Imagem da Semana

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E a imagem dessa semana retrata um fato bastante significativo para as relações internacionais atuais, especialmente no que se refere aos Estados Unidos. Trata-se da cerimônia de confirmação de Hassan Rouhani (à direita) como o mais novo presidente do Irã – na foto recebendo carta de referência do Líder Supremo do país (o aiatolá Ali Khamenei, à esquerda).

A criação de muitas expectativas em relação ao debate nuclear pode ser precipitada já que o regime pouco muda, mas a impressão é que, com Rouhani, abre-se uma porta inédita de diálogo entre Teerã e a Casa Branca a respeito desse assunto sensível a ambos os países e a toda a comunidade internacional. Apesar de manter ceticismo em relação à retórica estadunidense, Rouhani pode (em visão otimista!) viabilizar conversações que seu polêmico antecessor, Mahmoud Ahmadinejad, talvez nem mesmo cogitasse. A ver quais serão os próximos passos do mais novo presidente iraniano… 


Armados de força

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Forças Armadas, para que? Essa é uma pergunta clássica em países como o Brasil, locais no qual se tem baixa percepção de ameaças externas. Onde, para o povo, os maiores inimigos são problemas de natureza social e a guerra apenas figuraria como pesadelos distantes de gente louca. 

Independente da importância dada a essa instituição, a sua organização burocrática e seu poder diante da ordem política de um país não devem ser desmerecidos. E ainda mais no Estado Moderno. Durante os últimos 100 anos temos visto repetidas vezes o papel central do exército na dissolução de governos e na tomada da direção do Estado. Desde as ditaduras nacionalistas europeias da Alemanha, da Itália e mais atualmente da Espanha, até os diversos golpes ocorridos na América Latina, há uma imensa quantidade de exemplos possíveis. 

As Forças Armadas normalmente agem nesses casos para garantir a ordem durante momentos de instabilidade e fraqueza dos governos, ou pelo menos se utilizam dessa retórica. O que se viu no Egito nos últimos anos não foi diferente. No país em que se deu de maneira mais emblemática a Primavera Árabe, agora depois de pouco mais de dois anos da queda do ditador Mubarak pela revolta popular e com apoio do exército, ambas as forças voltaram a unir suas vontades na derrubada de um governante, agora o presidente eleito Mohamed Mursi. 

A crise econômica e acusações de todos os tipos contra o presidente, desde fraudes em sua eleição à corrupção e traição da vontade do povo. São muitos os motivos que levaram milhões de pessoas às ruas e a famosa praça Tahir, já histórica pelas multidões que a ocuparam. Os protestos coincidiram com o ultimato dado pelo exército para a sua renúncia, recebido por Mursi como tentativa de golpe e levando-o a convocar por meio de um discurso na TV a população favorável a sua continuidade a defendê-lo. Nada disso adiantou e venceu a vontade do exército e das multidões em marcha. 

Mas nem sempre população e Forças Armadas falaram a mesma língua durante o processo político atual do Egito. O atraso na convocação de novas eleições meses após a queda de Mubarak levou a população para as ruas em 2012, naquele momento contrária ao exército que se estendia demais no poder. Mesmo sofrendo forte pressão, as Forças Armadas seguiram à frente até as eleições que levaram Mursi à presidência, muito tempo após a queda do ex-ditador. Considerado candidato do exército, a sua eleição foi até mesmo acusada de fraudulenta, um golpe na época da própria instituição que agora o depõe. 

As reviravoltas e conflitos no Egito só demonstram a incompreensão dada pela complexidade do cenário político. O alcance do poder dos islamitas foi outro episodio que demonstra a quantidade e diversidade de grupos lutando pelo poder. O próprio exército, em sua primeira tomada do controle do Estado, garantiu que o Parlamento e a Constituição que supostamente dava vantagens aos islamitas fossem dissolvidos, declarando-os ilegais. A vitória de Mursi, ironicamente um islamita, também foi garantida pelo próprio apoio do exército a sua candidatura. Em um ambiente em que todos são inimigos lutando pelo controle do Estado, fica difícil até mesmo a tarefa de reconhecer quem está ao lado de quem, quanto mais que aja qualquer tipo de coalizão capaz de estabilizar o governo do país. 

