20 anos com corpinho de 90…

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Nesse fim de semana a Rússia fez 20 anos – ao menos, sua democracia, pois em 1991 era eleito Boris Yeltsin e terminava o sombrio período do desmoronamento da União Soviética. Indícios de uma era de paz e prosperidade pós-comunismo? Nem tanto, pois a primeira coisa que fizeram foi invadir a Chechênia, e repartir todo o aparato estatal entre oligarquias misteriosas que encheram as listas de “mais ricos do mundo” de magnatas russos.

Em 20 anos, o que conseguiram? 3 presidentes, uma certa melhora em níveis de vida, crises econômicas, alguns atritos com países vizinhos, o direito de sediar uma Copa do Mundo… Bem parecido com o Brasil pós-1988 não? Fora o número de presidentes, o Brasil e a Rússia passaram por poucas e boas desde que adotaram formalmente a democracia. Qual a diferença primordial? A Rússia ainda tem muita influência na política mundial. Não apenas por sua cadeira permanente herdada da URSS no Conselho de Segurança da ONU e as centenas de ogivas nucleares em sua posse (ainda a segunda reserva destas em número no mundo; vale lembrar uma antiga piada: os EUA disseram à URSS que tinham um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes, ao que os soviéticos respondem que se quisessem seu arsenal bastava para fazê-lo uma única vez…), mas pela capacidade de influência na região e mesmo na Europa. Basta ver como decisões da UE ou da OTAN sempre levam em consideração as possíveis reações russas.

Por isso podemos dizer que a Rússia tem um corpo de 90 anos – afinal, muito de seu poder e instituições são herdeiros diretos da URSS, e se criou uma situação paradoxal. Se a China é um país comunista atípico, “capitalizado”, ao mesmo tempo a Rússia é uma democracia consolidada, mas ao mesmo tempo “ditadorizada”, com eleições livres, oposição organizada e afins, mas onde opositores são marginalizados e eliminados sumariamente, o Estado é truculento e sua burocracia é rígida, centralizada, e serve aos interesses de um hiperpresidencialismo. Nas mãos de Putin e Medvedev, ficou bem claro nas entrelinhas de seus projetos políticos o desejo pela nova ascensão da Rússia como potência mundial, e para isso o Estado precisaria de mão forte. Há até mesmo quem diga que as recentes rixas entre os dois sejam uma mirabolante manobra planejada por Putin para mostrar que existe dissonância interna e legitimar sua eventual terceira vinda ao poder.

Teorias da conspiração à parte, o fato é que a democracia russa cambaleia, fragilizada ao longo de 20 anos de tratamento de choque. E o irônico é que, enquanto persistir essa estrutura vertical e robusta de poder político centrado, essa nova e sui generis democracia russa ainda vai fazer muitos aniversários…


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Personagens da história

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Coronel Ryszard Jerzy Kukliński (1930 – 2004): o traidor herói

 

O que poderia levar um oficial do exército a cooperar com um inimigo? Existe algum contexto que transforme tal personagem em herói? Historicamente, governos utilizaram atividades de inteligência e contra-inteligência com o intuito de obter vantagens estratégicas frente a adversários em potencial. Nesse sentido, ter um informante próximo ao alto comando do outro lado representa um bilhete de ouro.

A Guerra Fria dividiu o mundo, todos os integrantes de comunidade internacional elegiam seu bloco político, econômico e ideológico. Outros países simplesmente se viram cooptados ou anexados por uma das grandes potências. A coexistência pacífica é um dos momentos mais obscuros da história, especialmente devido à garantia da mútua destruição em caso da eclosão de conflitos massivos entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia.

As alianças militares OTAN (Estados Unidos e aliados) e o Pacto de Varsóvia (União Soviética e aliados) traçavam planos para cenários de confrontação direta. Oficiais de ambas as partes destacavam a natureza eminentemente dissuasória e contra-ofensiva de suas estratégias. Historiadores e analistas contam em primazia com fatos históricos construídos a partir da veracidade de tais depoimentos. Houve, no entanto, quem desafiasse a ordem natural dos eventos.

