Um caminho para o futuro

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Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


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O jogo das sombras na República Democrática do Congo

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Fonte: DefesaNet


“Geni viu os corpos das duas filhas serem arrastados pela correnteza de outubro, mês das chuvas. Forjou com o caçula um esconderijo sobre folhas de bananeira e ali ficaram até cessarem os gritos. Voltou à vila e encontrou a cabeça do marido, como as de outros homens da aldeia, secando ao sol em estacas – a marca do grupo liderado por um homem chamado Sheka.”  


Esta é uma das várias histórias tristes sobre a República Democrática do Congo (RDC). O relato foi descrito na excelente reportagem do Estadão, da jornalista Adriana Carranca, que cobriu o ataque de um grupo rebelde ao vilarejo Lwibo, na Província de Kivu do Norte. Entre tantas tragédias, uma boa notícia: o “Movimento de 23 de março” (M23), principal grupo rebelde congolês, anunciou sua rendição no último dia 5. Um fato significativo no longo percurso em direção à paz e estabilidade do país e da região, onde perdura um delicado jogo das sombras. 


A principal razão desse jogo é a riqueza inestimável da RDC. Se há uma linguagem universal para as interações sociais, ela se fundamenta em três palavras inter-relacionadas: poder, espaço e dinheiro. Uma matéria publicada na revista Tecnologia & Defesa destacou as riquezas do Congo: 30% das reservas mundiais de diamante, quinto maior produtor mundial de estanho e segundo, de cobre, é responsável pela metade da produção global de cobalto e detém 80% das reservas conhecidas de coltan (uma mistura composta de dois minerais: tantalita e columbita, material de alta resistência, muito utilizado na fabricação de eletrônicos).  


Tão logo se percebe que o conflito na RDC não é por liberdade ou democracia, trata-se de uma disputa por recursos naturais e domínio das áreas onde eles se encontram – sobretudo, no leste do país. Ressalta a matéria citada que os grupos rebeldes, particularmente o M23, são apenas a “ponta do iceberg”; submerso, está a oculta e acirrada luta das grandes potências pelo controle desses recursos. 


Neste sentido, a renúncia à luta armada por parte do M23 é parte – muito importante – do processo de pacificação e estabilização da RDC. Isto significa que, até o momento, a estratégia mais proativa e incisiva da comunidade internacional está surtindo efeito. A aprovação de uma brigada de intervenção no âmbito da MONUSCO, a missão de paz das Nações Unidas no país, e a nomeação do general Santos Cruz para comandar as tropas por lá podem promover, inclusive, um ponto de inflexão na história congolesa.  


Antes mesmo de partir para a missão, tive a oportunidade de conversar diversas vezes com o general e ficou nítido todo seu entusiasmo em assumir esta grande responsabilidade. À época, dizia ele sobre os grupos rebeldes: “estes caras só entendem duas coisas: a força e o dinheiro”. A melhor maneira de agir, em sua opinião, era pressionar esses grupos de modo que não tivessem outra opção, senão um acordo político e a inserção dos ex-combatentes em um programa de desarmamento, desmobilização e reintegração. E essa ação deveria ser permeada por contexto político favorável, negociando com atores externos envolvidos com o conflito, como Uganda e Ruanda.  


Há quase três semanas, em rápida visita ao Brasil, acabei me encontrando novamente com o general e pude ouvir as novidades de lá. Confidenciou o chefe militar brasileiro que foram travadas batalhas longas e sangrentas entre as tropas da ONU e os grupos rebeldes, além das atrocidades cometidas contra civis pelos revoltosos – cenas inimagináveis, diria ele. Ao mesmo tempo, deixava transparecer sua expectativa acerca de possíveis desdobramentos positivos na RDC.  


Um clima de otimismo,ainda que moderado, já toma conta da comunidade internacional. É preciso, no entanto, lidar com este jogo das sombras, à medida que se aprofunda a disputa pelos recursos naturais. As grandes potências – ou boa parte da alta classe delas –, que deveriam colocar a proteção dos civis em primeiro lugar, definem essa tarefa sob a ótica econômica, não humanitária. Se isso persistir, nunca haverá a superação do longo – embora segmentado – conflito na RDC.

