Licença para matar com impunidade?

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“Licença para matar com impunidade” foi como o Conselho Nacional Sírio (representante dos grupos de oposição) caracterizou o veto de China e Rússia ontem contra a proposta do Conselho de Segurança das Nações Unidas em relação à crise Síria. A resolução se baseava no apoio ao plano de paz da Liga Árabe, indicando a necessidade de renúncia de Bashar al-Assad, atual presidente sírio.

A China e, especialmente, a Rússia possuem fortes laços geopolíticos e econômicos com o governo da Síria, e já haviam declarado publicamente a recusa contra qualquer resolução que visasse uma “mudança de regime”. O bom e velho debate entre soberania e intervenção humanitária volta à tona na análise do caso sírio… [Veja recente post no blog a este respeito aqui.]

Até que ponto conflitos com grandes perdas humanas podem ser aceitos pela comunidade internacional como “assuntos internos”, sem que qualquer intervenção seja arquitetada? Mas até que ponto os interesses de uma intervenção deste tipo são estritamente humanitários? Por que existem crises que parecem ser simplesmente esquecidas pela comunidade internacional, na medida em que não se encontram relacionadas a nenhum interesse estratégico paralelo? [O clássico caso de Ruanda em 1994 ainda é o melhor exemplo desta última afirmação.]

A situação da Síria vem se tornando cada vez mais caótica desde meados de março do ano passado, quando as manifestações contra o governo começaram, inspiradas pelo sucesso da “Primavera Árabe” no Egito e na Tunísia. Em meio aos conflitos entre os grupos armados e as forças repressivas governamentais, milhares de civis foram (ou estão sendo) mortos, e centenas de milhares indiretamente afetados.

O histórico da crise que está prestes a completar um ano impressiona não apenas por seus números e características, mas também pela visível ineficácia dos mecanismos multilaterais existentes em resolver a questão. [Entenda os aspectos básicos da crise por meio deste texto.]

Com o veto deste sábado na ONU, o assunto continua sem perspectiva de resolução prática a curto prazo e alternativas de resposta da comunidade internacional devem ser repensadas, rediscutidas, reapresentadas… uma importante questão levantada em meio às discussões desta semana no Conselho de Segurança a respeito da Síria foi a seguinte: “Quantos civis inocentes ainda vão morrer antes que este país esteja pronto para seguir em frente?”. Boa pergunta.


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O pior cego…

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… é o que não quer ver, e no caso da ONU a coisa tá feia. A situação de repressão na Síria está atingindo níveis alarmantes, com mais de 60 mortes somente nesse fim de semana. Enquanto isso, os baluartes da democracia continuam a pressionar o Irã por conta de seu programa nucelar, com sanções econômicas e aqueles divertidos jogos de guerra no mar da Arábia.

São dois os problemas aqui. O primeiro é de ordem prática. Se dá muita importância ao Irã, mas quem está endurecendo as negociações são os próprios países ocidentais. Muita gente da região, inclusive de Israel, acha uma péssima ideia que haja um ataque militar ao Irã (o que parece se encaminhar cada vez mais, e isso numa semana crítica, com visita de inspetores da AIEA…). Ao mesmo tempo, uma bomba relógio que é essa crise na Síria (que afeta, em teoria, todos os países vizinhos e pode por muito mais a perder para Israel que o caso do Irã) vira um tema secundário de notas de telejornal.

Isso leva ao segundo problema – interesses. Quando falamos em atuação do Conselho de Segurança da ONU, nesses dois casos temos uma divisão de interesses nos cinco permanentes, com EUA, Reino Unido e França de um lado do ringue contra China e Rússia. No caso do Irã até que os dois últimos cederam um pouco e o Irã está meio que sem sua blindagem no Conselho. Mas, no caso da Síria, principalmente a Rússia defende com unhas e dentes que não haja a brecha para a possibilidade de intervenção, e vai vetar qualquer resolução nesse sentido. No discurso, a defesa do não-intervencionismo é muito bonita, mas na prática o que temos é um grande comprador de armamento e recursos energéticos sendo defendido pelo seu “patrono”. Nada mais pragmático, a não ser quando vemos que, do jeito que as coisas estão ruins, suspenderam hoje mesmo a missão de observadores da Liga Árabe (entendida como um último esforço de negociação pra acabar com os massacres), e moralmente parece inaceitável essa posição da Rússia.

