Irã e a questão nuclear: Parte 384594

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Discussão vai, discussão vem sobre o papel do Brasil na negociação com Irã e Turquia. O assunto ainda está rendendo pano pra manga. Agora, segundo Ahmadinejad, Teerã deve informar oficialmente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre os termos do acordo e reiterar o cumprimento do mesmo.

Enquanto isso, no Conselho de Segurança, os EUA conseguiram negociar com as demais quatro potências uma quarta rodada de sanções econômicas. Basta convencer outros quatro membros rotativos e tá tudo certo. Os termos das sanções, que devem incluir restrição ao acesso ao petróleo, foi classificado como uma ‘piada’ por Ahmadinejad.

Segundo Marco Aurélio Garcia, “se os EUA optarem pela sanção, eles vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política. Cabe aos EUA decidir se querem ou não um new deal com o Irã”.

Em primeiro lugar, ninguém quer entrar nesse balaio de gato que é a situação com o Irã. E recriminar os EUA por levar adiante as sanções parece ainda mais improvável. Apesar disso, permanecem dúvidas sobre a viabilidade do pacote de sanções. Os discurso das cinco potências gira em torno do argumento de que o acordo com a Turquia não impediria a aplicação das resoluções, já que elas recairiam sobre o fato de que o Irã não deixaria de enriquecer urânio a níveis mais altos.

Sanções econômicas NÃO funcionam. Não funcionaram com países menores, não funcionaram até agora com o Irã, e não funcionarão. Independente da atitude brasileira e turca ser ou não plausível, levar ou não a algum lugar (isso só poderemos aber com algum tempo), aplicar sanções é quase uma provocação para que o Irã continue enriquecendo Urânio e emitindo comentários do tipo ‘isso é uma piada’

Definitivamente, se negociar não é efetivo, como as potências afirmam, esse cabo de guerra parece mais aquelas situações em que os adultos falam “Você vai apanhar se não entrar na linha”, e a criança, além de mostrar a língua, ainda retruca “E daí? Nem doeu!!”


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A culpa é do Obama!

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Que é questionável o acordo que nosso governo mediou todo mundo sabe. É evidente que o Irã tem muito mais do que os 1200 quilos de urânio a serem enviados para a Turquia. Além disso, o acordo não prevê nada que a comunidade internacional queria: inspeções nas instalações nucleares e a garantia de que o enriquecimento não mais ocorrerá em solo iraniano.

Mas o mais engraçado mesmo é o discurso do governo brasileiro sobre o acordo.

Primeiro foi uma festa! O Brasil conseguiu resolver o problema. A diplomacia venceu! Vocês, potências, não são de nada, nós, os terceiromundistas botamos um ponto final neste conflito!

Mas a comunidade internacional não levou tanta fé assim no acordo e logo se organizou para aprovar as sanções ao Irã. Aí o discurso começou a mudar. Críticas aos Estados Unidos e à Europa choveram. Seria ridículo punir o Irã com sanções depois do acordo.

E aí, em menos de uma semana, ficou óbvio que o que o Irã queria, mesmo, era mais tempo de manobra e se livrar das sanções da ONU. Neste momento, surge o inesperado: sai do governo brasileiro a declaração de que Obama teria incentivado Lula a intervir no conflito mediando um acordo com o Irã!

É mole?!

Se o acordo tivesse mesmo alguma efetividade, seria a vitória da diplomacia brasileira contra as grandes potências. Como foi tudo pro buraco, a culpa é do Obama?

Será mesmo que o Palácio do Planalto e o Itamaraty esperavam uma carta do Obama dizendo que era pro Lula não tentar mediar um acordo depois do alarde que foi feito pelo nosso governo de que o presidente estaria por lá? Ou então esperavam uma carta oficial dizendo pro Lula não ir pra lá, fugir do Oriente Médio? E se a carta não tivesse chegado, então, Lula teria ficado aqui em casa?

Essa é boa. Daqui a pouco o déficit da previdência vai ser culpa de uma carta do Obama. E o aumento da dívida pública? Foi uma carta do Obama pedindo pro Brasil gastar mais por causa da crise. E a inflação? Achamos na gaveta do criado mudo do Lula uma carta do Obama.

