Morre Sharon, vive o conflito Israel-Palestina

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Líderes mundiais deixam, inevitavelmente, um legado histórico que ultrapassa fronteiras e que revela sua influência em grandes traços do cenário político internacional à sua época. Com Ariel Sharon, contudo, a análise é bastante particular. Dependendo do interlocutor, sua memória é relembrada de formas absolutamente distintas. Visões opostas de uma liderança controversa que se despediu sem que o conflito na região tenha qualquer perspectiva de finalização.

Aos 85 anos, após oito em estado de coma vegetativo, o ex-primeiro-ministro de Israel faleceu ontem. Considerado um dos “pais fundadores” de Israel, Ariel Sharon é lembrado por sua carreira militar à qual se sucedeu uma ampla trajetória política no país.

Sua postura “linha dura” em defesa unilateral dos interesses de Israel certamente impacta na situação em que a região se encontra ainda nos dias de hoje. Destaca-se o fato de que Sharon ainda teve seu nome associado ao triste massacre de palestinos em campos de refugiados do Líbano (Sabra e Chatila) enquanto era ministro da Defesa, em 1982.

Após passagem por vários cargos e sob o slogan de “segurança e paz verdadeira”, foi eleito primeiro-ministro em 2001, sob levante palestino. Responsável pela construção do absurdo muro da Cisjordânia e tradicional promotor de assentamentos israelenses em territórios ocupados por palestinos, o fato de Sharon ter ordenado a retirada de assentamentos israelenses da Faixa de Gaza em 2005 revelou uma faceta mais centrista em relação ao seu passado de direita. Pouco depois, o derrame que o levou ao estado vegetativo em que se encontrava até o momento de sua morte impediu a história de vislumbrar se sua postura em relação ao reconhecimento dos palestinos enquanto um povo livre se concretizaria, diferente de sua usual linguagem da força.

Considerado “herói político” por israelenses e “criminoso e tirano” por palestinos, sua morte está sendo, ao mesmo tempo, lamentada e comemorada por muitos. Posições de enfrentamento que, desde a polêmica criação do Estado de Israel da qual ele mesmo participou, representam um dos maiores desafios político-militares nas relações internacionais.

Com claros interesses em jogo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reforçou hoje o anúncio da construção de novos assentamentos israelenses em territórios palestinos, contradizendo as expectativas palestinas e internacionais, mesmo após a recente tentativa de retomada de negociações pela paz por parte de John Kerry, Secretário de Estado norte-americano. O conflito Israel-Palestina, infelizmente, tem perspectiva de vida longa…


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Um caminho para o futuro

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Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


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Sobre conversas telefônicas e mudanças

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Vivemos momentos históricos para as relações internacionais contemporâneas. Vários acontecimentos recentes têm impressionado porque, apesar de constituírem polêmicas antigas, poucos imaginavam o rumo que estes temas tomaram nos últimos dias.

Destacadamente, assunto já tratado aqui no blog, vimos a presidenta brasileira questionar a hegemonia estadunidense diante das revelações de espionagem em níveis altíssimos e “adiar” uma visita de Estado ao presidente Obama, mesmo após contato telefônico deste para tentar esclarecer a situação.

um outro contato telefônico de Obama trouxe esperança de renovação em relações bilaterais tensas há décadas. Trata-se da relação Estados Unidos-Irã. Com a chegada do novo presidente iraniano Hassan Rouhani, já comentávamos no blog a impressão de que se visualizava uma porta inédita de diálogo entre Teerã e a Casa Branca a respeito do sensível debate nuclear.

Durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, percebeu-se já um tom mais amigável entre os líderes, apesar de as posições manterem-se ainda bem marcadas, e o telefonema de 15 minutos ocorrido na última sexta-feira fechou a semana trazendo um novo ar às relações entre os dois países.

Depois de 34 anos, os líderes de Estados Unidos e Irã conversaram diretamente. Momento histórico. É claro que não se pode esperar que três décadas de tensão se resolvam em três dias, mas tampouco pode ser menosprezada a importância desta conversa.