Não é que a ONU não se pronuncie ou se posicione contra isso. O que escandaliza é ver como um interesse específico atravanca um processo todo, e como a organização fica de mãos atadas. Não é que eu esteja defendendo a intervenção (mesmo por que isso também tem seus interesses…), mas ao mesmo tempo a inação é uma coisa incômoda. Esse dilema entre o seguir as regras do jogo deixando o sangue jorrar ou derrubar a mesa e terminar com a catástrofe humanitária foi o mote de toda a discussão da intervenção na Líbia ano passado. E é claro que se a resposta fosse fácil não estaríamos discutindo isso até agora…


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Viajando

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Ahmadinejad fez um tour pela América Latina na semana passada. E não, ele não estava de férias. Foi um “turismo” diferente, conhecido no jargão da diplomacia como “giro diplomático”. Pela quinta vez, o presidente iraniano vem ao “novo mundo” e, dessa vez, sem parada no Brasil. Visitou a Venezuela, a Nicarágua, Cuba e o Equador. Todos eles países que, no plano discursivo, colocam-se contra a política externa estadunidense.

Evidente que qualquer visita do polêmico Ahmadinejad já agrega interesse, mas, essa, em específico, destaca-se pelo contexto no qual está inserida. Contexto esse no qual a pressão internacional sobre o Irã nunca foi tão grande. O seleto condomínio das grandes potências tem ampliado consideravelmente as sanções internacionais contra o país com o intuito de impedir a ampliação de seu programa nuclear que julgam ser para fins bélicos. Os países da União Europeia adotaram mais medidas coordenadamente, os Estados Unidos unilateralmente e ainda acirrou-se a pressão para que outros países façam mais.

Enquanto isso, do outro lado, o Irã deu claros sinais que o aumento de sanções seria um tiro que sairia pela culatra (o Japão, por exemplo, já tem mostrado os limites das sanções). Ahmadinejad buscou mostrar que os grandes prejudicados com a redução de seu comércio seriam as próprias potências ocidentais quando especulou-se sobre um possível fechamento do estreito de ormuz, principal rota de transporte de petróleo mundial. A despeito de a diplomacia iraniana afirmar que o país jamais teve a intenção de impedir a rota de petróleo, é interessante notar como esse xadrez de sanções internacionais funciona em um mundo tão interligado. Basta que se concentre em apenas um objetivo que logo se pode ver cercado e em xeque.

Em um contexto de grandes pressões, além de tentar se defender delas como pode, nada mais natural do que o Irã buscar fortalecer os laços com os países que possuem uma perspectiva ideológica semelhante. E, da mesma forma, a facilidade que o Ahmadinejad tem de se aproximar da América Latina pode significar que, politicamente, o Tio Sam tem visto sua influência diminuir na região (para um artigo sobre isso, clique aqui). Já a não vinda para o Brasil dá indícios que a postura da Dilma é bem diferente da de Lula em se tratando de Irã e Ahmadinejad não se sente confortável de tratar de alguns assuntos com o governo brasileiro mais (não há tensões, anda apenas diferente…).

Como disse antes, uma viagem do presidente iraniano à América Latina sempre chama a atenção. Dado o contexto, essa muito mais. Não foi a primeira vez que ouvimos de sanções e de visitas do governo do Irã, nem será. Enquanto o Ahmadinejad e o Tio Sam tiverem com que barganhar, essa novela irá longe…


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País dividido…

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Como o Raphael comentou na postagem da semana passada, há cerca de um ano um dos temas que mais despertava atenção para discutirmos era a criação do Sudão do Sul. Dito e feito, em 2011 surgiu o mais novo Estado africano, mas com menos de um ano de existência já parece ter batido um recorde nada invejável.

