Nada de novo na Síria

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Nunca falta o que se falar da Síria. Muito provavelmente por que essa é uma guerra que não vai terminar tão cedo – há pouco tempo, por exemplo, nem conseguiram manter um frágil cessar-fogo por conta de um feriado islâmico. E boa parte disso por culpa da desorganização dos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad, que sem unidade fragmentam a luta e se enfraquecem. Nessa semana, aliás, a oposição está se reunindo em Doha pra ver se consegue dar um jeito nisso. Muito improvável, diga-se de passagem, e o futuro do conflito parece cada vez mais prolongado. 

Na verdade, o que podemos pensar para o futuro? Acabou de se confirmar o que todo mundo já sabia: a Rússia vende armas para a Síria por conta de acordos da época da URSS. A justificativa é a de ajudar a proteger a Síria de ameaças externas – leia-se, EUA e amigos – e não de tomar parte de um dos lados. E por que a Síria estaria se sentindo ameaçada de intervenção? Justamente por usar essas armas contra os opositores. O ciclo se fecha e vai depender bastante do resultado das eleições nos EUA. Tem ainda o problema do conflito se espalhar, uma possibilidade cada vez mais real. A situação mais crítica é na Turquia, que já anda às turras com a Síria por conta dos refugiados e escaramuças na fronteira, e ainda mais com os problemas de atentados internos por conta do PKK (um grupo terrorista curdo), falta pouco para a coisa estourar. O Líbano seria a segunda pior opção, mas as rachaduras internas e o apoio da França parecem que vão esfriar essa possibilidade. 

Mas talvez o mais preocupante seja a notícia de que a fronteira de Israel estaria sendo visitada por tanques sírios. Pra quem não se lembra, Israel ficou com um território ao sul da Síria após a Guerra dos Seis Dias de 1967, e nesse fim de semana tanques sírios apareceram nessa zona desmilitarizada. Nada grave, mas traz duas perspectivas preocupantes. A primeira, de que “dê a louca” em alguma das facções de oposição (nunca se sabe o que se passa na cabeça de grupos tão variados), ou que Assad jogue por terra as negociações por causa da guerra civil e até resolva disputar novamente a posse da região. Trazer Israel pro samba significa a segunda preocupação, pois o país ainda está em guerra com a Síria, tecnicamente, e a negociação da posse das colinas é uma das barganhas de Israel para afastar a Síria de Irã e grupos hostis como o Hezbollah. Esse pessoal todo envolvido no conflito transforma um barril de pólvora numa bomba de napalm. E a depender do resultado das eleições dos EUA (ou não), isso traz o Tio Sam pra parada. E junto  acabarão vindo China e Rússia do outro lado. Imaginem só. 

O fato é que a oposição só vai negociar quando Assad sair, e isso não vai ocorrer tão cedo. Os lados vão continuar conversando por meio das balas, e o killscore desse jogo macabro batendo novos recordes, na casa de 36 mil mortos até o momento. Isso só na Síria – imaginem se a coisa se espalhar.


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Quem sair fecha a porta

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Quando falamos de política externa dos EUA na última década, todos estão cansados de dizer que eles tinham duas pedras de tropeço, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Enquanto Obama já conseguiu se livrar da primeira (mal e mal e deixando um abacaxi que mais parece um porco-espinho pra trás), ainda restam promessas e uma trilha de cadáveres na segunda. Mas não devemos esquecer que essa é uma empreitada em que os EUA não estão sozinhos – o Reino Unido e diversos países europeus estão envolvidos nesse consórcio da OTAN,e essa semana está havendo uma importante novidade pro desfecho desse conflito. 

Ou, pelo menos, pra fim da participação britânica nessa guerra. Segundo o secretário de Defesa, o país deve retirar boa parte dos soldados até 2013 e possivelmente a retirada total até 2014. Mais do que impopularidade, parece ser uma questão de custos: assim como na maioria dos países que não são os EUA, quando o dinheiro falta a primeira coisa que o governo faz é apertar o cinto e cortar gastos de defesa. E o Reino Unido está num ambiente nada favorável a manter aventuras na Ásia Central custeadas pelo contribuinte. 