O nosso personagem da história é o Coronel Ryszard Jerzy Kukliński (codinome Jack Black), oficial do exército polonês e participante de discussões sobre as próximas ações do Pacto de Varsóvia. A lembrança dos excessos cometidos na repressão aos protestos de 1970 na Polônia e a preparação para a invasão da Tchecoslováquia foram determinantes para a cooperação estabelecida pelo Coronel com oficiais norte-americano. O principal temor de Kukliński era a possível destruição ou sofrimento que o alto escalão do Pacto de Varsóvia não hesitaria em impor sobre o povo polonês caso o pior cenário de confrontação com a OTAN irrompesse.

Entre 1972 e 1981, o Coronel forneceu mais de 40.000 páginas de documentos secretos soviéticos aos norte-americanos, por intermédio de agentes da CIA presentes na Polônia. Kukliński e sua família foram removidos de Varsóvia e refugiados nos Estados Unidos. A cooperação ilegal do oficial com o governo americano foi julgada no início da década de 1980, culminando na sua sentença de morte. O colapso da União Soviética e a subseqüente libertação polonesa não foram suficientes para o cancelamento do julgamento de Kukliński. Somente em 1997 caiu sua sentença, possibilitando uma visita à terra natal.

O julgamento histórico ainda segue em construção. Contudo, o conhecimento prévio dos planos estratégicos soviéticos foi importante para a manutenção de estratégias, por parte da OTAN, voltadas para a dissuasão. A imprevisibilidade e a incerteza, as quais poderiam levar a ações mais extremas, foram suplantadas por informações-chave repassadas por um informante dentro do Pacto de Varsóvia. De uma forma ou de outra, Kukliński viu sua Polônia segura e finalmente livre, ainda que somente pela televisão.


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A audácia da desesperança

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Até que ponto os Estados Unidos estão na página errada da história?

Obama realizou o anseio premente de uma nação através da operação que vingou os atentados terroristas do 11 de setembro. No mais recente capítulo da saga norte-americana, o presidente fez um esperado pronunciamento sobre as revoluções no Oriente Médio e as perspectivas para o processo de paz entre palestinos e israelenses. Os pontos principais a se destacar foram as demandas com relação à atuação de Israel em territórios originalmente palestinos (de acordo com resolução das Nações Unidas de 1967) e a promessa de financiamento para projetos que fortaleçam a democracia nos países de região.

Pouco ou nada mudou. Israel é um dos aliados mais antigos dos Estados Unidos e o compromisso elementar da parceria é a manutenção da segurança dos israelenses. Obama já havia, em outras oportunidades, solicitado o congelamento da expansão dos assentamentos em territórios palestinos. Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, não parece dar atenção às demandas. Não há indícios que um discurso, repleto de intenções, do principal aliado tenha força suficiente para ensejar mais uma rodada de negociações. Israel tem forte resistência interna a qualquer ajuste. No final das contas, Netanyahu reconhece que as discussões devem ser baseadas nas fronteiras definidas em 1967, porém nunca as mesmas serão restabelecidas por representarem riscos à segurança dos israelenses.

Não só Obama não disse nada novo, muito menos algo que mudasse a figura das negociações, como abriu um precedente para Netanyahu destacar a posição oficial de seu país. O destaque, novamente, foi retórico. Vieram à tona os “valores” e o “dever” norte-americano de promover a democracia pelo mundo. As revoluções no Oriente Médio já ocorreram, algumas seguem em andamento, e suas motivações e seus líderes foram gestados internamente. Para piorar, muitos dos governantes depostos foram aliados de longa data dos americanos. Nesse sentido, estariam os Estados Unidos lendo os livros de história errados?

