O nó congolês

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O leitor que percorreu o noticiário ontem certamente se deparou com a notícia do brasileiro convidado, pela ONU, para exercer o posto de Force Commander da maior missão de paz da organização, a MONUSCO. Trata-se do general Santos Cruz, cujo histórico fala por si mesmo. E como anda a República Democrática do Congo (RDC), futuro destino do chefe militar brasileiro? 

O país é um caos completo faz tempo. Desde os idos de 1994, quando a massa de refugiados de Ruanda importou o conflito hutus x tutsis pro antigo Zaire, a guerra escalou, trouxe junto quase toda a vizinhança, incluindo Angola, Uganda e Zimbábue, e resultou na invasão que derrubou o presidente Mobuto, em 1997, criando a RDC. Claro que o conflito (dentro e fora) não acabou e em 1999 a ONU mandou sua missão de paz original (MONUC) para garantir o cessar-fogo e checar o desarmamento dos dois lados do conflito. Em 2010 a missão mudou de nome, virando a atual MONUSCO, com a função de agregar “estabilização” a suas funções. 

O pulo do gato acontece esse ano, com a resolução 2098, que cria uma inédita brigada de intervenção, com a finalidade de agir em defesa dos cidadãos e autorizada a neutralizar de modo ativo grupos armados. Serão 3 batalhões de infantaria, um de artilharia e um de operações especiais e reconhecimento, composto na maioria por soldados de países africanos. Desse modo, a missão de paz do Congo vai se tornar a maior da ONU, ultrapassando a do Sudão, assim que os 3.000 homens da brigada de intervenção forem para lá. Também continuará sendo a 2ª mais custosa, perdendo apenas para o Sudão. Seja pela presença da ONU cada vez mais “sofisticada”, seja pela gradual influência dos vizinhos no conflito (e haja vizinhos), vê-se que a situação no Congo é desesperadora. 

A própria criação dessa brigada contrasta com o mandato da missão original. Em 2010, a ideia era garantir segurança de pessoal e dos direitos da população. Hoje, a ONU parece reconhecer que a coisa está fugindo do controle (só agora?) e o caso do Congo está complicado o suficiente para exigir uma inédita ação pela força. Qual o problema aqui – o modelo de missão anterior que não funcionou, a situação do país que não colabora, interesses mais obscuros ou uma mistura de tudo isso? 

Aproveitando o comentário feito sobre a postagem de ontem, a pergunta inevitável é: até que ponto a RDC é soberana? Marcado por um duopólio irregular do emprego da força, divido entre facções rebeldes – com destaque para o M23 – e as Forças Armadas que não cumprem, de cara, o requisito mínimo para se tratado como Estado. Há um anacronismo: os soldados cometem as mesmas violações de direitos humanos, notadamente o estupro, que os rebeldes. Assim, como é possível acreditar no governo congolês? Como se sentir seguro e acreditar que o Estado zela pelos direitos de seus cidadãos? 

Não podemos deixar de considerar a influência de fora, especialmente de Ruanda, que financia o M23. O problema nunca vai ser resolvido se deixarem de lidar com essa interferência externa. Mas analistas de relações internacionais não perderiam seu tempo e, apressadamente, lançariam seus conceitos: o Congo é um “estado falido”, deve-se adotar a “reconstrução do estado” (nation building). Tomadores de decisão de todo o mundo, no conforto de seus escritórios, evocariam a tal da “responsabilidade de proteger”. Tudo isso constitui uma assemblagem acadêmico-conceitual para conferir eufemismos a algo simples, já dito por Krasner: a soberania, em essência, se tornou uma hipocrisia organizada. Desde a era vestfaliana, acentuando-se no século XX, a soberania foi violada, seja pela força, seja pela diplomacia, mas, ainda assim, prevalece como um princípio constitutivo das relações internacionais, ajustando-se a cada caso. Talvez o Congo seja o caso mais extremo dessa realidade, com um Estado à mercê de interesses diretos e indiretos de fora e resultando em um conflito permanente. 

Um país dilacerado pela guerra há quase 20 anos, que sofre com interferência estrangeira (do comércio de mercado de minerais preciosos à presença física de tropas), conflitos étnicos compartilhados com quase todos os vizinhos, onde o estupro é uma vergonhosa realidade cotidiana – empregado como uma arma de guerra e de opressão – e no qual a ONU finalmente parece tomar uma atitude mais dura, que pode representar tanto um novo paradigma de atuação quanto a possível falência do sistema. Esse é o novo desafio do general Santos Cruz, e uma nova, e talvez definitiva, esperança para aquela nação sofrida.