Mas pesa sim o fator “popular”. Na última semana fuzileiros britânicos foram acusados de matar um inocente em combate. Não chegou a ser como o caso do americano que massacrou dezenas de civis, mas mostra como as tropas já chegaram àquele ponto em que existe uma pressão psicológica sobre os indivíduos, e uma notícia dessas não pega nada bem na maliciosa imprensa inglesa. Não está ajudando nada um escândalo envolvendo tráfico de influência por parte de ex-oficiais, que estariam favorecendo empresas em concessões para as forças armadas violando a legislação inglesa. Isso estourou deixando o governo com mais uma dor de cabeça financeira e midiática. 

Mais do que os gastos financeiros e em vidas humanas, fica a sensação de perplexidade com relação ao desfecho desse conflito. Se os EUA e amigos deixarem o Afeganistão, do modo como está, não apenas não vão ter removido completamente o Taleban (ideia original disso tudo) como deixarão um ambiente regional altamente instável. A coisa transbordou e agora se fortaleceu o Taleban no vizinho Paquistão, e a situação, se não parece pior do que era em 2001, não parece melhor. Pra se ter uma ideia, uma menina de 14 anos, defensora dos direitos das mulheres, virou alvo oficial do Taleban (com nota e tudo mais) e sofreu um atentado. Baleada, em estado grave, está finalmente sendo transferida, ironicamente, para a Grã-Bretanha. A saída dos principais atores ocidentais desse conflito não vai ser o fim dos combates ou da instabilidade. O veredito final sobre essa guerra vai ser mais fácil de emitir no futuro, mas é aparente o fracasso.


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A guerra sem glória

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O tema da moralidade, justiça e de ética para as guerras tem caminhado lado a lado com esses eventos na história. Não é de hoje que se discute isso e parece que a questão quase nunca vai perder sua polêmica e originalidade. Para muitos, como o famoso autor Michael Walzer, o limiar entre o argumento moral e o de interesse é muito tênue. Daí toda a dificuldade de se discutir questões subjetivas como ética e intenções nesses conflitos. 

A guerra do Afeganistão, por exemplo, foi muito discutida em seu aspecto moral. Aproveitou da fragilidade da população no contexto da tragédia do 11/09 para empreender uma missão estratégica em um país de importância geopolítica no Oriente Médio, contra um inimigo sem face, difícil de ser detectado e derrotado. Atualmente esse mesmo discurso parece desaparecer nos anos finais da guerra. Não há glória ao povo estadunidense, os soldados questionam a resiliência do Taliban e da Al Qaeda (clique aqui para um artigo sobre isso) e nem mesmo a população parece acreditar mais na causa. Aquela obrigação moral parecia se sustentar apenas em um contexto específico. 

Após 11 anos, o discurso desmorona e das palavras faz-se o silêncio. A disseminação do ódio contra os Estados Unidos nos países muçulmanos coloca-se como algo que reforça a perda de popularidade da guerra. Parece que, cada vez mais, aumenta o número de pessoas, tanto entre a população civil, quanto entre os militares que não entende mais essa guerra como necessária. A OTAN já havia refeito sua estratégia para suspender sua atuação no país e, agora, Obama retirou os 33 mil contingentes adicionais que enviou em 2010. Imaginava-se que, como foi na morte de Bin Laden, essa redução de soldados na região iria poder ser transformada em capital político para o “Obaminha paz e amor”. Bom, não foi dessa vez. Nem o presidente, nem o general responsável pelas tropas no país e nem mesmo o presidente afegão, Hamid Karzai, fizeram o anúncio. O comunicado emitido pelo secretário de Defesa, Leon Panetta, enquanto viaja à Nova Zelândia. Não que ele não seja uma autoridade importante, mas substituiu-se a possibilidade de se obter um capital político interessante, por um anúncio burocrático em low profile. 

