Post do Leitor

Post do leitor – Andrew Zanelato

[Confiram abaixo mais um ótimo texto do leitor Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, em que ele analisa as eleições parlamentares em Israel e seu impacto nas relações do país com a Palestina, relações tão históricas quanto complexas. A Página Internacional é um espaço aberto a contribuições de seus leitores, não deixem de participar! Basta enviar um e-mail com seu texto para [email protected] que retornaremos o contato. Boa leitura!]

Por que o Hamas é o maior aliado de Netanyahu? (E vice-versa)

Israel

Na terça-feira, 17 de março, ocorreram as esperadas eleições parlamentares em Israel. O atual premiê, Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, se reelegeu e continuará no cargo que ocupa desde 2009. No entanto, foi surpreendente o resultado da União Sionista, grupo de centro-esquerda liderado pelo líder trabalhista Isaac Herzog, que chegou a liderar as pesquisas, mas terminou em segundo lugar.

Um dia antes da eleição, em uma última tentativa de ganhar mais apoio dos eleitores dos partidos de extrema-direita e religiosos (especialmente os ultra ortodoxos), Netanyahu declarou aquilo que já era evidente há anos (mesmo que depois tenha voltado atrás): que enquanto for Primeiro-Ministro não haverá Estado palestino. Para completar, ainda criticou os cidadãos árabes de Israel, que decidiram votar em massa em seus opositores, ofendendo assim 20% da população do país. Apesar de sua vitória e suas declarações terem sido lamentadas internacionalmente e internamente, inclusive de modo reservado pelo próprio governo americano, muitos judeus e apoiadores de Israel no mundo todo comemoraram, argumentando que Netanyahu é um líder forte e capaz de destruir os inimigos de Israel, como o Hamas. Na verdade, porém, não há nada melhor para o Hamas que o próprio Netanyahu.

Amos Oz, maior escritor de Israel e ativista pela paz, certa vez disse que o conflito na verdade não é entre israelenses e palestinos, mas entre radicais e moderados dos dois lados. Se analisarmos a fundo a questão, sem paixões, ideologias ou maniqueísmo, veremos que ele não poderia estar mais certo.

Primeiro, é necessário entender o que é o Hamas. Não se trata apenas de um grupo armado ou de terroristas, o Hamas é uma ideia, uma ideia de luta armada contra a ocupação israelense (ou mais que isso, pois sua carta de fundação defende a necessidade da destruição total de Israel de seu povo). A força do Hamas vem do apoio da população à sua ideia, pois ele se alimenta do ódio palestino contra Israel, e sem isso ele morre, como já quase aconteceu algumas vezes durante a década de 90. Não é possível destruir uma ideia usando força militar, pelo contrário, isso só a fortalece, especialmente neste caso, em que as ações militares contra Gaza e as mortes que causam só aumentam o ódio contra o Estado judeu e o apoio ao Hamas.

De fato, se observarmos os dados de pesquisas de opinião na Palestina, veremos que em abril de 2013, a maioria da população apoiava a resistência pacífica contra a ocupação, e o apoio ao Hamas estava bem baixo. Esse cenário ainda persistia um ano depois, em abril de 2014, pouco antes da Operação Borda Protetora, com a popularidade do Hamas muito baixa e o apoio às negociações pacíficas de Abbas com Israel muito alto. Entretanto, em agosto, um mês após a guerra e os 2.200 mortos em Gaza, o apoio ao Hamas e à luta armada estava nas alturas, mesmo que ele tenha caído um pouco em setembro, quando a poeira estava baixando. Ao mesmo tempo, enquanto Mahmoud Abbas, do Fatah, aparecia muito à frente de Ismail Haniyeh, do Hamas, nas pesquisas presidenciais anteriores à guerra, logo após Haniyeh surgiu ganhando disparado, e na última pesquisa, em janeiro desse ano, ainda aparece bem à frente de Abbas.