Como em um “revival” de outros momentos históricos, os norte-americanos ficaram à margem do que ocorreu. Contudo, dessa vez sua participação não foi encoberta, os revolucionários não foram patrocinados pela CIA, nem mesmo se previa tal cenário. Obama tenta marcar posição por meio do discurso, garantindo seu país na página certa da história. Será? Ontem, a TV Cultura mostrou um documentário sobre a invasão do Panamá em 1989, a mesma que forçou a renúncia do ditador Noriega. Os princípios, os valores, a influência e o poder bélico seguem quase os mesmos; as ações e os resultados não. A região que se tornou o eixo estratégico para a política externa norte-americana, o Oriente Médio, se liberta de seus ditadores sem uma participação tão profunda da (ainda) maior potência mundial.

Obama, representante da esperança e audácia pela mudança, ruma forte para a reeleição. No plano externo, nada mudou, nem parece que vai. Até o Super-Homem não acredita mais, afinal verdade, justiça e o “american way” não são mais suficientes.


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Tanto faz, com ou sem Bin Laden

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(Pessoal, uma observação: mais tarde eu posto os links para este post.)

Certamente, o momento é propício para debatermos um pouco mais sobre o significado da morte de Bin Laden para as relações internacionais, em seguimento ao post de ontem do Álvaro, principalmente em função do mote por ele escrito: “um evento que muda muita coisa, sem mudar nada.”

A morte de Bin Laden é muito mais um acontecimento folclórico do que histórico. Não quer dizer que os Estados Unidos triunfaram na “guerra global contra o terrorismo” e tampouco que se abriu uma janela para paz, como previram muitos líderes mundiais que celebraram o fim do terrorista. Isso também não significa uma “onda global de ataques terrorista”, como se tem veiculado na mídia. O que aumenta é a frenesi, o medo, o desconforto a respeito de uma ameaça que figura muito mais no plano retórico e que pouco se consuma na prática. Ademais, lembremos que o pior inimigo é aquele que não ameaça, tornando-o imprevisível.

Em recente artigo, Scott Stewart afirmou que, no pós-11/09, a Al-Qaeda travou as suas batalhas mais no campo ideológico do que no físico. Procurou disseminar a sua doutrina, conseguir mais seguidores e até modificar a sua própria estrutura organizacional. Ora, Bin Laden se tornou um símbolo, a personificação do terrorismo, mas o fenômeno não se restringe a uma pessoa ou grupo, como a Al-Qaeda. E, mesmo sem uma figura mítica, a organização não se desorganiza. Suas células auto-reprodutivas, sem comando hierárquico claro –basicamente, o seu amiguinho pode ser terrorista e você não sabe –, permitem a continuidade da Al-Qaeda.

E nada de sentimentalismo barato também, do tipo “agora a Al-Qaeda vai se vingar da morte de Bin Laden”. Terrorista não tem coração, tem fanatismo. Luta por uma causa desde sempre, conduz a política por meio da difusão do terror. Um ataque terrorista depende muito mais das capacidades de que os seus grupos dispõem, determinando seu raio de ação e o grau de impacto, do que de estímulos exógenos.

No front ocidental, entre festejos e preocupações, a discussão que deve entrar em tona é acerca da estratégia na luta global contra o terrorismo. Nos últimos tempos, a grande preocupação tem sido sobre a possível aquisição de armas nucleares por grupos terroristas. Mas agora será preciso se preparar para ataques em massa, convencionais ou nucleares? Como fazê-lo? Quais os aliados? E as relações entre Estados Unidos e Paquistão? Se a Al-Qaeda tivesse bomba atômica (como pensam os teóricos da conspiração), já teria usado. Não esperaria dez anos. A costura de alianças pode ser interessante, a começar pela postura que os norte-americanos adotarem em relação ao Paquistão.

