Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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O cálculo da intolerância

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O HOMEM q calculava

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


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Troca de parcerias

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presidents

O mundo dá voltas, e como todo bom Realista tradicional diria, o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã – desde que com um adversário em comum. Exemplo clássico disso foi a Guerra Fria, quando os Aliados da II Guerra Mundial, EUA e URSS, após darem a devida sova na Alemanha, passaram a se rivalizar na ausência de um mal maior. Pois bem, os EUA passam por isso de novo neste exato momento. E em duas frentes.

Enquanto Obama autoriza seus caças a bombardearem posições do ISIS no Iraque, a OTAN suspende as ações de cooperação com a Rússia, em um claro sinal de descontentamento que remete à rusga de Moscou com Washington. Ambos os casos revelam como as dificuldades da política internacional fazem os parceiros desse jogo mudarem de lado sem aviso.

No caso da Rússia, é pedra cantada faz um bom tempo. Várias análises demonstram que Bush e Obama tentavam se aproximar de Putin enquanto o governante russo dava de ombros e se empenhava em projetos de fortalecimento interno e projeção regional. Deu no que deu, como vemos nos posicionamentos opostos na Ucrânia e na Síria. Especialmente na Ucrânia, onde o apoio velado aos separatistas faz com que um dos grandes aliados estratégicos dos EUA (lembrem que não é apenas o lado europeu – a Rússia tem grande peso no lado do Pacífico, onde fervem as águas entre Japão e China, e os EUA tem todo o interesse do mundo na estabilidade da região) acabasse se vendo do lado oposto numa disputa política intrincada e perigosa. A cereja do bolo foi o asilo concedido ao ex-analista da NSA Edward Snowden, que agora pode vir a se tornar um cidadão russo (uma baita ironia, diga-se de passagem).

No caso do Iraque, a consequência é ainda mais incrível. Se no caso da Rússia a aproximação pós-Guerra Fria está virando um descontentamento, a intervenção norte-americana pode ser o elemento que faltava para trabalhar em conjunto com ninguém menos que o centro do “Eixo do Mal” de Bush filho. Podemos retomar a culpa pela origem do ISIS na ação norte-americana desde 2002 e definir que qualquer ação no Iraque não será menos que resolver um problema que eles próprios criaram, mas a organização radical tem a capacidade de polarizar quase todo mundo contra eles, incluindo Al-Qaeda e o Irã. Os EUA não estão dispostos a mandar tropas depois do trabalho que Obama teve para retirá-las, mas o enfraquecimento do ISIS pode vir a significar uma ação efetiva do Irã para reduzir a instabilidade e dar suporte ao governo local, seu aliado.

As implicações são muitas, chegando até mesmo ao conflito da Síria (onde os EUA estão se tornando inimigo dos dois lados), logo pensar em uma ação conjunta de fato de EUA e Irã parece improvável. Porém, indiretamente, pode ser um rumo interessante para os EUA que Teerã ajude a manter a estabilidade da região, e a lenta reaproximação após a eleição de Hassan Rouhani tornou factível o que antes era impensável. No mundo da geopolítica, o pragmatismo é uma virtude.


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O dilema Israel-Palestina

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Gaza

Nos estudos de relações internacionais, um tema bastante conhecido nas análises da Teoria dos Jogos envolve o chamado “dilema do prisioneiro”, uma grande situação de incerteza, em que a confiança no “outro” se torna a base para negociações que visem otimizar os resultados para todos os envolvidos. Contudo, essa vertente teórica baseia-se na lógica de que os atores envolvidos são racionais e procuram a todo momento maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, com frequência independentemente do “outro” na negociação (veja mais sobre essa teoria em nossa coluna “Conversando com a Teoria”).

O que se tem, portanto, é que, no grande tabuleiro de decisões, “trair” predomina sobre “cooperar”, pois a opção “trair-trair” representa a solução dominante mais proveitosa, independentemente da decisão do outro. Entretanto, trata-se de um “equilíbrio ineficiente”, já que a opção “cooperar-cooperar” é a que de fato potencializa os resultados para ambas as partes. (Entenda melhor o dilema aqui.)

