Lembranças

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[Esse post foi escrito pelo Álvaro, que no momento está rumo à Semana de RI da UNESP Franca]

No dia 06 último, se completaram 65 anos do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. O mesmo vale para o dia de hoje, 09 de agosto, data do ataque nuclear em Nagasaki. O uso dessas armas na atualidade parece descabido, e resta a memória pavorosa dos eventos de agosto de 1945. No ano em que, pela primeira vez, emissários norte-americanos representaram o país oficialmente na cerimônia de homenagem às vitimas dos bombardeios, eis um vídeo interessante sobre o assunto, que mostra todas as explosões nucleares ocorridas de 1945 a 1998.

A maioria são testes subterrâneos, claro. Mas há muitos fatos curiosos, como reparar que a quantidade de explosões no desenrolar do vídeo reflete a lógica dos Estados nos períodos da Guerra Fria: em anos-chave como 1958 e 1962, pipocam explosões por todo lado como instrumento de dissuasão; após 1992, com o START, acabam os testes nos EUA e Rússia. Quando a URSS testava algum aparato logo os EUA respondiam com várias explosões (o mesmo ocorrendo em menor escala para Índia e Paquistão na década de 90). Aliás, não houve um ano até 1993 sem que os EUA não estourassem uma única bomba. E a medalha de bronze nesse ranking, surpreendentemente, é da França, que emporcalhou o Pacífico e já testou bombas até na África (como se já não bastassem os problemas que eles já têm). Houve até testes no Atlântico sul, bem pertinho do Brasil, numa tal “Operação Argus”. Diz-se inclusive que houve testes clandestinos no Brasil, na cidade de Quixadá, mas isso já entra no terreno das teorias de conspiração.

Contudo, acho que o mais impressionante é ver o número total de bombas que já foram acionadas. 2053 artefatos até 1998. Praticamente uma bomba a cada 100 dias. Dizem que não se disparou um tiro entre EUA e URSS na Guerra Fria – mas explodiram mais de duas mil bombas atômicas! Na imagem final do vídeo é assustador ter noção de ver em quantos lugares isso já ocorreu (e que a costa oeste dos EUA ainda esteja inteira…).

Em um ano de revisão de protocolos do TNP, polêmica do programa nuclear iraniano e estripulias da Coréia do Norte, cabe uma pequena reflexão de um tema que parece meio distante, ou até mesmo enterrado no passado. Se é perturbador saber o tanto de explosões que ocorreram, ainda pior é constatar que ainda haja milhares desses artefatos estocados ou que seja cada vez mais plausível que algum esteja em mãos de gente sem receio de causar uma hecatombe. Basta um maluco explodindo uma no lugar errado para que a tragédia ocorra. Pode parecer algo de um passado distante, superado, mas o pesadelo nuclear vai acompanhar o homem enquanto houver quem possua ou saiba montar esses aparatos da morte.


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Conversando com a Teoria

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Atemporalidade das relações internacionais

A tarefa dos estudantes de política internacional é a de construir a partir do passado sem serem por ele aprisionado, de compreender tanto as continuidades como as mudanças.” – Joseph Nye

É hora de conversarmos com a teoria! Chegamos agora ao primeiro post desta nova coluna. Antes, porém, de entrarmos nas teorias propriamente ditas, convém uma análise mais ampla sobre a idéia de relações internacionais. Será que só podemos falar em relações internacionais a partir da Paz de Vestifália, instituída em 1648 (trataremos melhor disso em outra ocasião)? Tecnicamente, sim. Mas isso não significa que mesmo em tempos anteriores a Cristo não possamos encontrar preocupações e elementos que já presentes nas vindouras interações entre nações e que conformariam as elaborações teóricas de dois milênios depois.

Embora pareça estranho, acreditem, internacionalistas de plantão e acadêmicos de profissão voltaram seus horizontes a eras tão remotas. À parte das contribuições da filosofia clássica, dediquemos este post a duas problemáticas fundamentais que perpassam por toda a história da humanidade: a guerra e a paz. Ressalta-se que ambas são congênitas ao surgimento das Relações Internacionais como disciplina acadêmica, em seu nascedouro galês, e, por muito tempo, constituíram-se com a linha-mestra para as construções teóricas.