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Regulamentando…

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O comércio mundial de armas não é assunto novo. Trata-se de um negócio que movimenta 70 bilhões de dólares por ano, envolve interesses geopolíticos e estratégicos internacionais e tem como consequência um número elevado de vítimas inocentes.

Pela primeira vez, e após muitas tentativas, foi finalmente aprovado na Assembleia Geral da ONU um tratado sobre o tema. Ontem foi um dia histórico para as negociações multilaterais, em que – após o fracasso na busca do consenso semana passada – o tratado passou com 154 votos a favor, 3 contra (dos polêmicos Irã, Síria e Coreia do Norte) e 23 abstenções.

Em termos gerais, não se trata de regulamentar o uso doméstico de armas, mas de atrelar a exportação de armamentos ao necessário respeito aos direitos humanos. Se os Estados o ratificarem, estarão assumindo a responsabilidade de não exportarem armas convencionais se tais armas porventura violarem embargos ou promoverem atos de genocídio, crimes contra a humanidade ou crimes de guerra. Além disso, o tratado também contempla a proibição de exportação de armas convencionais que possam vir a ser usadas em ataques contra civis ou escolas e hospitais, por exemplo.

Apesar de não controlar a questão das armas no plano interno, o tratado exorta o estabelecimento de regulamentações nacionais de controle da transferência de armas convencionais, partes e componentes, além de recomendar que a negociação de armas seja também regulamentada. O tratado deverá começar a ser ratificado em junho, com a expectativa de entrada em vigor ainda antes do final do ano.

Muito ainda precisa ser feito neste âmbito no plano interno* e o assunto com certeza ainda está começando a alcançar a atenção desejada no plano internacional. A dificuldade em alcançar consenso é diretamente proporcional aos intere$$es envolvidos, tornando o debate polarizado no cenário internacional como um todo.

A força de um texto aprovado pela Assembleia Geral está certamente ainda longe de promover um nível de regulação rigoroso aos Estados, mas a conquista no plano multilateral** a partir deste tratado é inegável. Ao trazer o tema à tona na agenda, a política de respeito aos direitos humanos é fortalecida e o questionamento – com maior legitimidade e força internacional – sobre o comércio de armas em situações de violações visíveis de direitos humanos por parte de organizações da sociedade civil é possibilitado.

 

*Apenas para se ter uma ideia da situação no que se refere às vítimas: 2000 pessoas são mortas por armas de fogo a cada dia no mundo. No Brasil, O número de mortes por armas de fogo aumentou 346,5% de 1980 a 2010, segundo informações de estudo divulgado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Entre 2004 e 2007, os 12 maiores conflitos do mundo causaram a morte de 167.574 pessoas. No mesmo período, 192.804 (!) mortes por armas de fogo foram registradas no Brasil.

**Vale a pena a refletir sobre a consideração de Mauricio Santoro, Analista da Anistia Internacional, de que “hoje é mais fácil exportar uma arma real do que uma de brinquedo, por que a exportação de um brinquedo é regida por diversas leis comerciais, o que não ocorre com a venda de armas convencionais”… 


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A verdade dos números

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A matemática é uma das ciências mais sensacionais que a humanidade conseguiu criar. Dar formas abstratas a fenômenos observados, e ser capaz de prever os resultados, além de poder aplicar essa técnica a quase tudo que existe, das moléculas fundamentais ao movimento do universo. Então, por que não aplicar esse tipo de conhecimento às ciências “humanas”? Isso é a base do segundo debate das relações internacionais, mas essa discussão fica pra outro dia. Hoje falamos da divulgação dos dados do IDH de 2011, e por que é difícil misturar política com números. 

Recordando, o IDH é um indicador de desenvolvimento que mostra, grosso modo, a qualidade de vida da população de cada país. Pois bem, o foco acaba sendo sempre o Brasil, e pipocam análises sobre os dados aqui e acolá. O relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que estamos na 85ª posição, atrás de países como a Grécia (mesmo mal das pernas na economia) e o México (praticamente em guerra civil com traficantes). Na verdade, vamos mal em comparação à própria América Latina. Mas também estamos á frente de Índia e China, por exemplo, e na “competição” particular dos BRICS perdemos apenas da Rússia nesse ranking. 