Eu já vi acharem os mais diversos culpados pra tudo quanto é tipo de problema. Mas o Brasil ter se metido no fiasco daquele acordo ser culpa do Obama é demais.


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Amigos, amigos…

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E Lula conseguiu frutos na sua viagem ao Irã. Por mais que a visita fosse de caráter comercial, o Brasil conseguiu costurar um novíssimo acordo com a Turquia e o Irã pra tentar dar fim ao impasse do programa nuclear iraniano. Novíssimo? Ora, trocando em miúdos não é o mesmo que fora ofertado pelos países da União Européia e os EUA no ano passado e solenemente defenestrado pelo presidente Ahmadinejad? Qual a novidade então?


Aparentemente, é uma vitoria da diplomacia do “bom senso” e cordialidade do Lula paz e amor. Vejam países centrais, é possível negociar e evitar o vexame das sanções! Esse é o mesmo sentimento que motiva a Turquia em buscar esse acordo. Certamente os dois países demonstram capacidade notória de evitar conflitos através de negociação, idéia original do Conselho de Segurança. Por que não, deveriam ser alçados ao cargo de membros permanentes! Que plano engenhoso. Agora os países centrais vão ter que dar o braço a torcer.

Obviamente, o Irã está sorrindo de uma orelha à outra. Aproveitando da busca de proeminência do Brasil e da confiabilidade da Turquia como membro da OTAN, procrastinam a tomada de decisões no CS com esse apoio de membros não-permanentes sem precisar temer uma reação mais agressiva de EUA, e principalmente de Israel. Pode-se imaginar o que se passa pela cabeça de outros chanceleres e líderes favoráveis às sanções, uma dúvida perene – “o Irã não cederá…mas vai que o Lula consegue?”.

Esse é o ponto: quase ninguém estava levando fé no acordo; mesmo a Rússia, que tem uma certa simpatia pela idéia, não acreditava muito no sucesso da empreitada. Agora que o tal acordo saiu, pouca coisa muda, pois o Irã teima em sua intransigência. Não adianta Ahmadinejad esperar cooperação enquanto continua a enriquecer o urânio e esconde seu potencial verdadeiro (há muito mais que os 1200 kg do acordo…), jogando no lixo todo o esforço de negociação e apenas aborrece o time das sanções. Países da União Européia e EUA vêem com desconfiança, rejeição ou ironia o documento.

O pior é que o Brasil se ilude com uma suposta imagem de player arrojado. O encantamento inicial de Obama com o país gradualmente se transforma em perplexidade, visto que o Brasil anda atraindo para si, quando não a imagem de descrédito ou de pura tolice (como infere Isarel), ainda mais desconfiança. Lembrem da recusa brasileira quanto aos termos do protocolo adicional do TNP, ainda mais em ano de revisão. Não é à toa que tenha gente que comece a temer o Brasil como apontado anteriormente. Me aproveitando do adágio popular, com amigos assim…


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O Mundo em Estado de Exceção

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Recentemente foi aprovado e decretado no Paraguai Estado de Exceção em cinco províncias com o intuito de combater o grupo EPP (Exército do Povo Paraguaio). A medida garantiria ao governo prender suspeitos de envolvimento com o grupo e ainda trás o exército às ruas para caçar esse pessoal. Desde sua publicação, já houve alguns casos de mortes e de pequenos atritos com o governo brasileiro.

A violência inspirou o Estado a adotar medidas excepcionais (ironicamente o tal Estado de exceção). O Paraguai entendeu que havia uma crise tão profunda e que as pessoas estavam tão inseguras, incertas e amedrontadas que somente colocando os militares para literalmente caçarem os membros do EPP que se conseguiria estabilizar a situação. A velha questão da ascensão de grupos guerrilheiros com certo apoio em dadas regiões questionando a legitimidade do monopólio da violência do Estado. Mas há quem diga que o caso paraguaio nem é tão grave assim. De toda forma, é uma mera questão de como os países vêem os eventos e elaboram políticas tanto no plano tradicional quanto no excepcional.