Por e-mail, o general contou suas primeiras impressões de lá: “O Congo, em particular, é uma história fantástica e triste, de colonialismo e massacres inimagináveis. Talvez a dimensão dos números fez perder o sentido da dimensão humana dos absurdos.” Passou da hora de recuperar a humanidade.  


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Homens ao mar, e à própria sorte

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Hoje está repercutindo o naufrágio de um navio de refugiados do Quênia e da Eritreia, em que cerca de 90 pessoas morreram. Não se sabe a causa, mas a história é familiar – embarcações geralmente malcuidadas e superlotadas que trazem refugiados buscando melhores condições de vida, como as folclóricas lanchas cubanas rumo a Miami, mas muito comuns especialmente partindo do norte da África e cruzando o Mediterrâneo em direção a França, Itália e Grécia. Nesse caso, a ação da guarda costeira italiana em salvar os náufragos foi louvável, já que nem sempre isso acontece. 

A recusa sumária a refugiados é considerada infração do direito internacional. A Grécia, por exemplo, já teve problemas envolvendo denúncias recentes de estar desviando barcos de refugiados da Síria. Porém, a grande dificuldade nesses casos acaba sendo a precariedade da embarcação e a quantidade de pessoas que buscam uma nova condição de vida. 

O problema fica mais grave quando o refugiado parte para uma aventura ainda mais arriscada, como clandestino. Várias histórias de horror envolvem a morte de pessoas nessa situação, como a do navio MC Ruby, que até virou filme, em que refugiados ganeses foram mortos em 1992 pela tripulação ucraniana para que não pagassem a multa de trazer clandestinos para um porto europeu. Mas não precisa ser necessariamente um privilégio de países africanos – em 1996 o caso do Maersk Dubai trouxe algo semelhante, mas eram refugiados romenos que foram atirados em alto-mar pelo comando taiwanês do navio (e que resultou na revolta e denúncia da tripulação filipina, que acabou protegendo e salvando outro clandestino da morte). 

Essas histórias mostram o pior que o ser humano pode fazer. Basta lembrar que a maior tragédia náutica da história foi o afundamento de um navio alemão na 2ª Guerra Mundial, o Wilhelm Gustloff, com mais de 10 mil refugiados alemães a bordo e torpedeado impiedosamente por um submarino soviético. Isso passa pela crueldade para com os refugiados, desde o interesse econômico (de evitar uma multa e impedir a entrada de novas pessoas em uma economia em crise) e pela própria origem da migração: quando pessoas querem fugir para países com a economia mal das pernas como a Itália, a Grécia, ou mesmo países em situação de conflito como o Iraque (para onde muitos sírios estão indo), significa que a coisa está feia. 

O trágico é imaginar a contraposição entre as condições cada vez mais rígidas de controle de entrada e as dificuldades progressivamente maiores que esses imigrantes buscam devido à piora da situação de vida em seus países de origem. Não basta sobreviver a essa verdadeira epopeia de viajar em condições terríveis, uma verdadeira epopeia – essa é apenas a primeira etapa de um processo longo de aceitação, reconstrução, ou no pior dos casos de deportação, para recomeçar tudo do zero. O drama dos refugiados é uma questão de segurança internacional, sob diversos aspectos, e a tendência é que esse tipo de tragédia se repita, infelizmente.


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Novas caras de um velho problema

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Hoje é 11 de setembro, e a data é ligada a desastres. Tem quem lembre da queda de Allende no Chile, em que um experimento malsucedido de socialismo deu lugar a uma ditadura pior ainda. Mas é claro que não tem como se fazer qualquer tipo de análise sem lembrarmos a efeméride fatídica de 2001. E talvez seja um ano bem oportuno pra retomarmos aqueles acontecimentos. 

