nada é fácil.

Tão simples que ainda hoje, mesmo com os grandes avanços no campo da ciência e tecnologia ainda nos vemos satisfazendo-a constantemente. E de que modo satisfazemos a fome? Por incontáveis motivos. Instabilidades políticas, crises alimentares, Estados corruptos com baixa eficácia no serviço às populações, e assim por diante.

Outros fatores como as crises alimentícias – de origens diversas – e econômicas acabam por complicar ainda mais esse problema. E é muito difícil de superar tais crises, pois elas detêm caráter cíclico. E o ano de 2011 parece ter sido afetado por esses catalisadores da fome. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentaçã (FAO), em seu famoso relatório Food Outlook, anunciou que teme uma grave crise alimentar esse ano, com forças muito superiores àquela vivenciada em 2008. As grandes catástrofes climáticas que têm se alastrado pelo mundo tem complicado, e muito, a vida dos produtores.

E o cenário não parece divergir muito daquilo prospectado quando observamos os preços das commodities dispararem e largas discussões sobre como proceder emergirem. Apesar de ainda não termos atingido uma crise alimentar, se o passar do tempo acompanhar a inação, a situação pode agravar-se muito.

Propostas não faltam. O governo francês propôs, durante a reunião do G-20 no final de janeiro, a criação de um estoque internacional de alimentos administrado pela FAO, com o intuito de controlar os preços internacionais das commodities. A ONU já propôs estoques regionais de grãos para evitar maus momentos de colheita.

Uma crise alimentar no ano de 2011 agravaria ainda mais a situação econômica vivenciada na União Europeia e ampliaria muito a fome em países que não possuem divisas suficientes para importar esses alimentos com altos custos. O momento de discussão é agora. Se um cenário como esse estiver para emergir, são necessários diálogos profundos acerca das medidas para evitá-lo que, mesmo sabendo que isso nem sempre acontece, deveriam estar na primeira pauta da agenda internacional. Isso porque uma crise dessa magnitude gera fome, e a fome é uma das únicas questões que afetam a agenda econômica, de segurança e social de todos os Estados simultâneamente.

Esperemos que 2011 preencha mais ausências do que contemple as ambições desse fenômeno minimalista e fatal que assola a humanidade há muitos anos.

[Para uma interessante série de reportagens sobre o assunto, clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui]


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Enquanto isso, na Tunísia…

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Certamente não é todo dia que a Tunísia, país localizado ao norte da África, estampa os noticiários internacionais. Contudo, esta tem sido a situação há algumas semanas, quando os acontecimentos políticos tunisianos têm gerado discussão e promovido instabilidade no âmbito de um país conhecido, usualmente, por sua riqueza cultural no seio da sociedade islâmica.

O cartaz de “Game over” na imagem acima se refere ao (ex-)presidente Zine El Abidine Ben Ali que deixou o poder depois de mais de vinte anos em que ocupava este cargo – atingido a partir de um golpe de Estado no ano de 1987.

O clima de contestação social domina o país desde o final de 2010 e tem promovido fortes confrontos entre os populares e a segurança tunisiana, especialmente desde o suicídio de um jovem desempregado que provocou comoção nacional. Somam-se a isso as denúncias vazadas pelo Wikileaks a respeito da corrupção por parte de Ben Ali e sua família; bem como os efeitos ainda persistentes da crise financeira internacional no país que abalam sua antiga estabilidade.

Assim, com tamanha pressão popular e a instabilidade dominante, o ditador deixou a Tunísia – declarando estado de emergência – e rumou em busca de asilo político em outros países, mas não sem despertar ainda mais polêmicas (veja aqui e aqui). O primeiro-ministro assumiu o poder de forma interina, sendo que já existem candidatos para as próximas eleições, que devem acontecer em alguns meses.