Lembram da Síria? Sim, aquele país em que o ditador não liga a mínima para a presença de observadores da Liga Árabe (que já não está servindo de muita coisa faz algum tempo, mas não deixa de ser legítima), enquanto seu serviço secreto paga para gangues armadas chacinarem a população revoltada e mantém prisões subterrâneas onde sabe-se lá o quê é feito com os opositores amordaçados. Pois bem, a ONU reconhece que mais de 5 mil pessoas morreram lá por conta dos conflitos, ao longo de mais de 10 meses, desde o ano passado.

Bem, no Sudão, conseguiram chegar perto dessa marca, 3 mil mortos, e com mais de 50 mil refugiados junto, mas em apenas uma semana de conflito. Oficialmente, a extensão dos danos, assim como o número exato de mortos, não são claros, mas têm origem em tensões étnicas e conflitos tribais. É um Estado sendo posto à prova e falhando miseravelmente… Teria sido muito prematura essa mudança de governo? Ou já era algo de se esperar? Falta o apoio internacional? Sequestro de mulheres e crianças se somam a fome e miséria em um cenário de crise humanitária desesperadora. Enquanto isso, as coisas não são melhores no Sudão original – tudo indica que o país esteja rumando para mais uma guerra civil, com opositores clamando por uma derrubada pacífica e rápida do longevo Omar al-Bashir (algo bem difícil de se esperar de um ditador que tem no seu currículo o genocídio de Darfur e não vai largar o osso tão cedo após mais de 20 anos no poder…), e escaramuças periódicas com o vizinho do sul. E isso pra não entrarmos na questão de Darfur, que ainda rende muitas mortes e conflitos incessantes (o último, devido à morte de um líder rebelde).

Prestem atenção – vendo de maneira superficial, temos 3 focos diferentes de conflitos e crises humanitárias, em uma região que era um único país há pouco mais de um ano! O que tiramos disso tudo? Bem, primeiramente, vemos que o tempo passa, o tempo voa, e nada muda naquela região da África subsaariana – seja na Somália ou no Sudão, expectativa de melhora em curto prazo é praticamente zero. Fome, miséria e falta de governança, com governos corruptos e/ou incapazes somados à ignorância internacional, parecem ser algo endêmico e que gera conflito.

Enquanto isso, a criação do Sudão do Sul, em que se esperava haver a possibilidade de finalmente conter a guerra civil que existia há décadas, serviu apenas para reduzir a escala do conflito e limitar seus participantes – sem que se diminuíssem a crueza dos combates e o sofrimento humanitário. Por fim, uma ligação curiosa e irônica entre os casos da Síria e do Sudão – o chefe da criticada e, até o momento, pouco efetiva missão de observadores é um aliado de al-Bashir e procurado pelo TPI por ser um dos criadores das milícias “janjaweed”. Com essa experiência, não é de se espantar que a missão de observadores não esteja dando muitos frutos…


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Estreitando relações

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Com o fim das festas de fim de ano, voltamos a analisar o que anda acontecendo pelo mundo de um modo mais atento. Mas 2012 não traz tantas novidades em termos de protagonistas – a notícia do momento é aquela movimentação meio exagerada de navios e porta-aviões no estreito de Ormuz, em resposta à ameaça iraniana de fechar uma das principais rotas de escoamento de petróleo. Afinal, 40% do “excremento do diabo” que é produzido no mundo passa por lá, o que faz com que essa ameaça faça muito mais do que deixar os mercados importadores de cabelos em pé.

Pra variar, é o Irã que causa a comoção, jurando que consegue fechar facilmente o estreito caso haja imposição de mais sanções a seu programa nuclear. Sim, esse mesmo (que pelo jeito vai dar o que falar em 2012). A resposta tinha como endereço a Comunidade Europeia, mas quem veio ao resgate foram os EUA, mandando porta-aviões e outros navios de guerra para “exercícios de rotina” na região.