Sob o viés belicoso, há pelo menos cinco séculos antes de Cristo já despontava a literatura da guerra na figura de Sun Tzu, um filósofo-estrategista chinês. O autor tornou-se conhecido pelo seu famoso livro “A Arte da Guerra”. Logo no prelúdio de seus escritos, ele afirma que “A guerra tem importância crucial para o Estado. É o reino da vida e da morte. Dela depende a conservação ou a ruína do império.”

Por outro lado, no tocante às condições propícias à paz, formulou-se uma literatura bastante esparsa, cujo enfoque se deu essencialmente no ser humano. Enfoque que inclusive se aproxima das concepções primordiais dos direitos humanos. Entre os anos 600 e 480 a.C. se constata o período axial da humanidade, ou seja, um momento em que coexistiram, mas sem se comunicarem entre si, cinco dos maiores doutrinadores de todos os tempos: Zaratrusta (Pérsia), Buda (Índia), Confúcio (China), Pitagorás (Grécia) e Dêutero-Isaías (Israel). Foram esses ilustres personagens que enunciaram grandes princípios e estabeleceram diretrizes fundamentais para a vida que vigoram até hoje.

Não obstante, o destaque maior coube a Tucídides, quem, para muitos, é considerado o analista pioneiro das relações internacionais, termo este que para ele remetia-se às relações conflituosas e competitivas entre as antigas cidades-estados gregas, a Grécia e os impérios vizinhos (Macedônia ou Pérsia). O historiador analisou todo o contexto em que se desenrolou a Guerra do Peloponeso (431 a.C.), evento que sacramentou o fim da civilização grega. Em um determinado momento, a ascendente Atenas – o centro político e civilizacional grego – começou a formar alianças com outras cidades-estados e compôs a Liga de Delos, a qual paulatinamente ia ganhando proeminência. Por sua vez, a notoriedade da Liga deixou Esparta – famosa por seu exército imbatível – bastante temerosa, forçando-a a delinear alianças com outras cidades-estados e fundar a Liga do Peloponeso. O óbvio e fatídico resultado desse embate foi a guerra.

Pois é, pessoal. Esta breve conversa nos convida a um olhar cuidadoso sobre o passado distante. Nem sempre tudo vem com a aplicação de um termo – no caso, relações internacionais – e a definição de uma teoria. Há uma sociologia do conhecimento que paramenta ambos. Robert Gilpin incitaria a pergunta: os estudantes de Relações Internacionais do século XX sabem alguma coisa que Tucídides desconhecia sobre o comportamento dos Estados? Seguimos conversando…


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O fausto e o fardo norte-americanos

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Novas e antigas preocupações recaem sobre os Estados Unidos da América, descortinando as janelas do futuro caminho que o gigante há de trilhar no mundo. Entre o dever histórico (e retórico) de bastiões da liberdade, democracia e direitos humanos e o possível devir do desbaste da hegemonia e influência globais. De seu grandíloquo fausto para com a humanidade ao fardo que toda essa pompa reveste, os norte-americanos procuram manter o seu lugar ao sol – no plano das idéias – e a sua preponderância na Terra – no plano material. Até quando?

A diplomacia norte-americana tem falhado na contenção de crises pelas quais a comunidade internacional tem passado. A questão nuclear iraniana, deveras problemática e alvo de intensas controvérsias, permanece irresoluta. O Irã, para além de surtos paranóicos de acusar os Estados Unidos pelos atentados à mesquita de Zahidan, também faz ponderações razoáveis, como também acusar os Estados Unidos de traírem o Brasil e a Turquia. Para Ahmadinejad, a arrogância norte-americana seria um indicativo do insucesso de uma saída negociada. Assertiva, por certo, não de todo errada, visto que aquilo que denigre o Irã é o mesmo que fortalece Israel: há uma semana e meia, o governo norte-americano firmou um acordo nuclear com o governo israelense, uma informação confidencial que vazou para a imprensa. Os princípios válidos para o Irã, não valem para Israel!

Como se não bastasse os desvios diplomáticos, a iconoclastia contemporânea tem derrubado a obra de arte do serviço de inteligência norte-americano. De acordo com uma investigação do Washington Post (aqui), os Estados Unidos estão diante da disseminação da inteligência por outros canais, deixando de ser um atributo exclusivo do Estado e tornando a nação mais vulnerável. De território inviolável e seguro para iminente terreno de operações terrorista: o medo se apodera da mentalidade da sociedade norte-americana.