A queda de Mursi coloca o Egito no mesmo cenário de incertezas de sempre, em um país que vive o clima das manifestações por um tempo já suficiente para gerar desconforto. Parece uma luta duradoura por algo ainda não muito claro e menos ainda próximo. Fala-se em 17 milhões de pessoas nas ruas nas últimas semanas, o maior protesto da história da humanidade. Mas o futuro do egípcios ao voltarem para casa parece ainda bastante obscuro. As forças armadas já demonstraram há um ano atrás que não são capazes de satisfazer o clamor das ruas governando o país por um período duradouro. Na verdade, isso se deve a total falta de entrosamento e de uma homogeneidade que garanta estabilidade entre a vontade dos grupos de poder e da própria instituição. 

O Egito continua sendo local de diversos conflitos de interesses, um balaio de gatos entre grupos não acostumados com a democracia, que surgem lutando pelo controle do Estado após a queda de um ditador que governou o país durante décadas, com forte apoio interno e externo. 

A questão agora é compreender qual será o papel das Forças Armadas nos próximos passos da política do Egito. Fica claro que o seu papel de restauradora da ordem e da estabilidade aparece de maneira incisiva, como é bastante comum em países sem grande tradição democrática. Resta saber quanto esse poder se estenderá, qual será a influência do seu apoio a futuros presidentes e o seu papel na estabilidade de seus governos. Os próximos movimentos dos grupos que lutam pelo poder, do exército e da população serão decisivos para a construção do novo sistema político construído desde a Primavera Árabe e ainda pouco definido.


[Texto do colaborador Victor Uchôa]


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Global Emirates

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Fonte: Economia/Estadão


A foto acima poderia ser enquadrada na nossa seção “Imagem da Semana”. Todavia, é válido ir além dos fatos atuais e procurar um pouco da história por trás do fenômeno que está evidenciado no título do presente texto. Estou falando dos Emirados Árabes Unidos (EAU), país localizado no Oriente Médio, mais precisamente no Golfo Pérsico, o qual não foi abalado pela crise econômica de 2008 e possui nada mais nada menos do que 5% da fabricação mundial de petróleo. É muita coisa!

Volto ao começo. A imagem em questão é do maior prédio retorcido do mundo inaugurado nesta semana em Dubai, um dos sete emirados do país. Em formato de DNA, com 80 andares, o prédio teve um custo total de 272 milhões de dólares, quase 580 milhões de reais. Mundialmente reconhecida por sua arquitetura futurista, Dubai, juntamente com outra cidade-Estado (Abu Dhabi), é exemplo de paraíso terrestre e enquadra-se no que se denominou na academia de “Momento do Golfo” ou “Golfanização do Mundo Árabe”, ou seja, um processo de crescimento econômico da região acompanhado pela intensa internacionalização de sua economia. E é aqui que os EAU se destacam. 

Localização geográfica dos EAU. Fonte: Google


Os EAU são uma federação composta por sete emirados (Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah). Além disso, são grandes aliados dos Estados Unidos e possuem uma tradição de homogeneidade com diferentes etnias e religiões. Representam sucesso de coesão política no mundo árabe e, como dito anteriormente, estão no ranking dos maiores produtores de petróleo do mundo. Por fim, o país é símbolo de inclusão das mulheres e tolerância religiosa, ao contrário do que grande parte pensa sobre o Oriente Médio de uma forma generalizada. 

Obteve sua independência recentemente, somente em 1971, em decorrência da criação de uma identidade emirati presente nas mãos do famoso Sheikh Zayed. Como consequência da estabilidade política interna, os EAU conseguiram se sustentar e tornaram-se modelos de construção nacional, sobretudo com uma forte legitimidade cultural. Nos seus primeiros trinta anos de existência, o país, liderado por Abu Dhabi e Dubai, apresentou uma prosperidade nacional de grandes proporções. Unindo coesão política, social e cultural, os EAU chegaram no início do século XXI como o maior motor de um novo período: o “momentum” do Golfo. 

Com um Produto Interno Bruto (2009) de 200 bilhões de dólares em 2009, os emirados são considerados, em contrapartida com seu território minúsculo, uma potência econômica expressiva. De acordo com dados do “UAE Yearbook” de 2010, a estabilidade comercial tenderá a continuar com as explorações de petróleo e gás. Aliando diversificação, liberalização e globalização, os EAU conseguiram inserção internacional e, hoje, têm participação ativa no mercado de capitais.