Isso demonstra duas coisas. A primeira, como já dissemos, que o argumento moral dessa guerra já está dissolvido e o que resta é uma espécie de novo Vietnã. Com a diferença de que não há tantas mortes de americanos e nem vitória do outro lado; apenas sua não-derrota, que, para os grupos terroristas, já significa um duro golpe político ao Tio Sam. A segunda é que, não sem razão, o governo Obama e a OTAN estão morrendo de medo das reações dos países com grandes concentrações de muçulmanos. E essa onda de violência também escancara o estado frágil que essa guerra se encontra hoje, pois os ganhos de manter as tropas por lá, com a intensificação dos protestos antiamericanos no Afeganistão (e mundo afora) e de atentados contra militares na região, não parece exceder os custos. 

O argumento que sustenta essa guerra já se foi. O que resta é a luta de soldados que não compreendem a tamanha resiliência do inimigo e de governantes que não parecem querer comentar muito sobre o que tem se passado por lá. Em uma guerra sem glória, aceitar a derrota seria aceitar a limitação da política externa americana na região, algo que, certamente Obama não gostaria de fazer. Assim a guerra arrasta-se.



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11 anos depois do 11/09

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11 anos se passaram desde o fatídico 11 de setembro de 2001, a data que ficou eternizada na memória internacional como o dia em que o grande império estadunidense se viu abalado por uma ameaça até então desconhecida, o terrorismo. Ano após ano, homenagens às vítimas são feitas e a tragédia é relembrada, assim como são relembradas todas as suas consequências que marcaram a política internacional desta última década.

No dia de hoje, Obama (re)afirmou que as vítimas destes atentados nunca serão esquecidas. De fato, eterno deve ser o respeito à dor dos familiares daqueles que morreram sem saber que se tornariam parte de um momento assim histórico (infelizmente). Entretanto, um sábio pensamento de Benjamim Franklin pode nos proporcionar uma válida reflexão: “O esquecimento mata as injúrias. A vingança multiplica-as”…

Talvez seja tempo de esquecer um pouco. O que não significa desmerecer o acontecimento ou defender posições extremistas – de quaisquer que sejam os lados. Apenas esquecer, deixar um pouco de lado, olhar com outros olhos. E, forçosamente ou não, parece que este tem sido o tom para boa parte dos cidadãos dos Estados Unidos neste momento.

Diante do fenômeno da crise financeira e dos elevados índices de desemprego que têm assolado a população nos últimos tempos, a ameaça terrorista assume papel secundário no presente ano de eleições estadunidenses. A economia e o trabalho têm se mostrado aspectos muito mais sensíveis aos eleitores, evidenciando uma mudança de perspectiva – a qual não poderia nem ser imaginada há alguns poucos anos atrás.

Se seguirmos a filosofia de Franklin, ao esquecer podemos provocar o efeito pretendido pela vingança, liquidando as injúrias pela falta de importância que lhes conferimos. Talvez essa lógica não possa ser assim tão facilmente aplicada ao complexo cenário das relações internacionais, dadas as intricadas consequências derivadas do posicionamento de cada ator – especialmente quando se trata dos irmãos do norte.

Contudo, esta década parece estar sendo marcada por novos desafios, mesmo no que se refere ao gigante estadunidense. Esquecer ou, talvez melhor, reavaliar se torna uma necessidade, diante da qual a realidade se vê. Quantos 11 anos ainda serão necessários para que o 11/09 seja “esquecido”, no sentido mais respeitoso que se possa conferir ao termo, ainda é difícil prever, mas que durante esses 11 anos passados muitas coisas mudaram, ah, disso ninguém duvida.


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Fugir, para onde?