Enfim, de fato, o terrorismo perdeu o grande símbolo que o elegeu como prioridade na agenda internacional no emergir do novo milênio. Mas os símbolos são apagáveis, substituíveis. Um atentado aqui, outro acolá, inevitavelmente vai acabar remetendo à morte de Bin Laden, acentuando a miopia de enxergar o fenômeno como um todo. Sem destrinchar o processo pelo qual ele ocorre, desde o tratamento discriminatório que, em geral, é conferido ao mundo árabe até a organização e preparação dos grupos terroristas, o mundo vai girar em torno de Bin Laden. É preciso “despersonificar” o terrorismo de Bin Laden…


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Cadê Osama, onde foi aquele Osama…

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Bom, encontraram ele. Muitos se lembram com detalhes do que estavam fazendo quando receberam a notícia dos ataques terroristas no dia 11 de setembro de 2001. Será que, no futuro, vão se lembrar do mesmo modo da notícia do final da noite de ontem, quando foi anunciada oficialmente a morte de Osama Bin Laden?

Algum soldado vai ficar MUITO rico…

Vamos por partes. Ainda não há confirmação exata da morte – imagens e coisa do tipo – fora o pronunciamento oficial de Obama (que deve tirar qualquer dúvida quanto a isso ter ocorrido ou não, não cairia nada bem ao presidente dos EUA ter que desmentir um boato dessa importância depois…). Há quem diga que o corpo já teria inclusive sido sepultado no mar (respeitando tradições islâmicas). O mais curioso é ver que ele não estava entocado em uma caverna afegã ou coisa parecida (nem escondido no Rio, casado com uma mulata e tomando cerveja, como naquele divertido esquete humorístico), mas sim há um bom tempo nas redondezas da capital do Paquistão (maior aliado dos EUA na região), em uma grande propriedade que servia de fortaleza e bunker. No fim, levou junto mais dois comparsas e uma pobre coitada usada de escudo humano na ação.

Mas… e agora? Acabou a guerra ao terror? A morte do homem mais procurado do mundo certamente vale para os norte-americanos como a vingança pessoal pelo 11/09 (vingança essa que em seu processo levou à invasão de dois países , mortes de civis e militares em número muito maior que nos ataques terroristas e arranhou a imagem dos EUA em boa parte do mundo), e curiosamente não foi obtida por meio da força bruta, com tanques e invasões, mas pelo trabalho de inteligência em conjunto com o Paquistão. E é claro que a coisa não vai terminar por aí. Osama era, antes de tudo, um símbolo, e sua organização persiste. Sua morte provavelmente não vai desmantelar a Al Qaeda (alguém acha que ele ainda mandava?), bem como vai inspirar milhares a vingá-lo. Há, inclusive, rumores de uma bomba atômica em poder da organização e pronta pra estourar em algum ponto da Europa caso Osama fosse morto.

Quanto a Obama, essa notícia veio em ótimo momento – todos sabem como os norte-americanos se esquecem de crises quando o nacionalismo é inflamado, além de ser um trunfo para sua reeleição. Mas não vamos esquecer que boa parte desse mérito está com Bush, o mentor da parada, e que, como dito antes, as intervenções dos EUA não vão acabar de uma hora pra outra (pegar Osama era um dos objetivos, não o objetivo), logo Obama ainda tem um senhor abacaxi nas mãos.

No fim das contas, ainda é cedo pra avaliar efeitos diretos da morte de Bin Laden. Esse é um evento que muda muita coisa, sem mudar nada. A morte de Osama tem pouco efeito prático, em termos de operações e combate ao terrorismo, mas tem um efeito moral avassalador, tanto para norte-americanos quanto para os seguidores de Bin Laden. Afinal, é o fechamento (ou não?) de um capítulo da história mundial que durou uma década e teve tanta repercussão que provavelmente moldou boa parte da conjuntura internacional atual. Vai realmente ser um golpe duro contra o terror ou apenas estimular mais homens-bomba? O jeito é esperar pra ver.