Assim, os considerados “apenas emirados” do século XX tornaram-se “Global Emirates” na última década, haja vista que a região passou a assumir responsabilidades econômicas internacionais e seus Estados adquiriram status de potência. A figura do prédio giratório certamente ganhará acompanhantes, pois Dubai atrai turistas por sua peculiaridade urbana em decorrência, sobremaneira, das cifras do petróleo. Pelo pouco que estudei, os EAU são um país peculiar e diferente tanto no Golfo quanto no Oriente Médio. Minúsculo geograficamente, mas gigante nas mais variadas questões, inclusive com arranha-céus.


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Ação e insatisfação

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Nessa semana, o que chamou a atenção foram protestos, em todos os cantos. Tivemos ativistas do Femen presas na Tunísia, a já comentada ação popular na Turquia contra o governo de Reçep Erdogan, a opinião pública dos EUA escandalizada com o terror dos grampos da CIA e, de modo mais intenso, manifestações contra aumento de preços no transporte público aqui o Brasil, especialmente em São Paulo, onde os choques com a polícia e a violência são maiores. 

Não vamos entrar nos méritos da discussão sobre quem está certo ou errado. No caso dos protestos no Brasil, existe uma tendência nada saudável a demonizar os dois lados da questão, com os manifestantes denunciando uma “guerra” da mídia contra o movimento e o governo e empresas de comunicação focando nos casos de vandalismo decorrentes. Qualquer aglomeração pode ser o estopim de um desastre, e existem pessoas e pessoas. Nem todos os manifestantes são bandidos, mas certamente há malfeitores entre eles, assim como se há policiais abusando da autoridade há aqueles que estão lá apenas fazendo seu serviço. Quando os dois lados perdem a razão, a legitimação vai embora. Mas, não é essa a questão na postagem de hoje. 

O interessante que essa experiência brasileira traz é o modo como esse tipo de mobilização acontece por aqui, contrastando com outros países. Qual a “gênese” desse tipo de revolta? Isso por que já faz um bom tempo que não vejo manifestações dessa magnitude no país, com tanta organização. Geralmente, o que chega aos noticiários são iniciativas isoladas e em casos extremos, como paralisações, invasões e coisa do tipo. As razões pelas quais o brasileiro evita esse tipo de confronto são inúmeras e rendem discussão sem fim, mas podemos dizer que existe uma “acomodação”. É preciso que surja um caso que afete um número MUITO grande de pessoas pra que se mexam. Foi assim no caso das Diretas, só pra pensar no mais famoso. Mas falta algo. 

Vejam outros casos recentes pelo mundo. Na Turquia, um protesto contra uma ação impopular do primeiro-ministro (a destruição da tal praça histórica) acabou virando uma contestação de seu regime. Na Tunísia então, lá em 2010, um rapaz chamado Mohamed Bouazizi resolveu tocar fogo em si mesmo, em protesto contra o confisco de seus bens pelo governo, e com isso causou a queda de pelo menos três regimes e convulsionou o mundo árabe – na verdade, até hoje. A graça dessas revoluções é justamente o fato de começaram com algo totalmente despretensioso ou sem relação com o “cenário” amplo e que acaba tendo repercussões muito maiores, diferentes do original. 

No Brasil, quais as chances de algo assim acontecer? Algo como, digamos, que esses protestos contra o péssimo serviço e transporte público virem algo mais. Baixíssima, eu diria. Fora os fatores culturais, talvez o que pese seja o fato de o Brasil ser, bem ou mal, uma democracia. Nesses países onde as coisas descambam para o enfrentamento direto da autoridade, geralmente existe repressão ou movimentos muito personalistas (como na Turquia). No Brasil, felizmente, ainda temos a opção pela solução democrática (apesar de, tecnicamente, poder protestar é uma das marcas de uma boa democracia). Não é perfeito, mas ainda está nas mãos da população o modo como vai ser governada. Aqui, mais uma vez, entramos num território delicado de condições e análises, mas acho que podemos dizer com certeza que a situação poderia ser MUITO pior. 

