Perfumes revolucionários?

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Perfumes

Uma das notícias intrigantes da última semana havia sido o anúncio, por parte da empresa pública de cosméticos cubana Labiofarm, do lançamento de duas novas fragrâncias intituladas… Ernesto e Hugo. A dita “homenagem” ao cubano Ernesto Che Guevara e ao venezuelano Hugo Chávez chamou a atenção – não pelo tipo de fragrância ou pelo interesse dos amantes de perfumes pelo mundo afora, mas principalmente pelo impacto político de se transformar o nome dos líderes revolucionários comunistas em marcas para venda no mercado internacional…

Segundo o laboratório, a escolha dos títulos se deu após pesquisas junto ao público e as famílias de Che e Chávez teriam autorizado o uso de seus nomes para este fim. Nas palavras de Mario Valdés, diretor da área de investigação e desenvolvimento da Labiofarm, “Hugo tem notas cítricas e amadeiradas que dão uma expressão de masculinidade” e “Ernesto tem algo de essências frutadas com elementos de carvalho, que dá um sentido varonil” […]. Por mais que possa parecer irônico, os produtos foram efetivamente anunciados com previsão de lançamento no mercado no início de 2015.

Ontem, contudo, o governo cubano se pronunciou por meio de nota no jornal estatal Granma, caracterizando como “irresponsável” o anúncio dos perfumes, proibindo sua fabricação sob a justificativa de que “os símbolos da revolução são e sempre serão sagrados”.

Discussões entre o governo cubano e suas empresas à parte, o episódio traz a particularidade de mostrar como importantes símbolos políticos podem ter sua imagem capitalizada por empresas que alcançam um nicho de mercado em ampla expansão. Quem nunca viu alguém usando uma camiseta com a clássica estampa de Che Guevara sem nada saber sobre sua história em si? A ideia de “revolução” se torna, cada dia mais, uma mera marca para ser comercializada em prateleiras pelo mundo afora enquanto a real importância política de figuras marcantes (ainda que polêmicas) parece se banalizar diante de aparências que maquiam a complexidade dos interesses políticos e econômicos em jogo…

[PS: Dois outros modelos femininos estavam também sendo produzidos pelo laboratório: Amalia, em referência a Amalia Simoni, importante nome feminino durante a Revolução Cubana, e Alba, em alusão à “Alternativa Bolivariana para as Américas”…]


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Clube do Bolinha – ou das bolinhas?

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Na semana em que a questão de gênero teve grande relevo com o discurso da Emma Watson na ONU, vem da Espanha mais um caso de como isso é um problema ainda.

Há alguns dias a seleção espanhola da Copa Davis (a Copa do Mundo de tênis) foi eliminada pelo Brasil e ficou de fora do grupo especial. Desfalques espanhóis e dedicação dos atletas brasileiros à parte (que foi realmente sensacional), seria mais ou menos como se o Brasil (uma “superpotência” do esporte) perdesse para o Paraguai (que tem bons atletas mas não faz nada de excepcional há anos) e ficasse fora da Copa no futebol. E claro que cabeças rolaram – especificamente do técnico, o ex-jogador (que já foi número 1 do mundo) Carlos Moyá.

E o gênero com isso? Para seu lugar, foi chamada Gala León, também ex-tenista e diretora esportiva. A reação mais contundente foi de Toni Nadal (tio do Nadal famoso), que considerou a escolha equivocada e que a técnica terá dificuldades “no vestiário” por se tratar de uma equipe masculina. A repercussão negativa dos comentários, tachados de machistas a antiquados, revela um problema nada velado na sociedade e que fica ainda mais evidente no mundo tradicional do esporte.

