Uma boa semana

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Existe esperança no Oriente Médio? Apesar da matança de sempre na Síria e de problemas no Líbano, essa semana teve umas boas surpresas, todas relacionadas à Turquia, aquele que é considerado por muitos como o mais importante ator regional por estar ligado a quase todas as crises de lá. 

Primeiro, após décadas de atividade, o PKK (grupo curdo que pratica atos violentos como atentados e sequestros em retaliação a repressão cultural e pela formação de um Estado próprio) parece dar sinais de abertura à negociação, em carta direta do seu fundador ao governo turco. Sinais de reconciliação, como soltura de reféns e flexibilização de proibições estão aparecendo. Segundo, após intermediação do Mr. Obama, Israel finalmente pediu desculpas pelo absurdo do ataque à flotilha humanitária de 2010 e parece estar em vias de reatar relações com seu maior aliado na região até aquele dia fatídico. 

Isso é muito importante pelo papel da Turquia. O país está envolvido em problemas, com ocupação no Chipre (fazendo por lá basicamente o que Israel faz na Cisjordânia), grande influência na questão da Síria (apoiando grupos mais radicais e fazendo vista grossa a outros) e até essa semana pesava o seu mau tratamento aos curdos e o rompimento com Israel. A situação curda ainda não tem solução em curto prazo, mas a possibilidade de negociação é um alento para os dois lados. E retomando o diálogo com Israel, a Turquia também volta à cena como melhor negociadora para a solução da crise palestina, como estava fazendo antes de 2010. 

Nos últimos anos, parecia que a ação da Turquia estava tendendo à radicalização. Com esses pequenos passos, se vê que ainda é um aliado necessário para os países ocidentais, e a importância do país como um polo de estabilidade regional.


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Post do Leitor

Post especial: O Decênio Iraquiano e Suas Consequências para os Estados Unidos e o Mundo

[Hoje é dia de post especial! Colaboração de nosso colega, prof. Ms. Danillo Alarcon, mestre em Relações Internacionais pela UnB e professor da Faculdade Anglo-Americano, de Foz do Iguaçu-PR, que traz uma análise importante sobre a guerra ao terror dos EUA e suas consequências, no dia em que se completam exatamente 10 anos da invasão ao Iraque. Lembramos que caso se interesse em ter um texto publicado pelo blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]. Aproveitem!]

No dia vinte de março de 2003, há exatos dez anos, se iniciava uma das guerras mais infames na qual os Estados Unidos da América já participaram. Embasados em diversas contradições e manipulação de informações e discursos (inclusive desveladas depois por um ex-funcionário do governo), a Guerra contra o Iraque suscitou um amplo debate na comunidade internacional acerca das instituições básicas que a sustentam e do papel das organizações internacionais na promoção de seus objetivos de segurança coletiva, além de, obviamente, ter questionado o papel dos Estados Unidos na ordem global do século XXI. Por estas e outras razões, é prudente, então que façamos um momento de reflexão sobre tal conflito. 

Engana-se quem tira rápidas conclusões dessa guerra, quer pró quer contra a posição norte-americana no conflito ou em relação ao Iraque. Mas na exiguidade de linhas, tendências amplas podem ser apontadas. Antes, vale relembrar que após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos contavam com considerável apoio internacional. A comoção com tamanhos atos de barbaridade fez Washington conseguir apoio de Moscou, a aquiescência global para atuar no Afeganistão e não ter problemas patentes em levar a OTAN ao distante país asiático. Além do mais, internamente, a histeria criada pelo medo de novos atentados terroristas deu base para medidas antes não aceitas, como um rigoroso controle imposto pelo criado Departamento de Segurança Nacional. 

Independentemente dos debates levados a cabo por muitos pesquisadores sobre a responsabilidade americana de ter nutrido seus futuros algozes,* é importante agora refletir sobre as possibilidades que o 11 de setembro trouxe para os Estados Unidos. Primeiro, uma considerável dose de apoio internacional – depois de nove meses de um governo que se fechava cada vez mais, era a possibilidade de levar adiante agendas que Washington considerava importante. Segundo, o revelar de um novo momento para a política externa do país, em que o apoio à democracia e aos valores que lhe são caros poderiam ser promovidos por meios softs. Por fim, a oportunidade de concretizar sua hegemonia, no que tange a assuntos sensíveis como, por exemplo, terrorismo. 