Muito legal, mas… e daí? O valor disso vem das comparações. Os demais BRICS, por exemplo, tiveram crescimento maior no IDH, percentualmente. Por outro lado, o Brasil tem uma média de crescimento histórico impressionante, apesar do desempenho fraco nos últimos anos. O que isso significa? A ideia é ver os indicadores, verificar quais políticas estão dando certo ou errado e consertar o que for preciso. Mas aqui temos outra dificuldade, que é o valor político que esse número toma. 

O Brasil, por exemplo, está chiando que os resultados seriam melhores se os números utilizados fossem mais recentes. Mesmo que fossem esses dados mais novos, com mais gente na escola (um dos fatores principais para a determinação do índice)… faria alguma diferença na prática? Afinal, não adianta termos porcentagens grandes de alunos matriculados quando uma enorme parcela deles são alfabetos funcionais, a porcentagem que chega ao ensino superior (mesmo com os programas governamentais) é pequena e em comparação a estudantes de outros países levamos uma sova nas provas comparativas de ciências. Só um exemplo, mas poderíamos entrar na questão das estratégias mirabolantes de manipulação das faixas de renda, e por aí vai. E isso pra não falar de outros índices, como o coeficiente de Gini, de concentração de renda, que nos faz passar vergonha. 

O que fica de tudo isso? Primeiro, mexer com números pode ser uma dor de cabeça para astrônomos e engenheiros, mas muito mais para estatísticos, economistas e gestores, que lidam com o improvável e incerto. Por mais que isolem as variáveis, vai haver desvios e críticas aos modelos (como o próprio IDH sofre). Segundo, a apropriação desses dados, e sua distorção, pode ter efeitos muitos ruins – com políticas que rendem números bonitos, mas pouco efeito prático. A ideia é ajudar a erradicar a pobreza, mas sem bom-senso na interpretação e aplicação desses dados, eles se tornam apenas o que são, números.


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Sai ou não sai?

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E o Primeiro-Ministro inglês lança mais uma polêmica sobre uma fragilizada União Europeia… em declaração proferida no dia de hoje, David Cameron apresentou uma sutil (?) ameaça relativa à saída do Reino Unido do bloco caso este não seja reformado e as relações com seu país renegociadas.

Com o anúncio da possibilidade de um futuro referendo para consulta popular sobre a manutenção do país no bloco europeu (com data indefinida, mas possivelmente entre 2015 e 2017), Cameron traz à tona o risco da saída inglesa da lista dos 27 Estados-parte da União. Segundo alguns, na verdade Cameron já está em ritmo de campanha para sua continuação no mandato de 2015 até 2019, visto que, segundo pesquisas, aproximadamente 40% da população preferiria o Reino Unido fora da UE.

A questão é saber se o Reino Unido precisa da União Europeia tanto quanto esta precisa do país. A representatividade inglesa – dado seu peso militar, político e econômico no cenário internacional – é inegável, mas até que ponto esta liderança seria mantida fora do grupo europeu?

Tudo bem que o Reino Unido já não faz parte do Espaço Schengen, mantendo sua própria moeda e uma certa independência da (atualmente não tão estável) “euro-zona”. Entretanto, em uma época em que o multilateralismo se mostra cada vez mais importante para a melhor consecução dos objetivos individuais, bem como para o fortalecimento do próprio sistema internacional, uma ameaça deste nível parece ser muito mais retórica que efetivamente prática, provocando polêmica para que a sua própria participação seja mais valorizada (e não o contrário).

Muitos interesses estão em jogo nesta questão, inclusive do próprio Cameron, então em meio à incerteza lançada hoje a única certeza talvez seja que as relações internacionais são (re)construídas constantemente com base em laços de confiança e jogos de poder, nas mais diferentes esferas… 


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Revisando…

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Revisar as práticas de Direitos Humanos por parte dos países é uma proposta ousada e bastante abrangente nos dias de hoje. Com este amplo objetivo na esfera multilateral, foi criada há cinco anos a Revisão Periódica Universal (RPU) por parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

A ideia é exatamente promover uma revisão periódica (a cada quatro anos e meio) de todos os Estados-membros da organização com a contribuição da sociedade civil e um diálogo interativo por parte dos demais países a respeito de recomendações, críticas ou reconhecimento de boas práticas. [Para entender melhor a estrutura e as fases distintas da RPU, leia aqui e aqui.]