É comum vermos homens dirigindo equipes femininas ou atletas mulheres. Mas o inverso é uma raridade – quando ocorre, geralmente é algo por laços familiares ou é temporário. Pode-se argumentar sobre diferenças fisiológicas para a prática do esporte entre homens e mulheres, mas em teoria a preparação exige o conhecimento, algo que ambos os gêneros compartilham em igual medida. O que existe, no caso, é uma barreira social, histórica e econômica. Estudos apontam que, apesar das tendências de queda, a remuneração de homens e mulheres na mesma posição ainda tem uma diferença substancial em termos de valores. Mesmo no Brasil, por exemplo, as mulheres ganham em média apenas 73% do que os homens. Os avanços no mercado de trabalho ainda não têm o impacto suficiente em diversas sociedades para reverberar em mudança na estrutura e percepções de gênero mais enraizadas.

Também devemos lembrar que, como no caso da Espanha, um país às portas da crise política (a Catalunha está prestes a seguir o exemplo da Escócia e puxar um referendo para separação da Espanha) e já em crise econômica há algum tempo, o conservadorismo ganha força em momentos de insegurança. E parte do conservadorismo significa uma estrutura tradicional em que a igualdade de gênero vira mais um problema que solução. Certo ou errado, o fato é que León não deve ter problemas em trazer a equipe (mais que gabaritada) de volta ao grupo mundial da Davis – seu grande desafio, possivelmente, será a mera manutenção de seu cargo nesse contexto adverso.


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Alguém falou em participação social?

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Participacao Social
Alguém falou em participação social? O assunto em pauta é fortalecer as instâncias consultivas de participação da sociedade civil na gestão de políticas públicas? A questão que se coloca é impulsionar a aproximação do cidadão comum das ferramentas políticas existentes em seu próprio benefício?

As respostas às três perguntas são: sim, sim e sim! O tema é essencial, mais atual que nunca e está (como deveria) em pauta, mas gerando divergências políticas que demonstram a sensibilidade suscitada por esse tipo de resposta positiva.

O Decreto 8.243/2014 foi publicado no último dia 23 de maio, após assinatura pela presidenta Dilma durante o grande evento “Arena da Participação Social”, em Brasília (confira o texto completo aqui). O Decreto instituiu o Plano Nacional da Participação Social (PNPS) e o Compromisso Nacional pela Participação Social (CNPS), celebrando o diálogo e buscando consolidar a participação social destacadamente um método de governo. (Leia mais aqui e aqui.)

Mas o assunto não teve repercussão unânime, pelo contrário. Enquanto o Decreto foi celebrado pelo governo, por movimentos sociais e pela sociedade civil em geral enquanto meio para fortalecimento da democracia, a oposição vem criticando duramente a forma como o texto foi aprovado e alguns mais extremistas insinuam até mesmo uma “invasão”/ “competição” do Poder Legislativo por parte dos/com os movimentos sociais.

Se o ideal seria que texto semelhante sobre a matéria fosse aprovado por projeto de lei tramitado via Congresso Nacional, todos sabemos que o plano ideal está, infelizmente, bem distante da realidade…

O texto foi aprovado por decreto presidencial (via Poder Executivo, pois) já que não cria novas instâncias participativas, mas apenas reforça sua importância e as articula em formato de sistema, definindo diretrizes mínimas a serem observadas nos espaços em questão – todos de caráter consultivo e não deliberativo, e que não ferem, portanto, a autonomia legislativa dos representantes eleitos para cumprirem tal função.

No furor desse debate, argumentos alegando o “sucateamento total e absoluto do Congresso Nacional” motivaram até projetos de decreto legislativo na Câmara (PDC 1.491/2014) e no Senado (PDL 117/2014) para anular o decreto aprovado. Houve quem defendesse que “a democracia se dá por meio dos seus representantes no Congresso, legitimamente eleitos”. Mas quem é que está dizendo o contrário?