É justamente a isso que vou me ater. O que seria a tal da exceção? Pensando em uma definição mais simples, seria algo para além do padrão, no campo da excepcionalidade, do que não trabalha na lógica tradicional. Bom, refletindo em cima dessa simples definição, parece que não é só o Paraguai que adota o tal do Estado de exceção atualmente. Tem havido certo padrão de excepcionalidades no mundo, atingindo grupos em específico dentro dos Estados.

De um lado, há aquela gerada por um padrão de violência, em que se mobilizam tropas para combater dado grupo. De outro, há medidas com o intuito de garantir a estabilidade do Estado que desenvolvem em grupos, populações e comunidades, um sentimento de violação além dos preconceitos tradicionais, uma violação que beira o campo do excepcional, ultrapassando aquilo que o próprio Estado se responsabilizou em prover.

O primeiro movimento é o entendimento clássico do assunto, que bem se vê no Paraguai. O segundo movimento emerge de certa ambigüidade. Normalmente é o Estado que utiliza de medidas acautelatórias contra o preconceito e a discriminação, vislumbrando melhor convivência entre seus cidadãos. Mas e quando a falta de sensibilidade de multiplicidade de crenças é de autoria do próprio Estado? Nesse caso emerge o segundo movimento. A própria máquina estatal desenvolve insatisfação dos grupos afetados dentro do país e incentiva o desrespeito por parte da população.

Esse entendimento está expresso em alguns casos. Atentem para as similaridades: no Arizona (nos EUA) é publicada lei de migrações que garante aos policiais locais revistarem e pedirem documentos daqueles que, em seu entendimento, detenham características de imigrantes ilegais; Na Suiça foi proibida a construção de minaretes (aprovado com 57% dos votos por plebiscito) e a questão parece transbordar para outros países da Europa; Na Bélgica foi proibido o uso da vestimenta de grande importância religiosa aos muçulmanos, a burka (clique aqui para outro post sobre isso); e na França foi aprovada lei que segue a mesma lógica.

Em todos os casos, as medidas promulgadas provocaram revoltas por parte dos grupos afetados. Primeiramente porque revelam uma incapacidade no desenvolvimento de políticas multiculturais eficazes. Segundo, porque ainda se vê a questão das migrações e da diversidade cultural e religiosa como um problema que o Estado tem que resolver e não como parte da população do país que o Estado tem que considerar com base em suas diferenças e crenças. Porque afinal, é papel do Estado prover o bem-estar e a segurança a todos e não a uns grupos em detrimento de outros e assim incentivar padrões de discriminação.

Assim, enquanto no Paraguai há Estado de exceção frente à violência; nos casos supracitados o estado de exceção é em razão da violação, dadas medidas do próprio Estado. A excepcionalidade está em toda parte. E no campo do multicultural, ela continuará a emergir enquanto se pensar essas questões com base em valores ocidentalizados que incentivam a discriminação.


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Uma nova ordem mundial

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Esta seria a responsabilidade de Brasil e Irã, na concepção do presidente iraniano Ahmadinejad: criar “uma nova ordem mundial justa”. Isto é possível? Realizável? Indubitavelmente, a preocupação com a ordem na política mundial está no centro da litosfera de assuntos que circundam as relações internacionais. Teóricos, acadêmicos e tomadores de decisões, como navegantes intrépidos desse turbulento – e ao mesmo tempo vasto – campo de conhecimento, devem-se ater à questão central da ordem.

Por definição, as relações internacionais são, paradoxalmente, ordenadas pelo princípio da anarquia. Muito longe de ser entendida como caos ou completa desordem, sempre é bom lembrar que a anarquia é entendida enquanto a inexistência de uma autoridade soberana em âmbito global, a qual tenha que se submeter todas as nações. A ONU não detém esse poder. Mas como criar ordem a partir da anarquia e a manter?

