Brasil: qual é o teu negócio?

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O clima era de expectativas em relação a essa sexta-feira. Após anos de discussões – acirradas especialmente nos últimos meses – eis que o comentado novo Código Florestal foi analisado pela Presidente Dilma e seus assessores diretos. O resultado? Uma tentativa de agradar (?) gregos e troianos, vetando alguns dos pontos mais polêmicos, mas mantendo boa parte ainda do texto original. [Veja aqui tabela ilustrativa com os principais pontos divulgados parcialmente hoje.] 

Em verdade, apenas no início da próxima semana será publicado o texto renovado (que volta ao Congresso para nova apreciação), de forma que os debates ainda estão em seu auge e muito diálogo entre todas as partes envolvidas ainda deverá acontecer antes que qualquer decisão final seja tomada. [Para maior detalhamento a respeito do conteúdo do Código, veja aqui e aqui textos já publicados no blog a respeito.] 

A temática, no entanto, reaviva discussões mais amplas – com as quais grande parte da população não está habituada a lidar cotidianamente. Manifestações por todo o país com os dizeres “Veta, Dilma!” foram comuns nos últimos dias, demonstrando a forma como o assunto alcançou atenção nacional, dada a possibilidade de retrocesso com a qual estamos lidando em relação às políticas ambientais. Relembrando Cazuza, é a hora de o Brasil mostrar sua cara… 

Às vésperas de uma Rio+20 que representa um marco absolutamente importante em termos de concertação para a proteção ao meio ambiental, discutir anistia a desmatadores da floresta amazônica parece, no mínimo, descabível. [Confira aqui os números mais recentes sobre o desmatamento brasileiro.] 

Em meio ao complexo lobby político em Brasília (com uma enorme bancada ruralista – que apóia o Código tal qual foi enviado à presidência sob a justificativa de proteger/impulsionar o agronegócio nacional), alcançar um “equilíbrio” nesta situação não é tarefa fácil. E talvez nem seja desejável, no sentido estrito do termo: seria mesmo cogitável acatar quaisquer medidas que nitidamente beneficiam um grupo econômico cujos enormes interesses são inversamente proporcionais à sua representatividade nacional? Qual será o negócio do Brasil, esta grande pátria (des)importante?

De fato, o que está em jogo é muito mais que um simples projeto de lei. Trata-se de um assunto sensível a toda a população nacional – e mesmo mundial. Assunto crucial para uma pátria tão rica, mas que, frequentemente, convive com comportamentos políticos tão empobrecedores. Será que, literalmente, em nenhum instante, iremos traí-la? 


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Mais do mesmo?

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Depois de quinze meses sem negociações, Irã e as grandes potências voltaram a negociar no mês passado e mais acirradamente nessa semana novamente. Tempo suficiente para que os Estados Unidos e a União Europeia ampliassem as sanções econômicas sobre o país pegando no calcanhar de Aquiles iraniano: o petróleo. Quando parecia que finalmente as potências tinham adquirido aquela moeda de troca que precisavam para os  bons resultados nas negociações, veio a nova rodada de conversas para mostrar que, em se tratando de questões geopolítico-estratégicas, nada é tão simples assim. 

Após uma semana de muito trabalho para o negociador-chefe do Irã para a questão nuclear, Saeed Jalili, somente os próximos meses indicarão o resultado que todas essas negociações levarão, já que vimos uma semana de “vai e volta” nas conversas. Logo no início da semana, a AIEA já tratava dos bons resultados que estava adquirindo nas suas negociações com Irã. O inédito acordo entre a organização e o governo dos aiatolás tem tudo para sair e, supostamente, ampliar o grau de confiança do país perante a comunidade internacional. Uma reunião mal acabou, e ele já estava em Bagdá negociando com a boyband das potências, também conhecida como P5+1. Se o acordo com AIEA trouxe bastantes expectativas positivas para a negociação, bastou começar o encontro para se ver que os quinze meses sem conversas não facilitaram tanto as coisas. 