Falar em participação social vai gerar polêmica sempre e em qualquer situação, e a aprovação de um texto como tal às vésperas de um processo eleitoral tampouco passa despercebida. Contudo, desmerecer a iniciativa ou seus objetivos não parece condizente com a própria concepção de democracia participativa. Alguém falou em participação social? Que bom! E que continuem não apenas falando, mas principalmente aplicando-a no dia-a-dia político…

[Sobre o tema, vale ainda destaque sobre o Fórum Interconselhos, iniciativa de monitoramento participativo acerca da implementação de políticas públicas no Brasil, que foi premiada internacionalmente pelas Nações Unidas há poucos dias (leia mais aqui). Sendo o Decreto 8.243/2014 um reforço às estratégias participativas já empregadas pelo Brasil, alguém realmente duvida que, apesar de a jornada ser longa, estamos no caminho certo?]


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Escândalo à la française

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Fonte: Premium Times

Fonte: Premium Times

O jornal Le Monde, o maior e mais lido na França, apresentou hoje em sua capa diária uma manchete em que diz “O choque da acusação de corrupção”, fazendo menção direta ao mais novo escândalo político do país. Trata-se da detenção provisória por um período de 24 horas pelo suposto envolvimento de Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês que governou entre 2007 e 2012, com tráfico de influências, financiamento de campanha ilegal e violação de sigilo de investigação.

Sua pena pode chegar a até cinco anos de prisão e abrangerá pagamento de aproximadamente 500 mil euros aos cofres públicos. Se o problema fosse apenas pessoal, não haveria tantos alardes. Entretanto, o escândalo alcançou advogados e o partido político de Sarkozy, o centro-direita “União por um Movimento Popular” (UMP), acusado de contratar empresas para produzir ordens de pagamentos falsas a fim de cobrir excessos de gastos na então campanha do ex-presidente em 2012. Vale lembrar que a crise não surgiu agora e vem de meses passados, quando Jean-François Copé, então líder do UMP, renunciou ao cargo.

Mesmo tratando-se de um caso esporádico, Sarkozy não é o primeiro ex-presidente a passar por essa situação. Seu antecessor, Jaques Chirac, foi acusado duas vezes em 2007 e 2009 por abuso de confiança e “apropriação indevida de fundos públicos” antes de ser condenado a dois anos de prisão. Todavia, a custódia daquele advindas de investigações iniciadas em fevereiro do presente ano, ou seja, sua detenção provisória por tempo determinado, é algo inédito no cenário político francês.

Na mídia do país havia rumores de que Sarkozy pretendia voltar à vida política o quanto antes, seja através da ocupação do cargo de liderança do UMP ou por meio de uma nova disputa presidencial em 2017. Obviamente, posto que as investigações e os interrogatórios estão sendo realizados no presente, não se pode prever se ele realmente terá uma punição mais severa. Entretanto, a imagem de “bom mocinho” tão importante para um candidato à presidência parece ter ido por ralo abaixo.

Não é a primeira vez que Sarkozy se envolve em escândalos. O Caso Tapie, a vitória na eleição de 2007, os gastos com pesquisas de opinião em 2012, o envolvimento irregular com o a empresa de cosméticos L’Oreal e o financiamento da campanha do ex-premier Edouard Balladur fazem parte do currículo sujo do político. Se existem perdas por um lado, por outro, ocupado pelo atual presidente socialista François Hollande, parece haver ganhos. Hollande já mencionou em reunião semanal do Conselho de Ministros que seu governo preza por “independência da justiça” e “presunção de inocência”.

E quem tem a perder são os franceses. Em um cenário político em que Hollande só consegue ganhar os holofotes não por mérito próprio, mas sim por malfeitorias de seu adversário direto, o futuro de boas novas parece estar longe de se concretizar.


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A culpa é das estrelas (do PT)

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Fonte: Twitter

Fonte: Twitter

O título deste texto faz apenas uma analogia ao título do livro do escritor John Green, o qual, inclusive, virou filme e está passando nos cinemas. A história, pelo que li e me parece, é linda e triste, pois narra a história de dois adolescentes que se conhecem em meio à conturbada presença de um câncer. Entretanto, termina aqui minha explicação, posto que meu comentário no blog se reserva a outras dimensões: a política brasileira, a disputa presidencial e o bom e velho futebol tupiniquim.