O tema central da discussão é, portanto, a confiança. Ocorre que diante de situações de crise, esse tema representa, de fato, aquilo que mais dificilmente se logra garantir, justamente porque as partes envolvidas se negam a “dar o primeiro passo” no sentido de acreditar no outro, arriscando-se a ponto de permitir possíveis perdas.

O histórico conflito entre Israel e Palestina representa um dos mais complexos cenários de incerteza e falta de confiança mútua que resulta em dramáticas consequências para vítimas inocentes. O embate atual, que já completa praticamente um mês, figura entre os mais sangrentos da história na região e reflete uma nítida situação em que a culpa é de todos, mas, assumidamente, de ninguém – sendo os civis os principais afetados diante de uma comunidade internacional que assiste passivamente a uma situação dita “incontrolável”.

O terceiro ataque a uma das escolas mantidas pela Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), ocorrido neste domingo e caracterizado como ato criminoso pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, retrata o descontrole que se está criando nesta zona de conflito. O número de deslocados pelo conflito remonta a mais de 440 mil, segundo a UNRWA, superando toda a estrutura existente para apoio humanitário aos afetados. O vídeo do porta-voz da agência desabando em lágrimas em plena transmissão televisiva ao vivo é extremamente tocante.

O governo de Israel afirma não mirar propositalmente em prédios civis, mas reitera que o grupo extremista Hamas se “esconde” em locais de grande concentração de inocentes – atribuindo a culpa pelos mortos e feridos ao próprio grupo. Já o Hamas nega qualquer acusação neste sentido, reafirmando que seus ataques se justificam como legítima defesa e em nenhum momento são proporcionais àqueles perpetrados pelos israelenses.

Talvez nunca se descubra efetivamente “quem começou”, mas será que a pergunta realmente a ser feita é mesmo esta? Em uma situação de incerteza como a que se vive no momento, o dilema do prisioneiro se aplica perfeitamente para analisar a falta de confiança e a busca pelo resultado “mais seguro”, independentemente do custo humano envolvido, que Israel e o Hamas vêm alastrando.

Enquanto as duas partes não visualizarem o cessar-fogo e as negociações como a “solução ótima” para o conflito, a opção “trair-trair”, infelizmente, vai continuar predominando. Diante do fracasso do cessar-fogo proposto para ontem (previsto para durar 72h, mas que durou efetivamente apenas 1h30), as negociações entre as partes no Egito saem absolutamente prejudicadas. Iniciativas diplomáticas possuem, por consequência, cada dia menos credibilidade e a desproporcionalidade gigantesca entre as partes em termos de organização militar e infraestrutura tornam os palestinos cada dia mais vulneráveis.

Em respeito às vítimas de ambos os lados, mas especialmente daquele mais frágil, e em apoio aos civis que se encontram em situação de risco absoluto no território palestino, a principal pergunta que deverá ser respondida nos próximos dias é quem, de fato, dará o primeiro passo para cooperar e reconhecer que o ganho coletivo pode representar maiores ganhos individuais também…


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Boa educação?

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O que é um insulto? Pode ser uma expressão usada para expressar algum descontentamento e frustração, praguejando contra si mesmo ou o universo, mas geralmente é algo utilizado para ofender o interlocutor. Rebaixar suas características morais, apontar algum sinal de inferioridade física ou social, depende do contexto e do entendimento do que está sendo comunicado – amigos podem se ofender com naturalidade, por vezes sem o sentido de insulto, mas experimente fazê-lo a um colega de trabalho.  Existem contextos que não podem aceitar esse tipo de conduta, e um deles é a diplomacia. Por isso causa tanta perplexidade a inusitada declaração de um porta-voz de Israel sobre a crítica brasileira ao conflito em Gaza: após o Itamaraty ter chamado para consultas seu embaixador em Tel Aviv (o que é considerado um sinal de alerta nas relações diplomáticas), Israel qualificou a atuação do País como “um anão” no cenário internacional. A resposta veio polida, por meio do chanceler Luiz Alberto Figueiredo, classificando a morte de civis como inaceitável e desproporcional. A tréplica veio em tom de deboche lembrando a lavada da Alemanha sobre o Brasil na Copa como exemplo de desproporcionalidade, e parece que novos capítulos virão.

