O poder do além governo

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No atual processo democrático em diversos países, observamos um vai e vem de presidentes e primeiros-ministros no poder. O tempo passa, a sucessão continua, e o que fica é o legado desses líderes. E, assim, surgem muito mais perguntas do que respostas. E é olhando para essas dúvidas que os novos candidatos baseiam sua retórica de construir algo novo.

Mas o poder é algo interessante. Muitos deixam o poder e tentam continuar na construção de seu legado. Um exemplo interessante é pensarmos no número de casos de ex-presidentes e ex-grandes líderes escrevendo autobiografias e financiando filmes de sua própria imagem por aí. O filme “Lula, o filho do Brasil” e o livro “Minha Vida” de Bill Clinton são apenas alguns pequenos exemplos.

É assim que aqueles que saíram do poder continuam a exercer o poder. Um poder diferente, sem dúvida, todavia, ainda é poder, e muito bem é capaz de influenciar outros. O mais novo membro desse grupo é o queridinho do Iraque, o nosso Bush filho. Seu livro trata das decisões mais, digamos, decisivas de seu governo. Dos momentos mais cruciais. Uma biografia um pouco diferente. É impressionante como o presidente não só afirma que foram usadas técnicas de “interrogatório forte” contra suspeitos de terrorismo, como foram autorizadas por ele. Revelações como essa não chegam a ser surpreendentes, porque afinal, bem se sabe como essas investigações são conduzidas.

Quem assistiu filmes policiais brasileiros, como Tropa de Elite, bem sabe que há técnicas diversas de se fazer pessoas confessarem. Todavia, em se tratando de relações internacionais e de terroristas internacionais, e, adicionando à mistura uma dose de preconceito, é de se imaginar também o número de árabes e islâmicos que não passaram por esse tipo de método de interrogatório sem terem ligações íntimas com as redes internacionais de terror.

Bush filho ainda defendeu que a invasão do Iraque tornou o mundo mais seguro. E que, a não descoberta de armas de destruição em massa no país, gerou um “efeito nauseante”, ou seja, custou-lhe uma bela dor de barriga. Dor de barriga, não por não as ter encontrado, mas pelo efeito gerado na comunidade internacional dessa empreitada, aparentemente, sem objetivo muito claro ou não muito justificável, e pelo custo que isso teve aos EUA.

A tentativa de Bush de exercer um outro poder existe. E assim, busca um legado, de uma imagem que vem se erodindo no tempo. De apontar que agora, graças a todos esses eventos, o Tio Sam pode ter mais horas de descanso, e até mesmo apreciar um refrigerante tranquilamente. Porque agora o mundo é mais seguro.

Se essa imagem é difícil de engolir para muitos, para outros ela é muito forte. Enquanto pessoas se bestificam com o vazamento de informações sobre mortes de civis do Wikileaks, muitos aplaudem torturas a supostos terroristas nas cadeias no Iraque e Afeganistão. Esse poder indireto das tentativas de construção de legados é muito mais forte do que se pensa. E, no caso de Bush, expõe a contradição inerente na sociedade ao lidar com o terrorismo e questões de segurança nacional.


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Correio elegante no Halloween

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Em pleno Halloween, recuperaram-se as brincadeiras juninas. O correio elegante está de volta! Elegante no disfarce, deselegante na ação: escolhe-se um amiguinho e se envia a mensagem subliminar “vou te explodir”, por intermédio de uma correspondência suspeita. Nas comemorações deste Dia das Bruxas, esqueceram-se dos doces e preservaram apenas as travessuras. Travessuras travestidas de correio elegante. Os costumes mudam…

E mudam mesmo. Recordem-se, pessoal, do tempo do antraz, no imediato posterior ao 11/09. A bactéria do mal foi supostamente disseminada por cartas pelos Estados Unidos, acarretando no que se convencionou chamar de “bioterrorismo”. Quase uma década depois, as cartas portam instrumentos tradicionais: bombas. A moda agora (ou a volta dela) é pacotes-bomba; o remetente, o terrorismo. A princípio, dois pacotes-bomba, provenientes do Iêmen e que chegariam ao solo norte-americano, foram interceptados: um no Reino Unido, o outro nos Emirados Árabes (aqui). O Tio Sam está em alerta, ainda mais em clima eleitoral. (Acompanhem este artigo sobre a ação dos EUA no Iêmen.)