Todavia, nada disso fora aproveitado. A imprudência com que a administração Bush se lançou na caçada à cabeça do presidente iraquiano (conseguida em 2006), em especial com a junção de três senior players – Dick Cheney, vice-presidente, Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa, e Paul Wolfowitz, Subsecretário de Defesa – não era justificável por medidas racionais. Na verdade, os três já buscavam o desmantelamento do regime iraquiano desde finda a primeira guerra do Golfo, e criticaram veemente a postura de fraqueza do governo Clinton por não agir decisivamente para acabar com os excessos que encontravam na postura de Bagdá. Oras, quer seja pelas pretensas armas nucleares, ou pela necessidade de mudança de regime, a comunidade internacional não aceitou a nova guerra, e eis que aí, houve o ocaso do breve momento unipolar da América. 

As fissuras mais evidentes se deram em relação aos outros grandes global players. A França, aliada na OTAN, se opôs veementemente à guerra. A Rússia e a China exerceram pressão para que os “planos quixotescos” – a exportação da democracia, como acabou sendo – não fossem levados a cabo. Mesmo países com importância menor no Conselho de Segurança, como o México, se opuseram ao movimento das forças armadas vizinhas rumo ao golfo pérsico. 

Para além disso, o tiro no Iraque saiu pela culatra. O país hoje é governado pela maioria xiita, liderado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki, o que o aproxima do vizinho Irã, grande inimigo dos Estados Unidos. Os níveis de violência continuam alarmantes, sendo frequentes os relatos de atentados terroristas no país, chegando a uma média de 300 pessoas mortas por mês, fomentados justamente pelas divisões de cunho religioso. 

A credibilidade norte-americana, já abalada por seu jogo de superpotência e excessos cometidos há muitas décadas, sofreu duro golpe com a guerra contra o regime de Saddam Hussein. O número de mortos no conflito ajudou a cristalizar uma visão negativa da atuação internacional dos Estados Unidos na região. Em casa, os soldados, sem apoio perpetraram crimes contra seus próprios conterrâneos, e bem, nem os Estados Unidos, nem Israel, (o grande aliado norte-americano na região, impossibilitado ou indiferente a auxiliar o governo americano em diversas operações), estão mais seguros em um mundo cada vez mais efervescente, em que o uso da força é visto com cada vez mais suspeita. 

Por outro lado, o sistema onusiano, impossibilitado, pelos próprios mecanismos que lhe dão forma, de agir diante da ação unilateral norte-americana, vem tentando se reformular, para fazer frente aos desafios do século XXI e dos excessos de uma potência. Além do mais, outras instâncias internacionais foram criadas para abarcar países que discordaram das posições unilaterais de Washington. A América do Sul criou o Conselho de Defesa Sul-Americano no âmbito da Unasul; a União Europeia reforçou a partir de Lisboa (2007), a Política de Defesa e Segurança Comum, a União Africana está cada vez mais ciente de suas possibilidades de atuação nos territórios de Estados-membros; e no Golfo, o Conselho de Cooperação do Golfo se mantém firme em relação às ameaças que porventura surjam às monarquias do golfo (tal como as revoltas e levantes no Estado-membro Bahrein, desde 2011). Nenhum desses grupos ignora a importância norte-americana, mas hoje reconhecem que há agendas de segurança que devem ser debatidas localmente. 

Desta feita, não defendemos aqui que a Guerra do Iraque foi a causa nem o estopim para tamanhas mudanças. Todas elas, de alguma maneira, já haviam sendo gestadas desde o 11 de setembro. O que apontamos é como os Estados Unidos remaram na maré contrária ao dar continuidade ao plano de guerra, ao atacar o Iraque e ao tentar impor a visão maniqueísta de mundo sustentado por homens como Cheney, Rumslfed e Wolfowitz. É compreensível que a política externa norte-americana tenha ecos da política interna, dos lobbies e dos mais diversos grupos de interesse, mas dessa vez, a desconsideração para com o interesse nacional, ou sequer com valores internacionalmente aceitos, formulados a partir de uma hegemonia norte-americana, foram longe demais. Arriscaram a hegemonia, conquistada após a Guerra Fria, e por imprudentes que foram, se veem hoje diante de um mundo que não esqueceu a invasão iraquiana e todas suas consequências. 