É interessante notar que a diplomacia brasileira é uma das mais cautelosas do mundo – mantém boas relações com todos os países da ONU, evita opinar sobre temas mais arriscados ou que possam ter repercussões futuras, como a responsabilidade de proteger, e apresenta um dos corpos diplomáticos mais capacitados (basta comparar com as coisas que apareceram quando vazaram as correspondências norte-americanas…). Por isso soa tão… estranho, para dizer o mínimo, esse tipo de indelicadeza. É como se fosse gratuita.

Desde tempos antigos, o respeito e decoro fazem parte da relação entre nações estrangeiras com representantes oficiais – nos tempos dos reis e imperadores, o embaixador representava o papel do próprio soberano! Porém, a evolução histórica mostra que as práticas se adaptam ao tempo, e Hedley Bull já dizia que no século XX temos uma mudança bem atípica nesse cenário que ele denominava de “diplomacia do insulto”. Basicamente é usar os canais oficiais para desqualificar países adversários em uma guerra de palavras, por vezes de baixo calão. Basta lembrar do enxofre do diabo sentido por Hugo Chavez na ONU, Kadaffi rasgando a carta da instituição ou a Coreia do Norte chamando Barack Obama de um “macaco malvado”. É possível notar que esse fenômeno acontece por conta  de outro fenômeno, o da diplomacia presidencial, em que uma figura única concentra o papel de decisão e interlocução de questões da sua política externa, sem muito controle do corpo diplomático. Mas no caso de Israel, o descontentamento brasileiro vem justamente pelo ultraje de ter sido algo lançado pelo porta-voz do MRE deles.

Que tipo de motivação leva a essa resposta? Uma das justificativas de Israel é combater terroristas. Em uma interpretação maniqueísta, o Brasil expressar indignação com a morte de mulheres e crianças faz com que seja simpático aos que Israel denomina terroristas? A preocupação com o respeito a garantias fundamentais (sem esquecer do adágio de que em casa de ferreiro o espeto é de pau…) é sintoma de uma diplomacia irrelevante? Esta parece ser a lógica que transparece no comunicado. O que surpreende, visto que por meio do Mercosul o Brasil é um dos poucos países com acordos de livre-comércio com Israel. Ou ainda o fato de que um dos principais articuladores da criação do Estado de Israel foi o brasileiro Osvaldo Aranha, e que o país presidiu a sessão da ONU que o criou. Considerar um país responsável pela sua existência como irrelevante parece, no mínimo, contraditório.

A troca de ofensas, por mais brandas ou debochadas, mostra que a situação de Gaza chega a um ponto em que a indignação supera a ponderação. E deixa transparecer a blindagem que existe no cenário internacional à atuação israelense. Basta verificar o resultado da votação de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (que, francamente, não tem muita credibilidade sendo que já foi presidido por verdadeiros campeões da justiça como a Líbia) para o estabelecimento de uma investigação de crimes humanitários nessa ofensiva israelense em que os EUA foram o único país contrário à resolução (e com os aliados europeus se abstendo, em maioria). No fim das contas, Israel não precisa se preocupar muito com dissabores diplomáticos e pode subir o tom de voz quando quiser pelo simples fato de ter um aliado superpoderoso que pode e vai abafar qualquer contratempo. Mas também fica claro que, ao emendar às justificativas de praxe uma carga de insulto, tenta-se mudar o foco da questão ou evidencia-se a falta de argumento. Como diz a sabedoria popular, “apelou, perdeu”. E isso não contribui em nada para legitimar a posição de Israel nesse conflito em que cada vez mais parece lhe caber o papel de vilão.


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Como entender?

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É praticamente uma obrigação falar sobre a crise entre Israel e palestinos, mais uma entre muitas, que estourou na última semana. Segundo relatos, em quatro dias mais de 100 palestinos morreram em ataques militares à Faixa de Gaza. Porém, se é fácil encontrar culpados, creio ser bem difícil pensar na questão como um todo de modo racional.