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Lembram do noticiário do Iraque no começo dos anos 2000? Era comum ler manchetes sobre massacres, atentados e dezenas (até centenas) de mortos por dia. E nesse início de década, esse papel é da Síria. Principalmente desde o final do ano passado, o leitor regular deve estar se acostumando com essas notícias de mortes causadas pela repressão (e, é claro, pelos revoltosos) no confronto atual mais sangrento fora da África (por que lá as coisas estão bem piores, é só lembrar do Congo ou da Somália). Mas, se a guerra do Iraque alterou bastante a geografia do poder na região, a da Síria é o elemento para o desastre completo. 

A causa disso tem um nome: refugiados. Não que eles sejam um problema em si (longe disso), mas o seu deslocamento é o que gera reações nos países vizinhos, e aqui mora o problema. Em uma região com governos instáveis ou população dividida, qualquer “desnível” na proporção de certa etnia ou grupo religioso é suficiente pra começar o caos. Até o momento, estima-se que quase 200 mil pessoas já fugiram do país, a maioria para a Turquia. O problema é que o governo turco já está gastando demais com os refugiados (o que nunca é bem visto pela população local) e já não tem mais espaço para acomodá-los. É o mesmo problema que a Jordânia enfrenta, mas numa escala ainda maior, sendo um país menor e com menos recursos, mas que proporcionalmente recebe muito mais refugiados. 

Mas a coisa fica séria mesmo é no Líbano. Primeiro, por que os refugiados estão sendo alocados na região da fronteira com a Síria, que não uma área das mais seguras. Segundo, o fervor político já atingiu a capital, Beirute, que está enfrentando conflitos isolados nos últimos tempos. E terceiro, o Líbano é um país essencialmente dividido. Alauitas, cristãos, sunitas, pró ou contra Assad, tem pra todo gosto. A chegada dos refugiados seria apenas uma faísca estourando um barril de pólvora. Chegou ao ponto de que a guerra da Síria já se espalhou pro Líbano, e não estourou apenas por que, ironicamente, é o Hezbollah (a força irregular que consegue lutar em pé de igualdade com o exército mais bem treinado do mundo, o de Israel) que, sendo  muito superior a todas as demais facções, faz com que os outros deixem de agir. Por enquanto. 

A coisa está tão feia que tem refugiados sírios fugindo até para o Iraque, de todos os lugares! Quando o Iraque está mais seguro que seu país, tem algo MUITO errado. E isso sem pensarmos nas consequências indiretas, como a mudança do poder regional, alianças, e o papel de Israel nisso tudo. Se os protestos no Oriente Médio começaram cheios de esperança em 2011, fica cada vez mais a sombra da tragédia sobre os seus resultados.


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Mais uma semana

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E lá se foi mais uma semana. Estou falando da 10ª Semana de Relações Internacionais realizada por docentes e discentes dos cursos de Relações Internacionais da UNESP dos campi de Franca e Marília. Para quem não sabe, as duas universidades possuem este curso e, em conjunto, realizam uma série de debates, palestras, mesas redondas, mini-cursos e apresentações de trabalho uma vez por ano. Comemorando uma dezena de encontros, o evento foi lotado na UNESP/Franca, na qual todos os colaboradores do blog estudaram. Escrevo, desta vez, de maneira diferente e proponho mostrar a seguir alguns dos debates que observei durante a semana. É bastante válido para todos acompanhar um pouco do que está rolando no mundo acadêmico e creio que este é um dos objetivos da própria Página Internacional: difundir as ideias para além das universidades. 

Começo pelo título do evento: “A construção das relações internacionais no Brasil no início do século XXI”. Desde já é nítida qual foi finalidade desta Semana de RI, fomentar o debate sobre as assim chamadas “relações internacionais brasileiras”. Nada mais correto, uma vez que o grande protagonismo nacional mundo afora vem aflorando nos últimos anos. Na conferência de abertura houve a participação do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, atual Alto-Representante Geral do MERCOSUL. Sua fala centrou-se no futuro da política externa brasileira (PEB), afirmando que a região da América do Sul, e não a África, a Ásia ou a Europa, será a chave-mestre nacional. Nosso país tenderá a fortalecer a cooperação regional, promover a integração e, é claro, alimentar o seu interesse nacional enquanto, como todos dizem, país ou potência emergente. 