Os mais exasperados já levantam a possibilidade de guerra em médio prazo. Afinal, para os que não estão familiarizados com estudos estratégicos, o envio de navios é o sinal mais claro de projeção de poder, ainda mais com a presença de um único porta-aviões com capacidade maior que a de muitas forças aéreas do mundo. Além do mais, Israel anda meio ressabiado (mesmo que muita gente por lá considere uma tolice entrar em guerra agora), e o principal entusiasta da demonização do Irã, a Arábia Saudita, finalmente se viu diretamente ameaçada e com uma desculpa legítima pra pedir o amparo de Washington (e, no meio do processo, comprar quase 100 aviões de caça em troca de uns petrodólares).

Mas, não é pra tanto. Como dizia o Raymond Aron, os dois braços das relações exteriores de um país são suas forças armadas e sua diplomacia, e esse tipo de manobra é bem comum na política externa, ainda mais dos EUA. Basta ver como eles reagem à presença chinesa no Pacífico – se Beijing faz acordos ou aumenta sua presença militar, lá vão os EUA fazendo exercícios navais e coisas do gênero. E, no fim, todos trocam sorrisos, dizem que são exercícios de rotina e a vida continua, com um reconhecendo a presença e o poder do outro, e sem um tiro disparado. Não se surpreendam se o mesmo ocorrer nas próximas semanas – EUA manda porta-aviões, Irã testa mísseis, muita especulação… e no fim, cada um volta pro seu canto.

No caso de Ormuz, temos um Irã arredio, mas que dependia de um blefe arriscado. Agora que os EUA já responderam com sua presença marítima, é muito improvável que vá ocorrer qualquer conflito – o Irã não se arriscaria a ir às vias de fato, ainda mais nesse momento em que sua influência está se dando de um modo muito mais brando (e exitoso) em outros países da região como a Síria e o Iraque. O risco de uma manobra assim não compensaria os custos. Na verdade, nem mesmo os EUA querem (mais) uma guerra. Os únicos que estariam mais inclinados a isso seriam Israel (com algumas ressalvas) e a Arábia Saudita, que só tem a ganhar com uma invasão ao Irã. Enquanto isso, Teerã tem meios mais interessantes de mexer com o preço do petróleo, e na verdade esse grande blefe teria servido na verdade apenas para mostrar que, independentemente dos meios, o país pode retaliar a possíveis sanções, só pelo fato de se sentir à vontade para fazer essas ameaças…


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Guerra sem fim

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Nos idos de 2003, eu estava no colegial e uma das minhas ocupações de intervalo era (vai entender…) ir à biblioteca e debater com alguns colegas as notícias do jornal do dia. O tema recorrente e que mais rendeu conversas animadas foi, claro, a invasão dos EUA ao Iraque naquele ano. Era primeira vez que para nós, aquele pessoal da geração do fim dos anos 80, se via todo o poder militar dos EUA em ação efetivamente (na I Guerra do Golfo éramos muito novos), e a conclusão era unânime: os EUA iriam destroçar tudo e acabar com a guerra em questão de semanas. O tempo foi passando, vieram as baixas, o “fogo muy amigo”, a tenacidade dos iraquianos, e no fim das contas todo mundo envolvido nessa conversa já terminou a universidade e a guerra foi acabar apenas na semana passada, com a transferência da posse do último quartel dos EUA no país para forças locais, e a saída definitiva dos últimos contingentes no dia 31 de dezembro.

Traçar conseqüências desses nove anos de ocupação é algo complicado e que vai demandar muito tempo – mesmo por que os efeitos, na região e no mundo, ainda vão reverberar por muitos anos. Afinal, o que deu errado para os EUA? Passar por cima da ONU (tornando a guerra impopular em qualquer lugar que não fosse os EUA)? A demora em encontrar Saddam? Ou em encontrar as tais armas de destruição em massa (que não foram vistas até hoje)? Uma guerra ancorada em mentiras, meias verdades e ignorância não poderia ter outro resultado. Se formos pensar em termos numéricos, foi um sucesso militar, já que morreram cerca de 5 mil norte-amercianos (e algumas centenas de aliados) contra mais de 100 mil iraquianos. A proporção de 1 pra 20 não está nada mal (apesar da maioria desses 20 serem civis que não tinham nada a ver com o conflito, mas enfim…). Mas, um país deixado em ruínas, com um arremedo de democracia imposta, é uma tragédia humana (bem representada nessa charge), bem documentada e do conhecimento de todos, e o saldo principal dessa guerra. Aliás, a guerra acabou para os EUA – mas prossegue o desafio diário de conviver com a incerteza e a morte para os próprios iraquianos.