Para piorar ainda mais, a popularidade de Obama decresce. Menos da metade da população norte-americana aprova a gestão do atual presidente. A ilusão do sucesso se converteu na maldição do progresso. Saúde, segurança interna, economia e política externa, os quatro se vão, assim como se iam Roma, Grécia, Cristandade e Europa, para Fernando Pessoa. Grandes desafios internos hão de influenciar os rumos dos Estados Unidos no cenário internacional e resta saber como o gigante se comportará diante de sua grandeza.

Historicamente, a todas as grandes potências competiu um papel fundamental na condução da ordem mundial. Não é diferente com os Estados Unidos. Já há evidências – inclusive outras além das supramencionadas, como o Afeganistão, Paquistão, Iraque, etc. – do desgaste de sua posição, mas a sua preponderância é indiscutível. Há lacunas entre o fausto e o fardo norte-americanos, entre o imaginário e a realidade, passíveis de investigação e sobre as quais os dirigentes do país deveriam repousar. É um momento crucial para escrutinizar os Estados Unidos e inquirir se eles estarão à altura dos desafios vindouros do século XXI.


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Apenas mais um capítulo

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E elas foram aprovadas. A grande odisseia do programa nuclear iraniano caminhou em direção de uma nova rodada de sanções no âmbito das Nações Unidas. Após uma “acirrada” votação, as sanções foram aprovadas hoje na reunião do Conselho de Segurança por 12 votos a favor e apenas 2 contra – Brasil e Turquia – além de uma abstenção. Apesar de seus membros permanentes afirmarem que as medidas eram necessárias, essa mensagem inequívoca ao Irã sustentou-se em contradições.


Mesmo consolidado o acordo que o próprio Conselho de Segurança propôs no final de 2009 – porém efetivado por Brasil e Turquia –, as sanções são levadas adiante como a única forma de resolver a questão. O argumento é que o Irã ganhou tempo para aumentar seus níveis de enriquecimento de urânio. O discurso é plausível, mas com inconsistências. Com exceção da pétrea posição estadunidense, houve certa onda de otimismo frente ao acordo. Até mesmo afirmaram que o Brasil poderia ser a última esperança de atingir um acordo na questão nuclear iraniana. Mas ao final das contas a balança pesou para o lado dos Estados Unidos, e Brasil e Turquia falharam em agir como cabeças-de-ponte por sobre o rio da discórdia que separa as grandes potências e o Irã.


Nas últimas semanas o clima estava tão propício às sanções que na última terça-feira na cúpula de segurança nuclear dos países da Ásia, o primeiro-ministro russo Vladimir Putin já deixava transparecer a aprovação da medida quando afirmou que as sanções não deveriam ser prejudiciais ao povo iraniano. Assim, a mais dura rodada de sanções contra o Irã trouxe restrições a outros bancos iranianos no exterior, estabeleceu vigilância nas transações com qualquer banco iraniano no exterior, ampliou o embargo a armas e cria entraves à atuação de 18 empresas e entidades, e ainda adicionou novos nomes à lista de suspeitos de colaboração com o suposto míssil nuclear iraniano (para o texto na íntegra, clique aqui).


Em certa medida o grande historiador clássico, Tucídides, tinha razão ao retratar o episódio do diálogo de Melos da Guerra do Peloponeso. O que podem, os mais fortes fazem, e os fracos, a eles cedem. Apesar de não lidarmos estritamente com o poder militar atualmente, há certas relações de força que impedem efetiva mediação de países como Brasil e Turquia em delicadas questões como o caso nuclear iraniano.


Mas afinal das contas, trata-se aqui de um sucesso ou de um fracasso diplomático? É difícil dizer agora. Mas algo é certo. Mesmo sendo nebulosas as intenções do Irã a via mais prudente não é a do bloqueio e a do descrédito. Haja visto que o Irã já respondeu a elas na mesma moeda, com base no mesmo descrédito. Nesse sentido a declaração do secretário de Defesa estadunidense, Robert Gates, de que a tentativa de aumentar a segurança do Irã tem criado mais insegurança – inferência ao conhecido dilema de segurança – pode voltar-se contra ele mesmo. No caminho da aprovação de novas sanções o Conselho de Segurança está restringindo cada vez mais as vias de negociação e complicando ainda mais a crise nuclear.