Trata-se de um processo longo e complexo, dividido em diversas etapas. Essa semana se iniciará mais uma rodada de revisões – um dos “ciclos” desse processo durante o qual uma lista de países serão avaliados pelos demais com base em relatórios preparados anteriormente pelo próprio país, pela ONU e por determinados stakeholders (ONGs). Durante o ciclo de duas semanas de reuniões que se aproximam, países como França, Israel e o atualmente comentado Mali estarão no centro do debate. [Para ver o histórico de revisões e quais serão os países avaliados nesta sessão, clique aqui.]

O Brasil foi avaliado em 2008 e novamente no ano passado, tendo recebido uma série de recomendações especialmente em relação às condições do sistema penitenciário, exploração sexual infantil, e o desenvolvimento em geral da situação dos direitos humanos no território nacional.

O caráter participativo da RPU pretende reforçar o papel do Conselho de Direitos Humanos da ONU no aperfeiçoamento das práticas internacionais de respeito à dignidade humana. Os desafios ainda são grandes em cada um dos países (em alguns certamente maiores que em outros…) e o caráter recomendatório de todo esse processo pode significar uma dificuldade aos mais críticos, mas o espírito de construção coletiva na defesa dos direitos humanos não deixa de estar em pauta. A ver durante os próximos dias quais serão as recomendações e comentários em relação aos países avaliados, revisando suas práticas…


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Realidade cruel

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Tráfico de pessoas. Em pleno século XXI, uma cruel realidade que recebe muito menos atenção do que deveria, se considerado o nível de sua gravidade. O relatório sobre o tema divulgado ontem pelo Organismo das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) referente ao período de 2007 a 2010 traz informações alarmantes: apenas em 2010, uma quantidade aproximada de 12 milhões de pessoas foram vítimas de trabalho forçado, exploração sexual e outras formas de tráfico humano. Segundo o relatório, 27% das vítimas durante este período foram crianças e 55% mulheres. [Confira aqui a íntegra do relatório “Global Report on Trafficking in Persons 2012”.]

A perversa ideia de indivíduos como produtos, tal como sugere a imagem no início do post, ainda faz parte da realidade internacional, apesar de ser um assunto constantemente negligenciado pela sociedade, como se tivesse se encerrado há séculos com a proibição do comércio negreiro. Fato é que a compra e venda de indivíduos ainda ocorre com intensidade elevada nos dias de hoje, especialmente em meio aos mais vulneráveis (mulheres e crianças).

Perceber, a partir dos resultados publicados neste relatório, que a incidência do tráfico para trabalho forçado duplicou em relação aos últimos quatro anos analisados demonstra uma incapacidade internacional de combater esse fenômeno que se intensifica com o passar do tempo, ao invés de ser eliminado.

Segundo as informações oficiais, a quantidade de crianças traficadas varia consideravelmente em cada região do mundo, passando de 16% na Europa e Ásia Central para 27% nas Américas; 39% no Sul e Leste Asiático; e elevados 68% no Oriente Médio e na África. Com uma amplitude de 132 países, a impunidade ainda é, contudo, um traço comum, ressaltando-se as grandes dificuldades de investigação e condenação por este crime.

Em termos realistas, o fator econômico ainda explica o motivo de permanência desta situação: segundo a Organização Mundial do Trabalho, cerca de 32 bilhões de dólares (!) são movimentados anualmente devido ao contrabando humano – valor que é superado apenas pelo tráfico de drogas.

Compreender o contexto atual de tráfico humano faz parte do processo de conscientização sobre a gravidade do problema. Contudo, esperar uma “resposta enérgica” das autoridades, como sugere o diretor do UNODC, para o combate efetivo deste tipo de crime parece ser um desafio muito mais difícil do que se possa imaginar…

 


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O sonho do Estado próprio

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Conquistar por seus próprios meios um espaço físico individual, reconhecido socialmente pelos demais, é um sonho que quase todas as pessoas esperam poder realizar durante a vida. Já no plano internacional, o sonho do “Estado próprio” é perseguido pela Palestina há décadas. Um capítulo importante dessa saga foi escrito ontem, com o reconhecimento histórico da Palestina como “Estado observador não membro” da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ainda que a importância deste acontecimento seja muito mais simbólica que prática (entenda melhor aqui), trata-se de uma vitória política sem precedentes – e a partir da qual frutos futuros podem ser esperados no que se refere à resolução do complexo jogo de interesses partilhados/disputados por Palestina e Israel no Oriente Médio. Com uma nova onda de hostilidades que se iniciou há poucas semanas e vem chamando diariamente a atenção internacional à questão devido ao grande número de vítimas inocentes (principalmente palestinas), o assunto não poderia ser mais urgente.

