Terrorismo, um rabisco sem graça

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O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


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Nous sommes Charlie

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Je suis Charlie

[Charge do artista gráfico francês Jean Julien]

Se o lema do dia de hoje foi (ou está sendo) “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”), não poderíamos deixar de afirmar: nós somos Charlie. Nous sommes Charlie.

Somos Charlie porque acreditamos na liberdade de imprensa e de expressão como um princípio e nos meios de comunicação como um espaço aberto à reflexão – não imune a críticas, mas nunca sujeito a atos de barbárie. Somos Charlie porque defendemos o diálogo como o único meio para se alcançar a paz e o respeito mútuo como única arma legítima.

Somos Charlie porque repudiamos toda forma de violência em qualquer circunstância. Somos Charlie porque o trágico episódio ocorrido hoje em Paris não foi um ataque apenas à revista Charlie Hebdo e a seus colaboradores, mas a todos que acreditam que um mundo melhor se constrói apenas com base na tolerância e no diálogo.

Em luto pelas vítimas e em apoio aos familiares e feridos, a Página Internacional é Charlie.


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Oriente esquentando

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coreia

Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


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E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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O Papa é (mais que) pop

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Papa

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


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Sobre muros e pontes

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Berlim

“A humanidade precisa de pontes, não de muros”. Com base nas sábias palavras do Papa Francisco proferidas ontem, a reflexão sobre os 25 anos que se celebram desde a queda do muro de Berlim se reveste dos traços históricos para pensar o futuro.

Construído em 1961, o arame farpado se converteu em concreto e deu origem a uma dura segmentação de Berlim no pós-Segunda Guerra Mundial, controlada por Estados Unidos e aliados em contraposição à União Soviética. Com as constantes fugas do lado oriental ao lado ocidental, a divisão foi imposta de modo a criar um cerco e impedir o acesso, interna e externamente, ao lado ocidental.

Há 25 anos, caía por terra (literalmente) o principal marco ideológico da história recente no período da Guerra Fria: o Muro de Berlim, que dividiu durante décadas a capital alemã em duas partes, sendo o lado oriental comunista e o lado ocidental capitalista.

Nas celebrações de ontem no centro de Berlim, mais de dois milhões de pessoas participaram da festa pela queda do muro, ocorrida no dia 9 de novembro de 1989. Apesar da inexistência, a partir de então, de um muro físico, apenas em 3 de outubro de 1990 caíram, de fato, os muros políticos, com a reunificação do país na República Federal da Alemanha.

Foram lançados ontem ao ar aproximados 8 mil balões (foto), os quais estavam localizados na antiga faixa do muro, posicionados na mesma altura do mesmo (3,6 metros). A dissolução dessa barreira imaginária, em ato simbólico de grande representatividade, nos leva a refletir sobre a história da Alemanha (e do mundo) durante o século XX, marcado por grandes avanços tecnológicos, mas também sangrentos conflitos. A “era dos extremos” de Hobsbawn viu as sociedades, por diversas vezes, se dividirem e se reunificarem, lutarem e se reconciliarem…

Se de fato entendermos que o mundo não precisa de muros, mas sim de pontes – ou seja, de vias pelas quais as partes se encontrem para buscar o diálogo – veremos que vários dos embates atuais, não mais revestidos com o pano de fundo da Guerra Fria (pelo menos em teoria), poderiam vislumbrar soluções.

A celebração da importância da queda do Muro de Berlim não deve, portanto, se restringir ao povo alemão, mas sim inspirar o mundo inteiro que, com seus muros (visíveis ou não), ainda é palco de tantos conflitos cuja resolução depende, em grande medida, de vontade política.


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Aniversariante da semana

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ONU

24 de outubro de 1945 é o dia oficial de nascimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e, portanto, na última sexta-feira celebramos seu 69º aniversário. Isto significa que há quase 70 anos entrou em vigor a Carta da ONU, em que “os povos das Nações Unidas” declaram seus compromissos diante dos princípios, da estrutura e dos objetivos da organização.

Ban Ki-moon iniciou sua mensagem oficial esse ano dizendo que a ONU é mais necessária que nunca no momento atual. De fato, em tempos tão críticos em que o mundo se defronta com desafios que vão desde uma assustadora epidemia de Ebola até históricos conflitos políticos como Gaza, uma estrutura que favoreça o diálogo internacional e impulsione esforços multilaterais se faz imprescindível.