Isso por que toda a discussão acontecendo em torno da Síria representa um dos grandes debates que existe na academia de Relações Internacionais hoje na área de Segurança e Defesa, que são as tais “novas guerras”. Não que a definição do que elas sejam esteja indefinida ainda – é um conceito muito amplo, mas que deixa bem claro do que trata. As guerras clássicas envolviam Estados, tinham uma delimitação clara, mesmo que houvesse alvos civis. Na Segunda Guerra (talvez a última grande guerra entre Estados), havia Eixo e Aliados. Mesmo na Guerra Fria, era EUA x URSS e o resto do mundo pendurado em um dos dois (sem generalizar, claro, por que depois surgem os não alinhados, a China, e por aí vai). Era um mundo mais “fácil” de compreender (isso em termos de análise de conflitos mais tradicional). 

Hoje não. Desde os anos 90, há uma multiplicação de atores envolvidos. Guerras civis explodem dentro de países, opondo grupos étnicos ou religiosos, e seu conflito transborda para os vizinhos. Ou pior ainda, existe o conflito entre Estados, mas não entre os governos, e sim entre milícias e grupos específicos em confronto com grupos de outros Estados (como se vê muito na África). Não é que conflitos dessa natureza não existissem antes, mas agora eles são os mais destacados. Essas “novas guerras” são justamente as assimétricas, em que não se sabe exatamente quais são as partes envolvidas já que são grupos muito heterogêneos, e por vezes sem participação do Estado (ou quando o Estado é falido). 

Aqui entra a questão do 11/09. O ataque a Nova Iorque e Washington mostrou essa capacidade de um inimigo sem face, e teria dado um novo objetivo aos Estados na arena internacional. Acadêmicos norte-americanos abraçaram a ideia de que “a América tinha uma missão a fazer”, e seus políticos entraram na espiral da destruição promovendo guerras que tiveram resultados desastrosos, tanto para os EUA em si, quanto para os países onde ocorrem (até hoje…) os conflitos e suas regiões. Por outro lado, os ataques também representaram a grande “apresentação” para o mundo dessa nova onda de atores e agentes que afetam a segurança internacional de um modo que o sistema tradicional de Estados não está acostumado a lidar. O resultado disso vemos nas diversas guerras das últimas duas décadas, que em sua maioria foram fracassos retumbantes, seja na atuação do sistema ONU, seja nos objetivos dos que iniciaram os conflitos. 

O 11/09 é emblemático como a representação de um mundo em fragmentação. Questões e demandas específicas de atores subnacionais cada vez mais influem nas decisões e ameaçam os atores tradicionais, em um futuro incerto. O desfecho do conflito na Síria é apenas um entre diversos atos de uma grande peça que é novidade no palco internacional e ainda está longe de se encerrar.


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O caminho para a destruição

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Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


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O retrato da indolência

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Fonte: New York Times


Ou negligência, se preferirem. Há tempos que o conflito na Síria vem levantando novos debates a respeito da morte incansável de milhares de civis. Muitos são os problemas apontados: uso excessivo de força por parte do governo de Al-Assad, falta de comprometimento das grandes potências, indiferença por parte da comunidade internacional, violação de direitos humanos e de tratados internacionais. Existem, ainda, indícios sobre o uso discriminado de armas químicas, conforme já apontei em outro texto aqui na Página Internacional. 

Sobre esse último ponto, um grande mistério vem rondando os noticiários esta semana. Em um vídeo divulgado pelo jornal “The New York Times” em matéria intitulada “Images of Death in Syria, but No Proof of Chemical Attack”, são vistos centenas de civis (crianças e adultos) sendo atendidas por conta de um suposto ataque químico perto da cidade de Damasco. Entretanto, as pessoas que auxiliam nos atendimentos não usam nenhum tipo de proteção. O ministro sírio al-Zu’bi disse que as imagens foram planejadas… 

Faltam provas, mas nem tanto. Sabe-se que o conflito interno na Síria já alcançou patamares inimaginados anteriormente. Obviamente que as mortes são as piores consequências, só que o principal problema é saber como os sírios reagirão a essa maré de má sorte. Falta o básico, falta qualidade de vida. A Organização das Nações Unidas (ONU) disse que existe cerca de um milhão de crianças refugiadas por causa dos combates. E isso tende a aumentar. 