Tamanha instabilidade percebida em meio à população tunisiana reflete o anseio por mudanças e melhoras nas condições de vida da sociedade, especialmente diante de denúncias tão graves de corrupção por parte de um governo ditatorial. Devem ser lamentadas as mortes advindas dos confrontos internos nas últimas semanas, mas espera-se que o país possa atravessar suas dificuldades e rumar para novos horizontes políticos, econômicos e sociais a partir de esforços conjuntos que reflitam efetivamente uma necessária renovação no que tange ao ativismo árabe diante da repressão de liberdades individuais…


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Comemoração especial

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Pois é, parece que, pelo menos para Cesare Battisti, as comemorações deste Ano Novo serão muito mais felizes após a decisão oficial do governo brasileiro de negar sua extradição para a Itália – assunto que tem gerado polêmica há anos e que hoje parece ter visualizado seu desfecho. (Ou não…)

Esta batata quente que tem sido motivo de tantas discussões e opiniões divergentes a respeito da condição de refúgio do italiano Battisti representa um tema repleto de idéias caras às Relações Internacionais. Em meios informativos diversos, os conceitos de soberania, humanitarismo, refúgio político, relações bilaterais, etc., se tornaram recorrentes. E quando o (quase ex-)presidente Lula afirmou que a decisão final do governo a este respeito seria tomada antes do final de seu mandato, as expectativas se aguçaram ainda mais em torno do aguardado desfecho para o destino desta figura que se tornou tão conhecida internacionalmente nos últimos tempos.

Apenas para relembrar, toda a polêmica diz respeito ao fato de que Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas na década de 70, tendo fugido para a França e posteriormente se abrigado no Brasil sob a condição de refugiado (detalhe para o fato de que o Comitê Nacional para os Refugiados no Brasil discordou da decisão do Ministério da Justiça a este respeito). Desde 2009, esta tem sido uma questão delicada em termos diplomáticos entre os governos brasileiro e italiano, sendo que neste mesmo ano o Supremo Tribunal Federal votou (em sua maioria) pela extradição de Battisti, decidindo, no entanto, que o parecer final deveria caber ao presidente Lula. (Veja um histórico mais detalhado aqui.)

Após mais de um ano de incertezas, adiamentos e repercussão midiática, a decisão de Lula representa um momento paradigmático para as relações bilaterais entre Brasil e Itália. (O parecer oficial pode ser lido integralmente aqui.) O principal argumento brasileiro para negar a extradição de Battisti se pauta na “condição pessoal do extraditando”, a partir das disposições do Tratado de Extradição firmado entre os dois países em 1989.

Apesar de o Ministério das Relações Exteriores insistir na soberania da decisão e afirmar que as relações bilaterais não serão afetadas, percebe-se um claro estremecimento diplomático em relação à Itália neste sentido, sendo que suas conseqüências são imprevisíveis. A repercussão nos jornais internacionais sugere que talvez o que aqui chamamos de desfecho não possa ser definitivamente reconhecido enquanto tal…

Apesar dos aspectos de Direitos Humanos, cuja importância mostra-se inegável na tomada de qualquer decisão, é preciso reconhecer que esta questão representa uma polêmica notadamente política, em que as partes têm buscado o reconhecimento de sua soberania e de seus interesses acima de qualquer justificativa humanitária. Considerando que o assunto provavelmente ainda deverá proporcionar polêmicas futuras, por ora a única certeza é que o Ano Novo será especialmente comemorado por Battisti…


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Polêmica chinesa

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China. Paz. Prêmio. Direitos Humanos. Comunidade internacional.

A probabilidade de estas palavras comporem uma mesma frase parece remota, não? Bom, mas eis que: um indivíduo da China foi eleito para receber o Prêmio Nobel da Paz por sua atuação em prol dos Direitos Humanos no país, mobilizando a comunidade internacional neste sentido.

Este período por si só surpreende os leitores mais atentos. O que não surpreende, contudo, é o fato de que este indivíduo, no caso Liu Xiaobo, é um dissidente chinês que será impedido de receber o prêmio em questão. Este cumpre pena em seu país por subversão, após ter liderado o manifesto “Carta 08” (disponível em inglês aqui), o qual reivindica reforma política e o respeito aos Direitos Humanos na potência oriental. Um trecho marcante desta carta, que causou imenso descontentamento ao governo chinês, é o seguinte:

[…] “The Chinese people, who have endured human rights disasters and uncountable struggles across these same years, now include many who see clearly that freedom, equality, and human rights are universal values of humankind and that democracy and constitutional government are the fundamental framework for protecting these values”. […]

Vale ressaltar que Liu Xiaobo foi também um dos líderes dos protestos estudantis contra o governo chinês na Praça da Paz Celestial, em 1989, os quais constituem também um marco na luta por Direitos Humanos na China.