E nem entramos no tema da incursão do terrorismo no país, coisa que não existia antes e foi uma importação do conflito…

Já na região, o drama é um pouco pior para os EUA. Eles removeram um inimigo em potencial, mas conservador, e conseguiram com isso fortalecer um inimigo declarado e radical, o Irã. O problema é que, desde o começo do século, o balanço de poder na região era uma espécie de triângulo, com a rivalidade entre Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os sauditas toleravam Saddam pois era sunita e mantinha o Irã, radical e anti-monárquico, ocupado – dos males, o menor. Com a saída do seu partido Baath de cena e a ascensão de representantes xiitas, a aproximação do Iraque com o Irã é natural e deixa os sauditas de cabelos em pé. Na verdade, a movimentação na região dá a entender que os países mais interessados em um eventual ataque ao Irã (e que estão fazendo campanha de todos os modos para engatar uma ação nesse sentido) são as monarquias tradicionais do Golfo, e não Israel. Se estamos à beira de um conflito maior na região, no que pese a petulância iraniana em espezinhar a comunidade internacional com suas idas e vindas no programa nuclear, boa parte dessa instabilidade se deve às aventuras de George W. Bush no Golfo e a quebra desse balanço numa das regiões mais instáveis do mundo.

O saldo é negativo para todos, dentro e fora do Iraque – inclusive para o Obama, que tinha a retirada como promessa de campanha e só conseguiu viabilizar isso depois de mais da metade de seu mandato. Mas, vendo pelo lado positivo, pior que está não fica, e pelo menos não é um Afeganistão – intervenção que começou antes, está a todo vapor até hoje e não tem previsão de terminar.


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Imunidade

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Como acho que não passamos uma semana sem falar do Irã, hora de manter a tradição. Na semana passada, o país esteve envolvido em uma séria polêmica com relação ao Reino Unido – pra variar, por causa do programa nuclear. Basicamente, Londres bloqueou contas bancárias e transações financeiras iranianas; em resposta, turbas invadiram, saquearam e destruíram o prédio da embaixada do Reino Unido em Teerã. E isso é uma coisa muito séria – a tradição secular do Direito Internacional da inviolabilidade diplomática foi pro espaço. O governo iraniano lamentou a situação (e não poderia ser de outro modo), mas há indícios claros de que, se não incentivaram (o mais provável, diga-se de passagem), ao menos deixaram a multidão agir livremente. É interessante, inclusive, traçar um paralelo com a invasão da embaixada dos EUA em 1979, numa situação bem parecida, radicais exaltados que agiram à revelia do governo. Se há precedente…

Claro que há divisões no governo de Ahmadinejad: lideranças do governo parecem estar realmente preocupadas com a repercussão do caso, e somente elementos mais radicais apoiariam uma loucura dessas. Mas o estrago está feito: o Reino Unido chamou seus embaixadores de volta e expulsou os iranianos de seu país, enquanto outros membros da UE já estão em vias de reduzir seu pessoal no Irã, prevendo o pior. As sanções foram endurecidas na semana passada, e se o processo continuar (já se fala em embargo ao petróleo do Irã na UE) se espera que o preço do petróleo posa dobrar nos próximos meses. Isso seria ruim para todos (incluindo a Europa em crise, especialmente Grécia, que anda dependendo demais do petróleo iraniano).

Ainda assim, o prospecto de sanções parece melhor que o de ação militar – afinal, ainda deixa a margem para a negociação. E a segunda opção ainda parece em voga, por mais que ainda se diga que a ideia seja péssima. Israel espera com a faca entre os dentes, enquanto os EUA patrulham de perto (tão perto que no fim de semana o Irã anunciou ter derrubado um avião espião dos EUA).