O embate prossegue com os mesmos argumentos que se tinha durante as últimas conversas. O Irã reitera seu direito natural ao programa nuclear e o condomínio das potências exige que o país retorne seu enriquecimento aos níveis seguros de 5%. Já dissemos em outras oportunidades que sanções não são a via capaz de resolver contenciosos como esses. Todavia, não dá pra dizer que o excesso de medidas contra o Irã não têm surtido efeitos políticos catastróficos para a sociedade (sem também que haja efeitos para a economia mundial). O país está com alguns problemas para a exportação de petróleo, a aviação iraniana não é capaz de obter peças (tornando-a uma das mais perigosas do mundo), além de outros severos efeitos para a economia do país. Essa situação aliada ao risco de um potencial conflito Israel-Irã parece estar forçando o Irã e as potências de volta à mesa de negociações. 

A proposta do P5+1 segue a mesma forma daquele acordo construído com o Brasil e a Turquia que foi rejeitado em 2010. O Irã receberia o urânio já enriquecido para usar em suas instalações. Só que desta vez não seria um país em desenvolvimento com aspirações de grandeza, mas as grandes potências que conduziriam o processo. Já o governo iraniano mantém sua posição de continuar seu programa nuclear, mas ofereceria, em troca de reduções das sanções (clique aqui para conferir as principais sanções contra o país persa), maiores inspeções da AIEA. Resultado, negociações postergadas até junho, nenhum acordo

O cenário é complexo e o retorno das negociações em detrimento de simplesmente ampliar sanções (algo que os EUA fizeram no mesmo dia que a AIEA apontou que havia avanços nas conversas com o Irã) é uma via sempre profícua. As sanções têm surtido efeito sob a economia iraniana, mas não sem receios para a economia mundial. Não temos, entretanto, nada de novo ou nenhuma posição que já não se tinha há quinze meses. Enquanto as tensões geopolíticas entre os vizinhos no Oriente Médio aumentam, as conversas continuam no mesmo pé que sempre estiveram, os Estados Unidos inflexíveis e exigindo flexibilidade do Irã. Ao final das contas foi uma semana de “vai e volta”. Avanços com a AIEA e quase de volta à estaca zero com o P5+1.


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Meios, fins, crescimento e austeridade

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As vozes que têm ecoado na União Europeia nos últimos meses têm levado em conta dois elementos importantes da economia dos países. O crescimento e a austeridade. Ora, para alguns, esses são dois opostos e duas “alternativas” políticas. De um lado, investir mais nos países para tentar sair dessa zona de crescimento pífio; e de outro, cortar gastos para tentar estabilizar a economia. Até o início do mês passado a opção europeia já parecia traçada pelo FMI, Banco Central Europeu e o Fundo de Estabilidade Europeu, e a Alemanha (clique aqui, aqui e aqui, para diferentes visões sobre isso). Com os resultados não muito positivos nos últimos meses, as coisas parecem estar virando, e um debate tem vindo à tona.

Mas será que “crescimento” e “austeridade” são dois pólos ou duas opções políticas? 

Bom, não há economista ou estadista que não goste de crescimento. O político que for a frente da população e disser que defende a austeridade ao crescimento, provavelmente pode não sair de lá muito bem (clique aqui para uma cômica crônica portuguesa sobre isso). A questão é que austeridade não é um fim em si mesmo. É tida como uma forma possível de retomar esse crescimento e estabilidade do país. Não existe como oposição ao crescimento, mas como um meio para atingi-lo novamente. 

Já o “crescimento”, como se tem dito por aí, é um fim. O que os políticos defendem é uma forma oposta de abordar a crise, um meio diferente. No caso, com maior endividamento para o bloco e investimentos em setores-chave da economia. A ideia básica é fortalecer o Banco Europeu de Investimentos para tanto. No curto prazo, possibilitaria um crescimento muito maior e poderia gerar ferramentas para os países por si só saírem da crise, pela ampliação de empregos e investimento em setores como infra-estrutura e energias renováveis. Esse é um debate que o Brasil já está bastante acostumado. 