Desta forma, diante do panorama apresentado, a comissão organizadora do Prêmio Nobel concedeu neste ano a Xiaobo um dos prêmios mais aguardados pela comunidade internacional – o Prêmio Nobel da Paz – em homenagem a seus esforços políticos e humanitários. Infelizmente, entretanto, Xiaobo, que está preso na China, não poderá receber o prêmio e nem será formalmente representado nesta ocasião, já que o governo da China tem tratado esta questão no âmbito da “segurança nacional”, impedindo simpatizantes e familiares de chegarem à Noruega, onde o prêmio será entregue nesta sexta-feira.

Em verdade, nos últimos dias o governo chinês tem liderado um boicote ao prêmio em si, chegando mesmo a afirmar que o comitê organizador é formado por “palhaços”. Nesta linha, 19 países já confirmaram que não estarão presentes na entrega do prêmio, dentre os quais podem ser destacados, além da China, a Rússia, a Arábia Saudita, o Paquistão, o Iraque e o Irã, por exemplo. Para contornar a situação, o governo chinês até criou seu próprio Prêmio Confúcio da Paz

A polêmica se alastra e muito ainda deve ser feito para que o trabalho em prol dos Direitos Humanos na China venha a ser efetivo, de forma que a transparência possa, um dia, caracterizar as ações do governo chinês. A indicação de Liu Xiaobo ao Nobel da Paz certamente contribui para que o debate neste sentido aflore em meio à comunidade internacional, exortando todos os atores à reflexão acerca do fato de que a magnitude desta potência oriental se sustenta sobre bases, no mínimo, questionáveis no que tange à noção de respeito à humanidade.


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Vazamento de confiança

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Se ainda restava alguma ilusão ou idealismo quanto às atividades diplomáticas, elas cairam por terra semana passada. Semana passada, o Álvaro publicou um post tratando do tema do vazamento de documentos diplomáticos secretos dos EUA no WikiLeaks, mas a repercussão está longe do fim, e resta a pergunta: o WikiLeaks traz mais transparência ou torna esse meio ainda mais fechado com suas publicações?

A semana que abalou a diplomacia começou na verdade antes da divulgação dos documentos. O fundador do WikiLeaks (o site que há quatro anos publica informações confidenciais de toda a sorte, buscando expôr condutas escusas e trazer transparência), Julian Assange, há muito anunciava um vazamento sobre a política externa ameticana. “Precavendo-se” contra esse fato, o governo já havia de antemão avisado os chefes dos países.

Os podres de todos estão expostos. Kirshner teve sua saúde mental questionada, a Rússia de Putin apareceu como corrupta, ONU espionada, Israel fez planos para um golpe de Estado no Irã… Sobrou também para o Brasil. Celso Amorim afirmou que Chávez mais late do que morde, e um outro documento confidencial americano coloca que “O Brasil acha que está em concorrência com os Estados Unidos e desconfia das intenções americanas. (…) O Brasil tem necessidade quase neurótica de ser igual aos Estados Unidos e de ser percebido como tal”.

Trata-se do 11 de setembro para a diplomacia, diz o ministro das relações exteriores italiano. Depois do vazamento, inúmeros ataques ao site do WikiLeaks foram promovidos, de maneira a tirá-lo do ar ou torná-lo lento. De repente a Interpol resolveu emitir uma ordem internacional de detenção contra Julian Assange, por supostos delitos sexuais na Suécia. Detalhe – a ordem é uma “notificação vermelha”, o nível mais alto da Interpol, divulgada para deter, mesmo que provisoriamente, pessoas procuradas internacionalmente e com fins de extradição.

A base da diplomacia – a confiança – estará por muito tempo prejudicada. Afinal, não estão em jogo apenas a visão dos americanos sobre cada país, mas diálogos e visões de integrantes dos governos de cada um. E por paradoxal que possa parecer, as democracias são as mais afetadas com vazamentos, graças a variedade de atores e interesses envolvidos nas mesmas. Imagine um vazamento de documentos da China – provavelmente, o ‘vazador’ seria mais que exemplarmente punido. A exposição tão viceral de tudo o que pensam e almejam os EUA com certeza dificultará bastante a execução de seus objetivos de política externa.