Por mais que tenha sido chocante (no sentido de escandalizar a diplomacia do mundo todo com o rompimento da tradição da imunidade), o que vimos nessa última semana com relação ao Irã pode ser relativa e ironicamente animador. Sanções podem não ser o instrumento ideal, mas nesse caso vemos que surtem efeito. Se vão trazer o Irã para a mesa de negociações, é outra história, mas pelo menos afastam um pouco (bem pouco…) a perspectiva de uma ação armada – essa sim que seria desastrosa, principalmente para o bolso de todos…


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Trocando seis por meia dúzia

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É possível estar em dois lugares ao mesmo tempo? Fisicamente falando a resposta é não. E se alterarmos a questão. É possível estar em dois tempos simultaneamente? Avaliando os resultados dos últimos eventos no Egito, acredito que possamos esboçar uma resposta bem positiva. O país parece materializar o significado de dois tempos em um só. Se de um lado, a população, fragmentada, vive a tal da primavera árabe, o florescer da democracia que a mídia e os Estados Unidos tanto louvam, de outro, a junta militar no poder vive a ditadura dos tempos de Hosni Mubarak.

Temos visto isso nos últimos movimentos que o país tem enfrentado. Os conflitos seculares entre cristãos e islâmicos aliados aos protestos dos (mais uma vez) ocupantes da praça Tahir contra o governo da junta militar dão o tom do que o Egito de fato vive: uma transição. Se em algum momento pensou-se na Primavera Árabe como uma ruptura, pensou-se de maneira precipitada. Aqui mesmo no blog, o Álvaro já questionou a validade do conceito da Primavera Árabe em um post anterior, dizendo que ela já virou outono.

Ou, talvez, tenha sido primavera. Mas em um jardim que os brotos só virarão flores se tiverem as condições certas. E, caso não tenham, os brotos podem vir a morrer e a primavera vai passar sem mudanças significativas. Em outras palavras, enquanto não se constituir um governo estável com uma constituição, um conjunto de leis satisfatório à população, não se pode falar de um resultado, mas sim de uma fase que pode nem resultar em algo emblemático no futuro. Seria como trocar seis por meia dúzia.

Mas e agora? Qual seria o próximo passo? Bom, atualmente, aos egípicios que viveram sob 30 anos de uma ditadura, há um certo receio que o governo da junta miltiar possa estar no caminho de “ditatoriar-se”. Um pouco desse sentimento provém da lógica militar que age mais sob o senso de cumprir missões, poucas vezes aceitando “não” como resposta. O que também traz o outro problema do baixo grau de diálogo proposto na nova constituição. Uma razão adicional desse sentimento provém dessa falta de um controle da população sobre os militares, e, meus caros, é aí que mora um dos grandes problemas.

Um belo exemplo disso é o Brasil da década de 1960. Há quem diga que vivemos em 1964 uma “revolução democrática”. E, no sentido histórico, talvez não esteja completamente descabido. O golpe militar teve apoio da elite brasileira e de parte significativa da classe média que, grosso modo, temia que o país caminhasse para o comunismo. Todavia, nos anos subsequentes, observou-se emergir um governo que tornou a exceção uma regra e que todos sabem o fim da história.

Sendo assim, é importante que, embora fragmentada, a população (ou partes dela) tente trabalhar no sentido de construir um controle civil sobre os militares para não garantir que eles interfiram demais na política, pois a maior parte desses oficiais foram gestados sob os tratos no querido Mubarak e até mesmo seus candidatos são farinha do mesmo saco. Bom, se na teoria é fácil falar desse processo, já na prática…


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Quem manda no Oriente Médio?

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A festa junina já foi faz tempo, mas continuam a estourar rojões no Oriente Médio. No Irã, um depósito numa base militar explodiu e matou cerca de 30 pessoas – segundo a imprensa local, um depósito de mísseis, e descartando a hipótese de sabotagem (apesar da expectativa de ação militar iminente contra suas instalações nucleares e do histórico de eliminação de cientistas iranianos por serviços de inteligência estrangeiros). Já na Síria, continua a repressão, e se depender da Rússia não termina tão cedo: enquanto não houver sanções formais ao regime de Assad, os contratos de fornecimento de armas russas continuam. Nada mais pragmático, mesmo agora em que o país foi suspenso da Liga Árabe e as sanções parecem vir a galope.