Durante a década de 1970, quando os preços do petróleo catapultaram, o governo enfrentou esse dilema. Investir em infra-estrutura e continuar a crescer ou ajustar-se a crise internacional. Escolheu a primeira, com benefícios para o país e grande ampliação da dívida externa. Claro que o contexto brasileiro da década de 1970 é muito diferente do momento que a Europa vive, mas há certo grau de semelhança no dilema de como sair da crise. 

A vitória de François Hollande nas eleições francesas é outro aspecto que traz força a uma busca de flexibilização do debate “austeridade-crescimento”. Hoje, não fosse o infortuito raio que atingiu seu avião, estaria conversando com a presidente alemã, Angela Merkel, sobre o futuro do plano de recuperação econômica europeia, em defesa de uma posição menos restritiva para as populações em crise. A incapacidade do governo grego de formar uma coalizão para governar (até já se considera a hipótese de sair da zona do euro) é outra manifestação das dificuldades políticas da opção defendida pela Alemanha. 

Esse debate nos é mostrado pela mídia de maneira mais complicada do que realmente é, crucificando uma opção, confundindo meios com fins e vice-versa. É preciso olhar um pouco mais a fundo para podermos avaliar as opções disponíveis. As próximas semanas ainda renderão muito pano pra manga. Que venham os próximos capítulos!

[Para mais sobre isso no blog, clique aqui e aqui


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 1]

[A Página Internacional inicia hoje uma série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Esta coletânea de dez textos semanais terá como objetivo problematizar temáticas diferenciadas no âmbito das Relações Internacionais, oferecendo aos leitores importantes elementos para impulsionar o debate e a reflexão. Este primeiro post traz como tema a diversidade sexual – assunto bastante atual, especialmente em meio às eleições norte-americanas. Nossos mais sinceros agradecimentos à Tamiris por essa contribuição voluntária e tão interessante ao blog: seus ótimos textos são sempre muito bem-vindos! Aproveitem a leitura!]

“Qualquer maneira de amor vale amar. 
Qualquer maneira de amor vale a pena.” 

Milton Nascimento (Paula e Bebeto) 

Em face à possibilidade de reeleição, o presidente Barack Obama se posicionou a favor da união homoafetiva, em declaração à ABC. O pronunciamento tem sido considerado um marco histórico na política dos Estados Unidos, uma vez que nenhum outro representante político assim o havia feito. Para além das fronteiras americanas, François Hollande – candidato francês eleito à presidência – também se pôs a favor da união entre casais do mesmo sexo, exaltando em sua campanha as liberdades individuais e a igualdade de direitos civis. Ao tomarem a questão para si, transcendendo a incorporação de novas demandas sociais, estes parecem enunciar uma nova era: a Era do Amor Livre. 

Nas últimas décadas o movimento em prol da diversidade sexual ampliou seus capilares: Holanda, Espanha, Bélgica, Suécia, Noruega, Islândia, Canadá, Portugal, e África do Sul são apenas exemplos de países nos quais há reconhecimento formal. A Argentina foi pioneira na América Latina e o Brasil teve aprovação unânime no Supremo Tribunal Federal em 2011, tornando a regulamentação da união estável mais abrangente. Embora haja avanços neste sentido, há países em que a questão antecede o não reconhecimento legal: a homossexualidade é criminalizada – em alguns deles com previsão de pena de morte –, esbarrando numa série de questões culturais, sociais e religiosas. 

Ainda assim, parecemos caminhar à ressignificação das relações humanas, agora estendida ao ambiente político. Seria ingênuo considerar que a retórica eleitoral eloquente apropriada pelos agentes do Estado e os avanços legais mencionados significarão o fim das desigualdades sexuais, tão pouco a construção de um amor libertário. Há muito a se fazer. Indicam, contudo, a mudança no imaginário social, no qual as relações “livres, leves e soltas” começam a ganhar espaço. Antes de se tratar da igualdade de direitos a caminho da universalização (e, então, da humanização), é também um movimento em consonância à complexidade de um mundo formatado por relações “pluri”, “multi” e “inter” – e outras coisas mais. 