Por falar em ONU, a organização vem mostrando sua fraqueza. Sempre fui uma pessoa que tem a seguinte opinião sobre os capacetes azuis: “Ruim com eles, pior sem eles”. Suas ações são louváveis em inúmeros eventos históricos e sua voz no cenário internacional é vital. Mas não podemos deixar de notar que sua presença na Síria deixa a desejar. Somente agora que a ONU pediu autorização ao governo sírio para investigar os ataques com armas químicas. 

Vai e vai rápido! Ban Ki-moon é uma excelente figura e conquistou seu espaço no cargo máximo. Tem grandes problemas nas mãos e um deles é a Síria. Não podemos culpa-lo por tudo. Boa porcentagem dessa “indolência” no país é decorrente da falta de vontade política das grandes potências. A França propôs o uso da força para combater os ataques químicos, Alemanha e Estados Unidos ficam com o rabo entre as pernas e passam a bola para a Rússia, “acusada” de enviar armas para Al-Assad e por aí vai. 

E o que fará, agora, Mister Obama? Conforme atestado por matéria da BBC, há um ano o presidente disse que, caso fossem utilizadas armas químicas na Síria, os Estados Unidos recalculariam sua posição. Será que os norte-americanos vão para o front de guerra? Difícil, heim! Iraque e Afeganistão mandam lembranças. 

O estágio atual da Síria é insustentável e, se assim permanecer, não continuaremos a colocar a culpa somente em autoridades nacionais. Falta força política da ONU e, mais impactante ainda, força de vontade das grandes potências. Se “indolência” é um termo feio e pesado, podemos colocar como sinônimo a “preguiça”. Obama e companhia dormem no ponto.


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Já vi esse filme antes

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O roteiro é típico da maioria dos golpes militares – em nome da “manutenção da ordem”, e por vezes com algum tipo de justificativa constitucional, as Forças Armadas derrubam o governo vigente e instalam um período de transição que acaba se tornando permanente. Isso é o que estivemos vendo no Egito nos últimos um ano e meio, e nessa semana assumiu o tom de brutalidade que se espera de um governo que funciona pela força. Relatos de violência, repressão armada, prisões arbitrárias e assassinatos contra membros da Irmandade Muçulmana em acampamentos de protesto no Cairo dão conta de 150 a 200 mortos e algo em torno de 1000 feridos em apenas um dia. 

No Egito, o exército sempre esteve junto ao poder. Quando ficaram insatisfeitos com Hosni Mubarak, foi pelo seu apoio (ou falta de repressão) que o país pôde experimentar um dos poucos “sucessos” da Primavera Árabe (que já está mais para um “Inverno”). Como abutres, se mantiveram no controle até que as eleições fossem realizadas e no fim das contas nunca largaram o osso. Acontece a mesma coisa que se passou com Mubarak nesse exato momento – Mursi foi derrubado por não ter apoio dos militares, mas agora o país está dividido. Todos (ou a maioria) queriam Mubarak fora; agora, os militares têm seu apoio, mas Mursi também – justamente aquela parcela da população que o colocou no poder, por meio de eleições! 

O papel do ex-presidente é fundamental. Dependendo do ângulo de visão, ele pode ser entendido como um visionário ou como um desvairado. Para alguns, seu papel seria semelhante ao de um Chávez árabe que não deu muito certo – com uma base popular forte e ideias contraditórias, mas que não funcionou justamente por não ter as Forças Armadas nas mãos e pela onda de protestos contra suas políticas. Para outros, poderia ser uma espécie de Mandela para a região – um homem que trouxera paz de modo democrático e por mais que houvesse contestação não chegou a revidar violentamente contra os críticos. A região perde um ilha de estabilidade com sua saída, de um modo ou de outro, e a defesa de seu retorno poderia ser a única saída para um Egito pacífico. 