Subordinado ao líder supremo do regime islâmico, o aiatolá Ali Khamenei, Rouhani já se destaca na chefia do governo pela autonomia e disposição em quebrar o estigma de líder inacessível ao diálogo com o Ocidente.

Este posicionamento, contudo, ainda possui receptividade diversa no próprio Irã. Aclamado pelos jovens e por aqueles que acreditam na via do diálogo, Rouhani é ao mesmo tempo hostilizado por aqueles que se recusam em aceitar a “submissão” ao Ocidente, representado notadamente pelo gigante norte-americano.

Ousado, Rouhani já se configura como um líder que merece destaque. A possibilidade de uma nova era de diálogo entre Estados Unidos e Irã reacende uma esperança há muito perdida. Apenas com os resultados efetivos das negociações é que poderemos avaliar o real impacto desta conversa telefônica, mas que ela por si só já representa um avanço, isso não se pode negar. 


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O poder do discurso

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Ontem começou a Assembleia Geral das Nações Unidas. A data não é ao acaso – as reuniões ordinárias sempre começam em setembro, todo ano. Antes da reunião em si, os países podem fazer um discurso inicial, e aqui tem existe outra tradição interessante – a de que o Brasil sempre é o primeiro a fazê-lo. 

Esses discursos, mais do que apresentarem a “posição” do país, são um momento importante e simbólico. Quem não se lembra de Kadafi rasgando a carta da ONU? Ou Chavez falando do cheiro de enxofre após o discurso do Bush filho? Além dos momentos mais pitorescos, é claro que outros são mais impactantes, inclusive o que começou essa tradição de o Brasil inaugurar as sessões: logo na segunda reunião da AG (que foi extraordinária), em 1947, aquela que definiu a formação do Estado de Israel, o representante brasileiro Osvaldo Aranha foi um dos responsáveis pela defesa (e sucesso) da proposta, e como o primeiro orador inaugurou essa tradição. 

Recentemente, o Brasil vem sendo representado pelo seu chefe de Estado, e o discurso acaba tendo uma importância relativa para entender aspectos de sua política externa. Lula por exemplo teve seu grande momento internacional quando trouxe o tema da pobreza para o debate na AG. Mesmo Dilma já tinha feito algo parecido quando trouxe o debate da “Responsabilidade ao Proteger”, que estava em voga na época por causa da invasão da Líbia, e que hoje está meio esquecido, mas teria tudo para ser a bola da vez com a questão da Síria.

Com isso chegamos ao discurso de ontem. Dilma fez o que se esperava: reclamou da espionagem dos EUA, condenou isso como violação do Direito Internacional e propôs uma regulamentação para a atividade no “cyber espaço” para que não seja usado como arma de guerra. A discussão é polêmica, a rede é uma terra de ninguém, mas se temos convenções até para tornar o espaço sideral uma área sem conflitos, por que não? Não é despropositado, e se vai render alguma coisa em longo prazo, é difícil saber, mas o discurso tem um peso e entra pra história pessoal da presidente, além de ter tido um grande destaque na imprensa internacional. 

Mas talvez os discursos mais interessantes (e esperados) tenham sido dos EUA e do Irã. A perspectiva de uma negociação é bem plausível agora, já que o novo presidente, Hassan Rouhani, parece bem mais flexível que Ahmadinejad. O momento seria de cautela, mas há uma expectativa positiva. Por outro lado, o discurso dos EUA é mais pessimista, com um Obama abatido e com inimigos por todos os lados, e a imagem de um país indeciso quanto a seu papel de potência. As críticas recentes de Putin a essa “excepcionalidade” parecem coadunar com a “crise de identidade” dos EUA, que quer manter sua posição no mundo mas não sabe exatamente como.

O fundamental disso tudo é que os atores principais parecem não mudar. Lideranças pontuais ou novidades (como o egípcio Morsy, que no ano passado era a vedete da AG e hoje nem se sabe onde está preso) surgem todo ano, mas no fim das contas o peso maior recai sobre os países mais tradicionais. E o Brasil, bem ou mal, faz parte desse grupo.


