Pela liberdade

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O que mais os países são capazes de realizar pela liberdade? Guerras, restrições de manifestações pacíficas, limitação de liberdade religiosa, intervenções internacionais? Muito já parece ter sido contemplado. O tempo passa e as motivações encontram-se com as práticas e mostram contradições daquilo que se pode fazer pela liberdade, pelo “livre-desenvolvimento” de algum princípio ou valor cultural que se defenda.

A questão é que atualmente temos nos deparado com situações no mundo que são difíceis de lidar. Desde as intervenções humanitárias desumanas (para mais sobre isso clique aqui) no mundo árabe às proibições de véus para proteger a liberdade e a segurança de grupos. Como o primeiro já foi bem tratado no blog, vamos ficar no segundo caso. A França consolidou a proibição de diversos véus islâmicos. A burca e o niqab (para entender a diferença clique aqui) foram os principais atingidos. Acusados de atentar contra a liberdade das mulheres e seus direitos, de representar uma ameaça por esconder o rosto da pessoa que os usa e coibir o livre-desenvolvimento da cultura francesa, as manifestações culturais foram suprimidas e já reprimidas.

Mas podem argumentar, como Gilles Lapounge em artigo para O Estado de S. Paulo, que muitas mulheres passaram a usá-lo somente após as discussões sobre a proibição emergirem. E outra, a França é um país laico e manifestações religiosas fora de templos não podem ser permitidas. Ora, essa é uma discussão que se estendia desde a década de 1980, quando entendia-se que manifestar religião em escolas e tentar converter outros alunos seria condenado.

Culminou, em 2004, com o então primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, afirmando que o uso de véus islâmicos em escolas públicas seriam afrontas aos ideais de igualdade e fraternidade franceses (clique aqui para um artigo interessante sobre o tema). Alguma semelhança com o que está ocorrendo hoje? O problema é que a defesa da liberdade pela supressão de outra não se justifica. Ser laico suprimindo toda e qualquer manifestação religiosa também não. Segundo Lapounge se cristãos ou budistas utilizassem máscaras na rua que encobrissem seus rostos também seriam multados. A questão é que essas religiões não fazem uso de vestimentas que encobrem o rosto e parece claro um atentado contra um grupo que não representa nem 6% da população.

Muitos já afirmavam que a globalização tem seu lado perverso. Miscigenação e pluralidade não afrontam identidades nacionais nem culturais. Mas parece que muitos povos percebem ao contrário e materializam a perversidade globalizatória. Por isso, volto a perguntar. O que mais os países são capazes de fazer pela liberdade?


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Uma breve reflexão sobre a violência

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Aproveitando o post de ontem do Álvaro, bem como o recém-divulgado Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2011, cujo subtítulo é “Conflito, segurança e desenvolvimento”, comentemos este fenômeno da escalada da violência em nível mundial, que excede propriamente os “tiros em Columbine”, Realengo ou Alphen aan den Rijn. Notadamente, o que chama a atenção de tal fenômeno é a diminuição de guerras entre países ou guerras civis em detrimento da elevação da criminalidade – com as gangues e o narcotráfico –, dos distúrbios econômicos e do terrorismo. O perigo pode estar mais próximo.

Dessa forma, segundo o relatório, 25% da população mundial estaria vivendo sob conflito. Mesmo sem empregar uma definição muito clara de conflito, esse dado é bastante chamativo: um em cada quatro habitantes do planeta está inseguro, muitas vezes, até sem saber por que. Se todos os caminhos um dia levavam a Roma, hoje pode levar ao cemitério mais próximo. Vive-se do medo, tão real quanto imaginário, tão imaginário quanto real…

Outro ponto fundamental é que nenhum dos países que se encontra em situação de conflito, especialmente na África, alcançou sequer um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Ao todo, são oito metas “ambiciosas” da ONU para corrigir os principais problemas do mundo, que vão da eliminação da fome e pobreza até o estabelecimento de uma parceria mundial pelo desenvolvimento. Ademais, ressalta-se que há uma correlação entre conflito e desenvolvimento econômico: estima-se que a recuperação econômica pós-conflito leva em média 30 anos. Esse um quarto da população mundial está condenada a pelo menos 30 anos de atraso; 2015 foi o ano estipulado para o cumprimento dos ODM.