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Uma breve reflexão sobre a violência

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Aproveitando o post de ontem do Álvaro, bem como o recém-divulgado Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2011, cujo subtítulo é “Conflito, segurança e desenvolvimento”, comentemos este fenômeno da escalada da violência em nível mundial, que excede propriamente os “tiros em Columbine”, Realengo ou Alphen aan den Rijn. Notadamente, o que chama a atenção de tal fenômeno é a diminuição de guerras entre países ou guerras civis em detrimento da elevação da criminalidade – com as gangues e o narcotráfico –, dos distúrbios econômicos e do terrorismo. O perigo pode estar mais próximo.

Dessa forma, segundo o relatório, 25% da população mundial estaria vivendo sob conflito. Mesmo sem empregar uma definição muito clara de conflito, esse dado é bastante chamativo: um em cada quatro habitantes do planeta está inseguro, muitas vezes, até sem saber por que. Se todos os caminhos um dia levavam a Roma, hoje pode levar ao cemitério mais próximo. Vive-se do medo, tão real quanto imaginário, tão imaginário quanto real…

Outro ponto fundamental é que nenhum dos países que se encontra em situação de conflito, especialmente na África, alcançou sequer um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Ao todo, são oito metas “ambiciosas” da ONU para corrigir os principais problemas do mundo, que vão da eliminação da fome e pobreza até o estabelecimento de uma parceria mundial pelo desenvolvimento. Ademais, ressalta-se que há uma correlação entre conflito e desenvolvimento econômico: estima-se que a recuperação econômica pós-conflito leva em média 30 anos. Esse um quarto da população mundial está condenada a pelo menos 30 anos de atraso; 2015 foi o ano estipulado para o cumprimento dos ODM.

A solução que o relatório apresenta é que “o fortalecimento da governança e instituições legítimas para fornecer segurança cidadã, justiça e empregos é crucial para quebrar os ciclos de violência.” Parece óbvia essa solução, não fosse a distância que há entre a sua proposição e a sua real implementação. Distância esta resumida em duas perguntas: como fazer? E quem faz?

Desnecessário dizer que a incerteza é muito maior hoje do que na Guerra Fria, mesmo que ameaça da destruição do mundo se fizesse valer pelo terror das armas nucleares. Não sabemos como nossas vidas podem ser abreviadas. De repente, numa escola, um imbecil resolve abrir fogo, com uma arma ilegal, de um comércio ilegal, que gera riqueza ilegal, produz mortes ilegais. Tornarmo-nos mais próximos, em decorrência da globalização, também nos tornou mais estranhos. Os Estados, edificados sobre o alicerce da segurança, vêem cada vez mais diminuída a sua capacidade de oferecer proteção. Sem proteger os seus cidadãos, acabam também incapazes de lhes oferecer bem-estar.

É difícil viver em conflito, sem conhecer, muitas vezes, o inimigo, a ameaça, o protetor e a solução.


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Vai e vem

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Não poderíamos deixar de comentar sobre o assunto do momento, o inacreditável ataque à escola no Rio de Janeiro está mobilizando a mídia. Isso por que, como sempre, vamos dar o enfoque internacional à questão. A chacina desse atirador maluco pode lembrar desse tipo de massacre em outros países, e não apenas no celeiro dos serial killers, os EUA – nesse fim de semana mesmo ocorreu algo parecido em um shopping center na Holanda. Mas o foco é, na verdade, o tráfico de armas leves, em que o Brasil é um dos protagonistas mundiais.


Poderíamos entrar nos méritos do desarmamento doméstico – não deixa de ser uma medida importante (como uma pesquisa apontou, o controle da circulação de armas irregulares tem relação direta com a diminuição de assassinatos, na proporção de 18 para 1), mas o problema maior ainda é o tráfico ilegal de armas. Boa parte dessas são desviadas do comércio legalizado (há, inclusive, relatos de criminosos que se filiam como caçadores e esportistas para facilitar esse desvio), mas a maioria certamente vem do exterior através das nossas fronteiras pouco vigiadas. A grande ironia, no caso, é que grande parte dessas armas e (especialmente) munições que adentram o país tem origem… no próprio Brasil!