Não sei se podemos dizer que o Egito está se tornando uma espécie de Síria 2.0, já que as condições são bem diferentes, mas o resultado está parecido. O país ruma para uma guerra civil (ou pior, um massacre), e tende a espalhar incertezas e instabilidade, pulverizando o já estremecido equilíbrio de poder na região. O apoio à Irmandade Muçulmana vai trazer radicais para a cena? O exército vai continuar recebendo mesada milionária dos EUA após essa violência toda? Há algumas semanas uma postagem daqui se perguntava qual seria o papel das Forças Armadas nesse “novo” Egito pós-Mursi. Ainda é difícil precisar se vão assumir o controle como estiveram ensaiando desde a saída de Mubarak, ou se vão abrir espaço para algum títere. Mas, de todo modo, parece que está sendo um belo de um papelão.


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Armados de força

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Forças Armadas, para que? Essa é uma pergunta clássica em países como o Brasil, locais no qual se tem baixa percepção de ameaças externas. Onde, para o povo, os maiores inimigos são problemas de natureza social e a guerra apenas figuraria como pesadelos distantes de gente louca. 

Independente da importância dada a essa instituição, a sua organização burocrática e seu poder diante da ordem política de um país não devem ser desmerecidos. E ainda mais no Estado Moderno. Durante os últimos 100 anos temos visto repetidas vezes o papel central do exército na dissolução de governos e na tomada da direção do Estado. Desde as ditaduras nacionalistas europeias da Alemanha, da Itália e mais atualmente da Espanha, até os diversos golpes ocorridos na América Latina, há uma imensa quantidade de exemplos possíveis. 

As Forças Armadas normalmente agem nesses casos para garantir a ordem durante momentos de instabilidade e fraqueza dos governos, ou pelo menos se utilizam dessa retórica. O que se viu no Egito nos últimos anos não foi diferente. No país em que se deu de maneira mais emblemática a Primavera Árabe, agora depois de pouco mais de dois anos da queda do ditador Mubarak pela revolta popular e com apoio do exército, ambas as forças voltaram a unir suas vontades na derrubada de um governante, agora o presidente eleito Mohamed Mursi. 

A crise econômica e acusações de todos os tipos contra o presidente, desde fraudes em sua eleição à corrupção e traição da vontade do povo. São muitos os motivos que levaram milhões de pessoas às ruas e a famosa praça Tahir, já histórica pelas multidões que a ocuparam. Os protestos coincidiram com o ultimato dado pelo exército para a sua renúncia, recebido por Mursi como tentativa de golpe e levando-o a convocar por meio de um discurso na TV a população favorável a sua continuidade a defendê-lo. Nada disso adiantou e venceu a vontade do exército e das multidões em marcha. 

Mas nem sempre população e Forças Armadas falaram a mesma língua durante o processo político atual do Egito. O atraso na convocação de novas eleições meses após a queda de Mubarak levou a população para as ruas em 2012, naquele momento contrária ao exército que se estendia demais no poder. Mesmo sofrendo forte pressão, as Forças Armadas seguiram à frente até as eleições que levaram Mursi à presidência, muito tempo após a queda do ex-ditador. Considerado candidato do exército, a sua eleição foi até mesmo acusada de fraudulenta, um golpe na época da própria instituição que agora o depõe. 

As reviravoltas e conflitos no Egito só demonstram a incompreensão dada pela complexidade do cenário político. O alcance do poder dos islamitas foi outro episodio que demonstra a quantidade e diversidade de grupos lutando pelo poder. O próprio exército, em sua primeira tomada do controle do Estado, garantiu que o Parlamento e a Constituição que supostamente dava vantagens aos islamitas fossem dissolvidos, declarando-os ilegais. A vitória de Mursi, ironicamente um islamita, também foi garantida pelo próprio apoio do exército a sua candidatura. Em um ambiente em que todos são inimigos lutando pelo controle do Estado, fica difícil até mesmo a tarefa de reconhecer quem está ao lado de quem, quanto mais que aja qualquer tipo de coalizão capaz de estabilizar o governo do país. 