Existe insatisfação no Brasil, com certeza. Por um lado, fatores culturais e conjunturais tornam pouco provável que isso resulte em protestos mais incisivos, e ainda é possível alterar os rumos e “consertar” políticas segundo as regras do jogo, por meio de eleições. Por outro, é relativamente desanimador ver como existe pouca cultura de “incômodo” político por aqui – as mobilizações acontecem, geralmente, apenas quando o interesse específico de um certo grupo é atingido. Algum dia o Brasil terá essa consciência, seja da necessidade de união nos protestos, seja do poder que tem pelo voto? Precisamos de um Mohamed Bouazizi se imolando para abrir a cabeça da população e ver que seus problemas vão além do que se apresenta no noticiário? Perguntas, perguntas…


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Turquia: o valor da tradição

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Há pouco mais de 3 anos, fiz um estágio na prefeitura de Bursa (quarta maior cidade da Turquia). Lembro que duas questões me foram especialmente marcantes. Primeiro, a convivência entre a tradição e a modernidade. Segundo, a figura mítica do libertador nacional, Atatürk, que fundou a República no país. No meio de tudo isto, havia ainda uma grande ambição nacional, uma movimento que apontava na direção da prosperidade.  

Na minha visão, os recentes confrontos, iniciados em Istambul e logo propagados país adentro, se inserem dentro do quadro descrito. A questão da identidade se sobrepõe aos interesses. Neste sentido, buscar entender a ação política passa por refletir sobre a construção social desta identidade a partir dos valores nacionais. Na fundação posta em marcha por Atatürk, a questão do estabelecimento de um Estado secular foi central. O seu caráter laico foi um dos pilares da modernização do país. A República foi outro.  

Erdogan, primeiro-ministro turco, está no poder há 10 anos. Seu partido ganhou as 3 últimas eleições. De um lado, os recentes planos de investimento e modernização (incluindo este que iniciou os protestos) refletem o projeto de uma Turquia ambiciosa. Uma Turquia, inclusive, que era favorita na corrida para sediar os Jogos Olímpicos de 2020. Por outro lado, os valores parecem alvo do mandatário, por intermédio de atitudes julgadas como hostis contra Atatürk e seus valores. Como exemplo, ativistas e opositores apontam a transformação das escolas em semi-religiosas, assim como limitações à venda de métodos contraceptivos. 

Desta forma, quando surge o movimento de oposição à revitalização da região de Taksim, a resposta desproporcional do governo promoveu a fagulha que faltava diante de preocupações crescentes. O vice-primeiro-ministro, em sequência, pediu desculpas aos manifestantes e reconheceu as preocupações relativas aos impactos ambientais do polêmico projeto como legítimas. Erdogan, por sua vez, relacionou parte dos manifestantes com o atentado, em fevereiro, à Embaixada dos Estados Unidos e alertou para o perigo que representam.
 

Estão em questão os planos imobiliários, a questão ambiental e o autoritarismo do governo. Contudo, a questão de fundo é o papel dos valores. Medidas restritivas, contra o álcool e estudantes são impopulares, mas não seriam suficientes para promover uma reação nas proporções vistas. Tampouco bastaria o movimento ambiental. Apesar do mosaico religioso e social da Turquia, o país era visto como um aliado fiável do Ocidente, capaz de travar um diálogo entre Ocidente e Oriente como nenhum outro país. Tudo ia bem, excluindo a questão curda, até mexerem onde não deviam.  

O elemento simbólico era o projeto para derrubar o centro cultural, em Taksim, que leva o nome do herói nacional. Dizia-se ser parte da revitalização, mas ninguém acreditou. Existem questões inegociáveis, aproveitou-se a oportunidade para juntarem as insatisfações de uma vez. Chegou-se ao ponto de torcedores de Fenerbahce e Galatasaray, protagonistas de sangrentos confrontos devido ao futebol, portarem a mesma bandeira desta vez. Afinal, com o Atatürk ninguém mexe.  


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Construindo Istambul

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E no final de semana Istambul ferveu. Milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo do primeiro-ministro Erdogan, cada dia mais impopular dentro da Turquia. Até aí, nenhuma novidade dentro do que se viu no Oriente Médio nos últimos dois anos, ou no mundo. A onda de protestos tem crescido ultimamente. O que chocou foi a velocidade da insatisfação, a rapidez de uma revolta tão ampla e inesperada.  