Não somos os maiores compradores de armas do mundo (esse mérito é da Índia atualmente), mas estamos entre os 10 maiores produtores e exportadores de munição e peças. A sacada é que vendemos esses “insumos” para o exterior (EUA e Europa) e eles retornam ilegalmente pela América do Sul. É um mercado bilionário, em que se destacam países “bonzinhos”, sem muita fama de militarização (como Bélgica, Espanha e Áustria), mas é a causa de cerca de 90% das mortes violentas entre civis pelo mundo. E são relações em que a relação pragmática entre comprador e vendedor é mantida até as últimas conseqüências. O caso mais recente e emblemático disso é a Líbia – o grupinho de amigos europeu que agora está às turras com Kadafi vendia boa parte das armas que ele usava contra os civis até poucos dias antes de sair a resolução da ONU contra o ditador. Negócios, negócios, amigos à parte.

O massacre da semana passada foi uma das coisas mais chocantes que aconteceu no Brasil recente, mas é só um exemplo cruel de um problema que vitima o mundo todo (algo em torno de duzentas mil vítimas por ano). O controle desse comércio macabro existe, mas é pouco eficaz, especialmente na parte da reentrada no país, e por isso se torna uma das maiores ameaças (e desafios) à segurança no século XXI.

Dois relatórios interessantes sobre o tema aqui e aqui.


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Quem quer democracia?

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Em 2001, o renomado cientista político Francis Fukuyama insistia em sua teoria sobre o “fim da história”. Em poucas palavras, defendia que a longa batalha entre o liberalismo político-econômico e o socialismo/comunismo havia, por fim, chegado ao fim com um vencedor. A democracia liberal se sobressaiu, trazendo consigo novas dinâmicas fruto da globalização cada vez mais intensa. O terrorismo e o acirramento das tensões entre os modelos de civilização seriam uma parte do processo irremediável da vitória do liberalismo.

A perpetuação no poder, o autoritarismo, a sociedade sob o julgo dos militares e subserviência das grandes potências formam um quadro conhecido para os latino-americanos. Enquanto americanos se dividiam entre democratas e republicanos traçando planos para extinguir o comunismo, nossa região se viu jogada nos braços do “melhor aluno”. Esses “melhores alunos”, espalhados por diversos países latino-americanos, governaram ancorados no medo, repressão e o apoio de forças externas (em parte ocultas). Muito ligado a este histórico está nossa situação atual, na qual resplandece novas formas de populismos e governantes fortes sob um regime democrático.

Em certo sentido, é possível observar um paralelo entre os acontecimentos no Oriente Médio e a herança histórica latino-americana. As grandes potências, em ambos os casos, fecharam os olhos e seguiram cooperando com regimes ditatoriais. Mais que isso, suas políticas para o Oriente Médio eram ancoradas em países-chave, independentemente da dinâmica política e social interna que apresentavam. Os Estados Unidos talvez sejam o exemplo mais representativo disso. Antes da renúncia de Mubarak se encontrava em uma situação constrangedora, entre seus ideários democráticos históricos e um aliado de décadas, no qual se pautaram muitas políticas para toda a região.

Obama esteve em Cairo em 2009 para discursar sobre “um novo começo”. Bush (filho) deixou uma profunda cisão entre o Ocidente e o Oriente, a partir da qual se fortaleceram fundamentalismos e conseqüentemente foram geradas ameaças a coexistência pacífica entre ambas. O que os norte-americanos parecem não entender é que a origem da cisão é mais antiga e profunda do que se admite formalmente. As alianças e a manutenção de governos intermináveis no Oriente Médio como em outras regiões, foi um elemento essencial para o acirramento entre nossas civilizações. A escolha que foi feita, e nunca desfeita por Obama e outras potências, deveria ter sido considerada para este “novo começo”. O fundamentalismo foi também fruto, entre outros fatores, do apoio a ditadores vistos como “melhores alunos” da região, uma vez que não conseguiram ancorar governos autoritários em outros fatores que não fossem a tradição e a religião.