*Para mais informações sobre o tema, consultar a dissertação do autor aqui.


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Um crime nada perfeito

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Depois do Egito, da Síria, chegou a vez da Tunísia mostrar que a queda de grandes ditadores e a consecutiva transição democrática não é algo simples e romanceado como o Tio Sam advoga mundo afora. Democracia não se vende e nem mesmo se força em um país, mas sim é construída de acordo com os valores e as demandas da sociedade daquele país. E esse processo nem sempre é simples e fácil. Pelo contrário, na maioria das vezes, é doloroso e cheio de idas e vindas. 

Essa introdução não poderia significar outra coisa que não o aumento das complicações internas na Tunísia. Isso mesmo, mais problemas. Novas idas e vindas. O país já não se encontra em um cenário de grade estabilidade desde o final do ano passado. Apesar de a queda do ditador Ben Ali forçar mudanças na sociedade e no sistema político (que passou de apenas três partidos para um multipartidarismo de quase cem partidos!), nenhuma delas significou que a população atingiu um nível de satisfação aceitável. Pelo contrário, o cenário ainda é tenso. O fato de o governo não conseguir lidar com o problema do desemprego, daquela tal assembleia constituinte estar travada há mais de dois anos e das manifestações estarem sendo reprimidas com excessiva violência, são alguns exemplos de como andam as coisas por lá. 

Não bastasse a multiplicação dos protestos pela situação política e econômica, que já são complicadores por si só, um novo ingrediente foi adicionado a essa mistura. O principal líder da oposição laica, representante do Partido dos Patriotas Democratas Unificados (PPDU) e da recém criada Frente Popular pelos Objetivos da Revolução, Shokri Beladi, foi assassinado no dia 06 à porta de sua casa. 

Beladi vinha aumentando o tom de suas críticas contra o governo, principalmente, pelas iniciativas radicais dos grupos salafistas e dos políticos que participaram da RCD (ex-partido de Ben Ali), e, consequentemente, de seu apoio ao partido governista, o Ennahda. O assassinato foi suficiente para deslanchar um efeito dominó. A oposição gritou, uma parcela significativa da população saiu às ruas em protesto e o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, decretou a dissolução total do parlamento e a convocação de um gabinete de técnicos para tentar apaziguar o país. Tudo aponta para um crime político. Mesmo porque bastou Beladi acirrar suas críticas ao governo que poucos dias depois já estava morto. 

Agora, se teve algum partido governista envolvido, se foram grupos salafistas ou mesmo se visava-se incriminar alguém, não é sabido ainda. O que se sabe é que o crime desencadeou uma instabilidade política de grandes proporções na Tunísia. Novos protestos estão correndo as ruas e o próprio partido do primeiro-ministro se negou a aceitar a dissolução do parlamento. Tudo está progredindo rapidamente e os próximos dias serão cruciais. Mas o que é mesmo interessante dessa história toda é que se crime político buscava silenciar a voz da oposição laica acabou por despertar a voz de muitos outros que antes encontravam-se calados. 


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Vendendo o peixe

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O programa nuclear do Irã é aquela incógnita. Alega que é civil, mas tem jeito de ser militar. Nessa discussão com suas idas e vindas, é sempre uma boa notícia quando uma das partes (o Irã ou o grupo de países que tenta negociar a suspensão do programa) resolve voltar às negociações. E nessa semana a boa novidade foi o fato de os EUA e o Irã terem se mostrado abertos a discussões diretas sobre o tema. Claro que isso se seguiu da usual desconfiança e troca de farpas, com os EUA dizendo que a negociação seria possível apenas com representantes “sérios”, enquanto Teerã acusa Washington de não cumprir seus compromissos. 