A queda de Mursi coloca o Egito no mesmo cenário de incertezas de sempre, em um país que vive o clima das manifestações por um tempo já suficiente para gerar desconforto. Parece uma luta duradoura por algo ainda não muito claro e menos ainda próximo. Fala-se em 17 milhões de pessoas nas ruas nas últimas semanas, o maior protesto da história da humanidade. Mas o futuro do egípcios ao voltarem para casa parece ainda bastante obscuro. As forças armadas já demonstraram há um ano atrás que não são capazes de satisfazer o clamor das ruas governando o país por um período duradouro. Na verdade, isso se deve a total falta de entrosamento e de uma homogeneidade que garanta estabilidade entre a vontade dos grupos de poder e da própria instituição. 

O Egito continua sendo local de diversos conflitos de interesses, um balaio de gatos entre grupos não acostumados com a democracia, que surgem lutando pelo controle do Estado após a queda de um ditador que governou o país durante décadas, com forte apoio interno e externo. 

A questão agora é compreender qual será o papel das Forças Armadas nos próximos passos da política do Egito. Fica claro que o seu papel de restauradora da ordem e da estabilidade aparece de maneira incisiva, como é bastante comum em países sem grande tradição democrática. Resta saber quanto esse poder se estenderá, qual será a influência do seu apoio a futuros presidentes e o seu papel na estabilidade de seus governos. Os próximos movimentos dos grupos que lutam pelo poder, do exército e da população serão decisivos para a construção do novo sistema político construído desde a Primavera Árabe e ainda pouco definido.


[Texto do colaborador Victor Uchôa]


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Onde está Snowden?

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Bom, na verdade, já se sabe. Enquanto no Brasil estamos ocupados com ludopédio e protestos, o mundo assiste a mais um roteiro de filme de espionagem da vida real. Nesse lapso de pouco mais de duas semanas, enquanto as ruas do Brasil fervilhavam, o ex-agente da CIA Edward Snowden pôs fogo na política norte-americana quando vazou dados para jornais sobre o sistema de monitoramento de dados de comunicação, incluindo conversas e dados pessoais, mantido pelo governo dos EUA. 

Pois é, a fonte anônima dos jornais que revelaram o escândalo não ficou nessa condição por muito tempo. Assim como no caso de dados vazados do Wikileaks, logo se descobriu quem fora o responsável e o jovem agente com cara de nerd passou a frequentar as manchetes de todo o mundo. Aliás, falando em Wikileaks e a volta dos que não foram, temos muitas similaridades, e esse caso acabou por trazer a organização novamente para o noticiário. 

Os membros do Wikileaks apoiam declaradamente Snowden. O ocorrido mostra muita semelhança com o vazamento de documentos secretos há alguns anos, feito também por um jovem supostamente bem-intencionado (o soldado Bradley Manning – que por sinal está sendo julgado, acusado de traição e pode pagar caro pela aventura). E assim como o criador do Wikileaks, Julian Assange, que viveu uma peripécia se escondendo na embaixada do Equador (e ficando lá até hoje) enquanto espera asilo político, Snowden viajou o mundo – literalmente. Fugindo do Havaí, foi para a China, supondo que teria alguma proteção. Se deu mal, por que Pequim não quer azedar relações com Washington e logo teve de se escafeder de Hong Kong para ficar num aeroporto na Rússia, esperando seu próximo destino. 

Apesar de mostrar não ter intenções de entregar Snowden, nada garante que os russos vão proteger o ex-agente. O Equador já não parece muito inclinado a se meter em mais confusão com o Tio Sam como antes. Não surpreendentemente, a Venezuela aparece como uma opção viável, mas de todo modo Snowden tem a maior potência militar do mundo em seu encalço, e a julgar por seu possível “amadorismo”, não deve ir longe a não ser que consiga ter a sorte de Assange e se encastelar numa embaixada. 