Mesmo ainda no início da segunda fase e sem saber se o Brasil realmente será o campeão dentro de campo, a Copa do Mundo trouxe um ponto muito positivo ao país, seja ele a volta de um debate político cotidiano e mais acalorado. Quando falamos em Política Externa, a grande maioria de interessados na área sabe que o brasileiro não a vê com a atenção necessária e, por vezes, o tema passa batido nos discursos políticos. Ao contrário, a Política Interna sempre foi mais presente nos palanques e o âmbito nacional aparece, novamente aos olhos dos brasileiros, como o nível de análise mais importante e aclamado.

Exemplo claro dessa afirmação anterior está em como normalmente se dão os (des)créditos dos sucessos e fracassos da política brasileira ao âmbito federal, visto que nosso país é uma Federação Trina regida pela Constituição de 1988, na qual os entes federativos dividem-se em municípios, estados e União. Se na teoria é assim e na prática deveria ser, no discurso batido geral do brasileiro (não colocarei a expressão “brasileiro médio”, porque nem sei direito o que isso significa) nos últimos meses ecoa apenas uma frase: “A culpa é do PT (Partido dos Trabalhadores)”, fazendo uma clara evidência à presidente Dilma Rousseff.

As vaias em si e não seus tons pejorativos conforme fora visto no “Ei, Dilma, vai tomate cru” são válidas? Sim, são. Mas se fosse pra xingar, não faltariam políticos para tamanho coro. De fato, as críticas ao PT devem ser feitas, só que com conhecimento de causa. O atual governo federal errou e falhou em inúmeros aspectos, deixando totalmente de lado o legado do partido, embora isso já fosse visto na presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Todavia, conforme mencionei logo acima, devemos ter em mente que a Federação é trina e também existem responsáveis diretos pelos erros e falhas estatais e municipais.

E isso vai muito além do PT. Vejamos, novamente por exemplo, o caso da greve no metrô da cidade de São Paulo. Muitos colocaram a culpa nos próprios metroviários e na famigerada Dilma pelo “caos” urbano na capital. Mas muitos se esquecem de que a responsabilidade direta pelo metrô é do governo estadual do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ferrenho adversário do PT, propriamente dito. Do mesmo modo, citam e citam que a corrupção “à lá” PT é a responsável pelo atraso brasileiro. Mas esquecem e esquecem do esquema milionário de fraudes em propinodutos do PSDB…

Não podemos confundir conjuntura com estrutura, sendo que os problemas vistos atualmente no Brasil (corrupção, precariedade educacional, insegurança pública, etc.) são problemas estruturais. Poderíamos voltar à formação econômica e política nacional para explicar tais fatos. Por ora, até para não ficar cansativo, friso que as vaias que colocaram a culpa nas estrelas (do PT) são válidas. Entretanto, partiram de um setor específico da sociedade, quem era “very important person” (VIP) ou estava disposto a desembolsar uma quantia muito maior do que qualquer Bolsa Família para comprar um ingresso para a abertura da Copa. E, na maioria dos casos, esse setor social é míope às transformações sociais ocorridas em nosso país nos últimos anos.

Por fim, resumo duas ideias. Primeiro, com a Copa do Mundo ficou nítido o quão o “brasileiro geral” preocupa-se em demasia com a esfera federal e desconhece as realidades estaduais e locais. Ele vive o Brasil das bandeiras em capôs de carro e canta o hino na sala de casa antes da narração do Galvão Bueno, mas não sabe distinguir minimamente se o problema da sua calçada advém do presidente, do governador ou do prefeito. Segundo, voltando ao livro de John Green, devemos parar com essa síndrome anti PT e ver que o verdadeiro câncer na política interna nacional é o bipartidarismo velado entre o próprio PT e o PSDB. Desacreditar no primeiro e apoiar o adversário me parece pertinente. Contudo, acreditar que o segundo de Aécio Neves vai transformar o cenário atual é pura ilusão e demagogia.