Já disse isso aqui em algumas postagens anteriores, e por mais que se critique a possível interferência internacional, o caso do Irã é chato porque eles mesmos costumam complicar as coisas. Entram em negociações pra em seguida fazer testes que praticamente anulam suas boas intenções. E a última semana não foi exceção, ainda mais com o aniversário da revolução de 79. 

Na segunda-feira o país anunciou que mandou um macaco para o espaço num foguete e trouxe de volta com vida. A informação, como tudo que vem de fonte estatal, é meio contestável, mas se for verdade, palmas pra Teerã (que mesmo com sanções tem um programa espacial que funciona, enquanto nós… bom, deixa pra lá). O problema é que o mesmo mecanismo que lança um macaco em órbita pode ser usado num míssil balístico, e nesse caso viola as sanções da ONU.

Pra coroar a semana, na sexta-feira o próprio Ahmadinejad participou do anúncio do lançamento de um caça made in Iran” supostamente de quinta geração (invisível ao radar, etc.). É no mínimo suspeito, com um design cheio de falhas e que parece copiado dos modelos norte-americanos, falta de aviônica (apesar de ter algo muito parecido com um moderníssimo toca-fitas de automóvel no painel) e que se parece muito mais com uma maquete. O vídeo de divulgação mostra um avião ao longe que possivelmente é uma miniatura controlada por rádio. Mas não deixa de ser o anúncio de que o Irã estaria entrando num clube seleto, em que estão apenas os EUA, Rússia/Índia e China, e apesar de ser para “defesa”, teria obviamente as características de uma arma ofensiva. 

A ideia aqui é bem clara – pouco importa se o macaco voltou vivo (isso se chegou a ir pro espaço), ou se esse blefe que chamam de avião funciona (pra ser justo, pode realmente ser apenas uma maquete/mock-up do modelo, mas é difícil, considerando o perrengue econômico daquele país, que simplesmente não tem dinheiro pra fazer um avião dessa linha). Ahmadinejad quer mostrar seus brinquedos para o mundo, que olhem para o Irã com respeito (ou temor?), e nisso tem sucesso. No jogo de palavras, as intenções de Teerã ficam um pouco conflitantes, com a divulgação de um programa nuclear pacífico contrastando com os testes e ameaças. É demonstração de força, naquela linha de “a melhor defesa é o ataque”. A ideia parece ser que pareça robusto nas negociações, buscando ser um interlocutor de igual para igual com os EUA e amigos, e faz todo sentido – o problema é que até agora isso nunca deu sinais de ter funcionado. Resta o alívio para a estabilidade regional de que, por enquanto, se fica apenas na propaganda e no discurso mesmo.


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A invasão misteriosa

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Naqueles grandes filmes e romances policiais sempre há, no enredo, um crime misterioso. Todos eles começam quase que da mesma forma. Alguém morre. Um policial, detetive ou um interessado qualquer é envolvido de alguma forma na história. Começa-se, então, a buscar o tal assassino. A partir desse ponto que esses enredos podem mudar, sem que se altere esse esqueleto inicial. 

Mas e se, hipoteticamente, tivéssemos uma situação na qual se sabe claramente quem cometeu o crime, contudo, o alvo não é de conhecimento de ninguém. E, para piorar, uns juram de pés juntos que quem morreu foi Beltrano e outros confirmam que foi Fulano. Em um romance policial esse enredo talvez ficasse um pouco estranho. Contudo, para o Oriente Médio, é mais do que suficiente para gerar nosso mais novo bafafá internacional. 

Como comecei dizendo, não se sabe ao certo o que foi o alvo. Apenas que ontem houve um bombardeio de aviões israelenses em território sírio. O governo de Israel manteve aquela postura de sempre depois cometer alguma violação em território alheio. Silêncio. Agências de notícias dos Estados Unidos apontaram que, quase na fronteira com o Líbano, um carregamentos de mísseis antiaéreos de fabricação russa, os SA-17, foi alvo desses aviões. Já o governo sírio afirmou que as tais aeronaves voaram baixinho, abaixo do alcance dos radares, e destruíram um centro de pesquisa militar a 15km de Damasco. 