Se é um espião ou não (como muita gente está acusando), não dá pra saber. Snowden dá a impressão de ser uma pessoa bem-intencionada que acabou trocando os pés pelas mãos e tendo um impacto inimaginável. A crítica pesada contra esse programa veio em má hora para Obama, que está às turras com o Congresso e de cabeça cheia com a economia. Pela primeira vez em muitos anos a política externa está tendo um peso relativamente menor na agenda doméstica da política norte-americana, e o foco nesse tipo de assunto desgasta o presidente da mudança. 

Se Snowden vai ser pego ou não, é um mistério (e pode ser que não seja feito muito esforço para isso). Mas, espião ou não, desastrado ou bom samaritano, o fato é que ele causou um tumulto além das expectativas. Mais do que alertar seus concidadãos sobre uma situação de violação a direitos individuais, o ex-agente conseguiu acender um debate inflamado, se tornou o homem mais procurado do planeta, e pode ter um grande peso não apenas na discussão do momento, mas nos rumos das próximas eleições e até mesmo nas relações dos EUA com países que venham a aceitar o asilo. Nada mal.


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Post Especial: A hora e a vez do general Santos Cruz

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[Nas últimas semanas, o noticiário relatou com entusiasmo a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a chefia da OMC. Outra importante nomeação de um brasileiro passa pela mídia com menos alarde, mas podemos dizer que seja tão significativa quanto. Nessa postagem muito especial, o colaborador Giovanni Okado conta um pouco de sua experiência pessoal com o General Santos Cruz, designado pelas Nações Unidas para comandar a inédita brigada de intervenção da força militar da ONU no Congo. Aproveitem essa esclarecedora e surpreendente leitura, sobre homem tão singular a quem foi confiada uma missão tão importante.]



“I’m ready!”. Com essas palavras, o general Santos Cruz colocou-se à disposição, logo na primeira sondagem, no início do mês de abril, para comandar as tropas da MONUSCO. 

Nesse dia, estávamos almoçando juntos. De repente, o telefone tocou. Era o tenente-general Babacar Gaye, do Senegal, Assessor Militar do Escritório de Assuntos Militares do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e Force Commander da MONUSCO entre fevereiro de 2005 e julho de 2010. A proposta estava lançada. Restavam os acertos políticos na ONU, e entre ela e os governos africanos e brasileiro.

Dia 24 de abril de 2013, chegou a carta da organização para o governo brasileiro, oficializando a proposta. No documento, foram ressaltados atributos do chefe militar: “muito dinâmico, capaz e bem respeitado, com vasta experiência, incluindo sua atuação exitosa como Force Commander da MINUSTAH de janeiro de 2007 a abril de 2009.”. Pouco menos de um mês depois, dia 17 de maio, veio o anúncio do Secretário-Geral das Nações Unidas, nomeando-o como novo comandante da força militar da MONUSCO. 

Este é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros. É, também, um exemplo de vida para cada um de nós. Se é verdade a célebre frase machadiana – e ela certamente o é – de que os melhores amores nascem de um minuto, então, temos muito a aprender com ele. O amor dele à pátria, à profissão, ao próximo e, sobretudo, à paz demonstra que o instante desafiador é o mais belo. E o mais duradouro. 

A fala desse combatente é ríspida, o rosto, severo. Mas o tratamento é sempre humilde, simples, educado e equilibrado, jamais superior ou inferior. É uma mistura de quem diz “tem que ser violento na ação, depois que ela acabou, termina a violência” e ao mesmo tempo fala “desde que eu me conheço por gente, sou um cara apaixonado”. Por trás da incansável farda, o guerreiro cavalheiresco, uma pessoa com quem a convivência rende boas histórias, e estas se tornam um tesouro raro. 

Tenho a sorte de ter convivido com essa personalidade ímpar. Minha admiração por ele é imensa. Ainda na graduação, durante minhas primeiras pesquisas e estudos sobre temas de segurança e defesa, deparei com o seu nome. Era o “cara” que pacificou o Haiti. Era a pessoa que estava presente nas notícias e nos relatórios que eu lia, quem eu me perguntava se um dia teria a oportunidade de conhecer. 