Hoje o dia amanheceu mais travesso. Cinco pacotes-bombas foram achados na Grécia e um no gabinete da primeira-ministra alemã, Angela Merkel. Na Grécia, um explodiu na embaixada da Suíça, sem deixar feridos, e os demais foram descobertos. Três deles eram endereçados as embaixadas da Bélgica, Holanda e México, o quarto era para o presidente francês, Nicolas Sarkozy. (aqui e aqui)

Estes incidentes nos conduzem a algumas reflexões. Primeiro, para quem achou que o terrorismo nuclear deveria ser a sensação, perdeu a aposta em curto prazo. A Cúpula de Segurança Nuclear deste ano lidou com esse elemento estático que pulula a inteligência norte-americana (terrorismo), acrescido da preservação do clube atômico. A resposta veio pelo correio. Em segundo lugar, os muçulmanos mergulharam na blasfêmia européia, em que a liberdade religiosa não é mais do que retórica constitucional, demarcada pelas fronteiras e pela história. Cabe aos segregados encontrar uma maneira de expressar o seu descontentamento, isto é, aterrorizar. O acaso pertence à Física, não à política, que combina a virtù e a fortuna maquiavélica. Bin Laden já avisou que o velho continente pode ser vítima de atentados terroristas. (Revejam também o post do Luís Felipe sobre as armas nucleares.)

O correio elegante travesso, combinando Festa Junina e Halloween, foi a tônica da política internacional desta última semana. Por enquanto, a brincadeira parece vir como um aviso. O bom e velho terrorismo ainda não se faz com armas nucleares e repele o macarthismo contemporâneo que caça as bruxas muçulmanas. Outrossim, o vôo cego sobre a diferença não é a melhor maneira de combater o terrorismo. Logo, logo, a brincadeira há de mudar, com outros festejos e dramas…


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Medo: a arma de destruição em massa

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Uma ameaça terrorista real, assim descreveu o presidente Obama os dois pacotes vindos desde o Iêmen e que haviam sido interceptados no Reino Unido. Por este motivo, todos os vôos com carga de mesma origem foram alvo de grande precaução, sendo escoltados por jatos militares e meticulosamente vasculhados.  

O rabino Harold Kusher defende que o medo está ligado ao recente aumento dos fundamentalismos e ações violentas que presenciamos no nosso dia-dia. A tradução para o medo, nesse sentido, seria a raiva. Em direção similar a preconizada por Bauman (renomado cientista social polonês), Kusher vincula o medo que sentimos a elementos fora de nosso controle. Quantas vezes não estamos apreensivos, não conseguimos dormir, sofremos de ansiedade ou queremos enfrentar o que nos espera de uma vez por todas? 

Essa é justamente a premissa que segue historicamente o desenvolvimento de movimentos terroristas por todo o mundo. O instrumento utilizado é a ameaça à vida de pessoas de maneira aleatória. O objetivo, no entanto, não é o de matar por uma causa. Por trás de tudo, pode-se identificar a intimidação como fim. Os atentados de 11 de setembro são exemplo disso, a morte de centenas de inocentes no evento gerou um sentimento de insegurança em todo os Estados Unidos, tendo ainda implicações no mundo todo. Imaginem só, se o centro econômico do país mais poderoso do mundo colapsou frente aos terroristas, o que pode esperar o mero cidadão?