Mas como dar crédito a um estadista que viola princípios do direito internacional, atiça rusgas históricas e levanta suspeitas da AIEA, negando inspeções? A resposta não é simples, tanto que a questão da confiança transcende o caso iraniano. É algo que já garantiu e ainda garante grandes discussões no âmbito das Relações Internacionais. Os membros permanentes do Conselho de Segurança afirmaram que estão abertos à negociação – um pouco direcionada à maneira que propõe e aos resultados que visam – e reiteraram o papel essencial do Brasil e da Turquia nesse mérito. Assim, aquilo que era para ser o final de um livro consolidou-se apenas como um novo capítulo dessa longa estória de desconfiança no sistema internacional. Aguardemos até o próximo capítulo.



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Ao vencedor, as batatas

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Eis a profética sentença de Quincas Borbas, personagem reconhecido dos romances machadianos, entoando no presente. A ela, poderia ser incluso o comentário que Borbas lhe endereçou: “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação”. Duas frases de impacto que atravessam os anais de um século para conferirem inteligibilidade à realidade atual. Ah, sim. Estamos falando de Israel, o vencedor a quem se entregam as batatas, numa típica celebração do auto-sucesso que representa a ruína alheia.

Acreditem, o próprio exército israelense já nomeou uma comissão interna para investigar os ataques cometidos aos navios da “Frota da Liberdade”, que se destinaria a fornecer ajuda humanitária aos palestinos que vivem em Gaza, contrariando as pressões da ONU e de vários países, os quais propõem o estabelecimento de uma comissão de investigação internacional independente. Israel é de fato a terra das incoerências, não bastasse o ex-premiê Ehud Olmert declarar que o exército israelense é o mais ético do mundo depois de seu avanço exterminador sobre Gaza, no início do ano passado, agora o país quer se eximir de seus erros. A própria justificativa que prestou ao Conselho de Segurança, na semana passada, é trivial e característica de seu governo: os ativistas traziam uma mensagem de ódio e violência.

Ora, está-se praticamente diante da reinvenção do anti-semitismo sob uma matriz árabe, e não judaica como outrora, ornamentada por um sionismo tão fundamentalista quanto alguns extremismos islâmicos. Na esfera doméstica, Israel agora enfrenta fortes manifestações política contrárias. Chegou-se até mesmo a se propor no Knesset (Parlamento) uma moção contrária ao governo do atual primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, pela líder da oposição, Tzipi Livni. Consta no documento que o governo poderia ter evitado o isolamento internacional e que ser vive o pior momento da história do Estado judeu. Nota-se, portanto, que país está padecendo de uma crise de legitimidade interna e externamente.

Depois dos desdobramentos da semana passada, poder-se-ia até mesmo se deixar seduzir por uma perspectiva reducionista com relação aos confrontos no Oriente Médio: não há paz, porque Israel não quer. Esta semana, Netanyahu se encontraria com o Obama para debater as negociações diretas pela paz na região. Malogrou a iniciativa, assim como a anterior, quando Joe Biden, vice-presidente norte-americano, foi para o país intermediar as negociações com os palestinos e o governo israelense optou por expandir seus assentamentos pela Jerusalém Oriental.

Contudo, infelizmente, é triste ver que o Conselho de Segurança prefere ficar discutindo sanções ante a uma situação hipotética (a “bomba atômica iraniana”), negligenciando a aplicação das mesmas a situações reais. Israel só se conserva pela guerra – não foram os árabes que constantemente se expandiram desde 1948 – e enquanto não conter esse ímpeto frenético a paz será sinônimo de destruição, induzindo ao extermínio ou dos judeus, ou dos árabes. O físico Stephen Hawking disse numa entrevista em abril que há vida inteligente fora da Terra, mas que não seria recomendável a humanidade buscar o contato com os alienígenas, pois os resultados seriam semelhantes à chegada de Colombo à América. Nem seria preciso Hawking ir tão longe, se ele considerasse os contatos entre humanos no Oriente Médio. É preciso acabar com as batatas inglórias de Israel!


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Um mundo mais seguro?