Entretanto, nem tudo são flores e a teoria da luta por esforços compartilhados se distancia da prática de defesa de interesses individuais que tende a prevalecer. Inegável sendo que o papel da ONU é extremamente importante, imprescindível é reconhecer a necessidade de reforma de sua estrutura.

O tradicional Conselho de Segurança com o poder de veto – e, portanto, de determinação da agenda propositiva – restrito a Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido nos faz acreditar que não estamos em 2014, e sim em 1945…

Celebrar é importante e a existência da ONU foi determinante nas últimas décadas para o delineamento das pautas e decisões multilaterais entre os seus 193 países-membros. A comunidade internacional, nos mais variados espaços onusianos destinados a temas políticos, econômicos, sociais, ambientais, etc., pode se posicionar e debater os assuntos que, cada dia mais, se tornam transfronteiriços.

Às vésperas do ano em que celebraremos seu 70º aniversário, contudo, vale a reflexão sobre como tornar essa estrutura única mais eficiente e menos demagógica, alcançando na prática o seu propósito essencial de garantir a paz e a segurança internacionais


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As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


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A defesa (re)nascente

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Esta semana foi histórica para o Japão. O país historicamente marcado pelo espírito de combate e que por algumas décadas se empenhou em um militarismo imperial que acabou se mostrando suicida para depois da Segunda Guerra Mundial ser transformado em uma potência pacífica, aprovou uma emenda constitucional que flexibiliza o uso da força pelas suas Forças de Auto Defesa (ou SDF).

Calma, isso ainda não significa que o Japão vai poder disputar as ilhas Senkaku no braço. A emenda, que já estava no ar há algum tempo, adicionou algumas condições bem específicas para o conceito de “autodefesa coletiva”. Segundo a constituição do país, suas forças armadas devem ser usadas especificamente para a defesa do território nacional, e nada mais, sem poder usar a força para resolver qualquer conflito fora do arquipélago. Agora, com a mudança, caso algum aliado do Japão esteja em risco, e com o Japão na mesma situação, pode haver alguma ajuda – por exemplo, abatendo mísseis norte-coreanos lançados contra a costa oeste dos EUA.

Na prática, é uma medida que não muda quase nada – o conceito empregado é uma variação do já consagrado ideal da “segurança coletiva” nascido do presidente Wilson quase 100 anos atrás e alicerce do funcionamento da ONU. Nesse sistema, ninguém pode atacar ninguém. Se algum de nossos amigos for atacado, absolutamente todos devem ajuda-lo, e quem atacou está obrigatoriamente errado. Claro que na prática não funciona bem assim, mas a ideia está aí faz tempo e a emenda japonesa não é nenhum ovo de Colombo.

Porém, essa mudança ainda que sutil tem um efeito moral e simbólico fundamental. Como dito acima, é a primeira vez em décadas que o Japão mexe no ponto mais característico da sua constituição, e que é considerado um dos fatores mais benéficos para seu desenvolvimento. A justificativa, é claro, são as ameaças dos vizinhos, com o debate sobre as ilhotas com a China ou o programa nuclear norte-coreano. Mas isso é uma ameaça de fato? Nos últimos anos Japão e China mantinham uma certa aproximação (ainda são grandes parceiros comerciais), especialmente nas reuniões da ASEAN, e até mesmo suspendeu sanções contra a Coreia do Norte por “bom comportamento”. Essa medida, de fato, pode ter o efeito contrário – no bom e velho paradoxo da segurança, quem pode se sentir ameaçado são os vizinhos do Japão, que ainda tem contra si um passado imperial e violento sobre o sudeste asiático. A medida foi criticada duramente na região, especialmente, é claro, na China.

Todavia, o maior impacto ainda é interno. Boa parte da população não aprova as mudanças (o pacifismo se tornou um valor querido pelos japoneses), e uma flexibilização mais radical é literalmente impossível. Com isso, a medida do premiê Shinzo Abe parece ser uma prova de força contra a oposição em um país dividido politicamente e em crise moral. Basta ver notícias recentes, como a da parlamentar que foi ofendida durante um discurso sobre políticas de natalidade por um colega do Legislativo e resultou em um pedido de desculpas público do agressor, ou do constrangedor choro de um vereador corrupto, flagrado torrando o erário em resorts e soltou o berreiro. Há alguns anos o Japão enfrenta instabilidades política e uma insatisfação crescente com seus governantes, e a busca por mais segurança (no sentido de estabilidade, indo justamente a um dos pontos mais sensíveis da política internacional, que é a Defesa), pode ser uma arriscada aposta de Abe.