Por outro lado, a destruição e o medo que o terrorismo promove são desproporcionais a sua real dimensão. As chances de uma pessoa ser alvo de uma ação terrorista ao andar por centro comercial ou em vôo é extremamente menor do que a possibilidade de ser sofrer um acidente automobilístico, para ficarmos em um exemplo somente. Não é lógico, portanto, viver sob uma constante ameaça e construir diversas concatenações psicológicas. De uma certa forma, há muitos perigos e ameaças ao nosso redor. O medo somente serve para redimensionar as ameaças para uma esfera muito além de sua real faceta.  

Assim como na vida pessoal, enfrentar o medo pode se converter no principal contra-ataque aos terroristas. O dia que as pessoas não deixem mais de fazer o que querem por temer ser alvo de uma ação imprevisível de um fundamentalismo qualquer, estará plantada a semente que pode libertar a humanidade do terror que emana do mesmo. Ao menos assim defende Kusher. Todos sabem o que gerou o 11 de setembro: uma odisséia contra um inimigo invisível por meio de uma guerra contra forças ocultas. Guerra essa que não teve e nunca terá fim.  

O que se pode fazer com tudo isso considerado? Primeiro, aceitar nossa condição de vulnerabilidade. Não há segurança absoluta. Os mecanismos estatais, através das atividades de inteligência e prevenção ao terrorismo, são nossa proteção disponível. Não há garantia, mas sucumbir ao medo somente gerará maiores conseqüências negativas. A face nefasta do terrorismo é justamente o fato de que as armas mais poderosas não são as bombas ou elementos químicos, e sim o sentimento que estas geram em cidadãos cada vez mais apavorados, paralisados e suscetíveis a irracionalismos.  


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A liberdade do silêncio

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Enquanto, no Chile, mineiros presos em mina são lentamente elevados por uma espécie de elevador para fora do local, nos Estados Unidos, as forças armadas bem lentamente são retiradas de um largo fosso que, há muito, têm sido mantidas: o fosso da discriminação e do preconceito.

No furor de uma conturbada campanha eleitoral, o nosso Obaminha “paz e amor”, uma vez declarou que levaria à ordem do dia a política adotada para os homossexuais nas forças do país, que têm sido alvo de severas críticas por diversos setores da sociedade.

Desde o mandato de Bill Clinton que se instituía o “Don’t Ask, Don’t Tell”, que, basicamente, garantia a “liberdade” aos homossexuais de permanecerem calados sobre sua opção sexual durante o período de serviço. Todavia, se fosse descoberto que qualquer membro das forças armadas é homossexual, esse poderia ser exonerado da posição que ocupa.

Agora, 17 anos depois, a juíza federal, Virginia Phillips ordenou a revogação da lei e de qualquer aplicação cujo processo ainda esteja tramitando, consolidando a promessa de Obama. O primeiro passo na direção da limitação de qualquer discriminação já foi dado. Pelo menos pelas vias jurídicas não mais se incentiva o preconceito.

Uma medida como essa, contudo, não automaticamente elimina todo e qualquer preconceito e discriminação existente. Tudo aquilo, que já se encontra incutido no imaginário de grande parte da população, permanece, a exemplo de visões discriminatórias e insubordinação frente a oficiais de alto escalão homossexuais.

Visões partilhadas por oficiais de muitos países, a exemplo do próprio Brasil.


Vale lembrar um interessante episódio no início desse ano, quando um general brasileiro defendeu que um homossexual não teria os atributos para o comando de uma tropa, já que não seria respeitado. Uma escolha pobre de palavras para retratar um preconceito muito bem difundido.

Bom, enquanto no Brasil a discussão ainda é longa, pelo menos nos Estados Unidos deu-se o primeiro passo em direção da construção de qualquer equidade maior entre homossexuais e heterossexuais nas forças armadas. A inconstitucionalidade do “Don’t ask, don’t tell” já foi declarada após um hercúleo esforço do governo. Apenas falta a tramitação de renovações na lei pelo Congresso, outra tarefa árdua.