A solução que o relatório apresenta é que “o fortalecimento da governança e instituições legítimas para fornecer segurança cidadã, justiça e empregos é crucial para quebrar os ciclos de violência.” Parece óbvia essa solução, não fosse a distância que há entre a sua proposição e a sua real implementação. Distância esta resumida em duas perguntas: como fazer? E quem faz?

Desnecessário dizer que a incerteza é muito maior hoje do que na Guerra Fria, mesmo que ameaça da destruição do mundo se fizesse valer pelo terror das armas nucleares. Não sabemos como nossas vidas podem ser abreviadas. De repente, numa escola, um imbecil resolve abrir fogo, com uma arma ilegal, de um comércio ilegal, que gera riqueza ilegal, produz mortes ilegais. Tornarmo-nos mais próximos, em decorrência da globalização, também nos tornou mais estranhos. Os Estados, edificados sobre o alicerce da segurança, vêem cada vez mais diminuída a sua capacidade de oferecer proteção. Sem proteger os seus cidadãos, acabam também incapazes de lhes oferecer bem-estar.

É difícil viver em conflito, sem conhecer, muitas vezes, o inimigo, a ameaça, o protetor e a solução.


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Vai e vem

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Não poderíamos deixar de comentar sobre o assunto do momento, o inacreditável ataque à escola no Rio de Janeiro está mobilizando a mídia. Isso por que, como sempre, vamos dar o enfoque internacional à questão. A chacina desse atirador maluco pode lembrar desse tipo de massacre em outros países, e não apenas no celeiro dos serial killers, os EUA – nesse fim de semana mesmo ocorreu algo parecido em um shopping center na Holanda. Mas o foco é, na verdade, o tráfico de armas leves, em que o Brasil é um dos protagonistas mundiais.


Poderíamos entrar nos méritos do desarmamento doméstico – não deixa de ser uma medida importante (como uma pesquisa apontou, o controle da circulação de armas irregulares tem relação direta com a diminuição de assassinatos, na proporção de 18 para 1), mas o problema maior ainda é o tráfico ilegal de armas. Boa parte dessas são desviadas do comércio legalizado (há, inclusive, relatos de criminosos que se filiam como caçadores e esportistas para facilitar esse desvio), mas a maioria certamente vem do exterior através das nossas fronteiras pouco vigiadas. A grande ironia, no caso, é que grande parte dessas armas e (especialmente) munições que adentram o país tem origem… no próprio Brasil!


Não somos os maiores compradores de armas do mundo (esse mérito é da Índia atualmente), mas estamos entre os 10 maiores produtores e exportadores de munição e peças. A sacada é que vendemos esses “insumos” para o exterior (EUA e Europa) e eles retornam ilegalmente pela América do Sul. É um mercado bilionário, em que se destacam países “bonzinhos”, sem muita fama de militarização (como Bélgica, Espanha e Áustria), mas é a causa de cerca de 90% das mortes violentas entre civis pelo mundo. E são relações em que a relação pragmática entre comprador e vendedor é mantida até as últimas conseqüências. O caso mais recente e emblemático disso é a Líbia – o grupinho de amigos europeu que agora está às turras com Kadafi vendia boa parte das armas que ele usava contra os civis até poucos dias antes de sair a resolução da ONU contra o ditador. Negócios, negócios, amigos à parte.

O massacre da semana passada foi uma das coisas mais chocantes que aconteceu no Brasil recente, mas é só um exemplo cruel de um problema que vitima o mundo todo (algo em torno de duzentas mil vítimas por ano). O controle desse comércio macabro existe, mas é pouco eficaz, especialmente na parte da reentrada no país, e por isso se torna uma das maiores ameaças (e desafios) à segurança no século XXI.

Dois relatórios interessantes sobre o tema aqui e aqui.