Os protestos desencadeados em Istambul começaram maciços, brecando a indústria e gerando um apagão de um dia na imprensa da capital. Mais do que isso, tiveram uma motivação peculiar, até aqui inédita. O projeto urbanístico do primeiro-ministro Erdogan, contrário a história arquitetônica e política da cidade, foi o grande acendedor do pavio. Mas o que leva à insatisfação popular a sociedades atuais, como o caso turco? 

Crises econômicas, tensões entre governos, opressões de ditaduras ou conflitos religiosos. São muitas as prováveis causas que levam milhares de pessoas a se unirem em torno de uma luta que se estende as ruas. Durante grande parte do século XX amplas teorias sociológicas tem afirmado que as tensões sociais devem, pelo menos por hora, diminuir. Isso por que há nos modelos governamentais mecanismos diferentes da época em que se excluía grupos e se combatia suas insatisfações à força. 

Quem protesta evidentemente protesta contra algo. Está inserido em um grupo insatisfeito. O que se defende  é que os modelos de política atuais buscam inserir, ou pelo menos dar a impressão de inserção a toda a população. Assim, cada dia é dada menor margem a legitimidade e a força de revoltas. Vez por outra, como em momentos de crise econômica, grupos muito prejudicados pela situação social quebram com o estabelecido, se revoltando com a instabilidade do sistema. Na maioria do tempo são apenas a minoria dos mais cultos, ou mais revoltosos, que se arriscam a protestar. A inserção ocorreria quase que exclusivamente pelo direito de todos a comprarem, a estarem dentro do mercado e do consumo.

Mas onde Istambul entra em tudo isso? Normalmente todo esse sistema de pacificação social está vinculado a economia ou a inserção financeira das pessoas. Entretanto, ao que tudo indica, o Oriente Médio e o mundo islâmico como um todo tem uma forte barreira contra o domínio de mercado, ou uma sociedade ocidentalizada. A revolta na capital turca foi principalmente ocasionada pela tentativa de construção de prédios comerciais em áreas tradicionais da cidade, com identidades arquitetônicas e políticas. Para o povo, a destruição de pontos históricos foi inaceitável. 

Istambul é mais um episódio de forças tradicionais, com forte apelo popular, que são contrárias a uma “sociedade atual”. Não por acaso esperamos sempre uma população em ebulição, fortes conflitos entre forças governamentais e a população nesses países. A falta de democracia, as fortes diferenças internas entre os grupos que lutam pelo poder e, por fim, a impossibilidade do uso dos mecanismos de inserção, impedem que haja uma sociedade mais pacífica. Istambul sofreu com o último caso, diferente de outras revoltas vistas nessa mesma região.    

Os protestos na praça Taksim podem liberar uma boa discussão. Representam um momento de forte descontentamento com a política do povo turco, podendo ser um episódio inicial do fim da paciência com o seu governo. E mais importante, podem fazer parte de mais uma crise cíclica que ocorre em sociedades modernas, quase sempre pacíficas. Mais uma fase em que se quebra uma construção de uma sociedade de inserção, causada pela falta de paciência da população com o ataque aos seus direitos de compra, como ocorre na crise econômica europeia, ou aos seus domínios, como ocorre na destruição de pontos tradicionais para a construção de prédios comerciais, como em Istambul. Mais uma vez a paz, por um momento, se apagou.


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O perigo que vem de fora

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Vamos continuar o tema da postagem do último sábado, sobre a crise na Síria. Mas, dessa vez, o foco vão ser os fatores externos que determinam os rumos do conflito. Todo mundo sabe que o problema todo começou com a violência de Assad contra os protestos e coisa degringolou com a formação de grupos armados de oposição. Mas parece que todo mundo ao redor tem seu interesse por lá. 

Quem está do lado de quem? Grosso modo, do lado de Assad, temos a Rússia, China, Irã, Iraque e Líbano. A oposição tem apoio formal de Grã Bretanha, França, Qatar, Arábia Saudita, além dos EUA (apesar de meio indecisos). Temos o Líbano, que tem várias partes interessadas. E claro, Israel, que não quer nada com os rebeldes e prefere encarar a Síria de frente. 