As condições nas quais o ataque ocorreu já são suficientes para render uma história interessante. Agora, adicionada essa completa divergência de informações, temos material para um best-seller. A situação toda é difícil de averiguar, principalmente, pela falta de detalhes do que tem ocorrido dentro da Síria, pelos locais que os supostos eventos ocorreram e pelo total silêncio de Israel. 

Olhando mais de perto o ocorrido, independentemente de qual das versões seja confirmada, houve aí uma clara violação de soberania da Síria. E, em caso de guerra civil ou não, invadir o espaço aéreo de um país e bombardear uma área qualquer (por mais ínfima que seja) sem o crivo da ONU é intervenção em assuntos internos. Basta lembrar de todo o problema que ocorreu na invasão do território equatoriano pelo exército colombiano para buscar o número 1 das FARCs em 2008 e das bombas e mísseis sírios que ultrapassaram a fronteira com a Turquia durante esse conflito atual (para mais, clique aqui). 

Uma violação que parece ter sido muito bem pensada por Israel, em caso de o alvo ter sido o carregamento de mísseis. Puro cálculo de estratégia e poder. Como o governo teme que o Hizbollah recebesse armamentos antiaéreos e conteste seu poderio de sua Força Aérea, destruir o carregamento enquanto ainda é transportado para o Líbano é a melhor forma de cortar o mal pela raiz. Isso porque, uma vez chegado no país vizinho, essas armas desapareceriam em estoques e túneis subterrâneos, podendo jamais serem localizadas novamente. 

Enquanto isso, do lado sírio, outro movimento foi muito bem pensado. O tal centro de pesquisa militar destruído foi, segundo a agência de comunicação do governo sírio, também alvo dos rebeldes, também conhecidos como CNFROS. Todavia, eles não tiveram sucesso em ocupá-la. Uma bela forma de ligar a atuação de Israel à Coalização para as Forças da Revolução e a Oposição Síria (CNFROS). 

A complexidade desse quase-romance policial cresceu ainda mais quando o Irã também anunciou que Israel poderia sofrer retaliações. O inimigo mortal do governo israelense aliado ao Hizbollah e a Síria de fato poderiam oferecer riscos. Mas no cenário atual, qualquer retaliação, por mais que não possa ser descartada, pode ser mais custosa que benéfica. 

A situação é complexa e, de certa forma, um retrato do funcionamento das relações internacionais no Oriente Médio. Uma região onde ainda a disputa pelo poder militar e o receio do crescimento do poder do outro são o imperativo. E que as forças armadas ainda ditam as regras.

[Para mais: 1, 2, 3, 4, 5]


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Um estranho Irã

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Em pleno século XXI, o homossexualismo ainda é um tema que gera muita discórdia mundo afora. Alas conservadoras de diversos países olham com certa intolerância para algo que já deveria ser mais do que aceito. Se na política das democracias liberais já se tem esses problemas todos, quando se mistura o homossexualismo com tradições religiosas e regimes mais fechados o resultado não é muito bom. 

Mas o caso do Irã é surpreendente. Quando comecei a ler sobre a posição dos homossexuais no país, não tive outra reação a não ser estranheza por um misto de surpresa e repúdio pelas ideias do governo. 

Vamos começar pela sensação ruim, o repúdio. Quem acompanhou de perto os discursos do queridinho da América, Mammoud Ahmadnejad, já tinha evidências suficientes de que os homossexuais não são bem vistos no Irã. Em Nova Iorque, durante a Assembleia Geral da ONU, ele disse que não existiam homossexuais no país e que dar apoio aos gays era coisa daqueles que apoiavam o crescimento do capital, buscando “3 ou 4 votos a mais”

Como era de se esperar pelo discurso do presidente, no país a “prática” do homossexualismo é considerado um grave crime, e os homossexuais, ofensas à humanidade. Antes da reforma no código penal, o intercurso sexual consensual entre pessoas de mesmo sexo era considerada uma violação capital. Atualmente, quem teve um “papel mais ativo” (?) no ato pode ser açoitado 100 vezes e, se for casado, pode ser sentenciado à morte. Ou seja, a vida de homossexuais no Irã não é nada fácil (para mais, leiam esse interessante artigo do The Guardian). 