Posteriormente, destaco a mesa redonda sobre “Cultura e Relações Internacionais”. Foram discutidos os mais diversos temas, deste a própria conceitualização do que é cultural, até teorias feministas e intervenções externas norte-americanas. Do que mais me marcou, ficam as ideias do Professor Estevão Chaves de Rezende Martins (da UnB), que afirmou com convicção sobre a falácia da Primavera Árabe. Para ele, o termo é mal empregado e reflete apenas um conceito utilizado por leigos para que seja noticiado nos telejornais. Sumariamente, seu pensamento condiz com o fato da região (Egito, Líbia, Síria, etc) ser extremamente heterogênea e ter um histórico bastante variado, fatos que culminam na impossibilidade de amontoar tudo em apenas duas palavras. Se fosse assim, já ocorreram verões, outonos e até invernos árabes. Mas quase ninguém tem conhecimento disso. 

Por fim, mudo o tema para defesa e segurança. Acompanhei os debates a respeito da criação da UNASUL e consequentemente do seu Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). O que deve ficar claro para todo mundo é que a UNASUL não porá fim ao MERCOSUL, porque tem objetivos diferentes. Tão diferentes que, se este ficou sobrando nos aspectos econômicos, aquela tenta promover uma maior cooperação política na região, indo ao encontro, também, do citado CDS. De acordo com os professores Jorge Szeinfeld (da Universidade de La Plata – Argentina) e Héctor Saint-Pierre (da UNESP/Franca), falta articulação política na região e, especificamente sobre defesa, é exatamente isso que o conselho vem tentando articular. Como a organização é muito nova, resta esperar as cenas dos próximos capítulos que estão sendo pesquisadas por vários alunos. 

Estas foram algumas das temáticas que fizeram parte da 10ª Semana de RI da UNESP. Daria pra citar uma série de outras coisas, principalmente sobre os mini-cursos ministrados que versaram sobre governança, identidade brasileira, teorias de integração regional, políticas públicas, dentre outros. Quem sabe a cobertura de eventos torne-se algo mais constante aqui no blog. É interessante, sempre interessante, fazer este paralelo e dividir o espaço entre academia e o “bate-papo internacional” do dia-a-dia.


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Egito das idas e vindas

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Idas e vindas. Esse seria um bom título para um livro que tratasse da história recente do Egito. Seria uma trama recheada de idealismo, violência e disputas por poder, localizado no grande centro histórico e econômico do mundo árabe. Durante a história, os personagens se veriam em um ambiente de incertezas, onde a moral da história provavelmente teria algo acerca das dificuldades inerentes a quaisquer mudanças políticas. Nesse cenário, da dita Primavera Árabe, o imperativo que uniria a população seria o da alteração do comando do país e não trataria necessariamente de democracia. Bom, se já temos o suficiente para um bom romance histórico, para a construção de um regime adaptado ao povo egípcio o caminho ainda é longo. Com a queda de Hosni Mubarak do poder, o país ainda está sob os auspícios de uma Junta Militar que quer ser tão temporária quanto a famosa CPMF brasileira. 

O processo de transição política no Egito tem caminhado a passos de tartaruga, de carangueijo ou de qualquer outro animal bizarro. Observa-se reiteradamente um caminhar de dois passos para a frente e um (ou mais) para trás. Os avanços convivem com os velhos hábitos de gestão que vivem à sombra dos tempos autoritários.   Entre os ânimos renovados pela queda de Mubarak e os protestos violentos contra a Junta Militar, as eleições parlamentares e à dissolução do Parlamento às vésperas do pleito presidencial, os analistas políticos patinam do idealismo da revolução ao realismo da transição política. 