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Solução à vista?

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Depois de uma intensa semana de negociações, a notícia mais comentada do dia de ontem foi o acordo em que chegaram Estados Unidos e Rússia a respeito da Síria e das medidas a serem tomadas especialmente em relação aos ataques com armas químicas que chocaram a comunidade internacional há pouco menos de um mês (leia post no blog a respeito aqui).

O dilema sírio já é bem conhecido por todos e o complexo jogo de interesses envolvido (e já discutido no blog em diversos momentos, veja alguns posts aqui, aqui e aqui) torna qualquer solução de difícil visualização no plano prático. Contudo, o uso de armas químicas por parte do governo Assad revelou uma nova e ainda mais terrível faceta deste conflito, mobilizando especialmente o gigante americano contra essa ameaça à paz e à estabilidade internacionais (posts aqui e aqui).

Todos os números destes dois anos e meio de conflito civil na Síria são chocantes e denotam a grande dificuldade de se chegar a um acordo de paz no país. Acumulando mais de 110 mil mortos e aproximadamente 2 milhões de refugiados em países vizinhos, poucos avanços têm sido vistos ultimamente, tornando incertas as perspectivas de paz para a população da Síria e da região.

Com a iminência de um ataque dos Estados Unidos ao país, entretanto, houve uma especial mobilização por parte da Rússia (tradicional aliada da Síria no Conselho de Segurança) para o estabelecimento de uma ponte diplomática de diálogo. Ontem, pois, acordou-se que a Síria deve apresentar um inventário de suas armas químicas em uma semana e que estas deverão ser completamente destruídas até o ano que vem, evitando-se assim um ataque norte-americano e almejando-se que este acordo evolua gradativamente para algo mais abrangente que reacenda a esperança do final do conflito…

Ainda é cedo demais para entender as reais consequências do acordo, mas fato é que, apesar de inicial, este representa um importante passo nas negociações com o regime sírio. Ainda, a ONU afirmou ter recebido carta da Síria com intenções de que o país venha a aderir à convenção internacional contra as armas químicas. Registro de algum avanço? Possivelmente sim.

Mas nem tudo são flores e os ataques do governo aos rebeldes (e vice-versa) continuaram hoje em um ambiente hostil, em meio ao qual todas as boas intenções parecem se esvaecer. Obama segue preparado para um ataque à Síria em caso de descumprimento do acordo. Rússia e China seguem dispostas a barrar quaisquer ações mais incisivas contra o regime sírio com seu poder de veto na ONU. A oposição no país não vê o acordo com bons olhos, e permanece ainda uma descrença generalizada quanto à solução do conflito.

O que pensar diante desta situação? Difícil. Acreditar que a esperança é a última que morre é importante. Mas as mortes sírias são tantas e de tantas formas que a esperança parece precisar, na verdade, ressurgir das cinzas. Se estamos vendo e vivendo os primeiros passos para tanto, só o tempo poderá confirmar. Aguardemos (esperançosos!) o desenrolar deste acordo para reavivar um otimismo há muito obscurecido pelo ceticismo e avistar, efetivamente, uma solução duradoura para o drama sírio. 


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Pessoas da Síria, vergonha de mundo

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Há 7 meses escrevia meu primeiro texto para o blog. Na época, como ainda não havia escrito nada, pensei em publicar o assunto que mais me incomodava. E nenhum outro tinha tanta força de tirar o sono do que o tráfico internacional de pessoas, mais precisamente o tráfico de mulheres. Não somente por ser um dos atos mais asquerosos existentes, mas também por ter certeza que ele não seria eliminado à curto prazo.

Afirmava na época que embora houvesse uma enorme tentativa por parte das forças policiais e jurídicas de diversos países para coibir essa forma de crime, ele só se fortalecia com o tempo. Mas então qual seria o segredo do sucesso dessa prática? Hoje o crime mais rentável do mundo. E concluí que isso ocorria precisamente por ser executado contra pessoas de “menor importância”, que não eram valorizadas por governos e sociedades.