Desta forma, a Palestina deixa de ser representada na ONU apenas pela entidade Organização para Libertação da Palestina (OLP) e alcança, pelo menos no âmbito desta organização, o almejado status de “Estado”. Ainda que apenas observador e sem direito a voto, sua responsabilidade aumenta, bem como a possibilidade de seu envolvimento com as agências internacionais da ONU. Sem dúvidas trata-se de uma vitória política para Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

Com a oposição dos Estados Unidos, sempre aliados de Israel (…), e apenas outros 8 países, esta elevação de status na ONU foi festejada no Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, exatamente 29 de novembro. Em retaliação a esta conquista palestina, contudo, Israel anunciou imediatamente a construção de mais 3.000 moradias para judeus nas disputadas zonas de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia… considerados ilegais pela ONU e condenados pela comunidade internacional, estes assentamentos constituem um claro obstáculo à busca pela paz na região, demonstrando a dificuldade de um diálogo aberto com o lado israelense. 

Na longa busca deste sonho palestino por um Estado próprio, muitas vidas inocentes já foram sacrificadas (tanto na Palestina quanto em Israel). A cada dia se faz (mais) necessário nutrir a esperança de que a delimitação de fronteiras na região e uma solução pacífica ao embate são, além de desejadas, realmente possíveis. E a conquista histórica deste espaço ampliado da Palestina na ONU, mesmo que como “observador não membro”, demonstra um pequeno grande passo nesta direção… 


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O jogo dos blocos

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Não, o título do post não se faz alusão aos coloridos blocos de Tetris que marcaram certamente a infância de muitos que estão lendo este post. Os blocos a que me refiro são na verdade os grupos multilaterais criados por Estados com objetivos comuns que, assim como em um jogo de Tetris, procuram se complementar entre si em busca de vantagens comuns, formando o complexo quebra-cabeça das relações internacionais.

Encontros multilaterais são sempre alvo de textos no blog (o mais recente refere-se à recém-realizada Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo, leia aqui) e o fato é que a coordenação entre países com interesses comuns (políticos, econômicos, etc.) tende apenas a melhorar suas condições de competição em relação ao contexto internacional como um todo. E os países asiáticos entendem muito bem essa lógica.

Na reunião da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) que acontece essa semana, uma proposta parece ganhar forças: a criação do que seria o maior bloco econômico mundial (!), com a bagatela de 3,5 bilhões de consumidores. O possível novo bloco deverá se chamar Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), incluindo os 10 países já membros da ASEAN, além do Japão, da Coréia do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia, e dos gigantes Índia e China. Hoje esse grupo de países responde por um terço do comércio e da produção econômica do mundo inteiro.

Muitas discussões ainda deverão ser realizadas para que este bloco comercial se concretize efetivamente como tal, mas a perspectiva é de que isto ocorra já em 2015. Superar diferenças entre os países-membros em prol da criação de um bloco de tamanha importância parece ser uma estratégia comum neste grande jogo de interesses internacionais. O “encaixe perfeito entre as peças” é o objetivo sempre almejado, mas esta “perfeição” certamente não pode ser vista na realidade assim como no jogo. Com interesses e conjunturas específicas a cada momento histórico, as negociações multilaterais sempre reservam grandes incertezas e instigam o debate constante.

A propósito, estas negociações da RCEP acontecem ao mesmo tempo em que um diálogo para a criação do Acordo da Associação Transpacífico (TPP), outro projeto de área de livre comércio, mas desta vez entre os Estados Unidos e outros dez países (dentre os quais não se encontra o gigante chinês). Coincidência?

Cada qual em sua área de influência, o que se percebe é que os países avaliam constantemente a possibilidade de se aliar uns aos outros em busca de vantagens competitivas: esta é a tônica do jogo. 


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Mais Brasil na Espanha…

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E começou mais uma Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo. A vigésima segunda da história, realizada em um momento internacional muito diferente de duas décadas atrás. Enquanto em 1991 se reuniam pela primeira vez os países ibero-americanos (América Latina + Espanha e Portugal) em um contexto de crescimento econômico europeu e endividamento latino, neste ano de 2012 os papéis se encontram consideravelmente invertidos. [Veja um breve histórico a respeito das cúpulas precedentes aqui.] 