A outra ideia principal na Palestina é a defendida hoje pelo presidente da Autoridade Palestina, Abbas, e se trata de negociações e cooperação por um tratado de paz com Israel. As acusações feitas por Netanyahu, de não haver parceiros pela paz e de Abbas ter sabotado as negociações de Kerry são falsas (o próprio Netanyahu quem as sabotou), assim como as de que ele encoraje o terrorismo, já desmentidas inclusive pelo chefe do Shin Bet. Ações como a guerra de Gaza e as últimas declarações de Netanyahu só enfraquecem a ideia da possibilidade de negociação e de convivência pacífica, destruindo assim a popularidade de Abbas e ajudando o Hamas, que já declarou que espera que agora o Fatah desista de ideias pacifistas.

A única coisa que pode destruir uma ideia é outra ideia mais poderosa. Assim, o que poderia enfraquecer o Hamas seria um acordo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina, que melhorasse as condições de vida dos moradores da Cisjordânia e assim mostrasse de forma prática que a convivência é mais benéfica que a destruição. Isso não é algo difícil de perceber. Por que então Netanyahu faz justamente o contrário?

Porque o mesmo ocorre em Israel. As guerras, os ataques, a sensação de um inimigo sempre à espreita, a visão de que todos os palestinos são terroristas fortalecem um líder agressivo como Netanyahu, e fortalecem os radicais israelenses, nos quais ele tem se apoiado cada vez mais. O isolamento ainda maior de Israel na comunidade internacional decorrente de suas declarações é outra coisa que fortalecerá os radicais, especialmente os mais nacionalistas. Assim, os radicais israelenses e palestinos são na verdade aliados informais, fortalecendo-se mutuamente para destruir qualquer chance de convivência pacífica, e enfraquecendo mutuamente os moderados dos dois lados.

Os resultados da União Sionista são surpreendentes porque os trabalhistas, do mesmo modo que grupos pacifistas como o Shalom Aksheva, estavam praticamente mortos na política do país. Uma vitória de Herzog teria sido muito benéfica para o processo de paz, uma vez que ele foi eleito líder do Partido Trabalhista focando em esforços de paz com os palestinos (enquanto sua adversária Shelly Yachimovich se focou em assuntos econômicos), e após sua eleição, um dos primeiros atos foi um encontro com Abbas.

Não há solução para o conflito Israel x Palestina que não seja a cooperação voluntária. Ações militares e “líderes fortes e corajosos” só aprofundam o problema, pois a coragem de que se precisa agora é a de dialogar com o vizinho. Se seguir nesse caminho, Israel acabará sem nenhum aliado. Netanyahu e a extrema-direita são ainda mais prejudiciais aos israelenses que aos próprios palestinos, assim como o Hamas é mais prejudicial aos palestinos que os próprios israelenses, e no fundo, ambos são a mesma coisa…


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A arte na guerra

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Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


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Enquanto isso, no Afeganistão…

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Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


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A desumanidade nossa de cada dia

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A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


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Imagem da Semana

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As imagens da semana não poderiam deixar de envolver o Estado Islâmico e os últimos casos de execução sumária realizados pelo grupo. Após as polêmicas negociações que envolviam a “troca de liberdade” da iraquiana Sajida al Rishawi, condenada à morte na Jordânia por terrorismo, por um refém jordaniano e um japonês. Nos últimos dias, foram divulgados vídeos em que Kenji Goto, o jornalista japonês, é decapitado; e Muath al-Kasaesbeh, o piloto jordaniano, é queimado vivo.