Nota: o amor livre ao qual nos referimos pouco tem a ver com a conotação promíscua, que geralmente (e erroneamente) lhe é atribuída, ou daquela que rejeita quaisquer interferências nos modelos de relação, como a religião e o Estado o fariam. Referimo-nos ao movimento contrário à institucionalização das relações afetivas em formas rígidas e envelhecidas, que não admitem a nova realidade social que se figura. 


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A saga continua…

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E continua a saga das eleições presidenciais no Egito. Passado mais de um ano após a renúncia de Hosni Mubarak, o país ainda encontra-se sob os auspícios das Forças Armadas. Desde as eleições parlamentares, começaram a ser realizadas no final de novembro e estenderam-se até o início de março, que a situação não anda lá muito bem (para mais sobre esse tema no blog, clique aqui e aqui)

De protestos em protestos, caminhamos para outro embate violento entre os militares e a população na última sexta-feira. Tudo começou no dia 02, quando manifestantes islâmicos acampavam a frente do ministério da Defesa e foram surpreendidos por agitadores que atentaram contra eles violentamente. A demora de ação da polícia e dos militares levou a população a questionar se, como no violento jogo de futebol no início de fevereiro, o governo não teria algum envolvimento. 

Assim, a odisseia tem chegado a momentos decisivos. Acirraram-se os protestos contra os militares, para que o governo seja entregue aos civis o mais breve possível. No dia 04, novos manifestantes dentre eles membros da Irmandade Muçulmana, percorreram um longo trajeto, iniciado na emblemática “Praça Tahir” e concluído no ministério da Defesa, sob a exigência de um governo civil antes de Julho (prazo estipulado pelos militares). O resultado não foi lá muito positivo. O que se viu foi muita violência entre representantes das Forças Armadas, manifestantes e a polícia, resultando em 296 feridos, 170 presos, 3 dias de toque de recolher, 1 morto e o futuro do ideal de controle civil sobre os militares, incerto. 

Números desanimadores para um país recém saído de um regime autoritário e em busca da tão sonhada democracia. De um lado, os militares afirmam que se planejassem um golpe de Estado, já o teriam feito há tempos. Mesmo porque não chegariam até aqui para só um ano depois realizar o golpe. De outro, os civis acreditam que os militares já estão se acostumando com o poder e a violência com que tem reagido aos protestos pró-democracia seriam o maior exemplo disso. Não é a primeira vez e nem a última que veremos militares no poder com dificuldades de lidar com manifestações civis e demandas populares. 

Mesmo porque as doutrinas militares denotam justamente o oposto do questionamento e diálogo, a subordinação e respeito à ordem estabelecida. Até o momento tem-se seguido o cronograma de eleições fixado no ano passado (clique aqui para conferir novamente). Há até certa divisão da intenção de voto da população entre os candidatos, Amre Moussa (ex-secretário da Liga Árabe), Abdelmoneim Abdul Futuh (islamita moderado) e Mohammed Mursi (representante da Irmandade Muçulmana), e que, diga-se de passagem, mal sabem suas atribuições, pois ainda não há uma Constituição no país. 

O cenário é complexo e inusitado. A maior parte dos egípcios ainda vive a ansiedade de construção do país pós-revolução e, não sem fundamento, teme que não seja desenvolvido um arcabouço significativo de controle civil sobre os militares. Protestos são uma boa forma de testar os limites da democracia que a Junta Militar pretende implantar. O governo já fala de nova constituição antes mesmo do novo presidente assumir (já houve alguns avanços no parlamento). Será que buscarão limitar o poder dos chefes de Estado ou manter a autonomia militar? Muita água ainda irá rolar sob os desertos egípcios.


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União Europeia: o que vem pela frente?