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"Belo Monte" de problemas

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Eis que um “Belo Monte” de problemas para o governo brasileiro vem à tona novamente nesta semana. Tudo porque a Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio do seu Conselho Internacional de Direitos Humanos (CIDH) divulgou uma nota oficial (veja o texto original aqui) pedindo a paralisação imediata das obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, iniciadas no último mês às margens do Rio Xingu, no Pará.

O principal argumento utilizado por esta Organização Internacional é a existência de prejuízo potencial no que se refere aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. Esse manifesto ocorre aproximadamente cinco meses após a denúncia formal feita por movimentos sociais, índios e camponeses que temem pelo ecossistema da região.

Entretanto, sabe-se que a discussão (e a polêmica) sobre Belo Monte não é recente. Remonta, de fato, à década de 1980, quando os primeiros projetos da usina foram divulgados. Após fortes manifestações contrárias de ambientalistas e comunidades indígenas, o projeto foi adiado e voltou à pauta apenas em 1994 com alterações notáveis (reduzindo a área a ser represada e, por consequência, seu impacto ambiental). Mesmo assim, os críticos consideram ainda hoje que os problemas ambientais advindos dessa obra permanecem enormes e não fazem valer o “custo-benefício” de sua construção.

Em números mais exatos, o custo financeiro da obra atinge a exorbitante casa dos aproximados 20 bilhões de reais – sem que se mencionem os inestimáveis custos sócio-ambientais. Em contrapartida, esta represa tem potencial para se tornar a terceira maior do mundo (e a maior do Brasil, já que Itaipu pertence também ao Paraguai), diversificando ainda mais a matriz energética do país e beneficiando a população em geral com o início de suas atividades – previsto, a princípio, para 2015.

Apesar da grande polêmica, as obras já estão em andamento no Pará e o Ministério das Relações Exteriores se posicionou oficialmente afirmando “perplexidade” diante deste (inesperado) impasse internacional. O ministro Patriota se utilizou de termos como “injustificável e precipitada” para caracterizar a nota oficial da OEA e expressar o descontentamento do Itamaraty. O governo afirma que foram feitos todos os estudos necessários a respeito do impacto das obras nos níveis social e ecológico, tendo as obras sido autorizadas por vários organismos que lidam com o controle de danos ao Meio Ambiente, tal como o Ibama, por exemplo.

Contudo, dados recentes apontam que 70% das obras para reduzir os impactos de Belo Monte ainda não começaram – sendo que as estatais e as construtoras responsáveis foram acertadas há um ano atrás. Trata-se de obras de infra-estrutura básica que poderão auxiliar as comunidades da região em que a usina se desenvolverá e minimizar as consequências negativas da construção. O que pensar diante dessa situação?

Parece existir uma nítida e infeliz contradição entre, de um lado, a preservação ambiental da região e a proteção dos povos indígenas; e, de outro, um projeto político histórico e a perspectiva de baixo custo na geração de energia elétrica para o país a longo prazo. Os argumentos de ambos os lados são amplamente defendidos, porém o necessário equilíbrio entre as partes parece estar longe de ser atingido. A única certeza é que um “Belo Monte” de questões políticas, sociais e ambientais são evidenciadas neste contexto – questões, aliás, muito mais complexas do que se pode imaginar à primeira vista…

[Vale esclarecer que esta nota emitida pela OEA não implica em nenhuma consequência prática de imediato para o Brasil. Porém, se porventura a justificativa brasileira não for aceita pela Comissão, o caso pode ser levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, a qual tem o poder de condenar o país e determinar sanções em geral.]


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"Dia de Ira"

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“O Brasil deplora veementemente todas as ações de discriminação e incitação ao ódio religioso que vêm ocorrendo em várias partes do mundo. Muitas vidas inocentes foram perdidas por causa da intolerância e da ignorância.”

A contundente declaração brasileira acima, proclamada no último dia 10 de março a respeito do tema ‘liberdade de religião e crenças’, por ocasião da 16ª reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, hoje pode ser considerada mais verdadeira que nunca.

Neste 01 de abril, foi registrado o pior ataque contra a ONU no Afeganistão desde 2001. Pode até parecer mentira, mas este ataque foi, na verdade, motivado por um ato polêmico de intolerantes pastores evangélicos norte-americanos – o que causou um “Dia de Ira” por parte de afegãos revoltados.