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Em que pese o fato de que a veracidade das imagens e vídeos ainda está sendo verificada, a violência dos atos revela o nível de gravidade do tema, que afeta toda a comunidade internacional e cujas perspectivas futuras se mostram incertas e assustadoras…


E que venha 2015…

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Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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Reconhecer o problema

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O sistema internacional é como um clube. Pelo menos, quando pensamos em Estados. Para que aquela unidade política seja aceita entre os demais, não basta cumprir alguns requisitos próprios, mas ser aceito pelos “colegas”. Quando pensamos no tal Estado Islâmico, por exemplo, mesmo que consigam eventualmente assegurar um território e um governo, provavelmente jamais serão reconhecidos pela comunidade internacional por conta das atrocidades cometidas para chegar a essa situação. Por isso causa muita euforia a notícia de que parlamentos de países europeus (um dos últimos focos de resistência ao movimento) estão debatendo sobre leis para reconhecer o status de Estado para a Palestina – a Suécia mesmo já passou por cima disso e se tornou o primeiro Estado do continente a fazer isso há algum tempo. O caso mais recente foi uma votação simbólica no parlamento da França, mas algo parecido já ocorre na Inglaterra e Espanha.

O que isso tudo significa? Por mais que a aceitação internacional crescente signifique uma pressão enorme pela resolução pacífica, não representa necessariamente uma possibilidade de fim das hostilidades com Israel. O problema reside em dois pontos. Primeiro, a tendência é de endurecimento em Israel, com a consolidação de radicais e a possibilidade de uma legislação que tornaria o estado ligado à religião. Segundo, o reconhecimento do Estado Palestino como tal reduz a possibilidade de funcionar uma solução que é possivelmente uma das mais vantajosas, a de um Estado único.

Quanto ao primeiro ponto, o premiê Netanyahu demitiu nesta semana membros moderados do governo e dissolveu a coligação, fazendo com que fosse necessária uma eleição em 2015. A tendência é que se mantenha no poder, com uma frente de partidos nacionalistas e religiosos. O grande temor é a aprovação de uma lei que define o país como uma pátria de judeus, o que implicitamente criaria uma diferenciação entre cidadãos – e marginalizando, por exemplo, os de origem árabe. Esse tipo de política radical reflete o fortalecimento do movimento conservador no país, e é um claro empecilho às negociações de paz. Mais que isolar o país politicamente, essa medida pode ser usada como munição para países árabes levarem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim das ocupações israelenses – que causará dano político de maneira inegável, sendo vetado ou não. Ao mesmo tempo, Israel está fortalecido no cenário regional, e o impacto destas políticas é uma incógnita.

Já no segundo ponto, se não impeditivo, o reconhecimento do Estado Palestino atrapalha um dos planos mais sensatos que une intelectuais de ambos os lados do conflito, que seria a solução de um Estado com as fronteiras pré-1967 e um governo conjunto. Basicamente, reconhecer a Palestina como Estado independente significa que a comunidade internacional nas entrelinhas não vê a solução de um Estado unificado como viável, ao mesmo tempo em que se configura como uma solução que contempla a maior parte dos interesses envolvidos, com o controle de territórios em disputa e a livre circulação de cidadãos.

Como sempre, apesar do clichê, o destino da crise entre palestinos e israelenses fica ao sabor de desenvolvimentos futuros, mas como o quadro se configura hoje, uma solução ainda é impensável.


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Levando na conversa

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Com toda a crise do ISIS e a formação da coalizão dos EUA e amigos no Oriente Médio, um assunto que tem passado ao largo do noticiário internacional é a crise do programa nucelar iraniano. Para quem não lembra, é a grande crise geopolítica da região, mais ainda que a questão palestino-israelense, e envolve o delicado balanço de poder da região. Até a eclosão das revoltas da Primavera Árabe, era o grande tema da política norte-americana na região, e não deixa de ser – mas enfrenta complicações justamente por causa dos efeitos das revoltas, e a aproximação da data-limite para sair um acordo.

Como está a situação atual? O Iraque (antigo inimigo do Irã) tem agora um governo pró-Teerã, e enfrenta problemas com o ISIS juntamente dos curdos e com apoio dos EUA. A Síria está dividida em três, com o governo Assad (amigo do Irã), o ISIS (inimigo de todo mundo) e as forças de oposição espalhadas (que deveriam ter apoio ocidental mas estão à míngua). O Irã tem uma aproximação tímida com os EUA após a eleição de Hassan Rohani, mas ainda é tecnicamente um inimigo pelo apoio a Assad, oposição a Israel, entre outros.