Qual o rolo de tudo isso? Bom, começamos com o Hezbollah libanês, que está do lado do governo sírio. É considerado grupo terrorista por EUA e Israel, e pode vir a ser por Inglaterra e França. Isso já justificaria o apoio dos europeus aos rebeldes. Mas boa parte dos mesmos rebeldes são grupos sunitas radicais – muitas vezes financiados pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo, chefiado pela Arábia Saudita e que de uma organização que não servia pra quase nada virou um importante ator na região após a fracassada “primavera árabe”. Pior, o grupo de oposição sírio não é nada homogêneo, e inclui mesmo organizações ligadas a grupos extremistas como a Al Qaeda. Para os europeus e norte-americanos, armar esses grupos é dar um tiro no pé, um pouco como o que foi feito no Afeganistão nos anos 80 – olha no que deu. É por essa lógica que a Rússia trabalha, pensando que dos males, o menor – manter Assad é a punica garantia de que não vá surgir um conflito longo pelo poder, instabilizando a região, ou pior, a ascensão de grupos radicais. E nem falamos de Israel, que está literalmente em pé de guerra com a Síria por conta de escaramuças na fronteira. 

O resultado disso tudo? A Rússia e o Irã vendem armas para o governo sírio. Países ocidentais e do Golfo armam os rebeldes de um modo ou de outro. A articulação para a tal conferência Genebra II (que pretende juntar representantes das duas partes) parece fadada ao fracasso: a Rússia não vê com bons olhos o armamento dos rebeldes; estes não querem participar sem que Assad renuncie. No meio de tudo, os dois lados estão usando todos os meios disponíveis e temos relatos de armas químicas, com vantagem para o governo. Nenhum dos lados vai ceder. Com isso, parece que a saída por meio da intervenção direta é o caminho menos desejável, mas ironicamente parece o que mais poderia dar certo no momento, pois serviria para remover a causa do conflito (Assad) e ao mesmo tempo daria maior controle sobre a sucessão (para evitar o surgimento de um Estado radical). Mas isso se Israel não for para o ataque antes. 

As possibilidades são inúmeras, assim como as consequências. A guerra na Síria é civil, mas tudo que decorre dela tem impacto regional. O caos decorrente vai ser generalizado por aqueles lados, e vai ter seus efeitos muito além, de Washington a Moscou. Não seria nada inesperado caso venha a se tornar algo maior.


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Síria: o regime recupera terreno

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O conflito na Síria se arrasta há mais de dois anos, mas o presidente Bachar Al-Assad segue na sua poltrona. Nos últimos meses, frente a escalada da violência reportada, parecia crescer a chance de alguma forma de intervenção. França e Reino Unido defenderam abertamente armar os rebeldes, ao passo em que os Estados Unidos estabelecerem sua linha vermelha. Por outro lado, Rússia e China bloqueiam resoluções contrárias ao mandatário na ONU. 

O momentum parecia favorecer os rebeldes. Contudo, após o incidente de canibalismo e, especialmente, da afirmação de uma investigadora das Nações Unidas sobre evidências da utilização de armas químicas por rebeldes, o cenário embaralhou-se. A afirmação logo foi negada por outros investigadores, mas preocupou, justamente por se tratar da tal linha vermelha ou a “game changer” do Obama.   

Na semana passada, em entrevista ao jornal Clarín, o líder do regime defendeu a sua ofensiva militar e negou a estimativa de vítimas (mais 70.000 para a ONU). Reafirmou ainda sua intenção de resistir e até mesmo apresentar-se nas próximas eleições do país. Além disso, o jornal Le Monde indicou nesta semana um avanço das forças oficiais, que teriam se rearmado e se aproximavam de reconquistar uma cidade estratégica na fronteira com o Líbano.  

Os russos, apesar de proporem uma conferência para discutirem a crise, seguem sendo o principal fornecedor de armas para Assad. O Irã também tem auxiliado na tarefa. Sem contar o Hezbollah do Líbano, que combate junto ao exército do governo. A estratégia de garantir o controle em regiões estratégicas do país, ainda segundo o veículo francês, levou a recentes massacres em três vilarejos sunitas.  