Mas então, como em democracias não temos tal transparência? Como garantir a liberdade de informação? A ‘contabilidade’ dos governos em regimes democráticos é responsabilidade dos Estados. Ocorre que esse direito a acessar tais dados deve se restringir ao próprio governo, e não informações discutidas com países estrangeiros – regras de sigilo internacionais.

Trata-se, portanto, de uma contradição inerente ao processo de abertura que o WikiLeaks gera: menos abertura graças à quebra de confiança na diplomacia tradicional. Ao ter segredos expostos, a tendência de reação em qualquer âmbito é tornar o acesso a informações ainda mais restrito. E que não nos enganemos achando que os EUA são os bandidos do cenário internacional. Se cavássemos, todos os países se apresentariam da mesma forma. Faz parte.


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A força de paz do Alemão

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Para que servem, afinal, as Forças Armadas?

Pergunta simples, resposta complexa. De modo geral, podemos dizer que servem para proteger o Estado contra ameaças e assegurar, assim, a vida dos seus cidadãos. Mas aí é que está o problema. No conceito clássico, as Forças Armadas servem para proteção contra fatores externos, uma vez que, no próprio território do Estado, ele mesmo tem o tal “monopólio do uso legítimo da força”. 

O que vemos hoje no Rio, então, é um desafio ao Estado Moderno. Uma força ilegítima exercendo o controle de parte do território do país, no caso, os traficantes e as milícias em favelas da ‘Cidade Maravilhosa’. 

O próprio simbolismo de se erguer a bandeira do Brasil dentro do próprio território nacional como símbolo de ‘conquista’ é algo estranho de se pensar. É como se parte do país não estivesse sob a tutela do Estado. 

Mas o mais paradoxal, contudo, é a participação das Forças Armadas nessa empreitada. Como pensar, no modelo clássico, o Exército combatendo, prendendo e matando seus próprios nacionais? Não serviria a Defesa Nacional para proteção contra as ameaças externas? E o trabalho dos soldados reconstruindo ruas? Eles não deveriam estar sendo treinados para proteção das nossas fronteiras? As polícias é que não deveriam estar encarregadas do exercício do monopólio da força do Estado?

E a tal ‘força de paz nos moldes do Haiti‘? Como as Forças Armadas de um país podem estar envolvidas em ‘missões de paz’ dentro do próprio território nacional e combatendo os próprios cidadãos?

Pensar essas questões no modelo clássico do Estado realmente não faz sentido. É um paradoxo. Mas o problema é que os Estados vêm se comportando ultimamente de modo que a teoria clássica não previa. E não há consenso sobre uma ‘nova’ teoria que explique essas ‘novas ameaças’.

Este conceito de Estado e Forças Armadas são do século XVIII e o mundo mudou bastante de lá pra cá. As ameaças de antes, como guerras por territórios, já não são a maior preocupação dos estadistas de hoje. É como se estivéssemos usando um óculos cujas lentes já não nos ajudam a enxergar.

Vejamos o próprio terrorismo internacional a desafiar diariamente nossos conceitos e dogmas (Tratamos deste assunto no blog outra vez, veja aqui).

Para que servem, então, as Forças Armadas? Boa pergunta, mas talvez reformar estradas esteja longe de ser uma atribuição dos nossos soldados.


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A volta dos que não foram.

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E o Wikileaks ataca novamente. Fiel a seus princípios e confirmando as “ameaças” feitas há algum tempo, o site liberou uma remessa enorme de documentos diplomáticos secretos dos EUA (Aqui o original e a versão em português). De nada adiantaram os ataques virtuais que almejavam impedir a liberação dos documentos: diversos jornais de todo o mundo já estavam em posse de alguns documentos e revelaram ao mundo uma face pouco conhecida da diplomacia estadunidense. E é apenas o começo, muitos outros serão publicados gradualmente durante a semana, podendo por em choque grande aliados dos EUA.

O conteúdo desses documentos está disponível e sendo discutido à exaustão na mídia, indo de ordens de espionagem, mesmo contra países neutros e funcionários da ONU – incluindo o secretário-geral – até informações pessoais de diversos líderes mundiais. Parece que Lula escapou dessa, mas o Brasil entra nesse samba com informações difusas acerca de prisões em território nacional de acusados de auxílio ao terrorismo, disfarçadas de detenções comuns relacionadas a crimes mais mundanos como o narcotráfico (se bem que são coisas intimamente relacionadas hoje em dia…).