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Há tempos em que tento escrever alguma coisa sobre a União Europeia (UE), mas as ideias nunca vão para o papel (ou para o blog, né, melhor dizendo). E até o presente momento não sei por onde começar e nem para onde ir, exatamente idêntico ao futuro do bloco. Sem rumo e sem futuro, talvez. Talvez, sim, porque começo este texto já dizendo: acredito piamente na UE e todos os outros processos de integração regional deveriam fazer o mesmo. 

Vamos por partes. Falarão que a Europa está falida, esburacada, sem pé nem cabeça. E isso é verdade…em partes. Em partes porque mesmo com a crise do euro e os altos índices de desemprego que, atualmente, estão na casa dos 10%, a região mantem-se unida, e o melhor exemplo disso é a anulação de qualquer desmembramento da UE. Muito pelo contrário, ela continuou a aderir novos membros. Croácia, Macedônia, Islândia e Turquia estão em processo de negociação, esta última é um caso à parte, mas o restante entrará na organização num futuro bem próximo. 

Falarão que qualquer bloco regional admite novos membros. Não é verdade, entretanto, isso é um fator crucial para qualquer processo de integração. Tiro este pensamento de um texto que li recentemente, de autoria de Philippe Schmitter, professor emérito do Instituto Universitário Europeu. Não é meu intuito ter um pensamento reducionista, contudo, tal autor detém umas ideias excelentes, embora seja, às vezes, um pouco eurocêntrico, chegando a afirmar que a única integração regional existe na Europa e, no restante do mundo, há somente cooperação regional. Inclusive, discordo totalmente desta afirmação, mas voltemos ao foco do texto. 

Falarão que a UE está chegando ao fim porque não existe mais identidade entre seus membros. E desde quando integração reside somente em identidade? Ela é fruto muito mais de interesses do que qualquer outra coisa. Se tomarmos teorias de integração regional, por exemplo, o Intergovernamentalismo neoliberal, ou até mesmo o Neofuncionalismo, veremos que o interesse do Estado e de outros atores não centrais está presente no cerne da questão. 

Falarão que a Alemanha e a França “mandam” na Europa. Não existe um único bloco regional no mundo em que todos os membros possuem igualdade econômica. Por isso mesmo, membros menos desenvolvidos almejam a integração para poder cooperar e arrecadar fundos para sustentar suas economias internas e, com isso, aumentar seus poderes de barganha. Mesmo assim, a liderança intra-bloco é extremamente necessária. Vão dizer que os Estados Unidos e o Brasil não fazem ou fizeram isso no NAFTA e no MERCOSUL, respectivamente? 

Falarão que a UE não conseguiu sustentar a formação de um órgão supranacional e que foi afetada por forças externas. E qual é o bloco regional que não sofre alterações e pressões vindas de fora? A Europa conseguiu fazer frente aos Estados Unidos e ao Japão na década de 1990 e, neste momento, nem sequer era fonte de crítica por parte da comunidade internacional. Somente agora, com a crise de sua moeda, as vozes voltaram-se contra o criador. 

Falarão, novamente, que a região está acabada e imersa em conflitos. Mas isso é da natureza de qualquer bloco regional. Ele é firmado, sim, num processo de construção da cooperação e da paz, contudo, os conflitos são possíveis e sempre acontecem. Neste caso, a crise econômica tomou o corpo de tudo e vem levando na mão o peso da união monetária. E falarão que a UE nunca imaginou passar por tamanhos problemas e concordo plenamente com isso. Só que devemos ter em mente que qualquer bloco regional não é um produto em si, somente um processo. Processo, este, que não sabemos para onde vai e nem que fim terá. Tomara que a UE não tenha fim, pois se eu fosse qualquer país ou governante que estivesse num bloco regional, teria meus receios de ver como está a Europa e como estaria a minha região em qualquer momento futuro. 