A única coisa que faltava naquele texto era um cenário que na prática demonstrasse a relação entre crimes hediondos contra a humanidade e a falta de valorização de certos grupos, o que legitimava tais ocorrências. Agora surge a Síria, que infelizmente pode servir como um bom exemplo.

O país que passa por uma guerra nos últimos meses entre governo e oposição. Conflito que já matou mais de cem mil pessoas, segundo estimativas. De um lado, Bashar Al Assad. De outro, rebeldes, muitos deles financiados pelas potências ocidentais. Uma massa heterogênea de pensadores, políticos, pacifistas e terroristas, digna das complexidades presentes nos conflitos do Oriente Médio.

A guerra corria sem novidades, até a ocorrência de um ataque químico, ao qual o ditador sírio é acusado de ser o mandatário. A denúncia de que haveriam mais armas desse tipo em poder de Assad, que inclusive poderiam ser descarregadas não só contra os rebeldes, mas contra os inimigos da Síria, e coloque-se aí Israel e EUA, ligou o sinal de alerta de Obama e das potências europeias. Agora, passado algum tempo, estamos prestes a ver uma intervenção americana no país.

Feita a exposição inicial da situação, proponho um processo de desconstrução do que ocorreu nas últimas semanas, colocando os excluídos sírios, até aqui invisíveis, no papel central da discussão. Por que a não ser que tenha ficado louco, nada do que acabei de dizer, embora realmente esteja ocorrendo, faz sentido. Há hoje, uma guerra que matou 100 mil pessoas, e Obama só agora propõe uma intervenção, se utilizando de um discurso moralista, do tipo: “as potências não podem se calar diante dessa tragédia.”

Como justificar que após 100 mil mortes omitidas, ou pelo menos “pouco impactantes”, mil e quatrocentas vidas sejam tão mais importantes? A ponto de fazer o presidente ficar tão inconformado e buscar justificar um ataque à Síria. Seria necessária um grande poder de discurso, de persuasão. E para os EUA é o que não falta.

Obama é astuto, ele conhece os caminhos da compaixão humana. Ele fala em 1400 mortos e logo acrescenta, “boa parte crianças”. E afirmo que no dia em que as análises de discursos políticos não se limitarem ao que foi dito, mas também ao que foi omitido, o tom moralista e heroico de Obama após os ataques químicos tem muito a dizer sobre por que ocorrem atrocidades que passam batidas, como guerras e  o tráfico de pessoas. E agora explico.

Quando Obama fala em mortes de civis, e em sua maioria crianças, ele faz um contraponto entre os milhares de mortos em guerra. Primeiro, por que na guerra existe um “lado mal”, e para esse lado a morte não deve ser lamentada. Segundo, que há a ideia de que os que morreram pelo lado correto, se sacrificaram pela “guerra justa”. Por último, uma constatação: a maioria dos que morreram em combate são homens adultos. “Soldados”. Menos valorosos que crianças.

E por que eu digo que são homens adultos? Primeiro, por que a Síria é um dos países mais machistas do mundo. Logo, a mulher está pouco representada no espaço público, ainda mais durante guerras. Segundo e mais conclusivo, digo isso por ter lido alguns dados, que dão conta de uma migração de mais de 2 milhões de refugiados sírios, em sua maioria mulheres e crianças.

Se a necessidade da guerra justifica a morte de milhares de “soldados” dentro da Síria, a falta de importância dos refugiados justifica a omissão dada a esse problema. São milhões de crianças, e logo muitas delas serão traficadas, ou utilizadas em trabalhos desumanos. Milhares de mulheres que começam a sofrer a mesma ameaça. O tráfico de pessoas e a prostituição forçada dependem e sempre foram muito eficazes em recrutar esse mar de refugiados que se forma a cada conflito. É assim no mundo todo, será assim na Síria.

Voltando ao discurso de Obama, o ouvimos dizer que “nós (EUA) faremos uma intervenção na Síria, por que é inconcebível que um país descumpra um tratado internacional”. Pelo que sei, Obama não é professor de política internacional, muito menos de sociologia. O público dele não é uma sala de estudiosos, mas sim o cidadão americano. Quando ele direciona o discurso para estes, ele não pode justificar suas ações lendo bulas, mas exercendo uma argumentação que alimente o senso de justiça da população. Que legitime o ataque por esse ser algo correto a se fazer, e apenas isso.