Os dois casos estão relacionados por conta de suas implicações regionais. A Síria ser posta para escanteio é um sinal de enfraquecimento da Liga Árabe, a responsável pela negociação com Assad para cessar a repressão, e até então a principal força de coordenação política regional para os países islâmicos. Com esse insucesso, é aparente sua decadência (talvez iniciada quando Kadafi abandonou a organização procurando se mostrar muito mais africano que árabe), e a ascensão de outro grupo, que hoje está cada vez mais influente e, principalmente, com dinheiro no bolso, o Grupo de Cooperação do Golfo (ou GCC, da sigla em inglês).

Essa foi uma organização criada na época da Guerra Irã-Iraque, para resguardar as frágeis monarquias do Golfo Pérsico, que dependiam (e ainda dependem) muito dos EUA para sua segurança. Hoje, com as oscilações no preço do petróleo, a saída de cena do Iraque como potência regional e a riqueza refletida em exuberância dos pequenos emirados (Doha, Qatar, etc. – o chamado “Gulf Moment“), esse grupo, que antes não tinha quase nenhum efeito prático, está cada vez mais poderoso política e até mesmo militarmente (foram tropas do grupo que auxiliaram na repressão dos protestos no Bahrein, fato inédito para a organização). E qual seria a principal razão para o fortalecimento do GCC? Quem responder Irã ganha um doce.

O temor do programa nuclear e, acima de tudo, de uma turba xiita, que estenderia seus tentáculos sobre os países da região e ameaçariam as monarquias (adivinhem só, sunitas) faz com que sejam esses países os principais responsáveis pela campanha de “demonização” do Irã. Lembram do “Crescente Xiita“?Há até quem diga que são os países liderados pela Arábia Saudita os responsáveis por incitar EUA e Israel a fazerem seu “serviço sujo”, e os principais interessados na remoção de cena do Irã. Por mais que o Irã brade a destruição de Israel, realmente não faz sentido que haja uma dinâmica de conflito imediata entre eles – não com a questão palestina, muito mais urgente e próxima para Israel, ainda sem ser resolvida. E os EUA? São eles que querem conter o Irã? Ou estão apenas atendendo a pedidos sutis dos seus aliados do Golfo?

Ainda é cedo para dizer com certeza “quem manda” no Oriente Médio. Mesmo por que, algo assim nunca existiu que não fosse um império da Antiguidade. Temos que pensar, por exemplo, no atual papel da Turquia, que cada vez mais parece se alijar da Europa em crise e se aproximar dos países árabes para desempenhar um papel de liderança. Também seria muito simplista falar em “manipulação” de países. Mas, nesse ano de efervescência, o crescimento de uma organização conservadora (que já cogita chamar o Egito para sua órbita para evitar o fervor revolucionário pós-Mubarak) e sunita (que adoraria ver o Irã varrido do mapa) faz com que se perceba como há uma diversidade de interesses envolvidos dentro da própria região, e como suas dinâmicas podem ser complexas, surpreendentes, e acima de tudo, desconhecidas de grande parte da mídia Ocidental…


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Israel x Irã: o problema não é nuclear

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“A destruição do passado é […] um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX.” – Eric Hobsbawm, A Era dos Extremos.

A perspectiva de guerra entre Israel e Irã assombra não apenas o coração desértico do Oriente, mas todo o mundo. Os Fracassos Unidos, o Reino Cedido e a Fraca, ops, um pequeno erro de nomenclatura, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França já declararam apoio a uma eventual incursão israelense à terra dos caras barbudos, com turbantes esquisitos. Mas por que isso? Por que agora? Há coisas que não são contadas: o programa nuclear iraniano é o menor dos problemas.