Hedley Bull, um dos maiores expoentes da Escola Inglesa, trar-nos-ia uma resposta precisa em “Sociedade Anárquica”, discorrendo acerca do funcionamento incompleto das principais instituições – não necessariamente organizações – internacionais, como o equilíbrio de poder, o direito internacional, a guerra, as regras e normas de conduta, entre outras. Outrossim, considera-se que inúmeras figuras políticas de proa assumiram a responsabilidade, consciente ou inconscientemente, de trabalhar em prol da construção da ordem mundial. Por certo, o caso de reordenamento mais famoso, é instalação de uma ordem bipolar no momento subsquente à Segunda Guerra Mundial. Outro interessante seria a criação da Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), cujos esforços foram capitaneados pelo bloco de países terceiromundistas, deslocando a primazia pela paz e segurança para o desenvolvimento.

Mas agora é diferente. Ahmadinejad vem com uma idéia bastante revolucionária. A vocação para se construir uma nova ordem soa bastante poderosa. No geral, a construção de uma nova ordem parte da iniciativa de grandes potências – principalmente aquelas vitoriosas após grandes guerras – ou de países que assumem uma responsabilidade comum em tal empreitada. Não há registros de que uma iniciativa bilateral entre uma potência em ascensão e um país cheio de desconfianças tenha logrado êxito em tal tarefa. No entanto, não se pode deixar de relevar a manobra política da presidente iraniano, ao evocar ordem e justiça simultaneamente. Ou se cria uma ordem em que todos tenham direito à tecnologia nuclear, o que inclui a possibilidade de armas nucleares, ou se cria uma ordem em que se elimine por completo as armas nucleares, reduzindo a importância da tecnologia nuclear. Talvez seja justo, mas seria ordenável?

Crucificar o discurso do presidente iraniano sem, no mínimo, uma análise crítica se apresenta como um maniqueísmo obsceno. A ordem é uma obviedade ululante nas relações internacionais! Construí-la e mantê-la é uma tarefa a qual o sistema de Estados sempre despendeu enormes esforços. É bem verdade que a evocação de Ahmadinejad possa ser um subterfúgio para escamotear a controversa questão nuclear do país; de culpado pela desordem, o Irã intenta ser o protagonista da ordem. No entanto, ressalta-se há muito um país de pequena expressão exortava a necessidade de ordenar o mundo.

De fato, como cantou Caetano Veloso, “alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial”, essa coisa é um país e esse país tem nome: Irã! O Irã tem sido excluído e foi se excluindo do mundo. Regressar a ele deve se dar de maneira concomitante à reconstrução de sua ordem. Certamente o país não dispõe de nenhuma condição para assumir a dianteira desse processo, no entanto, recuperou uma palavra inspiradora nesta ordeira terra de silêncios.

(Saibam mais sobre o programa nuclear iraniano aqui e sobre a visita de Amorim ao Irã aqui e aqui.)


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O paradoxo do governo americano

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Que o poder americano é um paradoxo, o cientista político norte-americano, Joseph Nye, já escreveu, mas que o governo americano é um paradoxo, a atual presidência de Obama está escrevendo. O 44º presidente dos Estados Unidos se encontra num raso recipiente político, em que as fronteiras domésticas ainda não se imiscuíram com as internacionais, ou vice-versa. Um delicado jogo, uma insistente contradição.

Recentemente, uma pesquisa divulgada pelo Centro de Pesquisas Pew afirmou que 80% dos cidadãos norte-americanos não confiam no governo – o maior índice alcançado em 50 anos. Segundo esse levantamento, 22% confiam “praticamente sempre” ou “na maioria das vezes” no governo, 25% são favoráveis ao Congresso – menor índice em 25 anos – e 40% consideram a administração de Obama ótima ou boa. Ademais, o clima de frustração contra o governo alcança 56% da população, sendo maior do que o de raiva (21%).

A incerteza econômica, o ambiente político partidarizado, o descontentamento com o Congresso e políticos e a prolongada discussão sobre a reforma da saúde (assunto tratado pelo Álvaro aqui) explicam o resultado da pesquisa. Paradoxalmente, uma pesquisa global, encomendada pelo Serviço Mundial da BBC e conduzida pela GlobeScan/PIPA, indica melhoria da imagem dos Estados Unidos no mundo. O país é visto positivamente por 20 dos 28 países pesquisados, sendo que 46% dos entrevistados consideram que os norte-americanos têm exercido uma influência positiva no mundo, enquanto outros 34% acreditam que a influência é negativa.