O preconceito ainda existe, e, o próximo passo seria garantir novos recursos no âmbito da justiça militar para casos de desrespeito. Para que se altere uma visão que reflete a valores de preconceito herdados de séculos passados é preciso se iniciar pela via jurídica. Garantida a equidade jurídica, lentamente, pela maior participação desses indivíduos nas políticas e questões das forças armadas, talvez a discriminação possa ir se esvaindo.

A liberdade de permanecer calado tem os dias contados nos Estados Unidos. Apenas rompendo o silêncio é que se pode ver que seu manto esconde gritos agonizantes de minorias que desejam ter direitos, como todos. Dinamarca, Holanda, Grécia e Canadá já viram isso. Os EUA caminham para tal. E o Brasil? Por quanto tempo ainda manterá a “ampla gama” de direitos do silêncio, de se permanecer calado?


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Alteridades disfarçadas: a marcha autofágica sobre a diferença

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Que ninguém se engane: esta onda de aversão que tem tomado conta do mundo não é apenas produto da intensificação da globalização! Mais do que isso, ela é subproduto da consolidação do Estado-Nação, desde a edificação do templo de Vestifália (1648), que se dedicou à exclusão do “Outro” para a preservação do “Nós”. Assim, a humanidade se lançou a uma marcha autofágica sobre si, em que a extensiva eliminação da diferença conduziu também a eliminação do reconhecimento mútuo: a totalidade do “Nós”, como seres humanos universais, independente de bandeiras ou territórios.

Em post recente, a Andrea muito bem retratou a problemática francesa (aqui). Situação que encontra os seus gêmeos siameses por toda a Europa, dos turcos da Alemanha aos separatistas tchetchenos. Um continente tão díspar, o maior exemplo do processo de integração, é também o lugar-comum de uma diferença incandescente. O problema é o “Outro”; a solução é combatê-lo. Daí a adoção de leis de intolerância e medidas de segurança contra ciganos, imigrantes e esperanças. A busca por um lugar ao sol, pela aproximação com o humano, cai como o véu que é despido das muçulmanas.

Estranho fenômeno acomete aqueles que se criaram a partir da diferença, ou aqueles que produziram a diferença para depois eliminá-la, como se o passado fosse o exoesqueleto de um inseto no período da muda. O esquecimento é um dos sintomas da síndrome do crescimento. Outro seria o progresso. Os Estados Unidos, país formado por imigrantes, fecha ostensivamente as portas para a diferença. E criam os seus estereótipos: narcotraficantes mexicanos, criminosos latinos, terroristas árabes. De paraíso para a imigração, o Arizona se converteu no inferno (aqui e aqui). De turistas a vigilantes (vejam aqui também), eis o procedimento que se deseja para os norte-americanos que viajam pelo mundo. Portugal, por sua vez, um dos primos pobres da União Européia, quando se torna importador de mão-de-obra, atrela a criminalidade aos imigrantes. Israel, ao se elevar à condição de Estado – em reparação ao combate à diferença que levou ao genocídio dos judeus –, empreende o expansionismo sobre a diferença e discute agora a questão dos assentamentos judaicos, um dos freios para paz no Oriente Médio.

Até onde vai esta impulsiva marcha autofágica sobre a diferença? É de práxis todas as resoluções e demais documentos das Nações Unidas advogarem em prol de uma comunidade mundial, assim como também o é na imprensa ou nos discursos de líderes de todo o mundo. Mas o mundo pouco transcende as fronteiras nacionais e a Física precisa mudar a lei da atração dos opostos. As promessas da globalização, que tanto inspiram o cosmopolitismo, confrontam com o compromisso estatal de eliminar a diferença, tão presente e tão culpado em sua realidade interna. É lamentável esta alteridade disforme, que insistentemente apagam a história e o tempo do que fomos e somos: seres humanos!