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CIA nova no Twitter

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Twitter

E em meio a todo o debate sobre espionagem no meio virtual, eis que a agência de inteligência dos Estados Unidos acaba de inaugurar suas contas no Twitter e no Facebook. De forma irônica, a primeira publicação da CIA no twitter foi “Não podemos confirmar ou negar que este seja nosso primeiro tweet”, em alusão ao posicionamento ambíguo que é frequentemente assumido pela agência sobre seus processos internos.

Águia certeira disfarçada de pássaro azul, tal com a charge acima sugere? Parece que sim. Ao mesmo tempo em que “estreou” nas duas maiores redes sociais do mundo, o serviço secreto estadunidense anunciou a busca por ferramentas capazes de identificar sarcasmo (!) em publicações no Twitter.

Com mais de 500 mil seguidores em menos de dois dias na mencionada rede social, a rapidez com que a CIA está conquistando seguidores parece querer camuflar os maus lençóis em que o governo de Obama se encontra para dirimir os reflexos das críticas de espionagem nacionais e internacionais.

No próprio território do Tio Sam, as principais empresas de tecnologia se unem para incrementar os sistemas de segurança, com o objetivo de evitar a intrusão do governo a suas fontes de informação. Do lado de baixo do Equador, o Marco Civil da Internet no Brasil foi aprovado recentemente para inovar no sentido de promover a neutralidade da rede, bem como o direito à privacidade “on-line”, hoje fatalmente banalizado.

Já na Alemanha, que Snowden mostrou ser tão vulnerável à espionagem quanto o Brasil, foi anunciado essa semana que a justiça do país realizará investigações aprofundadas a respeito das escutas ao próprio telefone celular da líder Angela Merkel, em uma situação cujos custos diplomáticos já se mostram incalculáveis.

Em se tratando de redes sociais, a realidade demonstra que nunca a interatividade virtual alcançou níveis tão elevados como hoje, revelando, paradoxalmente, o potencial de alcance e seus riscos em uma disputa acirrada pelo poder cujas consequências se revelam pouco a pouco, mas cada dia mais: agora ainda com uma nova companhia no Twitter…


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E que vença… o melhor?

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Em meio a um conflito armado de proporções alarmantes, eis que estamos diante de eleições presidenciais na Síria. Se a ideia de eleição remete aos preceitos de defesa da democracia, promoção dos direitos humanos e expectativa de mudanças, talvez o processo eleitoral hoje no país pudesse ter outro nome…

Considerada uma farsa pelos opositores do regime atual, bem como por boa parte da comunidade internacional, a eleição que se realizará amanhã na Síria começou, na verdade, na última quarta-feira nas Embaixadas sírias pelo mundo afora.

Pela primeira vez em décadas, há que se reconhecer, o pleito ao mais alto cargo político do país tem mais de um concorrente – porém de acordo com uma polêmica lei eleitoral que aceitou apenas três candidaturas de 24 levadas à Suprema Corte Constitucional. Os restritos critérios de “aptidão” dos candidatos levam apenas dois desconhecidos (Maher al Hajjar e Hasan Nuri) a competir com Bashar al-Assad na disputa presidencial, sob o mesmo discurso de combate ao terrorismo.

Com um saldo assustador estimado em 162.000 mortes, Assad – no poder há 14 anos, herdeiro de um cargo que seu próprio pai ocupou por mais de 30 – deve permanecer como líder do país por mais sete anos, em um processo que parece apenas artificialmente indicar a liberdade de um povo em lutar por mudanças políticas.