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O Instituto Internacional de Pesquisas de Paz de Estocolmo (SIPRI) publicou a edição 2010 de seu famoso relatório anual sobre gastos militares, e mais uma vez nos leva a refletir sobre as condições do mundo em que vivemos.


Alguns autores realistas em Relações Internacionais, como Kenneth Waltz, acreditam que o período de Guerra Fria era de grande “estabilidade”. Duas potências armadas até os dentes, e baixa possibilidade de guerra direta. Vivia-se à sombra da guerra, de um holocausto nuclear, mas ainda assim, “estávamos seguros”. Como o filósofo italiano, Norberto Bobbio, afirmou, a “consciência atômica” foi aos poucos atingindo as grandes potências, e o entendimento de que as armas nucleares não eram ferramentas de poder imperial, mas de extermínio se alastrou levando aos regimes de não-proliferação. Pois afinal, sem reino não há reinado.


Atualmente, a “estabilidade” e as “certezas” degeneraram-se em retóricas regadas pela semântica da pacificação, combate a inimigos sem face e desarmamento. Não se sabe se a não-proliferação é realmente visada ou se é uma forma de manter as estruturas de poder militar do sistema internacional; e se seu parceiro essencial, o desarmamento, caminha realmente a seu lado.


O relatório do SIPRI nos dá algumas ideias de em que vias a nova retórica do século XXI acompanha as práticas concretas dos Estados. O dado mais surpreendente (e contraditório) é que mesmo apesar da grave crise econômica de inicio em 2008, os gastos militares na maioria dos países continuaram a crescer. Nas Américas, os gastos militares cresceram 7,6% em relação a 2008 e 72% em relação a 2000; mesmo considerando a redução do PIB de muitos desses países. Na América do Sul, o Brasil foi o campeão de aumento em termos absolutos, de $3,8 bilhões, enquanto que em termos relativos o primeiro lugar pertence ao Uruguai com crescimento de 24%.


O documento afirma que países como o Brasil, a Índia e a China foram pouco afetados pela crise e seus pacotes de incentivo à economia foram eficazes no combate a seus efeitos. O crescimento dos gastos militares nesses países seria então condizente com suas ambições de maior reconhecimento e atuação no plano internacional.


Há algo bem interessante a ser pontuado e questionado nos resultados. Os EUA ainda mantém um elevado gasto, de $661 bilhões, no geral resultado das políticas da administração Bush. Todavia, pouco foi alterado no governo Obama e esses gastos continuam a crescer. A prospecção é de que em 2011 o orçamento militar do país será de aproximadamente $739 bilhões. As ocupações do Iraque e do Afeganistão e o combate ao narcoterrorrismo servem como explicações plausíveis para o fenômeno, porém não condizem com a retórica estadunidense de Obama.


Alguns movimentos como a celebração de um novo tratado de desarmamento com a Rússia pelos EUA, as alterações no Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e as tentativas de aumentar as capacidades de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) denotam certa inflexão na retórica das potências mundiais e de países em todo o mundo.


O discurso não parece muito condizente com as práticas internas militares desses países (em especial dos EUA). Será mesmo que estamos caminhando para a concretização da promessa de Obama em Praga no ano passado, para “a paz e a segurança de um mundo sem armas nucleares”? Mesmo que não haja armas nucleares, há armas, e sempre haverá. Poderíamos até estar em um mundo parecido com o de outrora. Mas agora maquiado de novas retóricas, de um suposto “mundo mais seguro”…


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Paz na Caxemira?

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Pombas brancas são símbolos de paz, correto? Bom, nem sempre. Pelo menos não é o caso quando se trata da região da Caxemira, disputada por Índia e Paquistão há décadas…


Hoje, uma pomba branca foi retida na Índia e está sendo vigiada por guardas armados. O motivo? Ela estaria espionando a favor do Paquistão, pois tinha um anel em uma de suas patas, um número de telefone e um endereço paquistaneses impressos em seu corpo com tinta vermelha. Nenhuma mensagem foi encontrada, mas mesmo assim o caso está merecendo atenção da polícia indiana.

Para entender a razão do alarde atual, é importante recorrer a informações históricas, especialmente no que tange a conflituosa região da Caxemira. Índia e Paquistão são ex-colônias britânicas que alcançaram sua independência no ano de 1947, sendo que seus territórios foram determinados pela religião dominante (Índia – hindus; Paquistão – muçulmanos).