A segunda sensação que me veio ao ler mais sobre o tema foi surpresa. Porque existe um outro lado bem interessante para essa situação toda. Um lado que, por incrível que pareça, pode beneficiar parte desse grupo. Enquanto os homossexuais não são bem quistos, os transexuais são vistos de forma diferente. Segundo a legislação, são considerados pessoas nascidas com uma doença grave por terem a mente certa no corpo errado. 

Essa visão foi desenvolvida pelo próprio fundador da República Islâmica do Irã, o Aiatolá Rhuhollah Khomeini. Tudo começou quando ele comoveu-se com a história de um rapaz que alegava ter nascido mulher no corpo de homem. Foi então que em 1984, o aiatolá aprovou uma lei que legalizava as cirurgias de mudança de sexo no país. Essa diferenciação complicada entre homossexuais e transexuais ampliou-se a partir dos anos 2000. Algo que adicionou à minha sensação de estranheza e repúdio mais uma pitada de surpresa. A partir da última década o Estado passou a subsidiar 1/3 do valor total das cirurgias de mudanças de sexo no país se a pessoa fosse diagnosticada com “profundo distúrbio de identidade de gênero”. Para tanto era preciso passar por um médico, um psiquiatra e um psicólogo para que o recurso seja liberado.  

De um lado, é possível que os homossexuais com interesse em um corpo oposto ao que nasceram se beneficiem e atinjam um sonho com mais facilidade. Beneficiem-se dessa política governamental. De outro, é como se o incentivo governamental apenas incentivasse ainda mais o preconceito e a discriminação. Isso porque a cirurgia não é vista como de “mudança de sexo”, e sim de “correção de sexo”. Como se sentir atraído por pessoas do mesmo gênero fosse um crime, uma doença, portanto, seria necessário remediá-lo com as cirurgias. 

Após refletir um pouco me dei conta que a estranheza era devido à maquiagem do preconceito, à violência contra os homoafetivos aliada à possibilidade de os transexuais atingirem um sonho. É interessante notar que o Irã não difere muito de outros países teocráticos e de sociedades mais conservadores em sua conduta com os homossexuais. Sua política de incentivo aos transexuais fundamenta-se, principalmente, em uma noção discriminatória. Da mesma forma, ainda é possível que haja um benefício para parte daqueles que gostariam de trocar de sexo. Uma mistura complicada e complexa. Por essas e outras, é inegável que os homossexuais que escolhem viver por lá deparam-se com um estranho Irã, onde o preconceito é institucionalizado, e a mudança de sexo, um remédio.

[Clique aqui, aqui e aqui para informações sobre documentário “Be Like Others”, de 2008, sobre os jovens iranianos que trocam de sexo]


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Drama árabe

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75 anos de diferença. O casamento (frustrado) de uma menina de 15 anos com um saudita de 90 anos mereceu a atenção da mídia essa semana, trazendo novamente à tona a injusta situação a que são submetidas mulheres/meninas no Oriente Médio em pleno século XXI.

O casamento infantil é uma prática relativamente comum no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita, país que não estabelece idade mínima para as bodas (seguindo esta lógica, mesmo um bebê pode se casar!). O caso dessa semana reacende o debate sobre as “noivas meninas” nas redes sociais que têm se tornado cada vez mais comuns por lá, desafiando, por assim dizer, o tradicionalismo do país.

A menina de 15 anos em questão – “vendida” por sua família ao seu (idoso) marido pela bagatela de 17 mil dólares (!) – não soube lidar com a pressão e fugiu em sua noite de núpcias, retornando para a casa dos pais. O indignado marido exige agora a menina ou seu dinheiro de volta

De fato, esses casamentos forçados possuem frequentemente uma justificativa financeira, já que, na patriarcal sociedade saudita, as filhas são “propriedades” do pai, que tem o poder de decisão sobre seu casamento (o qual pode ser fonte de fortunas).

Essa tradição não é nova no país, nem tampouco a promessa do governo de adotar uma idade mínima para os casamentos – em resposta à pressão (?) internacional a este respeito. Contudo, em meio à própria monarquia saudita, o histórico de casamentos com jovens meninas é longo e parece estar longe de ser condenado.