Mas não. Obama usa somente um discurso legalista para justificar a invasão. Mais e ainda pior: ele dá importância a um fato sobre os outros. Obama está praticamente dizendo que “o que justifica a nossa intervenção é o uso de armas químicas”. Em outro ponto ele traz para mais próximo a ameaça dessas armas, dizendo que elas “põe em perigo os EUA e toda a comunidade internacional”. Fala completa, cidadão convencido ou não, há um outro discurso: o do silêncio.

Nele, Obama está dizendo: “armas químicas são perigosas, inclusive para nós. Queremos a queda do ditador e para isso financiamos os rebeldes. As 100 mil mortes até aqui dessa guerra não foram suficientes para realçar nossa compaixão, ou mudar nossa política. Os milhões de refugiados, que logo morrerão, ou pior, se tornarão escravos, sexuais ou não, não tem tanta importância. Por isso atacaremos, mesmo que o ataque piore ainda mais todo o cenário para a população comum”. E governos e homens como Obama não se importam mesmo. Para diminuir o peso da crítica que faço sobre eles, afirmo que sei que não são os únicos omissos. São parte da maioria.

Por isso mesmo essa semana discutiremos novamente a intervenção ou a votação do Congresso americano. Será tema principal até o poder de destruição das possíveis bombas, como funcionam, como são construídas. E no mesmo momento estarão passando pelas fronteiras milhares de mulheres, que logo serão exploradas graças a esse cenário de desgraça. Inclusive pelo tráfico internacional de mulheres. Quem sabe algumas delas até nos clubes de Miami, bem próximas a Obama. Algo terrível. Mas que de forma impressionante sempre permanece como problema de última prioridade.

Alguns podem dizer que meu texto é utópico. Afinal como Obama poderia ser responsabilizado por essa situação, ou mesmo como lutaria para terminar com um problema mundial tão complexo? Eu também faço esse tipo de pergunta, mas para uma outra situação: como uma intervenção de Obama poderia trazer democracia e paz na Síria? Essas ideias já passaram por Iraque e Afeganistão.  Em todos os casos, a “democracia” cobrou mais vidas do que deveria. O presidente dos EUA “acredita” que pode levar soluções a conflitos, mas não move um dedo para para discutir a situação de refugiados, os milhares de mortos de uma guerra em que ele é um dos financiadores, ou o florescimento do tráfico de pessoas, que ficará ainda mais forte com essa nova “leva” de refugiados sírios.

Agora, uma questão pessoal. Quantas armas químicas são necessárias para igualar o caminho de dor e desilusão causada pela bomba formada por guerras, milhões de refugiados e o sistema internacional de tráfico de pessoas?  Mas aparentemente esse problema segue fora de pauta, por vezes relembrado aqui e ali, esporadicamente. Retratos obscuros da marcha dos crimes contra seres humanos pouco valorizados, refugiados, traficados, entre outros. Seres humanos invisíveis.


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O Gigante sem amigos

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Algumas nações levam consigo a crença na predestinação. Povos que teriam qualidades capazes de dominar o destino, caminhando eternamente em uma imutável estrada rumo ao sucesso. Os EUA e sua igualdade que o levaria a se tornar a hegemonia mundial, a terra das oportunidades. A possibilidade do “sonho americano”. O Brasil e sua fama de “o país do futuro”, slogan desgastado do ufanismo brasileiro, são alguns dos exemplos. 

Outros países também compartilham desse sonho. A Rússia, cujo símbolo de predestinação, ou de maior força perante as outras nações é um urso mal encarado, está nesse grupo de fieis da superioridade. E de certo ponto de vista, o destino parece ter contribuído para que essa ideia permanecesse durante séculos.