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O novo espetáculo aéreo

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“FX”, em inglês, é uma sigla muitas vezes utilizada para designar “efeitos especiais” (“effects”). Até onde eu saiba, o F-X2 não tem nenhum significado em específico com relação à sigla, mas causou uma boa repercussão, assim como um verdadeiro espetáculo, há algumas semanas, quando o programa de revitalização da aviação de caça do Brasil foi finalmente concluído, com a opção pela compra dos aviões suecos. 

A história por trás dessa aquisição vai longe (são mais de dez anos), e creio que todos os leitores conheçam minimamente, ou tenham visto em algum momento na mídia, sobre como foi o processo de aquisição F-X2. Com a oferta de aviões norte-americanos, suecos e franceses, tivemos todo tipo de reviravolta. Em 2009, a opção favorita em diversos sentidos, a francesa, teria sido escolhida em definitivo apenas para que a informação fosse completamente retificada semanas depois. Desde então, e com a saída de Lula e Sarkozy de cena, a opção norte-americana, mais sólida, parecia a vencedora. Mas, no fim das contas, foi a zebra que levou o troféu, com a vitória do Gripen sueco. 

A análise das opções era bem simples, e boa parte das reportagens sobre o assunto se fia nisso. Escolher os caças franceses seria interessante pelo histórico de operação (usamos aviões da França desde os anos 70) e familiaridade com as partes. O avião americano seria o melhor em termos de uso comprovado e confiabilidade. E o sueco seria o que mais se adéqua às necessidades de desenvolvimento da indústria de defesa. Aqui está o diferencial da escolha. Muitas análises colocam um peso determinante na questão da espionagem norte-americana: há quem diga até que a escolha já tinha sido feita (estamos em ano de Copa e tudo mais), e que a compra dos Boeings foi cancelada após o estardalhaço das denúncias de Edward Snowden. 

Mas tenho lá minhas dúvidas se isso foi realmente um determinante. É óbvio que foi um fator de peso extremamente relevante, mas pode ter sido ao mesmo tempo uma “desculpa conveniente”, por assim dizer. Primeiro, a oferta sueca era a mais barata, e isso pesa demais em contexto de crescimento econômico limitado. Ademais,todas as ofertas propunham a instalação de linhas de montagem no país, mas apenas a oferta do caça sueco contemplava um item indispensável para o planejamento da defesa nacional, que é o desenvolvimento de tecnologia. Mais que a famigerada (e nebulosa) transferência de tecnologia de que Paris tanto falava, montar o caça sueco vai trazer (e desenvolver) know-how nacional, e isso é um dos pontos principais dos documentos de defesa nacional, principalmente a Estratégia Nacional de Defesa. Após as desavenças com Washington, não havia clima para manter um negócio dessa magnitude, e pode ter sido o “empurrão” necessário para uma opção que já era aventada mas não tinha o interesse político para ser concretizada. E isso já mudou, é claro – durante sua visita em Davos, nessa semana, a presidente Dilma teve tempo para, entre conversas com presidentes e primeiros-ministros, uma reunião com um dos chefões da SAAB. 

Nem tudo é perfeito. Tecnicamente os caças que existem são protótipos, e só virão pra valer prá lá de 2018. Enquanto isso, a Suécia vai mandar caças emprestados para “quebrar o galho”, especialmente nesse período de Copa e Olimpíadas. E o próprio aparelho tem seus críticos – sendo o mais leve dos concorrentes, teria pouca autonomia de voo (carrega menos combustível), além de menos carga útil. Mas no estado de urgência em que a aviação de caça da FAB se encontra, já havia passado (e muito) da hora de se fazer a escolha. A grande questão para o futuro é saber se a compra dos Gripen vai ter o efeito esperado, fazendo com que haja desenvolvimento industrial sensível para que possamos evitar que tenham o mesmo destino dos Mirage e F-5, revitalizados e empregados muito além de sua vida útil por falta de reposição.


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