Acreditemos, pois, na reestruturação e na sobrevivência dos atuais 27 membros da União Europeia! Mesmo que seja por uma questão de fé ou de razão, em inúmeros casos, acordos e instituições, a Europa ainda deve ser tomada como exemplo. Por seus acertos e, principalmente, por seus erros. É assim que confio em uma nova UE, para não cometer as mesmas ignorâncias que realizou nos últimos anos. Mas isso é papo para outra conversa…


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De bobos e mentirosos

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Ontem foi o primeiro de abril. Na tradição original, é uma data em que celebra o “dia dos tolos”. A ideia é pregar peças nos incautos, e tem origem na Europa, quando houve a oficialização do 1º de Janeiro como início do ano-novo. Até então, em muitas partes da França isso ocorria em abril, e quando houve a mudança muita gente zombava dos desavisados. Algo como um tipo de rivalidade provinciana. Como isso descambou para um dia em que as pessoas atiravam peixes umas nas outras, é um mistério, mas da França a coisa ganhou o mundo e virou o “dia da mentira” em muitos lugares, inclusive no Brasil. 

É uma data relativamente universal, e se formos pensar, existe muita mentira (e tolos…) nas relações internacionais. Há as grandes mentiras, que mexem com países e causam guerras (lembram do Vietnã?). Hoje, por exemplo, completam-se 30 anos da Guerra das Falklands. E essa foi cheia de peças e tolices. A Argentina inventando um conflito para desviar a atenção da crise do regime militar, esperando o auxílio norte-americano (uma grande pegadinha do TIAR), ou a catástrofe militar que foi a campanha, enviando soldados inexperientes e comandantes incompetentes. 

Também há muitas mentiras (ou equívocos?), como o jogo de empurra-empurra diplomático. Ao pé da letra, a soberania é inglesa, por ocupação efetiva. Por outro, é algo escorado pela ocupação com força e uma “soberania” dos habitantes meio que artificial. Até eu que sou mais bobo quereria permanecer como súdito inglês em vez de uma república sul-americana relativamente instável. O fato é que ninguém tem uma resposta efetiva, os dois lados têm sua razão, e se a resposta fosse fácil a ONU não estaria recomendando o diálogo entre as partes pra resolver a pendenga. Quem é o bobo nessa história? Talvez quem fique se estressando com um assunto que muito provavelmente não vai causar um conflito armado tão cedo e que vai se arrastar ainda por muitas décadas de diplomacia. 

Mas também tem quem se aperte por conta das pequenas mentiras. Quem diria, por exemplo, que um plágio maroto na época em que defendia seu doutorado faria com que o presidente da Hungria, Pal Schmitt, tivesse que renunciar. A lógica é simples – se ele foi desonesto com idéias, quanto mais com o cargo mais importante do governo… Num momento em que o país tenta se recuperar da crise européia, são essas pequenas mentiras e segredos (pensem no caso Strauss-Khan, ou das festas animadas de Berlusconi) que perseguem e, num efeito cascata, mostram como o indivíduo tem sua cota de importância na vida internacional… 

Por mais que seja uma brincadeira, essa é uma data bastante significativa. Existem muitas mentiras que movimentam as relações internacionais. Ou meias-verdades. São poucas as vozes pela verdade absoluta, como o Wikileaks, que recebeu o prêmio de ser perseguido e fechado. Mas também existem muitos tolos, e a história certamente trata de desmascará-los com o tempo…


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O ciclo sem fim

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Há 70 anos, na França, partia o primeiro trem lotado de judeus rumo ao campo de concentração de Auschwitz. Era um período de guerra, e a Europa olhava aterrorizada para o avanço dos nazistas e da ideologia antissemita. Hoje, mais de 40 anos depois, ainda pode-se ouvir o ranger dos trilhos desse trem, que ainda manifesta suas tenebrosas assombrações materializadas na forma do antissemitismo na França (clique aqui para uma interessante entrevista sobre isso). Na semana passada já comentamos um pouco sobre isso, quando falamos de um atentado, no qual crianças judias foram brutalmente assassinadas no país. 