Fazendo um exercício de volta ao passado, poderíamos nos lembrar qual é o primeiro momento em que ouvimos falar do país, ainda na escola? Certamente leitores com melhor memória se lembrarão do fracassado ataque de Napoleão, vencido pelos russos e pelo seu inverno. De certa forma, a Rússia naquele momento ainda era um país agrário e atrasado. Insignificante, mas com certa sorte em surgir do nada como central no que vinha ocorrendo na Europa.

E assim seguiu a Rússia, sem grande destaque, até a Revolução de 1917. Com ela veio o socialismo e o país se transformou em portador máximo do “espectro que rondava o mundo”. Foi exatamente esse espectro que chamou a atenção e brotou o ódio da Alemanha na Segunda Guerra Mundial contra o país. Após sofrer diversos massacres e contando novamente com o inverno, a Rússia seguia sua predestinação de ter papel central.

Mas foi na Guerra Fria no pós-guerra que pudemos notar uma certa predestinação da Rússia, além do papel central nas decisões do mundo, já estabelecido. Era o isolamento político. O país parecia fadado à ele. Após o fim do muro que separava os dois pólos, percebia-se que a imagem do país sofria danos até diante de seus parceiros soviéticos, sendo ela acusada de forte exploração e imperialismo, e já no fim do regime comunista, de uma forte necessidade de manter o território pela custasse o que custar. E normalmente o custo era alto.

O fim da Guerra Fria não apagou as mágoas de seus vizinhos, muitos deles flagelados pelo decadente sistema socialista e o abuso do poder central russo, em manter por tempo mais do que necessário, a dominação de um sistema caindo aos pedaços. A Rússia havia aprendido a se tornar imperialista de forma dura, aumentando sua influência de forma pouco inteligente comparada ao sorriso amigo dos EUA, sua potência antagonista.

E assim chegamos aos dias de hoje, em que o país sofre com sua falta de competência em construir pontes. O fim da União Soviética não finalizou o medo de dispersão dos diversos territórios do Império. Há pelo menos 37 áreas de instabilidade dentro do país. Conflitos internos que por vezes assumem tons dramáticos, com ataques terroristas de grupos separatistas seguidas de respostas polêmicas do governo central. 

A indisposição interna dos rebeldes chegou à capital, com polêmicas ações do governo como a lei anti-lobby gay do governo. Decisões que, além de comprometer a popularidade do governo com parte da população, afastam o país de alguns setores sociais do ocidente. Mais do que isso, criam o que cientistas políticos gostam de chamar de “agenda negativa” sobre um governo. Até mesmo o beijo entre competidoras no pódio acirrou os ânimos dos críticos. A quem se dispõe a compreender a sociedade do espetáculo, conhece como esses tipos de acontecimentos são determinantes atualmente. 

Problemas que levam a  próxima sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas à total contestação. A forte oposição da população ao governo e à recorrentes críticas internacionais. A corrupção durante a época socialista e ascensão de diversos bilionários, ligados à mafia e herdeiros de gigantes estatais, colocam em dúvida até mesmo a existência de algum resquício de democracia no país.

Nos BRICS, a Rússia também não é capaz de selar nenhum acordo de cooperação ou que transforme essa sigla em de fato um bloco útil. Inclusive, é um dos pilares da falta de possibilidades de uma ação conjunta entre países de tão diversa cultura e aparentemente tão inaptos em traçar relações que não sejam unilaterais. 

Agora eis que a Russia se coloca como ator principal na crise formada pela guerra civil da Síria. Como um dos principais parceiros do país, tenta de todas as formas deslegitimar o possível ataque americano ao país, com constantes falas na mídia e na ONU. Enquanto a situação segue para o iminente ataque, o país tenta barganhar mais poder decisório deslocando tropas no mediterrâneo. Tudo para proteger seus interesses e de um dos seus parceiros. Mas como sempre, o país demonstra seu destino de caminhar sozinho, enquanto mostra claramente a sua distância, em todos os aspectos, com o país árabe e seu isolamento total no Conselho de Segurança. O poder de veto se tornou com o tempo voto vencido com a falta de apoio que o país carrega na organização.