Na semana passada, as eleições nas Embaixadas da Síria pelo mundo indicaram importante participação popular, porém com indicativos preocupantes de manipulação, especialmente em meio aos refugiados nos países vizinhos. Nos Estados Unidos, na França e em uma série de outros países, as votações sequer foram permitidas.

Em Brasília, por sua vez, as eleições transcorreram em clima festivo (fotos), reunindo a comunidade síria local com o intuito do voto e da confraternização. Não se pode negar que o fato de que os sírios tenham a possibilidade de votar em três candidatos diferentes (e não apenas responder sim ou não em um plebiscito) por si só não deixa de ser importante.

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Contudo, inocência seria acreditar que os dois novos candidatos possuem iguais possibilidades de vencer uma disputa com aquele que estampa quadros e faixas, reprimindo as forças rebeldes (!), mas tornando cada dia mais complexa a evolução de uma crise regional que se alastra há três anos, ainda sem perspectiva de ser encerrada. Contradições que persistem em um país cujos anseios por paz e democracia contrastam com a dura realidade de uma guerra civil.

Nesta disputa síria, só nos resta esperar que, muito em breve, possamos nos referir a batalhas apenas eleitorais com um candidato vitorioso cuja missão venha a promover a paz e a reconciliação neste mandato que se iniciará.

[ATUALIZAÇÃO: E não houve surpresa na confirmação da vitória de Bashar al-Assad para seu terceiro mandato consecutivo, eleito com 88,7% dos votos (alcançados, não por acaso, apenas nas áreas sob controle do governo…). Sob a alegação de que as eleições foram ilegítimas, a oposição argumenta que a luta contra o regime deve continuar, em um cenário trágico de conflito, disputa política e convulsão social completa.]


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Somos todos humanos

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post racismo

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Se a Declaração Universal dos Direitos do Homem fosse respeitada por todos aqueles a quem ela se refere, certamente não teríamos tantos casos de racismo sendo noticiados na mídia internacional ainda hoje.

Às vésperas do maior evento do futebol mundial, temos visto uma série de manifestações racistas no esporte, gerando debate sobre um tema que não deveria nem mais entrar na pauta, já que distinção alguma existe (ou deveria existir) entre os seres humanos.

O jogador da seleção brasileira Daniel Alves, ao comer uma banana que lhe foi lançada em campo durante o importante torneio de futebol espanhol, provocou uma polêmica reação liderada por Neymar (a partir de uma ação de uma agência de publicidade, vale registrar) em que o lema “#somostodosmacacos” rapidamente causou grande repercussão nas redes sociais.

O que aconteceu com Daniel Alves não representa um caso isolado no esporte, mas, muito pelo contrário, infelizmente – e não apenas no futebol – casos semelhantes têm acontecido com frequência no Brasil e no mundo inteiro.

Fato é que o esporte tem um poder de mobilização talvez muito maior que qualquer outra área, e que racismo não é uma problemática que se restringe às quadras e campos, mas que ainda aflige especialmente os mais vulneráveis espaços da sociedade. Merece, portanto, ser combatido não apenas com frases em redes sociais, mas também e principalmente por ações no dia-a-dia.

Em situação internacional emblemática essa semana, a ministra francesa da Justiça não cantou o “A Marselhesa”, o tradicional hino da França, em cerimônia de comemoração da abolição da escravidão no país. A polêmica se alastrou devido à frase do refrão do hino em que se entoa “nossa terra do sangue impuro se saciará”, em alusão às lutas contra exércitos estrangeiros…

Independentemente da situação, vemos que a questão racial ainda persiste como uma fonte de rancor, violência e distinções na sociedade. Campanhas publicitárias representam apenas estratégias para uma reflexão que precisa ser intrínseca a todas e a cada uma das pessoas para que a raça deixe de se tornar critério, razão ou fundamento de qualquer ação ou discussão. Acima de tudo, somos todos humanos.