Na Flórida, há aproximadamente 20 dias, o pastor Wayne Sapp queimou uma cópia do Corão, o livro sagrado muçulmano em sua igreja, alegando que este é responsável por crimes diversos na sociedade atual. Sapp consumou a promessa do pastor Terry Jones que anunciou a “idéia” no aniversário dos atentados de 11 de setembro ano passado, mas não a concretizou após fortes críticas sociais. Nesta ocasião, até Obama se posicionou afirmando que a idéia do pastor deveria ser deixada de lado, na medida em que se mostrava contrária aos valores americanos de tolerância e liberdade religiosa.

Contudo, com a divulgação deste “feito norte-americano” na mídia nos últimos dias, a ira afegã foi atiçada, reforçando a triste máxima de que intolerância gera cada vez mais intolerância. Desta forma, nesta sexta-feira houve um dia de fortes protestos no país que culminou com a morte de cerca de vinte inocentes, sendo ao menos sete funcionários das Nações Unidas em Mazar-i-Sharif.

Infelizmente, nas Relações Internacionais atuais ainda existem desafios enormes no que tange à questão da tolerância religiosa. Esta idéia, discutida inclusive na última reunião Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, remete à perspectiva de respeito mútuo entre diferentes crenças e religiões, sempre prezando pela paz entre os povos.

É complicado determinar a culpa de uns ou outros nesta situação pontual apresentada. Aqueles que atearam fogo ao livro sagrado muçulmano nos Estados Unidos são tão culpados por tais mortes quanto aqueles que pegaram em armas no Afeganistão? A justiça e os órgãos competentes poderão julgar devidamente a questão, porém não se pode negar que o sangue dessas vidas inocentes hoje mancha o histórico de todos aqueles que desconhecem as noções de respeito e tolerância aos demais, em todas as instâncias possíveis. Assim evidencia-se, infelizmente, a violência e a discriminação em um cenário internacional que carece de diálogo e esperança de resolução pacífica dos conflitos e das diferenças em geral.

[A pergunta que fica é: até quando?]


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And the Oscar goes to…Chávez?

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Não, objetivo do post não é tratar da premiação do Oscar desse ano que já fora há algumas semanas. Tratamos de uma premiação assaz singular, a um líder também singular e por feitos em um campo ainda mais singular. Talvez esse seja um adjetivo adequado para tratar do prêmio dado ao presidente venezuelano, Hugo Chávez por suas contribuições à liberdade de imprensa. Um episódio que parece ser distante da realidade atual, tanto do país sede do prêmio quanto do chefe de Estado que o recebeu. Como se ambos tentassem garantir ao grande escritor e jornalista argentino, Rodolfo Walsh, uma caneta para traçar novos caminhos nas páginas da história sul-americana.

Se singularidade for um adjetivo adequado para o ocorrido, somos capazes de ver, até sem um grande esforço, algumas incongruências e incoerências no evento. Comecemos pelo prêmio e pelo vencedor. Essa é uma homenagem de telecomunicações garantida sempre a destaques ou àqueles com feitos memoráveis no campo. E não podemos dizer que entupir as cadeias nacionais com discursos presidenciais ou mover redes televisivas para a TV sejam formas muito claras de liberdades.

Ora, outra incoerência é o fato de o prêmio ser garantido a Chávez na Argentina, um país que atualmente não é um grande exemplo da liberdade de imprensa. Apesar de ser concedido por uma universidade, a Faculdade de Jornalismo e Ciência da Comunicação (UNLP), e não pelo governo, o simples fato de ocorrer em território argentino é representativo. É bom lembrar que no domingo, o jornal O Clarín (principal crítico do governo) não circulou no país por uma manifestação do sindicato dos caminhoneiros na garagem do jornal.

Como no Brasil, na Argentina, os sindicatos são ligados ao governo e os líderes sindicais são funcionários públicos como quaisquer outros. O que sugere alguns questionamentos sobre se eles tinham o aval do governo para agir dessa forma. Bom, as dúvidas a parte sobre a participação de Cristina Kirchner apenas aumentam essa incongruência.