Como o acordo do programa nucelar afeta isso? A negociação, envolvendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha, busca frear o programa nucelar iraniano oferecendo a contrapartida de retirar algumas das sanções aplicadas ao país por conta do mesmo. Seria a chance perfeita de barganhar um auxílio contra o ISIS – como diz a máxima realista, o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo. O problema é que existe muita desconfiança, especialmente nos EUA (onde até tem quem deseje que a coisa azede). O lobby israelense é forte e qualquer aproximação de Teerã seria malvista. Talvez a coisa funcione indiretamente – por meio, por exemplo, da Turquia, que está cada vez mais ativa na questão do ISIS e poderia fazer essa “intermediação” entre os lados. Trazendo o Irã, indiretamente a Síria estaria envolvida nessa coordenação. Um front unido contra o ISIS é irreal, mas a coordenação é possível, e um dos indicativos (ou, mais ainda, fundamentos) para isso seria a confiança resultante de um eventual sucesso nas negociações do programa nuclear.

De fato, o que temos é uma discussão cercada de mistério e, apesar das possibilidades, com um indicador de fracasso rondando as negociações. Caso isso aconteça, além da possibilidade de mais sanções serem aplicadas, perder-se-ia uma chance de ouro de formar uma aliança eficaz para os envolvidos enfrentarem uma das maiores complicações geopolíticas da história recente.

 


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As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


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Há… uma semana!?

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Aqui no blog temos a seção “há um ano” em que postamos análises das consequências dos fatos que, bom, aconteceram há um ano. Mas nessa semana agitada, já se faz necessário rever as postagens de poucos dias atrás por que durante esse período em que a Terra deu pouco mais de 7 voltas no próprio eixo muita coisa aconteceu.

Sobre a epidemia de Ebola na África, começa hoje a quarentena nacional em Serra Leoa. Cerca de 6 milhões de pessoas estarão impedidas de saírem de casa, não para evitar o alastramento da doença – mas para que seja mais fácil identificar os infectados. A situação exige essas medidas drásticas, mas faltam condições e pessoal. Sem auxílio, a estimativa é que, sem os casos contabilizados e com a possibilidade de alastramento e mutações do vírus, até 2015 a epidemia a casa dos milhões de infectados.

Enquanto isso, um pouco ao norte, a coisa esquenta no Iraque com os primeiros ataques de países ocidentais a bases do ISIS/Estado Islâmico, efetuados pela França. A expectativa é que se mantenham os ataques aéreos, mas ao longo da semana o comandante das Forças Armadas dos EUA cogitou a possibilidade de enviar tropas em solo caso seja necessário. Obama já refutou essa possibilidade, pois com as implicações dessa empreitada passando até pela crise ucraniana (já que o apoio da Rússia nas operações será essencial e isso deve afetar negociações que vão de Damasco a Kiev) a última coisa que quereria é mais uma impopular incursão armada para causar a morte de americanos.

Por fim, ontem aconteceu o tal referendo na Escócia acerca da independência do Reino Unido. E para a felicidade dos professores de Geografia, a terra da rainha continuará a ter seu fundo azul com a cruz diagonal branca, pois resultados preliminares apontam a vitória do “não”, permanecendo o vínculo histórico. Análises sobre a razão disso passam por muitos fatores, o principal deles o risco econômico que a opção pela separação apresentava e o fato que o “sim” havia sido superestimado. Bom para David Cameron, que não entra pra história como o Primeiro-ministro que destruiu o Reino Unido, mas tem problemas pela frente por ter sido um dos responsáveis por esse plebiscito em primeiro lugar, e agora para agraciar o parlamento escocês, que vai receber alguns poderes (e mais dinheiro) como parte de um acordo proposto como medida preventiva da separação.

Não é possível nem escrever o “postando e relembrando” por ser algo tão recente, mas imagino como será o “há um ano” de setembro de 2015 se os eventos dessa semana repercutirem como o esperado…


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