Um ambiente interno de desconfiança e um externo, de confiança resguardada. Eis a atual situação dos Estados Unidos. E sob falta de credibilidade, Obama agora tenta aprovar a reforma do sistema financeiro, para mudar aquilo que levou à crise econômica atual. É preciso tomar novas medidas de regulamentação do mercado para impedir que o povo arque com o ônus de suas quebras. Para o colunista Clóvis Rossi, trava-se uma nova guerra: “Casa Branca vs. Wall Street”. Já o mundo, por sua vez, dá um voto de confiança à Obama, em seus esforços capitaneados na luta contra a proliferação nuclear e pela paz no Oriente Médio. Mas resguarda essa confiança enquanto prosseguem os Estados Unidos em sua empreitada contra o terrorismo, suas intervenções no Iraque e Afeganistão e sua saga contra o Irã.

O Irã, por sinal, foi considerado o país com a menor imagem positiva (15%) na pesquisa supramencionada. Todavia, não menos importante, Ahmadinejad fez uma declaração intrigante na semana passada: “Só há um lugar em que ele (Obama) poderia dizer: consegui uma mudança e mudei o contexto mundial. E esse lugar é o Irã.” Não é no Iraque, no Afeganistão e nem na Palestina, o elixir para a glória da política externa dos Estados Unidos seria o Irã. De certa forma, o argumento soa como verdadeiro na medida em que essa república islâmica coloca em xeque os maiores valores norte-americanos: paz e segurança internacionais, democracia e direitos humanos. A questão nuclear seria apenas o começo.

Enfim, neste raso recipiente político, os líqüidos doméstico e internacional ainda não se misturam. Pode ser que a desconfiança interna contagie o cenário mundial; em igual medida, é possível que a confiança externa reanime as expectativas dos norte-americanos com relação ao governo. Aquele que um dia foi escolhido como a esperança, ganhou o Nobel da Paz e se apresenta como o guardião da segurança, enfrenta um momento crucial, fruto do sucesso que também se converte em maldição: o paradoxo Obama. Situação emblemática e que persiste como via média e confusa.


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A arte da dialética das vontades

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As recorrentes discussões de uma nova rodada de sanções contra o Irã têm aberto precedentes para uma reflexão interessante no referente aos interesses de cada parte envolvida. Algo que chama a atenção para essa discussão é o questionamento das razões pelas quais o governo brasileiro se opõe tão veementemente a essa medida. A primeira resposta que vem à mente é que o Brasil busca a exaltação de nova posição de ator global visada e assim aspira o engrandecimento sem imperar (e, portanto opor-se a grandes desigualdades do sistema internacional).


Infelizmente apenas essa assertiva não é o suficiente para entender essa relação. Isso porque o Brasil vira e mexe toma posições não condizentes com suas ambições de ator global com declarações não muito bem colocadas, como as polêmicas frase sobre os prisioneiros políticos de Cuba (mais posts sobre o assunto aqui e aqui). Seria então uma pueril motivação de opor-se aos EUA no sistema internacional para se reafirmar como ator regional? Não, talvez não seja tanto por aí também porque nem quando teve a oportunidade agiu com a presteza necessária (se fosse esse o objetivo).


É nesse questionamento que um conceito muito difundido tem grande valor explicativo: a estratégia. Em seu entendimento tradicional é pensado somente em termos militares, confundindo-se com aquele de tática. Contudo, o mais abordado é o entendimento mais abrangente pensado na realização de atividades de diferentes naturezas. Existem, portanto, estratégias bem elaboradas, mal pensadas, pragmáticas, idealistas e etc. De modo geral como defende o famoso estrategista francês, André Beaufre, é algo que reside num jogo abstrato de vontades opostas e denota a capacidade de se empregar técnicas para lidar com problemas colocados diante de si. Em outros termos, a arte da dialética das vontades.