Mas ainda assim, uma dúvida corta esse agudo som e parece ecoar em um tom grave muito mais intenso. E essa pergunta é a do quanto o antissemitismo também não motiva a tal da “islamofobia”. Ainda mais em um contexto de “guerra ao terror”, em que se mistura também “terrorismo” com “islã”. A história prova que os árabes e os judeus não tiveram uma relação muito amigável. E mesmo, sabendo que essas duas “fobias” são muito ligadas, os líderes franceses não se mostram muito “ligados” nessa situação. Nicolas Sarkozy é um bom exemplo disso. Desde a política que criminaliza o uso da burca (já bem comentada no blog, aqui e aqui), passando pelas críticas à imigração no país em 2011, e desembocando até seus mais recentes atos após os atentados de Toulouse, ele parece disseminar ainda mais intolerância. 

Ontem mesmo, afirmou que proibiria a entrada na França para o de um dos mais polêmicos líderes xiitas da atualidade, Youssef al-Qaradawi. Por mais complicado que as declarações desse líder possam ser, é  um chefe religioso de renome. Há até quem o compare com o papa por opinar tanto em tantos temas diferentes. Al-Qaradawi atualmente reside no Qatar e tem até passaporte diplomático. Mesmo assim, o governo orientou o ministério do Interior a barrar sua entrada no país, considerando-o “persona non grata”. O presidente francês diz que não existe relação entre esse bloqueio e o atentado de Toulouse. Mas só não vê uma relação quem não quer. Ainda mais em um contexto no qual Sarkoky tem tentado ganhar votos radicalizando sobre o polêmico tema da imigração

O ódio contra os judeus é sim um problema muito disseminado mundo a fora, não tem como negar. O ódio contra o islã é outro. Mas, quando o governo cria políticas que intensificam ainda mais o ódio “a uma das partes” ou “em uma das partes”, é como se criasse um ciclo de vingança. A população vai assimilar ainda mais islã com antissemitismo, e, eventualmente, com imigração (apesar de o presidente dizer o contrário). E, assim, estimulam-se ainda mais radicais islâmicos ou quaisquer outros radicalismos. É um ciclo sem fim.


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Conselho pra uma região turblenta…

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E no Oriente Médio, as coisas estão fervendo com a crise da Síria, e agora com a briga de Israel com o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Só pra explicar, na semana passada o Conselho votou pela condenação da construção de assentamentos na Cisjordânia e Jerusalém ocidental, além do envio de uma equipe para investigar. Claro que o governo de Israel se sentiu ultrajado pela condenação e pela parcialidade do Conselho, e hoje rompeu com a organização, terminando qualquer cooperação que mantivesse e causando aquele estardalhaço de sempre. 

É interessante reparar nesse argumento da parcialidade. Todos sabem que ninguém é santo nessa história, e das 91 resoluções do órgão, 39 foram relativas a Israel, certamente não sem motivo. Mas quando reclamam do órgão ser tendencioso não podemos esquecer do ranço que esse órgão carrega. Isso por que herda uma “herança maldita” do antigo Comitê de Direitos Humanos da ONU (extinto em 2006 e substituído pelo atual Conselho), que já acolheu coisas bizarras como ser presidido pela Líbia. 

 O fato é que, no sistema ONU, a distribuição de cargos e vagas nas organizações meio que obedece a padrões de poder informais que premiam países mais “populares” ou influentes. É assim que notórios violadores de direitos humanos latino-americanos e africanos conseguiram ocupar cadeiras no órgão que velava pela defesa desses mesmos direitos, empacando as coisas. Além disso prevalece uma seletividade de temas, predominando aspectos políticos em vez de técnicos nas discussões e decisões. O caso de Israel é grave? Sim. Mas não deixa de transparecer um certo grau de interesse pela pressão política contra EUA (único que votou contra, diga-se de passagem) e Israel ao escolherem esse tema, enquanto crises mais graves como da Somália ou do Sudão estão aí. 