Conheci. Para minha surpresa, no mestrado, encontrei com ele sentado na sala de aula, na condição de aluno. Durante um semestre, fizemos uma disciplina juntos. Pudemos debater, conversar, ele e eu e com a classe toda. Eu, assim como a maioria dos alunos, mais teórico; ele, mais prático. Às vezes, o general era criticado por apresentar ideias que decorriam de sua vivência, a exemplo de frases como “para muita gente, na África, democracia é ter uma luz acesa em casa”, mas não deixava de revelar, ainda que sem o dito conhecimento que se exige no meio acadêmico, a sensatez que escapa à teoria.

Àquela época, mal esperava eu que o destino nos colocaria novamente próximos. Desta vez, no trabalho: ele, coordenando a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu, como assessor técnico. Essa relação durou pouco, é bem verdade, foram apenas dois meses. Mas, recordando Vinícius de Moraes, foi eterna em sua duração. Uma experiência notável, que me permitiu evoluir, seja no aspecto profissional, seja no aspecto humano. 

Nenhuma manhã começava sem uma reunião em sua sala. As cadeiras se aglutinavam em torno de sua mesa. Entre muito papo, muito debate sobre o noticiário e muitos relatos de uma longa carreira militar, as tarefas eram distribuídas. Ao longo do dia, ele entrava em nossa sala, perguntava sobre o que estávamos fazendo e logo estávamos novamente papeando. Se havia, a subordinação do empregado ao chefe era pouco percebida; prevalecia a colaboração e o respeito aos seus “subordinados”, a quem ele se referia como “muito bons e inteligentes”.

Quanto aos relatos, entre tantos que não chegam à mídia, marcou-me uma história triste, mas de superação. Em uma escola caindo aos pedaços no Haiti, havia uma menina com as pernas presas aos escombros, que precisaria ser amputada não fosse a valentia de uma médica do Exército Brasileiro, apoiada pelo general Santos Cruz. Bem embaixo do edifício, em um local de acesso remoto e onde o menor barulho poderia derrubar toda a estrutura que sobrou da escola, entraram o chefe militar e a equipe de resgate para socorrer essa menina. Hoje, ela anda normalmente. 

Nunca vi o general se vangloriando de seus feitos, vários deles heroicos. Só o via se vangloriando de seus cavalos, de como eles tinham saltado bem, a cada dia que chegava à SAE/PR, depois de tê-los treinado. O entusiasmo era nítido em sua voz. Assim como presenciei esse entusiasmo quando estávamos no Rio de Janeiro, em missão, e passamos pelo Pão-de-Açúcar. Repetidas vezes, ouvi ele dizer “isso aqui é maravilhoso!”. Próximo a aterrisagem na capital federal, novamente escutei sua voz entusiástica: “Giovanni, ó Brasília, ‘vem’ ver!”. Naquele momento, compreendi que, independente de sua posição e de suas realizações, não há vanglória maior nem melhor do que ser apaixonado pela vida.

Em pequenas atitudes, o general facilmente conquista a simpatia de qualquer um. O homem que esteve presente no jantar de comemoração do meu aniversário é o mesmo que era tratado como um “rei” pelas tropas jordanianas da MINUSTAH. Exatamente o mesmo sujeito, sem pompa ou soberba. Aquele que, no último dia 23, reuniu amigos e familiares em seu jantar de despedida e deixava transparecer alegria e empolgação, consciente de que sua missão no Congo, embora hercúlea, não é irrealizável. 

Trabalhar com o general foi, para mim, uma honra que não poderia imaginar nem conseguiria descrever. Mais do que trabalhar, conviver. Nesta semana, ele embarcou para Nova Iorque e, exatamente no dia de seu aniversário, 2 de junho, partirá para o Congo. Fico agora, assim como milhões de brasileiros, africanos e pessoas de todo o mundo, na torcida pelo seu sucesso. Que essa nova esperança, de sangue verde e amarelo e de bem com a vida, floresça naquele solo tão manchado por guerras, frustrações, violência e desamor. 

Boa sorte, general Santos Cruz! Força, muita força!


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