Há tempos as práticas patriarcais sauditas parecem ultrapassar qualquer limite de respeito aos direitos humanos. Hoje, a diferença é que a facilidade de comunicação internacional por meio das redes sociais possibilita uma maior propagação da repugnância a estes casos condenáveis. Contudo, até onde vai o poder da mídia? Por mais que seu papel seja importante, frequentemente esta não se mostra capaz de promover mudanças práticas no plano político – especialmente porque as polêmicas ilustram manchetes por períodos muito curtos de tempo.

Em uma sociedade marcada pelo conservadorismo como no caso da Arábia Saudita, enquanto se aguarda o cumprimento de antigas promessas do governo, muitas “noivas meninas” continuam, infelizmente, a verem seu futuro determinado por casamentos forçados com homens que possuem quatro, cinco ou mesmo seis vezes sua própria idade…


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Queima de fogos

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O ano novo já passou mas tem gente soltando rojão até hoje. E do jeito que as coisas estão, vamos ter uns fogos de artifício bem assustadores no Oriente Médio. Foi noticiado que os EUA e aliados da OTAN começaram a mandar mísseis para instalar na Turquia, sua aliada, em resposta a possíveis agressões da Síria (que continua na mesma matança de sempre). 

A história não é nova. Muita gente não sabe, mas quando a União Soviética mandou os mísseis nucleares para Cuba em 1962 (e deu no que deu), não foi uma “agressão” gratuita, mas sim uma resposta à instalação de mísseis norte-americanos em vários países, incluindo a Turquia. Não é nenhuma novidade. Mais do que proteger um coleguinha da OTAN, a mensagem parece clara para os países da região: após a catástrofe na Líbia, a palavra de ordem é “sosseguem o facho”, e os EUA parecem não querer que as coisas saiam do controle como no norte da África. Como dissemos em outras postagens, o perigo de a crise síria se espalhar é muito grande e seria danoso para muita gente, especialmente os EUA, que se veriam na urgência de acudir aliados como Turquia e Israel. 

O principal destinatário desse recado, mais do que Assad, parece ser Ahmadinejad. O Irã está prestes a entrar em negociações com seis potências (EUA, Rússia, França, Grã-Bretanha, Alemanha e China) acerca de seu programa nuclear, ao mesmo tempo em que realizou testes de lançamento de mísseis avançados nos últimos dias. É aquela velha conversa de morder a assoprar, e o governo de Washington parece estar farto. Isso pra não entrar na questão do apoio velado do Irã aos palestinos de Gaza, que uma hora vai trazer Israel pro bolo e não demora nada para os fogos começarem a estourar. Para os EUA é muito mais interessante (tentar) mostrar quem manda do que ter apagar um rastro de pólvora em um barril que já explodiu. 

Os EUA podem ter perdido influência e até mesmo o posto de ter o seu presidente como o homem mais poderoso do mundo (honraria que a Foreign Policy deu ao presidente russo Vladmir Putin, na falta de um ocupante para o primeiro lugar), mas com essa atitude preventiva mostram que não largam o osso tão cedo naquela região. Ainda valem as duas faces da política externa de Aron, com as figuras do diplomata e do soldado, e os EUA mostram que ainda tem muito gás em qualquer uma delas.


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Tensões no Golfo

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É sempre interessante pensar sobre o Oriente Médio. Ultimamente muito se comenta sobre a Primavera Árabe e os supostos contornos democráticos que este processo impõe na região. Seja no norte da África, na Crescente Fértil ou no Golfo Pérsico, aos países árabes se juntam Israel e Irã, os quais, mesmo não sendo árabes propriamente ditos, também trazem sempre novos horizontes para a geopolítica local.

Por um lado, o conflito israelo-palestino é sabido por todos. E, de outro, a oposição iraniana aos Estados Unidos, bem como seus anseios nucleares na figura do então presidente Mahmoud Ahmadinejad, ilustram as principais capas de jornais e revistas nas seções internacionais. Todavia, existe uma questão de longa data não tão conhecida e divulgada pelas mídias: a balança de poder existente entre este mesmo Irã e a Arábia Saudita nos entornos do Golfo.