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Enquanto você dormia…

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[post inspirado por reflexões advindas de um Seminário sobre Estudos Estratégicos organizado pela FLACSO Equador]

 

Os serviços de inteligência são generalmente vinculados ao Poder Executivo, sob a tutela direta do chefe de Estado/governo. No entanto, podem estar sujeitos a Congressos/Assembléias Nacionais ou outra autoridade na estrutura da administração pública, variando de acordo com os diferentes arranjos constitucionais existentes. Formam, juntamente com as Forças Armadas e policiais, a base coercitiva do Estado contemporâneo. A função específica da Inteligência no aparato estatal é a obtenção de informação para favorecer áreas como: defesa nacional, política externa e ordem interna. Assim, a partir de uma análise histórica, essa temática é recorrente e de grande importância. Notadamente, tende-se a vincular serviços de inteligência a mecanismos secretos de repressão, contudo não se pode limitar-la a esta vertente exclusivamente.

Tomando as considerações de Marco Cepik como base, é possível identificar que a Inteligência está presente no processo de conformação dos Estados nacionais. Na Europa moderna, a guerra e a utilização de serviços de inteligência foram duas das bases coercitivas utilizadas para consolidação de um corpo normativo, sob o qual tiveram que conviver grupos sociais em conflito. Estava, portanto, já na formação institucional e na conformação de uma estrutura estatal que culminaria no Estado moderno soberano, aquele mesmo que remonta ao modelo weberiano de monopólio legítimo da força, no qual há um exercício de autoridade exclusiva sobre um determinado território e sua população. Neste contexto, ainda de acordo com Cepik, a Inteligência era vista como uma maneira de manter o controle interno, refutar possíveis interesses ou influência externa, assim como uma maneira de capitalizar em relações comerciais ou em guerras com outros Estados.

Trago um distinção importante, fruto da explanação de um dos expositores do Seminário. Inteligência difere fundamentalmente de polícias políticas ou serviços secretos. Em alguns eventos estiveram fortemente ligadas, mas não se pode estabelecer um critério decorrente dos mesmos. Pensando o contexto latino-americano, os serviços de Inteligência tiveram sua criação (ou consolidação ante o aparato estatal) durante a Guerra Fria, como uma maneira de conter o avanço comunista e agir como um mecanismo de contra-insurgência frente às cédulas comunistas que se estabeleceram no continente. A base, dessa maneira, foi a Doutrina de Segurança Nacional, criada durante a presidência de Truman nos Estados Unidos e que teve ampla aceitação junto aos governos militares latino-americanos.

Chegando ao final da década de 1990 e ao início dos anos 2000, com regimes democráticos em plena consolidação na região, há o surgimento de ondas de institucionalização dos serviços de Inteligência. Passando pelo Brasil (1999) e Argentina (2001) em um primeiro momento; mas logo se expandindo para Chile (2004), México e Guatemala (2005), Peru (2006); para por fim chegar também a Equador e Colômbia (2009). De certa maneira, reforçando o compromisso de conformar um serviço de Inteligência regulamentado, fiscalizado e transparente (à medida do possível), que sirva ao fortalecimento democrático e ao Estado de Direito. Considerando o contexto atual de novas ameaças (não estatais), globalização e mundialização e o terrorismo pós-11 de setembro, a normatização da Inteligência como fonte de conhecimento e informação para a tomada de decisões políticas pode servir ao seu objetivo. Inclui-se também, em um cenário ideal, uma componente ética.

O clima entre os debatedores do Seminário era de grande confiança. Os passos dados foram largos. Contudo, permito-me a dúvida. Nossos líderes latino-americanos, há de se admitir, têm uma tendência autoritária (ou concentradora de poder) e populista (governam, em muitos casos, pautado em carisma pessoal que propriamente em um plano de desenvolvimento a longo prazo). Neste sentido, obter informação privilegiada pode tornar-se igualmente um aparato na máquina de governo, mais ainda quando sob um marco normativo que coloque os serviços de inteligência sob a tutela do Poder Executivo. O professor peruano, Andrés de la Torre, quando comentou o avanço da temática em seu país, citou que Fujimori (ex-presidente peruano) solidificou durante sua presidência um serviço de inteligência com o intuito de apoiar seu segmento político, funcionando como suporte ao aparato público e tendo forte vinculação a seu projeto político (a qualificou como uma espécie de Stasi peruana). O serviço de inteligência inclusive tinha a incumbência de negociar acordos com congressistas no sentido de aprovar suas propostas.