Contudo, a região denominada “Caxemira” (vide mapa abaixo) desde então se constitui em um palco de conflitos entre os dois países, pois, além de se constituir em uma área de riquezas naturais, a maior parte da população da localidade é muçulmana e quer ser anexada ao território paquistanês, situação que a Índia repudia. O Paquistão, ao mesmo tempo, reivindica o controle total da região. Trata-se de um dos maiores conflitos internacionais pela posse de territórios e por redefinição de fronteiras.

Mais de 30 mil pessoas já morreram nos muitos anos em que o conflito pela soberania da região se desenrola, sendo que, desde 1998, o local também se tornou palco de testes nucleares de ambos os países, intensificando a atenção que a comunidade internacional dedica aos acontecimentos.

Várias foram as tentativas de promoção de diálogo entre os países, sendo que impedimentos têm dificultado essa reaproximação: em 2008, por exemplo, época em que os Estados se encontravam com vias de diálogo abertas, houve o atentado de Mumbai em que mais de 150 indianos morreram (um grupo terrorista paquistanês que atua na Caxemira foi acusado de protagonizar o ataque, o que impossibilitou a continuidade do diálogo entre os países).

Este mês, quase dois anos depois do ocorrido, Índia e Paquistão anunciaram a retomada do diálogo, sendo que as expectativas para a busca pela paz na região da Caxemira continuam. Enquanto isso não acontece, todavia, a pomba branca – ave que costuma simbolizar a paz – se encontra retida em uma sala refrigerada sob olhar atento de guardas armados indianos…


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Irã e a questão nuclear: Parte 384594

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Discussão vai, discussão vem sobre o papel do Brasil na negociação com Irã e Turquia. O assunto ainda está rendendo pano pra manga. Agora, segundo Ahmadinejad, Teerã deve informar oficialmente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre os termos do acordo e reiterar o cumprimento do mesmo.

Enquanto isso, no Conselho de Segurança, os EUA conseguiram negociar com as demais quatro potências uma quarta rodada de sanções econômicas. Basta convencer outros quatro membros rotativos e tá tudo certo. Os termos das sanções, que devem incluir restrição ao acesso ao petróleo, foi classificado como uma ‘piada’ por Ahmadinejad.

Segundo Marco Aurélio Garcia, “se os EUA optarem pela sanção, eles vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política. Cabe aos EUA decidir se querem ou não um new deal com o Irã”.

Em primeiro lugar, ninguém quer entrar nesse balaio de gato que é a situação com o Irã. E recriminar os EUA por levar adiante as sanções parece ainda mais improvável. Apesar disso, permanecem dúvidas sobre a viabilidade do pacote de sanções. Os discurso das cinco potências gira em torno do argumento de que o acordo com a Turquia não impediria a aplicação das resoluções, já que elas recairiam sobre o fato de que o Irã não deixaria de enriquecer urânio a níveis mais altos.

Sanções econômicas NÃO funcionam. Não funcionaram com países menores, não funcionaram até agora com o Irã, e não funcionarão. Independente da atitude brasileira e turca ser ou não plausível, levar ou não a algum lugar (isso só poderemos aber com algum tempo), aplicar sanções é quase uma provocação para que o Irã continue enriquecendo Urânio e emitindo comentários do tipo ‘isso é uma piada’

Definitivamente, se negociar não é efetivo, como as potências afirmam, esse cabo de guerra parece mais aquelas situações em que os adultos falam “Você vai apanhar se não entrar na linha”, e a criança, além de mostrar a língua, ainda retruca “E daí? Nem doeu!!”


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Tensões coreanas

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Carl von Clausewitz, importante nome para os estudos sobre Segurança nas Relações Internacionais, apresenta uma das definições mais conhecidas do conceito de guerra: “a guerra é a continuação das relações políticas por outros meios”, ou melhor, pela força armada. As Coréias se encontram, nestes últimos dias, em um momento em que esta possibilidade bélica está aflorada (informações detalhadas aqui).

No final de março deste ano, o navio de 1.200 toneladas “Chenoan” da Coréia do Sul naufragou após uma explosão, diante da ilha de Baengnyeong, no Mar Amarelo. Até semana passada, esta explosão representava um mistério, resolvido apenas nos últimos dias a partir da conclusão das investigações internacionais. Segundo Seul, a embarcação sul-coreana partiu-se após ter sido atingida por um torpedo disparado por um submarino da Coréia do Norte.