“Como assim Álvaro? Israel está massacrando inocentes”. Sim, isso é inegável. A roupagem de “alvos colaterais” que é dada aos civis nesse caso, em que segundo os agressores vale tudo para acabar com a ameaça existencial (o Hamas), vai encontrar semelhanças históricas com eventos que vão do ataque norte-americano ao Afeganistão à Segunda Guerra Mundial. Mas existe muita paixão nas análises. Podemos chamar Israel de estado terrorista? Por um lado, se pensarmos no dano a alvos civis e no efeito psicológico, sim. Por outro, as vitimas são (até segunda ordem) “efeito colateral”, e por mais abominável que seja, não é terrorismo em si.Nesse caso, chamar de Estado terrorista é, pelo menos em termos práticos, um exagero contraproducente por que apenas inflama a discussão sem chegar a qualquer tipo de consenso.

E eis que chegamos ao pomo da discórdia – quem é o culpado? Afinal, para resolver um problema, a lógica ensina que devemos saber sua raiz, certo? Vejam só como se desenrolou a crise atual: jovens israelenses são sequestrados e encontrados mortos, possivelmente pela ação de militantes palestinos. Em retaliação óbvia um palestino é queimado vivo – e o próprio governo de Israel abomina o crime e prende os culpados. Mas isso não basta – protestos em Gaza levam Israel a agir “preventivamente” e começa o bombardeio, prontamente seguido pela usual retaliação em forma de foguetes vindos de todos os lados da fronteira, de Gaza ao Líbano.

A ação de indivíduos leva a consequências que batem na porta do Estado, que reage da maneira totalmente assimétrica em retaliação. Repare que, a rigor, os culpados não são os governos israelense ou o Hamas em si: uma fatalidade obscura acaba tendo consequências que desencadeiam uma reação sistêmica pior ainda que não tem outra explicação que não seja a completa falta de compreensão e perspectiva de negociação pelas partes, um barril de pólvora que tem o pavio aceso, explode e é preenchido de novo regularmente.

Não se trata de defender os ataques de Israel – isso é inaceitável. Mas é necessário compreender sua situação. Fechar os olhos ao “outro lado” é a principal causa desse conflito horrível. O Hamas simplesmente não ajuda em sua imagem quando pesa um histórico de atentados a populações civis (que, por mais nobre que seja a causa, nunca serão uma forma humanamente aceitável ou civilizada de reivindicação) e a aquisição de modelos mais modernos de mísseis contrabandeados, que supostamente poderiam alcançar centenas de quilômetros de distância. É comum ridicularizar o alcance destrutivo dessas ogivas artesanais, mas para um Estado que leve a segurança de sua população a sério, já é legitimação suficiente.

Israel não é santo, o Hamas tampouco. A solução pregada pela ala mais radical dos dois lados é inviável – Israel não vai deixar de existir, e os palestinos não podem ficar sem seu Estado.  Leituras desse conflito que enxerguem apenas o lado israelense, como uma vítima de terrorismo, e o dos palestinos como injustiçados, unilateralmente, vão ser de uma polarização nociva. Cada lado tem sua parcela de culpa, e não necessariamente iguais – Israel tende a pegar pesado com os assentamentos, possivelmente a questão central disso tudo e por isso na “liderança” das causas, e o efeito de ofensivas como a dessa semana em anos anteriores foi praticamente nulo em termos militares, mas não legitima ações violentas. Ignorar a necessidade de compreender o lado oposto, fruto da radicalização irracional do conflito, é possivelmente a principal causa de sua longevidade.


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Derrota iminente

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Ah, a Copa do Mundo. Começou ontem, e enquanto o leitor se depara com a enxurrada de notícias e análises que vão infernizar nossa vida por cerca de um mês, sugiro que confira com alguma atenção a seção de notícias internacionais de seu jornal. Isso por que existe um problema gravíssimo no cenário internacional que está passando completamente batido e pode ter muitas consequências inesperadas.

E não é um problema novo – a crise do Iraque, que está esquecida mas já completa mais de dez  anos (na verdade, se fossemos puxar o fundamento histórico, o Brasil nem era tetracampeão quando as coisas começaram a degringolar, mas enfim…). Nos últimos dias, a violência no Iraque aumentou consideravelmente (como se já não fosse alta) devido à ação de insurgentes sunitas que tomaram diversas cidades, espalhando violência contra a população xiita em seu caminho, e tomando o rumo da capital Bagdá em um ritmo alarmante – ao ponto de o presidente Obama cogitar medidas extraordinárias para ajudar a evitar a queda do governo iraquiano. Irônico, não?