 Por outro lado, o Conselho é mais atuante que o finado Comitê, e está participando ativamente, por exemplo, do caso sírio. Mas como tudo que vem da ONU, é um órgão sem muito poder de agir pra valer, e no fim das contas, o rompimento não é tão grave assim em um terreno em que impera a retórica e a politicagem em vez da ação concreta. A maioria dos países que se abstiveram da votação justificaram que as investigações seriam apenas repetições de outros mecanismos e não mudariam nada na prática. Segue assim o mal-estar no cenário internacional, o crescente isolamento de Israel, e o drama dos que sofrem nesse jogo de atritos, de ambos os lados.


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O toque do novo Midas

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A internet é uma ferramenta fantástica. É capaz de reduzir distâncias, derrubar fronteiras e fornecer informação com uma velocidade impressionante. E, com a mesma força, pode ainda separar mais as pessoas, ampliar muros e substituir o conhecimento pela informação rápida. Como uma nova versão do rei Midas que, ao invés de transformar em ouro tudo o que toca, pode abrir um universo de novas possibilidades a tudo que entra na rede, enquanto também pode provocar a raiz da própria ruína. 

Um interessante exemplo da força desse nosso novo Midas, foi o vídeo produzido pela ONG (clique aqui para conferir) “Invisible Children” que gerou o maior bafafá (virou até matéria do Fantástico). Motivações muito nobres, disseminadas em uma velocidade impressionante e que, da mesma forma, traziam uma visão simples de uma situação extremamente complexa. Se você está lendo esse post hoje, quase duas semanas depois da divulgação do “viral”, provavelmente você já ouviu falar ou até mesmo chorou assistindo-o. 

O vídeo retrata a situação das crianças soldados em Uganda, utilizadas pelo líder da LRA (Exército de Resistência do Senhor), dos abusos do líder do movimento, Joseph Kony e das violações de direitos humanos. Para tentar solucionar o problema, urge todos que assistiram a participar da campanha para tornar Kony famoso e até mesmo contribuir com recursos para a organização. O objetivo seria pressionar os governantes para incluir os problemas de Uganda em sua agenda política e urgi-los a agir. 

A divulgação representa outro exemplo do ciclo “humanitari-ático” que a Bianca citou em seu último post. Da comoção, partir-se-ia para a ação. Mas, logo o nosso Midas virtual sente a frustração de suas habilidades. Se a comoção foi grande, a crítica também veio com a mesma força. As discussões sobre doações logo deram lugar a tentativas da organização de se justificar frente às denúncias de falta de auditoria dos gastos da ONG (clique aqui e aqui para ler as respostas da Invisble Children) e até mesmo de ações públicas, diga-se de passagem, bem estranhas, de um dos diretores e editor do vídeo, Jason Russell. 

Bom, mas será que tornar Kony famoso é o suficiente? 

Alguns afirmam que não. Dentre eles, parte da população que desaprovou o vídeo por ele não ter sido capaz de enfatizar alguns dos mais recentes e importantes problemas do país. Por exemplo, desde 2006 que Kony não se encontra mais em Uganda e a LRA migra entre o Sudão, Sudão do Sul, Congo e outros países da região. Então empreender esforços para capturá-lo seria tão importante quanto atentar para outros problemas mais essenciais do país, como o altíssimo nível de corrupção e as violações de direitos humanos empreendidas pelo próprio governo de Yoweri Museveni (que já caminha para seu 26º ano)? Será que empreendimentos militares seriam interessantes ou causariam as mesmas discussões que existem hoje a respeito da Síria? 

É tão difícil ditar o melhor caminho, quanto é fácil simplesmente atribuir juízo de valor às ações da “Invisible Children”. Como na história do rei Midas, ele precisou começar tocar as coisas para perceber as reais dificuldades de viver daquela forma. E com o campo da internet e das ONGs talvez funcione da mesma forma. Pelas críticas e diálogo, o novo Midas possa estar encontrando a sua água, aquilo que trará novos caminhos para ação e revelará os problemas dos anteriores.

[Para alguns artigos interessantes sobre o tema clique aqui, aqui]


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