A novidade que poderia levantar os ânimos seria a vitória de Mohamed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana, como o primeiro presidente eleito em um pleito democrático em 30 anos. Ora, a novidade poderia até ser louvada se as circunstâncias não nos levassem a crer que o continuidade prevalece sobre as mudanças. Primeiro porque o presidente representa uma maioria que a Junta Militar parece temer, os muçulmanos. Como a movimentação contra os 70% de parlamentares muçulmanos nos mostra. Segundo porque, a despeito de iniciar o governo sem constituição nem parlamento, Mursi parece estar com pouca liberdade deliberativa. 

O último episódio que indicou isso começou no último dia 08, quando o presidente baixou um decreto para revogar a dissolução do parlamento. A medida foi tida por muitos como muito ousada, mas, fosse pela Junta Militar, fosse pelos juízes herdados do governo Mubarak, já era de se saber que não iria durar. Dois dias depois, juízes declaram que a decisão da Suprema Corte Constitucional de dissolver o parlamento tinha suporte legal. A Mursi não restava nada, mas acatar à decisão ou observar o desenrolar de seu isolamento político. Por mais curto que toda essa aventura tenha durado, ela é a demonstração de que, mesmo após as eleições, não há muito o que comemorar. 

O jogo de poder ainda pende para a Junta Militar por demais. Enquanto Mursi teria controle do parlamento, pela maioria muçulmana, os militares tem o apoio do poder judiciário e, agora, legalmente também controla o legislativo até segunda ordem. O tribunal declarou a legalidade da dissolução da câmara baixa (equivalente à Câmara brasileira) enquanto que ainda irá se pronunciar sobre a Câmara Alta (como o Senado), ou seja, ainda tem mais por vir. Parece que, enquanto Mursi não desvincular-se da Junta Militar e não tiver um apoio constitucional, pouco conseguirá avançar. 

As tais idas e vindas são a característica dessa primavera egípicia. Se até há indicações de mudanças substanciais na política externa, como a ideia de reaproximação com o Irã (os dois países não tem relações diplomáticas desde o tratado de Camp David sobre Israel), a política interna ainda mostra que, mesmo com Mubarak de fora, o Egito está mais com um regime político novo para “inglês ver” do que com algo de fato novo. De mãos atadas, o Executivo não poderá trabalhar, e sem legislativo, não há nova constituição. Se o país descurar do processo de transição o Egito pode acabar próximo do mesmo marco zero de que partiu.

[Para mais artigos e reportagens sobre: 1, 2, 3]


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De onde vem o perigo?

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A fofoca da vez no noticiário internacional é a venda de submarinos nucleares da Alemanha para Israel. O que está rendendo não é a venda em si, parte de um projeto de cooperação bilateral antigo, mas sim o fato de que os submarinos estariam equipados com um sistema de lançamento de mísseis balísticos. E caso Israel possua armas nucleares (sabe como é…aliás, o acordo dá a entender que a Alemanha já reconhece o programa nuclear de Israel desde os anos 70), poderiam ser equipados e lançados quase que imediatamente. Sombrio, não? 

O submarino é uma das armas mais aterrorizantes que um país pode possuir. Mesmo que não possua armas nucleares, é uma arma com potencial ofensivo muito acentuado. Já se foi o tempo em que aviões Catalina podiam despejar cargas de profundidade e afundar submarinos na superfície – um nuclear pode ficar literalmente meses embaixo d’água. Mas, pra dizer a verdade, a maioria deles não tem ogivas nucleares – são na maioria submarinos “caçadores”, feitos pra ir atrás justamente dos que têm mísseis. 

Uma arma defensiva então? Esse é o argumento da marinha brasileira, por exemplo, quando fala da compra dos submarinos nucleares franceses e da construção do nosso próprio: a ideia é defender o pré-sal e a costa brasileira (já não era sem tempo, aliás, sendo o Brasil um dos países com maior faixa litorânea do mundo). E acredito que a intenção é essa mesmo, mas digam isso pro resto dos países sul-americanos, que vão ter um vizinho com porta-aviões e um monte de submarinos nucleares podendo xeretar suas águas sem ser importunados. Amigos, amigos, submarinos à parte. 