E aí o que isso muda? Bom, deixa as coisas um pouco mais claras. O Brasil tem utilizado uma estratégia. Mas isso não é óbvio? Não, se for ausente o entendimento de que o Brasil também tem suas razões para evitar sanções ao Irã, portanto o ponto em questão lida com vontades opostas, não só no campo da retórica, mas no campo dos interesses comerciais e estratégicos. Sua oposição não é somente por qualquer sentimento cosmopolita de maior igualdade no sistema internacional, é também porque tem seus negócios no Irã. A visita de Ahmadinejad ao Brasil, a recente visita do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, e de um grupo de empresários brasileiros ao Irã com a finalidade de intensificar o comércio entre os dois países e a visita de Lula ao país, agendada para maio, denotam um pouco desse esforço. Destarte qualquer tipo de sanção mais rígida ao Irã poderia minar os novos investimentos comerciais brasileiros no país.


E esses jogos abstratos de vontades opostas é o ponto de reflexão ao aproximarmo-nos da questão das sanções ao Irã. Usemos o exemplo da China. Caso as sanções fossem aprovadas, o país teria um prejuízo trilionário no referente dados os investimentos que tem em território iraniano. E recentemente os chineses tem aumentado essa quantia com base nos mais de 4 bilhões injetados para a exploração de petróleo na região, e ainda têm novos planos de investir mais altas quantias na região.


Na última Cúpula de Segurança Nuclear (assunto muito bem abordado pelo Giovanni em seu último post) os Estados Unidos mais uma vez continuaram as pressões pelas sanções contra o governo iraniano. Em oposição a esse evento, o Brasil busca reconhecer posições semelhantes para realizar um esforço contrário, no âmbito do segundo encontro dos BRICs, para quem sabe manter a posição chinesa e eventualmente convencer o governo russo. Ao final dessa grande odisséia veremos qual desses Estados realmente tem a melhor técnica para lidar com essas vontades opostas. E o mais interessante é que nesse jogo abstrato não há regras definidas, cabendo somente aos jogadores decidirem-nas na medida em que o jogam.


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Guerra improvável, paz impossível

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Certa feita, o sociólogo francês Raymond Aron sentenciou “Guerra improvável, paz impossível”, frase esta que resumia a Guerra Fria. A improbabilidade da guerra pela elevada capacidade de destruição do mundo, em decorrência das armas nucleares, e a impossibilidade da paz por causa do temor e apreensão que tais armas geravam. Todavia, ecos de Aron ainda percorrem o sistema internacional em meio ao lirismo de Obama de um mundo livre de armas e a necessidade vital norte-americana de prosseguir com a “guerra ao terror”, reiterada na estratégia nuclear lançada na semana passada. Nem guerra, nem paz com os terroristas.

Uma das lições mais custosas da história, oriunda do ultrapassado conflito bipolar, é que quanto maior os arsenais nucleares, menor a perspectiva do seu uso. Tornar o mundo livre dos mesmos converteu-se agora no desafio do presente e na esperança do futuro. Em Praga, no ano passado, Obama lançou as sementes do pensamento em prol do desarmamento. Na semana passada, acordou com a Rússia a redução de 1.550 ogivas nucleares, e nesta segunda, a Ucrânia se comprometeu a se desfazer de material atômico nos próximos dois anos durante o evento mais pop do momento: a Cúpula de Segurança Nuclear, que se realiza em Washington sob a iniciativa do presidente norte-americano.

Participam do evento líderes de 47 países, com a ambição de aprofundar os esforços contra o terrorismo, ou melhor, com o objetivo de assegurar que armas nucleares não caiam nas mãos de terroristas. De início, a pergunta que não quer calar: segurança nuclear está umbilicalmente ligada ao terrorismo? Em outras palavras, é mais importante tomar medidas de não-proliferação e desarmamento ou tomar medidas contra a posse de armamentos nucleares por facções terroristas? É a existência de armas nucleares que cria a expectativa de posse por parte de terroristas, e não uma vontade genuína por parte dos últimos de desenvolvê-las espontaneamente. Além do mais, nos registros da história, não há nenhum ataque nuclear conduzido por terroristas; no máximo, chegou-se ao emprego de armas químicas, como o episódio do gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995.