Além da Liga Árabe, existe outro bloco de países denominado Conselho de Cooperação do Golfo, sendo composto por Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos (EAU), Kuwait, Omã e Qatar. Como o próprio nome nos diz, tais países situam-se justamente na região do Golfo, a qual é de grande interesse dos iranianos. No último mês de Novembro o país fez manobras navais com o intuito de reforçar sua presença sobre três pequenas ilhas que disputa com os emirados.

Mais recentemente, o Irã foi acusado de interferir em assuntos internos dos países do Conselho, causando uma nova onda de comunicados entre autoridades, mais uma vez dizendo que nada passou de um mal-entendido. O que se sabe é que as manobras continuarão. Navios, submarinos e sistemas de mísseis de defesa serão testados num futuro bem próximo.

É uma questão majoritariamente geopolítica e estratégica por dois fatores bastante simples de serem entendidos. Primeiro, o Golfo é um mar interior que serve como rota marítima e saída principal para o Mar Arábico. Segundo, concentra algumas das principais zonas de exploração de petróleo a nível mundial. Assim, nada mais justificável para se confirmar esta rivalidade que perdura há anos. 

Com exceção do gigante saudita, todos os outros países do Conselho são pequenos. Por conseguinte, Arábia Saudita acaba por ser um rival do Irã em nível de igualdade. Isso se reflete nas relações entre a Liga Árabe e o Conselho em si. Não podemos esquecer que existem diferenças culturais, religiosas e socioeconômicas milenares. Todavia, sendo um tanto quanto realista, a disputa pelo poder permanecerá e os iranianos sentem-se com todos os direitos de fazê-la.


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Reflexos da Primavera

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Fonte: aljazeera.com

Durante os últimos dias, o Egito voltou a ocupar as principais manchetes dos jornais. Algumas mortes e centenas de feridos foram o resultado de várias manifestações realizadas na cidade do Cairo em virtude da futura promulgação de uma nova Constituição Egípcia, a qual está marcada para acontecer nos próximos dias 15 e 22 deste mês. O que se sabe, até o presente momento, é que estamos presenciando a pior crise política do presidente Mohammed Morsi desde sua eleição em Junho. 

Tanto o processo constitucional quanto os novos protestos que tomam as ruas, mesmo possuindo nuances distintas em comparação com as manifestações ocorridas em 2011, são reflexos diretos da Primavera Árabe no Egito. Isso porque de um lado estão a Irmandade Muçulmana e os salafistas (apoiadores do presidente) e de outro os opositores “liberais”. A eleição de Morsi, bem como o ganho de poder por parte da Irmandade e da chamada “Crescente Salafista” foram algumas das consequências de todas as manifestações anteriores vistas na Praça Tahrir. 

Nos bastidores deste palco estão dois temas muito conhecidos: religião e democracia. Ainda nas prévias das eleições, o debate entre islâmicos ortodoxos e liberais já era visível. Grupos como a Irmandade Muçulmana Egípcia acabaram ganhando uma nova roupagem “pós-Primavera”, mesmo tendo um discurso mais conservador e totalmente baseado na máxima de que o Islam is the solution. Como a população queria uma mudança política e, consequentemente, social, uma maneira de barrar os governos ditatoriais era consolidar o levante de novas organizações. 

Ademais, a tão contestada democratização ainda está em pauta no país. Quando falamos em Oriente Médio e países árabes, o Egito (em conjunto com a Tunísia) foi um dos países que mais sentiu os reflexos práticos da Primavera. Entretanto, mesmo lá ainda é um pouco contestada a ideia de existir um processo mais democrático e participativo. A atual oposição de Morsi fala justamente que a nova Constituição é manobra política para manter os poderes da Irmandade. 

A Primavera Árabe é um processo muito recente e ainda não sabemos quais são e serão seus resultados práticos. Mudanças acontecem e, com toda certeza, permanecerão no curto e longo prazos. No Egito, Morsi precisará muito mais do que a saída de Hosni Mubarak para se legitimar no poder. E isso levará um tempo considerável.


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