Bom, todos sabemos que seria muito difícil para uma personalidade como o líder venezuelano não causar uma polêmica sequer em seu giro pela América do Sul. Pode ser que Chávez talvez merecesse mais. Poderia muito bem ganhar um Oscar por sua atuação nesse filme, passado em um território onde a imprensa não está lá com muita bola e no qual o prêmio com o nome de um questionador de censuras e autoritarismos é dado a um líder que pratica, no mínimo, um desses dos dois delitos. É de se pensar…


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O preço da liberdade?

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Antes de liberdade e igualdade, poderíamos ter pão e carne?

As revoltas no mundo árabe continuam dando corda para o noticiário internacional. Nessa última semana, com o aval do CS da ONU, países aliados encabeçados por França, Reino Unido e EUA passaram a fazer valer uma “no-fly zone” na Líbia, para evitar que Kadafi continuasse a massacrar os insurgentes (e civis) com aeronaves. Até onde se sabe, parece que sua força aérea já foi, se não destruída, enfraquecida o suficiente para garantir a segurança dos cidadãos.

Ora, chegamos ao ponto principal dessa revolta – e de todas as que andam acontecendo na região: são marcadas pela participação popular, de variados modos, mas o que se pode esperar de suas conseqüências para o povo? Afinal, mais do que derrubar ditadores e instaurar a democracia, os seus protagonistas estarão sendo contemplados?

No Egito e Tunísia, onde o furor já passou, a coisa não parece muito melhor – o Egito tem um momentâneo (e, quem sabe, contínuo?) poder castrense, enquanto na Tunísia houve uma divisão de poder entre partidos incluindo antigos aliados do ditador deposto. Já na Líbia, apesar do que possa parecer, os países aliados não estão atacando para derrubar Kadafi ou coisa parecida – e nem podem fazer isso! Apenas estão cumprido uma vaga resolução da ONU para proteger a população de seu próprio governante. Ou seja, estão dizendo que quem deve fazer o trabalho são os próprios líbios. Se vai dar certo ou não? Mistério. O que importa é que líbios continuam morrendo diariamente (pelas tropas de Kadafi? Ou mesmo pelas bombas ocidentais?).

A coisa está pior em outros países da região, como no Iêmen. Lá, o presidente teve de destituir partes do governo e perdeu apoio de generais e outros políticos após o massacre de civis em protestos. Se a perda de vidas nesses processos de democratização acaba sendo inevitável nesse contexto de choque, o problema é não ter a certeza de que o resultado final atingirá os objetivos esperados pelo povo.

Os protestos continuam, na Síria, Iêmen, Bahrein e outros países. A violência, também. Com a incerteza dos resultados nos casos de “sucesso” e a aparente falta de evolução nos que estão ocorrendo agora, o futuro dessas revoluções é, no mínimo, nebuloso, e não se tem nem democracia, nem melhora de condições em um horizonte próximo para esses povos. Seria exagero se pergutar se não seria um preço muito alto pela democracia?


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Energia nuclear em questão

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“A energia nuclear é uma forma boa, limpa e segura de se gerar energia, e pode ser usada em larga escala”. Esta é a opinião do cientista James Lovelock, famoso por polemizar em seu meio a respeito da geração de energia a partir de fontes nucleares. Em certa medida, seus argumentos são válidos e defendidos por muitos, já que a energia nuclear efetivamente não gera gases de efeito estufa, não compromete áreas de reservas naturais e demonstra um potencial financeiro e científico elevado para que o enriquecimento de urânio ocorra.

Contudo, esta discussão vem à tona no momento em que um dos principais efeitos negativos da geração de energia nuclear é visível após os desastres naturais que assolaram o Japão: a contaminação radioativa. Os níveis de radiação estão comprovadamente altos em um raio de 30 quilômetros da usina de Fukushima Daiichi, no Japão. O terremoto da semana passada danificou os reatores dessa usina, cuja responsabilidade é da empresa Tokyo Electric Power Co.