A inteligência é uma via de dois sentidos. Pode funcionar como base na defesa da ordem democrática e do Estado de Direito, ao mesmo tempo em que – quando utilizada com má fé – pode formar mais uma arma no arsenal de líderes autoritários. A velha sabedoria popular nos adverte: tem caroço nesse angu.

Como relembrar é viver: 1,2

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Há um ano...

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Há um ano, o blog exalava a boa e velha Segurança e Defesa. Tínhamos textos sobre a repercussão da Estratégia Nacional de Defesa (que até hoje não mostrou muito a que veio…) e o lançamento da Estratégia Nacional de Inteligência dos EUA (sempre focado no uso da força contra insurgentes e que tanto resultado demonstrou no Iraque e no Afeganistão…). Mas o que mais teria repercussão hoje seria, provavelmente, o interessante texto acerca da aproximação da OTAN com a Rússia, por meio de seu secretário-geral. Como se sabe, a Rússia não faz parte da OTAN, mas afirmava-se que essa conexão seria muito importante para evitar conflitos e problemas diversos no barril de pólvora chamado Oriente Médio, além das crises pontuais de sempre como a da Coréia do Norte e do Irã.


Hoje? Essa aproximação não parece ter frutificado tanto (ou mesmo ocorrido). Isso é visível por exemplo no caso do Quirguistão, em que há elementos da busca russa por uma esfera de influência regional que inflamaram a discórdia no país e, sob o pano de fundo da rivalidade de bases militares com os EUA. Obviamente, a Rússia não vê com bons olhos a atuação da OTAN na região, e a formação de uma nova arquitetura de segurança na região não me parece viável em curto prazo.

Por último, mas não menos importante, há pouco mais de um ano a Página Internacional era laureada com o Prêmio de Melhor Blog de Política na categoria blog pessoal pelo Júri Acadêmico do Top Blog!

Ivan e Alcir, dinossauros do blog, na premiação

O prêmio reflete a filosofia da equipe de sempre buscar a análise de maior qualidade, mas com um espírito acessível e dinâmico. Relembramos este feito que contou com a participação e dedicação dos membros pioneiros, e os parabenizamos. E fica o convite aos estimados leitores para a votação deste ano, que continua até outubro!

É isso aí. Postando, relembrando, e votando pessoal!


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Tempo presente

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E o 11 de setembro passou. Sem queima de Alcorão, sem mais atentados. O dia se foi, mas persistem as reflexões – se não pela triste memória do golpe militar de Pinochet no Chile, pelos ataques aos EUA. Afinal, completaram-se 9 anos, e análises mais profundas certamente virão quando se completar o decênio dos atentados em Nova Iorque/Washington/Pensilvânia, mas a lembrança do dia fatídico nos traz uma questão um pouco mais complexa, enveredando por uma área do conhecimento um pouco diferente das RIs.

Certamente, a maioria dos leitores se recordam com alguma clareza do que estavam fazendo no dia fatídico, até mesmo no momento em que foram surpreendidos com as imagens chocantes pela televisão ou internet. Isso comprova a natureza atípica daquela manhã de 2001 – muitos podem até nem ter ideia da importância desse fato, mas mesmo inconscientemente têm a noção de que presenciaram algo sem precedentes na história da humanidade. E foi algo tão importante que suas conseqüências estão indefinidas até hoje.