E muitos poderão perguntar: e o apoio da China, constante, no Conselho de Segurança da ONU? Não seria um forte parceiro? Sabemos que a China só defende interesses que sejam bem claramente seus. No mais, é outro lobo solitário no cenário internacional, que tem parceiros mais pela necessidade do que pela afinidade. Com a Rússia seria o mesmo.

O Gigante parece mesmo fadado a uma cíclica posição de destaque, para o bem e para o mal. Só mais forte do que a predestinação à ocupar um papel central no mundo, parece sua capacidade de se colocar como antagonista de outras potências e isolada politicamente. Se fosse uma pessoa, seria acusada de anti-social. E o destino prega peças engraçadas para confirmar sua dificuldade. Basta relembrar a ironia da Segunda Guerra Mundial, em que a Rússia se uniu ao “time dos Aliados”, mesmo sem nada em comum além da ameaça de Hitler. Depois disso, tais aliados sempre se transformaram em inimigos. Ironias até na nomenclatura de alianças de guerra, traçadas pelo destino de um país sem amigos.


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O dilema de Obama

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O Protocolo de Genebra, o primeiro documento que trata do uso de armas químicas, foi acordado há mais de 80 anos. Desde então, o mundo parecia caminhar para uma progressiva eliminação do seu uso. Por outro lado, a Cruz Vermelha, na celebração dos 80 anos do tratado internacional, apontava o aumento do número de agentes potencialmente perigosos e a ampliação dos atores com acesso a esse tipo de recurso como elementos que amplificavam os riscos existentes.   

Entre as lembranças que ajudaram a fortalecer o repúdio a esses armamentos estão: o uso na Guerra do Vietnã pelos Estados Unidos e os ataques de Saddam Hussein aos curdos. Na sequência do Protocolo de Genebra, foi-se além com a celebração de convenções complementares relativas às armas químicas e armas biológicas. Como exemplo do efeito devastador, ainda em 2012 os norte-americanos continuavam esforços de descontaminação no Vietnã, décadas depois dos ataques com um mistura de herbicidas (o agente laranja). 

Pois bem, mas por que estas armas são tão tenebrosas? Nesta semana um professor francês, ex-membro da organização Médicos sem Fronteiras, elucidou a questão. Perguntado sobre a diferença entre armas químicas e convencionais, respondeu que as últimas são empregadas para a conquista de pontos estratégicos e o uso é flagrante, enquanto as primeiras têm como objetivo aterrorizar a população e não se percebe de imediato qual a origem do ataque. Isto talvez valide, por exemplo, relatos que médicos que prestaram socorro aos bairros de Damasco atingidos tenham igualmente sido contaminados, muitos sem saber.  

Com estas imagens em mente, somadas ao cômputo de vítimas do mais recente evento (mais de 1000, segundo John Kerry), Obama medita sobre eventuais caminhos possíveis. A sombra da intervenção sob pretextos falsos no Iraque implicou certa cautela e oposição da população. Daquela vez, havia a “coalition of the willing”, com uma importante participação britânica. Agora, os britânicos estão fora. Hollande, presidente francês, inicialmente falou em punir Assad e já apresenta sinais de arrefecer os ânimos. Sobrou para o Obama, agora sem coalizão internacional, mas com indícios mais sólidos que o pretexto para intervir é válido. 

O Brasil segue com seu posicionamento de que a solução para a questão da Síria deveria surgir de negociações. Causa estranheza para muitos, mas em questão de Direitos Humanos a diplomacia brasileira defende que soluções devem vir do âmbito multilateral. África do Sul também se manifestou contrária a uma ação militar. O Conselho de Segurança da ONU não chega a um acordo, o Irã ameaça retaliar, Israel se prepara para um transbordamento do conflito para suas fronteiras, enquanto a opinião pública norte-americana é contra a punição militar à Síria. Assim, Obama ficou em uma situação desconfortável, afinal deixaram todos os riscos com ele.  