A situação, que já constitui um cenário de crise nuclear, se encontra no nível cinco de uma escala internacional de risco (o nível sete é o máximo, alcançado no caso de Chernobyl, em 1986). Jatos d’água estão sendo lançados nos reatores para resfriá-los, evitando que a disseminação das partículas radioativas se intensifique na localidade; porém, a opção de enterrar esses reatores está sendo cogitada pela primeira vez, demonstrando a gravidade da situação.

Este contexto remonta a um questionamento básico: a geração de energia nuclear compensa os riscos de sua implementação? Sabe-se, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – órgão da ONU que fiscaliza questões relativas à tecnologia nuclear – que aproximadamente 14% da energia gerada no mundo é nuclear, constituindo-se esta na terceira maior fonte energética existente (e o Japão é um dos países que possui o maior número de reatores, depois dos Estados Unidos e da França).

Além da preocupação com a produtividade energética em si, pode-se argumentar que, muitas vezes, os Estados prezam pela energia nuclear (a despeito de outros tipos renováveis/não-poluentes de geração de energia) ao avaliarem aspectos político-estratégicos nas Relações Internacionais. Com vistas à ampliação de seu poder relativo e ao seu crescimento em termos de influência no cenário inter-estatal, investimentos financeiros altíssimos são direcionados à tecnologia nuclear.

Entretanto, desastres do porte deste ocorrido no Japão reforçam a necessidade de cautela e promovem o debate a respeito, sendo que a Europa já repensa investimentos nessa área – especialmente considerando a baixa aceitação da sociedade civil em geral neste âmbito. Assim, não fica tão difícil perceber o porquê de Lovelock ser considerado polêmico em sua acalorada defesa da geração de energia nuclear que, se por um lado pode ser “boa, limpa e segura”, por outro pode ser extremamente danosa em vários sentidos.


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Esqueceram de mim

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Em meio aos protestos que seguem no Oriente Médio, muitos acabam esquecendo ou deixando de lado outros assuntos também importantes. As grandes potências têm interesses estratégicos vinculados à chamada “primavera árabe”. Três palavras definem toda a preocupação recente: fornecimento de petróleo. Enquanto uns temem, projetam cenários e discutem soluções plausíveis, outros respiram aliviados e agradecem. Pela primeira vez em dois anos o preço do petróleo ultrapassou os 100 dólares. Hugo Chávez possivelmente é umas das pessoas satisfeitas com o ritmo de oscilação atual da commodity.

Desde que assumiu a presidência na Venezuela, Chávez adotou como política a nacionalização de empresas; o aparelhamento de empresas estatais por seus aliados; e o cerceamento ao setor corporativo no país. Uma das conseqüências foi a diminuição da produção de petróleo pela empresa estatal PDVSA, de 3.3 bilhões de barris/dia em 1998 passando a 2.25 barris/dia na atualidade. Desta produção, quase metade é subsidiada para o consumo interno ou em exportações à aliados regionais. Sobra pouco para a exportação baseada nos preços internacionais.

No campo político, o mandatário venezuelano também buscou ancorar-se em medidas para aumentar seu poder, limitando a atuação do legislativo e do judiciário. Até mesmo o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) criticou a última movimentação arquitetada por Chávez junto ao Congresso, na qual aprovou uma série de medidas em seu favor antes que os novos congressistas assumissem seus respectivos postos. Há ainda, passando para o campo econômico, uma aberta conivência com um mercado paralelo para a venda de dólares acima da taxa estabelecida pelo governo, o comprometimento de parte da produção petrolífera para o abatimento de um empréstimo com a China, somado ainda a recessão econômica (estimada em -2,5% para 2011) e uma inflação galopante (na casa dos 40%).

De acordo com a consultoria britânica em macroeconomia Capital Economics, há um risco crescente da Venezuela não ter suficiente capital para cobrir suas obrigações financeiras já em 2012. O cenário, nesse sentido, seria sombrio para a Venezuela e seus credores com o risco de insolvência em um dos maiores produtores mundiais de petróleo. Nada que faça Chávez diminuir o tom, ser cauteloso ou pelo menos fingir que se importa mais com a opinião de seus opositores. O aumento dos preços do petróleo nos mercados internacionais vem como um fator externo que faz Chávez ganhar mais espaço de manobra. Talvez não dure muito, porém definitivamente a instabilidade no Mundo Árabe, até o momento, fez um vencedor indireto.