A primeira e mais imediata foi a guerra ao terror. Os EUA invadiram o Afeganistão e o Iraque, derrubaram regimes que “financiavam o terrorismo” e estão com dois abacaxis nas mãos. Estão prestes a deixar o Iraque, em frangalhos, e a solução do Afeganistão não tem nem previsão tão cedo. Outros resultados diretos do 11/09 incluíram a paranóia da segurança que fez os norte-americanos terem medo até da própria sombra, e o aumento do preço do petróleo que repercute até hoje. Todos esses são problemas que não têm consequências previsíveis em curto prazo. Há até mesmo obscuros problemas de saúde que estariam afetando as vítimas e os voluntários que aspiraram a poeira tóxica e mortal dos escombros. Quase uma década depois, essa “doença” tem seus efeitos desconhecidos. Malformações fetais? Câncer? É uma incógnita e os estudos são inconclusivos.

E quanto à História em si? Se o 11/09 afetou tantos as Relações Internacionais quanto a História, seria um daqueles pontos de inflexão como a queda de Roma ou a Revolução Francesa? Existe algo que assombra a historiografia, e é a chamada “história do tempo presente”: seria algo impossível de estudar, pois a falta de distanciamento do historiador do objeto de pesquisa e a falta de percepção de resultados em longo prazo (veja mais sobre o assunto aqui).

Por isso mesmo a angústia do 11/09: não sabemos seus resultados profundos que não sejam prospecção de cenários, mas temos a percepção de que foi uma inflexão – talvez até mesmo um novo marco na historiografia? O início de uma nova Idade, digamos, Pós-Contemporânea? São apenas divagações, mas não impossíveis. Seus efeitos ainda vão reverberar por muito tempo, e podem vir de maneiras que jamais imaginaríamos – como um clérigo exaltado que ameaçou por o mundo islâmico em ebulição com sua fogueira de livros sagrados. O importante é saber que neste momento ainda estamos vivendo os efeitos desse marco, que continua a se construir dia-a-dia. Onde vai parar? Mistério. Pelo menos até as gerações futuras receberem esse legado do presente.


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Teatro em Washington, platéia em Teerã

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Essa semana, palestinos e israelenses juntaram-se à mesa de negociações pela enésima vez, agora sob supervisão de Hillary Clinton. Há algum tempo, Lula pleiteou a tradicional cadeira de mediador, sempre ocupada por americanos. Não a obteve. Tentou, então, reconciliar Irã e o resto do mundo. Não conseguiu.

Mas esse post não é sobre as aventuras brasileiras no mundo árabe, e sim sobre o infindável processo de paz (ou não) da região. Para começo de conversa, essa primeira rodada de negociações do governo Obama não vem em tão boa hora (para si mesmo). O presidente americano ainda tentou endurecer o discurso e pressionar Israel a desocupar as colônias judaicas em território palestino. ponto crucial para um acordo de paz. A suspensão provisória das construções foi o máximo obtido.

No decorrer do encontro, quatro israelenses morreram em um ataque terrorista reivindicado pelo Hamas. Apertos de mão, a promessa de Obama de um acordo em um ano, um novo encontro em 14 de setembro. A lista de ‘desapontamentos’ que o governo Obama tem causado, interna e externamente, pode crescer com um (muito) possível fracasso nas negociações. Bota na conta do Obama! Afinal, pouca coisa pode ser pior que a política belicosa do antecessor.

Porém, alguns sinais podem mostrar outra face do problema. Sem perder tempo, Ahmadinejad chamou de “traidores” os países árabes que estimularam e estão participando da retomada das negociações de paz entre Israel e palestinos, além de ameaçar riscar a ‘entidade sionista’ do mapa caso algo aconteça ao Irã. A intensificação dos ataques contra Israel também já foi anunciada pelo Hamas, associado de Teerã. O Hizbollah, outro associado do governo iraniano, aplaudiu o atentado do Hamas que matou quatro colonos israelenses, entre eles uma mulher grávida, dizendo que “essa é a maneira de liberar a Palestina”. Após a condenação do Irã às movimentações entre Palestina e Israel, a ANP (Autoridade Nacional Palestina) declarou que “aquele que não representa o povo iraniano, que falsificou os resultados eleitorais, que oprimiu seu povo e roubou a autoridade não tem direito de falar sobre os palestinos, seu presidente ou seus representantes”.