Dos 104 marinheiros a bordo, 46 foram mortos no acidente, situação que gerou grandes implicações em uma das áreas mais militarizadas do mundo, compreendendo a complicada definição de limites marítimos (definidos unilateralmente pela ONU) da área em que o navio naufragou.

Os noticiários internacionais apresentaram que o regime norte-coreano ameaçou anteontem entrar em guerra contra a Coréia do Sul se houver sanções da ONU pelo ataque a este navio de guerra. Esta situação foi considerada um dos incidentes mais graves desde o armistício de 1953, relembrando que historicamente a Guerra da Coréia (iniciada em 1950) não terminou com um acordo de paz definitivo, mas apenas com um cessar-fogo que tem se mostrado cada dia menos estável.

Sanções à Coréia do Norte, especialmente econômicas, são cogitadas por esta situação e a acusação deve ser levada na segunda-feira à Organização das Nações Unidas pela Coréia do Sul em busca de resoluções: a pressão para incluir novamente a Coréia do Norte na lista norte-americana de terroristas é grande, sendo que Hillary Clinton se pronunciou vagamente a respeito do assunto enquanto a China apenas considerou o episódio como um incidente “infeliz”.

Compreender de que forma a guerra se encontra entre as possibilidades de relações políticas entre os Estados é um dos aspectos predominantes na análise em Política Internacional, tal como Clausewitz sugere. Resta-nos aguardar, pois, o desenrolar das tensões coreanas para saber como este impasse do cenário internacional pode repercutir nas relações inter-estatais.


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Buemba!

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Irã? Coréia do Norte? Cazaquistão? Bangladesh? Mianmar? Emirados Árabes Unidos? Venezuela? Nada disso! Segundo o Der Spiegel, o Brasil é o próximo país a desenvolver tecnologia nuclear.

A relação incômodamente próxima de Irã e Brasil já deu o que falar em outras oportunidades. Dessa vez, Teerã aceitou a mediação do Brasil para uma proposta engavetada há algum tempo. O acordo prevê que o Irã envie seu urânio à França e Rússia, para que esses países se encarreguem de enriquecê-lo e posteriormente, utilizaria o combustível processado nos reatores iranianos. O objetivo, segundo as potências, seria o de evitar que o material se destine à fabricação de armas.

A idéia do acordo surgiu em negociações conduzidas em outubro do ano passado pelo órgão regulador de energia nuclear da ONU, que pedia que o Irã enviasse 1.200 quilos de seu urânio de baixo enriquecimento – o suficiente para a fabricação de uma bomba se enriquecido no patamar necessário – para França e Rússia, onde seria convertido em combustível para um reator de pesquisas em Teerã, que fabrica isótopos para o tratamento do câncer. As potências se recusaram a reescrever o acordo para atender as exigências iranianas. (fonte: Opera Mundi)

Mas em que isso se relaciona com o ‘Brasil mal-intencionado’ ao qual o Der Spiegel se referiu? Isso é só um desdobramento de um ponto anunciado semana passada aqui no blog: o Brasil sempre flertou com a capacidade nuclear. Sei que muitos se lembram dos tempos de inspeção nuclear generalizada por parte da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, na guerra ao terror. Os inspetores tentaram verificar uma instalação de enriquecimento em Resende. Não conseguiram acesso irrestrito e isso deu o maior bafafá, posteriormente apagado.

A posição do Brasil sobre o TNP incomoda muita gente, sim. Por isso, começam a levantar as suspeitas de que o país será o próximo a brincar de arsenal nuclear no cenário internacional. O mistério que o Brasil faz acerca das instalações militares e os submarinos nucleares. A matéria do Der Spiegel termina dizendo que “mesmo sem nenhuma prova definitiva das atividades nucleares do Brasil (ainda), eventos do passado sugerem que é altamente provável que o Brasil esteja desenvolvendo armas nucleares. Nem a proibição constitucional e nem o Tratado de Não-Proliferação impedirão isso de acontecer”.

E obviamente esse holofote não estaria aqui não fosse a insistência brasileira de defender o Irã. O que move o governo brasileiro para esse lado? Reciprocidade?


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