A revolta sunita tem muito a ver com a marginalização em relação ao governo xiita. Nos últimos anos, o primeiro-ministro al-Maliki removeu oficiais sunitas e curdos das forças de segurança e contou com o apoio de milícias sunitas para atuar nas suas áreas; quando os levantes foram debelados, entre 2008 e 2009, esses sunitas foram simplesmente esquecidos e muitos tomam parte da revolta atual. Porém, a maior fonte de problema vem de fora. Esses insurgentes são liderados pela organização que começa a ganhar nome no cenário internacional como ISIS (em inglês, “Estado Islâmico da Síria e Iraque”), uma sucursal da Al-Qaeda que representava seus interesses no Iraque mas brigou com a matriz, usa de uma truculência desmedida e é um dos principais membros da oposição na Síria. Lembram do Boko Haram? Isso mesmo, o grupo nigeriano que sequestra meninas para revender e chacina estudantes. Basta dizer que é um “afilhado” da organização. Sequer podemos descrever como um grupo terrorista, e sim como uma facção política ultraviolenta que avança a passos largos pelo Oriente Médio (e norte da África).

As implicações desse avanço são enormes. Acima de tudo, pioram a crise do Estado iraquiano, que não parece ter fim (lembre que desde a invasão norte-americana o país ainda não saiu de estado de guerra) e embaralhou a geopolítica regional. Iraque, Irã e Arábia Saudita se contrabalanceavam; com a queda do Iraque, existe uma polarização nefasta entre a monarquia sunita do golfo e a república islâmica xiita, que favorece o radicalismo em ambos os lados. Curiosamente, o Irã parece ser o fiel da balança, já que é aliado dos governos atuais do Iraque e da Síria, sendo um inimigo potencial do ISIS. Os EUA apoiam a organização indiretamente na Síria (entre outros grupos radicais islâmicos, o que muita gente vem alertando desde 2012), mas em vista de seus interesses regionais, pode acabar tendo que buscar a aliança improvável com o Irã. E nesse meio todo temos Israel, programa nuclear iraniano, Rússia…

Se instabilidade no Iraque não fosse um problema suficiente para agravar a guerra civil na Síria, já que os países são vizinhos, se o ISIS conseguir se estabelecer de modo sólido naquele, terá uma base de operações para sua atuação na Síria e vai complicar ainda mais a até agora pior guerra civil do século.  Literalmente, é uma situação em que todo mundo tem a perder – nem mesmo a organização Al Qaeda é aliada do ISIS. Resta saber se o resultado será uma nova atuação independente dos EUA, a busca de alianças improváveis (mas históricas se vierem a ocorrer) ou o simples desmoronamento final de um Estado já em ruínas.


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E que vença… o melhor?

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Em meio a um conflito armado de proporções alarmantes, eis que estamos diante de eleições presidenciais na Síria. Se a ideia de eleição remete aos preceitos de defesa da democracia, promoção dos direitos humanos e expectativa de mudanças, talvez o processo eleitoral hoje no país pudesse ter outro nome…

Considerada uma farsa pelos opositores do regime atual, bem como por boa parte da comunidade internacional, a eleição que se realizará amanhã na Síria começou, na verdade, na última quarta-feira nas Embaixadas sírias pelo mundo afora.

Pela primeira vez em décadas, há que se reconhecer, o pleito ao mais alto cargo político do país tem mais de um concorrente – porém de acordo com uma polêmica lei eleitoral que aceitou apenas três candidaturas de 24 levadas à Suprema Corte Constitucional. Os restritos critérios de “aptidão” dos candidatos levam apenas dois desconhecidos (Maher al Hajjar e Hasan Nuri) a competir com Bashar al-Assad na disputa presidencial, sob o mesmo discurso de combate ao terrorismo.

Com um saldo assustador estimado em 162.000 mortes, Assad – no poder há 14 anos, herdeiro de um cargo que seu próprio pai ocupou por mais de 30 – deve permanecer como líder do país por mais sete anos, em um processo que parece apenas artificialmente indicar a liberdade de um povo em lutar por mudanças políticas.

Na semana passada, as eleições nas Embaixadas da Síria pelo mundo indicaram importante participação popular, porém com indicativos preocupantes de manipulação, especialmente em meio aos refugiados nos países vizinhos. Nos Estados Unidos, na França e em uma série de outros países, as votações sequer foram permitidas.