Apesar de todo o cenário econômico adverso, foi dado seguimento à política interna. Cresce a polêmica em torno dos presos políticos e quanto ao (des)respeito aos Direitos Humanos no país. A América Latina não representa a evolução política ante a ruptura, o desenvolvimento econômico e a democracia estável ante a instabilidade política e a volatilidade financeira? Parece que a Venezuela segue a passos largos no caminho contrário. A OEA já se posicionou, Chávez prefere seguir afirmando que o organismo funciona como um instrumento do imperialismo americano.

Quando sofreu a tentativa de golpe de 2002, Chávez tinha uma visão um pouco diferente da OEA, a mesma que trabalhou como intermediária entre o presidente e sua oposição na ocasião. Se há duas coisas que incitam o povo à revolta, a fome e a opressão, é melhor o Chávez abrir o olho. O sentimento é cada vez maior que o segundo critério se aproxima se de ser cumprido, faltaria o primeiro. Ainda bem que os olhos estão voltados para o Oriente Médio. Melhor assim, ao menos para Chávez.

Fonte (charge)


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O que fazer?

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Bem, prosseguimos nossa análise das revoltas populares que estremecem o Oriente Médio e o norte da África. Parece que a bola da vez é a Líbia, do folclórico e nada sutil ditador Muamar Kadafi (aquele que governa há uns 40 anos e rasgou uma carta da ONU na própria Assembleia Geral da instituição) e que bem demonstra como devem se desenrolar os fatos nos demais países envoltos nesse turbilhão.

A cobertura dos fatos é ampla e assustadora. Como todos sabem, os protestos por toda a região não tardaram após o sucesso das revoltas no Egito e Tunísia. Contudo, a esperança dessas novidades enfrenta a dureza da realidade: infelizmente, os casos “exitosos” parecem ter dependido de uma situação muito específica, como a insatisfação dos militares com Mubarak. No caso da Líbia, o exército está nas mãos de Kadafi, e reage impiedosamente, com mais de 230 mortos. As coisas estão em um nível tão grave que muitos diplomatas líbios, escandalizados com a repressão violenta, deixaram seus cargos como forma de protesto, enquanto o caos impera, forças de segurança pública somem e a guerra civil é iminente.

Como muitos regimes autoritários ao redor, parece que infelizmente a vontade popular pode continuar sufocada pela força. No Iêmen, por exemplo, apesar de mesmo os clérigos muçulmanos exortarem aos militares que não usem a força, o presidente Ali Abdala Saleh deixou bem claro que se o povo quer mudanças, que o faça nas urnas e considera inadmissível a abdicação, e a polícia não poupa esforços para reprimir de modo cada vez mais contundente os protestos. No Bahrein, a demanda pelo fim da monarquia, disputa interna por melhores condições, atritos entre classes e revolta contra privilégios já causou 7 mortes e acabou adiando até mesmo a corrida de Formula 1 no país para o fim do ano (se for ocorrer). Não é impossível, logo, imaginar que esse pareça ser o destino da maioria dos países da região que estão sob regimes autoritários – ou poucas mudanças serão implementadas, como está planejado na Jordânia, mantendo-se o status quo, ou sem mudança alguma, com a manutenção do regime pela força.

Por fim, e para tornar o quadro mais sombrio, mesmo o Egito e a Tunísia enfrentam problemas após suas “revoluções”. Na Tunísia persiste o temor da permanência de aliados de Ben Ali no governo (o que seria mais do mesmo), enquanto no Egito ainda há protestos e a economia segue em queda livre. É muito cedo para taxar de “fracassos” esses casos, e a contínua esperança de um desenvolvimento democrático na região animaria até mesmo o processo de negociação de paz entre israelenses e palestinos. Mas restam estes desafios aos que ultrapassaram a barreira dos ditadores, e um longo caminho aos que mal começaram a empreitada. O que fazer?


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