Neste mar de sangue, o apoio internacional e os avanços rebeldes parecem arrefecer. O primeiro parece relegado à conferência internacional negociada por EUA e Rússia, enquanto o segundo grupo parece perder-se na fragmentação – incapaz até de gerenciar a ajuda humanitária nas áreas que controla. De ação internacional contrária ao regime, somente a atuação solo de Israel mesmo.  

Uma intervenção que parecia acercar-se do iminente, pode ter sumido do mapa. Segue o conflito e a tragédia humanitária.   

Imagem: fonte


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Existem limites?

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A mais nova atrocidade cometida no contexto dos conflitos na Síria chegou às manchetes essa semana e levanta uma questão: existem limites? Em uma situação de conflito interno que talvez já tenha ultrapassado todos os limites de violência e de vítimas inocentes que poderíamos supor existir em pleno século XXI, este caso vem para impressionar pela crueldade do ato – que por si só já é motivo de sobra para enorme repulsão – mas, paradoxalmente, pode trazer o debate a um nível diferente, em que (mais do que) urgente é a tomada de decisões para evitar situações parecidas.

Para quem não viu nos noticiários dos últimos dias, o caso em questão se refere ao rebelde sírio da cidade de Homs, identificado como Abu Sakkar, que foi filmado arrancando o coração (ou o fígado, segundo outras fontes) de um soldado sírio já morto e mordendo tal órgão. Trata-se de uma situação de tamanha degradação humana que não é necessário visualizar o vídeo em si para imaginar a cena (apesar de este estar disponível no YouTube).

Alegando a política de Hamurabi de “olho por olho, dente por dente”, a justificativa (se é que se pode chamar assim) de Sakkar é de que foram encontradas imagens gravadas no celular do soldado de abusos sexuais cometidos anteriormente por este. É claro que nenhum julgamento é fácil e que o conflito sírio é muito mais complexo e envolve muito mais interesses que se possa imaginar, mas a brutalidade deste ato parece trazer o debate para um nível diferente.

Um crime de guerra de tal repercussão cometido por um rebelde em um contexto de conflito armado que perdura desde março de 2011 e que já causou aproximadas 80 mil mortes (ou 120 mil, de acordo com outras fontes), além de mais de um milhão de refugiados (mapa interativo sobre a situação dos refugiados aqui) e milhões de deslocados parece (ou pelo menos deveria) ser o estopim para que os esforços pela paz sejam redobrados, triplicados, multiplicados por todas as menores chances de se alcançar um diálogo entre governo e rebeldes pelo final da violência no país.

Uma Conferência de Paz está sendo proposta pelos Estados Unidos e pela Rússia para junho, mas informações relativas à possibilidade de não comparecimento do governo sírio já foram divulgadas, alegando riscos à soberania do Estado… será?

O rebelde “canibal” alega não estar arrependido de sua atitude, mas líderes do maior grupo rebelde da Síria garantem que ele será punido por sua conduta, sugerindo que, sim, existiriam limites à crueldade e que a indignação seria compartilhada por todos os lados. Com tamanha crueldade ele agiu (e quem saberia dizer quantos outros combatentes, rebeldes ou partidários do governo têm agido sem serem filmados?), mas também com crueldade ele será provavelmente punido, e de enorme crueldade (mas talvez não tão midiatizada) milhões de inocentes estão sofrendo, em incontáveis dramas anônimos e particulares…

A comunidade internacional se comove, se choca e se revolta. Contudo, ainda assistimos impotentes a uma carnificina que aflige a população síria e cuja perspectiva de solução ainda parece estar longe de ser alcançada no plano político. Existem, pois, limites? 


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Anjos e Demônios

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Há um ano e meio atrás assistíamos a uma multidão furiosa armada com paus, pedras e fuzis. Em meio a ela um homem quase morto sendo carregado. Uma imagem digna de pena. A filmagem, feita por um celular, seria interrompida antes do final daquele episódio: a sua execução no meio de uma das ruas de Sirtre, na Líbia. Qualquer pessoa que não tivesse acompanhado as notícias da época opinaria facilmente que aquele homem era um coitado, carregado por uma multidão de desalmados. Mas naquele momento, para a maioria, ele era um ditador assassino sendo caçado por um grupo de rebeldes que buscavam libertar o seu povo.