A tônica do início deste encontro é clara: a América Latina é vista como uma “saída” para a crise que vivem Espanha e Portugal. As antigas metrópoles percebem atualmente nos emergentes países da América Latina, especialmente no Brasil, oportunidades de negócios que dependem de negociações bilaterais em que as ex-colônias estão em nítida vantagem comparativa. 

“Mais Brasil na Espanha… e mais Espanha no Brasil” é o que deseja Mariano Rajoy, o presidente do governo espanhol. De fato, nossa presidenta é a grande estrela da Cúpula que acontece entre hoje e amanhã em Cádiz, e uma agenda paralela de negociações diretas com a Espanha está também prevista. Sendo a Espanha o segundo maior investidor externo do Brasil, a expectativa de uma intensificação nas relações econômicas entre ambos é certamente uma prioridade espanhola pelo menos até 2016, com os grandes eventos esportivos. 

Mesmo com uma participação expressiva dos países ibero-americanos, as perspectivas de resultados multilaterais realmente significativos não são tão elevadas, com maior peso tácito para o diálogo bilateral. A importância deste encontro internacional parece residir, sobretudo, no fortalecimento dos laços entre países que partilham há séculos uma história comum, mas que têm vivido na contemporaneidade grandes altos e baixos econômicos os quais causam grande vulnerabilidade social – hoje notadamente na Espanha e em Portugal.

Visualizar um cenário internacional assim tão diferente do que jamais se poderia antes imaginar nos leva a refletir sobre como serão as coisas daqui a duas décadas, por exemplo. Previsões (das mais diversas) não faltam, mas tampouco são capazes de esgotar o assunto. A única certeza é que, hoje, na intensificação deste intercâmbio – com mais Brasil na Espanha e vice-versa, por exemplo – nós (como América Latina em geral) estamos em uma posição de barganha mais avantajada que nunca.


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Renovando?

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“O poder político nasce do cano da espingarda”. Proferida por Mao Tsé-Tung em outros tempos, essa frase não deixa de ser carregada de uma verdade que, em termos realistas, talvez nunca deixará completamente de existir. Contudo, o poder político deste século parece ser cada vez mais reforçado pela voz, pelo espaço multilateral e pelo diálogo, elementos que caracterizam o chamado soft power – constante e essencial às relações internacionais.

Neste contexto, as Nações Unidas – mesmo com todas as suas imperfeições e necessidades de reforma – ainda representa o espaço multilateral de maior relevância no mundo. E dentro dessa estrutura – ainda que arcaica em vários aspectos – o Conselho de Segurança (CS) ainda é o “coração” da ONU, a partir do qual todas as decisões mais importantes devem passar pela aprovação das cinco potências permanentes. [Mais sobre a estrutura do CS aqui.]

Além destes cinco membros permanentes que guardam a exclusividade do veto, a dez outros países é concedida a possibilidade de tornarem-se membros não-permanentes, com mandatos rotativos de dois anos de duração. Apesar de não terem o direito a veto, a voz e o voto são garantidos, exercendo um poder de influência considerável em relação às principais questões internacionais. Ontem foram eleitos cinco novos membros para este mandato rotativo durante os próximos dois anos (2013-14): Argentina, Austrália, Coreia do Sul, Luxemburgo e Ruanda foram os países escolhidos, de acordo com os candidatos de seus respectivos continentes.

Dentre esses cinco países, a escolha de Ruanda (apenas pela segunda vez na história) foi a mais polêmica, dada a situação delicada da região e o suposto apoio do país aos rebeldes no leste da República Democrática do Congo. A situação atual já dura meses e o papel ruandês na manutenção desta situação foi recentemente criticado pela própria ONU. Esforço diplomático ou incoerência? Talvez um misto das duas coisas…

Por mais que a estrutura onusiana enfrente críticas, uma verdadeira possibilidade de reforma ainda está longe de ser vislumbrada. Enquanto isso, participar ativamente (das instâncias que são acessíveis!) demonstra um fortalecimento do prestígio e da capacidade de articulação política dos países – elementos de um tipo de poder que, a cada dia mais, pode desafiar a lógica baseada no “cano da espingarda” em nossa sociedade internacional. 


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