Para além da questão do terrorismo, os holofotes da Cúpula voltam-se para o Irã. Tudo bem que não o convidaram para a reunião, assim como não convidaram a Coréia do Norte. A Ahmadinejad, só restou reclamar e cobrar ações da ONU, sobretudo uma investigação sobre as invasões ao Afeganistão e Iraque, os atentados de 11/09 – considerado por ele uma “grande mentira”– e o apoio ao terrorismo fornecido pelos Estados Unidos e OTAN. Enquanto isso, em Washington, 47 países definem a situação iraniana. Brasil e Turquia são contrários à adoção de novas sanções e optam pela negociação, já a China deu indícios de que apoiaria a posição norte-americana, mas hoje voltou atrás. A Alemanha cobra rapidez para pôr termo ao caso iraniano.

Estranhamente, Israel – país detentor de um vasto arsenal nuclear – não compareceu à reunião, já que está desgostosa com os Estados Unidos e sua posição contrária ao avanço dos assentamentos. Mas, do lado norte-americano, talvez as incoerências sejam mais gritantes. O país mal acabou de lançar sua nova estratégia nuclear, elevando o terrorismo ao topo de suas prioridades de segurança, e quer que o mundo faça o mesmo, como se vigesse uma verticalidade ampliada dos idos tempos da Guerra Fria nessa área sensível, agora com alcance global e não mais hemisférico.

Pior do que isso, os Estados Unidos não se comprometeram a não fazer o uso de armas nucleares; eles as usarão em circunstâncias extremas. E aí, Obama, será que de fato os “EUA estarão mais protegidos e o mundo será mais seguro”? Seria “um dia de progressos sem precedentes”? Ou estaríamos diante de uma velha fórmula norte-americana, acrescida de outras potências nucleares, que inspirou o TNP, “quem tem, tem, e quem não tem não pode ter”? Segurança é uma imposição e é sempre desarmar e culpar primeiro os outros – Irã, terrorismo. Permanecem as armas nucleares no limiar entre a improbabilidade da guerra e a impossibilidade da paz.

***

Um pouco de fábula. Em 1932, durante uma Conferência de Desarmamento da Liga das Nações, o delegado espanhol Madariaga pediu permissão para narrar a seguinte fábula: “Os animais se reuniram para se desarmar. O leão, olhando de lado para a águia disse: ‘as asas têm de ser abolidas’. A águia, olhando para o touro, declarou: ‘os chifres têm de ser abolidos’. O touro, olhando para o tigre, disse: ‘as patas, e especialmente as garras, têm de ser abolidas’. O urso, por sua vez, disse: ‘todas as armas têm de ser abolidas; tudo o que é preciso é um abraço universal’.”

Que as comparações sejam bem-vindas!


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Sobre Israel e a cultura militar

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O tema de Israel e seu interminável envolvimento com operações militares – sejam no âmbito interno ou externo – está geralmente relacionado com as questões entrelaçadas do combate ao terror e a “sobrevivência em si do Estado”, como algo enraizado na psique israelense. John Keegan, na obra “Uma História da Guerra”, conclui, grosso modo, que as guerras, mais do que sua significação política, carregam um sentido cultural próprio a cada povo beligerante. Esse tipo de perspectiva pode ser contestado de diversos modos, mas encontra respaldo quando pensamos no caso de Israel.

Esta semana, tive contato com a questão de diferentes modos. O primeiro, voltado para um futuro não muito distante, configurado em um tipo de cenário prospectivo proposto por um think tank norte-americano, acerca de uma possível invasão israelense ao Irã, com a finalidade de inutilizar o programa nuclear iraniano, arrastando os relutantes EUA para o conflito e acarretando agressões de Síria e Irã contra Israel (mais aqui). O prognóstico é terrível, com a paralisação da economia israelense e novas altas no preço do petróleo.