Bom, não é o fim do mundo – ao contrário do outro vazamento, já discutido aqui, esse pode não por em risco direto a vida de combatentes e cidadãos, e boa parte das informações revelam coisas óbvias, mas o vazamento torna um pouco mais dificultosa a tarefa dos diplomatas dos EUA, que vão ter de lidar com esse constrangimento – ainda mais quando se é o país mais influente do mundo e vai ter de dar explicações a MUITA gente. Vejam bem, diplomacia nunca foi algo considerado, por assim dizer, sincero. Basta lembrar da diplomacia européia do século XIX, e suas cláusulas secretas que tanto estrago causaram no começo do século XX. Quem garante que isso ainda não ocorra? A diplomacia vive de aparências, e existem coisas que não se espera sejam trazidas a público. Os documentos cobrem o período de 1966 a 2010, e se mostram alguma coisa pode ser como funciona por dentro a “cabeça” de uma potencia mundial em relação aos demais países. Prepotência? Talvez. Mas quem garante que outros países não façam coisas semelhantes? Se os EUA, bastiões da virtude, espionam e pressionam (ainda mais) por baixo dos panos, o que fariam países como China e Rússia?

Se servem para alguma coisa, além de constranger os EUA, tais documentos podem incentivar aos demais países que evitem essas práticas “desonestas” sob o risco de terem tais informações vazadas no futuro. Claro que não é possível mudar um costume como esse de uma hora pra outra, um exercício de otimismo pouco viável, mas nunca se sabe como a era informacional pode influenciar os Estados nos anos vindouros. E a Wikileaks está aí para tentar mudar isso.


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Briga de irmãs

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As Coreias voltam ao centro do noticiário internacional por causa de disparos de foguetes que causaram baixas civis confirmadas na ilha de Yeonpyeong. As notícias estão sendo debatidas à exaustão na mídia, os ataques foram condenados pela maioria da comunidade internacional, a ONU já vai agir prontamente (apesar da recusa norte-coreana) para evitar o escalonamento do conflito (ou seria re-escalonamento? Afinal, tecnicamente as partes ainda estão em guerra)… Então, vamos tratar a questão de um ângulo diferente – o dos norte-coreanos. Ou, pelo menos, tentar, dado que se trata do regime mais fechado do mundo. Por que esses atritos tão recorrentes esse ano?

Antes de tudo, a Coreia do Norte possui um dos maiores contingentes militares do mundo, e eles se orgulham disso – acreditam que caso entrem em conflito conseguiriam vencer no puro e simples combate corpo-a-corpo. Pessoal é o que não falta: o exército norte-coreano é um dos maiores do mundo, com cerca de 950.000 conscritos e mais 1,7 milhões de reservistas. Sem contar aquela possível ajuda chinesa, que certamente viria…

Ademais, enquanto o Ocidente se preocupava com Ahmadinejad e suas execuções, a crise financeira na Zona do Euro e os vazamentos da Wikileaks, esqueceu-se um pouco do programa nuclear norte-coreano. A Coréia do Norte sempre enveredou pela produção de armamento nuclear a partir do plutônio (facilmente obtível de resíduos de reatores nucleares), e eis que o mundo foi surpreendido pelas declarações do professor Siegfried Hecker, que confirmou uma sofisticada usina de enriquecimento de urânio (para propósitos civis, claro…). Uma semana depois, a Coreia do Norte já está em pé de guerra com sua vizinha do sul.

Essa “pujança” militar (real no âmbito convencional, hipotética no nuclear) contrasta com a pobreza e subdesenvolvimento da população local. Os relatos são de limitações a comodidades mundanas como televisão e telefonia. Não precisamos ir muito longe: basta lembrar da Copa do Mundo desse ano, quando o simpático escrete asiático, contrastando com as milionárias seleções europeias e americanas, foi treinar em um ginásio público por falta de verbas. A situação é relativamente calamitosa.