É aí que mora o problema quando pensamos no caso de Israel. O caos recente do Oriente Médio pressiona demais Israel, como já estamos cansados de dizer por aqui no blog, e uma ação armada contra o Irã está cogitada faz tempo. A primeira coisa que a criança faz quando ganha um brinquedo novo é usar até enjoar. Eles têm armas nucleares, agora vão ter o vetor mais eficiente pra elas, e não é uma questão de “se”, mas de quando, eles vão começar o jogo de dissuasão contra o Irã. Claro que, por outro lado, a estratégia de Israel foi a de sempre esconder e negar a posse dessas armas, então seria um contra-senso fazer isso agora… Ou seria essa a oportunidade que esperavam? 

E o que os vizinhos vão pensar disso? Quando falamos de percepção de ameaças, aquela região é o lugar do mundo em que ninguém confia genuinamente em ninguém. Aliás, e o Irã? Uma das razões que alegam pra querer desenvolver um programa nuclear é o fato de Israel ter o seu próprio. Com esse tipo de arma, qual o reflexo nas negociações com Teerã? Boa coisa não vai sair disso. 

A ironia de tudo é que o tal do acordo com a Alemanha previa a instalação de uma usina de tratamento de água (paga pelos alemães…) e a redução dos assentamentos em Gaza, o que seria um passo incrível para resolver a questão com os palestinos, mas nenhuma coisa ocorreu. E pra completar o resumo da ópera, a Alemanha está vendendo o mesmo tipo de submarino pro Paquistão. Que tem armas nucleares. E não reconhece Israel.


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Liberdade privada

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Nesta semana, está prevista a libertação de um jornalista francês pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Parece uma boa notícia, mas se formos pensar que há coisa de dois meses a FARC havia prometido acabar com o expediente de seqüestros, vemos que nem tudo são flores. Parece que a cada passo dado para a frente nas negociações com o governo da Colômbia, as FARC dão dois para trás. Mesmo por que uma das condições para que possa haver negociações é que a guerrilha cesse com as ações violentas, e nas últimas semanas o que ocorreu foi o contrário, com ataques letais a soldados em regiões rurais. 

Vamos pensar apenas na questão dos seqüestros. Não se enganem, isso é uma prática antiga, um procedimento comum ao longo da história, tomar reféns e exigir algo em troca por sua segurança. Mas, até que ponto isso seria legítimo? Numa guerra, podemos fazer trocas de prisioneiros – algo até justo. Mas, e quando os civis são envolvidos? Ou quando o seqüestro ocorre em um contexto fora da guerra? Boa parte dos conflitos de guerrilha dos séculos XX e XXI empregam esse artifício para obter fundos, ou algum recurso estratégico (ganhar tempo, barganhar, essas coisas), e em algum momento envolvem civis que não têm nada a ver com o processo da guerra em si. E não estamos falando apenas de guerrilhas – pensem em Estados, como os sequestros de sul-coreanos, levados para o norte na guerra da Coreia. Nesse ponto, uma forma de “resistência” se torna mero banditismo. Cria-se uma “indústria” do seqüestro, como aconteceu no Iraque após a queda do Saddam Hussein. E quando pensamos que as FARC estão enroladas até o pescoço com o narcotráfico, ou nos atentados a bomba, fica difícil tentar simpatizar com os “lutadores da liberdade” que procedem desse jeito. 

A meu ver, todo seqüestro é um crime. Por mais que se tente justificar ou atenuar, trata-se de envolver alguém que não tem nada a ver com um conflito em sua dinâmica; caso haja algum envolvimento, é um método covarde. Não defendo governos opressores, mas repressão violenta não justifica violência como resposta. Basta lembrar que o seqüestro priva o individuo de seu direito mais primordial, o da liberdade, abaixo apenas do direito à vida – que muitas vezes também é violado no cárcere, e nada pode justificar isso. E voltamos ao ponto inicial – retomando essa prática, as FARC apenas renovam o ciclo de violência e perdem legitimidade. Comparem com o ETA, por exemplo, que ainda não se desmantelou, mas cumpre um cessar-fogo permanente e que possibilita um diálogo real e definitivo para o conflito na Espanha. Ainda vamos levar muitos anos pra ver a situação na Colômbia estabilizada, e se continuar assim, vai ser por meio de um remédio amargo.