O segundo, por outro lado, volta-se para o passado, com a tradição cristã da Semana Santa, a qual evoca em determinado momento a história do povo da primitiva aliança, e em muitos momentos se relembra a tradição guerreira dos hebreus. Ora, os relatos históricos escritos judaicos existentes, seja na Bíblia cristã ou no Torá, enfatizam com persistência os percalços e combates enfrentados pelos hebreus ao remontar à sua busca pela Terra Prometida. A história antiga de Israel, herdeiro do povo hebreu através do sionismo, é em essência uma série de conquistas militares contra povos cananeus e filisteus, seguida por árdua e sofrida resistência contra invasores imperiais, de babilônios a romanos, pela continuidade da pequena região, religiosa e cultural. Ora, Israel ainda hoje combateria estes “invasores” – no caso, os árabes, não como invasores em si, mas como ameaças à sobrevivência de Israel.

Na obra supracitada, Keegan infere que um fator primordial para a expansão árabe que os levou a se instalar em um amplo território, incluindo o atual Israel, fora justamente a religião, que estimula o guerreiro do Islã a combater com toda sua força os infiéis, com a promessa de uma graça divina, desinibindo-o de aspectos mais ritualizados de combate e do amor-próprio. Poderíamos dizer que é o mesmo que ocorre com Israel: o passado hebreu e a noção de povo escolhido do judaísmo, com um apoio divino a suas pretensões, fazem com que o combatente nunca esmoreça em seu confronto com as forças que visam destruir sua pátria e estilo de vida – sejam terroristas radicais, sejam Estados com pretensões nucleares que não se sentiriam incomodados em fazer mísseis voarem como marimbondos pelos céus do Oriente Médio.

Vê-se que são duas forças de igual motivação que se encontram opostas no conflito de Israel com seus vizinhos árabes. O exercício de pensamento do Saban Center é apenas uma ferramenta de prospecção e não deve ser entendida como uma inevitabilidade, mas como um possível rumo de ações. E muito possível, tendo em vista esse passado cultural de Israel. Pode não ser pelos meios descritos ou através do desenrolar dos fatos como imaginados no cenário, mas Israel, nesse contexto, não pode tolerar um Irã nuclearizado, e uma invasão iminente é algo muito próximo da realidade, e plenamente justificável sob a ótica israelense.


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Há um ano...

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Há um ano, nós da Página Internacional estávamos adiantando que, ainda em 2009, estaria no Brasil o presidente do Irã, Sr. Ahmadinejad. No post original do ano passado (veja aqui), explicávamos o porquê das relações entre Brasil e Irã, que não são só políticas. Vale a pena ler de novo!

Originalmente, a visita estava marcada para o dia 06 de Maio. No entanto, o rolo das eleições por lá adiou a vinda do iriano, fato que se concretizou em novembro do ano passado. E uma visita do Lula está agendada para o Irã nos próximos meses. Promete!

Ainda naquela semana, em meio à crise financeira, houve a primeira reunião (badalada) do G20. Foi, talvez, a primeira crise no sistema internacional em que houve discussões até certo ponto sérias no nível internacional para que se chegasse a um consenso de como combatê-la. Veja aqui o post do ano passado com os comentários sobre a reunião.

Sobre o G20, interessante notar que o fórum foi mesmo levado a sério. Ou pelo menos souberam muito bem como fingir isso. Mas é quase impossível, num momento delicado, que se consiga um consenso sobre pontos tão polêmicos.

De todos os 8 pontos da resolução final discutidos aqui no blog, nenhum ponto foi levado adiante com seriedade… Falou-se em muito dinheiro, que ninguém viu, falou-se em regular salários de executivos, mas eles sempre arrumam um jeito de burlar as regras, enfim. Falou-se até em destravar a Rodada Doha, na minha opinião, o mais absurdo de todos os pontos discutidos.

Mas a crise passou e agora isso tudo é história…

E naquela semana lançávamos nosso 3° podcast! Teve até considerações sobre tele sexo!

Semaninha pouco agitada aquela, mas vale a pena relembrar!


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