A História tem sempre as suas peripécias. Antes mesmo dos vazamentos do Wikileaks, já se sabia que iranianos e árabes não se davam bem. Os iranianos não são árabes; eles são persas. Na Antiguidade, conta-se que o rei persa Ciro concedeu refúgio aos judeus, que eram perseguidos pelas tropas babilônicas, lideradas por Nabucodonosor. Então, os iranianos passaram a ser tratados de maneira pejorativa, como ajam, um povo inferior entre os povos islâmicos, alguém em que não se poderia confiar. Com tempo, os iranianos se aproximaram dos árabes, construindo um inimigo comum: Israel. Esta, por sua vez, está prestes a empreender suas armas contra quem lhe salvou um dia.

Isto, Israel esquece, mas não esquece suas pretensões absolutas sobre a cidade de Jerusalém, a antiga capital do reino da Judeia. Estranho… a Hungria não reivindica a Bratislava, atual capital da Eslováquia e antiga capital do Império Austro-Húngaro. Israel também esquece que a criação de um Estado Palestino, que poderia encerrar o entranhado conflito do Oriente Médio, razão de muitos males na região, é que o está em pauta na agenda mundial. Recordemos, ademais, um acontecimento significativo: no começo da Guerra do Yom Kippur, quando os árabes levavam imensa vantagem sobre os israelenses, quem foi que ameaçou usar armas nucleares? Se Israel morresse, levaria seus inimigos consigo para o além. Agora, o país quer desviar a atenção, dissimular, fingir… Teme o que o Irã possa se tornar, não o que é. (Vejam esta análise)


O Irã está a anos-luz de ser uma potência nuclear. Ahmadinejad não tem um dom similar ao do lendário Rei Midas: transformar tudo o que toca em bomba atômica. Os eventos que estão ocorrendo naquela região incandescente do globo, iniciados com as movimentações no Bahrein, fizeram a comunidade internacional coçar a cabeça e se perguntar: o Irã é a nova potência regional que determinará as relações no Oriente Médio? De fato, os sonhos de um grande império persa não morreram, mas o que permite de fato a projeção iraniana é o grande vácuo de poder que paira no mundo e a falta de lideranças globais.

Quem contratar os redatores dos discursos de Ahmadinejad tem chances reais de ganhar qualquer eleição. Por exemplo, notem um trecho do discurso do presidente iraniano na última Assembleia Geral da ONU: “Se alguns países europeus ainda utilizam o Holocausto, depois de seis décadas, como a desculpa para compensar ou resgatar os sionistas, não deveria ser uma obrigação os senhores de escravos ou as potências coloniais pagarem indenizações às nações afetadas?”. Com estas provocações corajosas – diga-se de passagem, acertadas –, Ahmadinejad adquire proeminência em um mundo cujo poder de mando escapa dos países que se acostumaram a ele e seus povos protestam contra as condições sociais que se agravam.

A ONU, neste ano, reelegeu o “Banana” Ki-moon como Secretário-Geral, alguém sem qualquer expressão política. No Reino Unido, o David Cameron é um poeta de boca fechada. Na França, Sarkozy anda adotando uma política de “trocar de roupas”: cada novo dia, um novo inimigo, uma nova guerra. Uma curiosidade à parte: em uma charge, que simula uma conversa entre um latino e um inglês, aquele acusa este de ter começado e perdido todas as guerras, ao que responde o inglês que conquistou a França. O latino: “e quem não chutou a França?”. Nos Estados Unidos, tem-se assistido ao surgimento de um Barack Kissinger Obama, como sugeriu Thomas Friedman, ensaiando uma política externa assertiva, mas que enfrenta desafios estruturais, a começar pela menor influência norte-americana no mundo.

Israel desvia o foco da questão Palestina. Estados Unidos, Reino Unido e França querem manter seus desígnios de grande potência e reeditar uma versão moderna do antigo acordo Sykes-Picot (1916), para controlar o Oriente Médio, ainda que o baguncem mais. O Irã se aproveita do desgaste das grandes potências e da ausência de lideranças globais para aumentar seu protagonismo nas relações internacionais. Só que os egos falam sempre mais alto, esquece-se e se reinterpreta o passado, até a perspectiva de guerra se levantar no horizonte. Tudo poderia ser um blefe, mas a política é um exercício apaixonado da razão. E se apaixonar demais pode ser perigoso.


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