O que isso tem a ver com o conflito? A Coreia do Norte acusa a do Sul de ter iniciado os problemas, atrapalhando as conversações de paz mediadas pela Cruz Vermelha e sem evitar o confronto. É interessante ver que esse ano atribulado (mísseis, afundamento de navio, programa nuclear a todo vapor…) bate com a suposta pavimentação da sucessão de Kim Jong-Il, com a promoção de seu filho Kim Jong-un a general. Há até quem diga que o incidente dessa semana foi uma “demonstração de liderança” do futuro líder, em uma atitude de confrontação definitiva com o vizinho do sul. Ou, talvez, dada a penúria em que se encontra seu Estado, simplesmente lhe restou a saída arcaica da glória militar como último recurso e suspiro do regime comunista.

O que esperar disso? Se realmente esse for o estilo Kim Jong-un de governar, podemos esperar o pior nos anos vindouros. Mas, provavelmente, a todos esses fatores vai permanecer alheio por muito tempo o povo norte-coreano.


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Engraçado né, ninguém presta muita atenção nas construtoras…

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“A família do Bush tem ligações com o petróleo! Fora Bush! Eu e minha camiseta anti-McDonalds iremos salvar o mundo!” Calma aí aspirante burguês de Che Guevara, o petróleo é algo que deve ser substituído o quanto antes, mas o buraco é mais abaixo.

Tanto na primeira Guerra do Golfo quando nas atuais incursões no Iraque e no Oriente Médio, muito se falou sobre a indústria do petróleo, que eles são muito malvados, que eles fazem as guerras acontecerem, etc. Isso é verdade, porém a galerinha “consciente” cujo maior passatempo é fazer cartazes e usar camisetas punk acha que tudo é culpa do sangue negro e fazem uma análise fraca que não percebe uma das maiores forças em ação do mundo – a construção. Especificamente os grandes grupos ligados à obras públicas (que mancham o nome de quem faz coisas visando o bem-estar da população).

Não precisamos entrar em muitos detalhes para perceber isso, imaginem a situação. O país A ajuda de maneira suave o país B a se livrar de um opressor ou do terrorismo, infelizmente em um conflito (putz, que pena…). Algumas pontes, prédios, estruturas governamentais são destruídos ou incrivelmente danificados no andar da carruagem, logo elas tem que ser reconstruídas. Como já entramos sem bater, porque não palpitar no governo e propor uma maior infraestrutura para o país? Fica tranquilo, já conhecemos quem pode ajudar!

É um festival de licitações, contratos e maracutaias que botam o petróleo no chinelo. Suborno a torto e direito, tão bem amarrado que conseguem jogar toda a culpa no petróleo! Todo político adora fazer ponte, viaduto, mas será que é culpa somente deles que tem tanta construção eleitoreira? Não é se surpreender que 54% dos congressistas eleitos agora tiveram a ajuda de construtoras. Ou lembrar que grandes grupos Brasileiros como Camargo Correa e Odebrecht atuam em diversos países pelo mundo em parceria com governos ditatoriais sem se preocupar o porque das suas obras ou de onde veio o dinheiro.

Outra mutreta que utilizam para se safar é o status de neutralidade que gozam. Afinal, quem imaginaria que aquele pessoal que faz o prédio que eu moro, que tem um amigo engenheiro que trabalha lá, que um conhecido trabalha de pedreiro, quem acreditaria que essas empresas são ruins, se eles só ajudam os outros? Eu conheço muito engenheiro e construtora que faz tudo nos conformes, até mesmo umas que vão além das fracas legislações ambientais e procuram pagar melhor os empregados, oferecer melhores condições e até mesmo diminuir ao máximo seu dano ao meio ambiente. Infelizmente existe muita empresa que não se importa com isso, algumas que vivem como sanguessugas do sistema político.

Pensando no meio-ambiente, qual é o maior gasto de madeira, em especial a ilegal? Construção civil. Claro que isso envolve tanto as grandes empresas quanto aquelas menores, porém é outra prova que esse setor continua tendo seus problemas não percebidos pela grande população.

É no mínimo insensato sair dizendo que todas as corporações e setores econômicos são malvados e visam a destruição mundial, mas é realmente ingênuo ficar fazendo vista grossa a grandes forças mundiais e ficar pensando que o Mc(fumar e beber não é errado nem são originários de empresas malvadas, de acordo com os manifestantes de praxe), a Coca e a Exxon são os únicos vilões da história. O número de influências e forças agindo para conflitos e relações acontecerem é muito maior e mais complexo do que pensamos.


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