Caso o plano seja levado adiante, mesmo circunscrito à punição pelo uso de armas químicas por Assad e sem tropas americanas no terreno, será que passará sem resposta da Síria? Outra questão, estabelece-se então a linha do tipo de armamento que não se deve utilizar, mas como fica a crise humanitária? O objetivo não parece ser destituir Assad, a comunidade internacional continuará assistindo de longe a continuidade da guerra? Por fim, recuar igualmente seria temerário, especialmente depois de discursos inflamados em defesa de uma eventual resposta pautada em princípios humanitários. Em todos os cenários, o ônus cairá no colo do Obama. Ele traçou a linha vermelha, ele viu a repetição de ataques desafiando o limite que estabelecera e provavelmente atacará sozinho (sem coalizão e sem anuência das Nações Unidas). 

Update: Obama decidiu atacar. Contudo, quer a autorização do Congresso. No final das contas, ele quer dividiro ônus com alguém. Nada mais justo, considerando os exemplos recentes de crises decorrentes de ações internacionais.  


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O caminho para a destruição

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Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


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O retrato da indolência

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Fonte: New York Times


Ou negligência, se preferirem. Há tempos que o conflito na Síria vem levantando novos debates a respeito da morte incansável de milhares de civis. Muitos são os problemas apontados: uso excessivo de força por parte do governo de Al-Assad, falta de comprometimento das grandes potências, indiferença por parte da comunidade internacional, violação de direitos humanos e de tratados internacionais. Existem, ainda, indícios sobre o uso discriminado de armas químicas, conforme já apontei em outro texto aqui na Página Internacional. 

Sobre esse último ponto, um grande mistério vem rondando os noticiários esta semana. Em um vídeo divulgado pelo jornal “The New York Times” em matéria intitulada “Images of Death in Syria, but No Proof of Chemical Attack”, são vistos centenas de civis (crianças e adultos) sendo atendidas por conta de um suposto ataque químico perto da cidade de Damasco. Entretanto, as pessoas que auxiliam nos atendimentos não usam nenhum tipo de proteção. O ministro sírio al-Zu’bi disse que as imagens foram planejadas… 

Faltam provas, mas nem tanto. Sabe-se que o conflito interno na Síria já alcançou patamares inimaginados anteriormente. Obviamente que as mortes são as piores consequências, só que o principal problema é saber como os sírios reagirão a essa maré de má sorte. Falta o básico, falta qualidade de vida. A Organização das Nações Unidas (ONU) disse que existe cerca de um milhão de crianças refugiadas por causa dos combates. E isso tende a aumentar. 

Por falar em ONU, a organização vem mostrando sua fraqueza. Sempre fui uma pessoa que tem a seguinte opinião sobre os capacetes azuis: “Ruim com eles, pior sem eles”. Suas ações são louváveis em inúmeros eventos históricos e sua voz no cenário internacional é vital. Mas não podemos deixar de notar que sua presença na Síria deixa a desejar. Somente agora que a ONU pediu autorização ao governo sírio para investigar os ataques com armas químicas. 

Vai e vai rápido! Ban Ki-moon é uma excelente figura e conquistou seu espaço no cargo máximo. Tem grandes problemas nas mãos e um deles é a Síria. Não podemos culpa-lo por tudo. Boa porcentagem dessa “indolência” no país é decorrente da falta de vontade política das grandes potências. A França propôs o uso da força para combater os ataques químicos, Alemanha e Estados Unidos ficam com o rabo entre as pernas e passam a bola para a Rússia, “acusada” de enviar armas para Al-Assad e por aí vai. 

E o que fará, agora, Mister Obama? Conforme atestado por matéria da BBC, há um ano o presidente disse que, caso fossem utilizadas armas químicas na Síria, os Estados Unidos recalculariam sua posição. Será que os norte-americanos vão para o front de guerra? Difícil, heim! Iraque e Afeganistão mandam lembranças. 

O estágio atual da Síria é insustentável e, se assim permanecer, não continuaremos a colocar a culpa somente em autoridades nacionais. Falta força política da ONU e, mais impactante ainda, força de vontade das grandes potências. Se “indolência” é um termo feio e pesado, podemos colocar como sinônimo a “preguiça”. Obama e companhia dormem no ponto.


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