Muammar Gaddafi, até então líder da Líbia, era o homem daquela filmagem. As últimas semanas antes de sua morte haviam servido para que se transformasse em um daqueles líderes de péssima reputação, odiado por todos os lados. As acusações contra si eram extensas, desde terrorismo a ser um ditador assassino de seu próprio povo, massacrando minorias e manchando suas mãos com milhares de mortes. Seguindo a opinião quase unânime do mal que representava,  grupos e meios de comunicação de todo tipo, inclusive organizações e partidos políticos do Brasil, colocaram nele a imagem do mal personificado e no grupo de rebeldes a chance de um mundo livre de mais uma sombra.

Durante os meses de conflito entre rebeldes e forças do governo, a imagem de luta do bem contra o mal se reforçou em detalhes. Houve até quem na imagem dos rebeldes, com camisetas no rosto e empunhando armas, enxergou ali a luta contra todas as desigualdades e injustiças do mundo. Até assistirmos a filmagem. Aquela gravação de celular não só foi o final da guerra civil e de Gaddafi, mas também da utopia sobre aqueles sujeitos contrários ao ditador. A barbárie de seu assassinato, sem julgamento, uma execução filmada a céu aberto, não só chocou a quem assistiu, mas descumpriu qualquer ideia do que temos de justiça e de como agem aqueles que se colocam ao seu lado. Em outras palavras, naquele momento Gaddafi e rebeldes deixavam de ser os contrastes entre si, para serem praticamente iguais em suas ações e métodos.

Um ano e meio se passou e a Líbia segue patinando em disputas de lideranças regionais pelo poder. Tudo que existia de mais obscuro dentro daqueles personagens sem rosto, tingidos de revolucionários de dias melhores, transpareceu. O grupo de rebeldes, em união unicamente pelo ódio a Gaddafi e seu regime opressor, se espatifou em dezenas de grupos menores que nada tem em comum e que ameaçam entrar em conflito entre si. Representantes extremistas, grupos terroristas como a Al-Qaeda, fundamentalistas e uma série de pessoas com interesses até então encobertos pela necessidade da retirada do ditador do poder surgiram a cada dia. A Líbia seguiu o futuro incerto da Primavera Árabe, em tempos pós primavera.

A crise na Síria, que durante muito tempo disputou espaço com a guerra na Líbia, pode ser comparada a esse episódio em muitos aspectos. Nos últimos dias foi deixada de lado pelas constante ameaças da Coréia de Norte, que até agora apenas obtiveram sucesso em chamar a atenção do mundo. Fato é que o regime sírio segue passando por enormes turbulências, enquanto as forças oposicionistas aumentam seus ataques ao governo oficial. Apoio não falta aos rebeldes, reconhecidos por muitos já como o governo sírio de fato. O que não deve passar em branco são novas informações que deixam claro que os rebeldes não são exclusivamente financiados por grupos e governos tidos como democráticos. Na verdade, nem o interesse desses governos em apoiar os rebeldes é até agora claro.

Desde o inicio do avanço das forças oposicionistas, sabemos que parte desse grupo é financiado abertamente pelos EUA. A novidade é que agora também sabemos que enquanto isso outra parte é financiada pela Al-Qaeda. Novamente estamos às voltas de uma possível revolução de um grupo múltiplo, com interesses dos mais diversos. E novamente grande parte acredita que isso faça parte de um momento democrático, e que a Síria será melhor sem o presidente atual, nas mãos de forças que nem ao menos conhecemos o rosto. Após o fim do regime sírio, se isso ocorrer, é certo que os rebeldes se comportarão da mesma maneira, se livrando das suas atuais identidades de grupo reunido pela oposição a um regime totalitário e quase que unanimemente criticado, a vários grupos compostos por democratas, terroristas, fundamentalistas, almejadores do poder ainda mais totalitários que a ditadura atual etc.

A disputa política no mundo Árabe é assim, um balaio de gatos de uma complexidade sem tamanho, em que cada passo significa um risco, tanto para os participantes das disputas políticas, tanto pra quem ousa compreender minimamente como elas funcionam. Os múltiplos interesses estão longe de serem solucionados, independente de queda ou surgimento de novos governos. Os personagens obscuros também não. Sem saber o interesse das forças que regem esses grupos que vemos pela TV tão inspiradores, os rebeldes, como saberemos como estamos nos posicionando entre anjos e demônios?


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