Ora, embora pouco acreditada pela comunidade internacional, a nova mediação dos EUA incomoda a quem pouco interessa o fim dos impasses no Oriente Médio. Selar a paz significaria levar Israel à liderança regional. Mas por enquanto pouco se pode falar em progressos. É mais um encontro para manter a mesa de negociações na inércia do que para chegar a algum ponto.

[OFF] vejam só que interessantes as diretrizes da Constituição sobre as Relações Internacionais do Brasil (art. 4º). É só escolher o que mais se adequa ao momento.


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Um desfecho sem final

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A troca de acusações entre Colômbia e Venezuela que levou ao rompimento das relações diplomáticas entre ambos os países está perto do seu final. O encontro entre Chávez e Santos (aqui, aqui e aqui) pode pôr termo à situação embaraçosa que perdura há aproximadamente três semanas, mas é mais um episódio da longa história de rivalidades e tensões que perdura por toda a América do Sul. Vez por outra, elas afloram num quadro de normalidade política supostamente instaurado na região e logo se aquietam, aguardando nova oportunidade para regressarem. (Este post foi escrito antes do encontro, podemos debater as repercussões do mesmo nos comentários.)

Em geral, no plano das idéias, as políticas externas se assentam sobre o cumprimento do grande destino da nação – como o “destino manifesto” dos Estados Unidos, o grand dessein de De Gaulle – e com a Venezuela não é diferente. Guardada as devidas proporções do tempo e do espaço, Chávez relembra o governo de Pérez Jiménez, quando este acreditava na grandeza venezuelana na região, graças às suas reservas de petróleo, o que lhe permitiria capitanear os esforços em prol da integração latino-americana, num sentido mais amplo. (Infelizmente, não tenho muitas informações sobre a historiografia colombiana, se alguém puder compartilhá-las, seria muito proveitoso.)

Outra ponto importante: por vezes, sobreleva-se a dimensão do narcotráfico e se diminui a dos conflitos interestatais. Um questionário de Segurança Hemisférica elaborado pela OEA em 1999 apresentou o narcotráfico como a principal ameaça ao continente e os conflitos armados como a quarta. Fato é que há praticamente 70 anos não ocorre um conflito armado de grande envergadura na região (o último foi entre Peru e Equador, 1941-1942). No entanto, seria ingênuo supor que eles estão eliminados por completo. Vários litígios posteriores ficaram no quase, como a questão do Estreito de Beagle em 1978 e a crise diplomática de 2008 entre Colômbia e Equador. Ademais, em tempos recentes, há a necessidade de se explorar melhor as perspectivas de desdobramentos do narcotráfico para conflitos interestatais.

Em meio a tantos percalços, ocorre novamente a idéia da integração. Por um lado, a mediação da UNASUL mostrou-se completamente falha e sem valor. Por outro, é hora de se pensar como criar arranjos políticos e institucionais vinculantes aos países-membros do bloco. É preciso passar dos surtos integracionistas para um processo contínuo, de maneira a concretizar essa busca tão antiga, cujas aspirações remontam as épocas independentistas, desde Simón Bolívar.

Por fim, há dois artigos que merecem um destaque especial. O primeiro, de Sombra Saraiva, considerou o episódio entre Colômbia e Venezuela um “Jogo combinado nos Andes”, já que Chávez procurou sufocar a informação de que o seu país é o único em recessão na região e Uribe reafirmou que a eficácia política está ligada à condução de um governo por mãos duras. O segundo, de Clóvis Rossi, argumentou que o teatro de Chávez é benéfico a todos, exceto às Farc. Sem pormenorizá-los ainda mais, o que chama a atenção em ambos é o tratamento do episódio como um “espetáculo”. Espetáculo este que, em grande medida, demonstra o entrelaçamento entre os mitos de política externa, as rivalidades e tensões, as perspectivas de conflito na região mais pacífica do mundo e os caminhos e descaminhos da integração. Espetáculo que aguarda uma nova platéia. Um desfecho sem final!


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