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Direitos on-line

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Marco Civil
Hoje, uma forma interessante de avaliar nossa vida pode ser dividi-la em dois momentos diferentes: on-line e off-line. No seio de uma sociedade em que estamos cada vez mais conectados e com as ferramentas da internet se ampliando e se tornando mais acessíveis, o debate sobre os direitos e deveres no mundo on-line não pode ser evitado.

A recente polêmica envolvendo Snowden e as denúncias de espionagem norte-americana impulsionou no Brasil a urgência em relação a uma preocupação antiga envolvendo a regulamentação no cenário virtual. Nessa semana, marcos importantes para o país foram registrados. Com a proximidade do “Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet” ou simplesmente “NetMundial”, um seminário internacional previsto para os dias 23 e 24 de abril em São Paulo, as discussões sobre o inédito Marco Civil da Internet se tornaram, não por acaso, urgentes em Brasília.

Se os direitos e deveres dos cidadãos em sua vida off-line são regidos pela Constituição Federal, o Marco Civil pretende ser, para a vida on-line, também uma “carta de direitos e obrigações”. Pioneira no Brasil e no mundo, a iniciativa problematiza uma questão recorrente e global acerca da necessidade de regulamentação deste território de inesgotáveis possibilidades.

O projeto de lei foi sancionado pela presidenta Dilma na abertura do evento, demonstrando que o tema do combate à espionagem se tornou de fato uma prioridade de seu governo nos últimos meses, e tramitou em regime de urgência para aprovação “em tempo recorde” (foto) pelo Senado, a tempo de ser celebrado durante o “NetMundial”.

Criticado, em certa medida, por ativistas que consideraram que a minuta do texto de lei foi suavizada em sua versão aprovada, temendo pela proteção dos direitos humanos, o texto versa, essencialmente sobre os seguintes temas: neutralidade, privacidade, qualidade do serviço, exclusão de conteúdo e armazenamento de dados (lei o texto completo aqui). Após sua publicação realizada essa semana no Diário Oficial, a lei entrará em vigor daqui a dois meses.

Os dois dias de discussão do evento culminaram também em um documento inédito com recomendações sobre os princípios de governança da internet e as perspectivas futuras para a evolução na governança desse ecossistema virtual, a partir das contribuições de mais de 90 países participantes do evento (leia o documento completo, em inglês, aqui).

Certamente, discutir a temática dos direitos humanos no cenário virtual não é um tema simples e que se esgotaria em dois dias de evento. Pelo contrário, o seminário foi considerado apenas um pouco de partida, cujos resultados talvez tenham sido superestimados, mas cujo potencial não pode deixar de ser notado.

Nos próximos meses, poderemos entender na prática como o novo marco influenciará as nossas vidas enquanto cidadãos brasileiros e de que forma este possa vir a ser aperfeiçoado, porém o que já está mais do que claro é que o território virtual não é mais desconhecido, mas sim objeto importante de muitos debates para a garantia dos nossos direitos on-line…


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Imagem da Semana

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Putin anexa Crimeia
E a imagem da semana não poderia deixar de ser o registro do momento em que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sancionou a legislação para completar o processo de anexação da península da Crimeia.

Apesar de essa atitude ser absolutamente condenada pelos líderes ocidentais, Putin respalda-se no resultado do referendo realizado no último domingo, 16 de março. Mais de 90% da população, de origem russa, votou favoravelmente à anexação da região à Rússia. Desde 1954 como território ucraniano, a Crimeia, nos termos da legislação russa, agora se encontra sob a responsabilidade de Putin…

Sanções, conflitos e tensão política ainda farão com que o caso se alastre no cenário internacional com repercussão ainda imprevisível. Totalmente previsível, contudo, é o retrato mais uma vez pintado das contradições onusianas em um Conselho de Segurança condicionado ao poder de veto de seus membros permanentes, dentre os quais… a Rússia.