Todo o ocorrido na Tunísia e no Egito segue reverberando pela região. Tudo indica que deixará profundas marcas, ainda que não estejam claras até o momento. Todos os que se orgulhavam em tirar fotos e participar de reuniões com os países árabes devem estar inquietos em seus assentos, afinal governantes ilegítimos e regimes autoritários que eles ajudaram a manter começam a desmoronar. Alguns poderão afirmar que chegou o “fim da história, outros que existe um “novo começo”. Contudo, a meu ver soa hipócrita que as grandes nações agora se coloquem ao lado dos anseios populares. Resta saber se o fundamentalismo perderá espaço e como emergirão os novos líderes regionais. Poderiam seguir os latino-americanos, apelando a modelos populistas (ou populares)? A classe dos “melhores alunos” das grandes potências está cada vez mais vazia. O mais surpreendente, no entanto, é que tudo indica que quanto mais vazia se apresente, mais seguros estarão seus professores e maestros. Restaram aqueles alunos do fundo da sala, que não respeitam ninguém e seguem sem aceitar o sistema.

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O futuro da estabilidade

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Nas últimas semanas, temos acompanhado a história sendo feita no Egito. Assim como na Tunísia, um “ditador” foi devidamente defenestrado e o mundo aplaude o espírito democrático e a força de vontade do povo egípcio, representado pelos milhares que acamparam na praça Tahrir. Agora, restam algumas incertezas. Internamente, Mubarak delegou o poder a uma junta militar, a qual dissolveu o congresso (corrupto), suspendeu a Constituição e governará o país enquanto não saírem os resultados das eleições daqui a seis meses, além de remover o estado de exceção quando as coisas se normalizarem na capital. Enredo parecido, mas de final provavelmente diferente das costumeiras ditaduras latino-americanas. No Egito o exército parece gozar de alguma aprovação popular (dada sua recusa em enfrentar os manifestantes e o apoio dado durante o sumiço da polícia), e os generais não parecem inclinados à ingrata tarefa de governar um Estado-abacaxi, além da pressão dos EUA.

Isso nos leva ao segundo plano de incertezas. Os acontecimentos no Egito influem de modo importantíssimo nas relações de estabilidade e segurança regionais, e por isso merece especial atenção dos EUA, Israel e União Europeia. O Tio Sam já abriu o olho e busca coordenar na medida do possível sua imagem de aliado e consecução de um governo democrático na esteira dos militares – mais importante que a manutenção da histórica aliança com Cairo, é manter afastado o partido radical islâmico mais antigo do mundo. Em troca da manutenção de polpuda ajuda militar, certamente o próximo governo não deixará de atender a algumas sugestões dos EUA. Ainda assim, pesa a contradição em suas políticas, visto que persiste o apoio velado a regimes nada democráticos (como Arábia Saudita) e até mesmo contestados (como o Iêmen).

Quanto a Israel, o país está praticamente isolado: seus aliados islâmicos aos poucos se foram, estando a Jordânia imersa em problemas, a Turquia ainda desgostosa com a crise do ataque ao navio de ajuda humanitária em Gaza, e o Egito agora uma incógnita. Dependem do próximo governo egípcio a continuidade de acordos de paz com Israel, e talvez não seja exagero dizer, a própria paz no Oriente Médio – com as negociações com os palestinos paralisadas e a constante sombra do programa nuclear iraniano, um hipotético isolamento total de Israel pode ter conseqüências das mais tenebrosas.