Em Brasília, por sua vez, as eleições transcorreram em clima festivo (fotos), reunindo a comunidade síria local com o intuito do voto e da confraternização. Não se pode negar que o fato de que os sírios tenham a possibilidade de votar em três candidatos diferentes (e não apenas responder sim ou não em um plebiscito) por si só não deixa de ser importante.

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Contudo, inocência seria acreditar que os dois novos candidatos possuem iguais possibilidades de vencer uma disputa com aquele que estampa quadros e faixas, reprimindo as forças rebeldes (!), mas tornando cada dia mais complexa a evolução de uma crise regional que se alastra há três anos, ainda sem perspectiva de ser encerrada. Contradições que persistem em um país cujos anseios por paz e democracia contrastam com a dura realidade de uma guerra civil.

Nesta disputa síria, só nos resta esperar que, muito em breve, possamos nos referir a batalhas apenas eleitorais com um candidato vitorioso cuja missão venha a promover a paz e a reconciliação neste mandato que se iniciará.

[ATUALIZAÇÃO: E não houve surpresa na confirmação da vitória de Bashar al-Assad para seu terceiro mandato consecutivo, eleito com 88,7% dos votos (alcançados, não por acaso, apenas nas áreas sob controle do governo…). Sob a alegação de que as eleições foram ilegítimas, a oposição argumenta que a luta contra o regime deve continuar, em um cenário trágico de conflito, disputa política e convulsão social completa.]


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O tal nacionalismo

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Ano de Copa, e pelas particularidades da organização desse ano, temos tudo para que o mundial de 2014 seja conturbado fora de campo, com protestos e até os mais exaltados que clamam para que não haja torneio. Razões e motivações à parte, um ponto interessante que vai aparecer em qualquer discussão, de redes sociais a barzinhos, é o tal do nacionalismo. Quem defende os protestos vai argumentar que ser verdadeiramente nacionalista nesse momento é lutar pelos direitos, contra a corrupção, custe o que custar, pelo bem do Brasil. Quem argumenta do lado oposto vai dizer que, de um modo mais tradicional, ser contra a Copa vai causar estragos econômicos (mais do que já houve) e arruinar a imagem do país. E aqueles mais despreocupados vão ligar esse problema mais ao sentimento de pertença ao grupo, com nacionalismo se igualando a torcer pela seleção e voltar pro trabalho na segunda-feira.

Todos esses pontos de vista (apesar de remontar também ao patriotismo, que é uma coisa um pouco diferente) mostram um problema importante do mundo atual, que é a noção de nacionalismo e identidade. Como tal, é intersubjetivo – o que se entende como nacionalismo é um conceito construído, lá no século XIX, e hoje perde um pouco de sentido em alguns casos dependendo de como cada grupo entende o problema. É só ver a crise da Crimeia – são ucranianos no papel, na lei, mas em termos de sentimento nacional estão mais apegados ao lado da etnia russa. Com isso, os crimeanos abrem mão da nacionalidade ucraniana (é um pouco mais complicado, já que alguns podem optar por continuarem ucranianos, mas vou me dar ao luxo de generalizar um pouco essa explicação) para se tornaram russos. Se fosse realmente um conceito tão fundamental, as pessoas não trocariam tão facilmente de nacionalidade, o que demonstra brevemente que o peso dessa ideia depende muito de cada caso.

Existem até mesmo constituições nacionais que endossam esse caráter de pertencimento ao grupo, mas quem pode impedir o indivíduo de não querer ser parte disso? Um exemplo vem da notícia pitoresca das últimas semanas de que o governo britânico está promovendo uma campanha (com apoio da Scotland Yard e grupos de direitos humanos) pedindo que esposas e irmãs de possíveis ativistas islâmicos denunciem o fato para que o governo impeça que saiam do país e se juntem ao combate na guerra civil Síria. Existe uma grande fonte de ironia em tudo isso – desde o começo, países ocidentais vêm apoiando a oposição síria, e parte dela são grupos radicais, muitos ligados a extremistas islâmicos… e antiocidentais. E boa parte de seus combatentes são pessoas convertidas ou nascidas em países como a França e o Reino Unido. Por mais que tenham a nacionalidade de países europeus, a identidade religiosa fala mais alto, ao ponto de abandonarem tudo para se juntarem a uma luta de extrema letalidade e potencialmente suicida.