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Mais do mesmo?

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Depois de quinze meses sem negociações, Irã e as grandes potências voltaram a negociar no mês passado e mais acirradamente nessa semana novamente. Tempo suficiente para que os Estados Unidos e a União Europeia ampliassem as sanções econômicas sobre o país pegando no calcanhar de Aquiles iraniano: o petróleo. Quando parecia que finalmente as potências tinham adquirido aquela moeda de troca que precisavam para os  bons resultados nas negociações, veio a nova rodada de conversas para mostrar que, em se tratando de questões geopolítico-estratégicas, nada é tão simples assim. 

Após uma semana de muito trabalho para o negociador-chefe do Irã para a questão nuclear, Saeed Jalili, somente os próximos meses indicarão o resultado que todas essas negociações levarão, já que vimos uma semana de “vai e volta” nas conversas. Logo no início da semana, a AIEA já tratava dos bons resultados que estava adquirindo nas suas negociações com Irã. O inédito acordo entre a organização e o governo dos aiatolás tem tudo para sair e, supostamente, ampliar o grau de confiança do país perante a comunidade internacional. Uma reunião mal acabou, e ele já estava em Bagdá negociando com a boyband das potências, também conhecida como P5+1. Se o acordo com AIEA trouxe bastantes expectativas positivas para a negociação, bastou começar o encontro para se ver que os quinze meses sem conversas não facilitaram tanto as coisas. 

O embate prossegue com os mesmos argumentos que se tinha durante as últimas conversas. O Irã reitera seu direito natural ao programa nuclear e o condomínio das potências exige que o país retorne seu enriquecimento aos níveis seguros de 5%. Já dissemos em outras oportunidades que sanções não são a via capaz de resolver contenciosos como esses. Todavia, não dá pra dizer que o excesso de medidas contra o Irã não têm surtido efeitos políticos catastróficos para a sociedade (sem também que haja efeitos para a economia mundial). O país está com alguns problemas para a exportação de petróleo, a aviação iraniana não é capaz de obter peças (tornando-a uma das mais perigosas do mundo), além de outros severos efeitos para a economia do país. Essa situação aliada ao risco de um potencial conflito Israel-Irã parece estar forçando o Irã e as potências de volta à mesa de negociações. 

A proposta do P5+1 segue a mesma forma daquele acordo construído com o Brasil e a Turquia que foi rejeitado em 2010. O Irã receberia o urânio já enriquecido para usar em suas instalações. Só que desta vez não seria um país em desenvolvimento com aspirações de grandeza, mas as grandes potências que conduziriam o processo. Já o governo iraniano mantém sua posição de continuar seu programa nuclear, mas ofereceria, em troca de reduções das sanções (clique aqui para conferir as principais sanções contra o país persa), maiores inspeções da AIEA. Resultado, negociações postergadas até junho, nenhum acordo

O cenário é complexo e o retorno das negociações em detrimento de simplesmente ampliar sanções (algo que os EUA fizeram no mesmo dia que a AIEA apontou que havia avanços nas conversas com o Irã) é uma via sempre profícua. As sanções têm surtido efeito sob a economia iraniana, mas não sem receios para a economia mundial. Não temos, entretanto, nada de novo ou nenhuma posição que já não se tinha há quinze meses. Enquanto as tensões geopolíticas entre os vizinhos no Oriente Médio aumentam, as conversas continuam no mesmo pé que sempre estiveram, os Estados Unidos inflexíveis e exigindo flexibilidade do Irã. Ao final das contas foi uma semana de “vai e volta”. Avanços com a AIEA e quase de volta à estaca zero com o P5+1.


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