Já a União Europeia enfrentaria problemas de natureza um pouco diferente, mas ligados ainda assim aos fatos recentes: os ventos da democracia, inspirados por tunisianos e egípcios e que se espalham pelo Oriente Médio e norte da África, podem sim ter suas conseqüências no sul da Europa. No aspecto da segurança, se as revoltas gerarem conflitos ou falharem na implementação de reformas sociais, podem gerar refugiados que atravessam o Mediterrâneo para desembocar em praias italianas ou francesas (como já está acontecendo com tunisianos). Por outro lado, há um problema político com a conivência de alguns países com certos regimes (notavelmente o francês, que mantém boas relações com ditadores do norte da África), que escandaliza a opinião pública europeia e tem seus reflexos em eleições vindouras.

Felizmente, a situação parece encaminhada para uma transição pacífica e democrática. Resta-nos aguardar (e torcer) para que esse belo desenvolvimento político se reflita em maior estabilidade na região.


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Será que agora vai?

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2011 é ano de festa. O F-X, projeto de compra de caças avançados pela Força Aérea Brasileira, completa seus 15 anos, e virá com um novo visual. Mas não seria esse o projeto, sob sua nova roupagem de F-X2, que deveria ter tido seu resultado final revelado em outubro de 2009? Sim, esse mesmo.

Não vamos criticar o governo, afinal um atraso de dois anos é compreensível – um negócio de 12 bilhões de reais não se fecha de um dia pro outro! O que embolou a escolha foi a decisão da presidente Dilma Roussef de reavaliar as ofertas das empresas competidoras (F/A-18 da Boeing, Girpen NG da Saab e Rafale da Dassault). Isso pois o relatório técnico da FAB já estava pronto desde o começo do ano passado, e avaliou todas as aeronaves como aptas às necessidades brasileiras. Com isso, restou o drama da escolha: a opção francesa, mais cara e de preferência do ex-presidente Lula, era uma escolha política e que batia com um ambicioso projeto de cooperação em defesa com a França que passa pelo submarino nuclear; a opção norte-americana é a mais confiável em termos de desempenho e batismo de fogo, mas sempre pairou sobre ela a desconfiança da retenção de tecnologia norte-americana; e a opção sueca seria a mais interessante para o desenvolvimento de tecnologia, inclusive se adequando aos objetivos da Estratégia Nacional de Defesa, mas seria uma aposta potencialmente arriscada. Nada foi decidido por Lula e o abacaxi ficou com Dilma. Pouco adiantaram as conversas de seu antecessor com Sarkozy: a presidente optou por reavaliar todas as ofertas e aguardar um parecer em conjunto com o Conselho de Defesa nacional.

Basicamente, o programa volta à estaca zero. Todas as empresas parecem ter voltado ao páreo, e inclusive há quem diga que as já eliminadas em uma primeira etapa do projeto poderiam voltar a apresentar propostas (como o consórcio europeu do Eurofighter e a Rosoboronexport, dos aviões russos Sukhoi), ou que o programa de compra de aviões de 4ª geração seja definitivamente cancelado e se comece o puro e simples desenvolvimento de um caça de 5ª geração desenvolvido aqui.

Várias questões podem ser levantadas. Primeiro, se a compra dos franceses era quase certa, por quê recomeçar toda a análise? Lula passou por cima de critérios técnicos para prevalecer uma decisão política. Estaria Dilma sendo cautelosa quanto aos termos de transferência de tecnologia, ou simplesmente estaria dando mostras de que lida de maneira diversa que seu antecessor tais assuntos? E se o projeto for mesmo cancelado como compra e se tornar um processo de desenvolvimento de caça nacional, haverá a transferência de know-how necessária, e conseguiremos algo em um prazo útil, ou isso se delongará por mais 15 anos? A única certeza é que esse investimento é um dos principais para a reorganização do setor de Defesa brasileiro, e enquanto essas questões não têm respostas em curto prazo, resta ao país continuar a modernizar a maior esquadrilha de F-5s do mundo…


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