Resumo da ópera: pensar em nacionalismo hoje depende muito da conveniência de quem discute. Pode ser um elemento de legitimação ou garantia do status quo, bem como para a derrubada do mesmo. Pode ser uma ideia aproveitada para manipular contingentes populacionais. E pode não ter absolutamente peso ou valor nenhum. Pois o nacionalismo é apenas um aspecto da identidade, seja coletiva ou individual, e no mundo de hoje tem muito mais concorrência para determinar qual seja o valor fundamental para cada indivíduo.


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O que deu errado?

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O que deu errado na Turquia? A exemplo do BRICS, o país tem participação em seu próprio acrônimo, o MIST (junto com México, Coreia do Sul e Indonésia), como uma possível ilha de crescimento e futuro econômico. Mas ironicamente essa esperança parece se dissipar em uma névoa nos últimos dois anos, com crise econômica e um abalo político sem precedentes que transformou a imagem do primeiro ministro Recep Erdogan de um líder progressista em um tirano. Duas notícias dessa semana podem explicar um pouco dessa decadência.

Vendo de fora, há pelo menos dois fatores que explicam a importância de Ankara no cenário regional – sua relação com Israel e com a Síria. Após o ataque à flotilha de ajuda humanitária em 2010, as relações com Israel azedaram e a coisa esfriou apenas no ano passado com pedido de desculpas do premiê Netanyahu. E a Turquia é um dos principais interlocutores do processo de paz com os palestinos, então a situação não vai tão mal hoje. O problema mesmo é com a Síria – antigo aliado, mas que após o início dos conflitos com Assad se tornou inimigo com o apoio de Erdogan a grupos opositores – muitos deles extremistas. A guerra civil síria resulta em conflitos de fronteiras (com eventos como a possível derrubada de um avião sírio reportada nesta semana) e o principal fator de instabilidade, a fuga maciça de refugiados para o lado turco da fronteira. Estima-se algo em torno de 750 mil (mas pode chegar a  um milhão) de sírios no país vizinho, criando pressões internas além das que o governo já enfrentaria normalmente (como a questão curda). E isso tudo pra não falarmos do seu papel nas negociações com o Irã – apesar de o acordo costurado junto ao Brasil não ter vingado em si, ainda são países vizinhos, e um reage aos espirros do outro.

Mas aqui entra o segundo ponto – o apoio de Erdogan a grupos extremistas é sintomático da sua posição ideológica. A Turquia se orgulha de ser um Estado laico (desde os tempos do “pai fundador”, Ataturk), e Erdogan gradualmente aplicou uma agenda islâmica, que foi a raiz dos conflitos  em sua administração, somada ao atrito com o exército e denúncias de corrupção generalizada. E como todo governante que concentra poderes em um sistema corrompido, Erdogan retalia os inimigos com força. Nesta semana, se valeu de um dos grandes recursos clássicos dos líderes autoritários, literalmente, calar a voz da oposição, com a proibição de serviços como Twitter e Youtube. Censura descarada. A justificativa é para evitar “revelações” que poderiam causar guerra com a Síria (algo indesejável mas não impensável no momento), mas fica claro que é um “sacrifício” bem oportuno para a situação.

Talvez o grande ponto de crise seja o próprio Erdogan – não é um excêntrico como Kim Jong-un (que alegadamente baixou um decreto obrigando os cidadãos a usar cortes de cabelo aprovados pelo governo), mas gradualmente caminha para o caminho do autoritarismo (se já não tiver chegado lá). No mínimo desanimador, já que a vibrante democracia turca fazia com que se apostasse muito em sua liderança e estabilidade para esse cenário de crise. Com o sonho de ingressar na zona do Euro praticamente enterrado, temos um país em crise econômica acentuada e convulsionando politicamente. A esperança de mudança para esse quadro pode vir nas eleições do próximo domingo, em que vamos saber se surgirá uma nova liderança capaz de colocar o país nos trilhos ou se o impetuoso líder atual continuará aprontando.


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